SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

SOLIDÃO E LIBERDADE



*Rangel Alves da Costa


Seria possível que através da solidão o ser encontrasse a liberdade? O ato de estar sozinho pode provocar a liberdade suficiente que o homem tanto precisa? Ou a solidão é um túnel escuro e sem saída? Há quem veja a solidão como um ato de tamanho de libertação que o homem não encontraria onde forma de ser livre senão vivenciando o ato de estar sozinho.
Quem não ama a solidão, também não ama a liberdade. A frase é de Arthur Schopenhauer (1788-1860). Com isto quis proclamar o filósofo que a solidão não pode ser vista apenas como um mal que atormenta o ser, eis que somente através dela o homem é livre para expressar todo o seu sentimento, para proclamar-se sem disfarces e demonstrar toda a sua força ou fragilidade. Eis o contexto em que está inserida aquela frase:  
“Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre. A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.”
As palavras acima são de clareza singular. Afirma o filósofo que o homem completo, na sua inteireza do ser, exsurge somente quando está sozinho. Eis que na solidão o indivíduo revela-se completo, liberto, sem qualquer disfarce. Sozinho não há imposição alguma da sociedade, não há força social que manipule o ser, e por isso mesmo o homem se mostra apenas o que verdadeiramente é. Ademais, a liberdade trazida pela solidão, colocando o homem sem amarras, proporciona a este mostrar sua fraqueza, se fraco for; impor sua força, se forte for. Quer dizer, somente a solidão para proporcionar ao homem a sua verdadeira liberdade, pois momento único para se mostrar sem disfarces.
Daí a grande lição da solidão: Sozinho, o homem não é mais nem menos do que verdadeiramente é. Até mesmo fingir ser aquilo que não é, acaba comprovando o ser dissimulado que o homem é. Daí que a solidão é instante único para espelhar sem retoques, para mostrar a face sem qualquer máscara, para dizer que o homem sozinho assim se comporta porque desse modo ele realmente é. Daí que chora porque não finge sentimentos; enfurece porque propício ao enraivecimento; sofre porque propenso à angústia, à dor, ao entristecimento.
Quando Schopenhauer afirma que solidão é liberdade, certamente o faz para mostrar a nudez que com ela é revelada. E nudez no sentido de verdade, de não fingimento de sua realidade. Assim, a solidão se apresenta como momento único de liberdade do ser. Como afirmado, dessa liberdade o agir sem a vigilância de outrem, o pensar sem se sentir observado, o fazer o que quiser sem temer repressão de quem quer que seja. Ora, está sozinho, liberto, encontrando apenas consigo mesmo. E o indescritível instante para fazer o que seria impensável diante de outros.
Daí que não é tão ruim assim fechar a porta atrás de si e aproveitar ao máximo a solidão que silenciosamente se apresenta. Talvez os outros, aqueles que apenas avistaram a pessoa se recolhendo, fiquem falando ou imaginando a tristeza que deva estar sendo suportado naquele quarto fechado, naquela insuportável solidão. Não imaginam, contudo, que aquele recolhimento representa um caminho de liberdade. Jamais supõem que a pessoa ali trancada, ao invés de estar inventando coisas para dar cabo à vida, está feliz e reencontrando consigo mesma.
E não é à toa que a solidão serve como fundamento ao conhecimento do ser pelo ser. A meditação exige solidão, a reflexão filosófica implica em solidão, o percurso mental em busca de conhecimento pressupõe uma boa dose de solidão. E assim porque somente na solidão o homem é capaz de elevar o pensamento e encontrar respostas para suas mais inquietantes indagações. Do mesmo modo no homem comum, cuja solidão o faz tão verdadeiro como nem ele mesmo se imagina. O fato de estar sozinho o faz liberto para ser outro, mas acaba sendo apenas sua própria feição.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com  

Lá no meu sertão...


Entardecer sertanejo




O ouro do amor (Poesia)



O ouro do amor


Meu reino
por um beijo teu

minha coroa
por um abraço teu

minha vida
pelo corpo teu

mas preferia
que amasse apenas

nada se compara
ao amor sentido

e nenhuma riqueza
supera o ouro do amor.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – nossos medos



*Rangel Alves da Costa


O terrível medo que a mente cria. Ou o terrível medo por nós chamados quando desejamos. Em situação normal, há gente como medo de água, de chuva, de vento, de luz do dia, de noite fechada. Tudo compreensível. Mas há instantes que criamos nossos próprios medos. Não há nada de gato preto, mas nos deparamos com gato preto. Não há pio agourento pelos arredores, mas ainda assim cismamos de ouvir os agouros. Não há cobra no tufo de mato, mas insistimos haver uma serpente ali. E o pior é que tudo, dependendo da motivação interior, acaba existindo medo. A verdades é que temos problemas demais mal resolvidos, temos escondidos demais que jamais revelamos, e então tudo isso acaba se transformando em monstros, fantasmas, aberrações.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O VELHO MESTRE



