SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 19 de agosto de 2017

O MUNDO DE TODO MUNDO


*Rangel Alves da Costa


O mundo é uma imensidão, como já disse o viajante do alto mais alto do cume mais alto da montanha mais alta. E quanto mais lançava o olhar adiante, viajando pelas paisagens e horizontes, mais parecia estar apenas no início de tudo aquilo que poderia avistar.
Eis o tamanho do mundo: uma imensidão. Nas suas vastidões, o além muito além de tudo. Regiões desconhecidas, lugares desabitados, distâncias jamais alcançadas. Mas também os apertos das cidades grandes, as teias do subdesenvolvimento, o inacreditável.
Continentes, mares, oceanos, desertos, tudo fazendo parte desse imenso imundo. Mosteiros, santuários, igrejas, templos sagrados, tudo em meio aos quintais, aos terreiros de umbanda e de candomblé, aos pórticos de seitas desconhecidas, pois tudo no mesmo mundo.
Uma choupana de palha nos confins do mundo africano. Um santuário nas montanhas tibetanas. Moradias fincadas nas friezas hostis siberianas. Casebres toscos espalhados pelas distâncias nordestinas brasileiras. Jardins avarandados e floridos no mundo europeu. Tudo parte de um só mundo. Vasto. Imenso, parecendo sem fim.
Um mundo tão imenso que no seu vão cabe o esperado e o inesperado, o encantador e o desesperador, o alegre e o triste, o grandioso e a pequenez. Um mundo que é de paz e que é de guerra, que é riqueza e da pobreza, que é da acolhida e da brutal perseguição. Tantos jardins floridos e tantos rios de sangue correndo.
No ser humano, as raças, as crenças, os credos, os mitos, os conceitos e os preconceitos, se alastram em suas feições e matizes próprios. Religiões que se combatem e se comungam, tradições que se perpetuam ou dilaceram no tempo, crenças que se esfacelam pela descontinuidade de seus valores.
Um mundo tão contrastante como impiedoso a muitos. De um lado a riqueza e a bonança para tantos e de outro o menos de o nada ter. A mesa cheia, farta, volumosa, de uns, e a barriga sempre vazia de outros. Milhões de famintos catando grãos na areia, catando o pão nos lixões, enquanto outros se fartam nos luxos e consumismos.
Calçadas, ruas e vielas de um mundo só, único, com sua imensidão. E pelas calçadas vão passando os solados, os ternos e os paletós, enquanto que pelas mesmas calçadas se estendem as mãos estendidas, os rogos por uma esmola qualquer. Uns que simplesmente passam e outros que simplesmente ficam.
Um mundo de mãos em orações, de corpos ajoelhados, de mãos entrecruzadas em preces. Mas também um mundo do terror, da barbárie, da desumanidade sem fim. Muito se pede a paz, muito se prega a paz, mas os ataques continuam ceifando vidas por todos os lugares, os terrorismos continuam ensanguentando nações inteiras.
Um mundo de águas tantas, de florestas tantas, de plantações e colheitas. Porém correndo o risco de escassez de água, de comida, de campos para a plantação. Ora, os desertos vão se formando por todo lugar. Assim nas distâncias arenosas como nas selvas urbanas e os seus seres fugindo de outros seres. O homem cada vez mais lobo do homem.
Há uma favela aqui outra acolá, favelas pelo mundo inteiro. Barracos, palafitas, moradias indignas e desumanas. Prédios suntuosos, edifícios majestosos, tudo no requinte e na ostentação. E tudo num mundo só, mas parecendo dois mundos que se ladeiam sem ao menos se conhecerem.
Um mundo de todo mundo, mas de pessoas desiguais até em si mesmas. Pessoas que se desconhecem e negam de vez a existência do próximo. Daí ser um mundo de tantos e de tão poucos, um mundo tão solitário que talvez caminhe sozinho pelo próprio mundo.
Mas este é o mundo de todo mundo. E não há outro mundo que não este.

Escritor
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Lá no meu sertão...


Noite sertaneja. E na Cruz do Senhor e na Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo, toda a luz a nos guiar!




Prece ao entardecer (Poesia)


Prece ao entardecer


O sol ainda não avermelhou suas brasas
nem o crepúsculo acendeu sua fogueira
de labaredas que esvoaçam entre nuvens
mas tudo se faz tão belo e tão singelo
que antecipo na minha voz e no meu olhar
a prece noturna de comovido agradecimento
e digo e ecoo e repito sempre mais e mais:

Senhor, meu Senhor destes horizontes
que de suas paisagens me cheguem a vida
e a vontade maior de querer mais viver
para a todo entardecer orar no silêncio
o pujante grito pela alegria do instante
e todos os momentos onde sua presença
resplandeçam em mim como luz e paz.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – matuto sou


*Rangel Alves da Costa


Sou matuto. Sou calango de pedra. Sou preá de tufo de mato. Sou estrada espinhenta e beirada de riacho seco. Sou casebre e fogão de lenha, sou rede no alpendre e ninho de graveto na cumeeira. Sou a flor do mandacaru e o espinho de quipá, sou a fome e a sede. Sou o grão e o pingo de chuva. Sou o grito e a solidão. A alegria e a aflição. Um sertão! Sou humilde e humilhado, mas feliz assim mesmo. Tenho o rosto lanhado de sol e os pés e as mãos varados de espinhos, tenho desajeito no andar e conversa pouca, quase nada, mas de maior valia que a de qualquer doutor. Sou o homem da pedra, do mandacaru, do xiquexique, da macambira, da aroeira, pois sertanejo sim senhor. Acostumado com as durezas da vida e as desolações do tempo, eu cozinho no barro vermelho o alimento futuro. Quero muito não, apenas viver e apenas merecer cada vez mais este meu sertão. Sertão de vereda, de tufo de mato, de preá escondido. De vez em quando uma codorna, uma nambu, um bicho do mato. Tudo amigo meu, pois tudo da terra como da terra sou. E do alto ao reles do chão, o homem na sua inteireza: o sertanejo. Matuto, caipira, trabalhador. Matuto sou!


Escritor
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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

