SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 17 de fevereiro de 2019

VAQUEIRO ELIAS E OUTROS VAQUEIROS



*Rangel Alves da Costa


Nas suas lides de gado, entre aboios e toadas, seguindo pelos estradões ou em disparada em meio aos carrascais nordestinos, o vaqueiro foi construindo sua saga e sua história. O mesmo homem citadino ou do mato, sertanejo revestido de couro do chapéu às botas, levando consigo a tenacidade e o destemor aos perigos adiante, desde os espinhos das matas às pontudas armadilhas das catingueiras ressequidas.
O Nordeste e os sertões muito devem ao vaqueiro. Nos idos dos desbravamentos e dos nascedouros das povoações, nos currais e no cuidar dos rebanhos, a gestação de ofícios que foram se tornando primordiais. Com efeito, os ofícios vaqueiros ainda permitem que os rebanhos sejam cuidados pelos campos e suas bravuras também possam deleitar aqueles apaixonados pelas vaquejadas, cavalgadas e pegas-de-boi.
Vaqueiros de antigamente e vaqueiros modernos, e estes tão diferentes. Aqueles, sem a moderna ostentação do cavalo e da mostra de encorajamento nas disputas dos parques de vaquejada e das caatingas ao redor, viviam seus ofícios por necessidade e prazer na lide diária com o bicho. Vaqueiros das antigas e afamadas fazendas, dos grandes currais e dos tangimentos de bois e boiadas de canto a outro.
Vaqueiros que se iniciavam na vaqueirama pelo cheiro do estrume ou pelo ecoar da cancela rangendo. Ainda meninos e já estavam subindo em cavalos, tangendo gado, fazendo a separação, levando de pasto a outro. Para depois, já homens feitos, chamarem para si a responsabilidade pela condução do mundo sertanejo do boi, da vaca e do garrote. Tendo como montaria seu alazão, na moldura toda a expressividade do herói e do mito encourados: gibão, perneiras, rolós, embornais, cantis e muito mais.
Vaqueiros afamados pelo conhecimento do bicho, pelas proezas na vaqueirama, pelos destaques nas caçadas no meio do mato ou nas pega-de-boi. Na disputa para quem desembesta em busca do rabo do gado, nem sempre o vencedor é aquele que leva a rês valente ao chão, mas aquele que mostrou destemor e maestria perante os perigosos e pontudos labirintos da mata. E não importa que retorne com o rosto lanhado ou sangrando, pois importa mesmo a abnegação pela vida vaqueira.
Não há coisa mais proveitosa que encontrar um afamado vaqueiro para um bom proseado. Toda vez que encontro o amigo Elias, ou Elias de Tonho Gervásio, como é mais conhecido, eu festejo por dentro e por fora. Não há criatura sertaneja mais alegre, simpática e de prosa boa, que ele. Parece nunca estar preocupado. Também nunca foi encontrado de cara feia ou de poucos amigos.
Toda vez que o encontro é um abraço apertado. Era muito amigo de meu pai Alcino e continua meu amigo também. Aliás, com Elias meu pai proseava de quase passar o dia inteiro. No último encontro, na sexta de feira interiorana, apimentei o reencontro ao perguntar quem ele achava o maior vaqueiro de todos os tempos nas caatingas de Poço Redondo e arredores.
Pergunta mais que melindrosa perante um vaqueiro afamado, ante um verdadeiro titã das caatingas e cuja história já é cantada por todos. Mas ele, um tanto surpreendido, não pensou duas vezes para dizer:
“De todos, e digo sem medo de errar, que nenhum se igualou a Rivaldo de Janjão. Rivaldo, que dias atrás deixou o sertão mais triste e foi vaqueirar lá nos céus, foi o maior vaqueiro entre todos. E pertinho dele, quase no mesmo prumo, estava Tião de Sinhá. Dava gosto ver esses dois na verdadeira pega-de-boi, no meio do mato atrás de boi valente, vencendo os espinhos e as pontas de pau para dar cabo da empreitada. Por outro lado, quando se falava em rastejador, aquele que parece que sente o cheiro do bicho e vai atrás pelas marcas dos cascos fincadas na terra, não havia outro igual a Bastião de Timbé. Nunca houve no mundo um vaqueiro que descobrisse a presença de um boi, já passado mais de ano de seu desaparecimento, apenas pelo rastro encontrado. E Bastião de Timbé avistava a marca no chão e dizia qual era o boi e onde ele estava. E não errava não. Um ou dois dias depois, ou mesmo com mais tempo, nas lonjuras do mundo, e o boi estava lá. Não errava uma. Outro rastejador respeitado era Nofinho. Mas igual a Bastião de Timbé nunca houve um igual. E ele tá aí pra contar muito melhor essa história”. Mas quando eu perguntei sobre o que tinha a dizer sobre o vaqueiro Elias, sobre ele mesmo, quase dá gargalhada para dizer: “Deixe pra lá!”.
Deixe pra lá nada, Elias. Há que se reconhecer sua majestade e soberania na vida vaqueira. Todo animal e toda caatinga ainda reverenciam a sua passagem. Você sempre foi e sempre será reconhecido como um dos maiores vaqueiros da história sertaneja.
O bicho conhece o seu nome, a caatinga conhece o seu nome, a vaqueirama proclama seu nome. E Poço Redondo simplesmente o festeja com orgulho e gratidão.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Sempre lindo e belo, Velho Chico...





