SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 25 de julho de 2017

FEIRA MATUTA


*Rangel Alves da Costa


Tudo aceso feito braseiro ainda na madrugada. Pouco tempo depois já começava a fervilhar feito formigueiro. Mais tarde parecia um descampado abandonado às traças, tomado de bagaceira, sujeira de toda espécie. Não poderia ser diferente. Era fim de feira.
Se feira interiorana é acontecimento dos mais atraentes, instigante e concorrido, o que se vê quando o comércio matuto se finda é coisa de arrepiar. As cores, os cheiros, o povo de matiz trigueiro, as barracas, as bancas, as vozes, as frutas, verduras, farinha, a carne, de tudo um pouco, logo dão lugar à sujeira e imundícies jamais imaginadas para um lugar que há bem pouco guardava tantos atrativos e sabores.
Até parece que a feira espera o povo matar a fome nas barracas cheirosas e apetitosas, se fartando da carne fresca de boi, de porco ou de bode, ou na gulodice do sarapatel, do fígado acebolado ou ainda da invenção sertaneja do dia, para se despedir da função. Enquanto os últimos famintos pedem um pouquinho mais de galinha de capoeira, as barracas já estão sendo desmontadas, os restos embalados e os caçuás recebendo o que não foi vendido.
Já é hora de avistar, e até contar, todos os bêbados do dia. Aqueles que começaram o dia tomando uma pinguinha, e em meio à compra do tomate, do quilo de farinha, do pedaço de fumo de rolo, emborcaram mais uma e depois mais outras. No tropel de fim de feira já não saem mais do balcão, já não sabem nem quantas viraram e quantas raízes de pau talagaram sem pestanejar.
Os bares e barracos ladeando a feira ficam repletos depois que os compradores se dissipam e os feirantes vão contando seus lucros e lamentando o que vai ter de retornar. Aguardente misturada com raiz ou casca de pau, com angico, umburana, aroeira, cedro, uma vegetação sertaneja inteira, faz a festança de um povo sempre disposto a virar mais uma. E aí é onde está o problema.
Já tomados demais, amigos desconhecem amigos, os inimigos de pinga se estranham de peixeira na mão. O fuzuê é criado, é um vexame danado, por pouco um não desembucha o outro. Os dois são retirados do ambiente e por lá mesmo, no pé do balcão ou num canto qualquer, a feirinha da semana é esquecida. E mais tarde, completamente bêbados, às cegas, cortam estrada para apanhar da mulher quando chegar à tapera.
“Coisa feia, um homi véio desse, pai de famia, bom de se arrespeitá, espanta o galo pa ir pa feira e vorta feito um gambá. Tá qui num se sustenta nem de pé, seu desgraçado. A feira, cadê a feira?”. O coitado, sem condições de responder a contento, até mesmo porque não sabe onde o saco de mantimentos ficou, tropeça até a malhada e começa a entoar um desafinado e doloroso aboio. Mas doloroso mesmo vai ficar seu lombo daí em diante.
Mas enquanto a feira vai terminando é que algumas pessoas sempre atrasadas começam a chegar. Não que procurem o lugar pra comprar pano de chita, água de colônia, talco de pó, presilha de cabelo ou um quadro bonito da Virgem Maria. E também não vão até ali para escolher a verdura, a fruta, o arroz, o café, a farinha. Nada disso. Vão precisamente para fazer o que sempre fazem no fim de feira: colher os restos, catar os restos, mendigar pelo chão.
Homens, mulheres, velhos, meninos, pessoas de fim de feira. Acordaram tão ou até mais cedo que as outras pessoas que passaram pelas suas portas em direção ao comércio semanal interiorano. Avistaram adiante, virando a curva, seguindo de mochila, saco ou sacola à mão pra colocar as compras. Aquelas pessoas que passam e que vão certamente levam algum no bolso e poderão escolher sem pedir, sem a submissão da mendicância.
Porém muitas outras não. Quando as pessoas retornam com suas compras e quando, vigiando pelos arredores, sentem que o restante que ficou por ali espalhado não possui mais dono, é que vão catar o alimento do dia e talvez o de amanhã. Banana amassada ou apodrecida, tomate e pimentão imprestáveis, repolhos e folhas deixados pelos cantos. E que festa ao olhar da penúria, da necessidade, da precisão.
Alguns desses sacrificados chegam logo cedinho, se misturam a feirantes e compradores e pedem o quanto podem. Mas outros não. Outros, tomados pela imorredoura honra matuta, preferem catar os restos a estender a mão diante de outra mão, de outro olhar sertanejo. Seria desonra demais, seria dor ainda maior.


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Lá no meu sertão...


Pedro Popoff e Pedrinho do Museu. Estes dois meninos, ao lado da maravilhosa Cecília do Acordeom, garantiram instantes maravilhosos ao Cariri Cangaço Exu 2017.




Manhã (Poesia)


Manhã


Bom dia, meu amor
abro-te a janela
e chamo o sol
a beijar sua face
a cariciar seu corpo
por um instante
apenas

e trago flores vivas
e trago fruta madura
e trago uma borboleta
e um voo de colibri
na manhã mais bela
mas por um instante
apenas

nos demais instantes
viveremos em nós
a beleza do amor
a cada instante.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - ratos e esgotos


*Rangel Alves da Costa


Os ratos estão aflitos. Os ratos estão desesperados. Os ratos estão angustiados, aflitos, desesperançados. Os ratos estão indignados com as ameaças à rataria. Os ratos estão sentindo verdadeiramente ameaçados na sua sobrevivência em meio aos lixões, aos monturos, às imundícies dos esgotos. Um verdadeiro desrespeito aos ratos. Um acinte à vida dos ratos. Uma exposição a uma situação que, segundo os ratos, não mereciam, pois vergonhosa e constrangedora demais. Mas o que aconteceu para que os ratos de repente se mostrassem tão aflitos e até agonizantes. Ora, seus esgotos agora estão imprestáveis. Seus esgotos agora estão totalmente tomados por dejetos, imundícies e podridões, que nem os ratos suportam. Onde havia lama fedida, agora somente a imagem nojenta e asquerosa de políticos, governantes e poderosas autoridades. Onde havia lixo espalhado, descendo pelas tubulações, agora somente inquéritos lamacentos, processos putrefatos, sentenças e penas. Onde havia restos imprestáveis de tudo, agora somente acúmulos de corrupções, fraudes, ilicitudes, improbidades. Onde havia o insuportável ao homem, agora somente o homem tendo de ser suportado pelos ratos. Por isso mesmo que os ratos de esgoto, ante a nova configuração de vida, estão indo embora para Brasília. E vão na esperança que os ratos de lá escorram de vez pelos esgotos.


