SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

A CHAVE E O CADEADO



*Rangel Alves da Costa


A chave e o cadeado servem como simbologia para muitas situações da vida. A chave é a liberdade, o cadeado o aprisionamento. A chave é o encontro, e a distância o cadeado. Os dois tão unidos e tão separados, eis que a chave feita para negar o poder do cadeado. Tantas vezes, um cadeado tão grande para ser vencido por uma minúscula chave, bastando um contorno com a mão.
Mas há muito mais. Dependendo do momento, colocar a chave no cadeado significa uma das maiores conquistas da vida. Diversas situações confirmam que não há momento mais comemorado, alívio mais esperado e sensação de vitória do que aquele após sentir que a chave se ajustou ao buraco do cadeado. E indescritível quando a tranca está liberada.
Chegar à casa alta hora da noite, olhar de lado a outro amedrontado, apressadamente buscar a chave para abrir o portão; esbarrar esbaforido diante da porta, vasculhar os bolsos em busca das chaves, e em seguida levar a mão trêmula ao cadeado; saudosamente avistar a moradia e seguir diretamente ao portão de chave à mão. São momentos cruciais na vida de uma pessoa.
Contudo, muitas vezes as chaves foram esquecidas em algum lugar, ou mesmo não são aquelas as que servirão para abrir aqueles portões. Fatos assim, e mais corriqueiros do que se imagina, fazem o mundo desabar para qualquer um. E mais angustiante ainda quando as chaves são aquelas, a pessoa tudo faz para encontrar a ideal, mas não tem jeito de alguma delas encaixar.
Mas não pode ser, pois tenho certeza que a chave é esta mesma, diz a pessoa aflita. Talvez seja porque preciso colocar um pouco de graxa no fenda do cadeado, mas a chave é esta aqui, afirma a pessoa com aspecto de desilusão. Eis, então, o cerne da questão: a expectativa do encaixe da chave ao buraco do cadeado.
E num determinado momento, na hora precisa, sob pena de muita coisa acontecer se a tranca não for liberada. Até pode soar como questão irrelevante, como algo que não merecesse qualquer explanação, mas, como será demonstrado, é fato de suma importância na vida de um ser humano. Ademais, a chave diante do cadeado pode servir de metáfora para muitas outras situações.
O tempo passa, o medo se expande, a pulsação aumenta, a necessidade de encontrar a chave ideal acaba complicando ainda mais; uma quase entra, mas nada de encaixar. Procura outra e mais outra, olha de lado, já está entrando em desespero, e nada de acertar a chave. Dá vontade de derrubar tudo, de puxar o cadeado para o lado de fora, de fazer qualquer coisa para resolver a situação. Mas nada acontece.
Suspira, transpira, pede calma a si mesmo, faz mais uma tentativa, agora mais calmamente. A chave vai entrando certinha, deslizando, porém emperra em qualquer coisa. Não é essa. Mas não pode ser, pois sempre usou essa para abrir. E as mãos suadas e trêmulas fazem nova tentativa. Essa nem coube no espaço. Talvez seja essa. Tem de ser essa. Não há outra. Vai colocando, cuidadosamente, no buraco e...
Mas situações desesperadoras também podem ocorrer quando a chave é única e somente aquela serve para abrir o cadeado. E já está até envelhecida de tanto fazer tal procedimento. Contudo, ainda assim não é garantia de abrir a porta na primeira tentativa. Ademais, pelo envelhecimento pode causar uma consequência pior: quebrar lá dentro. E agora, quando a rua está totalmente deserta, não haverá como encontrar um chaveiro, e o sujeito começa a sentir uma necessidade imperiosa de visitar o banheiro?
Problema ainda maior surge quando o contorno da chave já está se encaixando, mas eis que um barulho faz a pessoa olhar de lado e a chave cai de sua mão. E pelo lado de dentro, num lugar difícil de ser alcançado. Contudo, deixar a chave ideal cair e mais distante do que o imaginado, talvez vá além dessa mera divagação a respeito da importância do encaixe da chave no momento exato que o sujeito tanto precisa.
Eis que o fato da impossibilidade de alcançá-la, ainda que visível, já provocou situações verdadeiramente angustiantes. Muitas pessoas já se entalaram nas grades dos portões enquanto tentavam alcançar o objeto, sem falar naquele que entrou no carro e derrubou o muro com portão e tudo. E depois disso percebeu que não estava com a chave da porta. Então começou a chorar feito criança desmamada. 
São questões realmente difíceis de resolver. Mas situação ainda mais complicada pode acontecer. Já ouvi falar de um sujeito que bebeu um pouco mais, errou de casa e tentou a todo custo abrir um portão alheio. E até hoje chora toda vez que se lembra do policial abrindo tranquilamente o cadeado do cubículo na delegacia e ordenando que entrasse.


Escritor
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Lá no meu sertão...


Na vaqueirama é assim...



