SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 2 de abril de 2020

TOCAIAS (SUA SERVENTIA NA HISTÓRIA)



*Rangel Alves da Costa


O jagunço Zeferino passou dois dias e meio entocado no mato. Mato fechado, de beira de estrada, sem que ninguém o visse acaso por ali passasse. Na solidão dos instantes, sua companhia era apenas o rifle. E pronto pra cuspir fogo. Mas em quem?
Caitité, um pobre coitado que não tinha onde cair morto, então foi se aproximando do lugar onde o jagunço estava. Sequer poderia imaginar que por ali estivesse alguém, quando foi surpreendido por um balaço. Um só e já caiu morto.
Motivo da morte: tinha uma nesguinha de terra, coisinha miudinha mesmo, bem ao lado do latifúndio do Coronel Cirineu Aroeira. Como não quis vender a preço de banana, o vizinho potentado então mandou matá-lo. E em seguida enxotaria da casinha a viúva com o filho de colo. Depois se apossaria do terreno.
Cachorrão, jagunço vesgo e de má-fama entre todos os matadores, prometeu ao coronel que nem precisava esperar muito pra jogar a seus pés a orelha de seu desafeto maior: o coronel Epaminondas dos Oiteiros. Sabia a hora que o inimigo de seu patrão iria passar com seu alazão na estrada. E foi só esperar o alazão virar a curva.
Epaminondas nunca andava sozinho, pois justamente pelas muitas inimizades que possuía. Um ou dois jagunços sempre estavam andando ou galopando ao seu lado. O problema é que tinha uma quenguinha bem perto de seu casarão e não gostava de para lá se dirigir em companhia. Ofereceu-se à morte.
Motivo: Desde muito tempo que os dois coronéis não se davam bem. Causas políticas, desavenças eleitorais. A honra de eleger prefeito era como elevar o nome do coronel ao pedestal. Quando o coronel Epaminondas vangloriou-se de ter eleito seu sobrinho, e dizendo que nunca mais nenhum candidato do coronel Titonho da Baraúna seria ao menos vereador, então comprou briga certa. E deu no que deu. Um jagunço de Titonho calou de vez a voz do inimigo.
O jagunço Fedorento era o mais astuto e cheio de estranhezas que podia existir. Franzino, um tiquim de gente, mas poucos sabiam que o homem já tinha derrubado mais de dez só em tocaia. Sua nefasta experiência em tocaiar para matar era tanta que ele mesmo dizia sentir de longe o sangue daquele que ia morrer por suas mãos. E parecia um bicho em ação.
Quando sentia o cheiro, então parecia um ser asqueroso em transformação. Lambia-se todo, lambia o cano do rifle, beijava a bala que ia ser usada. E só usava uma, pois nunca errava um tiro. Quando os olhos começavam a revirar, então aprumava a arma em direção à estrada. Sua vítima se aproximava.
Sua vítima mais recente havia sido Criméro das Goiabas. Motivo: Havia olhado e achado bonita a filha de Terto Tertuliano, que mesmo não tendo patente de coronel nordestino era afamado pelo número de vezes que havia mandado matar por vingança besta. Qualquer um podia ser vítima de seus desajustes. Daquela vez quem pagou foi Criméro, que recebeu um balaço na testa quando, ao anoitecer, virou na curva de casa.
Já o jagunço Queleléu era uma nojeira em pessoa. Mais que matador, um indescritível sanguinário. Possuía um modo de agir tão mórbido e repugnante que nem todo mundo tinha coragem de ver o resultado de suas investidas de morte. Não a forma como matava, pois sempre de tocaia, mas o jeito de anunciar o defuntismo.
Certa feita, tendo prometido ao coronel Elezim Taquara que não demoraria em trazer a orelha do metido a besta chamado Dente de Ouro, em menos de duas horas apareceu com a orelha entre os dentes. Doutra feita, perante o mesmo coronel, apareceu com dois olhos estendidos da mão. E depois disse: Aqui coroné, nunca mais aquele frebento vai oiá pa fia de coroné!
Assim vai o mundo da tocaia, da emboscada, da morte por encomenda. Mas sempre com o mesmo modus operandi: a matança vil, fria, à traição, tendo a vítima despercebida ou desprotegida, e nos escondidos, atrás de troncos ou de tufos de mato, um cruel e desumano matador. O jagunço, o matador, o assassino, o covarde, ou qualquer nome que se queira dar, faz parte desse triste tempo coronelista, sanguinário e na lei do mais forte.
Na história, qual a serventia da tocaia, da emboscada, da morte fria e traiçoeira? Apenas a demonstração de um tempo onde o poder, do latifúndio, da política ou do dinheiro, muitas vezes se mantinha por meio da fria mão do jagunço. O tiro do rifle, do bacamarte ou do mosquetão, era o código prevalecente para dizer quem mandava e quem devia obedecer. O coronel em seu pedestal de varanda e, pelos arredores, o sangue jorrando pelas estradas.
Carcarás, urubus, gaviões, carnicentos, tudo testemunhou esse tempo. Os voos rasantes sobre as vítimas estendidas nas estradas e as carniças apodrecendo sem que ninguém tivesse coragem de denunciar os mandantes. E todo mundo sabia quais eram os mandantes, os verdadeiros jagunços que semearam o medo, o ódio, o sangue e a inglória, pela aridez sertaneja e nordestina.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


