SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 30 de setembro de 2016

MEU CANDIDATO (JUSTIFICANDO A ESCOLHA)


*Rangel Alves da Costa


Minhas mágoas com relação à atual administração municipal de Poço Redondo, no sertão sergipano, não se confundem com o que sinto com relação a Alex. E é no sentido da grande transformação que tanto passei a confiar neste filho da terra, neste jovem candidato.
Os mais velhos certamente sabem que Alex é filho de um dos mais honrados políticos da história de Poço Redondo. Vadinho de Mané Joaquim, como era chamado, por diversas vezes dignificou a Câmara de Vereadores e a vida política do município. A palavra e a seriedade eram características marcantes desse sertanejo. E o filho jamais deixou de ter tais heranças.
Alex é, pois, herdeiro dessa honradez, dessa dignidade, desse comprometimento com a palavra. Além disso, Alex é também filho de Maria de Fátima, ou Fátima de Conceição de Timbé, como os mais velhos também a conhecem. Vadinho, seu pai, já nos deixou, mas sua mãe continua entre nós e certamente exigindo do filho aqueles tão preciosos aprendizados deixados pelo pai.
Então, por que não confiar em Alex? Alex é de imensa raiz familiar, num brotar sertanejo que envolve os Marques, os Feitosa, os Santana, os Alves, os Costa, os Joaquim, os Lucas, os Sousa e muito mais, em toda uma linhagem sertaneja. Ora, então Alex não é nenhum desconhecido, não é nenhum aventureiro, não é um mero candidato surgido ao acaso. É, sim, nome que dignifica todo o Poço Redondo. Que se aviste sua origem familiar.
E, pessoalmente, quem é Alex? Um moço simples, pai de família, humilde, aquele mesmo que nunca mudou o seu jeito de ser, nem antes nem depois que se tornou vereador. Aquele mesmo Alex receptivo e amigo de todos, seguindo seus caminhos e fazendo sua campanha com chinelos arrastados nos pés.
Nem mesmo quando era considerado craque de bola, Alex jamais se arvorou de ser melhor que qualquer outro. Amou jogar bola como amou seu mundo sertanejo, procurando no esporte um futuro melhor para os seus conterrâneos. Jamais conseguiu realizar no esporte tudo o que desejava porque as condições não permitiam: não era prefeito.
Mas agora, na condição de candidato, Alex continua com a mesma vontade de fazer o melhor para a juventude poço-redondense e os seus demais conterrâneos? Olhem no olho de Alex, olhem na feição de Alex, sintam Alex, e vejam nele espelhadas a grande e verdadeira transformação de Poço Redondo.
Alex não é só candidato não. Alex já é o compromisso firmado com toda a população de Poço Redondo. Em Alex é como se um grito estivesse preso e pronto para bradar, é como se um desejo imenso estivesse em suas mãos e pronto para ser realizado. Gritar o que, realizar o que? Apenas dizer: “Retribuirei com trabalho e honradez o que pelo povo me foi confiado!”.
Confessarei uma coisa. Não faz muito tempo que Alex foi sozinho ao Memorial e lá, numa mesa com um de frente ao outro, ele me revelou que gostaria muito que, se eleito, eu o ajudasse a administrar o município, de modo que pudesse oferecer a grandeza que Poço Redondo tanto merece. E acrescentou que não somente a minha ajuda como de todo aquele que estivesse irmanado com um futuro melhor para todos.
Mas ali à mesa do Memorial não estava o Alex político ou candidato, mas o verdadeiro Alex. E o que estava ali, e juro por Deus, era um moço simples, humilde, expressando uma verdade que eu jamais conhecera: “Meu compromisso é com o bem de Poço Redondo, serei prefeito do povo de Poço Redondo, de todo o povo de Poço Redondo. Minha administração não será de partido nem de grupo político, mas unicamente de Poço Redondo, pois o melhor a ele quero oferecer”.
Dependendo de mim, Alex, mesmo sem qualquer vínculo com a prefeitura, Poço Redondo vai ter cultura, vai ter história, vai ter praças bonitas, vai honrar suas tradições. Se depender de mim, Alex, a todo instante estarei no seu ouvido ou beliscando no seu braço para dizer que faça, que faça, que faça... Que olhe com especial atenção a saúde, a educação, a infraestrutura, tudo aquele que permita ao povo viver com a dignidade tão merecida.
Por isso confio em você, Alex. Confio nesse moço, nesse jovem, nesse menino. Confio no filho de Vadinho e Maria de Fátima, confio neste cuja história e raízes familiares precisam ser confiadas. E será um Poço Redondo retomando sua grandeza através de um filho.


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Lá no meu sertão...


Família Vito e a arte dos pífanos. Em Poço Redondo, sertão sergipano.






Amor na solidão (Poesia)


Amor na solidão


Não, não estou só
não estou sozinho
nem agora nem nunca
pois quem tanto ama
jamais terá a solidão
nem o triste abandono

amo sem a presença
amo sem os abraços
amo sem os beijos
amo sem ter sexo
por que apenas amo
e me contento assim
simplesmente amar

e nunca estou só
por que há uma porta
adiante uma estrada
e na vida um destino
que novamente une
aqueles que nasceram
para o amor eterno.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - o retrato


*Rangel Alves da Costa


Tenho diante mim um retrato do sertão de agora: seco, esturricado, no barro no povo, no barro do tanque, no barro de tudo. Um sertão triste pela secura do sol, pelo mato devastado, pela solidão dos campos e os entristecimentos dos xiquexiques, mandacarus e facheiros. Retrato tirado por mim nas caminhadas que sempre faço por aquelas estradas e veredas, no meio do mato e diante do desalento. No retrato, um curral chiqueirado de tempo, latas e baldes esquecidos nas pontas de paus. Tudo tão antigo e enferrujado como os ocres de um outono qualquer. Porta e janela fechadas, sempre a porta e a janela fechadas. À frente, ainda as três cadeiras de antigos proseados. Sinhá Filó aí fazia sua renda de bilro, Titoca colocava dedal para remendar roupa velha. E a outra cadeira? Ora, guardada à espera do visitante e sua notícia boa. Mas ninguém nela jamais sentou...


