SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 22 de maio de 2017

O LAMPIÃO DE NELSON XAVIER


*Rangel Alves da Costa


Quem não se recorda daquela cena de abertura da minissérie “Lampião e Maria Bonita”, quando o Lampião protagonizado pelo ator Nelson Xavier aparece à frente de parte de seu bando e num instante, como se estivesse percebendo algo estranho nos arredores, primeiro levanta a mão direita e depois a esquerda, em sinal de alerta? Ao som de um refrão da maravilhosa “Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor”, na voz plangente de Amelinha, a minissérie produzida pela Rede Globo de Televisão em 1982, passava a contar, embora de modo fictício, a história do mais famoso casal nordestino, senão do próprio cangaço.
Interessa notar, contudo, que desde esta cena de abertura já se percebia a força interpretativa do grande ator que foi Nelson Xavier. Ninguém jamais interpretou Lampião, o líder cangaceiro dos carrascais nordestinos, como o ator paulista nascido em 1941 e falecido recentemente, em 10 de maio. O que se tem a partir daí e ao longo de toda a trama é um ator vestido e revestido de corpo e alma num personagem. Não há caricatura, não há trejeitos forçados, não há mera imitação. O que há, na verdade, é a concepção mais original possível daquilo que de uma forma existiu. E Nelson Xavier traduz com máxima expressividade esse autêntico nordestino, com seus mistérios e segredos, sua tenacidade e carisma.
A minissérie da Rede Globo, escrita por Aguinaldo Silva e Doc Comparato, com direção de Paulo Afonso Grisoli e Luiz Antonio Piá, alcançou retumbante sucesso não pela história contada, descontextualizada que foi dos fatos reais. O pano de fundo é o cangaço, mas com trama fictícia. O que permitiu seu reconhecimento e aplausos foi justamente a beleza das interpretações conduzidas por Nelson Xavier como Lampião e Tânia Alves como Maria Bonita. Ao lado dos cenários nordestinos, da riqueza de detalhes que despertavam interesse maior pela saga, bem como da encarnação dos atores refletindo com exatidão os seus personagens, o resultado não poderia ter sido melhor.
Ora, impossível agora traduzir todo o gestual de Virgulino Ferreira da Silva, o seu modo exato de andar, de falar, de comandar e conviver com o seu bando e demais pessoas alheias à sua saga, porém não menos envolvidas. Sabe-se, porém, e através de relatos, que Lampião era místico, “cabreiro”, metódico, de palavras comedidas e ordens veementes. Mas pouco mais que isso se conhece do líder estrategista das caatingas nordestinas. Como chefe de bando, certamente impunha a seu modo a condução de sua luta. Já o homem em si, o Lampião de nome e sobrenome, na sua intimidade e como ser preocupado com o seu destino, ainda não foi totalmente decifrado. Contudo, Nelson Xavier expôs esse retrato com maestria.
E assim por que o Lampião encarnado por Nelson Xavier é verdadeiramente aquele que se mentaliza ou se imagina sobre o rei cangaceiro. Aquelas mãos entrecruzadas, cheias de anéis dourados, são as mãos de Lampião. Aquela figura cheia de cartucheiras, embornais, lenço ao pescoço, chapéu estrelado, armas e outros adornos, não pode ser outro senão Lampião. Aquele olho mais baixo atrás de óculos arredondados, cego, que nunca se abre totalmente em qualquer cena, é o olho de Lampião. Aquele rosto nordestino, moreno, queimado de sol, só pode ser o semblante de Lampião. Aquele gestual, aquela fala, aquele jeito de andar, só pode ser mesmo de Lampião. Sim, é Lampião, mas é Nelson Xavier.
O papel desempenhado pelo ator paulista foi algo incontestável em termos de dar contornos de revivência ao emblemático personagem. No gestual, na força interpretativa, no semblante e no olhar de olho cego, bem como nas demais expressões requeridas, em todos estes aspectos Nelson Xavier se fez imenso, enorme, essencial, como se nenhum outro ator pudesse captar e transpor com tamanha originalidade os passos, as lutas e os cotidianos do rei do cangaço. Por isso mesmo que nunca é demais afirmar que quem nunca conheceu Lampião pode encontrar a maior proximidade possível no personagem vivido por Nelson Xavier. O ator sempre dizia que o seu melhor papel havia sido o de Chico Xavier. Mas todo mundo o relembra sempre como Lampião.
E relembra também aquela abertura da saga cangaceira com os versos de Otacílio Batista e Zé Ramalho: “Virgulino Ferreira, o Lampião, bandoleiro das selvas nordestinas, sem temer a perigo nem ruínas, foi o rei do cangaço no sertão. Mas um dia sentiu no coração o feitiço atrativo do amor, a mulata da terra do condor dominava uma fera perigosa. Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor”.
“Santinha, hoje vamo arribar daqui...”. Dizia Nelson Xavier na trama. Mas eu tinha certeza que ouvia do próprio Lampião.


Escritor
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Lá no meu sertão...


               Eu e Myllinha...



Menino menino (Poesia)


Menino menino


Menino vá ali
catar carambola
e jabuticaba caídas

já vou
já vou!

menino vá ali
calçar sapato
e ser homem feito

vou não
vou não!