ONDE MORAM AS PESSOAS E COMO ELAS VIVEM


*Rangel Alves da Costa


Caminhando pelas ruas da cidade, cortando e entrecortando pessoas e multidões, de repente, perante um e outro de modo específico, eis que me ponho a pensar onde moram e como vivem. Seria simplismo demais dizer apenas que moram em suas casas, barracos, casebres, mansões ou apartamentos, pois o que importa mais é imaginar não o tipo de moradia de cada um, mas a sua postura perante o seu mundo.
E assim por que as pessoas podem ser avistadas de um jeito e possuírem um mundo totalmente diferente. Igualmente às feições que não revelam as faces dos corações, assim também com as pessoas que se mostram de uma forma e convivem de modo totalmente diferente. Significa dizer que nem sempre a sorridente ou apressada que passa assim se mostra de igual forma onde reside e perante sua comunidade. A rua é passarela de um requinte diferenciado das portas adentro e arredores.
Instiga-me imaginar como vive aquela mocinha tão bela que mais parece uma princesa. Será que é de família carente ou de maior poder aquisitivo? Será que é feliz no seu dia a dia? Será que possui um quarto só dela? Será que abre a janela e sobre ela se debruça em sonhos e devaneios? Será que é calma junto à família, será que ajuda a limpar a casa e a cuidar dos demais afazeres domésticos? Ou será que é uma mocinha totalmente diferente no lar? Uma mocinha que tanto faz que sua cama esteja arrumada ou não, que tanto faz que os seus pais lhes dirijam a palavra ou não.
E aquela mulher que caminha cabisbaixa e entristecida, com uma roupinha qualquer, sem pintura ou luxo algum, sem relógio nem brinco na orelha, será que reflete a mesma realidade do lar? Uma mulher de quintal, de varal, de pano pra lavar, de panela pra desengordurar, de feijão para debulhar, de café para pisar, de mexer comida pouca, de nunca encher de alimento prato de estanho. Mas talvez seja diferente, pois o jeito de ser e vestir não mostra a realidade econômica nem a condição social. Veste-se assim, na humildade e simplicidade, apenas porque gosta de ser assim.
De canto a outro as pessoas chegam, passam, seguem e vão embora. Logo cedo ainda se mostram dispostas, mais apressadas, mais alegres e prestativas, para depois, já chegado o entardecer, tudo se revirar. A lentidão, o cansaço, o semblante ríspido, o silêncio forjado, a vontade grande de voltar pra casa. O trabalho do dia está feito, a compra do dia está feita, o afazer do dia está feito, tudo já mais ou menos realizado segundo as intenções ao sair da porta de casa. Mas agora é hora de retornar, de novamente encontrar a porta e o porta, chegar. Mas que mundo é esse aonde se chega?
Sempre se chega a um mundo próprio, pessoal, compreendido somente pelos que nele vivem e convivem. Nas casas simples, nos casarões, nas choupanas ou nas mansões, aí as pessoas sem disfarces e convivendo com o que lhes é permitido viver. E tudo sempre diferente da rua, da porta da frente adiante. O menino que fica descalço e quase nu, o homem que logo joga os sapatos ao longe e vai se servindo de uma dose, a mulher que destampa panela a panela para matar toda a fome. A casa arrumada ou não, cheia de móveis ou não, um lar com suas aparências, dramas e realidades únicas.
A verdade é que as ruas mentem, fingem, ocultam. Pelas ruas as aparências transformam as pessoas perante suas conveniências, daí não se possível abstrair verdades apenas pelos instantâneos daqueles que passam e que vão. Somente nas casas, dentro das quatro paredes, os disfarces passam a dar lugar ao real em sua maior contundência. Ora, quem está triste na rua vai chorar em casa, quem está com a roupa ou o sapato apertado vai buscar no lar o seu tão esperado conforto. E que conforto! O simples, o nada, a nudez, o desapego, a pessoa em si mesma e consigo mesma.
E tanto assim que no lar até a riqueza se mostra mais simples. É também no ambiente familiar que as pessoas se despojam mais dos orgulhos, das vaidades, das imponências. O luxo se torna simples como uma chinela de dedo, rico ou pobre estende as pernas perante a televisão, todo mundo tem fome, todo mundo cata o que mais gosta ou o que tiver para comer. Na casa, há, assim, um tipo de desambição e desapego da pessoa para consigo mesma, vez que apenas se revelando no que já é.
É esta realidade entre quatro paredes que nunca se revela depois da porta da frente. As pessoas vivem seu mundo de quintal, de estender roupas ou catar goiabas, vivem seu mundo de conforto, de prato à mesa e comida farta. Ou tudo de outra forma, dependendo da parede caindo ou do requinte. Mas em todos, indistintamente, o comum das pessoas. Ou seja, o íntimo e pessoal que não se revelam na aparência. Já da porta adiante há outro mundo. E muitos que se transformam para viver sua realidade.


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Lá no meu sertão...


AURORA DA MINHA VIDA - Por que fui menino. E ainda sou. Retratos antigos do que me restou. Menino saudade que o menino carregou, trazendo comigo na estrada que vou. Que bom recordar o tempo que passou. Que bom ainda ser o que nunca acabou.



Pelos campos de relva (Poesia)


Pelos campos de relva


Venha meu amor agora
que a porta da manhã se abre
e uma estrada adiante nos chama
aos caminhos perfumados da vida
entre flores novas e folhas de relva

e como um poema escrito em nós
cantar a canção de um amor maior
e na relva fresca deitar ao entardecer
para nossos olhos se olharem no olhar
e lábio a lábio querendo o lábio beijar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - “ainda que vier noite traiçoeira...”


*Rangel Alves da Costa


Nesta quinta-feira, logo ao amanhecer fui surpreendido com a notícia do falecimento de um amigo de Poço Redondo, nos sertões sergipanos: Carlos Magno Guimarães. Espanto e surpresa. Surpresa e espanto. Fiquei sem acreditar. Fiquei dolorosamente entristecido. Ora, outro dia, pelas ruas do meu berço de nascimento, e Carlos Magno alegre, com sorriso largo, amigueiro e cordial. E jovem demais para uma despedida assim. Creio que não tinha mais que vinte e poucos anos, pois ainda como um adolescente cheio de vida e expectativas. Mesmo tão jovem, Magno era sempre participativo e preocupado com os problemas do município. Gostava de debater temas do interesse da população, interagia com todas as camadas sociais, procurava ser o mais útil possível na sua vida comunitária. Também era músico da banda marcial e mais recentemente se mostrava muito feliz e contente com a retomada das atividades daquela banda. Mas eis que de repente tudo se finda. Magno foi encontrado desacordado no banheiro de sua residência familiar. Era portador de problemas asmáticos e talvez uma crise mais forte o tenha prostrado de vez e sem tempo de pedir ajudar. E as lágrimas dos amigos ainda escorrem como se os dias e as noites fossem tão traiçoeiros...


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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