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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

QUE CONVERSA É ESSA STF? O ESTADO É OBRIGADO SIM A CUSTEAR REMÉDIOS DE ALTO CUSTO


*Rangel Alves da Costa


O ditado é velho, mas sempre válido aos tempos de agora: a saúde no Brasil está no leito de morte. Todos aqueles que necessitem de algum cuidado médico em hospital ou posto de saúde têm de amargar as dores do descaso, da omissão, da falta até de um remédio básico ou de um simples curativo.
Corredores abarrotados de pacientes, doentes jogados em macas pelos cantos e corredores, filas intermináveis para atendimentos. Cirurgias e outros procedimentos, ou aguardam as intermináveis filas ou o doente se vê sem opção: ou contratar atendimento particular ou saber que vai morrer. E o pobre, que não tem qualquer outra solução a não ser submeter a tais desumanidades?
Entra governo e sai governo e a crise na saúde vai aumentando seu grau de risco. Os leitos hospitalares nunca são suficientes à demanda, os profissionais de saúde vivem reclamando das condições salariais e de trabalho (e por isso mesmo atendem mal), falta insumos básicos aos atendimentos, é tudo ao desvão da vida. Além disso, nos centros de fornecimento de medicamentos sempre estão em falta aqueles mais utilizados pela população.
Acaso a doença seja de gravidade reconhecida e de difícil tratamento, como os casos oncológicos, então a situação complica ainda mais. Não só os tratamentos são deficitários como o fornecimento dos medicamentos necessários aos pacientes carentes. Em muitas situações, ante a escusa do Estado no fornecimento, os pacientes, sem poder pagar o remédio, simplesmente não tinham a quem recorrer. Era morte certa.
Perante tal situação, as pessoas pobres, se sentindo ameaçadas na sua existência pela negligência estatal, geralmente recorriam às defensorias públicas para garantir o fornecimento de remédios de alto custo ou mesmo para a realização de cirurgias, gerando uma judicialização sem precedentes nos serviços de saúde. Afirme-se, contudo, por culpa do próprio Estado que nunca cuidou da saúde como deveria fazê-lo. E mesmo após o advento da Constituição de 1988, onde a saúde tem primazia como direito fundamental, o tanto faz continua o mesmo.
Para resolver parte da questão, foi submetida ao Supremo Tribunal Federal a apreciação do problema da obrigatoriedade de fornecimento pelo Estado dos medicamentos de alto custo. Uma questão, aliás, cuja solução não precisaria de qualquer alta indagação: aos pacientes dos serviços públicos de saúde não pode ser negado o fornecimento de medicação, seja a qual custo for. Tudo simples de ser resolvido. Mas não. A retórica togada insiste em penalizar a população.
Tenho certeza que jamais houve uma formação tão contraditória, senão desrespeitosa, do que essa turma de agora no STF. Decisões estapafúrdias, invencionices jurídicas, votos e posicionamentos eivados de pessoalidades. E agora mais este absurdo: negar a Constituição no que respeita à obrigação do Estado perante a saúde da população em geral, e principalmente dos mais carentes.
Ora, a Carta Magna estabelece a saúde como direito fundamental do cidadão. Com efeito, o art. 196 reconhece a saúde como direito de todos e dever do Estado. Assim, todos devem ter direito à saúde, quer dizer, mecanismos de prevenção e de cura, atendimento médico, hospitais, postos de saúde, medicação aos necessitados, etc.
Mesmo que a atuação do Estado não seja abrangente perante todos, jamais deixará de sê-lo quanto se trata de pessoas carentes, pobres, necessitadas. Há de se reconhecer que só utiliza o sistema público de saúde quem realmente não tem outro jeito a dar. E com relação à aquisição de medicamentos, a carência em si não deve considerar o baixo poder econômico, mas sim a impossibilidade de sua aquisição pelo alto custo. E assim porque nem sempre a classe média tem condições de adquirir uma medicação específica e de alto valor.
Neste momento, quando a vida passa a correr risco pela falta de medicação, então é que o Estado deveria estar mais presente. Mas agora o STF quer dizer que não. E não porque quer impor uma série de exigências ante a urgência que cada caso requer. Antes de requerer o medicamento, o paciente ou sua família deve fazer uma série de provas verdadeiramente incompatíveis ante a situação.
Tem de provar que o SUS não tem o remédio, tem de provar que não tem recursos suficientes, tem de provar que fez os devidos requerimentos, tem de provar que a pessoa ou toma aquele medicamento ou corre risco de morte. Além de uma série de outras provas. Tudo complicação. E demasiada complicação. Num país onde a aquisição de um simples remédio se torna uma novela, que se imagine remédio controlado, de alto custo, tantas vezes importado.
No vão das inconsequências, que o STF decida: “A morte é um dever de todos e direito do Estado”.


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Lá no meu sertão...


Em Poço Redondo, no sertão sergipano...




Feijão com arroz (Poesia)


Feijão com arroz


Nós e nós dois
se apenas nós
somos tão sós
mas se nós dois
o feijão e arroz
sabor de depois

nós dois e nós
se somamos dois
tanto faz o depois
tanto faz o nós
não estamos sós
mas feijão e arroz.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - a política em minha vida


*Rangel Alves da Costa


Nunca fui candidato a prefeito, vereador, vice ou qualquer outra coisa, mas trago nas minhas veias o sangue da linhagem política partidária. Meu pai Alcino Alves Costa foi prefeito em três oportunidades no meu berço de nascimento: Poço Redondo, no sertão sergipano. Eu ainda meninote, vez que tinha menos de quatro anos quando ele foi eleito pela primeira vez, e já vivia em meio à política, políticos, eleitores, e muito mais. Daí em diante alguns outros parentes enveredaram nas disputas eleitorais e agora, em 2016, tenho mais três consanguíneos disputando cargos no mesmo município. Alex, primo, é forte candidato a assumir os destinos do município a partir de janeiro de 2017. Sua candidatura a prefeito está consolidada e sua vitória será mais que merecida. Tem tudo para ser eleito. Calvet, irmão, é candidato a vereador, e fala-se até que poderá ser o mais votado, ainda que seja a sua primeira disputa eleitoral. Netinho, primo, também disputa uma vaga ao legislativo municipal. E eu apoiando todos, lutando para defender suas ideias e semeando, ainda, a duradoura herança familiar nas distâncias sergipanas, lá pelas bandas dos meus sertões.


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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O MAIS BELO RIO


