SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 25 de março de 2017

A CASA DE VENTO


*Rangel Alves da Costa


Pelos quadrantes o vento vem soprando. Vento norte, vento sul, tanto faz. Se não se apresenta como ventania ou outro sopro mais voraz e devastador, quase sempre chega e passa quase sem despertar atenção. Contudo, no seu íntimo, oculto na sua fome, o vendaval, o redemoinho, a destruição.
Há no vento um perigoso silêncio. Há na sua face uma imperceptível e voraz ameaça. Que ninguém se sinta protegido quando de sua fúria ou de sua sanha de arrebatamento. As folhas que apenas balançam, os coqueirais que apenas murmurejam, os outonos que viajam em seus braços, nada reflete com exatidão sua silenciosa ira.
Protege-se do vento somente pela certeza de que não se está no seu caminho ou confrontando sua força. Somente evitando sua fúria é que será possível permanecer sem qualquer esvoaçamento. A proteção, contudo, não diz respeito a meios materiais que evitem os seus avanços.
Como a brisa leve pode levar pelos ares o ser em sua fragilidade espiritual, igualmente o vento em qualquer outra situação onde a pessoa não esteja devidamente protegida de corpo e alma. Não precisa colocar um muro adiante de si aquele que dentro de si mesmo já está protegido contra qualquer sanha do vento ou da ventania.
Ilusão imaginar que a vida na terra se dá na proteção de muralhas, fortalezas, muros impenetráveis. Utopia imaginar que se habita em moradias tão absolutamente seguras que nada poderá abalar ou destruir suas estruturas. Ora, tudo não passa de casa de vento.
Por mais sólidas que sejam as estruturas, por mais que sejam impenetráveis os portões e as portas, por mais que seja impossível alcançar os interiores e dependências, nada disso impede que os redemoinhos da existência a tudo destruam. Ora, tudo não passa de casa de vidro.
O ser humano, a pessoa humana, não passa de uma casa de vento. Sim, é cálice frágil, é asa de borboleta, é folha de outono, é uma poeira ao espaço, mas principalmente é vento. E vento este cuja força sempre está na dependência e predisposição da força humana. Quanto maior a fragilidade na pessoa maior será o poder de transformação do vento em ventania, em vendaval, em redemoinho.
Enquanto casa de vento, o ser humano pode abrir suas portas sem que sinta ameaçado por redemoinhos. Não há fúria de vento que não passe além e deixe intacto aquele que se reforçou intimamente de tal modo que jamais estará de corpo aberto para os acasos. Mesmo casa de vento, a pessoa estará imune aos vendavais toda vez que se encontrar mais preparado que a fúria mais repentina.
Na casa de vento tudo pode ser levado, destruído, estraçalhado, menos a própria pessoa. Livros, estantes, louças, roupas, toalhas, quadros, móveis, tudo pode ser levado pelos ares como uma folha qualquer, mas não a pessoa que já estava suficientemente protegida de sua tempestuosa fúria.
Por que o sábio foi o único a permanecer no alto da montanha depois que a ventania passou estraçalhando tudo? Por que o homem sensato continua se embalando na sua cadeira enquanto o redemoinho fazia sua festa de destruição? Por que o vendaval arranca plantas e árvores de suas raízes e é como se não tocasse naquele que calmamente repousa debaixo de um sombreado de um pé de pau que foi levado?
Simplesmente por que a casa de vento estava mais forte que a ventania, que o vendaval, que o redemoinho. Simplesmente por que a casa de vento estava mais protegida ante qualquer fúria da vida ou da natureza. Uma casa impenetrável e indestrutível pela própria tenacidade humana. E não uma casa aonde a brisa chegue e de porta a outra não deixe mais nada em pé.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Depois do sertão, meu outro mundo...




Ciranda namoradeira (Poesia)


Ciranda namoradeira


Chore não menina
menina afaste a sina
enxugue esse mar no olhar
abra um sorriso e vá cantar

numa ciranda de rua
cirandando debaixo da lua
e tanta alegria chega ao coração
e de repente uma mão na sua mão

menina num chora não
afaste de si tanta desilusão
a ciranda te chama a cirandar
e o coração dizendo vá namorar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - uma menina nua


*Rangel Alves da Costa


Sim, uma menina nua. Apenas uma menina nua. Nada mais há que se avistar que uma menina nua. Por que olhos maldosos, por que taras doentias, por que intencionalidades abomináveis, sempre avistam com outros olhos a menina nua? Mas a menina está nua. Nua no meio da rua, nua dentro do quintal, nua na ladeia, nua no meio da tribo, nua perante os seus e na sua comunidade. Ora, é apenas uma menina nua. Noutros tempos, em idos de pessoas de comportamentos menos deturpados, a menina saía nua para tomar banho de chuva, nua brincava de boneca, nuca corria de canto a outro, e todo mundo a avistava não como mulher em afloração sexual, como objeto de desejo, mas tão somente como uma menina nua. Tempo de respeito às pessoas, à infância, aos primeiros anos de vida. Tempo de decência e honradez, onde a nudez era apenas um corpo nu e não um chamado à volúpia, ao insano prazer. Hoje nem no seu quarto a menina pode ficar mais nua. Mesmo vestida, a bestialidade humana a desnuda com más intenções. Tristes tempos estes, tristes dias onde a infância perdeu, perante olhos maldosos, toda a flor da inocência, da pureza, da singeleza da vida.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

