SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

CAMINHANDO NO MATO


*Rangel Alves da Costa


Sou sertanejo de nascimento, assim tão da terra quanto o calango e o preá, acaso este ainda encontrado. Também quanto o mandacaru, o facheiro e o xiquexique, que ainda reinam imponentes a cada passo do mundo sertanejo. E mais ainda igual ao caboclo que lida na força e na perseverança o seu dia a dia.
Sou da terra, porém não moro lá. Apenas de quinze em quinze, ou de oito em oito dias, nos finais de semana, é que viajo para reencontrar o meu mundo, a minha gente, os meus amigos enraizados ao chão: toda pedra, toda planta e todo bicho. Mas chegando a Poço Redondo, no sertão sergipano, logo me vejo muito além da cidade, pois enveredo nos seus caminhos de chão para avistar e conviver com as simplicidades somente encontradas no mato, ou no meio do mato.
É caminhando pelo mato que passo quase toda a minha estadia no sertão. Mesmo agora que o sol está mais avivado e o calor já ressurge em fogo, ainda assim sempre sigo, de chinelo de pé, por estradinhas pedregosas, veredas espinhentas e caminhos ressequidos, em busca daquilo que geralmente o forasteiro não dá a menor importância: os velhos casebres, as casinhas de barro e cipó, as paisagens inusitadas, os tanques tomados de barro, as malhadas tristes e os bichos desalentados de tudo.
Nem sempre caminho por paisagens acinzentadas pelas estiagens. Em determinados períodos do ano, principalmente em épocas de trovoadas, o sertão se enche de um verde maravilhoso. Como nas terras secas, sedentas e famintas, qualquer pingo de chuva provoca verdadeira transformação, então logo as plantas parecem renascidas e os bichos refeitos de todo sofrimento. A terra úmida faz vingar qualquer grão, os arvoredos começam a pender suas viçosas folhagens. Mas tudo por pouco tempo, o tempo suficiente de a ilusão novamente enfrentar a realidade da falta de chuvas e da sequidão.
Neste último domingo, por exemplo, encontrei um mundo assim, muito mais triste pela terra seca, pelos matos retorcidos de secura e paisagens abertas como um espelho de sol, e isso desde a manhã. Pois foi na manhã que sai de casa e fui seguindo pelos caminhos ladeados pela mataria sertaneja. A bem dizer, sequer mataria há mais, pois terras de poucas árvores, de poucos tufos de matos, num descampado que mais parece deserto encimado por cactáceas e miúdas plantas rasteiras.
Mas uma paisagem que já tanto me acostumei a encontrar assim. Triste demais, porém a mais verdadeira, pois a mais sertaneja. Desalentadora demais, contudo a mais real e a que mais sintetiza o mundo chamado sertão. Neste não há oásis nem pujança verdejante, não há jardins nem paisagens primaveris, mas apenas a feição sertaneja na sua dimensão maior: a catingueira, o xiquexique, o mandacaru, a planta morta, o galho esturricado, o bicho pastando debaixo do sol, as casinholas entristecidas e habitantes desalentados. Apenas sertão e o seu retrato em preto e branco.
Nesta última caminhada adentrei por lugares ainda não visitados. Passei entre fios de arame, abri velhas cancelas, cuidadosamente caminhei entre pontas de pedras, surpresas espinhentas e garranchos atrevidos. Ouvi latido e ameaça de uns dois cachorros, sai do caminho dos animais, mas não precisei abrir a boca em nenhum momento. Silenciosamente fui e silenciosamente retornei. Também não precisei bater palma defronte qualquer das casinhas que me aproximei.
Os casebres, quase todos de barro batido, estavam de portas e janelas fechadas. Alguns animais pelos arredores, caminhando soltos e em busca de qualquer alimento por cima do chão, de vez em quando procurando descanso debaixo das sombras de pés de pau. Ao lado das casinhas, pequenos currais velhos e já sem serventia. Cestos vazios, cocheiras sem uso de muito tempo. Quer dizer, os donos fecharam suas casas e deixaram os bichos ali, pastando sua própria sorte, ao desvão dos dias e das noites.
Registrei na memória e também em fotografias. E guardo o álbum que eu não queria guardar. Mas assim mesmo. Sou sertanejo e também faço parte desse retrato.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Curralinho, ribeira do Velho Chico, no município de Poço Redondo, sertão sergipano.




Poema errante (Poesia)


Poema errante


Noturno sou
noctívago sou
errante sou
tudo o que sou

não quero lua
só quero a rua
não quero estrela
só a noite nua

e o gole de rum
e a serenata
e a canção torta
e toda lágrima

até que a lua
desça na rua
e veja a estrela
caída nua.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – a encrenqueira


