SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

MEMORIAL ALCINO ALVES COSTA - O SERTÃO TEM MEMÓRIA!


*Rangel Alves da Costa


O Sertão tem Memória! Este slogan serve para identificar bem a missão e os objetivos do Memorial Alcino Alves Costa, denominação popular da Associação Cultural Memorial Alcino Alves Costa, situada na Rua Gustavo Mello, nº 07, no centro da cidade sertaneja de Poço Redondo. Um local já conhecido por todos, pois na antiga residência familiar do saudoso sertanejo.
Surgido em 2013, numa iniciativa familiar para manter viva a memória do político (três vezes prefeito de Poço Redondo), escritor, pesquisador, compositor, poeta e radialista Alcino Alves Costa, falecido a 1º de novembro de 2012, o Memorial ao longo do tempo foi se constituindo numa referência obrigatória para todos aqueles que desejam beber em profundidade da história, da cultura e das tradições do sertão sergipano, com ênfase na saga do cangaço, a partir do acervo deixado pelo homenageado.
Na condição de filho de Alcino e incentivado por amigos, idealizei e organizei o Memorial por que senti a necessidade de um espaço onde o seu acervo e a sua memória tivessem um lugar garantido para a posteridade. Não só preservar para o futuro, mas principalmente permitir o acesso a estudantes, pesquisadores e demais interessados na sua obra e na sua devoção sertaneja. E de repente já estava ampliado para contar a saga do próprio sertão.
Assim, o acervo do Memorial foi ampliado para ser também um espaço privilegiado de contanto e conhecimento das diversas feições do sertão, incluindo seus aspectos históricos, sua religiosidade, os fazeres e os costumes antigos, bem como as tradições de um povo. Ali o interessado encontrará aspectos relacionados às revoltas sociais nordestinas, ao cangaço, à música de raiz, as tradições culturais e todo o percurso histórico que permitiu o desbravamento e a formação do sertão, bem demais manifestações tipicamente sertanejas.
O Memorial é também um espaço para reuniões e grupos de discussão, onde jovens, estudantes e todos os interessados, são convidados a ouvir palestras sobre a cultura e a história sertaneja, bem como demais temas relacionados à identidade nordestina. Diversas são as ocasiões onde grandes eventos contam com palestras de renomados professores e pesquisadores. Mesmo sem compromissos formais, pessoas ali se reúnem para um proseado e até para bebericar uma cachacinha com casca de pau.
Logicamente que sempre será um espaço de recordação de Alcino e sua obra, uma forma de reencontrar o seu mundo tão sertanejo. A saga de seu povo era o seu exercício de toda hora. E assim fez até suas forças permitirem. Com seu jeito sempre cativante de ser, sempre calçado nas suas inconfundíveis havaianas, cortando as ruas de seu Poço Redondo ou recebendo amigos de outras plagas enquanto ouvia Tonico e Tinoco, acabou se transformando em referência obrigatória acerca de tudo que dissesse respeito a sertão.
Verdade é que o político escondia no seu verso outra feição muito mais prazerosa de lidar com o seu mundo, que era a de pesquisador, poeta, colecionador de vinis da autêntica música caipira, apaixonado pela história cangaceira. O seu tio materno, Zabelê, cangaceiro do bando de Lampião, lhe servia de orgulho e inspiração. Foi a partir do interesse pelo destino do tio que foi cavando as raízes cangaceiras até se tornar num dos mais respeitados historiadores sobre o tema.
Não conformado com as mesmices nem com as inverdades escritas e asseveradas em torno da saga bandoleira, Alcino se propôs a dar outra feição à história. E conseguiu logo no primeiro livro publicado: “Lampião Além da Versão - Mentiras e Mistérios de Angico”. E mais tarde surgiram “O Sertão de Lampião” e “Lampião em Sergipe”, dentro outras obras. Mas guardava escritos para muitos outros livros discutindo, contando e recontando, o percurso daqueles valentes e tantas vezes incompreendidos homens das caatingas e dos carrascais agrestinos.  
Trouxe ao presente o conhecimento de personagens importantes da história nordestina, procurou desvendar os mistérios de Angico e da epopeia lampiônica, e com isso se tornou um dos escritores mais lidos e requisitados do fenômeno cangaço. Colocou a música caipira e a viola cabocla no seu devido lugar de importância e reconhecimento. Revisitando seus arquivos, percebi o quanto de sertão existente em livros, recortes, correspondências, manuscritos, fotografias. Sertão, talvez este seja também outro nome de Alcino.
Tantas realizações não poderiam ficar apenas na memória do seu povo, nas recordações dos amigos. Como filho, esforcei-me para torná-lo ainda vivo por todo o sertão. Primeiro escrevi sua biografia com um título mais que apropriado: Todo o Sertão num só Coração - Vida e Obra de Alcino Alves Costa. Depois abri os portais de sua casa em sua memória, através do Memorial.
Foi nesta caminhada que buscamos construir o lugar da memória de Poço Redondo, do sertão, de Alcino. Um espaço onde também estará a memória de cada um, pois todos gestados de raízes que não podem ser relegadas nem destruídas pela voracidade do novo. Assim o memorial sertanejo, pois o sertão também tem viva e rica memória.


Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Sertanejo que é sertanejo não teme o sol abrasado!




Onde meu amor estiver (Poesia)


Onde meu amor estiver


Meu amor
onde estará
o meu amor?

a flor
será meu amor
na flor?

o luar
meu amor será
o seu brilhar?

a poesia
será meu amor
a doce magia?

meu amor
me diga onde está
que eu vou

quero amar
e vou além
além do mar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - namorando como antigamente


*Rangel Alves da Costa


Não é fácil namorar como antigamente. E principalmente por que quase ninguém mais quer namorar como antigamente. Nos dias atuais, de permissividades libertinas, quem ainda iria piscar um olho, esconder um bilhetinho entre as páginas de um caderno, jogar poemas pela janela ou oferecer uma maçã do amor? Difícil encontrar alguém que faça assim, e também pelo fato de que não será correspondido. Ora, a moda é ficar, transar e tchau. A valia de hoje é a experimentação, a curtição, o jogo do sexo, e pronto. Será tido como antigo e conservador aquele que beije suave, que abrace carinhosamente, que dialogue, que pegue na mão, que de mãos juntas leve o outro para ler Whitman sobre as folhas da relva. Hoje será tido como coisa de museu um anel de compromisso ou aliança de noivado. Ninguém mais ama o amor verdadeiro. Ninguém mais quer namorar, mas tão somente ficar, curtir, transar. Não raro que após uma noitada um sequer saiba o nome do outro. Mas eu queria namorar como antigamente sim. Eu queria beijar a palma da mão e lançar o beijo pelo ar naquela direção. Eu queria chegar com um raminho de flor e colocar no umbral da janela. Eu queria, em tardes perfumadas de brisa, ler Florbela, Neruda, Cecília, Vinícius, Pessoa, Drummond. Eu queria dizer “te amo”. Eu queria beija como se beija uma flor: tão levemente suave que um colibri pareça voejar de nossos lábios. Ah como eu queria namorar assim. Mas ninguém quer namorar comigo. Muito menos assim.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 4 de dezembro de 2016