COTIDIANO


*Rangel Alves da Costa


Foi à padaria e quase esbraveja pelo que encontrou. De um dia para o outro e aumentou o leite, aumentou a broa, aumentou o pão. Comprou a metade de tudo a comprar. E lhe faltou dinheiro para comprar cigarro.
Ligou a televisão para se acalmar. Então veio o jornal televisivo com a mesma notícia. Mais roubo, mais ladroeira, mais corrupção. Prova disso e daquilo, delação premiada. Puxou o botão da TV e jogou ao longe. Quase vomita pelo nojento poder.
Abriu a garrafa e trouxe um copo. Cerveja era cara e acostumava na pinga. Despejou uma dose e virou goela abaixo. Mordeu o limão depois do queimor. Seus olhos brilharam num vermelho esquisito. Depois outra dose e mais outra e mais outra.
Já na quinta dose escutou um esbravejo. A esposa dizia que coisa bonita, um marido de pinga e sem comida na mesa, um cachaceiro que se esquecia do lar. Então ele aprontou para o pão sobre a mesa, a manteiga e a metade de mortadela. Era assim todo dia e não havia do que reclamar.
Mas ela reclamou e partiu para o grito. Queria por que queria uma mobília nova, um freezer espaçoso, uma cama redonda. Queria um sofá de veludo e um jogo de cama, um mesa antiga para sala-de-estar. Tudo muito caro, mas que queria agora. Ou ele comprava ou ela já sabia o que ia fazer dali em diante.
E disse na cara. Vou arrumar outro que não beba cachaça, que me dê uma mansão e me chame de princesa. E para passar o dia sem nada fazer, a não ser servida dos pés à cabeça, com baby-doll dourado e unhas de seda. Uma vida que ela não tinha tido até aquele momento.
Então ele, já entremeado de raiva e bebida, puxou a gaveta e derramou sobre a mesa uma papelada. Contas e mais contas, boletos e boletos, faturas e faturas, tudo atrasado. E depois chamou a esposa para que visse aquilo e sentisse ela mesma a situação. Todo dinheiro que tinha não dava a metade para pagar as contas que ela mesma fazia.
E no caderno mais contas estranhas. Um sapato de salto alto sem uso algum. Um casaco de pele de onça num lugar onde só faz calor. Uma camisa masculina que ele nunca recebeu. Um relógio dourado desde muito sumido. Uma agenda de bolso que só vivia escondida.
Mas ela insistia em querer tudo novo, pois não suportava aquela vida de pobre. Disse que nunca mais mortadela, nunca mais pão nem manteiga da ruim. Nunca mais carne pouca, nunca mais a mesmice. Nem comida ia mais fazer. Ou uma empregada ou comida do melhor restaurante que houvesse por perto.
Ele lançou mão da garrafa e tomou outra dose. Uma dupla para aliviar. Mas o fogo subiu e que dizer besteira, achando melhor o silêncio forçado. Abriu a geladeira e mostrou comida, abriu o freezer e mostrou comida. E disse que não roubava para ter mais que aquilo e que ela se quisesse fosse ser princesa aonde quisesse.
Ela começou a cantar enquanto ele saía. Já saindo na porta ainda ouviu o deboche: Só volte aqui com o que lhe pedi, do contrário faça do bar sua casa e da cachaça a esposa. E já vai tarde mesmo, pois preciso tomar banho e me perfumar para dar uma voltinha.
Num banco de praça ele chorou e sorriu. Lamentou a sorte e gracejou sem motivo. Depois foi para um bar e pediu uma pinga. Voltou tarde da noite já bêbado e exausto, mas a chave de casa não estava no bolso. Chamou e chamou, bateu e bateu, mas nada de a porta ser aberta.
Dormiu na calçada o sono dos aflitos. Acordou com um cachorro lambendo sua boca. Deu um pulo assustado para logo encontrar, bem diante de si e bem sorridente, a mulher com a primeira palavra do dia: Entre cachorro, deixe ele aí.


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Lá no meu sertão...


Ainda nessa idade e o pequeno Levy já demonstra interesse pela história do cangaço. E pergunta e pergunta, e pergunta mais. Mas gosta mesmo é quando eu falo de “campeão”. Chama Lampião de campeão e tá acabado. E de repente já está me pedindo para assistir filme sobre “campeão”. Então sento ao lado dele e começo a sentir suas reações.




Uma flor, apenas (Poesia)


Uma flor, apenas


Eu só queria
uma flor
apenas

e na flor
um retrato
apenas

do meu amor
na flor
apenas.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - conceitos e preconceitos


*Rangel Alves da Costa


Coisa feia, coisa gorda, coisa metida a besta. Lurdinha é linda. Que nada, Lurdinha é feita demais. Bastião é homem trabalhador, honesto e corajoso. Que nada, Bastião é a preguiça em pessoa, sem palavra e desonesto. Veremunda é viúva, mas é recatada, séria, sem que ninguém tenha ouvido safadeza por parte dela. Quem, Veremunda? Aquela é a viúva mais safada que possa existir, pois mal deixou o finado bater as botas e já começou a abrir as pernas. Totonho é pobre, mas tudo faz para que na sua casa não falte nada, nem na mesa nem desde a porta da frente. Mas quem diz que Totonho é cabra preocupado com a famia num sabe é de nada. Aquilo ali gasta o dinhero todim com pinga. Vi até dizer que os fio vive passano fome. Florindo tem um jeitinho mesmo, um jeitinho assim meio afeminado, mas é um menino bom e respeitador. Que nada. Florindo não passa de uma florzinha mesmo. Além disso, é tão viado que só falta vestir roupa de mulher e andar de mão passada com rapazinho safado. Mas não há jeito. Nunca haverá um consenso sobre o que as pessoas acham ou pensam das outras. Sempre surgirão os conceitos e os preconceitos bem antes que as verdades. Ademais, as pessoas são vistas não perante suas realidades, mas pelo proveito à língua ou à maldade que possam ter.


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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A NOITE ESCURA DE MEME


*Rangel Alves da Costa


Que noite escura, hein Meme?! Que noite mais escura a sua, moça bonita. Tudo por causa de uma tristeza, de uma solidão, de um aperto no coração. Sei que é muita coisa Meme, mas sua noite não deveria ser assim. A lua entrando pela fresta da telha e você na maior escuridão. A lua entrando pelas vagas da velha janela e você no breu maior. Até a luz acesa - se acesa estivesse - não iluminaria sua noite. Tudo por causa de uma tristeza, de uma solidão, de um aperto no coração.
Os seus olhos estavam abertos. Com luz, portanto. Bastaria abrir mais a janela, mas você não abriu. Por que não acendeu a luz, por que não saiu à calçada, por que não chamou a lua inteira para juntinho do seu travesseiro. Meme, Meme, pelo amor de Deus! Lá fora e lá dentro do quarto as estrelas brilhando, poeiras luminosas do espaço dançando ao redor e você apagando toda a luz da existência. E tudo por causa de uma tristeza, de uma solidão, de um aperto no coração.
Meme, querida Meme, deixe-me contar uma coisa. Quando você era pequenina, sua babá até se admirava ao contar e cantar mil histórias infantilmente assombrosas e nada de lhe causar qualquer medo ou arrepios. Falava sobre o bicho-papão que vinha pegar criancinha que não dormisse. Falava sobre a bruxa má que ia entrar pela janela acaso você não dormisse logo. E você Meme, você nunca teve medo de nada, de absolutamente nada. Então, por que agora?
Então por que agora, querida Meme. Faça de conta que tudo não passa de um bicho-papão, de uma bruxa feia e malvada, de um cavalo de fogo que quer pular a janela para lhe pegar. Sei que você não teme nada disso. Então nada acontece por que você nada teme. Por que ficar assim por algo que pode ser esquecido com a luz que pode chamar para si. Há um mundo de luz ao seu redor, tudo querendo brilhar, mas não, pois preferindo a escuridão. E tudo por causa de uma tristeza, de uma solidão, de um aperto no coração. 
Sei que não é fácil Meme, nada é fácil assim de ser resolvido, querida Meme. Tristezas, solidões e apertos no coração, são dolorosos demais. E principalmente pelos motivos para que tudo esteja assim. Não quero falar sobre os motivos agora. Sei muito bem que minhas palavras podem causar aflições ainda maiores. E não quero que sofra ainda mais e chame para si ainda mais breu do que esse nome que lhe encobre a alma. Mas pense na luz. Pense numa saída, querida Meme.
A noite já se alonga e você continua assim. Torne essa escuridão em luz, querida Meme. Ainda que não houvesse a luz da fresta, ainda que não houvesse a luminosidade da lua que entra por todo lugar, ainda que estas estrelas e estas poeiras de astros não estivessem sobre sua cama, ainda assim seria possível fazer fulgurar na mente a luz possível de se avistar uma saída. Mas você insiste em sofrer, em padecer, em se martirizar. Faça isso não, querida Meme. Espante essa escuridão. Acena a luz, acenda a luz.
Eu não queria falar sobre isso, mas tenho que dizer. Dizer sobre os motivos de sua tristeza, de sua solidão e do seu aperto no coração, tudo o que faz que sua noite seja assim de tanta e tamanha escuridão. Pois bem. Sua tristeza não é por que terminou o namoro. Sua solidão não é por que foi abandonada pelo namorado. Seu aperto no coração não é por que tudo isso aconteceu sem você desejar. Não. Pelo contrário.
Meme, Meme, difícil demais de acreditar no que vou dizer. Você está assim por que está amando, namorando. Mas você queria amar, namorar, ser feliz ao lado de um jovem bom. O problema é que namorando você acha que afastou de si a criança a criança que ainda vive em você. Você acha que namorando já não é mais aquela menina que gosta de brincar de boneca e falar com borboletas e passarinhos. Você imagina que perdeu sua infância, sua meninice, sua inocência mais bela.
Fique assim não, querida Meme. Feche os olhos e adormeça. Mesmo amando, mesmo namorando, sua criança ainda está em você. E tanto assim que no sonho surgirá uma menina brincando de soprar bolinhas de sabão. É você Meme. É você e sua luz no mundo!


