SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 23 de março de 2019

“AGRADA-ME O SEMBLANTE DAQUELE QUE ME RECEBE COM ESPANTO BOM”



*Rangel Alves da Costa


De vez em quando me perguntam por que eu tanto gosto de visitar pessoas idosas e humildes da cidade onde nasci. E eu sempre respondo: “Agrada-me o semblante daquele que me recebe com espanto bom”.
O que isso significa? Pois bem, significa que quanto mais humildes são as pessoas, mais empobrecidas e idosas são as pessoas, mais elas gostam de ser visitadas. E em cada visita um reconhecimento de sua valia na vida.
Pessoas existem que a partir de determinados momentos da vida passam a viver como esquecidas. Quando a idade vai avançando e passam a viver mais reclusas, então é como se se tornassem esquecidas pela sociedade, até mesmo pela mesma família.
Outras, simplesmente pela precariedade dos meios de sobrevivência. A pobreza acaba afastando conhecidos e também familiares em melhores condições financeiras. Tais pessoas, apenas pelo simples fato de serem pobres, tornam-se negligenciadas pelos demais.
Quando a idade avança e a pobreza se torna gritante, então ainda surgem fatores como o abandono, o distanciamento e o esquecimento. É como se tais pessoas sequer existissem para a sociedade. É como tanto faz que ali ou acolá continuem existindo vidas humanas.
Mas não só pela pobreza, vez que tornou-se da normalidade que aquelas pessoas que já não mais convivem no meio social, não são mais ativas como noutros idos ou que já não tenham o status de antes, igualmente passem a ser menosprezadas nas suas existências.
Pessoas com tais perfis se tornam, como dito, propensas ao esquecimento dos demais. E se isso acontece até com amigos, conhecidos e familiares, que se imagine com relação aos mais jovens, que não se importam sequer consigo mesmos.
Solitárias, sempre da porta pra dentro ou na calçada de casa, quando muito recebe um bom dia ou um boa tarde de qualquer passante. E quanto mais o tempo passa mais tal situação se agrava, até chegar ao esquecimento total.
São tais pessoas que eu gosto de visitar. São tais pessoas que jamais saem do pensamento. São tais pessoas que merecem o meu passo, a minha busca, a minha palavra. E quando bato a porta: “Agrada-me o semblante daquele que me recebe com espanto bom”.
Toda vez que chego numa casa, mais próxima ou mesmo distante – e até mesmo no meio do mato ou nos beirais das estradas matutas -, sinto que a surpresa feita causa um espanto bom. Como se o visitado não estivesse acreditando naquela visita.
Chegar, cumprimentar, dar uma palavra amiga e de recordação, dizer que está ali não por acaso, mas por uma visita desde muito pensada, tudo isso provoca uma sensação indescritível aquele que geralmente tem a solidão como companhia. E que coisa boa ao espírito, à alma, à autoestima.
É como se dissesse por dentro, na voz interior, que jamais esperava que alguém se lembrasse de sua existência e ali estivesse para um proseado, para um relembrar causos e fatos passados, reabrindo velhos livros e antigos baús. O coração pulsa mais forte, os olhos chegam a brilhar.
E sempre digo que em tais pessoas sempre é possível encontrar tesouros de sabedoria. É a experiência de vida que as transforma em sábias. É na junção da escrita do passado que é possível avistar aquilo tão ricamente existente e que não existente mais perante o mundo novo. Tudo isso é imensamente enriquecedor.  
Por isso que não me canso de visitar conterrâneos nos seus casebres, atrás das portas, nas suas calçadas. Chego como amigo e sempre saiu como um discípulo que muito aprendeu naquele breve diálogo. E sempre prometo que voltarei. E sempre volto.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Outras formas de prazer (Poesia)



Outras formas de prazer


Hoje eu vi
tua nudez
mais uma vez

hoje eu senti
tua chama
na cama

hoje eu toquei
a tua flor
com amor

hoje o prazer
veio no olhar
no admirar

pois amar
não é só possuir
mas também sentir.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – agora noite, agora chove...



