SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 28 de junho de 2017

DE UM LIVRO ABERTO


*Rangel Alves da Costa


É sempre um erro imaginar que os retalhos da estrada não servem para mais tarde se ter a grande colcha protetora das noites daqueles simbólicos frios que acometem inesperadamente. Igualmente erro imaginar que as lições passadas não formarão um grande livro onde a experiência e os ensinamentos estarão assentados como lições para os percursos restantes.
Não há outro livro que ensine mais que a vida. Não há aprendizagem maior que a capacidade de reconhecer-se nos erros e acertos e procurar mudar ou melhorar. E aprender significa não só compreender como praticar a humildade, a simplicidade, a generosidade, o amor ao próximo.
E na vida, o tempo, o percurso, a aprendizagem também em cada passo. Quanto mais se alonga a caminhada mais o ser humano vai aprendendo a conhecer aquilo que por muito tempo tratou com menosprezo ou futilidade. E igualmente a valorizar pequenas coisas que jamais imaginou tão significativas na existência.
Confesso que quando jovem eu quis ser além de minhas possibilidades. Mas tudo era possível. Parafraseando Fernando Pessoa, porque eu era do tamanho do que desejava avistar e não do tamanho da minha altura... E assim porque sempre fui sonhador e achava que poderia transformar todos os planos em realidade.
Sorte minha que não sonhei demais. Minha vida no sertão me fez pisar no seu chão e sentir no calor de sua terra a importância de primeiro ser o lugar e somente depois o mundo. E foi a vivência do lugar, em meio ao meu povo, que muito modificou meu olhar sobre o mundo.
Relembrando Drummond, fui menino rico. Tive ouro, tive prata, tive diamante. Ter o que eu tive num sertão empobrecido é possuir uma riqueza descomunal. Nunca me faltou brinquedo, comida, roupa, sapato, brilhantina, perfume, tudo tive ao meu alcance. E poucos dos meus amigos tinham sequer a metade do que eu possuía.
Mas caminhei sem querer levar comigo todo o ouro e toda a prata. Segui na estrada sem estar acompanhado da roupa nova, do brinquedo, do presente. Eu sabia que dali em diante tudo teria que ser conseguido pelo esforço, por conta própria. Ou o suor e a sabedoria me dariam a sobrevivência ou nenhuma valia teria o que aprendi no passado.
Tais lições se impuseram em mim como norte e destino. O mundo passa a ser visto de outra forma quando se conhece os seus horizontes e se tem a certeza de que além das montanhas e montes muito desconhecido ainda existirá. Mas nada como ter consciência que a sabedoria serve apenas como passo e não como certeza de chegada.
Pessoas existem que vivem somente o momento. Outros existem que vão moldando seus destinos segundo as oportunidades surgidas. Talvez isso provoque algum bom resultado, mas nada como a noção de se conhecer aonde se quer chegar. É válido arriscar, ter encorajamento para transformar realidades, mas nada como saber que pisa em solo firme e a caminhada é por uma estrada não totalmente desconhecida.
Daí que trago das raízes primeiras a força e as lições da caminhada. Aprendi o comedimento como impulso de ação. Sei que não preciso nem posso ir além do que posso nem ultrapassar fronteiras totalmente desconhecidas. Se adiante há um horizonte e uma vastidão, sempre preciso muito cuidado em avançar pelo hostil e desconhecido.
Talvez tudo isso servisse como livro aberto perante os olhos de todos. Porém, sempre difícil de assim acontecer. Ainda negam as boas lições, deixam de dar ouvidos às sabedorias, fogem dos caminhos seguros ensinados, sempre procuram arriscar na escuridão. Por isso mesmo que de repente o penhasco se mostra em abismo e o passo já não sabe nem pode retornar.
Palavras vãs, diriam. Ora, o vento é professor, a ventania ensina muito, até a brisa sopra sabedoria. Será preciso deixar que os silêncios falem, que tenham voz, que sejam ouvidos. É no silêncio da consciência que está o grande mistério da vida: sou o que quero ser ou sou apenas o que o mundo me deixa ser?


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


A terra sertaneja sendo arada para a plantação




A lua na noite de ontem (Poesia)


A lua na noite de ontem


Demo-nos as mãos e caminhamos apressadamente
em busca de um refúgio que nos afastasse do medo
e já cansados da estrada cheia de espinhos e curvas
paramos para repousar debaixo de uma grande árvore

mas a noite avançou muito mais apressada que nós
e de repente nossos corpos já estavam tingidos de lua
tão brilhosos debaixo daquele céu de matiz estrelada
que mais parecíamos anéis dourados em noturna paz

então nos abraçamos mais e sem pressa de prosseguir
e nos beijamos mais sem ter vontade de jamais partir
e foi então que a escuridão se fez de véu por todo lugar
por que a lua imensa chamejava somente dentro de nós.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - compro ouro


*Rangel Alves da Costa


Passo pelo centro da capital sergipana e avisto pessoas envelhecidas servindo de anúncios ambulantes: compro ouro. Eis os dizeres nas placas que carregam à frente e atrás dos corpos. São idosos alquebrados, entristecidos, de olhares e feições tão vazios quanto os seus bolsos. E ali como anúncio ambulante, em situação de verdadeira humilhação, em troca de um tostão qualquer. Nada mais que isso. Dizem apenas que compram ouro, anunciam apenas que compram ouro, mas qual riqueza eles possuem, qual o quilate dourado que possuem? Nenhum. Aqueles dizeres deitados pelos ombros e encobrindo os corpos são como as antíteses da vida e da existência. É a pobreza comprando ouro, é a desvalia comprando ouro, é a miséria comprando ouro. Depois que retiram de si aqueles anúncios são apenas uns velhos, uns empobrecidos, uns sofredores que se submetem a tais humilhações para acrescer um ovo ao pão, um açúcar ao café, um pedaço de carne ao feijão. Se tiver. Mas compram ouro. Mas a realidade brasileira os torna compradores de ouro. E tudo saído da ferrugem da alma e da maresia da existência. Lamentável que assim aconteça. Mas assim acontece.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 27 de junho de 2017

