SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 22 de outubro de 2017

TÔ CHEIO!


*Rangel Alves da Costa


Tô cheio de tudo. E cheio já transbordado, já derramado e entornado pelas beiradas. Cheio demais das hipocrisias, das falsidades, das covardias. Tô cheio das arrogâncias e das brutalidades verbais, das barbáries e das violências carnais, das truculências e dos despreparos a cada passo e a cada encontro. Tô cheio do mal cheiro das togas, dos ternos e dos paletós, das gravatas e dos paletós, dos anéis dourados e dos títulos, honrarias e ostentações que nada dignificam nem significam. Tô cheio de tudo isso.
Tô cheio das sentenças viciadas, dos julgamentos imparciais, das injustiças praticadas. Cheios de ter a lei aviltada e a ilegalidade prosperando, cheio da cegueira judicial e do olho aberto demais para réus apadrinhados. Tô cheio da jurisprudência criada pelo absurdo, onde os códigos e as leis são manipulados em proveito desonroso. Cheio de livres convencimentos estapafúrdios e de apreciação de provas ao arbítrio da escolha feita, de tendeciosimos explícitos e das decisões vergonhosas. Tô cheio dos formalismos externos e dos lamaçais de gabinetes. Tô cheio de tudo isso.
Tô cheio do preço, do valor, da cobrança. Cheio de ter de todo dia suportar o aumento de tudo e apenas de ter de suportar por causa da sobrevivência, da fome, da doença, da precisão. Por causa da pobreza sempre vitimada pelas canetas algozes. Tô cheio das roubalheiras, das compras de votos, dos cheques parlamentares, das benesses brasilianas, que depois se revertem em sofrimento à população. Cheio desse esvaziamento do povo, principalmente das classes mais empobrecidas, para colocar nos cofres públicos o dinheiro que eles mesmos roubaram. Tô cheio de tudo isso.
Tô cheio de denúncias e dos esvaziamentos das denúncias, do nada que dá as denúncias, das encenações feitas perante o circo do povo. Cheio dos escândalos rotineiros, das manchetes podres de cada dia, das notícias que já chegam em fedentina. Cheio da desonra brasileira, da vergonhosa política brasileira, da escabrosa ética dos poderes, das invirtudes que prosperam pelos planaltos. Cheio das mentiras negando o inegável, cheio dos lamaçais sob os pés e dos perfumes derramados para dizer das nobrezas. Cheio dos discursos hipócritas, mentirosos, deslavados, como se as inocências fossem características políticas. Tô cheio de tudo isso.
Tô cheio desses prefeitos que gastaram milhões para serem eleitos, conheciam a situação financeira do país, do estado e do município, e agora vivem choramingando nas emissoras de rádio, nos jornais, nos discursos, perante o povo. Tô cheio desses prefeitos que quanto mais choram mais enriquecem, mais esbanjam poder, mais fazem gastos exorbitantes. Cheio desses prefeitos que continuam em palanques depois da eleição e fazem das prefeituras seus feitos e nos seus latifúndios beneficiam apenas aqueles de seus grupos políticos. Cheio dessas gestões que administram para partidários, apadrinhados e bajuladores, e não para o município e sua população. Tô cheio de tudo isso.
Tô cheio de uma classe que se diz popular e que faz das poucas letras e do pouco conhecimento educacional uma forma de comprovar sua alfabetização também política. Cheio de um povo cujas escolhas se dão pela cegueira política, pelo fanatismo injustificado. Tô cheio de uma população eleitora que nega os fatos e as provas e prefere aplaudir corruptos e condenados. Cheio, transbordantemente cheio, desse religioso político que insiste em colocar nos altares aqueles que deveriam estar na cadeia. Tô cheio de tudo isso.
Tô cheio do dodói desse povo que mete o pau em político e depois se ajoelha na boca da urna. Tô cheio desse povo que critica e lasca o pau na política e nos políticos e depois fica caladinho se um vintém lhe é jogado na cara. Tô cheio desse que diz que o mundo se acabou por causa da votação de Aécio, que diz que o Congresso é um valhacouto, mas depois silencia em subserviência. Tô cheio desses contestadores de meia tigela que só tem fogo num momento e no outro apenas o esquecimento. Tô cheio desses que se comprazem em bajular até quando o pires está cheio, mas depois cospem no chão para o seu antigo bonzinho cair. Tô cheio desses que se vendem por miséria e se prostituem nas redes sociais em defesa de políticos e da desavergonhada politicagem. Tô cheio da crítica pela crítica e da discórdia sem fundamento. Tô cheio da bajulação, do baba-ovismo, do descarado puxa-saquismo.
Tô cheio de ler que ninguém deve votar mais em ninguém e mais adiante saber que o fanatismo pago falou mais alto e roubou a consciência e a memória. Tô cheio de endeusamentos e açoitamentos, quando todo mundo sabe que político só é bom para ele próprio e aqueles de seu conluio. Tô cheio de analfabetos políticos, de analfabetos da razão, de analfabetos da memória. Tô cheio de quem não tem o que fazer e escreve coisas desse tipo para servir de coisa nenhuma, pois o que vale mesmo é a besteira pela idiotice. No mundo das incoerências, o valor das coisas está no seu desvalor.


Escritor
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Lá no meu sertão...


Nas beiradas de Bonsucesso, povoação sertaneja de Poço Redondo/SE



Noite noturna (Poesia)


Noite noturna


Noite noturna
é solidão
pois além de noite
é de negra escuridão

noite noturna
é solidão
pois além do breu
é de cor da desolação

noite noturna
é solidão
tão sombria agonia
que anoitece o coração.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – como noutros tempos


*Rangel Alves da Costa


Domingo cedinho, ainda escurecido. Acordei no sertão saudoso demais, relembrando aquele outro sertão. Um Poço Redondo do passado, de outros idos, de outros tempos. E fiquei imaginando que mais tarde não ouviria meu pai Alcino levantar e logo colocar Tonico e Tinoco na radiola. “Nestes versos tão singelos, minha bela, meu amor, pra você quero contar o meu sofrer e a minha dor. Eu sou que nem sabiá quando canta é só tristeza desde o galho onde ele está. Nesta viola eu canto e gemo de verdade, cada toada representa uma saudade...”. Uma Tristeza do Jeca que me chega ainda mais entristecida. Quanta saudade de tudo. E depois, após Zico e Zeca, Liu e Léu, Pedro Bento e Zé da Estrada, Cascatinha e Inhana, Dino Franco e Mouraí, dentre outros do cancioneiro caipira, avistar Seu Alcino saindo pelas ruas arrastando havaianas. Do muito de tudo, muita gente se esquece. Mas eu não. Ontem mesmo, sábado, ao entardecer, foi como ainda estivesse ouvindo seu Sertão, Viola e Amor pela Rádio Xingó. “Alô, alô Alcino Alves Costa, quem vos fala é Dino Franco. A seguir vou cantar um cateretê de nossa autoria intitulado Sertão, viola e amor... No Nordeste brasileiro uma onda se espalhou, a voz da Rádio Xingó com seu apresentador. Foi uma benção divina a um povo sofredor, o violeiro cantando sertão, viola e amor...”. O mundo pode esquecer. Eu não.