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Lá no meu sertão...


Sertão sertanejo!




Além das serras (Poesia)


Além das serras


Cidade feia
gente esquisita
aranha em teia
vida aflita

quero viver
perto do luar
paz merecer
e amor amar

aqui não
só medo e pranto
quero um sertão
de quintal acalanto.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - o bicho-papão


*Rangel Alves da Costa


Quando eu era criança não tinha medo do bicho-papão, mas hoje, mesmo já tendo passado dos cinquenta anos, jurei por tudo na vida que tenho o maior pavor desse bichão apavorante e comedor das noites, dos sonhos e da inocência. Diziam que ele estava debaixo da cama e que seu não dormisse logo ele ia me pegar. Mas eu fingia dormir e depois abria os olhos apenas para esperar que ele aparecesse. Nunca deu cara, nunca mostrou os dentões nem as unhas pontudas e ameaçadoras. Mas hoje é diferente, pois o tal bichão amedronta a cada instante, e desde o amanhecer ao anoitecer. Toda vez que me chega uma conta, logo encontro um bicho-papão no exorbitante valor. Toda vez que vou à padaria ou à farmácia encontro um bicho-papão. Na feira e no mercadinho nem se fala, pois o bichão sempre está prestes a engolir todo mundo. Há bicho-papão na conta de água, de luz, no imposto que chega. Há bicho-papão no atendente público, na autoridade de toga, no policial arrogante e sempre despreparado. Há um bicho-papão na televisão e no noticiário de todo dia. E é tanto bichão que aparece que mais parece uma vida de selava medonha e selvageria sem fim. O pior é que me sinto cada vez mais desprotegido e mais próximo de suas garras. E não há saída, não há como fugir. Ser brasileiro é viver à mercê da famigerada fome desse algoz de todos nós.


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terça-feira, 15 de agosto de 2017

CANÇÃO PARA L.


*Rangel Alves da Costa


L. apenas. Mas você bem sabe que L. é você, pois a primeira letra no seu nome. Escreveu o rapaz tomado de espanto consigo mesmo.
Por ser nome composto, há um nome bonito após esse prenome tão belo. E ele quase escreve o nome inteiro dentro de um coração desenhado num canto da folha.
E prosseguiu com sua letra miúda: E hoje, em meio às saudades, revi a sua fotografia. Não que eu a tenha guardada, mas por que surge como um brilho diferente nas viagens feitas pelo Facebook.
Acho você tão bela L., que sempre duvido se estou avistando uma mulher ou uma deusa. Lembro-me agora que certa vez eu tomei coragem de dizer isso mesmo no seu Messenger. Lembra?
Você não disse nada. Quer dizer, não respondeu com palavras, mas com um coração tão grandiosamente pulsante que me deixou sonhando quase uma semana. E talvez tenha este coração que me tenha esperançado tanto.
De outra feita, perguntei apenas “como vai”. Uma pergunta simples, porém tencionando que de repente surgisse outro coração igual aquele. Mas você nada respondeu no momento, apenas no dia seguinte.
Recordo bem as suas palavras: Você deve estar melhor do que eu, pois vi seu retrato com namorada. Apenas isso. E logicamente sem qualquer coração.
Havia mesmo um retrato meu acompanhado de uma menina. Mas nem sei por que estava ali, por que havia sido postado. Entristecido, sem saber o que fazer diante de tal situação, apenas silenciei.
Silenciei, porém todos os dias, senão a todo instante, procuro pelo Facebook e até abro sua página para encontrar seu retrato. Vários, muitos, diversos, e cada um mais bonito que o outro. Então resolvi fazer diferente.
Novamente pelo Messenger, uma nova mensagem em poucas palavras: Estou com saudade, como vai? E eis a resposta dela: É fácil procurar quando se está sozinho. Você agora deve estar sozinho, não é?
Estou, sempre estive, foi o que eu disse em seguida. E disse mais: Você não vai acreditar, mas tenho vinte e dois anos de solidão. E esta é minha idade.
Novamente o silêncio angustiante por parte dela. Enviei outras mensagens, talvez dez, talvez mil, mas a nenhuma ela respondeu. Então hoje resolvi fazer diferente.
Não sou poeta, mal sei escrever, mas tomei coragem e escrevi uma canção para ela, cujo nome é precisamente “Uma canção para L”. E diz assim:
“Menina, menina bonita, o que nos separa é a incompreensão do que somos e do que desejamos ser.
Somente o amor poderá nos fazer compreender o que somos e o que desejamos ser. E se a dúvida persistir, que nós mesmos, juntinhos um do outro, possamos compreender o que queremos.
Eu sei o que quero antes de querer muito mais. Quero você. E você? Não peço que me queira agora. Não quero que me diga sim agora. Responda com aquele coração. Apenas. E então estarei ouvindo sua voz”.
E depois de escrever, o apaixonado traiu a si mesmo e escreveu abaixo: Te amo Larissa!


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Lá no meu sertão...


Eu. Apenas...




Sobre noites e manhãs (Poesia)


Sobre noites e manhãs


Deitei na minha rede de toda noite
e então fiquei pensando e pensando

tirei um punhal abrasado do meu peito
apaguei um velho caderno de saudades

uma lágrima quis insistir em aparecer
e deixei que ela molhasse todo o travesseiro

lavei nas pedras da noite toda a dor sentida
e toda mágoa e angústia ainda aguardadas

quando meu último soluço silenciou
já não havia gatos miando o breu da escuridão

ainda assim me levantei e peguei o caderno
para tentar uma poesia talvez de renascimento

e então escrevi que havia um menino
que perdeu seu bola e foi brincar com a lua

e nunca mais se iludiu com as coisas terrenas
nem com bolas que somem nem pessoas vazias

e depois disso quis também todo o céu estrelado
pois sabia que o seu lugar era além do reles chão.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - nada sai na escrita


*Rangel Alves da Costa


Não ato mais difícil de ser feito do que escrever quando a mente não desaparta de uma memória indesejada. Imagino ser fácil transmudar o pensamento, mas tudo martelando por dentro se repetindo e se repetindo. Saio, vou a lugar e outro, mas não adianta. A imagem mental retorna, o pensamento não desenlaça o nó, tudo parece se voltar para aquilo tão indesejado. A escrita até que seria um modo bom de levar a mente a outras paisagens, a outros pensamentos, porém não adianta. Sentei aqui na intenção de esquecer aquilo tudo, mas não adianta. Enquanto teclo, enquanto tento escrever, outra coisa não povoa a mente senão o sofrimento interno, doloroso, angustiante. Juro que já fui à igreja, já caminhei como errante, já tentei ouvir música. Mas tudo o que faço não consegue superar nem apagar o que insiste em martirizar. Neste desvão de existir, resta somente criar um personagem que seja eu mesmo e escrever: E ele seguiu sem ir. E ele partiu sem sair de onde estava. Não podia seguir nem partir. O pensamento o acorrentava aos velhos vultos e aos espectros de um angustiante amor e seu adeus.