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segunda-feira, 24 de julho de 2017

DA ARTE DA POBREZA E DA NECESSIDADE


*Rangel Alves da Costa


A situação economicamente caótica em que vive o Brasil acaba fazendo surgir verdadeiras mirabolâncias no intuito da sobrevivência. O crescimento da pobreza, a miséria que se alastra por todo lugar, o desemprego, a falta de qualquer oportunidade de ganha-pão, são aspectos negativos que transformam pessoas em verdadeiros artistas da sobrevivência. Daí se ter pelas ruas, esquinas, semáforos e calçadas, a contínua exposição da arte da pobreza e da necessidade.
Não é fácil ser artista sem o dom ou a propensão à criatividade espontânea. Nada fácil ser artista do próprio estômago, do bolso vazio, da mesa nua e da fatura atrasada. Mas, como diz o ditado, na hora da precisão, da necessidade, da carência mais veemente, a pessoa se vira como pode. Então se torna artista daquilo que nunca fez ou jamais pensou em fazer. Um artista que surge sem pincel ou tela, sem caderno e lápis, sem molde ou cinzel, sem qualquer transformação do nada em beleza.
A arte das ruas já não está mais no esmero arquitetônico do luxo, na parede grafitada, na escultura das praças, nos monumentos, nos modernos equipamentos urbanos ou nas fachadas das lojas grã-finas. A arte das ruas agora está na estátua humana, no ilusionista da calçada, na novidade repentinamente surgida e que vai aglomerando pessoas incrédulas no que acabam vendo. Palhaços sem circo, trapezistas sem palco, mambembes sem picadeiro. Ou apenas a postura de um envelhecido senhor carregando uma placa dizendo que compra ouro.
A capital sergipana nunca teve tantos artistas assim. Agora eles estão por todos os lugares. As calçadas, logradouros, marquises, meio de rua, tudo está tomado de arte, da arte da pobreza e da necessidade. Flores de plástico, arames transformados em brinquedos, carrinhos de madeira, cuscuz de coco, laços de fita enfeitados, diademas floridos, bombons e doces caseiros de todos os tipos, tortas e salgados igualmente caseiros, enfeites e objetos do lar feitos à mão, uma infinidade de produtos dessa arte crescente das ruas.
O comércio ambulante deixou de ter o cafezinho, o chá, o suco e o pão de queijo ou sanduíche, para ofertar o inesperado. Passa o carro de frutas, de amendoim, de legumes e verduras, de milho verde e canjica, de meias e cuecas, de cds e filmes, de pipoca e algodão doce, de bebidas e refrigerantes, mas também os produtos e objetos até mesmo desconhecidos à maioria da população. É uma reinvenção ambulante na tentativa de atrair clientes e garantir a sobrevivência. E os ambulantes não recriam seus comércios para auxiliar outros ganhos, mas como única forma de sustentar a si mesmos e até a família inteira.
Pelo centro comercial, principalmente na região central do principal calçadão, a cada dia vai surgindo uma nova forma de arte da pobreza e da necessidade. A pessoa pode tirar um retrato ao lado de uma monstruosidade qualquer, de uma pessoa vestida em fantasma aterrorizante. Logo abaixo está a caixinha para o vintém, para o trocado tão útil e necessário. A pessoa pode admirar estátuas humanas, e tão perfeitas que mais parecem de cobre reluzente. Logo abaixo a caixinha da moeda ávida por uma compra qualquer. A pessoa pode se encantar com a mágica do dia, com a cobra que dança, com o objeto que some, com o cãozinho de máxima ou obediência ou com o transformista que vai se enrolando em si mesmo. E logo ao lado a caixinha para a moeda ser lançada como uma esmola.
Verdade que aumentou o número de vendedoras de acarajé, de bolsas e relógios pelas esquinas, de óculos e chapéus, de sandálias e bolsas. Há um comércio paralelo tão forte que passa a assustar os comerciantes estabelecidos em lojas. Mas nem o preço se diferencia muito como antigamente. O que diferencia do grande ou pequeno comércio é a possibilidade da pechincha e a aquisição de objetos por preços muito mais justos. Mas até no comércio de meio de rua há uma invencionice para atrair e cativar os passantes. Os ambulantes se reinventam de tal forma nos seus jeitos de vender que mais parece estar diante de um artista da voz, do humor, da alegria. Tudo uma questão de necessidade.
Ora, mas que tristeza avistar aqueles senhores, muitos já envelhecidos, em pé nos calçadões e carregando à frente e nas costas aqueles anúncios de “compro ouro”. Quanto estes idosos ganham por dia? Uma insignificância, mas com a ilusão da soma à mísera aposentadoria. Também são artistas do silêncio, da simulação da dor e do sofrimento, do fingimento de que estão ali por vontade e satisfação. E mais adiante a jovem grita “olha o chip, olha o chip”, enquanto outra vai puxando pelo braço qualquer um para dizer que pode fazer seu cartão de crédito na hora ou que dinheiro não é mais problema, pois logo adiante há empréstimo a juros baixos.
É preciso ser artista para sobreviver. Será a resposta dada por qualquer um que a cada dia se esforça como pode para garantir seu tostão. Seja como estátua humana ou como tagarela gritante, o objetivo da arte é a própria vida.


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Lá no meu sertão...


Povoação ribeirinha de Bonsucesso, município de Poço Redondo/SE, 
cerca de pedra construída por mãos escravas.



De todo amor que sinto (Poesia)


De todo amor que sinto


De todo o amor que sinto
amo apenas uma parte
do que desejo amar

tenho medo do todo
e cada parte que amo
em tanto amor revelar

e revelado todo amor
a parte de amor que sinto
não queira amor somar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – nada me surpreende mais


*Rangel Alves da Costa


Nada me surpreende mais. Um sim ou um não, nada mais me surpreende. O ser humano parece já ter chegado aos seus limites. Não há mais sexo masculino ou feminino. Tudo embananou de vez. Gêneros sexuais que são criados unicamente para a satisfação das insatisfações com o sexo próprio de cada um. Antigamente existiam apenas dois nomes para isso tudo, mas deixe pra lá. Cada um opta pela sexualidade que desejar. Ademais, nada me surpreende mais. Também já não me surpreende nada de lamacento que surja no noticiário. Surpresa seria se surgisse um exemplo de honestidade na classe política, palaciana, gabinetes e todo o contexto de poder. Como eles sequer se importam serem processados como corruptos, ladrões, falsários e etc., nada posso fazer com relação a tal aptidão aos esgotos. Também não me surpreendo mais com pais que pais que desconhecem filhos e filhos que desconhecem pais, com famílias desintegradas dentro de quatro paredes e um tanto faz sem limites de aceitação. Por isso que nada me surpreende mais. Surpreendido eu ficaria com uma jovem que se casasse ainda virgem, com uma família que ora antes e após as refeições, com filhos dando a benção aos pais e pais verdadeiramente cuidando de filhos. Surpreendido eu ficaria se alguém dissesse que ama e tal amor fosse demonstrado na ação, no cotidiano do relacionamento, e não apenas com palavras.