DO AMOR E DE TODO O MAL EM SEU NOME


*Rangel Alves da Costa


O amor é bom. O amor é mau. Amar é doce. Amar é terrivelmente ácido. O amor é brinquedo. O amor é brincadeira que fere, que mata, que dilacera.
O amor é remédio e cura. O amor é veneno mortal. Amar é devoção e piedade. Amar é pecado e abominação. Não há amor que não ele eleve e ao mesmo tempo faça prostrar.
O amor é paisagem com brilho e cor. O amor é labirinto e escuridão. Amar protege e alimenta a alma. Alma corrói e faz fraquejar, submete e impiedosamente escraviza.
O amor semeia e colhe. O amor resseca e devasta. O amor faz brotar e florescer. O amor faz definhar e morrer. Amar assim é viver e padecer no mesmo céu e mesmo fogo.
O amor canta a mais bela canção, faz ecoar sua maravilhosa voz. O amor esquece o canto, cala a voz, entorpece o sentir. Amar assim é caminhar sobre flores e espinhos.
O amor é carícia e carinho, é dengo e cafuné, é meiguice e doçura. O amor é espinho, é beliscão, é tormento e tortura. Amar com pluma e seda e depois com a faca mais afiada.
O amor que comove, que sensibiliza, que faz mais amoroso. O amor que endurece, que petrifica, que torna em pedra o sentimento. Amar para sofrer se imaginando na alegria.
O amor que sonha, que deseja, que quer, que corre atrás. O amor que esmorece, que se recolhe para tramar a dor. Amar em rio manso e depois se sentir diante um mar revoltoso.
O amor que faz da hora uma espera para sorrir, para o encontro, para a felicidade. O amor que só espera o momento de dizer não, de negar a si mesmo, enquanto o outro sofre.
O amor é alvorecer, é pôr do sol, é vida, é alegria, intenso contentamento. O amor que traz a sombra e se esconde na bruma da crueldade. Amar entre a salvação e a perdição.
O amor que é humilde sem se humilhar, que é calmo e paciente sem nada abdicar. O amor que se arroga de ser arrogante, e num rompante faz explodir e estraçalhar.
O amor que tem fome e sede e sabe querer o grão de pão e de água. O amor insaciável que quanto mais esvazia mais quer, quanto mais acaba mais quer destruir ainda mais.
O amor que é passarinho, que é borboleta, um colibri, um beija-flor. O amor que é ave carnicenta, agourenta, devoradora. Amar assim entre a liberdade e o laço da insanidade.
O amor que chega e se sente bem em estar, em continuar, em dar prazer. O amor que chega somente para ferir, para abrir feridas onde a carne é carente e frágil.
O amor que é valsa, sonata, noturno, cantata, a mais bela sinfonia de conforto à alma e ao coração. O amor que é tempestade, é ventania, uma tormenta que devasta tudo ao redor.
O amor que é poeta, que é docemente apaixonado, tecendo versos para alimentar o próprio amor. O amor que nada sonha e não se nega a rasgar todo verso feito em seu nome.
O amor que brilha como a mais bela das luas, que cintila mais que a estrela mais fulgurante. O amor em meio às sombras e sem que o olho possa avistar sua terrível arma na escuridão.
O amor que é nobre, fidalgo, gentil, cordial. O amor que é vagabundo, imundo, perdido na sua miséria de crueldade. Amar que vai do silêncio ao grito num mesmo instante.
O amor se enfeita, se embeleza, se perfuma para se tornar cada vez mais atraente e amado. O amor se enfeia, se embrutece, se ojeriza, mas ainda fingindo que ama de forma tão bela e perfumada.
O amor dorme tranquilo, sonha, acorda feliz, sempre ávido por reencontrar seu amoroso destino. O amor já se levanta para negar o espelho e iludir a se mesmo e ao outro.
O amor faz bem, nunca fez mal algum. Mas o amor faz mal, nunca fez bem algum. Amar também faz apaixonar e toda paixão desanda na morte dos sentimentos. E de forma mais dolorosa que possa existir.
Assim o amor. Assim também o amor. Só que reconhecê-lo na paz ou na dor.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Lembranças cangaceiras do acervo do Memorial Alcino Alves Costa, em Poço Redondo, no sertão sergipano.







O olhar (Poesia)


O olhar


Ela me olhou
e me encontrou
e no seu olho
flor me jogou
mas no olhar
também lançou
a seta fria
que me feriu
que machucou
pois no brilho
que apaixonou
e meu coração
dilacerou

um só olhar
e o amor
o mesmo olhar
e o veneno
a devastar.


Rangel Alves da Costa