Para dizer que te amo (Poesia)



Para dizer que te amo


Agora na distância
e na dor da saudade
sinto a brisa e chamo
avisto a lua e chamo
até o silêncio eu chamo
para dizer que te amo

queria ter a palavra
e olhar bem no olhar
mas na distância declamo
na saudade eu exclamo
no desejo eu me inflamo
para dizer que te amo.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - sonhos e esperanças



*Rangel Alves da Costa


Que bom se todo desejado logo se tornasse em acontecido. Mas sei bem que não é assim. Muitas vezes, do muito que queremos, apenas um tantinho assim acontece. Ainda assim, nunca abdicamos de sonhar, sonhar e sonhar. O desejo de realização nos alimenta sempre. E haveria de ser assim mesmo. Ou pensamos no melhor ou queremos o melhor, ou simplesmente definhamos na mesmice e no nada fazer. Ademais, é o sonho, é o desejo de realização, que chama a esperança. E a esperança nada mais é que o nosso poder de acreditar que sempre será possível alcançar. Mesmo que nunca alcance, mesmo seja impossível ter o desejado, ainda assim necessitamos desse desejo de ter. Daí que sonhar é bom, ter esperança ainda mais. E tudo provocando a luta, despertando para o buscar do desejado. E desse modo, ainda que nada ou pouco aconteça, haverá sempre a certeza de que não se quedou na omissão consigo mesmo.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

sábado, 16 de fevereiro de 2019

VIVER PERANTE O OUTRO (E O MUNDO)