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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

FOLHAS E VENTANIAS


*Rangel Alves da Costa


Nada é eternidade. Tudo que começa tem seu fim. Por mais que a permanência seja duradoura, ainda assim se findará um dia. Mas tal lógica nem sempre é compreendida. Gente há que se imagina petrificado em pedestais sobre a terra.
As folhas esperam as ventanias. Nascem, vicejam, ondulam, farfalham, mas depois de outonos começam a se reconhecer em fragilidade. E abrem suas asas como borboletas leves à espera de um sopro qualquer. E partem sabendo que assim há de ser.
Ora, a pedra não pensa diferente. Seja rochedo ou miudeza de beira de estrada, não vive a ilusão da eternidade. Na sua dureza petrificada, na sua face parecendo inquebrantável, sempre a verdade maior dizendo que tudo é pó e ao pó há de retornar.
Olhai os lírios do campo! A grandeza da vida está na simplicidade, na humildade, na compreensão. Os reinos são sucumbidos, os impérios são devastados, as potências são dizimadas. Resta apenas o que se compreende dentro de suas limitações.
As casas novas que se tingem do verniz do tempo. As casas velhas que se reconhecem o quanto serviram de abrigo. E neste reconhecimento até mesmo os escombros passam a contar de sua história e de sua serventia. Mas o resto não. Apenas some.
O ferro tão portentoso, impetuoso, ferrenho. O ferro que se impõe como indestrutível, como protegido de tudo e de todos. Aí vem o silêncio do tempo, aí vem a sonolência da maresia, aí vem o sal das fragilidades. E de repente a ferrugem corroendo tudo.
Vaidade das vaidades. É tudo vaidade! Assim ensinou o Eclesiastes. Então por que a soberba, o egoísmo, a vaidade, a arrogância, o orgulho, a empáfia e a altivez? Por que a imodéstia e a presunção? Mais adiante, na próxima curva, tudo se mostra pelo avesso.
Ainda o Eclesiastes com suas lições. Todo mundo sabe, todo mundo há de passar por isso, mas parece que ninguém acredita que depois da alegria vem a tristeza, depois do grito vem o silêncio, depois do regozijo vem o sofrimento, depois da vida vem a morte.
E a morte vem. A morte sempre chega. Não adianta o anel dourado no dedo, não adianta o título nem a honraria, pois ela sempre vem. E chega também para todos os demais. A diferença que pode existir é apenas a presunção que o poder também a vence.
Será preciso não criar ilusões. Linda é a flor do mandacaru. Mas que ninguém espere que sua beleza e formosura durem mais que uma noite. Abre-se em pétalas floridas ao anoitecer, enfeita-se e perfuma-se pelo resto da noite, mas ao alvorecer já vai perdendo seu viço. E depois seca. E depois morre.
Os avoantes cruzam distâncias imensas em determinados períodos do ano. Partem em imensos bandos e retornam depois de uns poucos meses em terras longínquas. Mas a simples revoada nem sempre retorna na tarde seguinte. Há pássaros que voam querendo ficar.
Se o tempo e a idade dificultam os passos pela estrada, será sempre preciso saber que se pode ir ao longe por outros caminhos. É o desejo de seguir que vai criando asas e de repente a pessoa voa como um passarinho. E em pensamento segue aonde quer chegar.
Igual aquele velho sábio que ao pé da montanha esperava sua morte chegar para melhor subir. Quando perguntaram por que fazia assim, ele logo respondeu: Jamais alcançaria aquele topo na idade que estou. Há em mim um pássaro que irá despertar quando da minha partida.
As lições da vida sempre permitem avistar realidades além das visíveis e compreender labirintos que se mostram impenetráveis aos que não querem desvendar além das aparências. O mundo não é só a casa, a calçada, a rua, a estrada, a fronteira, o distante. É muito mais.
Mas para se conhecer esse além-mundo é preciso primeiro conhecer o mundo íntimo e o mundo ao redor. Nenhuma valia terá alcançar terras distantes se o quintal ainda não foi desvendado, se os caminhos ao redor ainda não foram percorridos.
E mesmo velho brincar de criança. E mesmo criança compreender a velhice. E mesmo desesperançado abrir a porta da frente para a esperança chegar. Experimentar do picolé de graviola e beber água de moringa. Querer a doçura do araçá e buscar fruta gostosa no mato.
Nunca deixar que a idade avançada impeça viver. Nunca deixar que a idade diga não aos outros tempos da vida. Eis que sempre há tempo de fazer o que não foi feito no passado. Ainda há tempo de tomar banho nu debaixo da chuva e desenhar corações em vidraças embaçadas.
Eu jamais tingirei meus cabelos já esbranquiçados. Também não nego minha idade nem o que pretendo na estrada. Que se espante se digo que ainda sou criança ou que já tenho mais de cem anos na idade que estou agora. Sei que sou o ontem, mas nada sei do amanhã.
Apenas sei que o amanhã, no tempo da vida, será do Eclesiastes. O fruto a terra retorna. E quando a ventania chegar jamais fingir ser tronco. Apenas a folha.


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Lá no meu sertão...


Quem me levará sou eu...




Amores que partem (Poesia)


Amores que partem


Os amores se vão como tudo um dia se vai
as flores murcham ainda perante o olhar
os dias ficam sem manhã e sem entardecer
pois de repente os laços desatados soltos
e pelos espaços os restos levados do coração
e sem poder chorar por que nada resta fazer
apenas lembrar do amor que seguiu seu destino
destino de assim partir ainda sendo amado
mas por si mesmo desamado pela incoerência.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - melhor sozinho


*Rangel Alves da Costa


Comumente se diz que o ser humano veio ao mundo sozinho. Isto para significar que nasceu sem naquele instante primeiro estar atrelado a qualquer outra pessoa senão à mãe. Seja ou não verdadeira tal assertiva, agora creio, depois de mais de cinquenta anos de vida, que gostaria de estar naquele instante primeiro e depois disso continuar sozinho. E sozinho na acepção mais solitária mesmo, sem pessoas ao redor, sem nada que possa atrapalhar o simples existir. É que a gente se engana demais com as pessoas, se ilude demais, para depois ter a certeza que é melhor viver mesmo a solidão. A gente acredita, dá confiança, se permite entregar, amar, para mais tarde de tudo se arrepender. Quanto dói não poder confiar no outro, não poder acreditar que valha a pena a amizade, o amor, a comunhão. E dói mais ainda quando a pessoa faz do amor entre dois uma expectativa de vida e depois se sente como injustamente pisoteado. Tudo fazer para a continuidade do amor, para a paz e a alegria do partilhamento, mas de repente apenas traído no coração. Por isso mesmo que a solidão possui sua valia. Sozinha e só, a pessoa sofre muito menos do que ser lançado ao abismo por aquela pessoa que caminhava sorridente ao seu lado. Daí a valia do ditado: Melhor estar sozinho do que mal acompanhado.