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domingo, 23 de julho de 2017

LOUVAÇÃO AO CUSCUZ


*Rangel Alves da Costa


Segundo Sinésia da Cocada, o cuscuz merece toda a louvação do mundo. E ela mesma confidenciou que até o coloca no rosário de suas orações, pedindo aos céus para que nunca lhe falte à sua mesa. Sentimento igual de Toniquinho Poeta, que vive a escrever rimas pobres em louvor ao cuscuz. E escreve: Igual ao lábio da mulher, seja na mão ou colher, o cuscuz delicia a boca e a fome desandar em louca...
Tanto amor ao cuscuz já me levou a escrever alguns textos sobre este alimento que, ao lado do pão, certamente é o mais apreciado na mesma do nordestino, seja pobre, rico ou remediado. Interessante que a paixão é tamanha que até mesmo totalmente puro é devorado em instantes por bocas ávidas pelo amarelado prazer.
Como efeito, o cuscuz é um dos pratos típicos mais apreciados do mundo. Típico por que cada povo costuma ter uma receita própria e à base de milho, arroz, trigo e outros cereais. Dependendo da região, o cuscuz se torna num misturado que mais parece outro prato.
As receitas são muitas, levando miúdos, carnes diversas, queijos, salsichas e outros embutidos, temperos, conservas, dentre outras opções. Mas nada igual ao nosso velho e conhecido cuscuz nordestino, sertanejo de cheiro e fogão. Cuscuz de massa ou flocos de milho, sem mistura, saído fumegante do cuscuzeiro.
Conheço muita gente que se basta no cuscuz puro, sem acompanhamento algum. Até diz que qualquer coisa misturada às fatias amareladas acaba distorcendo o generoso sabor. E com razão. E tem gente que aprecia tanto o prato que é capaz de devorar um cuscuz inteiro em poucos instantes.
“Agora, imagine sendo o cuscuz autêntico, de milho ralado em quintal, cozido em fogão de lenha e recoberto por pano limpo, de onde logo surge uma névoa quente, cheirosa, perfumada, apetitosa, para depois ser fatiado e saboreado com manteiga da boa, ovos de galinha de capoeira ou queijo da terra se espalhando ainda quente pelas fatias e ao redor...”.
Conheci um senhor que causava um problema sério na hora do café da manhã ou do jantar. Sempre queria cuscuz, e puro, mas tendo de ser vigiado pela família para não fugir do limite. Como eram feitos dois cuscuz, sendo o dele um pouco menor, comia inteirinho o seu e depois olhava para os cantos e, não avistando ninguém, corria a pegar fatias no outro cuscuzeiro.
“Agora, imagine se esse cuscuz tão apreciado fosse saboreado com uma xícara de café batido em pilão e torrado, feito em chaleira antiga, derramando pelas beiradas o mel enegrecido dos deuses. Manteiga se derretendo por cima de cada fatia, mais adiante uma porção de tripa assada, fininha, mas daquelas que escorre pelo canto da boca a cada mordida...”.
Muita gente come o cuscuz puro por falta mesmo da chamada mistura. Mas tenho certeza que muito mais gente prefere ele assim, sem acompanhamento algum, pelo simples prazer em comer, em saborear cada pedaço de fatia, e sempre querendo mais. Quando no ponto, nem muito endurecido nem muito molhado, descendo ainda fumegante no prato, realmente faz esquecer qualquer outra comida que possa ser misturada. Basta esfriar um pouquinho e mastigar revirando os olhos.
“Agora, imagine um cuscuz de milho ralado, como aqueles próprios das fazendas e lugarejos afastados, chegando sobre a mesa acompanhado de um bom pedaço de porco assado, uma boa costela de gado, ou mesmo uma carne torrada e oleosa. Antes de tudo, molhar a fatia com o óleo da fritura, depois espalhar por cima uns pedaços já cortados segundo cada garfada ou colherada, e tendo ao lado uma xícara de café negro e encorpado. É um não querer sair mais nunca da mesa...”.
Muita gente prefere pão, inhame, macaxeira, sopa, ou mesmo o que tiver na hora da fome da manhã e da boca da noite. Mas há os verdadeiros apaixonados, fanáticos pelo cuscuz. E tanto faz que seja em floco ou a simples massa, bastando que chegue com aquele cheiro inconfundível do milho cozido. Verdade que o aroma nunca é igual àquele ralado em quintal e cozido sumarento sobre o fogão de lenha, mas a intenção vai pela fome e a fome faz surgir o perfume.
“Agora, imagine um cuscuz caipira, de milho ralado, com leite de coco por cima, ou mesmo leite de gado morno, com nata grossa por riba. Imagine um cuscuz assim acompanhado de uma perna de preá assado, de uma nambu ou codorna, de uma caça qualquer. Imagine um prato assim diante de um cabra que chega cansado ou que tem de ter sustança para o trabalho do dia. A pessoa come de perder a hora, de dar moleza, de dar vontade de somente se estirar numa rede e sonhar. Com mais cuscuz...”.


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Lá no meu sertão...


Um sertão assim...




Pássaro e flor (Poesia)


Pássaro e flor


Minha namorada é linda
parece flor
parece pássaro
parece poesia
parece música

não gosto que seja assim
o cuidado na flor
o respeito ao pássaro
a devoção à poesia
a leveza na música

e como vou abraçá-la
e beijá-la e amá-la tanto
se junto a mim a candura
as asas leves de borboleta?



Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - inquietações


*Rangel Alves da Costa


As inquietações atormentam. Nada pior que a preocupação, o desassossego, o frêmito da alma. Será que chega logo ou não, será que ao longe realmente avista-se alguém chegando? E essa carta que não chega logo! E esse telefone que não toca de jeito nenhum! E esse grilo que não para de tocar atordoando o silêncio! E essa chuva que não passa, esse sol que não chega, essa lua que não vem! Será que a porta será logo batida? Será que novamente um bilhete vai ser deixado no umbral da janela? Será que as flores ainda serão jogadas pela janela? Será que, como noutras vezes, haverá serenata à janela? E essa febre que não passa, esse torpor que não passa, essa dor que não passa! Sofrendo sim, um sofrimento inexplicável, mas que faz sofrer. Um aperto no coração, uma angustiada danada, uma melancolia sem fim. Tudo inquieta, tudo corrói, tudo desanda por dentro. E ainda por cima essa insônia, esse grito por dentro, essa lágrima presa. Por quê? Por quê? Por quê?


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quarta-feira, 19 de julho de 2017

