SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 4 de julho de 2020

FAMÍLIA: CONCEITO E FORMA



*Rangel Alves da Costa


O que se conhece por família vem, ao longo dos anos, passando por tamanhas transformações que atualmente se torna até difícil encontrar uma conceituação que se aproxime de sua realidade.
Com efeito, o que se observa é uma divergência entre os conceitos e as realidades. Juridicamente, família pode ser definida como o conjunto de pessoas que descendem de um tronco ancestral comum. Ou ainda como o conjunto de pessoas ligadas por um vínculo de sangue. Neste sentido, fazem parte da família toda a raiz ancestral, desde os bisavôs, tataravôs, etc.
Em sentido comum, família pode ser conceituada como o núcleo familiar formado pelos pais e filhos, englobando as raízes paternas dos pais, bem como os laços consanguíneos destes. Significa que a família seria um núcleo formado por pais e filhos, avôs, tios, sobrinhos, etc. De qualquer modo, o que caracteriza a linhagem familiar é o vínculo sanguíneo existente entre os seus membros.
A divergência é mais reconhecível quando se observa o entendimento comum sobre família. A conceituação ampla diz que a família é formada por um ancestral comum, através de vínculo sanguíneo, o que significa uma olhar para um passado distante de parentesco, que vem desde os pais do pai e da mãe, os pais daqueles, ainda os seus pais, e assim por diante, sempre em direção ao passado. Já o entendimento comum é bastante diferenciado.
Diferenciado por que geralmente considera a família apenas como o núcleo familiar existente a partir de um lar, ou seja, desde o pai e da mãe. Daí os laços sanguíneos nascidos com os filhos, os netos, os bisnetos. Ou seja, como se a família não tivesse nascido de outras raízes, dos pais dos pais, mas somente a partir do surgido após um casamento ou uma união. Por isso mesmo que atualmente a pessoa, ao dizer que é de determinada família, diz apenas que é filho, por exemplo, de João e Maria.
Que situemos, então, a família como um conjunto formado por pessoas nascidas num mesmo lar e formada pelos pais e pelos filhos. Tal recorte será necessário para que melhor se conheça o que move e o que nega este núcleo tão pequeno e de tão difícil compreensão. E logicamente que considerando a realidade atual, vez que, como dito, os tempos modernos desfiguraram totalmente a antiga feição familiar. A família de hoje, na maioria das situações, sequer se aproxima da família de outros tempos.
Para uma ideia da família de antigamente, preciso que se diga que era alicerçada no respeito e na consideração. Filhos eram filhos que obedeciam aos pais. Pais eram pais que, até mesmo de modo exagerado, educavam e cuidavam dos seus até mesmo na idade adulta. As famílias sentavam à mesa nas refeições, os pais conheciam as amizades e os problemas dos filhos, os pais acompanhavam a vida escolar dos seus, os pais mantinham seus filhos como se através de um caderno de deveres e obrigações. Nada de chegar além da hora, nada de viver em más companhias, nada de enveredar pelos maus costumes. Havia diálogo entre pais e filhos e estes jamais se esqueciam de pedir a benção aos seus genitores.
Na região sertaneja, por exemplo, o namoro de antigamente só acontecia com a permissão dos pais. Ainda assim os encontros somente aconteciam nas residências familiares, em cadeiras separadas e sob a observação do pai ou da mãe. Nada de namoros escondidos nem gravidez antes do casamento. Até para namorar tinha de pedir a mão da moça. Depois do namoro firme até de anos, o noivado era antecedido de anel de compromisso. Somente após é que havia o noivado em si e a permissão para o casamento. De vez em quando tal regra era quebrada, pois o rapaz levava, no meio da noite, a moça de sua casa. Acaso isso acontecesse, o casamento tinha de ser logo feito “sob ameaça de chicote”.
E o que se tem hoje por família? O conceito certamente continua, mas a realidade do convívio entre os familiares está muito diferenciada. Muitas famílias, erroneamente tidas como conservadoras, ainda procuram manter tanto o lar como os filhos dentro dos limites do respeito e da obediência. Os filhos respeitam os pais e estes não aceitam que suas lições sejam simplesmente rasgadas depois da porta da frente. Os filhos, mesmo convivendo em meio ao novo e aos modismos, ainda assim conhecem bem os limites que são impostos pelos genitores.
Famílias existem, contudo, que se descaracterizam de tal forma que nem os pais cuidam dos filhos nem os filhos respeitam os pais. Filhos são colocados ao mundo como bichos de cria ou objeto qualquer. Os pais não perguntam onde andam, o que fazem, o que pretendem da vida. Os filhos tratam seus pais como estranhos e muitas vezes passam dias ou semanas sem uma palavra sequer. Entram e saem de casa como se ali estivessem apenas desconhecidos.
Por que assim acontece? Ora, falta de berço, falta de criação, falta de cuidado. Filho só se desgarra dos pais quando estes primeiros se desgarram dos seus. Pais que não amam e não cuidam dos seus desde a primeira idade, certamente não amarão nem cuidarão depois. Por consequência, os filhos acabam se tornando aquilo que os pais desejaram: ausentes, desobedientes, estranhos naquilo que se chama de lar. Pais que agem assim sequer se preocupam se já está tarde e o seu ainda não retornou.
Mas nem tudo se perdeu. Família é conceito tão forte que vai além de mero parentesco e linhagem de sangue. Não é apenas um vínculo de sobrenome, mas um vínculo de coração. Família é a primeira amiga, é a mais fiel conselheira, é amais protetora que possa existir. Quando o mundo parece desabar, é a família que se faz presente como auxílio e amparo. É na família, pois, que o ser humano expressa suas melhores virtudes. E dai ao mundo, com honradez e caráter.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Pelas ruas do meu sertão...