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - sou o silêncio da pedra e o grito silencioso da pedra


*Rangel Alves da Costa


Não é poesia, é verdade: sou o silêncio da pedra e o grito silencioso da pedra. Dura, esquecida no meio do tempo, sem amigo que chegue pra prosear, vencendo o sol e a chuva, eis a pedra. Pedra incompreendida, evitada, indesejada, malvista, culpada por tudo. Ora, sempre dizem que há uma pedra no meio do caminho, que no meio do caminho há uma pedra. Tida como insensível, embrutecida, arrogante, impenetrável demais. Contudo, apenas uma pedra. E esta pedra senão o meu eu petrificado na beira da estrada, no meio do mundo, nos beirais da vida. Quem me avista há de dizer que viu uma pedra. Não tenho palavras. Não tenho carinho. Não tenho afetos. Não tenho carícias a oferecer. Somente sou assim por que somente sou assim. Ano após ano e chega a ventania a me açoitar, ano após ano e chega a tempestade a me encharcar, ano após ano e chegam os redemoinhos e os vendavais querendo me açoitar. As pessoas fazem assim também. Ninguém chega para sentar ao meu lado e filosofar a vida. Ninguém chega e ao redor de mim canta uma canção tão bela e tão antiga. Ninguém reconhece a pedra senão como um estorvo. Mas melhor que seja assim. Eles passarão e eu, mesmo em pó transformado, aqui continuarei. Por enquanto sou apenas o silêncio da pedra e o grito silencioso da pedra.


Escritor
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domingo, 21 de maio de 2017

UM CAFEZINHO, AGORA...


*Rangel Alves da Costa


Aqueles meus afetos estão perdidos e agora só me resta uma xícara de café. Mas amo do mesmo jeito. Sem boca pra beijar, roço o lábio na borda da xícara e me imagino sorvendo um beijo gostoso. Não quero pensar nisso agora. Já desde mais de duas horas que não tomo um cafezinho e necessito de seu afago. Uma pequena xícara, apenas, mas como uma companhia que me ouve e fala baixinho. E a tudo compreendo.
Não vivo sem um cafezinho. Acaso não houvesse nem o pó nem o grão, certamente derramaria na xícara um punhado de noite sem lua e depois, lentamente, sorveria um instante de alegria e prazer. Mas lá dentro a água já ferve e a xícara já está ao redor, o café também, então não há com o que me preocupar. Porém preocupo-me sim. Basta levar a xícara à boca e é como se no caldo oloroso e enegrecido também chegasse uma saudade grande. Saudade amarga, fervente demais, de coisas tão presentes e tão distantes.
Mas enfrento o medo para tomar um cafezinho agora. Sigo até o fogão e de lá retorno com a pequena xícara que diz muito mais que a largueza do mundo e de tudo. Não há poesia minha que não venha antecedida por um gole de café, não há prosa minha que não surja molhada de café, não há qualquer escrito que não chegue perfumado e com inigualável sabor. Talvez esteja no café minha inspiração, vez que sem qualquer gole também nada sei fazer. Sequer pensar. Depois de um cafezinho e um cigarro eu me torno poeta, profeta, filósofo, um sábio. Mas também menino, também nostálgico, também em busca de mim mesmo através de outros passos passados.
Fogo de chão, de tora e gravetos. A chama valseia pelo ar enquanto a chaleira repousa sobre o braseiro. Um momento mágico na vida interiorana de onde vim. Agora mudou, mas por lá nunca era um café qualquer. Café de verdade, café torrado, batido em pilão, peneirado, pronto para formar o caldo grosso ao ser juntado à água fervente. Daí era só esperar um pouquinho até que as borbulhas começassem a surgir e o líquido oloroso e aromático se derramar pelas bordas. Nem precisava de coador. Dali mesmo ia direto à xícara. E que coisa tão boa de recordar.
Mas quero um cafezinho, agora... E depois mais outro e mais outro. Adoro café. E café negro retinto, forte, sem açúcar, chegando ao oleoso perto dos lábios. Sempre gostei de café, mas não nesse metodismo apaixonado. Por muito tempo experimentei o café comum, desses servidos pelas mesas de jantares e desjejuns. Lembro-me muito bem que minha concepção de café se iniciou pelo seu aroma perfumado ao entardecer.
Na cidadezinha onde nasci, lá pelos sertões sergipanos mais distantes, o entardecer era uma verdadeira festa ao olfato, senão a todos os sentidos. Dona Lídia primeiro torrava o café em grão, depois batia no café pilão, para mais tarde despejar o pó no caldeirão fervente ao fogão de lenha, pois era muito café para servir a tanta gente ansiosa por uma xícara de seu esmerado preparo. E então, uma festa pelos ares. Quando fui lá implorar um pouquinho na xícara, jamais imaginaria que eu iria verdadeiramente me apaixonar. E me fiz assíduo daquela xícara a todo entardecer sertanejo.
Tempos depois, já na capital sergipana, passei a experimentar café de máquina de balcão. Uma delícia também, pois o autêntico café era despejado diretamente na água fervente da máquina e já descia borbulhando e oleoso. Hoje em dia está muito difícil encontrar um bom café pela cidade. Aquelas máquinas praticamente não existem mais. Os cafés modernos perderam o gosto e a essência. Mas isso não me faz menos apaixonado pelo café, que bebo desde as quatro da manhã até a noite chegar. Infelizmente café solúvel, mas não o que fazer. Esquento a água e depois despejo na xícara já com duas colheradas pequenas de grãos miúdos. Em seguida vou ao portão avistar e sentir a chuva caindo, reabrindo velhos baús na memória e recordando ainda aquele entardecer sertanejo e o café de Dona Lídia.
Por isso que bebo na xícara e na memória aquele cheiro gostoso de outrora. Dispenso o uísque, rejeito o bom vinho, mas peço-lhe encarecidamente que me traga um cafezinho. E agora.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


No coração cabe um porta-retratos?



O pássaro (Poesia)


O pássaro


O pássaro
voa e voa
no horizonte
a sua proa
e alegre
assim à toa
a altura
povoa
e seu canto
ecoa

o pássaro
que voa e voa
ao retornar
novo canto
entoa
e na tristeza
destoa
pela solidão
que magoa.


Rangel Alves da Costa