História em barro e escombros





Na chuva (Poesia)



Na chuva


E nu
de braços abertos
uma valsa
molhada
na chuva

e cantando
e feliz assim
os pingos caindo
como pétalas
em mim

e de repente
na porta saíste bela
e o meu corpo abraçou
e na chuva em nudez
me beijou e me amou.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – tá tudo errado



*Rangel Alves da Costa


Os costumes da vida diminuem e até aniquilam as pessoas. Tá tudo errado. Não sei quem inventou essa ideia de que basta comer, beber, andar, vestir, dormir, trabalhar, para que a pessoa já se sinta realizada. Nada disso. Acostumaram ser assim, mas de forma errada. No cardápio de vida se esqueceram de muita coisa, e o pior é que menosprezam as capacidades humanas. Triste daquele que vive apenas para comer, beber, andar, vestir, dormir, trabalhar. Triste daquele que imagina que sua vida se resume a isso, e apenas isso. Como se nascesse apenas para comer, beber, andar, vestir, dormir, trabalhar, e assim até morrer. Ora, ninguém é mecanizado para repetir, repetir, repetir. Ninguém é bicho domado para se contentar apenas com isso. E a felicidade, a alegria, o gosto pela vida, o sentimento de realização, basta-se quando o mesmo cardápio é cumprido, todos os dias, dia após dia? Será que a felicidade é fazer mercadinho, lavar roupa, comprar roupa nova, estar de chinelo novo, beber cerveja ou cumprir o horário na repartição ou em qualquer ofício? Será que a pessoa encontra sua felicidade apenas em acordar, levantar para cumprir o cardápio da vida e depois novamente deitar? De modo algum. Tá tudo errado. Se no passado tivessem ensinado que é preciso comer brasa e beber esgoto, certamente até hoje seria a maior normalidade do mundo. E as pessoas seriam felizes porque comem pedra e bebem esgoto. É preciso reinventar os costumes da vida e o próprio viver. Não aceite mais apenas comer, beber, andar, vestir, dormir, trabalhar. A vida é e quer muito mais. Faça você mesmo o seu percurso na estrada e na história. Seja estranho, faça estranhezas. Não se importe se correrem de sua presença. O normal só é normal porque foram aceitando como normalidade. O homem não tinha panos e andava nu. O homem comia flores e brotos do mato quando não havia caça. O homem tinha o animal como um ser sagrado. O homem deitava debaixo da lua para dormir e sonhar. Depois é que inventaram essa baboseira toda. E nunca mais o homem foi o mesmo. Foi aprisionado pelo tempo, pelo costume, pelo certo e o errado, e ainda hoje assim continua. Um nada.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 31 de março de 2020

