SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 20 de junho de 2018

A ANDORINHA SOZINHA E SEU VERÃO



*Rangel Alves da Costa


Dizem que uma andorinha sozinha não faz verão. Mas ledo engano pensar assim. A mais sozinha das andorinhas faz não só seu verão como sua primavera, seu outono, seu inverno.
Dizem também que ela só alça voa em dias de tempo bom, quando é avistada festiva pelos ares. Contudo, outro erro pensar assim. Ela se desloca em qualquer tempo e por todo lugar.
A andorinha gosta tanto de voar que passa quase o dia inteiro indo de canto a outro, pousando em fios, em estacas, em varais, no telhado, faz frestas das cumeeiras. Logo se tem que ela não é de apenas uma estação.
Andorinha também gosta de voar dentro e ao redor das igrejas, gosta de fazer ninho à vista de todos, gosta de estar presente em meio à população. Contudo, gosta muito mais de ficar sozinha numa lonjura qualquer.
E por que se diz que uma andorinha sozinha não faz verão? Simplesmente para dizer que é na época quente do verão que andorinhas são mais avistadas voejantes e festivas pelos espaços. Apenas uma andorinha não traduz a existência do tempo ensolarado.
Ou ainda para dizer que a junção de andorinhas demonstra a existência de um tempo aberto, ensolarado, propício ao voo e modificando e embelezando a paisagem. Igualmente com relação ao homem. A sua junção já demonstra uma feição diferenciada no tempo.
Comumente se diz que uma andorinha sozinha não faz verão numa alusão à impossibilidade de se fazer muita coisa agindo sem a comunhão de outras pessoas. Somente provoca o verão, ou a mudança ou a transformação, quando pessoas se unem num mesmo objetivo.
Creio, contudo, que não seja assim. Conforme referido inicialmente, a mais solitária das andorinhas faz não só seu verão como sua primavera, seu outono, seu inverno. Ademais, como os humanos, nem sempre se pode esperar muita coisa de outras pessoas ou andorinhas. E a ação solitária produz efeitos.
Ademais, o termo verão utilizado, tão calorento e abrasador no nosso hemisfério, pode muito bem se referir aos horizontes ensolarados que desejamos para nossas vidas. Sonhos que são sóis em flor, esperanças que se afeiçoam a girassóis, planos que brilham ardentemente nos nossos pensamentos.
Assim, se uma andorinha sozinha pode alçar o seu voo e fazer sua luta, se uma solitária andorinha pode muito bem correr atrás daquilo que tanto deseja para o seu dia, então logo se tem que o homem possui as mesmas asas para fazer o seu verão, ainda que solitariamente agindo.
Tudo nascendo de uma questão de querer, de desejo, de luta, de não se curvar perante as dificuldades impostas pela estação. Se é primavera, mas se deseja um verão, então que se busque a transformação através do voo. E o voo é o sonho, é o desejo, é a esperança. Somente voando é possível alcançar os verões e os novos horizontes.
Num mundo das realizações, nunca espere encontrar um bando de andorinha pelos céus. Aquela que estiver sozinha certamente poderá realizar o que a milhões será impossível. Em cima do arvoredo, quieta, silenciosa, parecendo entristecida, mas apenas alimentando seus planos de conquista.
Jamais se pode duvidar da força do ato solitário. Está no compromisso o passo para a ação. A solidão não é frágil nem é carente. A solidão não está desprovida de força nem de coragem para agir. A solidão é apenas um ato de construção daquilo que a força do íntimo será capaz de fazer.
Assim nascem os verões. Não por meio de bandos ou revoadas de andorinhas. Mas através de uma andorinha sozinha. Ora, ela possui seu voo, ela pode voar.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Quanta beleza e dignidade em Felipe, personalidade maior do xaxado em Poço Redondo!



Folhas tristes (Poesia)



Folhas tristes


Das amendoeiras
as folhas secas caídas
derramadas pelo chão
como lágrimas descidas
do mais triste coração
lenços abertos em feridas
das vidas em desilusão

outono surgido do ser
quando a ventania voraz
nada mais deixa colher
senão a solidão tão mordaz
tornando a vida em morrer
tornando o ser incapaz
de noutra estação renascer.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - só uso priquitinha de ano em ano



*Rangel Alves da Costa


Realmente, só uso priquitinha de ano em ano. Mas não é o que você talvez esteja pensando não, pois a priquitinha que uso se trata de chinelo de couro e tão em moda nos rincões nordestinos durante os festejos juninos. É essa priquitinha que tanto uso, gostosa e prazerosamente, assim que o mês de junho abre suas portas para os festejos, para as quadrilhas, para os forrós, para as comidas típicas, para os folguedos, para as bandeirolas balançando nas ruas e avenidas. Assim, os festejos juninos me fazem abdicar de outros chinelos e adotar somente o chinelinho de couro, sempre parecendo frágil mas resistente. E é com a priquitinha que ando de canto a outro. É com a priquitinha que visto roupa bonita sem dela desapartar. É com a priquitinha que me esbaldo na canjica, no milho assado, na cocada, no arroz doce, no bolo de milho. Com ela pulo fogueira, solto balão, torno-me compadre ao redor da fogueira.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 19 de junho de 2018