*Rangel Alves da Costa


Não há como viver numa ilha sem adentrar as águas. Acaso vivente na terra, não há como a pessoa se isolar de tal modo que ninguém possa encontrar. E uma vez encontrado, visto, avistado, necessariamente terá que compartilhar o seu passo e a sua vida.
Uma vez compartilhando, jamais estará livre da visão nem apreciação crítica do outro. É próprio da sociedade que as pessoas interajam sempre com a vida do próximo, ainda que este não deseje ser olhado, admirado e muito menos criticado.
Pensando bem, a vida dos outros é de suma importância para cada um. Melhor dizendo, para o outro que não a própria pessoa. Desse modo, o que o outro faz não compete somente a este, mas também ao próximo.
E há de ser assim mesmo porque as ações humanas merecem ser vistas e obter respostas aqui na terra mesmo. O bem ou o mal que é feito não pode simplesmente ser relegado ao plano do esquecimento, do já passou, do apagar-se nas páginas do tempo.
Já cantaram em eco e grito que ninguém é uma ilha. Ora, se ninguém consegue isolar-se completamente, então alguma presença ou vigilância externa faz parte de sua vida. O olho ao redor mira vida e tudo e acaba sabendo um balaio de coisas sobre o outro, ainda que este faça o máximo para que deixem sua vida em paz.
Contudo, quando falo da importância de que o outro seja visto perante suas ações, não o faço no sentido de que alguém, a todo custo, queira se intrometer na vida partir de quem faz o que bem quer da vida. Preocupar-se com o outro, vigiá-lo, acompanhar os seus atos, apenas para expor sua privacidade é atitude que contraria normas fundamentais inerentes à personalidade.
Ao falar da necessidade e positividade de interagir com as ações do outro, eu me volto apenas para o que está caracterizado como visibilidade pública. Tal termo seria no sentido de indicar aquilo que já foge ao mundo secreto e particular de cada um e se torna conhecido de todos, ainda que parte das pessoas não se atenha cuidadosamente para o que o outro faz.
Não se trata aqui de fazer apologia da fofoca, do simplesmente bedelhar, se intrometer na vida do próximo, mas sim de vê-la naquilo que há de mais bonito e de tudo tirar possíveis lições. Do mesmo modo, não ter medo nem vergonha das atitudes negativas do outro e fazer daquele exemplo um meio de não incorrer nos mesmos erros.
Verdadeiramente não há coisa mais feia e abominável para um ser humano do que levar a vida – logicamente esquecendo a própria – em função da vida do outro, do que ele faz, da roupa veste, com quem anda, se passou cheiroso ou suando. E mais ridículo ainda quando faz isto para buscar motivos para a fofocagem, o invencionismo, a deslavada mentira.
O proveito que se deve tirar da vida do outro é totalmente diferente. Pessoas existem que vivem para a prática do bem, pra o compartilhamento, para a solidariedade. Estas estão em direção aos asilos, aos hospitais, aos abrigos, às creches, a qualquer lugar onde possa dedicar uma parcela de ajuda e de amparo aos mais necessitados.
Pessoas também existem que distribuem sopas aos que estão abandonados embaixo de marquises, que vão visitar e tentar confortar desconhecidos que estão enfermos, que se reúnem com outras para a realização de obras de caridade, que adotam de coração crianças gravemente doentes, não se cansam de dar uma parcela do seu esforço físico, espiritual e até financeira em função do outro.
Mas o inverso ou reverso existe, e do mesmo modo também é visível, pois os atos são escancaradamente praticados. Não há nem mais que se falar nas práticas criminosas levadas a efeito por tantos e tantos, pois nem a pena nem o sofrimento em uma prisão parece ter o poder de afastar determinados indivíduos dessas nefastas atitudes. O pior é que muitos, mesmo sabendo das consequências da prática de atos ilícitos, seguem por vontade própria os mesmos caminhos da vida criminosa.
Quanto a estes, os exemplos já estariam claros demais. Porém, cotidianamente se observa outras atitudes em cujo espelho ninguém deverá se mirar. Viver falando mal da vida dos outros, criando situações mentirosas para prejudicar, incentivar os mais jovens ao mau comportamento, sempre ter o outro como inimigo, como alguém imprestável. E ainda a arrogância, a brutalidade, a desonra, o egoísmo, a vaidade exacerbada, a egolatria, tudo isso está exemplarmente na imagem de muita gente e que deve servir como norte para o outro que observa tais atitudes.
Daí que a vida do outro, por não pertencer exclusivamente a este, passa a ser exemplo que deve ser seguido, ou não, pelos demais. Ademais, como dificilmente algum fato surge totalmente novo na vida, então que os exemplos dos outros sirvam tanto para atrair como para se evitar.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Num só rio, Velho Chico...





Pássaro triste (Poesia)



Pássaro triste


Às vezes
em tardes e noites assim
quando queremos voar
quando queremos chorar
e voamos e choramos
sem asas e sem lacrimejar
vivenciamos essa solidão
mesmo que caminhando
em meio a uma multidão

por que o que sentimos
é o vazio do amar e ser amado
e sem esse sorriso na alma
ainda que sorrindo na face
somos um pássaro triste
sem ninho e abandonado.

Rangel Alves da Costa