*Rangel Alves da Costa


Nada mais citarei acerca da tragédia com o ator global nas águas do Velho Chico nem das inúmeras teorias conspiratórias envolvendo o episódio. Cada um compreende o fato e procura explicá-lo a seu modo, pautando pelo entendimento e conveniência. Uma coisa só a dizer: que não ousem transformar o rio em vilão ou colocar forças maléficas sobrenaturais nas suas entranhas. Ali, desde a nascente ao desaguadouro, apenas um rio com seu percurso, sua história, seu viver ladeado ao ribeirinho. Apenas um rio, mas o mais belo dos rios.
Tudo, menos o rio, seja o São Francisco ou qualquer outro leito, jamais poderá ser culpabilizado pelos acontecimentos nas suas águas. Diversas embarcações já afundaram ali, canoas já sumiram como por encanto, pescadores e viajantes já conheceram de suas surpresas. Mas apenas um rio que corre o seu destino, que segue adiante mesmo que o homem já tenha tomado grande parte de suas seivas. Porém, não tudo. Suas forças, correntezas e abismos se escondem lá embaixo, movem seus impulsos sem que ninguém perceba. Acima, no espelho d’água, somente o leito escorrendo.
Contudo, não foi pela panela que borbulha ao fundo ou pelo redemoinho que corre de canto a outro, que o Velho Chico se tornou tão conhecido. Sua grandeza antecede a chegada do homem, já se estendia caudalosamente antes mesmo que o homem primitivo lançasse seu dardo em busca de peixe ou o índio nele deitasse a sua rústica canoa. Aquele mundão de água correndo entre serras e descampados, curveando penhascos, encharcando as margens e florescendo o viver, já se fazia de beleza inigualável antes mesmo que a filosofia definisse o belo.
E é tal beleza que ainda pulsa aos olhares e sentimentos. Não somente a beleza visual, mas principalmente a formosura histórica, geográfica, cultural, humana, sentimental. Não há ribeirinho que não se ajoelhe agradecido às suas beiradas, não há beiradeiro que não guarde uma devoção especial pelas suas águas. O São Francisco é algo espiritual, gestado e perpetuado na alma. Não há olhar mais envelhecido que não mareje ante suas antigas histórias, ante as recordações e saudades, ante as relembranças das vidas e dos cotidianos ao lado do seu leito.
Além de sua reconhecida grandiosidade e pujança histórica, sobre leito que foi caminho ao hostil e ao desconhecido, e por muito tempo se mostrou volumoso a cada porto, o São Francisco sempre possuiu o dom de encantar e devocionar todos aqueles que com ele convivem. E tamanha a devoção e o afeto que até hoje, mesmo nas suas magrezas e rasos ossudos e arenosos, é como se ele se derramasse inteiro num poema. Eis que o mais belo rio que passa pela aldeia ribeirinha, pela aldeia sertaneja, pela aldeia nordestina.
Com efeito, o sentimento ribeirinho possui analogia aos versos escritos por Fernando Pessoa, onde o rio de sua aldeia era o mais belo rio simplesmente pelo fato de ser o rio que passa na sua aldeia: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia... Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia. E para onde ele vai e donde ele vem. E por isso, porque pertence a menos gente, é mais livre e maior o rio da minha aldeia...”.
Assim, o São Francisco sempre foi o mais belo rio daquela gente, sempre foi o rio da vida beiradeira, sempre foi a razão da existência de gerações. Pelas águas do Velho Chico brotou a existência sertaneja, pelos seus caminhos chegaram os primeiros habitantes, nos seus portos chegavam e partiam riquezas, nos seus costados o embarque e desembarque do alimento e de tudo aquilo que permitia viver ainda num sertão distante de tudo. E nas suas margens as aldeias, as pequenas povoações, os currais, as veredas sendo abertas para o mundo adiante.
Por onde passava, o Velho Chico ia gestando um mundo e um viver tão próprios que até hoje o homem não desapartou da dependência de suas águas.  Desde os tempos mais antigos, ali nos casebres, nas choupanas, nas casinholas de pescadores, por cima dos barcos e no emaranhado das redes, na ponta dos anzóis e nas areias ao redor, tudo filho das águas. Daí ser o São Francisco o pai, a mãe e o protetor, de tudo que se chama ribeira, margem, pescador, barqueiro, vivente daquelas distâncias molhadas e de tão sublime sobrevivência.
Sim, a razão com Fernando Pessoa. Mas também com todo ribeirinho e todo pescador, com todo vivente de suas beiradas. O rio do poeta é mais bonito que o Tejo porque é o rio que passa pela sua aldeia. Assim também a beleza maior do Velho Chico ao passar pelas aldeias nordestinas. Não é mais aquele rio imenso e caudaloso, não é mais caminho de grandes embarcações, mas ainda tão belo quanto aquele caudal de outros tempos. Eis que o amor está no que os olhos avistam e o coração sente. E por isso mesmo a eterna carranca despontando ao longe.


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Lá no meu sertão...


Ainda Bonsucesso e sua belíssima paisagem ribeirinha. A povoação fica no município de Poço Redondo, sertão sergipano.






Coração de lua (Poesia)


Coração de lua


Tenho um coração
um coração de lua
que se esconde ao sol
e começa a flamejar
ao se acender o farol

e quando a noite cai
o meu coração de lua
começa então a brilhar
canta a canção antiga
quer sorrir e quer amar

então meu amor estrela
chega pertinho de mim
e passeia na minha luz
e o brilho beijando a luz
todo o universo seduz.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - o país dos réus


*Rangel Alves da Costa


A famosa e ilusória frase estampado num livro do escritor Stefan Zweig, “Brasil, País do Futuro”, agora pode ser substituída por muitas outras: Brasil, país dos corruptos; Brasil, país das negadas misérias; Brasil, país do deus-dará; Brasil, país do “fora tudo”; Brasil, ex-país do futebol; e agora Brasil, país dos réus. Aliás, de agora não, pois desde muito tempo que o noticiário informa sobre graúdos que se tornaram réus. Uma lista sem fim, desde Lula ao PT quase inteiro, chegando agora à outra parte do PT: Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo, o casal vinte dos desvios milionários da Petrobras. E falta muito, a sigla inteira e suas ratazanas. É a Lava Jato passando (ou tentando passar) a limpo o vergonhoso e putrefato lamaçal. E muito trabalho ainda terá não só a procuradoria (no caso de foro privilegiado) como a promotoria (no caso de pessoa comum), pois os indiciamentos são muitos, as provas contundentes, as tipificações penais indubitáveis. As denúncias estão sendo apresentadas e tanto o STF como a justiça de primeiro grau está acatando, e assim a fileira dos réus vão aumentando cada vez mais. Deseja-se somente que as condenações sejam proporcionais aos danos e verdadeiramente aplicadas. E com ressarcimentos e as devidas execuções penais, tanto para as ratazanas como para os rabudos de esgoto.


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terça-feira, 27 de setembro de 2016

