SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 19 de junho de 2018

DE SOLIDÕES E PORTAS FECHADAS



*Rangel Alves da Costa


Gosto de caminhar pelos sertões, gosto de percorrer as veredas e estradas dos sertões. À frente à estrada, de chão, piçarrenta ou asfaltada, mas pelos lados, curvas e escondidos, os mistérios e encantamentos que tanto desafios nos trazem à imaginação. Tudo como se o mundo sertão, mesmo tão conhecido, esteja sempre provocando indagações sobre o seu modo de ser e de existir.
Pelos seus caminhos não é difícil avistar casinholas, casebres de barro e cipó e mesmo residências mais portentosas, mas sempre com aquele aspecto sertanejo tão peculiar às suas vastidões ressequidas: casas que sempre parecem tristes, solitárias, fechadas pelas ausências, esquecidas num mundo de esquecimentos e desolações. Nem sempre assim, mas geralmente encontros que mais parecem em meio ao deserto e ao abandonado.
Verdade que os sertanejos costumam manter suas portas fechadas em todos os instantes do dia. Somente ao entardecer, quando uma cadeira é colocada diante da porta ou quando o dono da casa se assenta num tamborete para ouvir seu radinho de pilha é que surgem sinais de vida, de presença daqueles moradores. Ao invés da porta da frente, é a porta dos fundos, que dá para o quintal ou cercados, que é utilizada como entrada e saída. Quanto muito, apenas um bicho de cria arreliando de canta a outro.
Pelos sertões o que se encontra, assim, são casas tristes, de feições abandonadas, de portas fechadas, de malhadas solitárias, num quase sem vida. Mesmo que lá dentro estejam muitas pessoas, mesmo que lá dentro a vida esteja correndo apressada, é como se nada assim existisse perante aquele que passa adiante e lança o seu olhar naquela direção. E não há quem não se aflija com aquela moldura tão aflitiva e melancólica. Imagina-se sempre estar apenas diante de um abandono, de vidas partidas, de vidas dali já distanciadas pelas intempéries da existência em mundo tão difícil de ser suportado perante as estiagens.
Sempre entristeço ante o silêncio melancólico das casas tristes nos beirais das estradas. Portas e janelas fechadas, sem cheiro de café torrado ou de tripa de porco torrando no fogão de lenha. Procuro pelo menino Zezim, procuro pela menina Joaninha. Mas nada. Nem um cachorro magro nem a voz de um papagaio falador. Murchou a bela flor que outrora era avistada no umbral da janela. Esturricou a planta que antes descia pelo caqueiro pendendo no pé de pau.
Tenho vontade de ir até lá e bater à porta. Oi de casa, oi de casa! Tenho vontade de ir até lá e bater na madeira como alguém que chaga para trazer uma notícia boa sobre um mundo novo. Ou apenas dizer: Oi de casa, oi de casa! Chamar assim. Mas desisto, enfim. E sigo pelos meus sertões em busca de portas abertas e daquilo que me dê alegria. Zezim, onde tá você? Joaninha, onde tá você? É o que pergunto em meu pensamento. E entristeço e choro. E silencioso pranteio a dor de todas as ausências do mundo!
Sigo adiante e aquele mundo solitário e triste para se eternizar logo atrás. Mas não posso esquecer aquela moldura ainda fixa no meu olhar. Zezim deveria estar ali na malhada, debaixo do umbuzeiro, reinando com ponta de vaca, correndo atrás de calango, atirando com peteca baleadeira. Zezim, Zezim, seu mundo está ali e por que você não estava? Joaninha também deveria estar pelos arredores da casa, levando consigo a boneca de pano descabelada e desenho círculos no chão aberto para brincar de pular. Joaninha, Joaninha, seu mundo está ali e por que você não estava?
Faltou-me sentir aquele aroma forte, encorpado, cheiroso, oloroso, do café fervendo em riba do fogão de lenha. Que festa ao olfato este perfume tão sertanejo, nascido desde o pilão para bater o café, à arupemba para separar o pó do restante dos grãos, e depois todo o negrume misturado à água fervente para a festa maior do sabor e da vida. Não senti tal cheiro ali e senti muita falta. Também não ouvi os barulhos do ofício na cozinha, com panela batendo, talher caindo, criança chorosa querendo comida. A mulher não abriu a porta para aguar a planta. Não havia planta, não havia nada. O homem não abriu a janela para avistar possíveis nuvens de chuva ao horizonte. Não há chuva num sertão assim.
Entristeci e chorei pela moldura de angústia e desilusão. Não pelo sertão em si, com seu sorriso triste e seu corpo esquelético, mas pelo seu povo que sequer parece existir naqueles casebres tristes de beirais de estrada. Talvez algum dia eu retorne e encontre tudo diferente. Talvez eu encontre a porta e a janela abertas, Zezim e Joaninha nos seus afazeres de criança e a sertaneja jogando água por riba da planta sedenta. O sertanejo certamente estará por ali, mexendo numa coisa e noutra, afiando uma enxada, dando lustre ao facão, remendando seu aió de caçador.
Talvez eu retorne e encontre a vida na sua vida, o homem sertanejo no seu lugar. Mas por enquanto, ainda choroso, ainda triste. Sou sertanejo também.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Curralinho, Poço Redondo/SE