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domingo, 13 de agosto de 2017

HOJE É DOMINGO, PEDE CACHIMBO... E ACABOU-SE O MUNDO!


*Rangel Alves da Costa


Hoje é domingo, pede cachimbo, o cachimbo é de barro, bate no jarro, o jarro é de ouro, bate no touro, o touro é valente, bate na gente, a gente é fraco e cai no buraco, o buraco é fundo e acabou-se o mundo...
Por muito tempo eu pensei que tal cantiga popular dizia que hoje é domingo pé de cachimbo. Sim, algo assim como se cachimbo tivesse pé. Mas cachimbo tem pé, e agora? E cachimbo tem pé e este está na piteira, o orifício por onde se fuma, pois no outro lado está a boca.
Mas deixe isso pra lá, vez que o correto no dizer popular é domingo pede cachimbo e não pé de cachimbo. Significaria dizer que domingo pede cachimbo por que nele um instante de sossego, de repouso, de paz. Tragar o cachimbo apenas para relaxar.
Porém, escolher logo o domingo para relaxar fumando? Eis uma observação que logo surge, principalmente em tempos onde o tabaco é tão combatido pelas consequências nocivas à saúde. Mas apenas uma parlenda, uma cantiga popular. E neste sentido se poderia também criticar a canção popular infantil onde se atira o pau no gato.
Contudo, problema maior surge quando se tem que o mundo se acaba a partir de um domingo que pede cachimbo. Que coisa mais estranha, a partir do nada ou de coisa simples, tudo vai, vai, até que o mundo acaba.
Sim, no domingo a pessoa traga o fumo de seu cachimbo sem saber que daí em diante tudo vai se transformar, e não pelo ato de fumar. É na sucessão de acontecimentos que os inesperados vão surgindo até que, no ato final, o mundo acaba.
E o mundo acaba exatamente após a gente cair na fundura do buraco. Eis dizendo a parlenda que o homem é fraco e cai no buraco, o buraco é fundo e acabou-se o mundo. Há plena lógica neste aspecto, vez que o buraco pode estar representando a morte do homem.
Surge ainda a questão do cachimbo e de jarro de ouro batendo no touro, que é valente, mas não suportando a batida tropeça no homem, que cai no buraco e tudo acaba. Ora, daí se abstrair a noção do poder e da fraqueza, da força e da fragilidade.
O cachimbo e o jarro de ouro representam as forças que se sobrepõem a outras forças, pois mesmo o touro sendo valente, forte, poderoso, tombou pela sua investida. E, por consequência, chegando ao mais frágil dos seres, que é o homem.
Então o mundo, ao menos para o homem, acaba assim, envolvido pelas forças externas e pela sua própria fragilidade. Ao cair no buraco, o seu fim. E o fim de tudo. Algo assim como a demonstração de que a vida é feita de causas e consequências, e sempre pesando negativamente para o mais fraco.
Porém, talvez não seja nada disso, apenas que hoje é domingo, pede cachimbo, o cachimbo é de barro, bate no jarro, o jarro é de ouro, bate no touro, o touro é valente, bate na gente, a gente é fraco e cai no buraco, o buraco é fundo e acabou-se o mundo...


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Lá no meu sertão...


Sertão!




Coração (Poesia)


Coração


Um coração é quase nada
por ser apenas um coração
vai padecendo na desvalia
vai definhando na solidão
vai morrendo no sofrimento
por se apenas um coração

sozinho e nada é o coração
que pulsa no peito da solidão
que amando afasta o amor
e entristecido vive ao desvão
querendo viver e sentir amor
mas se nega a ser coração.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – a juventude tem direito de se divertir


*Rangel Alves da Costa


Ontem, numa rede social, postei uma fotografia de uma festa da padroeira no sertão sergipano e acima escrevi que a juventude estava em pleno estado de graça e animação, e logo alguém comentou dizendo que era animação de forma temporária, artificial, e depois que tudo acaba as máscaras caem e a felicidade também. E ainda outro disse que era pura verdade tal comentário. Ora, mas será que a juventude não tem direito de brincar, de se divertir, sob a justificativa de que tudo é temporário e artificial? Será que a juventude tem de viver continuamente se lastimando, sofrendo os males do mundo, sem direito a dançar, a beber e a se divertir na festa da padroeira de sua cidade? Dizer que não, que não podem nem se alegrar nem se divertir por que depois as máscaras caem é o mesmo que conceber a vida no seu lado mais pessimista e derrotista. É o mesmo que dizer que se existe a infelicidade ninguém tem direito a ser feliz. Então, deixai que a juventude encontre motivos de alegria. É apenas uma festa, nada constante. E esta gente jovem também merece viver a plenitude de sua idade.

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sábado, 12 de agosto de 2017

SAUDADE DA FESTA DE AGOSTO


*Rangel Alves da Costa


Hoje está muito diferente. Do que restou de outros tempos somente as missas, os ofícios religiosos e a procissão no dia 15, principal data e marco final das comemorações alusivas a Nossa Senhora da Conceição, padroeira do município de Poço Redondo, no alto sertão sergipano do São Francisco.
Ainda alguns parques, alguns brinquedos para a criançada, algum evento diferente e animador para a população. Mas não mais do que isso. O velho foi dando lugar a um novo cada vez mais desalentador à cultura, à história e às tradições de um povo. Um novo que já chega descaracterizado e embaça de morte a identidade de um sertão inteiro.
Com efeito, a juventude de agora só pensa em música eletrônica, em paredões, em músicas que nada tem a ver com o sertão. Mesmo as ditas bandas de forró, nada de forró têm a sua música, pois apenas uma sofrência insuportável de se ouvir ou baladas de péssimos gostos, com letras vergonhosas e refrãos sempre repetidos sobre a cachaça, dor de cotovelo e cornice.
Ao invés de forró ou de grupos regionais, ao invés da música de raiz ou dos sons encantadores dos pífanos, essa juventude vai buscar satisfação no modismo musical estarrecedor. O problema é que a festa inteira é como que em atendimento a uma juventude descompromissada com sua autenticidade e suas raízes. Nem pensar em música que faça dançar agarradinho, em canções que tragam saudades ou em ritmos que vão além das modernas percussões eletrônicas.
Noutros tempos, já desde mais de semana que o forró comia no centro. Ali sim, era uma Festa de Agosto mesmo, amada e respeitada. Gente chegando no lombo do burro, em cima de jegue, por riba de cavalo alazão e até de pangaré. Pão de Açúcar, Serra Negra, Delmiro, Piranhas, Paulo Afonso, visitante de todo o sertão e mais distante.
Em toda casa havia uma ninhada de amigos, de visitantes, de gente chegada afoita por um bom arrasta-pé, um autêntico forró pé-de-serra, um chinelado de estremecer salão desde o amanhecer à madrugada seguinte. Zé Aleixo, Zé Goití, Dudu Ribeiro, Agenor da Barra, Raimundinho e até Durvalzinho.
No Salão da Prefeitura, no Bar de Delino, na Casa de Veinha, no Bar de Missião, por todo lugar. Não havia salão ou sala de reboco onde uma sanfona não gemesse e o povo acorresse festivo e animado. Era o fole gemendo e o povo suado sem parar de tanto dançar. Também os bailes no mercado, as orquestras e as bandas renomadas: Embalo D, R Som 7 e Dissonantes, quem não recorda?
E de repente vinha Heleno Silva de Monte Alegre, mais conhecido como Boca Rica, e hoje um famoso pastor, dando uma de cantor. E cantor de música internacional: "There was a place that I lived/ And a girl, so young and fair/ I have seen many things in my life/ Some of them I'll never forget... Oh my mistake...".
Mas que saudade agora, saudade grande do amigo Miltinho. Quanta falta faz este homem ao sertão forrozeiro. E quanto mais a festa se mostra como está mais a gente sente falta. Que saudade grande, que saudade de tudo. Hoje em plena festa e é como se nada mais existisse daqueles tempos de glória.
Não há mais forró. Não há mais zabumba, triângulo, pandeiro e sanfona. Não há mais a voz bonita do cantador. Apenas os paredões tanta nas ruas como nos palcos. Uma lástima. Mas é o que se tem antes que fique pior. E certamente ficará. A tendência de tudo é a completa perda de identidade e a descaracterização total. Até que o povo sequer se reconheça mais em si mesmo.
Eis as lições dos velhos tempos e dos tempos de agora.