NOITE DE TANTAS BOCAS


*Rangel Alves da Costa


O dia vai fechando os olhos e abrindo a boca. O pôr do sol vai deixando sonolenta a claridade. Quando o candeeiro do sol se apaga e a lua vai mansamente surgindo, então a boca da noite se abre. E se abre para beber da fresca da hora, para saborear o cheiro do cuscuz ralado, para gozar do prazer de um tiquinho de café torrado em pilão.
Assim essa boca noturna lentamente se abrindo. Mas começarei a falar dessa boca noturna através de outras bocas. Eis que a boca é a porta de tudo, é por onde se segue adiante, é onde começa outra vida ou realidade. Na boca do ventre, na boca da mata, na boca do rio, na boca da morte. E tantas bocas entreabertas esperando o momento chegar.
A boca está no poema: “Calei a boca e tomei o corpo, e como não houve mais qualquer resposta, me apossei de tudo. Do grito, do céu da boca, da boca cheia de minha boca vazia de tanto voar em beijos...”. E também no epitáfio: “Oh, lábios que agora emudecem a tristeza de não ter dito adeus!”.
No meio da noite a criança abre a boca chorosa e ecoa toda sua vontade de aporrinhar o silêncio. Ela, apaixonada, mirando o luar imenso que surge, começa soluçando para em seguida querer gritar. E mais adiante, e por todo lugar, as bocas trêmulas conversam com suas saudades, os tempos idos, as boas e dolorosas recordações.
E mais tarde, quando a solidão chega agonizante, a noite se transforma num labirinto cheio de bocas enormes, desdentadas, horripilantes, querendo sugar a quem sofre por merecer. Mas eis que chega um lábio, que chega um carinho suave fechando a boca medonha da noite e selando num beijo a felicidade do reencontro. 
Dizem que o peixe morre pela boca; o guloso também. A boca bebe a água da vidraça molhada e poeticamente deixa estampado o lábio sedento. E as tantas bocas esquecidas quando as palavras raivosas ou apressadas saem pelos ouvidos e as narinas. Cale a boca já morreu, quem manda na sua boca sou eu. Por isso vou navegá-la. Mas se a boca der a permissão, a licença. 
Mas de todas as bocas, não nego, sempre preferi a boca da noite. Desde o amanhecer ao entardecer que vou me preparando para a chegada do momento mágico, misterioso, cativante, delicioso e também assustador. Porque a boca tem face, e também a outra; é verso e reverso. E nela há uma cortina, um palhaço e uma lágrima.
Tão bela e necessária é a boca da noite que a sua chegada exige um rito todo especial. Como ritual de passagem, não é qualquer um que poderá recebê-la sem que a alma e o espírito, e tudo o mais que envolva o ser, estejam devidamente preparados. A noite doa, agracia, mas exige muito de quem irá recebê-la. Sob pena de sumir na sua boca.
Quando a tarde toma em sua mão o pincel de cores avermelhadas, e logo mais, parecendo angustiada, vai sombreando toda a tela, toda a paisagem, então logo pressinto que a noite chegará. E o horizonte vai se abrindo para o negrume descer, tudo vai sombreando ainda mais, e toco no lábio do tempo para sentir a boca. A boca da noite.
Como ainda é apenas boca quase fechada, apenas entreaberta, sem que a noite tenha chegado completamente, então passo a imaginar o que quero encontrar mais tarde. Contudo, há uma imensidão de tempo entre o sombreado da noite e o seu abraço inteiro. E o que acontecerá mais tarde certamente estará na dependência do que o corpo, a mente e o espírito sintam antes de tudo acontecer. Na boca da noite.
Por isso que a boca da noite é bela e feia, é alegre e triste, é amiga e hostil. Vem trazendo uma saudade boa, uma recordação cativante, uma vontade danada de estar ao lado de alguém importante ao coração, um desejo profundo de um diálogo amoroso, um abraço apertado, um deitar no colo da pessoa amada. Mas também o medo terrível da solidão, da certeza que novamente sofrerá olhando a lua, mirando as estrelas, viajando sem sair do lugar.
Boca da noite que vai chamando outras bocas a se abrirem para a prece, para a oração, para o diálogo sagrado perante o oratório no canto da casa. Diante da vela acesa, a boca se move em gritos silenciosos, em sussurros de fé, em palavras santas pela busca de salvação. E tudo parece ser ouvido por Deus.
Boca de uma noite faminta, de lábio vermelho, de lábio carnudo, de lábio sem cor, de lábio apenas lábio. E sonha em se abrir para receber um beijo, se sentir molhada, amada, apaixonada. Ou talvez para a palavra, para dizer que espera da noite o que o ser consciente espera da existência: ter o que merecer.
E por isso mesmo espera a felicidade. Ainda que a boca trêmula e o coração apertado pressintam que ainda não será naquela noite. Nem com outra boca.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


A mais bela e prazerosa avenida de Poço Redondo, no sertão sergipano, tem esse nome...




Tanto amo (Poesia)


Tanto amo

Amo
da manhã
ao anoitecer

sob a lua
e sob o sol
tanto amo

pois o amor
é café gostoso
é pão quentinho

pois o amor
é pôr do sol
e céu estrelado

então amo
amor amante
a cada instante.


Rangel Alves da Costa