DORES DA NOITE



*Rangel Alves da Costa


A noite possui suas dores. E como são dolorosas as dores da noite. Febre de ausências amorosas, angústias e desilusões, tristezas e sofrimentos, saudades que parecem querer molhar os lenços de lágrimas.
Não há como não adoecer das doenças da noite. Não enfermidades do corpo, mas moléstias da alma. Alma que parece se fragilizar e ajoelhar de vez perante os noturnos de solidão ou de falta de uma presença boa. Tudo causando uma imensa dor.
Noite. Com a escuridão o despertar maior dos sentimentos. Sob o seu véu um emaranhado de segredos, mistérios e fotografias, tudo querendo se revelar de uma só vez, ou manter-se ainda nos labirintos da alma.
Noite. Talvez noite chuvosa, mais pesada, mais entristecida. Os pingos que caem vão alimentando os íntimos mais escondidos para, de repente, tudo aflorar como flores vivar de lembranças, saudades e nostalgias.
A janela aberta para o negrume lá fora é chamado ao sofrimento. O horizonte escurecido aclara-se somente para vislumbrar as distâncias existentes somente dentro do ser. Os reflexos estarão nos olhos e no coração.
Uma velha fotografia vai surgindo à mão. O olhar encontra a parede e nela as imagens emolduradas. O velho baú é reaberto e as cartas e os bilhetes ressurgem entre o aflitivo e o melancólico. Ali um passado que faz doer pela recordação.
Em noites assim, em negrumes fechados assim, as janelas e portas da memória e da saudade se abrem de vez. E tudo vai chegando, tudo vai tomando conta, tudo vai transformando os instantes em dolorosos percursos.
Um amor distante, um amor desamado, um abandono, um adeus que não desejava ter. Palavras e imagens, sons e pensamentos, diálogos íntimos, reencontros indesejados, eis o percurso até que o descontrole passe a domar aquilo que parecia já resolvido na alma.
Mesmo sem música alguma ao redor, de repente uma velha canção vais surgindo. As folhagens farfalham vozes já ouvidas, a leve ventania para declamar poesia. Um rastro de lua vai deixando suas marcas em meio ao negrume que o olhar desejava transformar em reencontro.
A pessoa parece estar bem, quer estar bem, imagina que daquela vez não irá deixar que a saudade e o entristecimento novamente provoquem enxurradas. O contextual, contudo, entre o instante que chama e o interior que desperta, vai rompendo seus laços e os transbordamentos se tornam inevitáveis.
São em noites assim que as lágrimas procuram vazões no subsolo da alma e vão surgindo como pequenos veios de angústias e aflições. Primeiro, o noturno, depois a moldura do instante, depois as imagens e as recordações que vão surgindo. E depois e depois...
Depois os olhos queimando na febre da saudade. Depois os olhos marejando para se derramar em rios ardentes de aflição. Depois os prantos e os soluços inevitáveis. A pessoa já não está mais em si. A partir daí somente responde ao que a propensão interior desejar.
São em noites assim que os lençóis são encharcados, que os travesseiros são molhados, que os lenços são alagados, que os rios transbordam toda lágrima de dor, de saudade, de relembrança, de nostalgia. São em noites assim que a pessoa navega e naufraga dentro da própria memória.
Os outros passam pelas calçadas, pelas ruas, ao redor, e de ondem passam avistam apenas uma casa fechada, uma janela fechada, uma noturna solidão. Logo imaginam que assim pelo recolhimento da hora, pelo repouso noturno. Nem sempre imaginam que após aquela janela ou porta, dentro da casa, alguém sofre, alguém agoniza.
Na cama ou no sofá, na cadeira de balanço ou num vão qualquer, apenas a pessoa, suas lágrimas, seus soluços e suas dores. Quem está distante ou quem deu causa a tamanho sofrimento, sequer imagina a triste cena noturna do silêncio e do soluço.
E os rios transbordam, inundam, a tudo invade, até que o alvorecer ressurja sem trazer consigo todo o retrato passado. Mas a saudade não passa. A verdadeira saudade nunca passa. Um amor verdadeiro jamais é esquecido.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Instante saudade



Meu bem (Poesia)



Meu bem


E chega a noite
e a lua vem
você também
a me amar
me fazer bem

que prece boa
como um amém
a fé do amor
contigo vem
meu bem.

Rangel Alves da Costa