SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

LIMPEZA GERAL



*Rangel Alves da Costa


Fruta podre apodrece toda a fruteira, diz a sabedoria popular. O mal deve ser extirpado de onde ele surja para salvar o restante. É uma questão de extirpar o imprestável para salvar o que ainda tenha valia.
O que não nos anima, também não nos alegra e não nos contenta, deve ser afastado em nome do prazer pela vida. O viver não suporta ser dividido com metade de dor e outra metade de sofrimento.
Por que continuar aceitando o convívio com a erva daninha, com o imprestável, com o que ao invés de florescer e frutificar se presta apenas a definhar a existência? Será preciso separar o joio do trigo.
Por que continuar alimentando o mal no compartilhamento daquilo que não se presta a nada de bom? O mal compartilhado é mal que vai se enraizando ainda mais.
Pessoas que fazem sofrer, que são negativas, que exalam odores de impurezas de espírito, que atrasam a caminhada ao que seja bom e vão levando aos beirais do abismo, estas não possuem serventia alguma.
E conhecemos muita gente assim, convivemos e suportamos muita gente assim. Mas vale a pena continuar negativando a si mesmo pelo lado sempre negro do outro?
Vale a pena deixar de caminhar, de ser feliz, de cantar e voar, apenas por que não quer deixar para trás aquilo que tudo faz para a sua infelicidade?
Vale a pena continuar segurando a mão de quem deseja lhe afundar para depois alcançar saída subindo nas suas costas?
Ou, como diz ainda a lição popular, vale a pena querer transformar em flor aquilo que nasceu para ser eternamente pedra?
Vale a pena abrir portas e janelas a quem se compraz em viver na escuridão e ao breu também levar todo aquele que lhe queira ajudar?
Pau que nasce torto, no encurvamento total morrerá. Defeito de fábrica não se conserta com a cola da paciência nem com o desejo de ajudar.
Infelizmente há gente que nasceu para o lado negativo da vida e vive sentindo prazer em trilhar para o mal, para a imprestabilidade, para fazer somente o que não presta.
Sente orgulho em ferir, sente prazer em menosprezar, sente conforto em arruinar. Há muita gente assim, uma gente de plena falsidade, de plena maldade, de plenitude da imprestabilidade.
Pessoas que olham querendo envenenar, que tocam querendo apunhalar, que falam querendo destruir. Pessoas que são inimigas enquanto revestidas de sorrisos, abraços e palavras. Tudo falsidade.
Vale a pena compartilhar a já tão difícil existência com pessoas assim? Creio que não. E não vale pelo fato de a pessoa ter de escolher os caminhos que sigam adiante, e não aqueles que recuem ou possam levar ao abismo.
Por mais que doa, por mais que surja algum sofrimento, o afastamento de tais pessoas torna-se tão necessário como urgente.
Ou a pessoa se afasta ou continuará comendo do mesmo farelo, do mesmo esterco, do mesmo esgoto. Quem com porcos se mistura, um dia vai exalar a mesma putrefação do chiqueiro.
Ou a pessoa se afasta ou logo já será tarde demais para salvar o que lhe resta de honradez e prazer pela vida. E fugir do submerso para a superfície, do abismo para a luz.
Urge, pois, uma limpeza geral. E tanto moral como espiritual. Que o mal continue se alimentando de sua própria maldade e que no abandono e na dor se destrua.
Mas distante - e bem distante - de quem já abriu a porta para os bons e ensolarados caminhos da vida.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...



FELIPE E RANGEL - Há contentamento maior do que receber a visita de uma criança linda e maravilhosa igual a Felipe Lameu? O pequeno Felipe Lameu, Rei do Xaxado de Poço Redondo - e já trazendo consigo a responsabilidade de manter vivas nossas tradições culturais - causa-me um encanto tão profundo que de repente me vejo como um fã perante sua estrela. E ele é uma estrela sim, um astro de sorriso belo e cativante, um ser iluminado e de futuro igualmente brilhante. Que estejamos sempre juntos, amigo Felipe!