Vozes de mim (Poesia)



Vozes de mim


Meus versos
são vozes de mim
e mesmo em silêncio
expressam meu falar
em pranto e grito
em sorriso e canto
o meu começo
e também o meu fim
pois vozes de mim

florescer de um jardim
ou folhas secas ao vento
harpa de anjo querubim
ou sino triste da igrejinha
o meu verso sou eu assim
pois nada escrito é poema
apenas as vozes de mim.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - viola em noite enluarada



*Rangel Alves da Costa


Aqui na cidade, aqui entre prédios acinzentados e ruas feias, eu fico imaginando as coisas que acontecem no meu sertão. Sertanejo eu sou, e lá das distâncias matutas do mundo e onde estão espalhados casebres, casinhas de barro, porteiras, cancelas, malhadas e currais de poucos rebanhos. Lá onde Seu João pinica fumo de rolo e Dona Maria debulha feijão de corda. A galinha cisca ao redor, o fogão de lenha vai espalhando um cheiro de toucinho pelo ar. O papagaio tenta repetir tudo, mas a idade só lhe permite dizer “É a vida, é a vida...”. E nas noites, nos noturnos matutos de céu estrelado e lua grande querendo dourar toda a vida, então os compadres se juntam pelos alpendres, no meio do tempo ou debaixo dos pés de pau, para que o proseado faça relembrar a existência e a viola de pinho ecoe um cancioneiro que faça doer bem lá dentro do coração. Cururu, cateretê, guarânia, rancheado, toda a plangência autenticamente sertaneja a se misturar com as vozes da noite, as canções do vento e os sons melodiosos que somente o sertão possui.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

DANDO UM TEMPO



*Rangel Alves da Costa


Recentemente publiquei na rede social: Vou dar um tempo. Aqui do Facebook e de muita coisa. Até não sei quando!
Realmente, preciso dar um tempo. Preciso reencontrar o norte de muita coisa perdida. Preciso principalmente me reencontrar para saber se ainda existo.
Estou cansado de muita coisa. Cansado até de viver fingindo alguma felicidade. Creio ter chegado a hora de enfrentar as realidades sem a máscara das ilusões e chorar quando houver que chorar, e sorrir quando alguma alegria surgir.
O Eclesiastes parece não estar sendo muito justo comigo. As coisas não estão em contínua transformação, conforme ensina o livro bíblico. Não está havendo sol para depois cair a chuva, não está havendo noite para depois surgir o dia. Tudo numa constância só!
Sei que muitos gostam do que eu escrevo, das fotografias que posto, das informações que de vez em quando repasso. Mas tudo estava sendo feito apenas para os outros. Ademais, tudo numa escrita fria, tudo sem sentimento e nada do que realmente existe em mim.
As respostas, estas somente eu sei onde estão. Mas logo direi que todas estão em mim, dentro de mim, no meu eu. A verdade é que não tenho andado contente. A verdade é que todo sorriso surgido sempre é fruto de um esforço sem fim para que assim aconteça.
Talvez eu esteja como o menino Zezé do romance Meu Pé de Laranja Lima. Ele andava entristecido quando lhe foi perguntado por quer estava assim. “Faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de laranja lima”. Foi o que respondeu. Eis o motivo de sua tamanha tristeza.
Não cortaram meu pé de laranja lima, mas cortaram muito de mim. Infelizmente, cada vez mais tenho desacreditado mais nas pessoas. E é uma perda muito grande saber que de repente as pessoas acreditadas chegam com falsidades e traições. Tudo isso é um pé de laranja lima cortado na vida da gente.
Acreditar em quem? Amigos ainda existem? Ou a vida é um viver de ilhéu solitário por que somente assim não se corre o risco de ser pelas costas apunhalado? Que tempos são esses, meu Deus?!
Mas grande parte da culpa é minha. Nunca escondi de ninguém que gosto de solidão, de estar sozinho, de seguir desapegado de mão pelos caminhos da vida. Eu bem que poderia ter continuado assim. Eu tinha duas mãos, mas uma eu perdi assim que a estendi. Bem feito pra mim.
Então dar um tempo é o melhor que faço. Não posso costurar a boca, não posso esconder a mão que me resta, não posso afastar os outros da mesma estrada por onde passo, não posso deixar de estar na presença de pessoas, mas posso viver apenas pra mim mesmo. E é isso que tenho a fazer.
Tenho aprendido cada vez mais que a grande conquista da vida, ou a verdadeira conquista da vida, está no autoconhecimento. E no autoconhecimento a autoestima, o amor-próprio, o gostar de si mesmo. Esperar pelos outros não. Esperar pelos outros mais não. Ou a pessoa se gosta e se ama ou nenhum amor ou gostar será conquistado.
As roupas sujas precisam ser lavadas. Os panos rasgados precisam ser remendados. Mas apenas aquilo que se presta ao uso. Muito terá de ser jogado fora sem dó nem piedade. O que não presta e continua é como um lixo que destrutivamente vai se acumulando. Isso mais não.
Sei que vai doer fechar a porta e a janela assim de repente. As sombras aumentam as aflições e as angústias. Mas qualquer dia a porta e a janela serão novamente abertas para que o sol retome o seu lugar e novamente brilhe em cada passo do que restar da existência.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Sertão





Apaixonado (Poesia)



Apaixonado


Tudo eu já fiz
fui do uísque ao vinho tinto
por uma paixão
que você não crer que sinto
mas acredite
o coração sabe que não minto

revelar na palavra escrita
o que não posso em beijo e abraço
ainda assim você não acredita
que o meu voo se prende em seu laço
e que essa paixão que agora grita
vem de um coração que não é de aço

tudo eu farei
na esperança de ter seu olhar
corto caminho e sigo outra estrada
bastando que me diga onde encontrar
querendo que então confesse
que ainda vai me amar...

Rangel Alves da Costa