SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A MORTE DE SINHÁ DAGOMÉLIA



*Rangel Alves da Costa


Ninguém sabe ao certo a idade da velha quando ela deixou de acender o cachimbo e foi chamejar lá no céu. Aquele cheiro forte do cachimbo sendo aceso havia cessado de vez. Fogo na ponta de pau sem mais valia para o fumaçar.
Mesmo em vida, e até bem antes de morrer, difícil demais era imaginar quantos anos poderia ter aquele rosto já petrificado de tanta existência. Já não envelhecia nem murchava mais, apenas existia em si mesma e em suas profundas marcas.
Sinhá Dagomélia, mas será que alguém chorou por ela quando se findou dessa vida? Será que pessoa desse mundo teve a piedade de rezar uma ladainha e acender vela perante a esteira servindo como caixão e por cima do chão? Será que houve caixão defuntesco?
Dizem que um gato chorou. Dizem que o barro batido da parede chorou. Dizem que a velha andorinha da cumeeira também chorou. E o vento soprava choroso. As folhagens pareciam soluçar. Mas será que só?
Uma história muito triste de contar. E só vou contar por que me achei no dever de não deixar apagada de vez a memória de Sinhá Dagomélia. Eu mesmo já passei pela sua porta, bati e matei minha sede. Ainda mordi um pedaço de cocada de frade.
Já viúva desde muito, sempre esquecida por aqueles que fez vir ao mundo, levava seus dias entre as recordações de uma cadeira de balanço rente à janela, a solidão de seu barraco e o vazio de seu quintal.
Apenas um neto, já homem feito, de vez em quando aparecia por lá para saber se ela estava precisando de alguma coisa. Mas sempre voltava levando parte da miúda aposentadoria que a avó recebia. De resto, era uma vida de silêncio e de solidão.
Não tanto silêncio assim, pois quem passava pela janela sempre dizia tê-la ouvida conversando com o seu falecido: “Venha me buscar logo Totonho, venha...”. E repetia e repetia. “Totonho, meu Totonho, venha logo me buscar...”.
Dos olhos desciam lágrimas que faziam o velho rosto brilhar perante a luz entrando pela janela. Mas talvez ela chorasse mais por dentro do que por fora. Assim acontece quando a fonte de dentro é maior que o barreiro de fora.
Um dia, já ao entardecer e depois de repetir mais de dez vezes o pedido ao falecido, de repente ouviu um galope ao longe, e logo o cavalo chegando à sua porta. “Estou pronta, Totonho. Estou pronta!”. A ilusão dos adeuses.
Ali estava e ali mesmo ficou, com apenas a cadeira balançando o corpo sem vida. E balançava e balançava, lentamente balançava. A velha parecia sorrir pela partida. Já tudo no breu da noite, ainda assim dois candeeiros se acenderam sozinhos.
Uma flor foi trazida pelo açoite do vento e colocada sobre o seu peito. O silêncio parecia orar. A porta se abriu e um pedaço de luz se fez de manto àquela morte. A sala se encheu de folhagens tristes. Os bichos do mato chegaram para o último adeus. Mas coisa mais estranha ainda aconteceu.
Ao amanhecer, de repente o corpo da velha havia sumido. Até hoje ninguém sabe dizer o que realmente aconteceu. Mas dizem que um cavalo partiu da porta em disparada e foi sumindo pela estrada.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Cariri Cangaço São José do Belmonte 2018
Ao lado de Manuel Dantas Suassuna, filho de Ariano Suassuna



Guerreiro amante (Poesia)



Guerreiro amante


Eis que na minha vida vindita
veio a paz mais que bonita
trazendo na boca um beijo
e pelo corpo um tal desejo
que me fez um encantado
diante do amor mais amado

minha doce e linda e bela flor
meu escudo valente se apaixonou
da arma de guerra logo abdiquei
do sangue e do grito me afastei
e ergui a bandeira de amor e paz
como um bom amante assim faz
como o cavaleiro que ao retornar
encontra seu amor para acalantar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - canção do amor matuto



