SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

ENTÃO SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA...


*Rangel Alves da Costa


Nas plagas sertanejas, contudo, história contada e recontada, passada de boca em boca, possui a denominação de causo ou proseado. São, pois, os causos e proseados que tanto povoam e animam os diálogos matutos debaixo de pés de pau ou nas calçadas ao entardecer. Certamente que nem tudo pode ser tido como veracidade – e na maioria não passa de lorota -, mas ainda assim o surpreendente em cada nova estória (ou história) transmitida.
Neste sentido é aqui adiante segue uma junção de causos e proseados, todos oriundos da mesma fonte, envolvendo “conversas” de caçador, sempre tão intrigantes quanto aquelas de pescadores. Tenha-se, contudo, que nem tudo pode ser tido como invenção ou mentira, pois no mundo sertanejo há mesmo o espantoso, o fantástico e até o impensável. De resto, depende muito de quem escuta e a crença que tenha.
Disse Bastião que suas caçadas sempre se deram no meio da noite adentrando a madrugada. E quase sempre apenas na companhia de seu cachorro. Nunca temeu se embrenhar na mata no meio da escuridão, mas em algumas situações já se deparou com situações de arrepiar os cabelos. Por mais encorajamento que tivesse, difícil não temer o pior perante certos inusitados.
Certa vez, disse ele, sozinho no mato, em noite fechada, seguindo numa vereda conseguiu avistar alguém vindo logo adiante, em sua direção. Estradinha estreita, sem caber os passos de duas pessoas, quanto mais o vulto de um homem alto e magro se aproximava mais ele sentia que tinha de dar passagem, pois não parecia que o estranho viesse com intenção de afastar nenhum tantinho do meio do caminho.
Então Bastião teve de sair para a passagem do outro. Em silêncio vinha e em silêncio passou, sem que pudesse sequer avistar a inteireza de sua feição, dado o sombreado que lhe tomava de corpo inteiro. Que coisa mais esquisita, pensou o caçador. Como é que um cabra passa assim por outro, num meio de mundo desse e nessa escuridão toda e sequer cumprimenta, começou a indagar. Foi quando sentiu que seu cachorro sequer tinha latido ante a presença do estranho. Então disse a si mesmo, procurando logo se afastar: Só não é gente desse mundo!
Visões de coisas do outro mundo são constantes durante as caçadas noturnas, assegurou Bastião, e muito mais se o encalço catingueiro envolver veado. Não há animal de caça que traga mais problema ao predador humano. Então contou sobre o acontecido com outro caçador conhecido seu que subiu numa árvore de copa larga e galhagem vasta para tocaiar o bicho. Subiu, se ajeitou, e ficou espiando mais abaixo, na direção da passagem. Estava tão entretido observando a movimentação lá embaixo, que quase nem percebe quando outro caçador subiu na mesma árvore e se posicionou bem ao lado.
Não demorou muito e ouviu do estranho que o veado já estava chegando. Dito e feito. Logo o animal surgiu com olhos brilhosos no meio da noite. Então o estranho mandou que mirasse para atirar, mas o caçador relutou e pediu para que o outro mesmo fizesse o serviço. Este rejeitou pedindo que atirasse logo, sob pena de fuga do bicho. Sem mais a fazer, deu um tiro certeiro. Mas logo em seguida ouviu do estranho que se preparasse novamente, pois outro veado estava chegando. Achando estranha demais aquela situação toda, o caçador exigiu que dessa vez o outro mesmo atirasse.
Contudo, não houve jeito de o estranho fazer mira. Coube ao caçador novamente apontar e derrubar o segundo veado. Depois disso, quando disposto a saber quem realmente era aquele sujeito aparecido assim de repente e tão conhecedor de caçada, nem precisou fazer qualquer pergunta. O estranho adiantou-se e falou: “Quando eu era vivo era aqui que eu mais caçava”. E depois desapareceu sem descer da árvore. Apenas sumiu do local onde estava.
Outro causo intrigante também envolvendo caça ao veado foi relatado por Bastião. Disse que um conhecido seu matou um veado, levou a presa morta à casinhola onde morava, abriu o bicho, separou a carne do couro e estendeu o focinho numa ponta de pau adiante. Mandou a esposa preparar parte da carne para o almoço. Ao retornar, contudo, o focinho havia sumido. Estranhou demais tal acontecido, mas imaginou que outro animal tivesse passado por ali e abocanhado. Então esperou o almoço ficar pronto e comeu daquela carne nova. Daí em diante se sentiu tomado de febre, tremores frios e dor de cabeça. E não houve remédio que desse jeito.
Como nem a farmácia nem a medicina resolvia o problema, a saída que encontrou foi procurar um rezador. E assim fez. Quando chegou à casa do homem nem precisou abrir a boca. O rezador logo perguntou se ele havia matado um veado e comido de sua carne e desse dia em diante nunca mais teve saúde. Espantado com tamanha revelação, o caçador confirmou, para ouvir em seguida: “Aquilo que você matou não era um veado não. Foi um cavalo do cão. E se quiser continuar vivendo de agora em diante nem pense mais em caçar qualquer bicho. Pegue sua espingarda e dê fim. Do contrário será o seu fim”.
E assim prosseguia Bastião, deleitando os presentes com suas histórias. E sobre se o homem deu fim à espingarda e nunca mais caçou? Ora, para caçador tanto faz a vida do bicho, mas a sua procura garantir de todo jeito.


Escritor
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Lá no meu sertão...