POÇO REDONDO: GESTÕES E GESTORES


*Rangel Alves da Costa


Desde a primeira eleição até o presente, por Poço Redondo já passaram nada menos que doze prefeitos: Artur Moreira de Sá, Eliezer Joaquim de Santana, Durval Rodrigues Rosa, Cândido Luís de Sá, Alcino Alves Costa, João Rodrigues Sobrinho, Roberto Godoy, Ivan Rodrigues Rosa, Enoque Salvador de Melo, Maria Iziane, Roberto Araújo e Júnior Chagas. Este último ainda em pouco mais da metade do primeiro ano de mandato.
Logicamente que alguns destes foram eleitos mais de uma vez para a gestão municipal, a exemplo de Alcino que saiu vitorioso em três eleições e foi o político com mais tempo de mandato. Enoque Salvador também foi eleito três vezes, porém renunciou quase na metade do terceiro mandato. Durval Rodrigues foi eleito uma segunda vez após ter sido forçado a renunciar em 1964.
Impossível dizer quem trabalhou mais ou trabalhou menos, quem fez mais ou fez menos por Poço Redondo. As paixões e os fanatismos políticos impedem que se faça qualquer consideração a esse respeito. Afirmar que um foi o melhor gestor é o mesmo que puxar briga com alguém ainda apaixonado por outro gestor. Igualmente se diga com relação àquele ou aqueles que não conseguiram atender os anseios da população e, por isso mesmo, passaram ser deixar muitas saudades.
Na verdade, todos deixaram importantes históricos de realizações. Alguns prefeitos ficaram reconhecidos como bons ou excelentes administradores, outros como administradores para si mesmos e seus grupos políticos, e ainda outros como excelentes gestores pessoais, vez que administraram com excelência seus próprios interesses. Há de se considerar também que é muito mais fácil ser prefeito de um município com menos problemas, como no passado, do que a partir de anos mais recentes, quando houve um enorme crescimento populacional e as demandas passaram a ser muito maiores.
Não há prefeito, contudo, que consiga realizar ao menos um terço daquilo que é prometido em eleição. E não realiza por dois motivos: pelo exagero nas promessas e pela impossibilidade mesma de cumprir. Neste sentido, descabido até que a legislação eleitoral exija dos candidatos um plano de governo. Ora, a governabilidade de um município depende de seus recursos, dos meios financeiros que são disponibilizados, e não do que foi colocado em papel antes mesmo da eleição. O que adianta constar de um plano de governo aquilo que é impossível ser realizado?
A verdade é que prefeitos de um passado mais distante e que geriam o município basicamente com o Fundo de Participação dos Municípios - FPM, nem por isso deixavam de realizar grandes obras. Mas parece que tudo foi diminuindo a partir do instante em que os recursos foram sendo maiores, pois provenientes de diversas fontes, e até com destinações específicas, como ocorre com os recursos próprios da saúde e da educação. Além disso, por muito tempo Poço Redondo sequer parecia que recebia qualquer tipo de recurso, pois propagado pelos próprios gestores como o mais pobre do mundo, o mais feio, o mais faminto, o mais esquecido da sorte.
De qualquer forma, a verdade é que, igualmente ao propalado período de trevas da Idade Média, por muito tempo Poço Redondo permaneceu em estado de plena letargia ou sonolência administrava. Contentou-se por muito tempo em mostrar o município e a população como aqueles comendo palma, esfarrapados, numa miséria sem fim. Sim, Poço Redondo sempre foi economicamente desfavorecido, mas não naquela proporção descabida e alardeada por aquelas que deveriam negar os fatos.
Durou, pois, cerca de vinte anos a Idade Média de Poço Redondo. Para uma melhor ideia disso, até 31 de dezembro de 2016, as grandes obras do município ainda continuavam sendo aquelas de mais de vinte anos. Significa dizer que neste período pouco ou quase nada foi feito que permanecesse como exemplos de administrações comprometidas com o bem-estar, a qualidade de vida da população e o desenvolvimento da cidade e das povoações.
Sobre o administrador atual, ou sobre a gestão atual, toda e qualquer referência não passará de mero exercício de precipitação. E nunca é bom especular quando o gestor, ao menos até o presente momento, tem demonstrado que se elegeu não para o continuísmo da inércia ou da omissão. Tem transformado aqui e ali. E seu trabalho ganha ainda maior visibilidade exatamente por estar trazendo alguma luz após aquele período de trevas.


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Lá no meu sertão...



A bela e suntuosa arquitetura da povoação ribeirinha de Curralinho, em Poço Redondo, sertão sergipano.






No circo (Poesia)


No circo


O palhaço o que é?
um triste, apenas...
o trapezista o que é?
um aflito, apenas...
a dançarina o que é?
uma sofrida, apenas...
o malabarista o que é?
um trêmulo, apenas...
a cantora o que é?
uma mudez, apenas?
o macaco o que?
um bicho, apenas...

e nós, o que somos?
tudo neste circo!


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - como fazer bolinhos de esperança


*Rangel Alves da Costa


Somente agora ouvi dizer que minha avó materna fazia uns deliciosos bolinhos de esperança. Não somente ela como Tia Veremunda, Tia Mundica e Tia Sinfronésia. Era praticamente uma família da esperança, ou dos bolinhos de esperança. Encontrei a receita num velho caderno guardado em baú. Que letra bonita, cursiva, como que florida e banhada a ouro. Mas vamos aos bolinhos de esperanças. Ingredientes: duas xícaras de farinha de trigo, cinco ovos, copos de leite fresco, fermento, açúcar e sal, além de cravo e canela para dar um sabor diferenciado. Como fazer? Logo abaixo está descrito como fazer os bolinhos de esperança: pegue todos os ingredientes e jogue fora, no lixo, no mato! Que absurdo, pensei. Mas em seguida, como observação, está escrito: Bolinhos de esperanças não são feitos de farinha de trigo, ovos, leite ou qualquer coisa, mas sim com as mãos moldando a vida, os olhos avistando o que deseja encontrar e uma profunda tenacidade perante os objetivos. Daí logo surgir a esperança como um bolo fermentado que vai tomando forma bonita no forno do coração.


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terça-feira, 18 de julho de 2017