RUAS TRISTES


*Rangel Alves da Costa


Muitos afirmam - e com plena razão - que as ruas possuem alma, possuem espírito, traduzem no seu âmago todo jeito de ser e sentir de uma cidade. E de seu povo.
Neste sentido, as ruas também traduzem o espírito e a alma das pessoas, de seus transeuntes e caminhantes. Tornam-se, assim, o reflexo dos sentimentos de seus andantes.
Quando as pessoas entristecem, caminham desoladas, vão e voltam sem as costumeiras alegrias nas faces, então também as ruas entristecem. E também se atormentam.
Pessoas passando alegres, em sorridentes diálogos, sem pressa e sem atropelos, vão repassando às ruas um contentamento compartilhado, um encanto diferenciado.
Por vezes, quando acostumadas com caminhantes na leveza da paz, as ruas até se esquecem de suas solidões. Nos noturnos, quando o vazio se faz, ainda assim elas são felizes.
Contudo, nada mais doloroso às ruas que suportar pessoas sobrecarregadas de angústias e aflições pelos seus percursos. É como se as amarguras nublassem os espaços.
Não há rua triste com um povo feliz. Não há rua amargurada com um povo que passa contente. Não há rua sofrida com um povo que caminha cheio de sorrisos e planos.
Mas não há rua feliz quando o seu caminhante passa cabisbaixo, descontente, sofrido. Não há rua alegre com o passante levado na face e no olhar toda a angústia do mundo.
E as ruas estão tristes, feias, angustiadas. Mas por que as ruas estão assim? Ora, há um povo que passa sem canto, sem verso, sem poesia. Há um povo que passa carregando a dor.
As ruas não gostam que seus caminhantes passem mal vestidos, esfarrapados, com roupas sujas, quase como mendigos. E pessoas que não passavam assim, agora passam.
As ruas não gostam de situações deprimentes, mas não por que sempre queiram coisas belas no seu percurso, e sim pelo fato de conhecer as causas e os motivos de tais realidades.
As ruas não suportam olhos aflitos, feições desesperançadas, desânimo de passo a passo. Mas cada vez mais as pessoas passam assim, carregando à mão as contas não pagas.
As ruas se atormentam quando pessoas sentam sobre seus bancos e dialogam somente misérias, problemas, desilusões, aflições. Por que tem de ouvir, então entristece ainda mais.
Tempos, tempos aqueles onde os diálogos eram de conquistas, de realizações, de acontecidos bons e esperanças vindouras. Confessam-se as ruas. E confissões que doem.
E se dizem ainda as ruas: Não havia tantas pessoas pedindo esmolas, mendigos demais pelas portas das igrejas, tantas mãos estendidas, crianças chorosas na procissão da miséria.
E dizem mais a si mesmas: Os hippies, esses cabeludos chegados de outros caminhos, escolhiam beirais de praças para seus comércios. Mas agora tomam as calçadas dos centros.
Ademais, mesmo nas regiões mais centrais, o comércio ambulante se alastra espantosamente. Mesmo sendo uma necessidade, a desordem acaba enfeando as cidades.
Tais situações vão tornando as ruas cada vez mais entristecidas. E tomadas de uma aflição que reconhece difícil de acabar, eis que as pessoas estão cada vez mais deprimidas.
É tudo como se tudo estivesse num mar revoltoso. As pessoas caminham em busca de salvação. Não há motivo de alegria, de sorriso, de felicidade. O tempo é de difícil tempestade.
Não é outono, mas as ruas se enfeiam com folhas secas e mortas. Mas não são folhas de árvores, e sim os restos e as imundícies que se acumulam e esvoaçam sobre o seu leito.
Tanto faz a lixeira, assim para a maioria das pessoas. A rua é para se encher de papel, de ponta de cigarro, palito de picolé, propaganda e muito mais. Assim na mente das pessoas.
E também as pedras que se descolam e vão abrindo buracos, os bancos que vão perdendo seus assentos, os gradis que são derrubados, o caos. Tudo no âmago das ruas.
Não é, pois, sem motivos, que as ruas tanto sofrem. E sofrem mais ao saber que quanto mais a crise vai arruinando a vida do povo mais os seus dias também serão de tristezas.
Nas tristezas, desânimos e desalentos do povo, tanto faz as ruas existirem ou não. Tornam-se esquecidas. As pessoas apenas passam, apenas seguem tentando sobreviver.
Mesmo apinhadas de gente, não há como não sentir uma profunda solidão. Nenhum namorado diz uma palavra de amor. Ninguém senta num seu resto de banco levando uma flor.
Sim, em tempos assim, de crise, pobreza e desilusões, as ruas tanto faz. Também as pessoas quase tanto faz em si mesmas. Não há autoestima que pague uma conta atrasada.
E quando o sol se põe e as ruas começam a esvaziar, logo se imaginaria que elas retomassem a paz. Mas não. As ruas não adormecem quando muitos não conseguem dormir.
Cai um sereno noturno, depois a chuva. Tudo solitário e tudo vazio. E as lágrimas das ruas também vão escorrendo pelas pedras cansadas pelos passos dos aflitos. Tudo tristeza.


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Lá no meu sertão...


A maravilhosa paisagem de Bonsucesso, povoação ribeirinha no município de Poço Redondo, sertão de Sergipe. Nas beiradas do Velho Chico.






Sem sorrisos (Poesia)


Sem sorrisos


Cadê as flores desta primavera
cadê as manhãs deste novo tempo?

ainda espero borboletas e colibris
aromas e pétalas ao meu olhar

mas cadê as cores desta primavera
cadê os madrigais do novo alvorecer?

ainda espero as suaves canções
a brisa perfumada chegando alegre

não sei da beleza desta primavera
apenas o outono após a minha janela.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - a lei eleitoral e a lei da política


*Rangel Alves da Costa


O legislador bem sabe que a lei eleitoral é totalmente inversa da realidade política. O próprio legislador sabe muito bem que o bom senso da lei não possui aplicabilidade nos meandros de uma campanha eleitoral. O legislador também sabe que legislar eleitoralmente é uma coisa, significando apenas dizer que há um regramento a ser obedecido. Mas o próprio legislador - enquanto político e candidato - tem a máxima convicção de que as coisas não funcionam bem assim. Ora, delimitar gastos de campanha é o mesmo que mentir para a sociedade. Dizer que a lei não permite a compra de votos nem o favorecimento a eleitores não basta, principalmente quando todo mundo sabe que não há política onde o dinheiro não role a rodo. E quem não tiver dinheiro que nem se meta em política. Toda e qualquer campanha exige gasto e muito gasto, muito além daquele limite legal estabelecido, seja para prefeito ou vereador. O povo é pobre, carente de tudo, e precisa de remédio, do pagamento de uma conta de luz ou de água, de um alimento qualquer, e não há lei que diga que esse mesmo povo não precisa receber ajuda. Daí sempre haver um descompasso entre a lei e a realidade eleitoral. Ou o candidato gasta muito, compra voto, barganha, de tudo faz, ou simplesmente será negado nas urnas. Eis que há uma lei própria na política: Todo voto pode ser comprado. E é assim que se faz. E por todo lugar.