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Lá no meu sertão...


Cavalgada em Poço Redondo, sertão sergipano




Vida e mundo (Poesia)


Vida e mundo


Da vida sei
quase tudo
meu fio

mas nada sei
desse mundo
meu fio

vida e mundo
é de distância
meu fio

viver se aprende
o mundo não
é desafio.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – um povo que merece respeito


*Rangel Alves da Costa


Tô virado na moléstia, na gota serena mermo. Num é que o frebento num tem o que fazê e se dana a dizê que o povo sertanejo escreve errado, que vive nos erros do portugueis, que todo mundo devia ser dotô igual a ele que nunquinha foi nadica de nada. Se arrespeita cabra, arrespeita os outo tomem. Quem chegou arribado no sertão num pode falá do sertanejo não. Respeito é bom e nóis gosta. E se tiver achano ruim pegue um gato e se azunhe, se avexe pela merma estrada que veio e chispa daqui. Mai quem já se viu rato se abancá de preá. Nóis fala e escreve assim mermo. Além de falá e escrevê do jeito que a gente sabe e quer, nóis tomem sabe ensiná o caminho de vorta a cabra forgado e acostumado a desfazê dos outo. E com uma quente e outa frevendo. Entonce continue ansim, que é pa vê se vosmicê sabe com quantos pau se faz um cangaia. MAS SE PRECISA SABER, O ANEL DO SERTÃO NÃO CABE NO SEU DEDO NEM A FORMAÇÃO DO SERTANEJO CABE NO SEU POUCO CONHECIMENTO. A NOSSA SABEDORIA É TÃO ÚTIL E VERDADEIRA QUE JAMAIS SE REBAIXARIA A TAMANHA MEDIOCRIDADE.

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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A CASA


*Rangel Alves da Costa


Olhar para traz e sentir saudade de tudo. Apenas saber que há um caminho que não pode ser retornado. Nunca mais a ventania chegou esvoaçando as roupas no varal, derrubando o jarro com flores de plástico em cima da velha e rústica mesa, fazendo balançar a gaiola vazia de passarinho.
Nunca mais ventania para levantar saias nem espanar chapéus. Ela chega sim, faz seu percurso de todo entardecer, mas agora encontrando pela frente apenas a porta e a janela abertas, ecoando lá dentro como angustiosas palavras.
A casa, agora abandonada e esquecida no meio do tempo, e onde até a ventania sente saudade de outros idos, é a mesma moradia que outrora acolheu o destino de tantos e mais tantos que um dia avistaram sua malhada. Lar fincado na humildade, pois seus moradores  nunca passaram de simples sobreviventes nos escondidos sertanejos, nunca deixou de dar acolhida a todo viajante que por ali passava.
Num tempo de veredas abertas como estradas pelos sertões, e em cujos caminhos pedregosos e espinhentos a vida necessariamente tinha de passar, não havia um só caminhante ou viajante que não avistasse ao longe a moradia, não chegasse diante de sua cancela e não batesse à sua porta.
Ora, ali era passagem certeira para quem quisesse ir a qualquer lugar. Ou cortava aquelas veredas perigosas ou tinha de caminhar por dentro da mataria, dividindo o passo com todo tipo de bicho e dificuldade. Contudo, o mais perigoso era encontrar bandos de volantes ou de cangaceiros nos escondidos das pedras grandes.
Por isso mesmo que não havia outro jeito senão seguir pela estrada que passava diante da casa. E única moradia em mais de cinco quilômetros de lado a outro. Quase um oásis na aridez sertaneja e milagroso refúgio para todo aquele que batesse à porta implorando dois minutos de descanso, uma cuia d’água, uma xícara de café.
Vendedores ambulantes vindos das distâncias do mundo, quase perdidos em meio aquele desconhecido, ali chegavam cansados, famintos e desesperançados, implorando por tudo na vida que os donos da casa aceitassem receber dois cortes de pano de chita em troca de um prato de qualquer coisa e uma caneca de água de moringa.
Gente desconhecida, vaqueiros de outras paragens, viajantes a negócio, emissários de coronéis e poderosos, todos, indistintamente, enchiam os olhos de brilho depois da curva da estrada e da maravilhosa visão daquela casa. E só faltavam enlouquecer se sentiam pelo ar o cheiro forte do café torrado ou do cuscuzeiro espalhando aquele cheiro inebriante. E cuscuz de verdade, de milho ralado mesmo.
Foi nessa moradia que Lampião e seu bando se amoitaram, exaustos e famintos, certa feita. O Capitão, avistando umas cabeças de bode pastando ao redor, mandou que derrubasse um e depois do almoço servido dissesse quanto era a conta, pois tinha prazer em retribuir quem lhe servia em momento de tão grande precisão.
E foi nessa ocasião que se deu a conhecida história da reclamação de um dos cangaceiros acerca da comida sem sal e a ação exemplar levada a efeito pelo Capitão. Faminto como estava, mais de dois dias sem comer nada que prestasse, e o cabra ainda se achou no direito de dizer que a carne de bode estava sem sal.
Então Lampião chamou o dono da casa e perguntou-lhe se ainda tinha sal na despensa. E homem voltou da cozinha trazendo um pacote quase cheio. Em seguida o mal agradecido foi chamado à presença do chefe e deste recebeu a ordem de se fartar de todo aquele sal colocado diante de suas fuças. E o homem se salgou todinho por dentro. E sem poder reclamar um tantinho assim.
Muitas outras histórias se passaram desde a cancela daquela casa. Pela estrada e seus viajantes chegavam as notícias, as encomendas e as surpresas. Sabiam das guerras quando estas nem mais existiam; tomavam conhecimento de mortes depois que ninguém pranteava mais o falecido; viviam mais das notícias do vento do que mesmo da realidade existente muito além.
O último visitante foi um caixeiro viajante. O almofadinha ultrapassou a cancela já na boca da noite, mas já na manhã seguinte nenhum outro viajante, por mais que batesse à porta ou à janela, conseguiu mais matar sua sede ou descer do animal para um descanso. Logo ao alvorecer, por motivos que até hoje ninguém sabe, a casa foi fechada de vez.
Até hoje, muitos anos depois, os sertanejos se controvertem acerca do que realmente aconteceu com a família. Uns asseveram que nunca saíram de lá; se trancaram para sempre até não restar mais ninguém. Outros afirmam que seguiram estrada adiante em busca de dias melhores, vez que a seca naquela época não mais permitia ter água na moringa para oferecer a quem por ali passasse.
A verdade é que a casa, agora quase caindo aos pedaços, continua por lá contando sua história. Ou histórias de tempos idos. E quem quiser saber de tudo pergunte ao vento. Somente ele, que tanto conversa e murmureja lá dentro, sabe de tudo.