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sábado, 21 de outubro de 2017

AINDA A FESTA DA MENINA NUA


*Rangel Alves da Costa


Alguns sinais anunciavam a festa da menina nua. O vento começava a soprar diferente e de modo mais apressado, as plantas farfalhavam murmurando, um bicho corria daqui e dali, a natureza ao redor ficava mais perfumada, o tempo parecia preguiçoso demais pra passar. E olhos passeavam pelos arredores.
E quando ela abria a porta de casa, começava caminhar pela rua e virar no beco do riachinho, então tudo parecia que ia desandar de vez. Com passos lentos, formosura no andar, corpo tão singelo que parecia uma flor, ela seguia sorrindo bonito, balançando a flor no cabelo e encantando aquele momento da vida.
E o lugar, cidadezinha pacata, de pessoas empobrecidas e lutadoras, nas suas janelas e calçadas de todo dia, parecia completamente transformado quando ela saía de casa ao entardecer e seguia para tomar seu banho no riachinho. Tomava outro em casa, assim que retornava, mas parecia promessa pra ser assim.
O banho era de roupa mesmo. Nem pensar em ficar na pele de nascimento diante dos tantos olhares mirando seu corpo. E não apenas os olhos dos meninos danados, dos molecotes traquinas, mas também dos bichos, das plantas,  das pedras, da própria água. Tudo tinha olhar espichado pra bela flor.
Ora, dizem que a beleza quando se expressa em toda sua pujança faz a pedra ativar seus sentidos. E certamente não haveria gente ou qualquer outro elemento da natureza que não se encantasse quando ela surgia, passava caminhando, mostrava suas formas divinais. E quase nua então, tomando banho então, com aquele vestidinho fino rente ao corpo molhado então.
Linda, linda, era a menina. Menina no modo de dizer, mas mocinha cheirando a leite, como se dizia por lá, nas distâncias do fim do mundo onde vivia. Na idade da espiga de milho rompendo da palha, da fruta amadurecendo, do café coado tomando cheiro e sabor. O nome dela? Ah, o nome dela sei não. Flor. Talvez flor. Outro nome não assentaria.
Mas a meninada a chamava de outro jeito. Brisa para uns, Mimosa para outros, ou simplesmente Linda Donzela. Ela não se importava com nada disso, pelo contrário. Respondia com um leve sorriso de qualquer jeito, deixando o mundo ainda mais feliz e apaixonado. Foi por isso que silenciosamente a pedra a tinha por Anjo.
Ao chegar sempre sozinha na beirada do riachinho, a menina tirava o chinelo, guardava a flor do cabelo e dava uns cinco passos até alcançar as águas. Abaixava-se, tocava a água com a mão direita, em seguida fazia o líquido se derramar pela testa e pela face. Estava benta e pronta para o seu banho.
Após colocar o pé direito, arremessava-se de corpo inteiro. Mergulhava solenemente, fazia a água borbulhar de prazer. E ao levantar, com pele e pano numa forma só, parecia estar completamente nua. E realmente nua era como os olhos ao redor a avistavam. O passarinho chegava até a ponta da pedra mais próxima, uma folha chegava no vento e se deixava cair bem ao lado.
Os meninos quase caíam dos galhos das árvores aonde subiam para se esconder e presenciar a deusa nua e molhada. Alguns molecotes disputavam com os bichos e as próprias pedras a melhor visão que pudessem ter. E coisa incrível acontecia, pois as águas paravam de correr para se avolumar e fazer festa ao redor da mocinha.
Mas um dia ela mergulhou e ficou mais tempo que o costume. Os olhares, preocupados, cresceram, só faltaram correr até o ponto borbulhante na água. Palavras de espanto e temor ficaram forçosamente silenciadas; tudo sem saber o que havia acontecido. E de repente ela surgiu. E ao levantar estava completamente nua. Em pelo. E em pétala.
Um menino despencou de cima da árvore nesse momento. Uma algazarra imensa na mataria. As águas pareciam em turbilhão. E impossível descrever quando ela, assim todo nua, deitou numa pedra e assim ficou até o surgir da lua.
Foi o dia que a lua abriu caminho no por do sol e brilhou mais cedo. Apaixonada. Também. E depois a menina nua deixou a roupa na beirada do riachinho e completamente nua seguiu seu caminho de volta. Uma cena indescritível. A coisa mais linda que já se viu.
Sobre o seu corpo ainda molhado, a cor dourada da lua. Os olhos que viram não acreditaram. E os que tinham certeza que era ela, eis que acabaram perdendo o juízo. Assim a menina nua. Ou o encantamento da menina nua.


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Lá no meu sertão...


Talvez um dia sejamos assim. Quem deseja ser tão esquecido, renegado, abandonado?




Coração em fúria (Poesia)


Coração em fúria


Em fúria fica o coração
se depois de se entregar
amarga o dissabor
e chora
e sofre
a dor

em fúria fica o coração
se depois de tanto amar
vem a solidão
e agoniza
e grita
a aflição

assim a dor de um coração
se depois da alegria
apenas o padecer
e quer fugir
e quer sumir
morrer.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – Lourenço Régis, a jovem sabedoria


*Rangel Alves da Costa


Tenho no jovem amigo Lourenço um verdadeiro sábio, um filósofo, alguém cujo conhecimento talvez estivesse extrapolado na sua idade. Poucas vezes já tive o prazer de dialogar com um jovem de tamanha inteligência, agudeza no pensamento, dicção lógica das ideias. Sua fruição intelectual é tamanha que vai da filosofia à sociologia sem fazer rodeios, vai da antropologia à bioética como num passeio. Contudo, não deixa de ser complicado dialogar com Lourenço. Ou a pessoa entende sobre o que ele fala ou fica simplesmente voando. Não somente isso, pois mesmo que saiba ainda assim corre-se o risco de adentrar em noções, conceitos e teorias, tão profundas que nunca se chega a consenso. É a metafísica na sua interminável busca de explicações. É o conhecimento cavando e descavando à cata de percepções outras até mesmo ininteligíveis. Lourenço, pois, é de rara inteligência, de uma sabedoria que nos alegra o espírito somente em ouvi-lo. Mas cuidado: não será difícil que visualizem nele uma certa loucura, uma dose de insanidade intelectual. Seu conhecimento é tão vasto e tão profundo para um jovem que muitas vezes não há como não dizer que perdeu seu juízo nos livros. Já disse a ele para tomar cuidado enquanto ensina (também professor), vez que seu aluno deve aprender e não enlouquecer. Tenho o maior prazer de ter esse moço Lourenço como meu amigo. Além de prazer um orgulho sem fim, pois ele é filho de Vera Lúcia Vital, pois ele é neto do saudoso Wilson e de Dona Loló, e, portanto, também um poço-redondense. Abraço, querido Lourenço.