Dentro de ti (Poesia)



Dentro de ti


Tua nudez não basta
se de dentro de ti
a beleza é mais vasta

teu sexo não basta
se dentro de ti
a doçura é tão casta

ter você não basta
se de dentro de ti
nada jamais me afasta.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - sertanejo



*Rangel Alves da Costa


Deus meu, Deus meu, cuma é bom ser sertanejo assim cuma eu sou. Me avexo não, visse. Num me aperreio nem um tiquinho se vem o outo e diz que sou matuto, mateiro, um catingueiro quarqué. Sou mermo, apois sou sertanejo. E tanto sou que tomem sou preá, sou macambira, sou bonome, sou calango, sou siriema do costado. Sou candiero e placa de luz, sou vela de oração e rosaro de tanta fé. Sou casinha e sou casebe, sou quintá e tufo de mato. Sou a lua e sou o sol, sou a secura da terra e a pranta verdosa que vinga do chão. Sou José e sou Maria, sou Zefinha e Bastião. Sou caçador e sou vaqueiro, sou lavrador e toadero. Sou prato de estanho e pote de barro. Sou caneca de alumino e arguidar de cozinha. Sou Alcino e sou Zé de Julião. Sou Zefa da Guia e Metre Tonho, sou Dona Guiomar e sou taboca de pife. Pru mode que tá rindo deu? Ria não seu moço. Aió, embornal e canti é tudo de uso, desna um tempo de caçada grande. Pru mode de que tá rindo deu, seu moço? Mai num avexo não. Fi da gota serena se eu me importar um tantim assim. Num me importo não pruquê sei o valor que tenho e não o valor que me dá. De ouro é meu chapéu de couro, pranteado é meu peitoral. Meu cavalo tem nome de santo: Jó. O mermo sofredor que nem eu, mai o mermo lutador que nem todo sertanejo. Pode vim e vortá, se quiser. Fico aqui. O cabra que nega sua terra num merece nem nascer, munto meno dizer que é dessa pátria chamada sertão, dum reinado benzido por Padim Ciço do Sermão e Virgulino Lampião.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 18 de junho de 2018

O MUNDO DE LEVY (PARABÉNS PELO ANIVERSÁRIO)



