SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 21 de agosto de 2017

POÇO REDONDO E SUAS PESSOAS SIMPLES E VALOROSAS


*Rangel Alves da Costa


Todos deveriam ser iguais não somente perante a lei como na realidade cotidiana da vida. As pessoas, e seja de qualquer raça, cor, crença, poder aquisitivo e raiz familiar, dentre outros aspectos, deveriam ser reconhecidas e valorizadas como fundamentais, pois seres humanos na sua essencialidade.
Ora, o mundo não é habitado nem progredido apenas através dos “grandes homens”, das “eminentes figuras”, de bacharéis, doutores, poderosos e autoridades sem fim, mas por todas as pessoas, seja o de gravata ou o descalço, seja o de anel dourado no dedo ou o de chinelo no pé. Todos, indistintamente, possuem sua devida importância na sociedade, no meio em que vivem e na realidade que compartilham.
Neste sentido, reconhecer a importância dos filhos de Poço Redondo não implica apenas em falar daqueles tidos como mais ilustres, mas sim de todos aqueles que no passado e no presente fazem parte de sua história, pois, ao seu modo, são todos responsáveis por um percurso histórico desde as primeiras raízes. Importante aquele empobrecido que vive nas distâncias matutas, importante aquele citadino de maior posse, importante aquela fateira ou lavadeira, como importante é o bodegueiro ou o grande comerciante.
Há de reconhecer, assim, uma importância igualitária. Ora, Poço Redondo não caminhou somente pelos passos de Alcino, de Durval, de Zé de Julião, de João Bernardino de Sá ou de Tião de Sinhá, dentre outros. Mas também nos passos de Maria do Piau, de Remígio, de João Mulatinho, de Augustinho, de Tonho Bioto, de Adília, de Jailson, de Maninho, de Angelino, de João Paulo do Alto, de Mané Véio. E continua caminhando nos passos de Zefa da Guia, de Mestre Tonho, de Zé Veinho, de Marizete, de Quitéria Gomes, de Niltão Aboiador. Só para citar alguns.
Logicamente que a história dos grandes homens, das ilustres figuras - por ser seletiva -, conta tudo diferente. Contudo, o cotidiano é providência tomada e levada adiante por pessoas simples, humildes, que nem sempre são lembradas nas suas ações. E são estas pessoas que devem ser vistas e reconhecidas como importantes e fundamentais não só no percurso histórico de Poço Redondo como de qualquer lugar. O mateiro, o roceiro, o vaqueiro, o caçador, o pescador, a varredeira, o catador de lixo, o sapateiro, o desempregado, o da choupana e o do barraco, todos são primordiais para o reconhecimento da identidade de um povo.
E Poço Redondo progrediu a partir dos esforços de pessoas simples, comuns. Num tempo onde os latifúndios ou as terras de eréu pouco ou quase nada produziam, era através das pequenas agriculturas e dos pequenos rebanhos que a subsistência de todos era garantida. Maria do Piau, por exemplo, surgia na esquina gritando a sua piaba miúda, salgada. João de Virgílio não negava a ninguém um carregamento nas costas desde o Curralinho à sede municipal, e vice-versa. E tantos e tantos outros trazendo o seu queijo, o seu melão coalhada, o seu quarto de carne de bode, colocando à disposição do pobre e do rico.
Galego do Alto se esforçava o máximo em meio ao calor de seus ferros abrasados para garantir o chocalho, o ferro de marcar bicho, tudo o que um bom ferreiro pudesse oferecer. Zé Rosa engolindo pó de serra para não deixar faltar a encomenda da porteira, do caixão, do banco de madeira. Mulheres passavam meses para terminar uma só colcha de renda. E depois vender por preço bem abaixo do merecido. Sem esquecer aqueles que seguiam pra roça com o dia ainda escurecido e só retornavam perto da boca da noite. Comida levada em cuia enrolada em panos e água de melancia verdosa enterrada para perder a quentura de riba da terra.
Pessoas simples, comuns, eram as responsáveis por tudo isso. E aos sábados aqueles pequenos feirantes arriscando a vida em cima de paus-de-arara para trazer da Boca da Mata (Glória) a farinha, a banana, a laranja, o açúcar. Assim Zé de Iaiá, Mané Azedinho, Delino, Ireno Cirilo e tantos outros. Todos estes - e mesmo as pessoas sem ofício algum definido - foram os verdadeiros responsáveis pela construção da história de Poço Redondo.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


No sertão, as chuvas que caem não acabam de vez com os sofrimentos do sertanejo




Além do somente amar (Poesia)


Além do somente amar


Se eu quisesse somente amar
eu até fingiria belas poesias
eu até fingiria buquês de flores
eu até fingiria imensa paixão
eu até fingiria além do que sinto
somente para dizer que amo

mas não quero somente amar
quero do amor ir muito além
quero que sejas essência da vida
e sendo meu sangue e coração
que sejas o sopro maior do viver
e a infinita razão da existência.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - minha amada


*Rangel Alves da Costa


Doces são os lábios de minha amada. Delicioso pomar é o corpo de minha amada. Nuvens e céus, estrelas e luas, mares e horizontes, revoadas e entardeceres, sóis e arrebóis são os olhos de minha amada. Plumas, asas, sopros, asas de borboletas e colibris, perfume de brisa do alvorecer, são as palavras de minha amada. Conforto e segurança, encorajamento e prazer, repouso e tentação, tudo à presença de minha amada. Sou feliz quando estou assim, quando me sinto assim, quando sou todo assim. E ela é linda, é bela, é formosa como a flor mais bela. Morena clara e tingida de sol, feição nativa na maior formosura e simplicidade. Olha pra mim de um jeito diferente, pois também palavra e sorriso. Aproxima-se de mim e então as portas e janelas se abrem para a primavera mais perfumada. Beijo-te a face, beijo-te a boca, beijo-te os cabelos, beijo sua saudade, quando distante de mim está. E ao teu lado deito, ao teu lado amo, adormeço, sonho, viajo, e retorno sempre aos teus braços. E ao ouvido digo baixinho: Te amo! E sempre repito: Te amo, te amo!