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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

CAMINHANDO NO MATO


*Rangel Alves da Costa


Sou sertanejo de nascimento, assim tão da terra quanto o calango e o preá, acaso este ainda encontrado. Também quanto o mandacaru, o facheiro e o xiquexique, que ainda reinam imponentes a cada passo do mundo sertanejo. E mais ainda igual ao caboclo que lida na força e na perseverança o seu dia a dia.
Sou da terra, porém não moro lá. Apenas de quinze em quinze, ou de oito em oito dias, nos finais de semana, é que viajo para reencontrar o meu mundo, a minha gente, os meus amigos enraizados ao chão: toda pedra, toda planta e todo bicho. Mas chegando a Poço Redondo, no sertão sergipano, logo me vejo muito além da cidade, pois enveredo nos seus caminhos de chão para avistar e conviver com as simplicidades somente encontradas no mato, ou no meio do mato.
É caminhando pelo mato que passo quase toda a minha estadia no sertão. Mesmo agora que o sol está mais avivado e o calor já ressurge em fogo, ainda assim sempre sigo, de chinelo de pé, por estradinhas pedregosas, veredas espinhentas e caminhos ressequidos, em busca daquilo que geralmente o forasteiro não dá a menor importância: os velhos casebres, as casinhas de barro e cipó, as paisagens inusitadas, os tanques tomados de barro, as malhadas tristes e os bichos desalentados de tudo.
Nem sempre caminho por paisagens acinzentadas pelas estiagens. Em determinados períodos do ano, principalmente em épocas de trovoadas, o sertão se enche de um verde maravilhoso. Como nas terras secas, sedentas e famintas, qualquer pingo de chuva provoca verdadeira transformação, então logo as plantas parecem renascidas e os bichos refeitos de todo sofrimento. A terra úmida faz vingar qualquer grão, os arvoredos começam a pender suas viçosas folhagens. Mas tudo por pouco tempo, o tempo suficiente de a ilusão novamente enfrentar a realidade da falta de chuvas e da sequidão.
Neste último domingo, por exemplo, encontrei um mundo assim, muito mais triste pela terra seca, pelos matos retorcidos de secura e paisagens abertas como um espelho de sol, e isso desde a manhã. Pois foi na manhã que sai de casa e fui seguindo pelos caminhos ladeados pela mataria sertaneja. A bem dizer, sequer mataria há mais, pois terras de poucas árvores, de poucos tufos de matos, num descampado que mais parece deserto encimado por cactáceas e miúdas plantas rasteiras.
Mas uma paisagem que já tanto me acostumei a encontrar assim. Triste demais, porém a mais verdadeira, pois a mais sertaneja. Desalentadora demais, contudo a mais real e a que mais sintetiza o mundo chamado sertão. Neste não há oásis nem pujança verdejante, não há jardins nem paisagens primaveris, mas apenas a feição sertaneja na sua dimensão maior: a catingueira, o xiquexique, o mandacaru, a planta morta, o galho esturricado, o bicho pastando debaixo do sol, as casinholas entristecidas e habitantes desalentados. Apenas sertão e o seu retrato em preto e branco.
Nesta última caminhada adentrei por lugares ainda não visitados. Passei entre fios de arame, abri velhas cancelas, cuidadosamente caminhei entre pontas de pedras, surpresas espinhentas e garranchos atrevidos. Ouvi latido e ameaça de uns dois cachorros, sai do caminho dos animais, mas não precisei abrir a boca em nenhum momento. Silenciosamente fui e silenciosamente retornei. Também não precisei bater palma defronte qualquer das casinhas que me aproximei.
Os casebres, quase todos de barro batido, estavam de portas e janelas fechadas. Alguns animais pelos arredores, caminhando soltos e em busca de qualquer alimento por cima do chão, de vez em quando procurando descanso debaixo das sombras de pés de pau. Ao lado das casinhas, pequenos currais velhos e já sem serventia. Cestos vazios, cocheiras sem uso de muito tempo. Quer dizer, os donos fecharam suas casas e deixaram os bichos ali, pastando sua própria sorte, ao desvão dos dias e das noites.
Registrei na memória e também em fotografias. E guardo o álbum que eu não queria guardar. Mas assim mesmo. Sou sertanejo e também faço parte desse retrato.


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Lá no meu sertão...


Curralinho, ribeira do Velho Chico, no município de Poço Redondo, sertão sergipano.




Poema errante (Poesia)


Poema errante


Noturno sou
noctívago sou
errante sou
tudo o que sou

não quero lua
só quero a rua
não quero estrela
só a noite nua

e o gole de rum
e a serenata
e a canção torta
e toda lágrima

até que a lua
desça na rua
e veja a estrela
caída nua.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – a encrenqueira


*Rangel Alves da Costa


Quem quer arrumar confusão tudo faz pra começar a desavença. E tem muita gente assim, que tudo faz pra arrumar pé de briga. Tudo começou quando a vizinha, propositalmente, levou o lixo até a ponta da calçada da outra e lá deixou. Esta, mesmo não gostando daquela desfeita, relevou o acontecido para evitar confusão. No dia seguinte, a vizinha não se contentou e resolveu fazer mais: deixou todo o lixo bem na porta da outra. Aí a coisa começou a azedar, pois quando a mulher abriu a porta e avistou aquela imundície, logo imaginou quem poderia ter feito aquilo. Prontamente foi à porta da outra e perguntou se ela sabia quem poderia ter deixado aquela porcaria ali. “Foi eu, mas foi sem querer. Eu tava juntando o lixo quando alguém me chamou e acabei esquecendo”. Dizia isso com a cara mais cínica do mundo. No dia seguinte, já prevendo outra desfeita, a vizinha ultrajada ficou de olho pela fresta da janela esperando somente a outra aparecer. E ela apareceu, e dessa vez com um saco de folhas secas. Mas antes mesmo que as folhas fossem espalhadas, a precavida saiu de cabo de vassoura à mão e foi logo acertando no lombo. Esta se remexeu doída, e quando ia avançar recebeu outra vassourada, caindo por cima do saco aberto, espalhando folha pra todo lado. E depois, ainda ameaçada pelo cabo de vassoura, teve de recolher uma a uma, perante uma multidão que se formou ao redor. Envergonhada, passou mais de mês sem botar a cabeça na porta. Dois meses depois e já estava jogando lixo na porta da mesma vizinha.


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domingo, 25 de setembro de 2016