*Rangel Alves da Costa


Já se faz quase dois anos que tenho Levy ao meu lado como se fosse um filho meu. E assim é, pois verdadeiramente Levy é um filho meu, pois o mesmo amor de um filho para com um pai e o mesmo amor de um pai para com o filho.
E tenho Levy como filho por diversas outras razões. Ele “adotou-me” como pai e eu o adotei como filho. Que bom que seja assim. Sempre que deseja um brinquedo, logo pede à mãe para me telefonar. E comigo fala na certeza que será atendido. Lindo isso, não?!
Levy gosta de estar comigo, de continuar na minha presença, de andar e passear ao meu lado. Levy gosta de me dar à mão e ir comprar “chimbra”, como ele chama bola de gude. Levy gosta que eu sente ao lado dele e coloque vídeos para ficar assistindo e comentando. Pergunta e pergunta.
Levy sente saudade de mim e eu sinto saudade dele. Sempre pede à mãe para telefonar e falar comigo. Conversa e conversa e de vez em quando cisma que eu devo comprar um cavalo (que ante ele chamava “caralo”) pra ele ou um “tratorzão bem grandão”. Ou simplesmente diz que “o pneu de minha biciqueta tá furado”. Isso é lindo, não?!
Sinto saudade dele e do jeitinho todo especial de ser dele. Pequenino ainda, todo miudinho ainda, mas já crescido o suficiente para compreender e dialogar com muitas realidades da vida. Atento, observador, instigante, nada lhe foge da atenção. Por isso que de vez em quando surge com cada uma de espantar.
Algumas vezes já escrevi sobre ele, principalmente para dizer de sua fala engraçada e do seu jeitinho tão próprio de nomear as coisas e animais: “caralo” para cavalo, “bererrerinho” para bezerro, e outro que ainda não descobri o que realmente seja: “coló”. Já não fala mais assim, já sabe dizer corretamente o nome de tudo e do mundo inteiro.
Também já escrevi sobre o seu jeito de ser: “Desconfiado, cismado, não gosta de fazer amizades à primeira vista. Sempre chega um tanto taciturno, silencioso, fechado, sem qualquer palavra ou sorriso. Mas daí em diante, acaso encontre alguma oportunidade, começa a se soltar de vez, principalmente se não estiver sob os olhares nem a atenção da mãe. Então o Pequeno Levy desanda de vez, começa com traquinagens sem fim, se solta de não mais parar. Curioso, querendo saber de tudo e conhecer de tudo, pergunta e mais pergunta, repete, nunca se contenta. Um amor de criança, lindo, com voz toda especial, pois pronuncia palavras ao seu modo e com um jeitinho bem sertanejo. É também o meu Pequeno Levy, pois já nos acostumamos a nos gostar, a sermos amigos, a nos amar. De vez em quando ele chega pra mim e diz: gosto de você não. Mas é prova do quanto gosta. Não sai do meu lado, sente segurança ao meu lado, brinca e reina comigo, me tem como um verdadeiro pai e o tenho como um verdadeiro e querido filho. Amo meu Pequeno Levy”.
Hoje Levy completa cinco anos de idade. O próprio Levy estava tão ansioso para que esse dia chegasse que até parecia se tratar de uma idade em que alcançaria a maioridade. Vivia dizendo que ia completar cinco anos e depois disso ia mudar de escola. Desde muito que já convidava amigos para comer do bolo de seu aniversário. Aliás, seu jeitinho humano e compartilhador de ser é um dos aspectos mais bonitos que pode existir.
Nada do que tem Levy se nega a dividir. Se é um doce, um bolo ou uma brincadeira, logo ele oferece ou convida os seus amiguinhos. E perante os seus avôs então. Chega à casa da avó com qualquer dinheiro e logo oferece para comprar pão ou outra comida. Não para ele, mas para a família. Com seu avô Badinho a mesma coisa. Pergunta se aquele dinheiro dá pra comprar ração para o gado, coisa que ele tanto ama.
Diz ainda que quando crescer vai trabalhar muito e ter dinheiro para que não falte nada para os bichos, para que não falte ração nem água. Tudo isso nascido de um menininho que no dia de hoje completou cinco anos. E já de um coração tão imenso quanto o seu jeito tão bonito e tão especial de ser.
Parabéns, meu Pequeno Levy. Agora mesmo telefonei e ele me perguntou se quer que guarde um pedaço de bolo. E ai de Mylla, sua mãe, se não guardar. Sei que ele terá o maior prazer do mundo em chegar pertinho de mim e oferecer o pedaço de bolo. Que lindo, meu rapazinho. Saiba que você é todo imensamente lindo ao meu coração!


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Esperando chuvarada...



De ti amante (Poesia)



De ti amante


De ti amante
de ti constante
somente a ti
apaixonante

se há em ti
nasceu em mim
vindo da raiz
de um amor
que bela flor
soubeste bem
além do cultivar
o cativar

de mim amante
em ti somente
somente em ti
apaixonante.

Rangel Alves da Costa