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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A CANÇÃO DE UM POVO


*Rangel Alves da Costa


Muita gente não consegue disfarçar a dor e o sofrimento. Entrega-se ao padecimento quando está triste, chora rios e mares quando vem a aflição. Contudo, pessoas existem que não deixam transparecer a agonia de jeito nenhum. Mesmo que sofram por dentro, externamente se mostram encorajadas e até festivas. Assim acontece com o povo africano, cujo sofrimento não consegue inibir seu canto e sua dança. E assim também no sertão, só que o canto sertanejo é de feição tristonha e coração apertado.
O sertão é verdadeiramente terra de contrastes, de contradições. E inexplicável, por vezes. Porém tudo compreensível para que assim aconteça. Diante das condições próprias do lugar, num misto de desolação e esperança, de secura e florada brotando nas cactáceas, também o sertanejo se ajusta ao instante, ainda que seja difícil entender porque o canto na boca quanto o olhar avista ao redor e só encontra tristeza.
Tantas vezes, com a panela vazia, com o pote já chegando ao barro do fundo, mesmo assim a guerreira sertaneja, de pano amarrado na cabeça e olhar tristonho, olha para o varal sem roupa e se põe a cantar:
“Quero uma ciranda sertaneja, quero cirandar no meu lugar. Já cirandei menina, já rodei debaixo do luar, e não é porque envelheci que vou deixar de cirandar. Traga uma lua pra mim, traga uma ciranda pra mim, hoje eu quero cirandar até o dia raiar...”.
Noutras vezes, talvez relembrando as histórias cangaceiras tão costumeiras por ali, fazendo moradia no sertão como o calango reinando por cima da terra quente, a velha senhora vai varrendo o chão de barro da casa de taipa e cantarolando:
“Acorda Maria Bonita, levanta vai fazer o café, que o dia já vem raiando e a polícia já está de pé. Se eu soubesse que chorando empato a sua viagem, meus olhos eram dois rios que não lhe davam passagem. Cabelos pretos anelados, olhos castanhos delicados, quem não ama a cor morena morre cego e não vê nada. Acorda Maria Bonita...”.
Descalça, caçando araçá amarelinho pelos arredores, de modo a se dar o prazer de saborear uma doçura naquela vastidão tão hostil, a menina sertaneja, de vestido de chita e fita no cabelo, se imagina numa roda de brincadeira entre amigas e cantando:
“Atirei o pau no preá, mas o preá não morreu. Todo mundo se admirou do buraco que o preá se meteu... Se essa nuvem se essa nuvem fosse minha, eu mandava, eu mandava ela chover, uma chuva, uma chuva forte assim, pra salvar o sertão e também a mim... Sou sertanejinha, sou sim meu bem, sou de palha de milho, sou sim meu bem, tenho cabelo de trança, tenho sim meu bem, e não sou e não sou mais criança...”.
Mesmo com seca de mais de ano, com tudo acinzentado, devastado, com mandacarus e xiquexiques encurvados e entristecidos, gado caindo de fome e tanque sem uma gota d’água, ainda assim os sertanejos se encontram para aboiar suas desventuras ao pé do balcão. E ecoam um aboio dolente:
“Ê, ê, ê, gado ô, eiá...Vaqueiro que fui pelo mundo atrás da bicharada perdida, galopei a vida num segundo sem pensar em despedida, mas hoje já velho e cansado, sem quem me ouça aboiar, sou cavalo atrofiado sem poder mais galopar. É com o coração despedaçado que me despeço do cantar, só pedindo ao meu Senhor para o sertão nunca calar o verso matuto aboiador. Ê, ê, ê, gado ô, eiá...”.
E pelas estradas espinhentas, sob o sopro calorento das tardes, as velhas beatas seguem em procissão pedindo a intercessão divina diante de tanto padecimento. Carregando a imagem de São José, o protetor dos sertanejos, levantam as vozes melodiosas numa reza esperançosa:
“São José do sertanejo, São José de todo o sertão, olho pra cima e não vejo sinal de chuva e trovão. Salvai esse povo sofrido, fazei chover nesse chão, alegria do povo oprimido e fazendo crescer plantação. São José irmão do nordestino, tão bom pai do meu Senhor, dai graças ao nosso destino, livrai-nos da desgraça e da dor”.
E assim vão levando a vida, passando os dias, entre cantos e lamentos, sempre com os olhos voltados para o horizonte. Mas quando chove, quando a esperança vem dos céus com a molhação, o que se ouve então é uma orquestra subindo da terra, despontando dos escondidos, ganhando voz na mataria, no bicho ainda restante, no barro que se desfaz. Todo o sertão, numa só cantoria de todas as bocas, visíveis e invisíveis, sente tomado pela mais bela canção:
“Quanta beleza vem do céu, se vai nossa vida ao léu. É a nuvem carregada, molhando telhado e estrada, encharcando a terra seca, vida nova de invernada. Chuva que vem de Deus, para os seus e para os meus, para encher panela e pote, de tudo a melhor sorte. Então deixa chover, chuvarar, chuvarecer, então deixa pingar pro sertão todo molhar. Se ontem comi da pedra, amanhã do que plantar...”.
E assim até que o maestro sol novamente levante sua batuta e faça calar tão singela cantiga. E depois somente a cantoria da vida, o canto do dia a dia, diante dos mesmos temores pela seca que logo virá. Mas é preciso cantar, é preciso rezar, pois alguém poderá ouvir essa voz.


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Lá no meu sertão...


A emoção por ter sido proclamado Conselheiro do Cariri Cangaço. E sem esquecer que meu pai Alcino Alves Costa havia sido Conselheiro nº 1.


A flor do mandacaru (Poesia)


A flor do mandacaru

Uma noite
uma lua
e uma flor

uma manhã
um sol
sem a flor

por que assim
bela flor
do mandacaru?

a flor que nasce
brilha na noite
e se vai na manhã

toda a beleza
de um instante
apenas

por que assim
linda flor
do mandacaru?

na existência
o tempo do viver
é flor do mandacaru.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - em frente ao espelho


*Rangel Alves da Costa


Os espelhos iludem, mas poucos disso se apercebem. A maioria utiliza o espelho apenas para fantasiar a beleza, encontrar qualidades, avistar bonitezas. “Oh como estou linda, como minha maquiagem está perfeita, como esse vestido possui um caimento perfeito...”, e assim por diante. Mas dificilmente para verdadeiramente se avistar na sua realidade, no seu corpo, na sua idade, na sua compleição física. Dificilmente alguém ouvirá de outro diante do espelho: “Eis as marcas do tempo. Agora vejo minha face marcada dos anos, com caminhos de rugas, com cabelos brancos, com o olhar mais tristonho e mais distante. Eis o meu eu agora, ilusões escondidas na fuga da idade, mas agora fielmente reveladas pelo espelho...”. Raramente alguém poderia agir assim. Mas o espelho é isso mesmo. Não para alimentar ilusões, não para criar situações de momento. O espelho deve ser visto como retrato de um instante. Sem ilusões, sem falsas percepções.