*Rangel Alves da Costa


Agora noite, agora chove... Não ouço o cricrilar insuportável dos grilos. Não ouço o gato gemendo no telhado. Não vejo vaga-lumes cortando o breu em instantâneos de vida. Não ouço passos nem assovios, vozes ou sussurros, mas ouço o barulho da chuva. A janela está aberta e a porta da frente também. Do telhado os pingos caem como se as frestas estivessem por todo lugar. Meu caderno de escrita molhou e já não tenho poesia para esta noite. Experimentei mais uma xícara de café e desisti de me manter aceso à custa de mais um gole. Quero dormir e não posso. Preciso dormir e não posso. Minha rede já está armada e me esperando, mas sei que não conseguirei dormir. Sem lua e sem estrelas, sem folhagens chegando pelos espaços, sem os grilos cantando a solidão, eu nada sou. Sinto-me também molhado, encharcado por dentro. E só resta uma coisa a fazer, sair porta afora e deixar que a chuva me molhe ainda mais, encharque de vez e depois me escorra pelo chão em rio. Ou assim farei ou, do mesmo jeito, ficarei: encharcado por dentro e por fora e escorrendo em mares de angústia, de tristeza e de solidão.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

sexta-feira, 22 de março de 2019

SENHORA DO MATO



*Rangel Alves da Costa


As senhoras sertanejas possuem vida dura e de sacrifícios por todo lugar, desde a cidade aos afastados da estrada e adiante das porteiras e das cancelas, ou mesmo onde o olhar sequer imagina existir moradia. Há um singelo universo nestas mulheres, sempre carentes, humildes, na simplicidade da existência.
Não é fácil ser mulher sertaneja, e mais difícil ainda quando tem de superar as perdas e as carências para que a dignidade familiar continue existindo. O marido, quando tem, ganha pouco, está desempregado ou vive de costurar afazeres para o ganha-pão. E cabe à mulher se virar como pode para que seu barraco ou sua tosca moradia continue na feição de um lar.
Luxo, que luxo? O luxo maior é o da panela no fogo com alguma coisa como alimento no dia a dia. Luxo é ter cuscuz, ter tripa de porco, ter ovos, ter farofa, ter um pedaço de carne, ter um toucinho de porco para o mexido com ovos. Luxo é ter a casa limpa, é ter um jarro de flores de plástico sobre a velha mesa, é ter uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo pendurado na parede. Luxo é ter varal no quintal e pia de lavar roupa, é ter uma cadeira de estender na calçada e um diadema para enfeitar os cabelos.
Luxo é ter uma xícara de café e um pedaço de pão, é ter uma folha de mato no quintal para fazer um remédio certeiro. Luxo é poder fugir das preocupações materialistas, das dívidas desnecessárias, e poder deitar e sonhar até com a cabeça por cima da pedra dura. Luxo é ter a cabeça erguida na dignidade e jamais se envergonhar ao dar um bom dia ou um boa tarde. Luxo é não ter vergonha de ter o singelo nome de Maria, de Joana, de Sebastiana, de Leocádia, de Lurdes ou Sinésia.
Varrer a calçada e saber que a vizinha não lhe vem com fofocas, chegar numa venda e não lhe ser negada uma compra no caderninho, vestir roupa de pano florido de feira e ainda assim ser a mais bem vestida. Tudo isso é um luxo, é uma indescritível riqueza. Uma bonança alcançada naquilo que outra serventia não tem senão à própria existência, à dignidade da sobrevivência. E por isto uma luta sem fim.
Enquanto os casarios e as mansões prezam somente pela aparência, nas casas simples e nos casebres há o encantamento maior da nobreza no jeito de ser e viver. Verdade no que se diz: sou pobre, mas sou limpinha. E aquelas mulheres, de muito além da cidade, que não se envergonham nem se negam a colocar enxada e enxadecos no ombro, faca ou facão amarrado na cintura, cantil de água pouca atravessado no peito, e depois arribar para as labutas debaixo do sol em fornalha?
E aquelas mulheres que levantam ainda na madrugada escurecida para inventar a comida do dia, deixar tudo preparado, por que daí em diante vai ser de correria pela sobrevivência e nos afastados de casa? Conheço mulheres assim, conheço sertanejas vestidas de sol e de sonhos, de luta e de perseveranças. Conheço mulheres que saem de suas casas para a luta do dia no meio do mato, no roçado, junto ao bicho, em meio às pedras e carrascais catingueirentos.
Conheço mulheres assim, com lenço na cabeça, com roupa grande para proteção, como roló revestindo os pés, com calça costurada de espinhos e ramagens de mato seco. Conheço uma senhora do mato que é a dignidade em pessoa. Muitas, e muitas mulheres assim. A pele trigueira tingida de sol, as mãos endurecidas do cabo da enxada, os cabelos desgrenhados pela voracidade do tempo e pelo suor e calor. Senhora do mato que vai buscar lenha, que vai com cordame amarrar feixe de pau, que vai com vara futucar loca de pedra em busca de preá, que vai catar araçá e umbu, que vai dialogar com a natureza a sua necessidade de sobrevivência.
E depois de tudo, depois de retornar das labutas no mundo lá fora, e parecendo jamais se cansar, ter ainda o prazer de ligar o radinho de pilha para ouvir: “Tens a beleza da rosa, uma das flores mais formosas. Tu és a flor do meu lindo jardim e eu a quero só para mim. O teu suave perfume às vezes causa-me ciúme. Ao te beijar sinto no coração o pulsar da mais pura paixão. Porém, tenho medo que tua beleza de rosa se transforme num espinho. Quase morro só em pensar em perder teu carinho. Tenho medo que esta paixão seja uma ilusão sem fim, tenho medo que não sejas a flor do meu triste jardim”.
Não só ouvir como cantar, e um canto tão belo e reconfortante como som de chuva esperançosa de cair no seu mundo-sertão. E eu, sertanejo que também sou, digo-te apenas, senhora do mato: Beijo-te as mãos endurecidas da luta e sinto estar beijando pétalas da mais linda flor!