*Rangel Alves da Costa


Que este meu olhar, que certamente será meu último olhar, tenha conseguido avistar o que de belo no mundo ainda há, pois entre sombras e névoas, a esperança reside em ao menos imaginar o que teria valido se pudesse ser visto. Assim disse o velho mestre.
Que estas palavras desfolhadas agora, que foram minhas últimas palavras, ecoem pelos portais dos tempos e repousem perante aqueles que ainda tenham olhos para ver e ouvidos para ouvir a verdade da vida. Disse o velho mestre ao seu discípulo, antes de ter as pálpebras fechadas para a eternidade.
Dois dias e duas noites em cima da montanha. O jovem discípulo saciando a fome e a sede nas palavras do velho amigo, e este, o mestre, se alimentando apenas da vontade em realizar seu último esforço sobre a terra: deixar, através de palavras, uma carta a todos aqueles que estivessem nos arredores e muito além da montanha. Todos os povos do mundo.
Da memória do velho não cuidou seu discípulo, não coube a este, ao modo dos aprendizes gregos da filosofia, guardar na mente as palavras e repassá-las para a posteridade, mas sim à própria natureza. Folhas ao vento, as pedras espalhadas no cume, a própria ventania que passava recolhendo o perfume, além do invisível papiro do tempo, foram os instrumentos onde as palavras foram inscritas e espalhadas pela vida afora, chegando aos tempos de hoje.
Eis as palavras do velho mestre, lições de antigamente, mas que ainda ecoam como se direcionadas às realidades eternas, de ontem, hoje e até amanhã. E assim está escrito por todo lugar:
“Meu olhar vai muito além do horizonte e de mais adiante, alcançando o primeiro grão de areia da primeira estrada de tudo. Lá, onde tudo começou, eu estava. E o que sou agora é também o que já fui desde aquele primeiro passo. Eis que sou fruto de seres que são frutos de outros seres, desde o que sou e serei ao primeiro; desde o que sou ao que foi o meu pai e todos aqueles que antes dele vieram.
Por isso tenho nome e sobrenome que não dizem nada. Tudo falso e tudo ilusão, pois talvez o homem seja esquecido se o seu nome não for lembrado. Por isso que meu nome é sangue, é raiz, é linhagem, é ancestral, é hereditariedade, é passado. Ninguém pode tirar do ser aquilo que está na sua alma, no seu espírito, na sua ancestralidade. Por consequência, a morte jamais será fim de alguém. E ninguém morreu desde aquele primeiro passo naquele primeiro grão de areia.
Então, que digam ao homem que ele faz parte de família maior do que poderia imaginar. Digam ao homem que sou seu sangue, vim da mesma raiz, que sou seu irmão, que viemos do mesmo lar um dia aumentado com a chegada de tantos outros irmãos. E muitos ainda virão. Digam ao homem que assim como sou seu irmão, aquele outro desconhecido também o é. O rico e o pobre são seus irmãos, o sadio e o enfermo também, todos, igualitária e indistintamente.
E creio não ser da normalidade humana, de seres que pensam, raciocinam, sabem distinguir o bem e o mal, a verdade e a mentira, e tudo o mais que os diferencia dos irracionais e loucos, o desconhecimento e a desvalorização do seu irmão. E são tantos e são todos irmãos. Irmãos desde aquele primeiro grão no primeiro passo, e que continuam unidos pelos laços da hereditariedade no tempo e do parentesco vindo daquele primeiro pai.
Vai de encontro à vida, ao sentido da existência, que o menosprezo ao próximo, e que é seu irmão, tantas vezes se transforme em ódio, em ameaça, em violência. Quando um irmão tira sangue de outro está derramando o sangue de si mesmo, do próprio corpo. Quando um irmão quer ou tenta destruir o outro, estará fazendo desabar sobre si o seu próprio castelo. E quantos egoísmos, vaidades, arrogâncias, brutalidades, situações que sempre acabam fazendo o caminho inverso. Ao erguer a mão implorando ajuda, os outros irmãos temerão, por medo, qualquer aproximação.
Mas eis a força do tempo e das transformações. Haverá o dia do desconhecimento, do esquecimento, mas também chegarão os tempos do arrependimento e da remissão. E aquele que olha pra trás e consegue enxergar sua casa e sua família naquele tempo primeiro, também conseguirá avistar todos os seus irmãos ao redor. E jamais viverá na solidão ou no sofrimento”.
Assim falou o velho mestre. Ao menos assim é que ainda ouço ecoando no vento.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, Poço Redondo, sertão sergipano


Caderno de coração (Poesia)



Caderno de coração


Olhei no olhar
naveguei no seu mar
vi horizontes sem fim
por te amar

escrevi poesia
quis ser sol do seu dia
até sem asas voei
tanto te queria

teu nome eu chamo
desse amor não reclamo
te amo por amar
te amo.

Rangel Alves da Costa