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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O CANGACEIRO


*Rangel Alves da Costa


Tinha apenas cinco anos de idade quando, de repente, ouviu um barulho do lado de fora do barraco onde sua família morava. E logo os gritos, a correria, o deus nos acuda. Seu pai estava morto a mando do coronel. Não quis vender a tirinha de terra que fazia confrontação ao latifúndio, então pagou com a vida.
“Desde o século XVIII, num Nordeste marcado pelos latifúndios, pelo mandonismo escravocrata e pela submissão do pobre homem da terra, a força de imposição do senhor se dava não só pela arregimentação à sua ordem daqueles fiéis serviçais como, e principalmente, pelo capanga, pelo jagunço e outros ferozes sanguinários. Era um mundo de violência, servilismo e mortes”.
Depois da morte do pai, sua família foi enxotada das vizinhas do latifúndio coronelista sem ter direito de levar sequer um embornal de quinquilharias. Daí em diante seu sofrimento só aumentou. Vivendo de favor em casebre levantado na terra dos outros, ainda criança passou a se submeter a verdadeira crueldades. Tinha que trabalhar feito homem feito, desde o amanhecer, debaixo do sol e da chuva, ora limpando mato com enxadeco ora se lanhando nos espinhos em busca de bicho desgarrado. Um dia não conseguiu encontrar a novilha e foi ameaçado pela chibata do feitor.
“As misérias tantas que se alastravam pelo Nordeste, ao lado dos descontentamentos de alguns pelas perseguições e opressões dos senhores donos do latifúndio e do mundo, foram semeando não só a desesperança como a discórdia. Até mesmo os malfeitores expulsos das terras coronelistas agora se viam sem serventia alguma. Ora, aquele mundo nordestino era seu, mas as condições de vida não, pois relegados à condição de vermes imprestáveis. E quando os ódios apimentaram os olhos em fúria, uma raça violenta já estava pronta para o combate”.
O meninote prometeu ao feitor a morte certa acaso aquela chibata caísse sobre seus ombros. Mas o troco recaiu sobre sua irmã, que foi estuprada e morta pelo mesmo covarde capataz. Sua mãe não suportou a dor e da vida despediu-se entre gritos espantosos. Não lhe restando mais nada, ele pegou a estrada e desandou pelo mundo. Já estava homem feito quando colocou a última mão de barro num casebre de beira de estrada. E ali arranchado depois de ter ganhado uma tarefa de terras de seu patrão. Quando este se mudou, então logo chegou forasteiro rodeado de capangas e se dizendo dono daquilo tudo.
“Os temerários, com sangue no olho e arma de todo lado, já não estão apenas sob as ordens do latifundiário, do poderoso. Agora estavam agrupados dentre eles mesmos, fazendo valer suas valentias não só pela paga do serviço como contra as tantas injustiças que faziam vítimas palmo a palmo daqueles sertões. Homens sem rumo e sem destino tomavam as estradas, rumavam pelos matos, aparecendo somente quando os reclamos sertanejos exigissem ou para espalhar o medo e o terror perante seus antigos algozes”.
O casebre se desfez ao chão como brinquedo de barro. Ele foi amarrado, foi açoitado e lanhado no corpo inteiro. Por três vezes teve a ponta da arma na sua testa. Fechou os olhos e se fez pronto para morrer. Até era melhor morrer do que passar por tamanha situação. Mas enquanto estava de olhos fechados, por dentro, com as forças que lhe restavam, jurava que se dali saísse com vida iria vingar cada gemido calado e cada grito silenciado. Iria ser cangaceiro, se prometeu.
“O século XVIII terminava e o XIX já despontava com chefes de grupos ou bandos reunidos com o nome de cangaceiros. Mas somente o século XX viu surgir o maior dos cangaceiros. Cangaceiro por carregar a canga da desvalia humana, por carregar nas costas o sofrimento das injustiças, por ter sobre seu corpo os fardos da opressão. Nomes como José Gomes Cabeleira, Lucas da Feira, Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Virgulino Lampião e Corisco, este o último chefe de bando. Homens destemidos, arregimentando outros homens, não em busca de motivações para a luta, mas para combater o mal que os poderes e poderosos já haviam disseminado pelos sertões”.
Então, ainda amarrado, com o sangue já secado das feridas abertas, ele viu um urubu se aproximar. Em seguida veio um gavião. Tudo carnicento. Teria seus olhos furados e seu corpo pinicado se num impulso de última força não tivesse conseguido se soltar da corda. Saiu rastejante e se escondeu na mata. Bebeu da água da folha e comeu a própria folha. Quando teve forças logo buscou tomar seu destino. Foi ser cangaceiro.
“Ninguém nasceu para ser cangaceiro. Ninguém cresceu para ser cangaceiro. Ninguém se tornou cangaceiro por achar maravilhosa aquela vida entre espinhos e carrascais, sob constante ameaça dos mosquetões. Foi o Estado e suas forças de poder que fizeram surgir o cangaço e o cangaceiro”. Inclusive ele.


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Lá no meu sertão...


Acaso eu encontre colaboradores, prometo que até o final do ano mandarei imprimir mil exemplares do livro abaixo para distribuir (gratuitamente) entre os meus conterrâneos de Poço Redondo. Constarão do livro somente histórias, causos, crônicas e memórias, sobre Poço Redondo e seus antigos e lendários personagens, bem como situações já tidas como lendárias na memória do povo. Muitos dos escritos já foram publicados aqui no Facebook, mas muitos outros ainda estão guardados como relíquias de um sertão que eu amo. E tenho pressa em publicar e distribuir. Quem desejar colaborar basta enviar mensagem, telefonar ou entrar em contato comigo pessoalmente. Toda a arrecadação será revertida no pagamento da gráfica.


Oi de casa! (Poesia)


Oi de casa!


Deixo-me entrar na sua casa
prometo não ir além da varanda
deixe-me sentar num banquinho
promete não lhe incomodar
deixe-me beber um copo d’água
prometo não pedir naco de pão
deixe-me adormecer um tiquinho
prometo que não vou demorar
deixe-me apenas repousar
prometo partir logo em seguida
deixe-me derrear o embornal
prometo que nada há de ruim
deixe-me ficar em silêncio
prometo a mudez e a quietude
deixe-me entristecer talvez
deixe-me a lágrima derramar
deixe-me assim tão estranho
e sem poder bem alto perguntar:

“não mais recorda de mim, minha mãe
não mais recorda do teu filho partido
nesse mundo de tristeza e sofrimento
e volta à casa em busca de uma abraço
tô com sede e com fome minha mãe
e preciso tanto repousar no teu colo!”.

Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - amando


*Rangel Alves da Costa


Sim, creio que estou aprendendo a amar. Mas outra forma de amor que não o carnal, do namoro ou da relação com outra pessoa. E sim o amor singelo, fraterno e verdadeiro. Até que eu quis amar daquela outra forma, amar de verdade uma mulher e a ela me dar e me doar de corpo e alma, porém não deu certo. Não sei se amo demais e os outros amo de menos, mas a verdade é que se torna muito difícil a doação sem compartilhamento na medida ou na justa retribuição. Por isso que agora decidi amar diferente. Amo a janela aberta ao amanhecer, amo o horizonte adiante, amo o canto passarinheiro. Amo a primeira xícara de café, amo o silêncio matinal, amo a chuva que cai. Amo o colibri e amo a borboleta, amo a flor e o velho banco de jardim adiante. Amo caminhar pelos canteiros e refletir sobre a vida em instantes assim. Amo amar assim. E até já encontrei uma namorada linda: a vida, a vida, a vida!