Traição no motel (Poesia)



Traição no motel


Que coisa mais estranha
mas desse mundo só de manha
que dois casados
pulassem o muro apaixonados
e arriscando entre o doce e o fel
satisfizessem seus pecados em motel

ela dizendo ser muito bem casada
com o marido se mostrando apaixonada
mas na surdina só tramando traição
e a outro se entregando com vontade
de mostrar que não há mais fidelidade

ele jurando à sua esposa eterno amor
tão recatado que se imaginava de pudor
mas fora de casa sua máscara ia ao chão
à sua amante jurando amor e até paixão
e os dois vivendo em dupla traição
só o motel testemunhando tal desvão

mas uma noite tudo deu reviravolta
defronte o motel a traição deu sua volta
quando saíram encontraram uma surpresa
os dois traídos ali juntinhos em beleza
para espanto dos amantes traiçoeiros
no motel os dois entraram bem ligeiros.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - minha tia que mijava em pé



*Rangel Alves da Costa


Somente homem mija em pé. É assim que costumeiramente se diz. Acaso o homem urine de cócoras logo vem a galhofa: é mulherzinha, é mulherzinha! Mas minha tia mijava em pé e não estava nem aí. Aliás, nem se escondia pra deixar o mijo descer. Logicamente que eu achava aquilo tudo muito estranho. Mais de vez fiquei me perguntando o por quê de ela fazer assim, principalmente porque eu pensava que toda mulher só urinava acocorada, fosse no urinol, no vaso sanitário ou mesmo no matinho. Contudo, minha tia insistia em quebrar toda lógica e toda regra. Não era sapatona, como se diz. Também não possuía qualquer problema nas juntas que dificultasse o acocoramento. Certamente nunca havia recebido bote de cobra enquanto fazia o serviço no meio do mato. E mais: já envelhecida e continuando a mijar em pé. Bastava se afastar um pouco, chegar num canto de quintal e começar a mijar. Certamente não usava nada por baixo. Uma coisa é certa, nunca balançou nada depois de urinar. Apenas mijava em pé e pronto. Ainda hoje, já depois de mais de dez anos de seu falecimento, eu ainda a recordo no canto da cerca. E o mijo desabando até molhar o chão.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 16 de dezembro de 2018

MAIS DO FEIJÃO DE CORDA COM CARNE DE BODE



*Rangel Alves da Costa


No intuito de publicação em jornal impresso, o texto foi acrescido e agora republicado, mas continuando com a mesma gostosura, aroma e sabor. E uma vontade danada de querer fazer bolo de feijão, molhar na pimenta e mastigar sem pressa nem medo de engordar. Segue, então.
Não sei por qual motivo ou mistério, mas a verdade é que logo cedinho me veio um cheiro perfumado e temperado de feijão verde de corda com carne de bode. E no cheiro da panela fervendo, da comida pronta, daquele tempero autenticamente sertanejo, também uma vontade danada de comer.
Que coisa mais estranha, aprazível e apetitosa. Mulher grávida é que de repente inventa de estar sentindo esses cheiros e logo vem com inesperados desejos. Belânio de Queremilda se viu feito doido quando em meio a madrugado a mulher grávida desejou comer sopa de cabelo de boneca de milho. Ele então disse que ia à roça e nunca mais voltou.
Tais coisas acontecem, é verdade. Mas comigo foi coisa de estranhar mesmo. Dependendo da fome, até que seria normal sentir cheiro de cuscuz, de tripa, de café, mas por que logo de feijão de corda com carne de bode, como alimentos únicos e inseparáveis naquele momento? E tão cedo era que ninguém da vizinhança poderia estar preparando aquele tipo de comida. Feijão de corda cozinha rápido, carne de bode não demora muito para ficar no ponto de comer e se lambuzar.
O problema era o cheiro, o aroma temperado tanto do feijão como da carne. Era como se eu estivesse numa cozinha e já destampando a panela para sentir pelo ar aquela quentura balsâmica subindo e subindo, sendo completamente tomado pelo prazeroso perfume sertanejo. Um cheiro verdoso, temperado, apetitoso. O outro cheiro oloroso, acentuado pelos temperos, enchendo a boca de água e o estômago desejoso de saborear.
Já imaginaram: feijão de corda verdinho, novinho, preparado no tomate e cebola e recebendo um pouco de coentro já em ponto de ser servido. Já imaginaram: uma carne de bode carnudo, recém-chegada da banca da feira, lavada e bem lavada, cortada e colocada na panela com todos os temperos existentes na cozinha sertaneja. Colorau, tempero, alho, cebola, pimentão, tomate, e mais e mais. E depois deixar que o fogão de lenha ou a gás cuide do resto.