Escritor
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Lá no meu sertão...


Distantes são os caminhos sertanejos...





Coração sertanejo (Poesia)



Coração sertanejo


Gosto do silêncio
das noites de lua
e das cigarras
pelos negrumes

a tudo eu vejo
ouço e sinto
na rede armada
no alpendre

tenho um sol grande
e chão ressequido
sem flor e sem grão
ao desvão

a tudo eu vejo
e sinto no olhar
o que pulsa no coração
tão sertanejo.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – a lagarta e a borboleta



*Rangel Alves da Costa


Não, não é metamorfose da natureza, não é normalidade de transformação no reino animal. Quando a lagarta se transforma em borboleta, ou quando o casulo vai se abrindo para, num processo de mutação, ganhar outras até se transformar num dos seres mais belas da natureza, também está nos instigando a muita coisa: preconceito, discriminação, negação, aceitação, verdade interior e exterior. Ora, que coisa mais feia, mais asquerosa, mais nojenta é a lagarta. Ora, que coisa mais linda, mais colorida, mais convidativa ao olhar é a borboleta. E por que não à lagarta? E por que sim à borboleta? É que o ser humano é a negação de si mesmo. O ser humano é um falso, um fingido, um reles mentiroso. Nega a lagarta por que ainda não é borboleta. Olharia a borboleta com outro olhar se numa de suas asas ainda restasse uma aparência do ser que lhe originou. Não adianta dizer que não. Nega o feio por que é feio. Aceita o belo por que é belo. Assim também no tratamento com outros humanos, pois nada mais somos, segundo nossas aparências, que lagartas e borboletas.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com