Escritor
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O VOO DO CARCARÁ NA ABERTURA DO CARIRI CANGAÇO FLORESTA 2017


*Rangel Alves da Costa


Quando, na noite de abertura do Cariri Cangaço Floresta 2017, a mestre de cerimônia Ana Gleide Souza Leal anunciou uma evolução com bailarinos, creio que denominada “O Voo do Carcará”, logo meu pensamento arribou céus acima para, pelas caatingas e carrascais ensolarados, avistar aquela ave tão emblemática e tão sertaneja.
Carcará, bicho carnicento, ave agourenta, bico de punhal afiado, rasgante em rasante, seu fio da mardade sem fim. Tu, devorador de agonias, devastador de sopros de vida, furador dos olhos de borregos, bezerrinhos e crias sem mais força de nada. Em rasante chega, matreiro, oculto, traiçoeiro feito a moléstia, dos escondidos além dispara com sua lâmina no bico. Fio da gota serena és tu marvado carcará!
Vai-te pra lá bicho dos quintos, assombramento que se regozija dos sofrimentos e das desvalias. Das secas fazendo o prato, das fraquezas estiradas fazendo sua gula. Sozinho faz sua guerra, tudo destrói, fura, pinica, faz a sangria, deixa a vida esvaída pelos campos esturricados. Que se imagine trazendo nas sombras o urubu, o gavião, a mãe-da-lua?
Mas ali na calçada do Batalhão, no espaço largo da cerimônia, apenas a poesia. E não haveria alegoria mais acertada que aquele voo do carcará. Ora o carcará é bicho com a mais acabada feição do sertão sofrido, do sertão padecente, do sertão chorando sua dor pelos esquecimentos das nuvens prenhes de chuvas. Ali era festa, ali era alegria, ali era comemoração, mas não se poderia esquecer aquele outro sertão. E o outro sertão estava ali no voo do carcará.
Dois bailarinos. Um rapaz e uma moça, dois belos sertanejos. Quando anunciados e chamados por Ana Gleide, os passos pela calçada até que ele se deitou. Ele deitou em posição dorsal, ela sentou-se sobre o seu peito e assim permaneceram alguns instantes. Quando a voz de Zé Ramalho começou a ecoar, então a música Carcará (de João do Vale e José Cândido) abriu as porteiras daquela misteriosa arapuca. O carcará estava solto. Ou os carcarás estavam soltos. E voaram. E voaram. E fizeram da noite florestana, ante uma plateia tomada de encantamento, um ensolarado céu nordestino, ainda que em noite de lua e flor.
Na evolução dos bailarinos, seguindo de canto a outro, ora se esgueirando ora se fartando de avidez, o carcará procurando o melhor momento para alçar seu voo. E que coisa mais linda: o voo do carcará. Dois carcarás em pleno voo na noite florestana. Ele, o bailarino, rente ao chão sertanejo, e ela, a bailarina, planando pelo céu sertanejo. Braços abertos, asas abertas, um horizonte à frente, e o voo. Eles magistralmente voaram em simbolismo, maravilhosamente voaram na fantasia por todos conhecida. E temida.
Os sertões aplaudiram aqueles carcarás da noite florestana. Mas o sertanejo puxou na memória outros significados menos festivos. O bicho carcará em voo rasante, voraz, veloz, medonho, cego, porém certeiro, em direção à cria já em seu último suspiro. Fura os olhos do bicho, do resto de luz faz jorrar o sangue, do sopro de vida faz surgir o último suspiro. E depois futuca mais, bica, apunhala, retorce até desnudar as vísceras. Mas o sertanejo não estava ali para entristecer, somente para aplaudir aquela magnífica apresentação.
Ainda os vejo em voo, voando, voando. Ainda ouço o som vindo naquela direção: “Carcará lá no sertão é um bicho que avoa que nem avião. É um pássaro malvado, tem o bico volteado que nem gavião. Carcará quando vê roça queimada sai voando, cantando, Carcará vai fazer sua caçada. Carcará come inté cobra queimada. Quando chega o tempo da invernada o sertão não tem mais roça queimada Carcará mesmo assim num passa fome. Os burrego que nasce na baixada Carcará pega, mata e come. Carcará num vai morrer de fome. Carcará, mais coragem do que home. Carcará...”.
Ainda voa. Pelos sertões ainda voa. E na noite florestana deu um voo tão magnífico que ainda relembro o bater de suas asas. Carcará.


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Lá no meu sertão...


Ao lado de autoridades na noite de abertura do Cariri Cangaço Floresta 2017. Avista-se o prefeito de Floresta Ricardo Ferraz e sua esposa, o prefeito de Poço Redondo Júnior Chagas, o presidente da Câmara Municipal Beto Souza, além do curador do Cariri Cangaço Manoel Severo.





O poeta (Poesia)


O poeta


Não sou o poeta
de uma poesia qualquer
sou aquele poeta
de verso dosado em colher
de bula e de receita
como o grão a grão do café

não sou o poeta
de lápis e caderno à mão
sou o poeta do instante
no sopro vindo do coração
transformando a ideia
em muito além de refrão

por isso que não sou lido
no verso desconhecido
por isso não sou poeta
sou um torto em linha reta
que apenas rabisca
o seu eu
poesia.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - Getulina Quixabeira


*Rangel Alves da Costa


Getulina Quixabeira, eita muié arretada, nunca se viu no sertão arguém mais desarvorada, dando no em pingo d’água fazendo do sol caçoada. Getulina Quixabeira, nascida em noite de breu, o vigário da cidade logo a fronte lhe benzeu, já prevendo seu futuro muito cristão e mais ateu. Eita fia da gota a muié, comia sem meter a cuié, ainda fumaçando na boca deitava o café, adespois punha nas ventas um punhado de rapé. Vestia vestido não, gostava de calça e calção, rasgava toda blusinha e se metia em jaquetão, dizia nada temer nem mesmo o tal Lampião. E um dia aresolveu ao cangaço se juntar, entrou na caatinga afoita e o bando foi caçar, queria porque queria a vida cangaceirar. Lampião desconfiou do jeito da Quixabeira, mais parecia um homem pro riba e pela beira, mas ela nem se importava quando ouvia uma besteira. Mas então aconteceu o que não havia de pensar, pois a logo a Quixabeira se deixou apaixonar por um tal de Cabeleira, de olhar tão afiado que nem um punhal de feira. A muié se viu em agonia, não era isso que previa, aquele amor repentino do seu destino fugia. Então uma noite de breu no mundo se escafedeu, no meio do mundo se meteu e na história desapareceu. E sumiu a Quixabeira pelos sertões e além, hoje a sua história vale um cordel de vintém, mas valia muito mais se dessem o valor que ela tem.

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terça-feira, 17 de outubro de 2017