NA FEIRA DO INTERIOR


*Rangel Alves da Costa


Não há nada mais gostoso e cativante que uma feira interiorana, bem matuta mesmo, daquelas onde a singeleza brilha mais olhos que os shoppings de capital. Tem caçuá, tem rapadura, tem bolo de milho, tem milho verde, tem arreio, tem arroz-doce, tem melancia e melão coalhada. E também tem aquela magia especial da presença do produtor, do feirante, das pessoas mais simples.
Tudo aceso feito braseiro ainda na madrugada. Pouco tempo depois já começa a fervilhar feito formigueiro. Contudo, mais tarde tudo já parece um descampado abandonado às traças, tomado de bagaceira, sujeira de toda espécie. Não poderia ser diferente. Já é fim de feira. Mas é no seu percurso que está todo o encantamento.
Se feira interiorana é acontecimento dos mais atraentes, instigante e concorrido, o que se vê quando o comércio matuto se finda é coisa de arrepiar. As cores, os cheiros, o povo de matiz trigueiro, as barracas, as bancas, as vozes, as frutas, verduras, farinha, a carne, de tudo um pouco, logo dão lugar à sujeira e imundícies jamais imaginadas para um lugar que há bem pouco guardava tantos atrativos e sabores.
Até parece que a feira espera o povo matar a fome nas barracas cheirosas e apetitosas, se fartando da carne fresca de boi, de porco ou de bode, ou na gulodice do sarapatel, do fígado acebolado ou ainda da invenção sertaneja do dia, para se despedir da função. Enquanto os últimos famintos pedem um pouquinho mais de galinha de capoeira, as barracas já estão sendo desmontadas, os restos embalados e os caçuás recebendo o que não foi vendido.
Já é hora de avistar, e até contar, todos os bêbados do dia. Aqueles que começaram o dia tomando uma pinguinha, e em meio à compra do tomate, do quilo de farinha, do pedaço de fumo de rolo, emborcaram mais uma e depois mais outras. No tropel de fim de feira já não saem mais do balcão, já não sabem nem quantas viraram e quantas raízes de pau talagaram sem pestanejar.
Os bares e barracos ladeando a feira ficam repletos depois que os compradores se dissipam e os feirantes vão contando seus lucros e lamentando o que vai ter de retornar. Aguardente misturada com raiz ou casca de pau, com angico, umburana, aroeira, cedro, uma vegetação sertaneja inteira, faz a festança de um povo sempre disposto a virar mais uma. E aí é onde está o problema.
Já tomados demais, amigos desconhecem amigos, os inimigos de pinga se estranham de peixeira na mão. O fuzuê é criado, é um vexame danado, por pouco um não desembucha o outro. Os dois são retirados do ambiente e por lá mesmo, no pé do balcão ou num canto qualquer, a feirinha da semana é esquecida. E mais tarde, completamente bêbados, às cegas, cortam estrada para apanhar da mulher quando chegar à tapera.
“Coisa feia, um homi véio desse, pai de famia, bom de se arrespeitá, espanta o galo pa ir pa feira e vorta feito um gambá. Tá qui num se sustenta nem de pé, seu desgraçado. A feira, cadê a feira?”. O coitado, sem condições de responder a contento, até mesmo porque não sabe onde o saco de mantimentos ficou, tropeça até a malhada e começa a entoar um desafinado e doloroso aboio. Mas doloroso mesmo vai ficar seu lombo daí em diante.
Mas enquanto a feira vai terminando é que algumas pessoas sempre atrasadas começam a chegar. Não que procurem o lugar pra comprar pano de chita, água de colônia, talco de pó, presilha de cabelo ou um quadro bonito da Virgem Maria. E também não vão até ali para escolher a verdura, a fruta, o arroz, o café, a farinha. Nada disso. Vão precisamente para fazer o que sempre fazem no fim de feira: colher os restos, catar os restos, mendigar pelo chão.
Homens, mulheres, velhos, meninos, pessoas de fim de feira. Acordaram tão ou até mais cedo que as outras pessoas que passaram pelas suas portas em direção ao comércio semanal interiorano. Avistaram adiante, virando a curva, seguindo de mochila, saco ou sacola à mão pra colocar as compras. Aquelas pessoas que passam e que vão certamente levam algum no bolso e poderão escolher sem pedir, sem a submissão da mendicância.
Porém muitas outras não. Quando as pessoas retornam com suas compras e quando, vigiando pelos arredores, sentem que o restante que ficou por ali espalhado não possui mais dono, é que vão catar o alimento do dia e talvez o de amanhã. Banana amassada ou apodrecida, tomate e pimentão imprestáveis, repolhos e folhas deixados pelos cantos. E que festa ao olhar da penúria, da necessidade, da precisão.
Alguns desses sacrificados chegam logo cedinho, se misturam a feirantes e compradores e pedem o quanto podem. Mas outros não. Outros, tomados pela imorredoura honra matuta, preferem catar os restos a estender a mão diante de outra mão, de outro olhar sertanejo. Seria desonra demais, seria dor ainda maior.


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Lá no meu sertão...


Sertanejo no sertão...




Espelhos (Poesia)


Espelhos


Sou eu no espelho
não sou eu não
mas parece comigo
mas não sou eu
tem a mesma feição
mas não sou eu
tem o mesmo olhar
mas não sou eu
quem será então
quem será no espelho
e que se espelha
no que sou e não sou?

apenas espelhos
reflexos desconhecidos
de um eu que já
não me reconheço.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - vontade de voar voar


*Rangel Alves da Costa


Um sonho de Ícaro, talvez. Uma vontade de ser pássaro, de ser anjo, de ser asas pelo ar. Um sonho, uma vontade, um desejo de voar. De vez em quando eu me sinto assim, com esse desejo insano de subir pelas nuvens, de planar nos espaços, de ser sopro de ventania. Talvez os passos terrenos já não levem a lugar algum. Talvez as estradas já sejam conhecidas demais para o prazer de seguir. Talvez ir de lugar a outro já não seja com vontade de chegar a qualquer lugar. E por isso mesmo surgindo sempre o sonho de voar, a vontade enlouquecida de voar. Sei que já não há mais qualquer liberdade no voo do pássaro. A mira está por todo lugar. As revoadas já não voam para retornar, mas fugindo mesmo das atentações humanas. Talvez o Halley só passe tanto tempo depois de passar com medo de ser atingido pelo míssil da incoerência humana. Talvez as nuvens desejem passar cada vez mais alto por medo de serem desfeitas pelas insanidades que estão abaixo. Mas ainda assim eu quero voar. Seguir, seguir. E lá do alto, bem pertinho do céu, avistar a insignificância terrena e seu minúsculo nada. E descer para pousar no alto da montanha, no lugar mais alto da montanha. E aí ficar entre o meu desejo e o que não quero mais ter. Entre os espaços e as dores terrenas.


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segunda-feira, 17 de julho de 2017

A MENINA DOS OLHOS TRISTES


*Rangel Alves da Costa


Vi num retrato uma menina de olhos tristes. Aliás, eu conheço essa menina de olhos tristes. Eu a fotografei no domingo passado, enquanto partilhava um bolo de aniversário com outras crianças. Fotografei aqueles meninos e somente depois, com mais atenção e cuidado, foi que percebi a diferença daquele olhar para os outros olhares da mesma infância.
Em todas as demais crianças retratadas, sempre o sorriso no olhar, na boca, nas feições alegres. Mas não naquela menina. Nos retratos, as outras meninas e o menino olham para a câmera em pose, desejando realmente mostrar suas alegrias naquele momento. Mas aquela menina não. Ainda que estivesse bem ao lado dos demais, seu olhar parece distante, vago, apenas entristecido. O que avistará de tão diferente aquele olhar sem sorrisos?
Naquele momento, ouvi alguém pronunciando o nome daquela menina, tendo nove ou dez anos. De agora em diante a chamaria apenas de K., e uma inicial que bem poderia ser a palavra de qualquer nome: Maria, Zefinha, Lúcia, Gabriela, Joana, Filó, Clotilde... Mas apenas K. E esta menina, com seu jeito um tanto distante de tudo, quase como alheia àquela realidade, ainda que todas as demais crianças ali fossem suas amigas, fez lembrar o outro lado da meninice, ou primeira adolescência, ainda oculta para muitos.
K. é uma menina linda. De cabelos negros, lisos, longos, porém presos na altura do pescoço, de pele clara e olhos negros, a única diferença para as demais crianças estava mesmo no olhar, e que olhar mais continuamente entristecido o dessa menina. Mas nessa menina algo que a tornava diferente de suas amiguinhas: a roupa. Enquanto as outras estavam prontinhas, arrumadinhas, com roupas apropriadas para um aniversário de um amiguinho, a menina usava uma blusinha envelhecida e uma saia de mesma idade. Será que por isso seu olhar tão entristecido?
Não. Creio que não. O olhar entristecido da menina é o mesmo olhar tristonho de muitas outras meninas que existem por aí. Por diversas razões, são meninas que nascem com sóis no olhar e depois os brilhos alegres vão mudando de cor. Luas e arco-íris no olhar, mas depois as réstias sombrias de vidas sofridas. K. é de família pobre, não tem sempre comida à mesa, não tem roupa nova de festa, não tem lanche na geladeira e nem tem qualquer coisa que toda que toda criança deseja ter.
K. tem muitos irmãos. Sua mãe é nova, mas já parecendo envelhecida das durezas da vida, mas também por que todo ano engravida e todo ano mais um filho sai de suas entranhas. Logo depois de K. há uma irmã, logo antes há um irmão, e assim numa escadinha de filhos que se juntam na pobreza e em todas as dificuldades de sobrevivência. Daí que conhecendo a família da menina, já sabendo das carências tantas que passam no dia a dia, eu não poderia esperar sorrisos e gestos de contentamento, ainda que apenas de uma criança.
K. quase não aceitou acompanhar os demais coleguinhas na festa de aniversário. Os outros estavam prontinhos, bem vestidinhos, e ela não. Quando eu a avistei, logo senti a diferença. Queria se manter afastada, nada falava, não esboçava um sorriso, não compartilhava em nada daquele momento de felicidade para os demais. Na hora da fotografia, por mais que insistissem para que ela sorrisse nada adiantou. Ela se manteve triste e com olhar entristecido. Bebeu refrigerante, comeu bolo e salgadinho, mas como se estivesse num meio totalmente desconhecido. E os demais coleguinhas são todos moradores dos arredores de sua casa.
Por que K. não sorriu? Ainda hoje, já passados mais de um mês, continuo me perguntando por que a menina não sorriu. E depois disso, olhando fotografias de crianças pelo mundo, eis que avistei muitas K. por todo lugar. Meninas e adolescentes expulsos da pátria e lançadas ao mar como refugiadas, crianças famintas por diversas regiões do planeta, adolescentes estupradas e feridas na alma bem aqui e acolá, vidas em flor sofrendo desmerecidas agruras. Crianças, adolescentes, meninos e meninas, vivendo em palafitas, no dia a dia ao lado de lixões, amanhecendo e anoitecendo em meios sangrentos, tendo que suportar navalhas na carne e açoites no corpo. Qual sorriso que tais crianças podem ter?
Não será uma boneca que fará a menina K. sorrir. Certamente ela tem uma boneca de pano. Não será um vestido novo, bonito, que fará a menina sorrir. Ela poderá ficar contente por uma instante, por receber aquilo que sempre foi tão distante de si. Mas depois voltará a ter o olhar entristecido novamente. Sentirá a mesma fome que seus irmãos, sentirá as mesmas carências que sua família. Ora, se seu mundo é triste, se seu mundo é melancólico e aflitivo, como espera que viva sorrindo?
Juro que tudo eu faria para afastar a tristeza dos olhos daquela menina. Mas meu presente, meu pão ou minha presença, pouca valia terá quando os olhos entristecidos de todas as crianças do mundo possuem dolorosas razões para continuarem assim.