NO LEITO DAS ÁGUAS GRANDES


*Rangel Alves da Costa


Conheço um leito de rio, tão magistral e tão formoso, tão pujante e tão belo, tão imponente e tão vasto, que costumei a chamá-lo de leito das águas grandes. Não sei se tal percepção, de ser aquele leito o maior e mais belo de todos, é apenas fruto da memória e da recordação, vez que comigo as relembranças de ser aquele rio tudo aquilo que os livros diziam: O grande São Francisco, o imenso e caudaloso Velho Chico!
Hoje, infelizmente, de vez em quando ouço dizer que o São Francisco não é mais sequer a sombra daquele rio imponente de outrora. E no mesmo sentido a assertiva de o Velho Chico estar nas suas últimas forças, nos seus últimos suspiros, em estado de verdadeira penúria. Na verdade, meus olhos avistam o leito padecente, magro, numa finura e esmorecimento inimaginados para um rio daquele porte, mas simplesmente teimo em não acreditar.
Ora, meu Deus, o menino nunca quer que o seu boizinho de barro se quebre, o menino nunca quer que sua bola de meia desapareça, o menino nunca suporta ter de abandonar sua bola de gude, seu cavalo de pau, seu brinquedo infantil. A isto se denomina amor, fidelidade, desejo de ter sempre consigo. Assim também com o meu rio, cujo leito fica a apenas catorze quilômetros de onde estou agora, margeando o meu sertão sofrido de seca, acolhendo a vida ribeirinha que ainda resta nos seus costados. Também sou ribeirinho, pois nascido nesse vasto e belo mundo do Sertão do São Francisco. Sou sergipano de Poço Redondo.
Por isso mesmo sei que o meu rio está muito diferente de outros idos, que agora está combalido e já sem águas nem forças suficientes para que embarcações sigam de canto a outro. Sei que o meu rio não é mais moradia constante do surubim, da tubarana e tantos outros peixes grandes que fartavam as panelas ribeirinhas e sertões adentro. Também sei que as velhas carrancas não mais despontam nos horizontes protegendo as novas e velhas embarcações. Sei ainda que a povoação do rio, tanto o pescador como o habitante de suas margens, agora se vê apenas com as memórias dos tempos de fartura e de doce sobrevivência.
As povoações ribeirinhas, principalmente aquelas pequeninas que foram surgindo às margens durante as primeiras penetrações aos sertões, sofrem agora de abandonos indescritíveis. As cidades ricas, de suntuosos monumentos, de casarios imponentes e comércios prósperos, agora se veem estagnadas, paradas no tempo, sem perspectivas futuras. Melhor sorte não há naqueles lugarejos e aldeias beiradeiras, tendo de suportar agora um empobrecimento crescente e doloroso.
Do verdadeiro rio, daquele São Francisco de tempos passados, de antes da instalação das usinas hidrelétricas ao longo do seu leito, restam somente as histórias, as memórias, as relembranças e as saudades. Restam também as lendas, as crenças, as culturas e as tradições ribeirinhas, mas nada que se sustente sem que o povo do lugar se mantenha como sua voz. E o povo ribeirinho também está escasseando, sumindo, se mudando para lugares outros onde haja melhores perspectivas de vida. Mas me permito ficar com as saudades.
Eternizo – e certamente eternizarei para o sempre na minha memória – o leito das águas grandes. Aquele leito onde as grandes embarcações aportavam apara trazer e levar pessoas, alimentos e tudo aquilo que servia de sobrevivência à vida sertaneja. Aquele leito tomado de canoas e pequenas embarcações e seus pescadores lançando redes e logo trazendo a fartura. Aquele leito de homens e mulheres sentados nas calçadas altas para apreciar as belezas das chegadas e partidas, mas principalmente das águas que sempre pareciam com novos fascínios.
Neste leito das águas grandes ainda mora a minha memória e a minha saudade. Hoje o rio é outro rio, mas continua em mim aquele mesmo rio. Sempre o mais belo e o mais fascinante de todos os rios. Um rio onde me alento na mesma poesia de Pessoa: o mais belo rio, pois o rio que passa na minha aldeia. A minha aldeia sertaneja.


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Lá no meu sertão...


Águas do meu São Francisco. Em Bonsucesso, povoação ribeirinha no município de Poço Redondo, sertão sergipano.




Doce (Poesia)


Doce


Leite e açúcar
coco ralado
pitada de sal
fogão aceso
tacho mexido
colher de pau
e a espera
do ponto
e pronto

há na vida
um doce assim
açúcar e sal
suor e luta
uma pitada
de tristeza
e de alegria
e um sabor
que se deseje.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – sábia natureza


Rangel Alves da Costa*


A natureza é sábia, disso ninguém pode duvidar. E no seu livro nenhuma linha é desnecessária. Gesta e doma o seu mundo, tudo dispõe sem acrescer ou faltar. Ao que o homem é desordem, no seu seio a mais perfeita harmonia, ainda que se imagine a guerra entre os bichos e as espécies mais fortes submetendo as mais frágeis. Basta um ligeiro olhar e logo se perceberá o quanto ela instiga com sua ordem, o quanto surpreende com o seu jeito próprio de viver as estações, o quanto tudo interage na sua vida. O pássaro espalha o grão e novas plantas surgem em lugares distantes. A ventania esvoaça a folhagem e aduba a vida. O simples bater de uma asa de borboleta vai provocando transformações por todo lugar. Nela, na natureza, toda morte é certeza de renascimento. Não há uma vida que a outra não possua serventia. Até mesmo os gritos e barulhos que se alastram no seio seu servem como canção: a trilha sonora da vida e do viver dos bichos, das plantas, dos mistérios, dos escondidos. Contudo, uma perfeição que se perfaz até a chegada do homem.


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sábado, 24 de setembro de 2016

A PRIMAVERA DOS POETAS


*Rangel Alves da Costa


Um dia, sentados num café europeu vitoriano, dois poetas conversavam, quando um de repente exclamou: “Que me venha assim a primavera. Preciso de novas cores no meu jardim, preciso de novos aromas ao amanhecer, preciso dar mais poesia ao meu viver”. Ao que o outro falou: “Não há mais primavera. Nunca houve primavera. As estações estão apenas nas nossas mentes. Suas flores e seus aromas são as mesmas folhas mortas que há em mim. E muito desejaria que não morressem minhas flores de plástico”.
“Engana-se, amigo, engana-se. A primavera existe sim, sempre será essencial que continue existindo. Mesmo que não venha nas suas manhãs, nos seus jardins, nas suas cores, nos seus aromas e suas fragrâncias, será sempre necessário que continue existindo. O ser humano precisa dessa estação em sua vida, que seja realista ao olhar ou de concepção ilusória. Não podemos perder o senso mais profundo da existência do belo, da permanência das esperanças. Ademais, a janela dos olhos devem se abrir nas manhãs em busca do arbusto verdejante, da folhagem viçosa, da pétala rodeada de beija-flores, das flores, lírios, rosas e jasmins, no mais profundo do olhar, do coração, dos sentimentos. Assim, na estação a primavera me chega como um alento d’alma, e, se ela parte, ainda assim sinto que necessito continuar buscando suas flores pelos jardins. E um jardim em qualquer lugar”. Afirmou o primeiro poeta.
O outro logo expressou: “Abraça-te ao otimismo como um cão ao mais fétido dos ossos. Diante de ti, bom amigo, certamente o tempo de desolação estará povoado de borboletas e colibris. Que bom que pense assim. Certamente que faz bem ao âmago avistar chaminés como roseirais e muros cimentados com a feição de heras. E quantos pomares não estariam onde povoa o ferro e a ferrugem, a pedra e o espinho. Não me desfaço de sua primavera florida agora e em qualquer estação, mas eu, porém, tenho de me reconhecer como o mais triste dos jardineiros. Qual a valia das rosas, begônias e crisântemos, ante o som ensurdecedor da máquina triturando ao lado? Qual a beleza e o viço da pétala perante a pele mendiga e ossuda que passa catando restos nos beirais das calçadas? Qual a sensação de ter borboletas e beija-flores ao redor da fumaça, da sirene, do apito, do fumo que sai voraz das caldeiras? Sim, eu também queria a primavera mais primaveril, a manhã mais pujante de cor, a paisagem mais doce e cativante. Contudo, não sou apenas poeta, sou humano, essencialmente humano, e, como tal, hei de reconhecer que nós, os homens, nas nossas ânsias e indiferenças, acabamos apagando os calendários. E a primavera morreu”.
“Sinto que o teu copo transborda de pessimismo. E não posso tirar-lhe a razão. Mas tenho a minha razão. Talvez o homem tenha se deixado demasiadamente levar pelos negativismos da vida. Sim, os tempos são difíceis, angustiantes, mas não de modo a não poder avistar outras realidades. A sensibilidade ainda deve prevalecer, eis que os bons sentimentos superam as angústias da alma. Por isso reafirmo que há primavera e vivemos num tempo de primavera. Não apenas uma estação viva no calendário, mas principalmente pelos jardins do olhar e do coração. Encontro uma rosa e a multiplico, encontro um colibri e o multiplico. Sinto a poesia do perfume, a gratidão florida em cada encontro com as singelezas da vida. Tal primavera existe. E talvez além e mais verdadeira que a própria primavera”. Foram as palavras do primeiro poeta, que em seguida ouviu:
“Então colhe tuas flores que eu colho as hastes pontudas que a tudo dilaceram. Tens um jardim, preserva-o, conserva-o, e eu tenho pedras sobre meus sapatos e ácidos nas minhas veias. Mas uma coisa é certa, ao morrermos sobre o teu túmulo vingará uma bela flor, e sobre o meu apenas a cruz solitária e feia. E nisto você tem razão: o outono é sempre mais triste”.
Em seguida, silenciosamente, levantaram e saíram caminhando por entre canteiros ainda desnudos. Todo florido ao olhar de um poeta. Ressequido demais perante os olhos do outro.


