SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 22 de julho de 2019

SER APENAS O QUE SOU



*Rangel Alves da Costa


Ser apenas o que sou. E apenas isso. Ser minha própria imagem e semelhança. Ser apenas o que gosto de ser, o que gosto de fazer, o que me traz praz e contentamento.
Eu bem que poderia estar pisando no asfalto, passeando pelos shoppings ou pelos calçadões, mas eu estou aqui.
Eu bem que poderia ser adorador do terno e da gravata, devoto do anel no dedo, abnegado ao termo “doutor”, mas eu estou aqui do jeito que você é e como você está.
Eu bem que poderia chegar, fazer o que eu tenho a fazer, e depois simplesmente partir, mas eu vou onde você está.
Eu bem que poderia simplesmente passar por você, fazer que nem lhe reconheço mais e seguir adiante, mas eu lhe conheço sim, falo sim, abraço sim.
Eu bem que poderia caminhar pelas rodas de um carro, avistar o mundo atrás de um vidro fumê, sequer buzinar perante sua presença, mas eu vou caminhando e sorridente até onde você estiver.
Eu bem que poderia não me esforçar para lembrar o seu nome, mas sinto necessidade de lhe chamar como é conhecido e relembrar sobre tudo o que sei.
Eu bem que poderia não ir além do centro da cidade, não adentrar em ruelas, não visitar o chão batido, não avistar a pobreza, mas de nada disso eu sou distante.
Eu bem que poderia dizer além do que sou, subir estrelas em pedestais, mas bem sei que à escada sobe-se através do chão.
Eu bem que poderia não ser como sou e forjar ser outro, mas outro eu não sei ser. E principalmente ser diferente daquele em mim tanto gosta de povo, gente, de terra e de chão.
Eu bem que poderia negar minhas origens, omitir minhas raízes, ocultar de onde vem e por onde escorre o meu sangue, mas meu orgulho é ser sertanejo.
Eu bem que poderia aprender a dizer sempre não, mas não sei, mas não sei fazer assim, e tudo faço para dizer sempre sim.
Eu bem que poderia não estender minha mão à mão calejada de luta, fingir que não conheço o de roupa rasgada ou de pés descalço, fazer de conta que não é do meu mundo aquele mais desvalido, mas eu já não seria eu, e em mim eu já não estaria.
Eu bem que poderia pedir cardápios, conhecer as cartas de vinhos, mas prefiro o sabor e o prazer de uma comida de cozinha simples, principalmente se feita em panela de barro e saboreada na gulodice.
Eu bem que poderia escolher um perfume importado, de nome difícil, mas sei que o seu aroma não se compara ao cheiro da pele do jeito que a pele é.
Eu bem que poderia não ter muito tempo nem para a lua nem para o sol, bem como não dar muita atenção às flores dos beirais das estradas e aos calangos em cima das pedras, mas converso e dialogo com tudo isso.
Eu bem que poderia ser diferente. Mas eu sou apenas eu. E um igual a você.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Tempo, tempo...



Uma casa velha (Poesia)



Uma casa velha

                                               
Era uma vez
uma casa velha de portas fechadas
de janelas fechadas e sem voz ecoando

era uma vez
um silêncio e uma solidão na casa velha
que fazia entristecer quem ela olhava

era uma vez
uma ventania querendo entrar
pelas portas e janelas da casa fechada

era uma vez
um graveto de pau e uma folha seca
querendo morar naquela velha casa

era uma vez
uma moça bela ao entardecer na janela
e cheiro de café torrado vindo da cozinha

era uma vez
o meu amor que um dia se foi embora
e minhas mãos fechando a casa e partindo.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - olhe a bunda dela



*Rangel Alves da Costa


Creio ser indiscutível que a maioria das mulheres brasileiras gosta de expor seus atributos físicos. Desde muito que o Brasil, lá fora, é reconhecido e lembrado pelas dadivosas ancas femininas. Diga-se, de antemão, não ser exagero ou tara masculina, vez que, como se diz, muitas fazem por onde. Exemplo disso está em grande parte das fotografias postadas nas redes sociais. A mulher esconde tudo, mas não a bunda. A mulher se retorce toda para empinar a bunda. A mulher se posiciona perante o espelho para dar um melhor ângulo ao tamanho da bunda. E, muitas vezes, posta só o formato da bunda mesmo. Quer dizer, a bunda parece ser aquilo que mais se deseja mostrar. E mostra mesmo, à vontade. Algumas até fazem enchimentos para que o bumbum pareça ser mais volumoso e atraente. A cultura da bunda. Apenas isso.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 21 de julho de 2019