Olhai os lírios do campo (Poesia)


Olhai os lírios do campo


De roupa de chita vá
pois os que não vão
não têm a sua beleza
nem sabem o valor
da singela humildade

que aqueles olhos
olhem os lírios do campo
e avistem na pureza
toda a beleza da vida

então vá de chinelo
pois aqueles de salto alto
haverão de tropeçar
ante seu pé tão macio
e adornando de pele

e que aqueles olhos
vejam os lírios do campo
e vendo o que é a vida
sintam o nada no ouro.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - patético


*Rangel Alves da Costa


Não. Certamente que no Brasil não há nada a preocupar sua população, não há nada de importante a divulgar pela imprensa do que patetices extremadas. Uma imprensa que se dá ao trabalho de divulgar idiotices não poderia ter outra denominação senão a de estúpida. Veja só uma chamada no G1: “Altas Horas mostra semelhança entre cãozinhos e seus donos”. E no texto diz: “No espírito do quadro Dizem que me pareço com..., o Altas Horas foi às ruas para saber o que as pessoas têm em comum com os seus bichinhos de estimação. E não é que eles têm muito mais em comum do que a gente imagina?”. Gatos parecendo com suas donas, cachorros parecendo com os seus donos, a bicharada tomando a forma humana por que assim a imprensa quer. Patético, simplesmente patético. Por que o Altas Horas não foi às ruas perguntar o que a população está achando dos constantes aumentos do gás de cozinha, das tarifas de energia elétrica, dos produtos nas feiras e nos mercadinhos, do aumento da gasolina? Não. A preocupação é se o pelo da luluzinha da madama se parece com o de sua dona. Cada uma!


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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

POÇO REDONDO, CORDIAIS SAUDAÇÕES!


*Rangel Alves da Costa


Poço Redondo, cordiais saudações! De início, peço que não se incomode com palavras tão apressadas e dizeres que não traduzem meus reais sentimentos. Pois saiba, minha querida Poço Redondo, que o amor nunca é demonstrado na sua verdadeira plenitude.
Você é uma moça bela, linda, lindíssima, minha querida Poço Redondo. Filha de um sertão de luta, queimado de sol, ainda assim demonstra na sua face um sorriso tão singelo que poucos conseguem avistar. Porém confesso, minha Poço Redondo, muitos que vivem sua vida simplesmente a ignoram.
Sua beleza é um mistério, querida Poço Redondo. Seu fascínio é inexplicável, minha Poço Redondo. Tanta magia e encanto nascidos da própria raiz de onde vingou, pois muito já fizeram e ainda fazem para que perdesse de vez toda a sua formosura.
Que coisa mais estranha, minha Poço Redondo. Jamais consegui entender como pessoas existem que ao invés de valorizar sua beleza e acrescer mais encantos, simplesmente torcem para que se enfeie, para que definhe, para que fique desastrosa aos olhos estranhos, e até daqueles do próprio berço.
Olho você tão bonita, querida Poço Redondo, e logo me lembro da história daquela menina tão linda que vivia à janela. Era tanto ciúme mais tanto ciúme, que aqueles que não a conheciam logo imaginavam que era a moça mais feia do mundo. Veja Poço Redondo, o que são capazes de fazer.
Mas aquela menina tão linda, e tão bonita que era, era como flor em primavera que nenhum outono lhe mudava a feição. Assim também com você, minha querida. Por mais que digam isso e aquilo, por mais que neguem ou reneguem sua beleza, jamais deixará de ser tão maravilhosamente bela aos olhos de quem a ama.
Contudo, juro que temo muito. Não sei bem o que acontece, mas a continuidade de sua beleza se deve muito mais ao que já tem sobre si do que mesmo a qualquer mão que chegue ofertando uma graça nova. Parece mesmo que ninguém quer ajudar você a ser cada vez mais bela.
Sobre você, de vez em quando me dizem muito. E de repente fico até entristecido pelo que ouço. Dizem que você anda descuidada, sem o devido cuidado com a aparência, entristecida como se ao relento estivesse. Mas o que fizeram contigo, querida Poço Redondo, para que renuncie assim à sua grandiosidade?
Sei que veste roupa nova, de chita, de cores belas. Mas somente a roupa não é tudo não, minha querida Poço Redondo. Cadê o cuidado com o restante das belezas que possui? E logo você que jamais deixou que a humildade fosse motivo para esconder o melhor e mais belo que possui. Reencontre-se, revista-se de canto novo, minha bela.
Sim, minha querida Poço Redondo, afeiçoa-se àqueles lírios do campo que a Bíblia tanto ensina. Você, na sua humildade, no seu jeito simples e sertanejo de ser, nos seus pés descalços e suores na pele, em suas mãos calejadas e mormaços na face, ainda assim a mais bela entre todas. Olhai os lírios do campo, minha Poço Redondo, e logo sentirá que sua feição brilha mais que todo o ouro de Salomão.
Oh minha querida, como eu gostaria de estar sempre ao seu lado para viver os seus dias. Mas juro que não posso. E por isso mesmo transbordo de tanta saudade. Perante a sua janela, diante de sua porta, perante cada canto de sua existência, eu seria um enamorado poeta a cantar suas belezas sem fim.
E declamando todo o amor sentido, certamente eu diria: Abraço-te minha querida, a ti entrego minha vida, pois um filho apaixonado é mais que enamorado para ser seu defensor, e lutando com todo amor, cuidar de você como flor, e amando cada vez mais, seja na alegria ou na dor...
Despeço-me, minha bela Poço Redondo. Mando um abraço ao filho, mando abraço ao irmão, abraço todo o sertão!


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com 

Lá no meu sertão...


Em Poço Redondo/SE, Naní e a melhor cocada do mundo



Para a eternidade (Poesia)


Para a eternidade


Não, não perdi o amor
para estar com saudade

o amor não está aqui
mas retornará numa tarde

e mesmo que nunca chegue
digo na certeza e sinceridade

amei demais e o suficiente
para ter o amor em eternidade.


Rangel Alves da Costa