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Lá no meu sertão...


O sertão já não está mais assim, tão seco...







Além d’além-mar (Poesia)


Além d’além-mar


Tanto chorei que um mar se abriu
e que vai ao longe e além d’além-mar
e os olhos ainda encharcados de lágrimas
sequer avistam os azuis imensos desse mar

pela minha face escorreu uma vela aberta
e sozinho segui meu destino ao mar e além-mar
uma saudade que navega a qualquer porto
em ondas de desalentos e fúrias desse mar

não sei onde vou e sei que jamais vou chegar
amanhã chorarei novamente um mar e seu além-mar
minha vela aberta irrompeu do coração e se foi
e sequer sou eu que navega a solidão desse mar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - a educação e a pesquisa num Brasil que quer ser analfabeto todo jeito


*Rangel Alves da Costa


Os governantes brasileiros nunca deram a devida consideração ao saber e à educação. Neste sentido, não seria incorreto afirmar que o Brasil sempre pautou por uma política de desprestígio da formação educacional e científica de seu povo, pois sempre quis ser iletrado, analfabeto, longe do conhecimento e da sabedoria. É também neste aspecto que a concepção segundo a qual o poder é inimigo do conhecimento faz sentido. Distante de outras realidades mundiais, onde a educação é prioridade levada a sério, no Brasil tudo é feito para cortar verbas, desfazer programas, acabar com os incentivos. Começa pelo desprestígio aos professores e se alastra por todo o sistema educacional público. Começa pela falta de investimentos em pesquisa e se alastra por toda a produção científica brasileira. O problema maior é que ao invés de aumentar os investimentos em educação e pesquisa científica, os governantes sempre se preocuparam somente em diminuir os gastos previstos até constitucionalmente. Exemplo disso foi noticiado ontem num programa televisivo, onde uma reportagem mostrou que a ciência brasileira entrou em decadência pela paralisação de pesquisas e o corte de verbas destinadas a estudos sobre doenças neurológicas e agricultura, dentre outros. E, como consequência, o abandono de projetos essenciais e a saída do país de pesquisadores e cientistas. Por outro lado, contudo, não se ouve falar em corte de verbas para compra de apoio de deputados nem para a propaganda desse vergonhoso e maquiavélico governo.


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domingo, 16 de julho de 2017

FRIO DE LASCAR NO SERTÃO


*Rangel Alves da Costa


Já passado da meia-noite deste sábado no sertão sergipano. Inicia-se o domingo com uma temperatura de 18 graus. Um clima de tal frieza na região sertaneja é realmente de espantar, principalmente com relação aos anos passados, onde a população já não sentia qualquer mudança climática.
Com efeito, desde muito tempo que não era sentida qualquer mudança significativa na temperatura a partir do mês de junho, porta aberta para o inverno nordestino, e este considerado o período mais frio do ano. Mas este ano a frieza chegou mais cedo e com muito mais força. Desprevenidas, as pessoas se enrolam em casacos e cobertores como podem.
É tanto frio que as ruas ficam desertas, as portas são fechadas logo ao anoitecer, as conversas de calçadas sumiram de vez, apenas a frieza vagando por todo lugar. Somente os bares e botequins permanecem em noturnas vivacidades, vez que é na pinga, na cachaça ou numa bebida qualquer, que o sertanejo procura se esquentar.
Na madrugada de ontem, em Poço Redondo, cidade sertaneja acostumada a assinalar quase 30 graus mesmo no período noturno, o termômetro marcava nada mais que 17 graus. Para o sertanejo acostumado ao calor, ao suor a qualquer hora do dia, chegar a essa frieza é quase como coisa do outro mundo.
E com a intensa frieza, as desproteção de pessoas carentes, de crianças e até de animais. Os resfriados tomam desde os mais novos aos mais velhos, não há uma só casa onde não se reclame de doenças advindas com as mudanças na temperatura. Como se diz pela região sertaneja, as doenças ficam mais doentes quando a frieza vai congelando o corpo. E é um frio de congelar mesmo.
O problema é que a tendência é que o frio vá num crescente até o mês de agosto, para em setembro já elevar um pouco mais a temperatura. E acaso se confirme o aumento do frio, então se estará perante uma situação difícil de suportada, vez que o sertanejo sempre esteve preparado para o calor e não para o frio. Anda nu da cintura pra cima e não recoberto de panos grossos.
Nos dias atuais, onde as mudanças climáticas aliadas à devastação da natureza pelas mãos humanas tornaram impossíveis de se ter um ciclo normal de estações, chega até surpreender que o frio tenha reaparecido no tempo certo, ao menos na região sertaneja do Nordeste. Não só reaparecido como em sopro devastador, situação em que, muitas vezes, nem o sol surgido faz a sensação de frieza diminuir.
Mesmo em tempo de longa estiagem, a região nordestina sempre foi frienta a partir do mês de junho e indo até setembro. Contudo, num período de estações definidas, aonde o inverno chegava com suas características e o verão vinha com outra feição. Mas tudo foi sendo modificado a cada passo. E de repente se tornou até difícil de saber se é outono ou primavera.
O calendário marca, não nega. Mas somente na teoria astronômica e climatológica, pois no demais uma estação entra na outra sem apresentar diferença alguma. Mas fato é que este ano as chuvas chegaram fortes, intensas, contínuas. E desde mais de cinco anos que não chovia tanto pelos sertões nordestinos. Com as estiagens e o calor sendo forçados a ir embora, então o frio tomou seu lugar de vez.
Até setembro, ninguém sabe o que vai ser daqui em diante com relação ao frio. Noutros anos, ou num passado mais distante, havia relatos até de neblina em pleno sertão. Os tempos mudaram, o homem desorganizou o ciclo climático, tudo pode acontecer a qualquer momento. Mas talvez a frieza de agora sirva como exemplo de que quem comanda as forças da natureza ainda é a própria natureza, e não o homem. E de repente onde havia seca se mostre tomado pela nevasca.
O que se tem agora é um frio de lascar que nem cachaça dá jeito. E amanhã, quem sabe, grandes fogueiras acesas na porta de cada um.