AMIGOS E AMIZADES



*Rangel Alves da Costa


Amigos e amizades são temas que possuem aparência compreensível demais, mas cujo aprofundamento revela feições bem mais delicadas. Ter um amigo não significa ter sua amizade. Amizade é interior, enquanto o amigo pode estar apenas exteriormente. Por consequência, a amizade é algo muito mais difícil de ser conquistado do que um amigo.
A amizade se mantém, não se detém. Mas só se consegue manter amizade quem também sabe manter uma necessária distância do amigo. Amizade em demasia acaba provocando expectativas que nenhum amigo poderá sempre retribuir. E na falta da sempre esperada retribuição, logo o desgaste e o distanciamento.
Erroneamente, pessoas confundem amizade com cumplicidade, com confessionário, com revelações de toda a sua vida e todo o seu viver. Nem sempre confiam em familiares ou em pessoas de mais idade que estejam aptas a ouvir e aconselhar, mas tudo revelam às amizades, principalmente àquelas mais recentes. Ora, as recentes amizades mais parecem descidas do céu. Um erro. Um grande erro.
Amizade não se contenta em apenas fofocar, em revelar segredos amorosos, em dar as mãos para farras, bebidas, noitadas. Pessoas assim até se tornam íntimas, mas não amigas. Isso ocorre muito nas novas amizades. E amizades novas geralmente surgem entre pessoas que não tinham proximidade, pouco se falavam, pouco se conheciam. E por que, de repente, essa pessoa se torna a pessoa mais acreditada no mundo?
Logicamente que mais um erro no que se tem por amizade. Na verdade, determinadas amizades surgem como entrega absoluta entre pessoas praticamente desconhecidas. E se já conhecia, por que não nutriu amizade? É algo surgido como fantasia, como encantamento, como verdadeira magia. E logo será dito que Deus no céu e a amiga na terra. Uma pessoa conhecida de poucos dias e já tornada a mais importante do mundo. E não raro que logo vem o coice e a queda.
Toda amizade vai sendo construída no tempo e mantida na confiança. Não existe amizade de momento. O amigo sempre é, sempre está, sempre permanece. Por isso mesmo que é fácil perceber o que motiva uma amizade duradoura. As pessoas não se traem por que se confiam, as pessoas não se usam por que se respeitam, as pessoas já se conhecem de tal modo que cada uma conhece muito bem os limites.
Não é necessário que a todo instante a amizade vá sendo demonstrada. Ótimas amizades existem que até pouco se encontram, pouco se falam, mas cuja força é percebida em determinados e difíceis momentos da vida. O bom amigo chega na hora da necessidade, da precisão. Mas a amizade nutrida na intimidade não tem esse compromisso. A intimidade apenas busca um proveito pessoal, de segredos e revelações, mas não de estender a mão e até fazer sacrifícios quando o outro necessitar.
A amizade nutrida apenas na intimidade é de fragilidade tamanha que amanhã poderá se tornar em inimizade de fogo a sangue. Por quê? Ora, pelas fofocas, pelas conversinhas, pelas revelações, pelas traições. E bem feito que assim aconteça. Há gente que prefere acreditar no desconhecido a ter confiança naquele que sempre esteve ao lado, que já conhece seus atributos de caráter e honra.
Tudo pode acontecer. Pessoas existem que não são amigas nem de si mesmas. E estas não servem para fazer amizade com absolutamente ninguém. Contudo, não é fácil perceber. Resta ler as muitas ou poucas páginas de sua história e observar se prefere andar com lobos ou cordeiros.
Nunca espere, contudo, que sua vida dependa de um amigo. Nunca se sabe o que virá. Aquele que se mantem oculto de repente chega para servir muito mais que o outro ali ao lado, que sempre se disse à disposição. Assim acontece pelo fato de ser sempre mais fácil dizer do que fazer. Na hora da necessidade, então se pergunta aonde foi aquele que estava ali.
Contudo, é preciso acreditar nas pessoas. Também necessário que as pessoas creiam na existência de grandes e verdadeiros amigos. Ao menos para fazer valer a beleza dos versos da canção: “Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração...”.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Mas sempre sertanejo...



Apenas você (Poesia)



Apenas você


Tua voz
apenas uma palavra
o teu mar
apenas um teu olhar
a tua pétala
apenas a pele tua
um carinho
apenas o teu abraço

nestas noites frias
queria apenas você
apenas você.

Rangel Alves da Costa