CARIRI CANGAÇO FLORESTA 2017 - O QUE VI E VIVI


*Rangel Alves da Costa


Com a razão o ditado popular: depois do sacrifício o prazer da conquista. Assim o esforço para participar do último Cariri Cangaço Floresta (Centenário de Nazaré do Pico) e os belos e doces frutos colhidos durante e após o evento. E a primeira impressão que ficou é que mesmo a pé, cortando as desolações das distâncias, o destino não poderia ser outro senão alcançar a Terra dos Tamarindos, a Floresta do Navio, a bela Floresta.
Somente os grandes propósitos da vida nos animam a vencer as dificuldades. Grande parte da comitiva de Poço Redondo a todo instante se mostrava indecisa sobre a viagem. Mas uma parte jamais fraquejou no seu intento de participar de mais uma edição do Cariri Cangaço. E assim como fizemos nos caminhos para Exu, seguimos resolutos ao encontro da história, da memória, da cultura, das lições, dos amigos, da terra florestana e de sua gente. Seguimos.
Após Sergipe, atravessando a ponte sobre o Velho Chico, as terras das Alagoas. Piranhas, Olho D’água, Delmiro. Rumo ao Pernambuco. Os sertões pernambucanos se mostram imensos, distantes demais, até mesmo desoladores. Quilômetros sem fim pelas desertas vastidões. Sobre a terra seca, de margem a margem da estrada de asfalto bom, apenas a secura, a solidão da vegetação cactácea, um mundo hostil e desabitado. Ora, não se avistava nenhum pé de pessoa, nenhum bicho cortando a estrada, nenhum casebre triste de beira de estrada. Nada. Que mundo é este onde estamos? Intimamente indaguei.
Aquele mundo tão ermo e tão hostil nada mais era, contudo, que o autêntico mundo sertanejo. E já naqueles desolados arredores, onde se parecia distante de tudo, ainda os passos dos cangaceiros, das volantes, das alpercatas da história. Aqueles mandacarus, aqueles xiquexiques, pontas de espinhos, pedras graúdas e miúdas, serrotes e planuras ressequidas, um dia testemunharam os suores da luta, os respingos de sangue, as emboscadas, as guerras sem fim no meio do mundo. Eis o cenário descortinando o que mais tarde se teria pela voz da história, através de seus estudiosos e pesquisadores.
Atravessamos o mundo e chegamos a outro mundo. Descobriu-se, então, que o município de Floresta não era longe, que a cidade de Floresta não era longe, e que todo aquele anseio se devia a vontade de chegar, de pisar nas terras florestanas e conhecer mais de perto aquele chão de testemunhos sangrentos e de histórias tão grandiosas. E ali não estávamos para desencavar outros passados senão aqueles que nos guiava: a Floresta combatente nos tempos cangaceiros, a Floresta tomada de orgulho no encalço dos bandoleiros das caatingas, a Floresta dos destemidos nazarenos e seus menestréis incansáveis. A Floresta da pujante história!
Floresta é um livro aberto, a cada passo, em cada canto, desde a sede aos caminhos outros e mais distantes. E quantas relíquias nas páginas deste majestoso livro. Numa página a imponência do antigo Batalhão, noutra a Confraria do Rosário, noutra a Igreja do Rosário, a Catedral, o Memorial Conceição Cahú, o Espaço João Boaiadeiro, a Budega, as praças e ruas com seus tamarineiros despejando versos, as casas e prédios de fachadas coloridas e preservadas em beleza sem igual. Pelos arredores, a Fazenda Favela e seu fogo famoso entre volantes e cangaceiros. E o que dizer de Nazaré do Pico?
Ainda na estrada avistei um pico de vulcão adormecido. Estava chegando a Nazaré. E realmente agora um pico de vulcão adormecido, mas que no passado soltou vorazes labaredas pelas mãos de seus nazarenos, incansáveis perseguidores de Lampião e seu bando. Uma raça de titãs aquela de Nazaré. Paisanos que ingressaram nas volantes pelo desejo de perseguição ao rei cangaceiro e seu bando. Homens da estirpe de Mané Neto, Manoel Flor (imortalizado por sua filha Marilourdes Ferraz na obra O Canto do Acauã),  Odilon Flor, David Jurubeba, Aureliano Flor e do tenente João Gomes de Lira, dentre tantos outros.
Ainda em Nazaré, a singela igreja de Nossa Senhora da Saúde defronte à praça que leva o nome de Antônio Gomes Jurubeba, construtor da então capela. Um pouco mais adiante, a visita ao Poço de Negro e seu pé de Umbu-Cajá, localidade onde a família de Lampião se arranchou num tempo de fugas e perseguições. Nos escombros ainda as marcas daquelas presenças tão primorosas ao ofício do historiador.
Muito mais eu haveria de relatar, mas o tempo é breve e a saudade de Floresta me faz mais entristecido. Já não sou mais o mesmo depois dessa visita. Meus olhos jamais avistaram tamanha abnegação de um povo pela preservação de sua história. Fui além das fachadas, adentrei em corredores e cômodos, senti e vivenciei os relatos. Quanta maravilha. E de lá não só Manoel Severo saiu como cidadão florestano como eu conselheiro do Cariri Cangaço.
Mas hoje mesmo a Floresta retornei. Em pensamento e saudade, por isso ela está aqui, ela em mim permanece.


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Lá no meu sertão...


Pai e filho, destinos...



Depois de tudo (Poesia)


Depois de tudo


Um dia eu tive
o teu abraço
em laço

um dia senti
no teu regaço
o aço

findou-se o aço
o aço
aço

partiu-se o laço
o laço
laço

e sigo sozinho
e passo
passo.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - se eu não fosse eu


*Rangel Alves da Costa


Se eu não fosse eu o que eu seria? Talvez não haja uma resposta para tal indagação. Assim por que se eu não fosse eu nada seria. Mas acaso eu tivesse que nascer para ser outro e não eu, talvez eu sequer nascesse, pois não cabe outro eu em qualquer outro que não seja eu. Difícil imaginar outro João naquele que nasceu para ser João. Difícil imaginar um Cristo em outro que não nasceu para ser Jesus. Difícil imaginar um José naquele que tudo tem do José que é. Desse modo, impensável outra existência que fosse eu noutra pessoa que não fosse eu. Sou caracteristicamente tão próprio que nada se aproxima de mim. Meus hábitos e costumes não caberiam em mais ninguém. Nenhum outro caberia dentro do meu ser que não fosse eu mesmo. E descontente eu seria noutra vida qualquer, apenas pela ideia de que alguém por aqui passou com a ideia de ser eu. Mas não me aborreceria se nascesse como pássaro, como bicho do mato, como pedra ou como pedaço de vento. Esquecido, relegado, mas de poderosa existência.

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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