Tanto o feijão de corda como a carne de bode é de cheiro inconfundível quando está cozinhando, e também depois de pronto para ser servido. Fácil demais comprovar. Basta levantar a tampa da panela uns dois minutos depois de o fogo já estar desligado. A pessoa come ali mesmo, só com o cheiro, sem precisar de prato, garfo, colher, nada. Muita gente até despeja numa xícara o caldo ralo do feijão e bebe de se fartar. Com tiquinho de farinha também desce bem.
 Mas naquela hora da manhã - bem antes das oito - era como se eu estivesse à mesa e tendo um prato já devidamente preparado com tais iguarias. E mais: com um tiquinho de pimenta ao lado para molhar e dar um sabor mais picante ao feijão. A pimenta, aliás, faz parte desse trio de gulodice: não há feijão de corda com bode sem que o molho de pimenta esteja intrometido. Para muitos, o verdadeiro sabor vem do caldo da pimenta logo ao lado.
O sertão conhece muito bem essa história. Os de mais idade (e talvez alguns jovens) algum dia já experimentaram o feijão de corda comido em bolo. O prato é preparado normalmente, com feijão, farinha e carne, mas ao invés do garfo ou colher, a pessoa mete a mão no prato e começa a amassar a comida até formar um bolo. Depois é só levar o bolo de feijão à tigelinha de pimenta amassada no caldo do próprio bode e comer. A coisa melhor do mundo.
Realmente, comida da terra, quando sertaneja mesmo de nascença, jamais deveria ser saboreada através de garfo, faca ou colher. Na mão mesmo, fazendo bolo, passando no caldo da pimenta e comendo. Por isso que o Velho Titó antes da assentada mandava preparar a rede na varanda. Fartava-se no feijão de corda com bode e pimenta, depois mordia um pedaço de rapadura e ia sonhar comendo mais na rede logo adiante.
Sim, mas voltando ao cheiro sentido esta manhã e o meu desejo crescente de comer feijão de corda com carne de bode, peço apenas que me convidem para um simples regabofe no próximo final de semana, a partir de sexta. Não precisa nem garfo, faca ou colher. Já sabem por que.
Já sinto cheiro de sertão, de comida de feira, de regabofe sem igual. Para os apreciadores de uma cachacinha com raiz de pau, nada melhor que molhar o bico antes de encher o prato. E comer de se fartar. Uma coisa tão simples, pois apenas feijão verde, carne de bode e pimenta, mas o mais apreciado dos pratos.
Talvez Belânio de Queremilda não fugisse da casa caso a esposa grávida lhe pedisse uma comida autenticamente sertaneja. Mesmo no meio da noite ou madrugada, certeza de ele ir certeiro e prazeroso atrás de uma buchada, de um sarapatel, de um mocotó, mas principalmente de feijão de corda com carne de bode.
E duvido que ele não comesse muito mais que ela..


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Feição sertaneja!



Na janela (Poesia)



Na janela


Da janela o mundo se descortina
a vida se mostra sem frestas
e os horizontes são alcançados

eu vi um passarinho voando
eu vi uma folha seca passando
eu vi a ventania soprando
eu ouvi uma velha canção ecoando
eu senti minha avó chamando
eu ouvi meu avô aboiando
e também o tempo esvoaçando

no distante menino que sou agora
só tenho comigo a janela aberta
e o que ainda posso ter na recordação.

Rangel Alves da Costa