SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 25 de julho de 2017

FEIRA MATUTA


*Rangel Alves da Costa


Tudo aceso feito braseiro ainda na madrugada. Pouco tempo depois já começava a fervilhar feito formigueiro. Mais tarde parecia um descampado abandonado às traças, tomado de bagaceira, sujeira de toda espécie. Não poderia ser diferente. Era fim de feira.
Se feira interiorana é acontecimento dos mais atraentes, instigante e concorrido, o que se vê quando o comércio matuto se finda é coisa de arrepiar. As cores, os cheiros, o povo de matiz trigueiro, as barracas, as bancas, as vozes, as frutas, verduras, farinha, a carne, de tudo um pouco, logo dão lugar à sujeira e imundícies jamais imaginadas para um lugar que há bem pouco guardava tantos atrativos e sabores.
Até parece que a feira espera o povo matar a fome nas barracas cheirosas e apetitosas, se fartando da carne fresca de boi, de porco ou de bode, ou na gulodice do sarapatel, do fígado acebolado ou ainda da invenção sertaneja do dia, para se despedir da função. Enquanto os últimos famintos pedem um pouquinho mais de galinha de capoeira, as barracas já estão sendo desmontadas, os restos embalados e os caçuás recebendo o que não foi vendido.
Já é hora de avistar, e até contar, todos os bêbados do dia. Aqueles que começaram o dia tomando uma pinguinha, e em meio à compra do tomate, do quilo de farinha, do pedaço de fumo de rolo, emborcaram mais uma e depois mais outras. No tropel de fim de feira já não saem mais do balcão, já não sabem nem quantas viraram e quantas raízes de pau talagaram sem pestanejar.
Os bares e barracos ladeando a feira ficam repletos depois que os compradores se dissipam e os feirantes vão contando seus lucros e lamentando o que vai ter de retornar. Aguardente misturada com raiz ou casca de pau, com angico, umburana, aroeira, cedro, uma vegetação sertaneja inteira, faz a festança de um povo sempre disposto a virar mais uma. E aí é onde está o problema.
Já tomados demais, amigos desconhecem amigos, os inimigos de pinga se estranham de peixeira na mão. O fuzuê é criado, é um vexame danado, por pouco um não desembucha o outro. Os dois são retirados do ambiente e por lá mesmo, no pé do balcão ou num canto qualquer, a feirinha da semana é esquecida. E mais tarde, completamente bêbados, às cegas, cortam estrada para apanhar da mulher quando chegar à tapera.
“Coisa feia, um homi véio desse, pai de famia, bom de se arrespeitá, espanta o galo pa ir pa feira e vorta feito um gambá. Tá qui num se sustenta nem de pé, seu desgraçado. A feira, cadê a feira?”. O coitado, sem condições de responder a contento, até mesmo porque não sabe onde o saco de mantimentos ficou, tropeça até a malhada e começa a entoar um desafinado e doloroso aboio. Mas doloroso mesmo vai ficar seu lombo daí em diante.
Mas enquanto a feira vai terminando é que algumas pessoas sempre atrasadas começam a chegar. Não que procurem o lugar pra comprar pano de chita, água de colônia, talco de pó, presilha de cabelo ou um quadro bonito da Virgem Maria. E também não vão até ali para escolher a verdura, a fruta, o arroz, o café, a farinha. Nada disso. Vão precisamente para fazer o que sempre fazem no fim de feira: colher os restos, catar os restos, mendigar pelo chão.
Homens, mulheres, velhos, meninos, pessoas de fim de feira. Acordaram tão ou até mais cedo que as outras pessoas que passaram pelas suas portas em direção ao comércio semanal interiorano. Avistaram adiante, virando a curva, seguindo de mochila, saco ou sacola à mão pra colocar as compras. Aquelas pessoas que passam e que vão certamente levam algum no bolso e poderão escolher sem pedir, sem a submissão da mendicância.
Porém muitas outras não. Quando as pessoas retornam com suas compras e quando, vigiando pelos arredores, sentem que o restante que ficou por ali espalhado não possui mais dono, é que vão catar o alimento do dia e talvez o de amanhã. Banana amassada ou apodrecida, tomate e pimentão imprestáveis, repolhos e folhas deixados pelos cantos. E que festa ao olhar da penúria, da necessidade, da precisão.
Alguns desses sacrificados chegam logo cedinho, se misturam a feirantes e compradores e pedem o quanto podem. Mas outros não. Outros, tomados pela imorredoura honra matuta, preferem catar os restos a estender a mão diante de outra mão, de outro olhar sertanejo. Seria desonra demais, seria dor ainda maior.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com        

Lá no meu sertão...