sexta-feira, 24 de março de 2017

DO OUTRO LADO DA PONTE


*Rangel Alves da Costa


Sei que há uma ponte mais adiante ou em qualquer lugar. E ela me espera passar. E essa dúvida que não cessa em mim: o que haverá do outro lado da ponte, da ponte que me espera passar?
Há um início e um fim na vida, e em todo caminhar. Nada segue em linha reta e sem percalços, nada é alcançado sem depois de muitas curvas e sem à ponte ao longe chegar. E ela me espera passar.
Uma ponte no outro lado do passo, no outro lado do olhar. Uma travessia que logo se avista entre o temor e a aflição, pois impossível conhecer o que está do outro lado. Mas é preciso chegar à ponte. E ela me espera passar.
Pensamos viver em terra firme, assentando o passo como donos do mundo, sem a verdade sobre a ponte despertar. Mas ela está diante de todos. E ela me espera passar.
A quem foi dado destino de estar do lado de cá, outro destino lhe aguarda do lado de cá. A única certeza da vida é a existência da ponte. E ela me espera passar.
Vaidades, egoísmos, arrogâncias, soberbas e ostentações pesam demais sobre a ponte. Somente o ser despido em maldade consegue atravessar. E talvez ela me deixe passar.
Não adianta fazer rodeios, fugir, outros caminhos buscar. A ponte existe como um caminho do homem, destino que jamais poderá mudar. E ela me espera passar.
Não conheço a largura nem a extensão, se de madeira ou cimento, se envolta em névoa ou na claridade do sol, mas sei que ela está lá. E ela me espera passar.
A ponte no passo, no caminho, na direção. Ninguém se eterniza onde está, eis que tem de seguir adiante, e a ponte não pode esperar. E ela me espera passar.
Há dois lados separando a ponte, um onde estou agora e outro mais ao longe, aonde terei de chegar. É o outro lado que terei de alcançar. E a ponte me espera passar.
Em tudo há uma ponte, um limite que deve ser ultrapassado. Depois da tristeza o caminho da alegria, depois da solidão alguém encontrar. E a ponte me espera passar.
Mas a ponte não separa apenas a vida da morte, pois também significa vencer as aflições de agora. Vence-se a agonia para o sorriso chegar. E ela me espera passar.
Os objetivos na vida são apenas passos em direção à ponte. Todos se esforçam para vencer os desafios e dificuldades e logo a ela chegar. E ela me espera passar.
O homem vive além-fronteiras. Mas sabe que também pertence ao lado de lá, onde ainda não esteve mas breve estará, após a ponte ultrapassar. E ela me espera passar.
Difícil é ter a certeza da ponte e que dela não se pode fugir, mas ainda assim ter de esperar no lado que está até o instante que ela chamar. E a ponte me espera passar.
Dizem que há um rio debaixo da ponte, dizem também que há um mar. Talvez apenas água corrente para o barco passar. E acima dela todo caminhar. E a ponte me espera passar.
Na ponte está a folha em branco, a página limpa, o papel esquecido. Ninguém chega à ponte permanecendo com a escrita de cá. E ela me espera passar.
Os olhos molhados de lágrima se tornam brilhosos após a ponte. A tristeza, a angústia e desilusão, tornam-se contentamento após o seu limiar. E a ponte me espera passar.
E assim acontece porque a ponte também significa transformação. Ninguém quer ultrapassar a ponte para continuar como está. E ela me espera passar.
Ninguém deseja transformação sem que a mudança seja com boa feição. E dificilmente as coisas mudam continuando no mesmo lugar. E a ponte me espera passar.
A semente lançada é fruto após a ponte. Depois da ponte o outono é primavera. As flores murchas e entristecidas logo começam a brilhar. E a ponte me espera passar.
Difícil de ser avistada, mas a ponte sempre está ao redor. Tantas vezes o homem se aproxima dela se ao menos notar, sem nada desconfiar. Mas ela me espera passar.
O ser humano chega a terra através de uma ponte e também por uma ponte irá retornar. O homem vive e ela permanece a esperar. E ela me espera passar.
A existência é passagem, e não há outro caminho a seguir senão através da ponte. E a vida permite que o chamado da ponte possa se demorar. E ela há de me esperar pra passar.
Não tenho pressa de nada, não corro para desejos alcançar, não dou um passo além nem para amar. Daqui avisto a ponte. Já sigo em sua direção, mas um dia caminharei até ela.
E talvez lá encontre uma escada que ao céu possa levar.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...



Quanta beleza e genialidade. Poço Redondo tem Mestre Tonho, sim senhor!






Três amores (Poesia)


Três amores


No primeiro amor
desejar a primavera
e beijar a beleza da flor
e se encantar a cada manhã

no segundo amor
encontrar os espinhos
avistar o jardim ressequido
e desejar o perfume da flor

no terceiro amor
entre saudades e adeuses
querer a felicidade no coração
sem doces ilusões nem feridas.


Rangel Alves da Costa