*Rangel Alves da Costa


Numa beira de estrada, lá nas distâncias o mundo, mundo sertão de arribada, mas de viver tão profundo que o amor é milagreiro e de existir tão fecundo. Casebre de pobreza e humildade, mas de riqueza tamanha que não existe igualdade. Dizer com toda franqueza, expressando toda verdade, quanto mais amor matuto mais se perfaz na beleza e na flor da sinceridade. Ninguém diz da poesia que brota a cada dia. Ele lanhado de sol, na luta desde o arrebol, de feição entristecida mas de coração rouxinol. Ela toda sem jeito, sem requebro nem trejeito, mas com um jardim no peito. Não há um dizer que te amo, não há um falar que te quero, mas o coração em proclamo diz tudo no silêncio mais sincero. Um olhar tão sertanejo que ao outro retine em lampejo, uma confissão que ao outro se faz poesia tão bela. “Minha muié venha cá, se eu pudesse remoçar e de novo namorar, seria a sua fulô que eu queria cheirar. Como o tempo já passou e sua fulô tá em mim, eu juro por Deus do céu que quero te amar sem fim...”. “Meu home num digo isso, aqui dentro um rebuliço e tu sabe que é por isso que tanto me enfeitiço, quando pega na minha mão e na cama me dá sumiço”. E assim no dia após dia, nesse amor sem fantasia, sem traição ou mentira, entre o padecer e a alegria. Um amor caboclo e matuto, mas na imensidão seu tributo, amado de minuto a minuto. Um amor café torrado, vivido e saboreado como se a sorte da vida fosse ter o outro encontrado. Um amor de amanhecer, singela luz do primeiro alvorecer, mostrando ao mundo lá fora como o amor deve ser. Ali na casinha humilde há um amor assim. O barro caindo não mostra o jardim e seu jasmim. Provado que o amor existe mesmo na seca ruim, que se ama e se revela mesmo na cama de capim. Que em meio aos abutres, se faz anjo querubim. E sei que existe sim, um amor existe assim, lá nas terras do sem-fim.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 14 de outubro de 2018

NOS CAMINHOS DA PROMESSA E DA FÉ



*Rangel Alves da Costa


Pouco mais das duas horas da madrugada e os ribombos de fogos começaram a ecoar. Após o amainar dos estrondos, logo as vozes eram ouvidas bem adiante. Diversas pessoas, muitas, que foram chegando, reunindo-se no local marcado para o início de um ofício caracterizado pela devoção, fé, crença e religiosidade do povo nordestino: caminhada em louvor a Nossa Senhora Aparecida.
Mas não uma caminhada comum, de um local a outro dentro da própria comunidade ou pelas estradas nos arredores da região, mas seguido um percurso intermunicipal de mais de cem quilômetros. Saindo dos limites das terras de Poço Redondo, no sertão sergipano, e atravessando divisas, cortando estradas, até chegar à sede do município cujo nome homenageia a Santa e Padroeira do Brasil: Nossa Senhora Aparecida.
Tal caminhada surgiu como pagamento de promessa. Após uma graça alcançada, supostamente pela intercessão da santa devotada, iniciou-se a sagrada obrigação de a todo ano, à véspera do dia dedicada à santa, seguir caminhando até o santuário naquela cidade sergipana. No ano inicial, apenas umas poucas pessoas decidiram acompanhar, mas já neste ano um grupo muito maior decidiu acompanhar o pagamento de promessa pelas estradas sertanejas da religiosidade e da fé.
Tenha-se, porém, que o cumprimento da promessa não se dá apenas com a caminhada de pessoas que vão parando para descansar assim que os cansaços e os suores da distância cheguem. Tudo é estratégica e logisticamente programada. As pessoas caminham, mas veículos de apoio proporcionam toda assistência que necessitem. Após a chegada ao santuário e os ofícios religiosos, o retorno se dá nestes veículos. Não há mais uma exaustiva e cansativa caminhada, mas apenas a boa e espiritual sensação de dever cumprido.
Mas como dito, logo após das duas da madrugada, no trecho defronte aonde me acomodo na cidade sertaneja de Poço Redondo, eis que sou acordado do sono tranquilo na rede pelos fogos e pelas vozes. Gente e mais gente chegando, tudo em preparativos para a caminhada de fé, até que todos seguiram em direção a igreja matriz. Ali foram para serem abençoados por Nossa Senhora da Conceição, padroeira local, na caminhada. Entoando cantos, levando rosários de fé, com os corações tomados pela devoção, em seguida tomaram os caminhos distantes.
Tudo isso aconteceu no último dia 11, às vésperas do Dia da Padroeira do Brasil, a Nossa Senhora Aparecida, que com sua força de transformação e de reparo nas linhas tortas da vida, torna possível que cada vez mais gente ao seu manto se entregue em busca de cura, salvação ou simplesmente para agradecer a certeza de sua intercessão. No dia seguinte já estavam no santuário. Neste dia, as promessas foram pagas, os agradecimentos chegaram acompanhados das palavras da alma.
E tanto na ida com no retorno, apenas a caminhada. Nenhum cansaço, nenhuma dor, nenhum sofrimento. Eis os caminhos da fé e da devoção.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Lembrança boa...



Coração padecente (Poesia)



Coração padecente


Meu coração
assim tão sofrido
é um tanto sertão
assim tão padecido

já não tenho lágrima
já não tenho grão
no meu coração
já não tenho alegria
desde o raiar do dia

e a mais bela flor
do mandacaru nascida
morre como o amor
que tem na ilusão sua vida.

Rangel Alves da Costa