Pedro Popoff e Pedrinho do Museu. Estes dois meninos, ao lado da maravilhosa Cecília do Acordeom, garantiram instantes maravilhosos ao Cariri Cangaço Exu 2017.




Manhã (Poesia)


Manhã


Bom dia, meu amor
abro-te a janela
e chamo o sol
a beijar sua face
a cariciar seu corpo
por um instante
apenas

e trago flores vivas
e trago fruta madura
e trago uma borboleta
e um voo de colibri
na manhã mais bela
mas por um instante
apenas

nos demais instantes
viveremos em nós
a beleza do amor
a cada instante.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - ratos e esgotos


*Rangel Alves da Costa


Os ratos estão aflitos. Os ratos estão desesperados. Os ratos estão angustiados, aflitos, desesperançados. Os ratos estão indignados com as ameaças à rataria. Os ratos estão sentindo verdadeiramente ameaçados na sua sobrevivência em meio aos lixões, aos monturos, às imundícies dos esgotos. Um verdadeiro desrespeito aos ratos. Um acinte à vida dos ratos. Uma exposição a uma situação que, segundo os ratos, não mereciam, pois vergonhosa e constrangedora demais. Mas o que aconteceu para que os ratos de repente se mostrassem tão aflitos e até agonizantes. Ora, seus esgotos agora estão imprestáveis. Seus esgotos agora estão totalmente tomados por dejetos, imundícies e podridões, que nem os ratos suportam. Onde havia lama fedida, agora somente a imagem nojenta e asquerosa de políticos, governantes e poderosas autoridades. Onde havia lixo espalhado, descendo pelas tubulações, agora somente inquéritos lamacentos, processos putrefatos, sentenças e penas. Onde havia restos imprestáveis de tudo, agora somente acúmulos de corrupções, fraudes, ilicitudes, improbidades. Onde havia o insuportável ao homem, agora somente o homem tendo de ser suportado pelos ratos. Por isso mesmo que os ratos de esgoto, ante a nova configuração de vida, estão indo embora para Brasília. E vão na esperança que os ratos de lá escorram de vez pelos esgotos.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 24 de julho de 2017