A porta aberta (Poesia)



A porta aberta


Não me lembro mais
se quem abriu a porta
e saiu primeiro
se foi eu
ou se foi ela

o vento entrou
e devastou
daquele amor
o que restou

a porta ainda aberta
o retrato na parede
lençóis empoeirados
e nós dois por aí
um procurando o outro.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – sair por aí



*Rangel Alves da Costa


Pra onde vamos? Vamos sair por aí. Vida nos chama a viver. Buscar a paz pelas veredas, caminhos e estradas. Respirar o sertão e o bicho do mato, sentir o farfalhar das folhagens e as canções açoitadas no vento. Caminhar sem pressa, tendo olhar para tudo, sentindo cada passo no chão e cada grão de areia. Vamos sair por aí. Caminhar os caminhos de Lampião, do Conselheiro, do velho Vaqueiro, do andante desse mundão sertanejo. Caminhar os caminhos que os da cidade não querem mais caminhar. Um casebre, uma casinha de barro e cipó, um cheiro de café no fogo de lenha. Os horizontes murmuram segredos a quem sabe ouvir. As paisagens contam tudo: a tristeza e a alegria dependem da cor da paisagem. Já vi o cinzento e o ressequido escorrendo dos olhos. Já vi o sorriso aberto no verde viçoso dos campos e além. Adiante uma cancela, mais adiante uma porteira. Uma janela se abre, uma porta range querendo abrir. O sorriso e a feição sertaneja. “Bom dia!”, “bom dia!”.


Escritor
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terça-feira, 30 de junho de 2020