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 20 de agosto de 2017

ZÉ DE JULIÃO, HONRADO EX-CANGACEIRO, PRIMEIRO PREFEITO DE FATO ELEITO EM POÇO REDONDO


*Rangel Alves da Costa


Certamente que nos anais da história política de Poço Redondo, consta Artur Moreira de Sá como o primeiro prefeito do município. Com efeito, Seu Artur – assim comumente conhecido - foi o primeiro gestor a assumir os destinos do recém-criado município, desmembrado que fora de Porto da Folha e passando a tomar conta do seu destino a partir da Lei Estadual nº 525-A, de 25 de novembro de 1953.
Mas a versão surgida e que foi tomando sentido de realidade é que Artur Moreira de Sá sequer teve o mesmo número de votos que seu adversário naquela primeira eleição de 03 de outubro de 1954 e disputada contra José Francisco do Nascimento, mais conhecido como Zé de Julião, o ex-cangaceiro Cajazeira do bando de Lampião. Parece uma história atravessada, mas não é não.
Explica-se. O candidato das forças políticas estaduais era Artur Moreira de Sá, oriundo de Porto da Folha. E a primeira estratégia de campanha foi espalhar o boato que Zé de Julião não poderia ser candidato porque era um ex-cabra de Lampião, perigoso e malfeitor, um reles bandido, e ninguém podia aceitar um cangaceiro como prefeito. Mas o ex-cangaceiro não se intimidou e enfrentou as forças do poder. Deu empate: 134 votos para cada candidato. Mais velho, então Artur Moreira acabou sendo proclamado vitorioso.
É neste ponto que a história vira de ponta cabeça. Nos arquivos e atas da justiça eleitoral realmente consta o empate havido entre os dois candidatos. Artur Moreira de Sá com 134 votos e José Francisco do Nascimento também com 134 votos. E o critério de desempate pela idade acabou favorecendo o candidato do Partido Republicano - PR, Seu Artur.
Contudo, não só o pleito havido debaixo de perseguições e abusos teve sua validade contestada por muito tempo, como as próprias pessoas que participaram diretamente daquela eleição – presidentes de mesa, mesários, delegados, etc. – passaram a testemunhar um resultado totalmente diferente. E tais testemunhos apontam, sem quaisquer dúvidas, que o candidato com maior número de votos havia sido Zé de Julião. Quer dizer, o empate foi uma estratégia forjada para dar a vitória ao candidato governista.
Algumas pessoas de Poço Redondo ainda recordam como tudo se deu, ou seja, como o candidato Artur Moreira acabou sendo eleito mesmo tendo sido derrotado nas urnas. E um testemunho dado por Dona Maristela de Sá, que naquele pleito havia trabalhado em seção eleitoral e participado da contagem dos votos, deixa induvidosa tal questão. Com efeito, no recente documentário “Zé de Julião – Muito Além do Cangaço”, de Hermano Penna, a hoje octogenária ex-professora conta tudo sem meias palavras.
Diz Dona Maristela: O candidato eleito foi Zé de Julião. Mas como os governistas, com a conivência da justiça eleitoral, não aceitavam de jeito nenhum o resultado, então resolveram tomar a eleição a todo custo. Então começaram a recontar os votos até que chegasse ao empate. A cada nova contagem, cédulas com votos de Zé de Julião eram derrubadas e escondidas debaixo das solas dos sapatos. Quando chegou ao empate, então se deram por satisfeitos, pois sabiam que o mais velho seria proclamado vitorioso. E o mais velho era Artur. Mas quem teve mais votos foi mesmo Zé de Julião”.
Significa dizer, pois, que, de fato, o primeiro prefeito eleito de Poço Redondo, ou aquele que obteve mais votos na eleição disputada no recém-criado município foi José Francisco do Nascimento, o Zé de Julião, um honrado, amado e admirado ex-cangaceiro do bando de Lampião, esposo da também cangaceira Enedina, e desta desapartado pela morte na fatídica chacina da Gruta do Angico em 1938. Entretanto, como lhe usurparam vergonhosamente a vitória, quem tomou posse por forjado direito foi Artur Moreira de Sá.
Não se pretendeu aqui lançar qualquer negativa ou dúvida sobre Seu Artur como o primeiro prefeito de Poço Redondo. A História assim conta e como tal deve ser considerada. Os fatos demonstram, porém, que sua vitória não se deu nem por maioria de votos nem mesmo por empate. Considerando-se o que por muito tempo foi ressurgindo como uma verdade ocultada e pelo testemunho vivo de Dona Maristela, simplesmente “tomaram na tora” e vitória dada a Zé de Julião pela maioria dos eleitores poço-redondenses de então.
Zé de Julião ganhou, mas não levou, como popularmente se diz. O que, por justiça, não afasta o seu reconhecimento como primeiro prefeito eleito de Poço Redondo.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Ao lado amigo Geno Vito, maior aboiador dos sertões sergipanos e representante maior dos Pífanos da Família Vito




Do alto (Poesia)


Do alto


Vem do alto
do alto vem
esse amor
que vai além
e que nos soma
e nos mantém
nos trilhos da vida
num trem

e do alto
do alto vem
esse pássaro
esse bem
de asas abertas
para que voemos
acima e além
também.


Rangel Alves da Costa