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Lá no meu sertão...



Comitiva de Poço Redondo/SE, no Cariri Cangaço Exu 2017






Em silêncio chorei (Poesia)


Em silêncio chorei


Não queria chorar
mas chorei
sem pranto
sem lágrima
chorei

a flecha no peito
a dor lancinante
o grito e o choro
em silêncio
chorei.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - palavras


*Rangel Alves da Costa


PALAVRAS - Mesmo sendo um simples vaga-lume, ainda assim tenho luz própria. O poder nunca me jogou holofotes para que eu apareça. Quando abro a porta, caminho com meus próprios passos, não preciso nem aceito ser guiado nem forçado a ir. Toda vez que olharem para mim, sempre enxergarão apenas o que eu já era, nenhuma outra feição forjada apenas no momento. A palavra que tinha antes eu mantenho agora. O abraço que eu dava antes continuou abraçando cada vez mais forte. Vi caravanas passando e cachorros latindo. Vi fortalezas se transformarem em ruínas. Vi quem estava embaixo ser levado ao alto sem precisar de escadas para subir. Vi a beleza do vaga-lume - que sou - continuar brilhando quando acaba o gás das poderosas lamparinas. Meninos, eu vi! Vaidade das vaidades, eis que tudo vaidade! Não há sabor melhor que comer na cuia se o alimento veio do sacrifício. Um velho poeta me disse e eu ainda guardo como lição: Pensam que são revoadas, mas são frágeis passarinhos, e passarão! Enquanto isso ame a sua lua e o seu sol, a sua porta aberta e o amanhecer de cada dia. Eles não sabem o que é isso. O sublime e o singelo não são avistados por todos. É preciso ter coração. Ou como disse aquele Pequeno Príncipe: O essencial é invisível aos olhos, e só se pode ver com o coração!


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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

UM VELHO CARRO-DE-BOIS NA ESTRADA DA MEMÓRIA


*Rangel Alves da Costa


Lá vem o velho carro-de-bois. Seu rangido lento, seu canto dolente, seu remoer arrastado por cima do estradão, já não deixa duvidar que lá vem o carro-de-bois. Na curva do caminho, tendo à frente os bois na canga, lá vem o velho transporte sertanejo. Logo surgirá por inteiro. Grande, imenso, tomando toda a estrada, ele vem rodando sem pressa.
Defronte seu casebre, casinha de cipó e barro nas distâncias do mundo, o velho sertanejo revive tudo isso na memória. Aperta os olhos, sente um gemido por dentro, mas não vai chorar. Já não chora mais. As lágrimas que descessem desembocam e correm por dentro e somem. Na face apenas a tez da agonia que a memória traz perante a recordação dos tempos idos.
O carro-de-bois se aproxima cada vez mais. Já dá para avistar as feições dois bois que carregam o carro. Um de pelo amarelado com pintas pretas, carnudo, sedoso, de olhos quase fechados pelo esforço do peso e da viagem. Outro em tom mais marrom, de um amarronzado claro, forte igual ao outro, parecendo até mais novo. Estes vão à frente e com dois mais atrás. Um de pelo alaranjado, puxando a cor do barro da terra, e ainda outro esbranquiçado. Todos cabisbaixos pela dureza imposta aos seus pescoços, lombos e passos. Um sofrimento danado aos bichos.
O velho sertanejo ajeita o chapéu de couro, em seguida lança mão de um cigarro de palha e o coloca pendurado no canto da boca. Não acende no mesmo instante. Seu pensamento está longe, sua face enrugada de tempo e de sol não nega. Abre mais os olhos e mira ao longe da estrada. Tem certeza que ouve e avista o carro-de-bois, tem certeza que já vê o velho carro sertanejo se aproximando, assim como noutros tempos fazia. Só que o carreiro era ele. Era ele que conduzia o transporte matuto pelas lonjuras sertanejas até retornar pela mesma estrada, entrar pela mesma curva e por ali despontar para o descanso da luta.
Todo carro-de-bois tem um canto triste, sofrido, agonizante. O toque pesado e firme da madeira no rolamento vai provocando um rasgado, uma fricção calorenta e gemida, um arrasto cortante que se transforma em verdadeiro gemido. Quanto mais a estrada é íngreme, esburacada, com pontas miúdas de pedras ou pedrinhas soltas, mais o velho transporte parece se arrastar como algo agonizante. Dependendo do peso, se em cima madeira ou sacos de milho ou feijão, o canto pranteado vai se tornando ainda mais aflitivo, como se os animais não fossem conseguir levar adiante aquela sina de lento e pesado sofrimento.
O velho sertanejo se esforça para levantar. Precisa ir um pouco adiante para saber se tudo não passa de ilusão. Esforça-se, mas recua pelo pensamento que lhe toma por inteiro. A memória coloca à sua frente o que jamais pensaria avistar novamente. Ele ainda moço, ainda na força e na disposição da luta. Vai chamando um boi e outro, Pintado, Flor da Serra, Mimoso e Lua Dourada, e vai perfilando adiante do carro-de-bois. Em cada um sua canga, seu silêncio, sua cabeça já abaixada. Em seguida vai colocando em cima do carro dois sacos de farelos e dois cestos de palma. Precisa fazer a entrega mais adiante, ao compadre que já espera a encomenda. Então lança mão da vara do chicote longo de couro cru e da vara de ferrão afiado e começa a viagem.
Os olhos do velho estão fechados, apertados, molhados por dentro e deixando cair um filete de água pelas dobras da face. O carro-de-bois se aproxima cada vez mais. Já passa pela malhada do casebre, rente ao juazeiro de sombra grande, inteiramente diante da cadeira onde o homem do sertão amarga sua dor na memória. Ao abrir os olhos, já não é mais aquele carreiro à frente dos bois, levando na mesa do carro os sacos de farelo e os cestos de palma, mas aquele retornado de outras viagens e agora, tomado de cansaço pelas idas e vinda do tempo, apenas avista passado e presente diante de si. E o mais espantoso ainda, coisa de não acreditar mesmo, é que o carreiro conduzindo aquele carro agora avistado não é outro senão ele mesmo. E com estava naquele momento, apenas um velho.
O velho não acredita no que vê. Não pode acreditar que ali esteja um carro-de-bois, com aqueles seus bois de antigamente, e nem que aquele carreiro possa ser ele mesmo. Faz o maior esforço do mundo e consegue se levantar. Espantando, de feição indefinida na tristeza e na alegria, sai como que tateando em direção ao carro logo adiante. Tudo está ali, só um passo mais, só um tiquinho mais de caminhada, e por isso faz de tudo para apressar o passo. Mas nunca chega. Nunca alcança o velho carro-de-bois.
Um chamado de dentro de casa o desperta daquele sonho. Alguém diz que o cuscuz já tá pronto. Como demora, a esposa segue até onde está e o encontra chorando. Pergunta o que foi e ele apenas pergunta se ela está ouvindo o rangido do carro-de-bois que acabou de entrar na curva da estrada. Nas curvas da memória.


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