MINHA AVÓ NA CALÇADA


*Rangel Alves da Costa


Os anos correm com o fôlego do tempo e quando olhamos para trás quase já não nos avistamos mais. Sentimos nosso envelhecimento pelos outros que nascem e que crescem e não pelas marcas e rugas que passamos a carregar. Nossas marcas de tempo ficam como ocultas e sequer percebemos o quanto já caminhamos na estrada.
De repente olhamos para um rapazinho ou uma mocinha e nos espantamos de que aquela vida é filho ou filha de um amigo de infância. Um jovem que passa, uma moça que passa, então a surpresa de sua filiação. Já? Então nos perguntamos. Mas ali também a nossa idade, pois enquanto eles nascem, crescem e se tornam adultos, em nós apenas os passos do envelhecimento.
E outros e mais outros vão surgindo e em nós o envelhecimento ainda maior. Contudo, ainda sem atentarmos o quanto os espelhos tentam a todo instante nos dizer e nos alertar. Mas não há outra verdade. Um percurso aonde a flor viçosa e bela vai perdendo seu viço e perfume até pender de vez no jardim da existência.
Mas será que nunca nos reconhecemos envelhecendo senão pelos outros? Será que nunca ouvimos nem sentimos as verdades refletidas no espelho? Através da memória há esse forçoso reconhecimento. Através da memória a chegada de um calendário que não nos nega o tempo de existência.
Quanto mais coisas antigas nós recordamos mais dizemos dos nossos anos vividos. Quanto mais os velhos álbuns da memória vão passando suas páginas amareladas mais nós temos a certeza de que já não somos de ontem. Quanto mais nos lembramos de coisas velhas, antigas, de outros tempos, mais aproximados desse tempo também estaremos.
Então responda: Você se lembra de minha avó Marieta na calçada? Sim, naquela calçada da casa bela de esquina, na Praça da Matriz de Poço Redondo, de arquitetura majestosa, sobressaindo-se perante as demais construções? Talvez a casa mais conhecida e mais recordada da cidade sertaneja.
Conhecida não só pela arquitetura como pela história. Deveras, ali mesmo o Capitão Lampião um dia chegou acompanhado de seu bando e logo ficou sabendo da presença do Padre Arthur Passos num dos quartos. E agora, o que fazer, ante a cruz e o mosquetão? Acabaram dividindo o mesmo regabofe sortido de buchada e carne de bode. Mas isso coisa de outros tempos.
Mas voltando à minha avó na calçada, quem tem por volta de vinte anos ou até mais certamente não vai recordar. Minha avó Marieta, por todos conhecida como Mãeta, já miudinha pelo envelhecimento, sentando ao entardecer em sua calçada para abençoar todo poço-redondense que por ali passasse. Ela simbolizava a própria maternidade sertaneja.
“Bença, Mãeta”. “Deus abençoe, meu filho”. “Bença, Mãeta”. “Que Deus lhe acompanhe, meu filho”. Com todo mundo era assim, desde o mais novo ao mais velho. E tudo mundo pedia sua benção ao passar por ali. Mas já desde muito que aquela calçada não existe mais, que aquela casa não existe mais, que Mãeta não está entre nós.
O mundo de Mãeta era aquele depois do envelhecimento, estar apenas na calçada depois do entardecer, vez que já não frequentava a igreja com a assiduidade de quanto mais nova e com forças para caminhar. E quem sabe ali na sua cadeira ela não ficasse relembrando outros passados, coisas muito mais envelhecidas?
Não sei se em sua mente a idade surgia como um distanciamento daqueles tempos idos, mas tenho certeza que ela sabia que somente havia chegado àquela fase da vida por ter ultrapassado muitas curvas do caminho. Ela estava velha por que havia vivido muito. Mas a maioria das pessoas se reconhece envelhecida pelo tempo da caminhada?
Muitas pessoas fogem do tempo, dos anos, da caminhada, chegando até a negar a idade. Muita gente quer passar a ideia de uma eterna juventude em um corpo carcomido de tempo. Mas vale a pena querer ser outra pessoa quando o seu íntimo, sua biologia e sua compleição física, não atendem tal desejo?
Minha avó Marieta era teimosa, arrelienta, mas nunca negou a idade. Foi se reconhecendo sábia pelos frutos colhidos pela estrada. Por isso mesmo o reconhecimento com uma mãe de todos, uma parenta de todos, uma avó de todos. Nela certamente avistava o respeitoso envelhecimento. Mas qual o reconhecimento na idade própria daqueles que ali passavam pedindo a benção?
A maioria dava a benção e seguia adiante. Não imagino que alguém se imaginasse em envelhecimento sentado ao entardecer numa calçada. Ninguém pensava em velhice, tudo como se o tempo fosse somente o momento. E hoje muito tempo já passou.
Muita gente ainda a recorda como se tudo ainda fosse um retrato guardado na memória. E se há essa viva recordação, é por que os anos já deixaram marcas muito além da memória. E o envelhecimento vai, inexoravelmente, chegando.


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Lá no meu sertão...


Mylla, moça bonita



Na nuvem (Poesia)


Na nuvem


Por que não tinha lápis na mão
desenhei na nuvem o seu coração

queria na nuvem desenhar o amor
mas não tinha nenhum lápis de cor

imaginei o seu rosto e risquei
e a nuvem sorrio pelo que desenhei

depois a nuvem desceu do espaço
e junto a mim se desfez em abraço

e tão leve e suave me senti abraçado
que como anjo voei ao amor alado.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - viver, amar, sorrir...


*Rangel Alves da Costa


Uma fórmula nem sempre fácil, verdadeira alquimia que vem sendo constantemente buscada: viver, amar, sorrir... Mas será tão difícil assim? Sim, difícil demais. Não está fácil viver num mundo tão vil, tão violento, tão brutal. Não está fácil viver em meio a horrores e absurdos. Não está fácil viver nem da porta adiante nem da porta pra dentro. Do mesmo modo, amar está cada vez mais distante daquilo que cada um deseja como amor. Os amores fragilizaram-se, tornaram-se líquidos, volúveis, mercantilizados, vulgares, fugazes. Não se ama mais inteiramente, completamente, intensa e imensamente. O amor é grão semeado que já não brota com raiz e já não floresce para o deleite do coração. Quanto ao sorrir, talvez a única esperança de um mundo de tempos e ventos, de furacões e tempestades. Mesmo que não haja motivo suficiente, o sorriso sempre chega como um alento perante as coisas simples da vida e que ainda possuem o dom de cativar espírito e alma. Mas ainda assim nem todo impossível o viver, o amar e o sorrir, e conjuntamente. Vive-se na possibilidade do viver, ama-se naquilo que mereça ser amado, para então alcançar o sorriso mais largo e mais festivo interiormente.

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domingo, 15 de outubro de 2017

DESERTAS DISTÂNCIAS


*Rangel Alves da Costa


Neste último fim de semana de feriado, já de viagem marcada para participar de um grandioso evento, eis que peguei a estrada saindo de Sergipe e seguindo em direção a Floresta, no estado de Pernambuco.
O evento referido dizia respeito ao Cariri Cangaço Floresta (Centenário de Nazaré do Pico) e que foi realizado dos dias 12 a 15 passados. O Cariri Cangaço reúne um grupo de estudiosos, pesquisadores e escritores, que em determinadas ocasiões, em localidades e estados diferentes, debate temas relacionados ao fenômeno cangaço, ao messianismo, ao beatismo, à cultura popular e à religiosidade, dentre tantos outros. Desta feita, a localidade escolhida foi Floresta e seu distrito Nazaré do Pico.
Pessoas de quase todo o Brasil se reúnem a cada evento e todas vindas de diferentes estados do Brasil. Percorrem centenas de quilômetros para participar das festividades, dos eventos, das visitas, dos debates e outros eventos. E eu saí de Sergipe, mais de perto da cidade sertaneja de Poço Redondo, juntamente com cinco pessoas exatamente para, mais uma vez, participar de tão importante momento histórico e cultural. E assim por que já tive oportunidade de participar do Cariri Cangaço Exu, também em Pernambuco.
A viagem em si já se torna um grande aprendizado. Muitas vezes distante demais, cansativa, pois sempre em veículo, mas com aproveitamento de cada passo rodado, principalmente pelo fato de conhecer novas terras, novas fronteiras, feições diferenciadas em uma mesma região nordestina. Não raro, as placas indicativas dos municípios circunvizinhos vão despertando interesse tamanho de conhecê-los que logo surge o interesse de seguir um pouco mais somente para conhecer de perto aquele desconhecido lugar. Mas desta vez seguimos numa só direção. Mas igualmente de forma surpreendente.
Após Sergipe, atravessando o São Francisco, adentra-se nas Alagoas para somente depois chegar a terras pernambucanas. As paisagens nordestinas são caracterizadas pela vegetação seca, esturricada, com grande predominância de cactáceas e plantas rasteiras e ressequidas. Parece mais uma só vastidão desolada e triste. Contudo, a situação se agrava mais ainda quando por longos caminhos não se avista sequer uma moradia, um bicho, um pé de gente, absolutamente nada. Foi assim que ocorreu no sertão pernambucano grande parte desta última viagem.
A desolação é tamanha que amedronta. Deveras, seguem-se por quilômetros e mais quilômetros, vinte, trinta, cinquenta, sem avistar ao menos um vestígio de presença humana. Tudo deserto, tudo seco, tudo no chão bruto, tudo queimando de sol e afastado de tudo. Terras certamente com donos, mas nenhuma moradia, nenhum curral, nenhuma fonte, nenhum bicho pastando, nem um animal atravessando a pista. E eu comentava como deveria ser acaso alguém sozinho num veículo tivesse o desprazer de ter um pneu furado ou qualquer peça do veículo quebrada. Seria o fim do mundo.
Também comentei da fama daqueles lugares desertos, desolados e desconhecidos nos seus interiores. E por isso mesmo lugares escolhidos para as viagens cangaceiras cortando os sertões, mas também para os confrontos com as volantes no encalço dos bandoleiros. No meio do mundo seco, por entre mandacarus e xiquexiques, pontas de paus e espinhos graúdos, as emboscadas, as trocas de tiros, as guerras abertas e o sangue dando cor àquele cinzento da secura da terra.
Aquela região ficou famosa pelas passagens de cangaceiros e volantes, mas também como esconderijo de malfeitores e outros renegados. Ali chegavam e ali adentravam pela desolação das paisagens e pelas dificuldades de serem alcançados, pois somente tendo muito a fazer é que alguém poderia se propor a entrar naquele mundo de tristeza e solidão e passar dias e noites fugindo de tudo. Mas certamente que uma situação que doía na alma somente pela hostilidade e pela estranheza brutal a cada beirada de estrada e mais além.