DE SOLIDÕES E PORTAS FECHADAS



*Rangel Alves da Costa


Gosto de caminhar pelos sertões, gosto de percorrer as veredas e estradas dos sertões. À frente à estrada, de chão, piçarrenta ou asfaltada, mas pelos lados, curvas e escondidos, os mistérios e encantamentos que tanto desafios nos trazem à imaginação. Tudo como se o mundo sertão, mesmo tão conhecido, esteja sempre provocando indagações sobre o seu modo de ser e de existir.
Pelos seus caminhos não é difícil avistar casinholas, casebres de barro e cipó e mesmo residências mais portentosas, mas sempre com aquele aspecto sertanejo tão peculiar às suas vastidões ressequidas: casas que sempre parecem tristes, solitárias, fechadas pelas ausências, esquecidas num mundo de esquecimentos e desolações. Nem sempre assim, mas geralmente encontros que mais parecem em meio ao deserto e ao abandonado.
Verdade que os sertanejos costumam manter suas portas fechadas em todos os instantes do dia. Somente ao entardecer, quando uma cadeira é colocada diante da porta ou quando o dono da casa se assenta num tamborete para ouvir seu radinho de pilha é que surgem sinais de vida, de presença daqueles moradores. Ao invés da porta da frente, é a porta dos fundos, que dá para o quintal ou cercados, que é utilizada como entrada e saída. Quanto muito, apenas um bicho de cria arreliando de canta a outro.
Pelos sertões o que se encontra, assim, são casas tristes, de feições abandonadas, de portas fechadas, de malhadas solitárias, num quase sem vida. Mesmo que lá dentro estejam muitas pessoas, mesmo que lá dentro a vida esteja correndo apressada, é como se nada assim existisse perante aquele que passa adiante e lança o seu olhar naquela direção. E não há quem não se aflija com aquela moldura tão aflitiva e melancólica. Imagina-se sempre estar apenas diante de um abandono, de vidas partidas, de vidas dali já distanciadas pelas intempéries da existência em mundo tão difícil de ser suportado perante as estiagens.
Sempre entristeço ante o silêncio melancólico das casas tristes nos beirais das estradas. Portas e janelas fechadas, sem cheiro de café torrado ou de tripa de porco torrando no fogão de lenha. Procuro pelo menino Zezim, procuro pela menina Joaninha. Mas nada. Nem um cachorro magro nem a voz de um papagaio falador. Murchou a bela flor que outrora era avistada no umbral da janela. Esturricou a planta que antes descia pelo caqueiro pendendo no pé de pau.
Tenho vontade de ir até lá e bater à porta. Oi de casa, oi de casa! Tenho vontade de ir até lá e bater na madeira como alguém que chaga para trazer uma notícia boa sobre um mundo novo. Ou apenas dizer: Oi de casa, oi de casa! Chamar assim. Mas desisto, enfim. E sigo pelos meus sertões em busca de portas abertas e daquilo que me dê alegria. Zezim, onde tá você? Joaninha, onde tá você? É o que pergunto em meu pensamento. E entristeço e choro. E silencioso pranteio a dor de todas as ausências do mundo!
Sigo adiante e aquele mundo solitário e triste para se eternizar logo atrás. Mas não posso esquecer aquela moldura ainda fixa no meu olhar. Zezim deveria estar ali na malhada, debaixo do umbuzeiro, reinando com ponta de vaca, correndo atrás de calango, atirando com peteca baleadeira. Zezim, Zezim, seu mundo está ali e por que você não estava? Joaninha também deveria estar pelos arredores da casa, levando consigo a boneca de pano descabelada e desenho círculos no chão aberto para brincar de pular. Joaninha, Joaninha, seu mundo está ali e por que você não estava?
Faltou-me sentir aquele aroma forte, encorpado, cheiroso, oloroso, do café fervendo em riba do fogão de lenha. Que festa ao olfato este perfume tão sertanejo, nascido desde o pilão para bater o café, à arupemba para separar o pó do restante dos grãos, e depois todo o negrume misturado à água fervente para a festa maior do sabor e da vida. Não senti tal cheiro ali e senti muita falta. Também não ouvi os barulhos do ofício na cozinha, com panela batendo, talher caindo, criança chorosa querendo comida. A mulher não abriu a porta para aguar a planta. Não havia planta, não havia nada. O homem não abriu a janela para avistar possíveis nuvens de chuva ao horizonte. Não há chuva num sertão assim.
Entristeci e chorei pela moldura de angústia e desilusão. Não pelo sertão em si, com seu sorriso triste e seu corpo esquelético, mas pelo seu povo que sequer parece existir naqueles casebres tristes de beirais de estrada. Talvez algum dia eu retorne e encontre tudo diferente. Talvez eu encontre a porta e a janela abertas, Zezim e Joaninha nos seus afazeres de criança e a sertaneja jogando água por riba da planta sedenta. O sertanejo certamente estará por ali, mexendo numa coisa e noutra, afiando uma enxada, dando lustre ao facão, remendando seu aió de caçador.
Talvez eu retorne e encontre a vida na sua vida, o homem sertanejo no seu lugar. Mas por enquanto, ainda choroso, ainda triste. Sou sertanejo também.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Curralinho, Poço Redondo/SE





Dentro de ti (Poesia)



Dentro de ti


Tua nudez não basta
se de dentro de ti
a beleza é mais vasta

teu sexo não basta
se dentro de ti
a doçura é tão casta

ter você não basta
se de dentro de ti
nada jamais me afasta.

Rangel Alves da Costa