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Lá no meu sertão...



 Dona Conceição de Laura: Rendeiras de Bilros de Poço Redondo, sertão sergipano - 2






Depois do mar


Depois do mar


As águas correm
e ávidas escorrem
no olhar marejado
no olho banhado
de sofrido mar
e seu naufragar

por que choro
e na dor imploro
a paz de um cais
a onda vem voraz
lava toda a alma
emergindo a calma

e no porto além
no cais de alguém
recebo um abraço
e nele me enlaço
emergido da dor
para o amor.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – nu


*Rangel Alves da Costa


Haverá mais mistério envolvendo a nudez do que imagina nossa vã filosofia? Por que o nu é tão agressivo e ao mesmo tempo tão apaixonante? Ou será a nudez a verdade humana, vez que toda roupa é disfarce? Creio ser a nudez a pessoa em estado de perfeição. Ora, todo mundo nasce e por muito tempo anda nu sem que tal fato provoque qualquer reação. Então, por que somente depois, quando a criancice vai se tornando em puberdade, é que se exige vestimenta? Apenas por que o homem parece ter vergonha de suas vergonhas. O índio não tem vergonha nem de seu corpo nem de seu sexo, o naturista também não. E fato estranho de a pessoa tanto vestir-se para desejar, intimamente, estar nua. Basta imaginar que o olhar vive tirando a roupa da bela moça, que a volúpia avista bundas e seios debaixo de macacões. E, com a nudez do outro, também a sua. Desavergonhadamente.


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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

LÁ LONGE...


*Rangel Alves da Costa


Lá longe há um lugar por onde já passou Jorge Amado, Rachel de Queiroz, João Ubaldo Ribeiro, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha e tantos outros escritores, novelistas, memorialistas. No lá longe todos eles beberam na fonte antiga, nas memórias nordestinas, nos engenhos, nas casas-grandes e senzalas, no viver interiorano, nas vidas secas, nas lutas cacaueiras de tocaia e sangue, nos velhos cabarés e nas fomes tantas e nas desolações desmedidas.
Lá longe e tão perto. Agora, na realidade presente. Aquilo que os livros contaram, ora em ensaios, romances ou memórias, ainda estão, na medida da permanência, ainda presentes pelo Nordeste e seus sertões. E assim por que há uma região nordestina e muitos e diversificados sertões, desde os sertões litorâneos, quase beirando as metrópoles, aos sertões distantemente autênticos: o sertão sertanejo, de aridez e secura, de chão rachado e planta recurvada pela fome de chuva.
Ainda é possível avistar a escrita amadiana em muitos de seus recantos. Não mais os coronéis desafetos digladiando poderes sobre as terras, mas o mesmo coronelismo político, do mando e da submissão. Não há mais o terno de linho branco, mas há a mesma ordem, o mesmo exercício de poder político remoendo adversários. Os jagunços são outros, as emboscadas e tocaias também, pois a paga da maldade vem pela mão sangrenta de qualquer reles covarde. Capatazes citadinos, seguranças, bajuladores que ainda atemorizam sertões.
Mas também ainda a existência dos fazeres cotidianos tão expressivos na escrita amadiana. Ora, Jorge Amado era de escrita moleca, travessa, tão realista que impossível não avistar as cenas na sequência descritas. Cabarés e prostitutas balofas, cafetinas e apaixonados ao pé do balcão, mas também a doçura e a beleza das agrestinas de encantar corações. Eis que nas distâncias matutas tantas Gabriela, Tereza Batista, Dona Flor, Malvinas e tantas outras. As mesmas singelezas, canduras e segredos caboclos. Nem os modismos e as tentações modernas acabaram de vez com pessoas assim, ainda avistadas e reconhecidas naqueles sertões de lá longe.
Rachel de Queiroz foi lá longe ao tratar do drama da seca e dos flagelados. O seu romance O Quinze cuida exatamente do sofrimento de um povo afligido pela voraz estiagem nordestina. Situação não muito diferente daquela narrada por Graciliano Ramos em seu Vidas Secas. Neste enredo tipicamente regionalista, nordestino por essência, Fabiano se vê tomando o caminho do mundo levando a família e seu cachorro Baleia. Daí o padecimento pela pobreza e submissão, pelas vidas minguadas e opressões. As estradas secas e empoeiradas são as presenças características nas duas obras, e nas mesmas constâncias ainda hoje observadas nas distâncias sertanejas em tempos de agonias por falta de pingo d’água, da fome e da desvalia de tudo.
Em Rachel também a vertente cangaceira, pois a escritora cearense foi buscar na saga do Capitão Virgulino o mote para sua mais famosa peça teatral: Lampião. Nesta, eis novamente o Nordeste em sua pujança, só dessa vez marcado pelo banditismo, pela catingueira varada de bala, pelo medo e a perseguição. A paisagem descrita pela autora é aquela mesma ainda hoje encontrada pelas veredas e carrascais, pois o lá longe de ontem ainda continua no lá longe de agora, vez que mesmo as devastações ainda não conseguiram extinguir o retrato espinhento das entranhas matutas sertões adentro.
Eis o grito de um Sargento Getúlio vociferando contra tudo e contra todos, desde as assombrações pessoais, interiores, aos autoritarismos do poder. Em Getúlio, a voraz rudeza da indignação do homem tão bem descrita por João Ubaldo Ribeiro. Getúlio é sargento aposentado, mas antes de tudo é homem, e sujeito indignado com a própria sorte de estar fazendo um serviço a mando de liderança política, e contra um inocente desafeto. Então, enquanto o carro vai cortando as estradas de chão, ladeado pela aspereza da terra e seus tufos espinhentos, o transtornado sargento busca prestar contas de si mesmo e do mundo. E vão ecoando injustiças, opressões, medos, realidades medonhas e até sangrentas de passado e presente que chegam como terríveis fantasmas.
E aquele lá longe euclidiano, de o homem sertanejo ser antes de tudo um forte, continua aqui tão perto quanto a própria dor de Canudos, do Conselheiro e seus beatos e fanáticos. Nas entranhas da mata a guerra cega, sem fim, num mundo que a paz da fé incontida era motivo de bala e de morte. Os algozes negaram a fé daquele povo, impingindo-lhes a destruição, como até hoje se nega o direito fundamental à dignidade. Aquele pobre nordestino que tombou no Arraial e arredores é o mesmo que ainda tomba na selva civilizada. Mas por que o sertanejo, do passado e do presente, não morreu de vez? Que diga Euclides da Cunha: Por que antes de tudo é raiz da própria terra. É antes de tudo um forte.
Lá longe aquele menino de engenho, aquele negro sendo açoitado, aquele casarão e sua varanda de caldeirão e purgatório. Um tempo de lá longe tão bem descrito nos livros, mas que ainda presente nas páginas da vida vã. Quem dera que o lá longe de sofrimento já não restasse sequer em ossos. Mas de vez em quando, no tempo presente e por todo lugar, tudo com afeição de antigamente. Tudo num só percurso. Nada lá longe.