DA ARTE DA POBREZA E DA NECESSIDADE


*Rangel Alves da Costa


A situação economicamente caótica em que vive o Brasil acaba fazendo surgir verdadeiras mirabolâncias no intuito da sobrevivência. O crescimento da pobreza, a miséria que se alastra por todo lugar, o desemprego, a falta de qualquer oportunidade de ganha-pão, são aspectos negativos que transformam pessoas em verdadeiros artistas da sobrevivência. Daí se ter pelas ruas, esquinas, semáforos e calçadas, a contínua exposição da arte da pobreza e da necessidade.
Não é fácil ser artista sem o dom ou a propensão à criatividade espontânea. Nada fácil ser artista do próprio estômago, do bolso vazio, da mesa nua e da fatura atrasada. Mas, como diz o ditado, na hora da precisão, da necessidade, da carência mais veemente, a pessoa se vira como pode. Então se torna artista daquilo que nunca fez ou jamais pensou em fazer. Um artista que surge sem pincel ou tela, sem caderno e lápis, sem molde ou cinzel, sem qualquer transformação do nada em beleza.
A arte das ruas já não está mais no esmero arquitetônico do luxo, na parede grafitada, na escultura das praças, nos monumentos, nos modernos equipamentos urbanos ou nas fachadas das lojas grã-finas. A arte das ruas agora está na estátua humana, no ilusionista da calçada, na novidade repentinamente surgida e que vai aglomerando pessoas incrédulas no que acabam vendo. Palhaços sem circo, trapezistas sem palco, mambembes sem picadeiro. Ou apenas a postura de um envelhecido senhor carregando uma placa dizendo que compra ouro.
A capital sergipana nunca teve tantos artistas assim. Agora eles estão por todos os lugares. As calçadas, logradouros, marquises, meio de rua, tudo está tomado de arte, da arte da pobreza e da necessidade. Flores de plástico, arames transformados em brinquedos, carrinhos de madeira, cuscuz de coco, laços de fita enfeitados, diademas floridos, bombons e doces caseiros de todos os tipos, tortas e salgados igualmente caseiros, enfeites e objetos do lar feitos à mão, uma infinidade de produtos dessa arte crescente das ruas.
O comércio ambulante deixou de ter o cafezinho, o chá, o suco e o pão de queijo ou sanduíche, para ofertar o inesperado. Passa o carro de frutas, de amendoim, de legumes e verduras, de milho verde e canjica, de meias e cuecas, de cds e filmes, de pipoca e algodão doce, de bebidas e refrigerantes, mas também os produtos e objetos até mesmo desconhecidos à maioria da população. É uma reinvenção ambulante na tentativa de atrair clientes e garantir a sobrevivência. E os ambulantes não recriam seus comércios para auxiliar outros ganhos, mas como única forma de sustentar a si mesmos e até a família inteira.
Pelo centro comercial, principalmente na região central do principal calçadão, a cada dia vai surgindo uma nova forma de arte da pobreza e da necessidade. A pessoa pode tirar um retrato ao lado de uma monstruosidade qualquer, de uma pessoa vestida em fantasma aterrorizante. Logo abaixo está a caixinha para o vintém, para o trocado tão útil e necessário. A pessoa pode admirar estátuas humanas, e tão perfeitas que mais parecem de cobre reluzente. Logo abaixo a caixinha da moeda ávida por uma compra qualquer. A pessoa pode se encantar com a mágica do dia, com a cobra que dança, com o objeto que some, com o cãozinho de máxima ou obediência ou com o transformista que vai se enrolando em si mesmo. E logo ao lado a caixinha para a moeda ser lançada como uma esmola.
Verdade que aumentou o número de vendedoras de acarajé, de bolsas e relógios pelas esquinas, de óculos e chapéus, de sandálias e bolsas. Há um comércio paralelo tão forte que passa a assustar os comerciantes estabelecidos em lojas. Mas nem o preço se diferencia muito como antigamente. O que diferencia do grande ou pequeno comércio é a possibilidade da pechincha e a aquisição de objetos por preços muito mais justos. Mas até no comércio de meio de rua há uma invencionice para atrair e cativar os passantes. Os ambulantes se reinventam de tal forma nos seus jeitos de vender que mais parece estar diante de um artista da voz, do humor, da alegria. Tudo uma questão de necessidade.
Ora, mas que tristeza avistar aqueles senhores, muitos já envelhecidos, em pé nos calçadões e carregando à frente e nas costas aqueles anúncios de “compro ouro”. Quanto estes idosos ganham por dia? Uma insignificância, mas com a ilusão da soma à mísera aposentadoria. Também são artistas do silêncio, da simulação da dor e do sofrimento, do fingimento de que estão ali por vontade e satisfação. E mais adiante a jovem grita “olha o chip, olha o chip”, enquanto outra vai puxando pelo braço qualquer um para dizer que pode fazer seu cartão de crédito na hora ou que dinheiro não é mais problema, pois logo adiante há empréstimo a juros baixos.
É preciso ser artista para sobreviver. Será a resposta dada por qualquer um que a cada dia se esforça como pode para garantir seu tostão. Seja como estátua humana ou como tagarela gritante, o objetivo da arte é a própria vida.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Povoação ribeirinha de Bonsucesso, município de Poço Redondo/SE, 
cerca de pedra construída por mãos escravas.



De todo amor que sinto (Poesia)


De todo amor que sinto


De todo o amor que sinto
amo apenas uma parte
do que desejo amar

tenho medo do todo
e cada parte que amo
em tanto amor revelar

e revelado todo amor
a parte de amor que sinto
não queira amor somar.


Rangel Alves da Costa