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Lá no meu sertão...


Durante o Cariri Cangaço Floresta 2017, Rangel ao lado da forrozeira Cecília do Acordeon




Dores e amores (Poesia)


Dores e amores


Amo um demasiado amor
que me contenta e me faz sofredor

um pássaro voando contente
e asas cortadas assim num repente

um ser entre beijos e abraços
e de angústia se desfeitos os laços

aquele que segura na mão e vai
mas num instante seguinte se prostrai

como o açúcar e o sal no peito
não sabe quando adoça ou se faz rejeito

e como dói esse amor assim
quer o amor recomeçar e logo vem o fim.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - “e eu te faço de laranjinha e chupo você todinha...”


*Rangel Alves da Costa


“E eu te faço de laranjinha e chupo você todinha...” , diz a letra da música. Mas, pensando bem, é melhor não. E se for azeda? E se for seca feito a gota serena? E tem laranja que só se sente que está podre quando se chupa. Certa feita, Tonico Bonome se danou a chupar laranja pra curar uma gripe e foi pior. Chupou sem tirar toda a casca e ficou com a boca ferida que dava dó, com os cantos da boca e os beiços que mais pareciam laranja chupada. Pior aconteceu com Zezim Molambo. Dia de feira, na banca da laranja, disposto a comprar. Então chupou uma para sentir a qualidade. Fez uma cara tão feia que o feirante se assustou. Na segunda, redobrou a careta. Por fim, disse ao laranjista que comprava a laranja todinha dali. Mas por que, se você achou tão azeda que fez careta? Perguntou o vendeirim. Então ele respondeu: Vou dá tudim a minha muié. Quem sabe se num faz efeito crontaro naquela careta!


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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

PRAZER


*Rangel Alves da Costa


Mal ela adentrava ao portão e ele já a avistava completamente nua. Era o seu jeito de sempre avistá-la. Não por maldade, por desejo exacerbado, volúpia ou tara, mas simplesmente por que seu olhar a despia pela graciosidade sentida.
Um olhar que nela somente encontrava beleza. Tanto fazia que ela estivesse vestida de seda ou recoberta de diamantes, tanto fazia que ela estivesse em traje exuberante ou envolta em adornos. Seu olhar avistava apenas outro tipo de beleza: a da mulher em si, nela mesma.
Mas não sem motivo para tal, vez que ela era realmente bela, de doce feminilidade, de cativante sensualidade.
Morena clara, de pele jambeada, de leve queimor de sol sobre o corpo, cabelos lisos e longos, negros e sedosos, boca chamativa ao beijo, olhos entre o mel e a boca da noite. Na pele um suave frescor de flor matinal, pétala suave, somente pétala. E nas curvas do corpo a escultura de uma deusa em pleno viço da vida.
Talvez fosse por causa disso que o seu olhar tanto se encantava perante sua presença. Mas certamente também em pensamento e até em sonhos. Contudo, uma situação rara de acontecer. Não era mulher desconhecida dele, de seus beijos, de seus abraços, de suas carícias mais íntimas. Pelo contrário, era sua namorada.
Situação rara de acontecer pelo fato de já conhecê-la na sua nudez e no seu sexo e ainda assim a cada reencontro a avistava sempre com o olhar de um jovem que se encanta lascivamente perante uma bela jovem. O olhar do jovem despe a bela jovem, imagina sua nudez, deseja tê-la. E efetivamente a tem nessa ilusão carnal.
Mas ele, desde algum tempo, que já não era nada de estranho a ela. Quando ele avistou-a pela primeira vez, certamente teve o mesmo olhar e o mesmo desejo de qualquer jovem ávido por desnudar aquela que passa ou está à sua frente. Mas a situação agora era outra, já era sua namorada. E por que agir assim com tamanho encantamento perante ela?
O amor. Somente o amor para decifrar esse mistério que existe nos cantos e recônditos da alma humana. Amor sentimento indecifrável. Amor sentimento tão visível e tão oculto que mesmo avistado ainda se mantem escondido. Amor que não se contenta como amor e faz do ato de amar uma sujeição.
Aos seus olhos, a bela adormecida enquanto dormia. Aos seus olhos, a flor mais bela brotada ao amanhecer entre os lençóis. Aos seus olhos, o espanto e a gratidão de tê-la sobre a cama como uma vestal em núpcias. Como acariciar uma flor, como beijar uma pétala, como fruir do perfume sem macular a essência?
E então a acariciou, roçou-lhe os lábios, beijou-lhe a boca, tocou-lhe os seios, sugou-os levemente. E então, frêmito, caçou-a ainda mais, buscou no seu corpo os escondidos e os adormecidos. E então, ávido de prazer, em excitada labareda, em fogueira chamejante, sentiu ser recompensado no mesmo desejo.
E que instante mais distanciado da razão. Que momento mais enlouquecidamente tórrido no corpo humano. Entre sussurros e gemidos, o silêncio ofegante sendo entrecortado por raios e furacões, por tempestades e vendavais, por ventanias e turbilhões. Cai a estrela, cai um pedaço da lua, ondas arremessam sobre a cama, um vulcão desperta faminto. O ápice.
Não. O prazer não se perfaz com o sexo. A vontade do outro não quer apenas o sexo do outro. O desejo de tudo não quer o gozo como um final de ato. O sexo não é tudo, mas o amor é tudo. O sexo nunca é tudo quando o gozo buscado é o prazer pelo amor e não pelo uso e fruição.
Mas ainda assim amou. Amou por que amava e a teve em si e dentro de si como normal consequência de dois que se amam. E cujo amor carnal apenas nasce sem ser plantado em grãos de desejo meramente carnal.


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