MORRER NA TERRA: CANGACEIROS DE POÇO REDONDO QUE FORAM MORTOS EM POÇO REDONDO



*Rangel Alves da Costa


O cangaço percorreu quase o Nordeste inteiro. De Pernambuco ao Ceará, foram muitos os estados que sentiram no chão e na pele, nos ódios e nos afetos, as marcas e as consequências da presença cangaceira. Homens do mundo, sem lar nem parada certa, o cangaceiro vivia à mercê da força da caminhada ou do encalço do inimigo. Num repente, e tudo já se modificava, o coito era levantado, o passo era apressado, o mosquetão começava a cuspir fogo. Daí as mortes também serem ao largo das vinditas, em qualquer terra, em qualquer chão.
Cangaceiro nascido num lugar, acaso encontrasse a morte como desfecho, esta poderia acontecer nas mais distantes lonjuras de seu berço de nascimento. Virgulino Lampião, por exemplo, veio ao mundo em Vila Bela, Pernambuco, e dele se foi no então distrito sertanejo e sergipano de Poço Redondo. Muitos se foram assim, distantes dos lares, das famílias, de tudo o que haviam deixado para trás. Mas noutras situações o destino, com suas forças e mistérios, acabou levantando na própria terra as cruzes daqueles que nela haviam nascido.
Poço Redondo, no Alto Sertão Sergipano do São Francisco, (localidade sertaneja da Gruta do Angico, do Fogo da Maranduba, das Cruzes dos Soldados, do Coito da Pia das Panelas, e muito mais), também foi destino de morte de muitos de seus filhos que um dia deixaram seus lares para seguir os passos de Lampião. Canário, Enedina, Diferente, Mergulhão, Elétrico, Moeda, Alecrim, Rosinha, todos, após as carrasquentas andanças debaixo de distantes luas e sóis, acabaram retornando para o repouso final na própria terra.
Todos estes poderiam ter dado seus últimos suspiros em terras distantes. Por situações de perigo haviam passado, pelo fogo da morte haviam cruzado, na direção da matadeira haviam estado. Mas não, saíram ilesos para, já dentro da terra natal, terem suas vidas ceifadas. E tendo a vastidão sertaneja como último leito, vez que nenhum dos mortos foi velado pelos parentes e amigos nem teve sepultura minimante digna. Entre mandacarus e xiquexiques, os gravetos em cruzes e seus epitáfios sem nada dizer.
Canário (Bernardino Rocha) foi morto em 06 de setembro de 38, após a Chacina de Angico, na Fazenda Coruripe, nos arredores da sede de Poço Redondo. O companheiro da também poço-redondense Adília, foi morto à traição, com um tiro pelas costas, desferido pelo também cangaceiro Penedinho (que era primo de sua companheira Adília). Mesmo tendo sido morto tão próximo da sede, jamais teve digno sepultamento. Sua cabeça foi posteriormente decepada e levada por Zé Rufino (comandante de volante sediado na baiana Serra Negra), e o restante do corpo enterrado acerca de cem metros do local da traição.
Rosinha, no contexto cangaceiro mais conhecida como Rosinha de Mariano, havia nascido na região poço-redondense da Maranduba, sendo filha da afamada família Soares, irmã da também cangaceira Adelaide e prima de Áurea de Mané Moreno (o da Bahia). Após a morte de seu companheiro, Rosinha pediu permissão para se afastar temporariamente do cangaço. Permissão concedida, mas não retornou no prazo dado pelo Capitão. Após seu intempestivo retorno, sua sina já estava traçada: seria morta. A incumbência foi dada aos cangaceiros Zé Sereno, Juriti, Balão e Vila Nova. Assim, ao lado do Coito da Pia das Panelas, nas beiradas do Riacho Quatarvo, na região das Areias, em Poço Redondo, a cangaceira tombou sem vida.
 Por sua vez, Mergulhão (Gumercindo Braz, irmão da cangaceira Sila e também dos cangaceiros Novo Tempo e Marinheiro, filhos de Paulo Braz São Mateus), Elétrico (filho de Pedro Miguel), Moeda (João Rosa, da região da Guia), Alecrim (José Rosa, irmão de Moeda) e Enedina (Enedina do Nascimento, esposa do também cangaceiro Cajazeira), todos estes foram mortos na Chacina do Angico de 38, nas beiradas poço-redondenses do São Francisco, na região ribeirinha do Cajueiro. E todos, tão próximos de suas moradias e de suas famílias, mas tão distantes de qualquer retorno, tombando sem vida no próprio chão onde um dia nasceram.
Os túmulos destes, contudo, jamais foram abertos em cemitérios locais. Alguns, como Canário (enterrado sem a cabeça) e Rosinha, sepultados na solidão do meio das matas fechadas, espinhentas, assim como foram suas vidas nas desvalias cangaceiras. Já outros, aqueles do Angico, enterrados ao desvão do tempo, tiveram suas cabeças cortadas e levadas como provas da derrocada de Lampião. E de um Cangaço que jamais foi vencido.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Num tempo bom, entre andanças e relembranças...




Nunca mais (Poesia)



Nunca mais


Nunca mais deitei na varanda
nem recebi um afago de cafuné

nunca mais meu amor chegou
me trazendo beijo com sabor de café

nunca mais comi doce de leite
recebido na boca com sorriso e colher

nunca mais dei buquê de flor
e chamei moça menina de minha mulher

nunca mais fui alegre e feliz
nunca mais cantei um canto sequer

nunca mais amei nem fui amado
sentir calor de um corpo já não sei o que é.

Rangel Alves da Costa