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Lá no meu sertão...


Dona Conceição de Laura: Rendeiras de Bilros de Poço Redondo, sertão sergipano - 1






Vinho e veneno (Poesia)


Vinho e veneno


Já não sei
se vinho ou veneno

bebi dos dois
não sei se morri

sinto-me alegre
e tão triste

quero voar
e quero cair

será que estou
ou parti?


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - varal


*Rangel Alves da Costa


Nada mais triste que um varal. Mesmo sem roupa estendida, sempre demonstra uma feição de tristeza, solidão, desolação. É que o olho esquece que ali só um cordame, um arame ou um barbante esticado, e logo imagina a roupa estendida, molhada ou esvoaçando ao vento. E logo imagina muito além de uma simples estendida para secar. Mas por que assim? Ora, roupas no varal são como pessoas querendo voar, querendo fugir, partir sem destino. As roupas no varal são como recordações das vestes de outras pessoas que ali também estendiam suas vestes. As roupas no varal são como saudades, angústias, aflições, tormentos. As roupas no varal são como braços estendidos pedindo abraços. São como pessoas partidas que acenam adeuses através dos panos. São imagens vivas de outras vidas. E quando as roupas estão secas e começam a esvoaçar, então surge o medo de que seus donos também estejam indo embora. E para o sempre. Mais triste ainda quando a noite chega e as roupas permanecem estendidas. Amanhecem molhadas porque passam a noite chorando.


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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

QUEM DERA... (OU O SALMO DO MEU VIVER)


*Rangel Alves da Costa


Quem dera meu Deus, quem dera eu poder fazer do meio do mato meu canto e recanto de vida e vivência. E, afastado desse mundo humano demais, ter a paz e o sossego que tanto necessito na alma.
O calango não tem falsidade. A cobra não é tão perigosa quanto certas pessoas. O bicho do mato não quer comer suas entranhas com o olhar. A cansanção é mais suave e terna que o seu conhecido. A urtiga é carícia diante da língua do povo.
Deus, oh Deus! Que eu não me perca na senda das falsas ilusões nem nas searas das impossibilidades. Tenho espírito e alma para preservar na bondosa ação e não para deixar que se queimem em meio às fornalhas e labaredas das calçadas, esquinas, ruas e escondidos.
Quem dera poder viver na humildade que não denigre e não diminui. Quem dera poder amanhecer sem a dor de ter adormecido sangrando pela navalha da discórdia, da injustiça, da perseguição. Nada mais dói que conviver com feras e ter de sangrar por dentro para a elas não se igualar.
Deus, oh Deus! Que as experiências de tristezas e sofrimentos não se transformem em cotidianos nem em passivas aceitações, que as feridas não se mantenham abertas perante os vermes do mundo e que estão por todo lugar, ávidos por impregnar ainda mais a vida de angústias e aflições.
Quem dera meu Deus, quem dera eu poder estender minha rede de pau a outro, ou mesmo debaixo de um velho umbuzeiro matuto, e acordar somente com a ventania dançando sua valsa ou o entardecer me chamando ao fogo de chão. E, graveto a graveto a graveto, lenha a lenha, fazer o café borbulhar na velha chaleira.
Não, não me purifiquei, não passei por qualquer experiência de transformação, não vivi em clausura monástica para passar a avistar o mundo e essa realidade de modo tão diferente. Apenas uma razão: está insuportável viver assim. Em tudo a política, a discórdia, a briga, a falsidade, a mentira. Quanta mentira, meu Deus!
Creio ser possível continuar sendo o que sou sem ter de me submeter a tudo isso. Nasci para amar, não para odiar. Nasci para partilhar, não para separar. Nasci para conviver, não para me afastar. Nasci para viver sentimentos, não para me petrificar. Não, não serei aquele que se maculou pela oferta vã ou pela promessa irrealizável.
Não nasci para suportar calado o absurdo, a aberração, o contrassenso em tudo. Mas vou brigar com o mundo? Não. Que o circo da cruel realidade chame suas feras a se abocanharem. Eu não nasci para um mundo assim. Eu não sou assim. Por isso mesmo que preciso de uma possível paz na distância.
Por isso que tanto desejo ter uma casinha de cipó e barro no meio do mato, o mais longe possível dessa perversa realidade. Que eu possua apenas o necessário à sobrevivência e o que de mim jamais poderá se afastar: lápis e pedaço de papel. E para escrever, escrever, escrever... Não há coisa na vida que eu goste mais de fazer.
Dia desses, ao sair de grupos de bate-papo, eu simplesmente disse que estava cansado. E estou cansado mesmo, muito cansado. Mas não um cansaço de estafa, de estresse, de exasperação. Apenas o cansaço da mesmice, da percepção do convívio com lobos e pessoas querendo fazer com que os outros se fanatizem para garantia e permanência de suas benesses.
Tudo isso cansa. E cansa demais. Não sou rico, não tenho carro, não tenho dinheiro guardado em banco. Mas tenho a maior das riquezas: Deus me veste como o lírio do campo! E “Observai como crescem os lírios do campo. Nem Salomão, em todo o esplendor de sua glória, vestiu-se como um deles”. Assim no evangelho de Mateus.
E lá no meu meio de mato o amigo sempre será bem recebido. E terei uma palavra a dizer: Que o teu coração venha contemplar, ao meu lado, a grandeza na simplicidade e na humildade da vida!


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