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Lá no meu sertão...


Cavalgada, tradição sertaneja!




Do amor e outros afetos (Poesia)


Do amor e outros afetos


Não te amo apenas um amor de amante
aquele amor de beijos, carícias e abraços
não te amo aquele amor de apaixonado
aquele amor de dizer que a tenho minha
não te apenas amo como um amor volúpia
aquele amor de sexo, de gozo e de prazer

o amor que tanto sinto por você vai além
é um amor de amor e de outros afetos
é um amor cheio de palavras e de silêncios
é um amor de saudade ainda na presença
de tanto querer preservado para sempre ter
é um amor assim amado que sinto por você.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – a mulher nua


*Rangel Alves da Costa


A mulher nua pode estar nua ou não. É o olhar ou intenção de quem olha que decide. Uma mulher de vestido longo pode estar muito mais nua que uma propriamente nua, no pelo, sem roupa alguma. Ora, se a mulher vestida de longo passa e alguém a avista apenas dentro da roupa, além do tecido, logicamente que este vai imaginar a nudez que desejar. E assim ela se fará nua perante o seu olhar. Ou ainda a mulher completamente nua que passa e nem é percebida na sua nudez. E assim acontece. Quantas insanas, mentais, desajuizadas, passam nuas perante todos e ninguém as percebe em normal nudez? Sabido é que a nudez em si não é nada, apenas um corpo sem roupa, e o que a faz ser avistada de modo diferente é o desejo, a intenção de quem avista, o instinto sexual aflorado perante o corpo nu. Ademais, o corpo nu, segundo a intencionalidade de quem o olha, sempre estará mais nu quando vestido. A roupa não tem graça alguma, não desperta interesse algum, mas o que se esconde depois dele. E dentro dele está um corpo e um corpo nu. A mulher passa vestida de longo, mas sempre nua. Alguns olhos só enxergam se for assim.


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sábado, 15 de julho de 2017

ANIMAIS EM VOOS E CAMINHADAS


*Rangel Alves da Costa


O mundo é de voos, de viagens, de revoadas. Em tudo um sonho de Ícaro, uma busca de asas para subir aos ares. Mas também pela terra, nos passos de mudanças, a eterna vontade de seguir adiante, de enfrentar desafios. Por isso os bandos partem, os pássaros passam em revoada, as manadas deixam rastros pelas vastidões.
Depois de muito voar, as avoantes chegam em bandos e pousam na copa das árvores, nas galhagens pontudas, pelos tufos de mato. Faz lembrar as garças brancas que surgem aos montes no sertão sergipano a partir do mês de setembro e produzem um cenário magistral ao redor das barragens e tanques.
São viventes de outras regiões, de outras paragens distantes, mas que em determinados períodos do ano se juntam em grandes bandos que mais parecem nuvens em revoada. E vão cruzando montanhas após montanhas, rios e mares, para chegar ao destino comum: apenas uma localidade com bebida e comida durante certo tempo, mas para milhares de viajantes.
Os grandes bandos migratórios são constantes em todo o planeta. Flamingos, borboletas, animais e aves de toda espécie, possuem um tempo certo de repentinamente cruzarem os céus ou os descampados em busca de refúgio ou de estadia temporária noutros ambientes.
Nas regiões africanas, imensas manadas de gnus, mais parecendo bois chifrudos e escurecidos, despontam nas savanas e formam um espetáculo formidável. Todos os anos, em determinados épocas, surgem aos milhares ou até milhões, e cortam as regiões inóspitas e perigosas em busca de pastagens e fontes de água.
Por que fazem assim, por que se deslocam de distâncias tão grandes, enfrentando predadores perigosos, apenas para passar uma curta temporada noutro local, noutra região? Certamente que não é apenas a escassez de alimento nos seus lugares de origem nem as abruptas mudanças climáticas. E também não viajam tanto apenas como passeio distante ou para mostrar aos outros do bando que ainda têm força, que ainda são capazes de voar longe ou percorrer milhares de quilômetros na aridez desértica.
Até mesmo em meio à vida selvagem, com maior recorrência no continente africano, as grandes migrações surpreendem a cada nova passagem. Como um calendário que vai desfolhando até se fixar numa data, assim age os animais em bandos, em manadas, em imensos grupos, em nuvens de revoada. Fenômeno instintivo, de puro senso animal, meses e meses sem um ser vivente sequer daquela espécie, mas de repente e tudo irrompe como se a grande cortina da natureza fosse aberta.
O processo de migração parece ter início a partir de um sinal misteriosamente transmitido. E assim porque os animais dispersos se reúnem na mesma ocasião, no mesmo local e daí dão início ao longo percurso. E o mais incrível é que geralmente tomam o destino de uma região onde sua espécie não é prevalecente, é inexistente ou não existe mais como no passado. Por isso mesmo que basta a aproximação para tudo se transformar numa paisagem encantadora, quase irreal.
Nos sertões nordestinos de outros tempos, onde a mataria era espessa e as grandes árvores com suas copas suntuosas estavam por todo lugar, as migrações se davam dentro da mesma região, num percurso que ia de uma área mais desolada a uma com meios menos difíceis de sobrevivência. Mas depois, com a devastação da natureza e a derrubada da maior parte da vegetação, a viagem dos bichos e dos pássaros passou a ser apenas de partida. Quer dizer, os bandos fugiam dos locais para não ficar ao desalento e não morrer de fome e de sede.
Hoje em dia não há mais migração de animais na região nordestina. Os que ainda permanecem na terra são em tão pequeno número que não formariam sequer uma nuvem passarinheira ou um possante tropel cortando os descampados. Rarearam-se os pássaros, os bichos, as avoantes ribaçãs, os rastejantes, os caminhantes. E ou permanecem sofrendo na terra até morrer ou partem quase que solitários em busca de dias melhores. Para não mais voltar.
Contudo, ainda assim o sertão é costumeiramente visitado por bandos imensos de avoantes vindos de regiões bem distantes, até mesmo de outros continentes. E cada localidade que recebe tais visitantes logo se transforma num cenário de paraíso. As avoantes chegam em festa, barulhentos, tornando toda a paisagem num infinito jardim de penas floridas. E tudo assim transformado tão rapidamente que muitos olhares ficam sem acreditar.
Mas não demora muito e tudo volta a ser sertão novamente. Como chegaram as avoantes partem, tomam os céus, retornam aos seus lares. E na terra que fica chorando, apenas a desolação. Nas árvores que restam, nos galhos retorcidos, na sua tristeza pela ausência passarinheira.