*Rangel Alves da Costa


Quem quer arrumar confusão tudo faz pra começar a desavença. E tem muita gente assim, que tudo faz pra arrumar pé de briga. Tudo começou quando a vizinha, propositalmente, levou o lixo até a ponta da calçada da outra e lá deixou. Esta, mesmo não gostando daquela desfeita, relevou o acontecido para evitar confusão. No dia seguinte, a vizinha não se contentou e resolveu fazer mais: deixou todo o lixo bem na porta da outra. Aí a coisa começou a azedar, pois quando a mulher abriu a porta e avistou aquela imundície, logo imaginou quem poderia ter feito aquilo. Prontamente foi à porta da outra e perguntou se ela sabia quem poderia ter deixado aquela porcaria ali. “Foi eu, mas foi sem querer. Eu tava juntando o lixo quando alguém me chamou e acabei esquecendo”. Dizia isso com a cara mais cínica do mundo. No dia seguinte, já prevendo outra desfeita, a vizinha ultrajada ficou de olho pela fresta da janela esperando somente a outra aparecer. E ela apareceu, e dessa vez com um saco de folhas secas. Mas antes mesmo que as folhas fossem espalhadas, a precavida saiu de cabo de vassoura à mão e foi logo acertando no lombo. Esta se remexeu doída, e quando ia avançar recebeu outra vassourada, caindo por cima do saco aberto, espalhando folha pra todo lado. E depois, ainda ameaçada pelo cabo de vassoura, teve de recolher uma a uma, perante uma multidão que se formou ao redor. Envergonhada, passou mais de mês sem botar a cabeça na porta. Dois meses depois e já estava jogando lixo na porta da mesma vizinha.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com 

domingo, 25 de setembro de 2016

NO LEITO DAS ÁGUAS GRANDES


*Rangel Alves da Costa


Conheço um leito de rio, tão magistral e tão formoso, tão pujante e tão belo, tão imponente e tão vasto, que costumei a chamá-lo de leito das águas grandes. Não sei se tal percepção, de ser aquele leito o maior e mais belo de todos, é apenas fruto da memória e da recordação, vez que comigo as relembranças de ser aquele rio tudo aquilo que os livros diziam: O grande São Francisco, o imenso e caudaloso Velho Chico!
Hoje, infelizmente, de vez em quando ouço dizer que o São Francisco não é mais sequer a sombra daquele rio imponente de outrora. E no mesmo sentido a assertiva de o Velho Chico estar nas suas últimas forças, nos seus últimos suspiros, em estado de verdadeira penúria. Na verdade, meus olhos avistam o leito padecente, magro, numa finura e esmorecimento inimaginados para um rio daquele porte, mas simplesmente teimo em não acreditar.
Ora, meu Deus, o menino nunca quer que o seu boizinho de barro se quebre, o menino nunca quer que sua bola de meia desapareça, o menino nunca suporta ter de abandonar sua bola de gude, seu cavalo de pau, seu brinquedo infantil. A isto se denomina amor, fidelidade, desejo de ter sempre consigo. Assim também com o meu rio, cujo leito fica a apenas catorze quilômetros de onde estou agora, margeando o meu sertão sofrido de seca, acolhendo a vida ribeirinha que ainda resta nos seus costados. Também sou ribeirinho, pois nascido nesse vasto e belo mundo do Sertão do São Francisco. Sou sergipano de Poço Redondo.
Por isso mesmo sei que o meu rio está muito diferente de outros idos, que agora está combalido e já sem águas nem forças suficientes para que embarcações sigam de canto a outro. Sei que o meu rio não é mais moradia constante do surubim, da tubarana e tantos outros peixes grandes que fartavam as panelas ribeirinhas e sertões adentro. Também sei que as velhas carrancas não mais despontam nos horizontes protegendo as novas e velhas embarcações. Sei ainda que a povoação do rio, tanto o pescador como o habitante de suas margens, agora se vê apenas com as memórias dos tempos de fartura e de doce sobrevivência.
As povoações ribeirinhas, principalmente aquelas pequeninas que foram surgindo às margens durante as primeiras penetrações aos sertões, sofrem agora de abandonos indescritíveis. As cidades ricas, de suntuosos monumentos, de casarios imponentes e comércios prósperos, agora se veem estagnadas, paradas no tempo, sem perspectivas futuras. Melhor sorte não há naqueles lugarejos e aldeias beiradeiras, tendo de suportar agora um empobrecimento crescente e doloroso.
Do verdadeiro rio, daquele São Francisco de tempos passados, de antes da instalação das usinas hidrelétricas ao longo do seu leito, restam somente as histórias, as memórias, as relembranças e as saudades. Restam também as lendas, as crenças, as culturas e as tradições ribeirinhas, mas nada que se sustente sem que o povo do lugar se mantenha como sua voz. E o povo ribeirinho também está escasseando, sumindo, se mudando para lugares outros onde haja melhores perspectivas de vida. Mas me permito ficar com as saudades.
Eternizo – e certamente eternizarei para o sempre na minha memória – o leito das águas grandes. Aquele leito onde as grandes embarcações aportavam apara trazer e levar pessoas, alimentos e tudo aquilo que servia de sobrevivência à vida sertaneja. Aquele leito tomado de canoas e pequenas embarcações e seus pescadores lançando redes e logo trazendo a fartura. Aquele leito de homens e mulheres sentados nas calçadas altas para apreciar as belezas das chegadas e partidas, mas principalmente das águas que sempre pareciam com novos fascínios.
Neste leito das águas grandes ainda mora a minha memória e a minha saudade. Hoje o rio é outro rio, mas continua em mim aquele mesmo rio. Sempre o mais belo e o mais fascinante de todos os rios. Um rio onde me alento na mesma poesia de Pessoa: o mais belo rio, pois o rio que passa na minha aldeia. A minha aldeia sertaneja.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Águas do meu São Francisco. Em Bonsucesso, povoação ribeirinha no município de Poço Redondo, sertão sergipano.




Doce (Poesia)


Doce


Leite e açúcar
coco ralado
pitada de sal
fogão aceso
tacho mexido
colher de pau
e a espera
do ponto
e pronto

há na vida
um doce assim
açúcar e sal
suor e luta
uma pitada
de tristeza
e de alegria
e um sabor
que se deseje.


Rangel Alves da Costa