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Lá no meu sertão...



A arte de Mestre Tonho




Humanizando a pedra (Poesia)


Humanizando a pedra


O homem é pedra dura
e como moldá-lo a viver
sem a insensível dureza?

o homem é petrificado
e como torná-lo homem
sem a indiferente dureza?

o homem é cimentado
e como fazer do homem
um ser de alma e coração?

somente deixando o homem
enferrujar todo o seu ferro
tornar em pó a sua pedra

e então em si mesmo morrer
para que de seus restos
outro homem possa renascer.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – na escuridão


*Rangel Alves da Costa


De repente a escuridão, a porta fechada, a janela fechada, sem fresta de lua, sem fresta de nada, sem mão que encontre o interruptor para acender a luz. Talvez o medo, talvez o espanto, talvez a dúvida, talvez o assombro, talvez o grito, talvez a síndrome. Tudo fácil quando se está sob o clarão do sol, sob a lua do dia, sob a luminosidade da lâmpada, soba a chama da lamparina ou do candeeiro. Mas o que fazer no instante em nada disso há mais. Tudo escuro, tudo na escuridão, tudo no breu. Os olhos não avistam nada, os passos não sabem onde seguir, as mãos nãos sabem onde tocar, a incerteza em tudo. Tudo começa a ficar difícil, diferente, ameaçador. Um local tão conhecido em instantes de luz, mas de repente tudo parecendo um abismo aterrador. Recorda que havia uma janela, que havia uma porta, que havia um interruptor e uma lâmpada perto do telhado. Era só acender a luz e pronto. Mas agora, o que fazer quando nada pode ser feito e resta somente a escuridão? Eis a grande lição: o homem nunca está preparado para enfrentar a repentina escuridão. Acostumado com a luz, ele sempre imagina que na sua segurança vai sempre estar. E então terá que aprender a enxergar na escuridão para encontrar saídas, para reencontrar a luz.


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sexta-feira, 14 de julho de 2017

A VELA ACESA E A FACE DE DEUS


*Rangel Alves da Costa


Sertão. O sol já arribou de vez. Sua última labareda avermelhada acabou de abrasar. O pôr do sol já se pôs com seu ninho e tudo. Os horizontes já não estão mais pincelados de fogo e vermelhidão. Agora tudo cinzas e sombras. Tudo amarronzado e nuvioso. É boca da noite.
Boca da noite que no sertão principia o verdadeiro anoitecer. É a partir da boca da noite que chega a escuridão, que faz toda a paisagem se alongar em cores negras, mas que logo serão tingidas pelo dourado da lua.
Um chamado à lua que já desponta faceira. Chega distante, pequenina, devagar, para logo engrandecer como as paisagens sertanejas ao silêncio do anoitecer. Lua imensa, brilhosa, bonita, uma festa lá em riba, uma festa por onde avança sua singela luminosidade.
Não há mais cacarejo de galinha, não há galo azucrinando a vida no poleiro. As festas de quintal e cantos de cerca já cessaram de acontecer. O cachorro repousa num canto. Pela janela aberta o frescor do instante vai ameaçando apagar o candeeiro.
Candeeiro de pouco gás, fumaça escurecida saindo do bico enferrujado, também pouca luz, por isso a porta aberta para a lua entrar com São Jorge e tudo. Mas não há lua maior, não há brilho maior, não há chama maior, que a luz da vela acesa.
Assim que o sino da igreja da memória ecoa - pois há na memória um relógio que nunca se esquece de badalar - eis o instante de Mariazinha caminhar em direção ao seu canto de parede e aí, aos pés do velho oratório, se ajoelhar para a oração de todo dia.
Canto de parede da sala de cipó e barro ou no cantinho do pequeno quarto de dormir, sempre um velho oratório por cima de mesinha rústica ou mesmo tronco de madeira já carcomido de tempo. Aí colocado o céu, a casa de Deus, o portal da salvação de um povo.
Oratórios ainda continuam de maior abnegação religiosa. Atualmente não, mas noutros idos não havia casa que se prezasse que não tivesse uma igrejinha de madeira, de portas e lados envidraçados, guarnecida de santos, fitas e lembranças religiosas, o oratório.
Entre aqueles de fé maior, o oratório constitui verdadeiro templo sagrado, uma moradia santa na vida terrena, um altar para santos e anjos em meio ao lar familiar, um pedestal de madeira onde Deus possui seu trono perante o frágil humano.
Assim, em determinados instantes do dia, principalmente ao alvorecer e ao anoitecer, mas também ao meio-dia, dirigir-se ao oratório e perante ele se ajoelhar é como estar numa igreja, é como estar ao portal do céu, é como estar perante os sagrados mistérios.
Mariazinha, de raiz fincada no beatismo, na devoção religiosa maior, também possuía o seu céu ali num cantinho do quarto pobre de sua humilde moradia. Oratório herdado de sua mãe, e a esta chegado desde sua avó. Naquele pequeno céu a sua relíquia maior.
Céu de madeira e antigas imagens sacras que todo santo dia recebia a visita de Mariazinha. Não saía do quarto ao alvorecer sem antes se ajoelhar aos seus pés, fazer as costumeiras orações, pedir por si mesma e pelos seus, agradecer os préstimos recebidos.
Mas nada igual à visita que fazia quando a boca da noite chegava, depois que o sino da memória anunciasse a hora sagrada, a Ave Maria sertaneja, o ponteiro das seis horas da noite. Era como se a partir desse instante seus passos já não soubessem ir a outro lugar senão perante o altar de seu oratório.
Mariazinha não arreda nunca deste encontro sagrado. Corre de onde estiver para não perder seu mistério de fé. Nada que estiver no fogo de lenha consegue impedir que aquele instante seja mais importante do que tudo na vida. Que queime o toucinho, não o desejo da sagrada presença.
Segue, vai, corre, mas de repente já está dentro do quarto, ajoelhada, contrita, com as mãos entrelaçadas junto ao peito, olhos fechados e boca sussurrando palavras de fé, de repente, ao abrir os olhos, diante de si a face de Deus. Sim, a face de Deus na luz da vela acesa.
Mistério maior dos maiores mistérios. Em toda vela acesa pode ser avistada a face de Deus. Não que o olhar humano assim consiga avistar, mas pelo que os corações humanos conseguem avistar. A face de Deus somente avistada pela inabalável fé através dos olhos do coração.
Mãos que seguram rosários, terços, relicários. Bocas que silenciam e que gritam em silêncio, que apenas sussurram ou dizem as rezas, as orações, os rogos, os pedidos. Mas somente o coração consegue avistar a face de Deus perante a vela chamejante da fé.
Uma face sagrada que é assim avistada por que a fé e a devoção chamam o Senhor para além do olhar, para bem juntinho do coração!


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Lá no meu sertão...


Tempo de chuva no sertão