SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

ENTÃO SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA...


*Rangel Alves da Costa


Nas plagas sertanejas, contudo, história contada e recontada, passada de boca em boca, possui a denominação de causo ou proseado. São, pois, os causos e proseados que tanto povoam e animam os diálogos matutos debaixo de pés de pau ou nas calçadas ao entardecer. Certamente que nem tudo pode ser tido como veracidade – e na maioria não passa de lorota -, mas ainda assim o surpreendente em cada nova estória (ou história) transmitida.
Neste sentido é aqui adiante segue uma junção de causos e proseados, todos oriundos da mesma fonte, envolvendo “conversas” de caçador, sempre tão intrigantes quanto aquelas de pescadores. Tenha-se, contudo, que nem tudo pode ser tido como invenção ou mentira, pois no mundo sertanejo há mesmo o espantoso, o fantástico e até o impensável. De resto, depende muito de quem escuta e a crença que tenha.
Disse Bastião que suas caçadas sempre se deram no meio da noite adentrando a madrugada. E quase sempre apenas na companhia de seu cachorro. Nunca temeu se embrenhar na mata no meio da escuridão, mas em algumas situações já se deparou com situações de arrepiar os cabelos. Por mais encorajamento que tivesse, difícil não temer o pior perante certos inusitados.
Certa vez, disse ele, sozinho no mato, em noite fechada, seguindo numa vereda conseguiu avistar alguém vindo logo adiante, em sua direção. Estradinha estreita, sem caber os passos de duas pessoas, quanto mais o vulto de um homem alto e magro se aproximava mais ele sentia que tinha de dar passagem, pois não parecia que o estranho viesse com intenção de afastar nenhum tantinho do meio do caminho.
Então Bastião teve de sair para a passagem do outro. Em silêncio vinha e em silêncio passou, sem que pudesse sequer avistar a inteireza de sua feição, dado o sombreado que lhe tomava de corpo inteiro. Que coisa mais esquisita, pensou o caçador. Como é que um cabra passa assim por outro, num meio de mundo desse e nessa escuridão toda e sequer cumprimenta, começou a indagar. Foi quando sentiu que seu cachorro sequer tinha latido ante a presença do estranho. Então disse a si mesmo, procurando logo se afastar: Só não é gente desse mundo!
Visões de coisas do outro mundo são constantes durante as caçadas noturnas, assegurou Bastião, e muito mais se o encalço catingueiro envolver veado. Não há animal de caça que traga mais problema ao predador humano. Então contou sobre o acontecido com outro caçador conhecido seu que subiu numa árvore de copa larga e galhagem vasta para tocaiar o bicho. Subiu, se ajeitou, e ficou espiando mais abaixo, na direção da passagem. Estava tão entretido observando a movimentação lá embaixo, que quase nem percebe quando outro caçador subiu na mesma árvore e se posicionou bem ao lado.
Não demorou muito e ouviu do estranho que o veado já estava chegando. Dito e feito. Logo o animal surgiu com olhos brilhosos no meio da noite. Então o estranho mandou que mirasse para atirar, mas o caçador relutou e pediu para que o outro mesmo fizesse o serviço. Este rejeitou pedindo que atirasse logo, sob pena de fuga do bicho. Sem mais a fazer, deu um tiro certeiro. Mas logo em seguida ouviu do estranho que se preparasse novamente, pois outro veado estava chegando. Achando estranha demais aquela situação toda, o caçador exigiu que dessa vez o outro mesmo atirasse.
Contudo, não houve jeito de o estranho fazer mira. Coube ao caçador novamente apontar e derrubar o segundo veado. Depois disso, quando disposto a saber quem realmente era aquele sujeito aparecido assim de repente e tão conhecedor de caçada, nem precisou fazer qualquer pergunta. O estranho adiantou-se e falou: “Quando eu era vivo era aqui que eu mais caçava”. E depois desapareceu sem descer da árvore. Apenas sumiu do local onde estava.
Outro causo intrigante também envolvendo caça ao veado foi relatado por Bastião. Disse que um conhecido seu matou um veado, levou a presa morta à casinhola onde morava, abriu o bicho, separou a carne do couro e estendeu o focinho numa ponta de pau adiante. Mandou a esposa preparar parte da carne para o almoço. Ao retornar, contudo, o focinho havia sumido. Estranhou demais tal acontecido, mas imaginou que outro animal tivesse passado por ali e abocanhado. Então esperou o almoço ficar pronto e comeu daquela carne nova. Daí em diante se sentiu tomado de febre, tremores frios e dor de cabeça. E não houve remédio que desse jeito.
Como nem a farmácia nem a medicina resolvia o problema, a saída que encontrou foi procurar um rezador. E assim fez. Quando chegou à casa do homem nem precisou abrir a boca. O rezador logo perguntou se ele havia matado um veado e comido de sua carne e desse dia em diante nunca mais teve saúde. Espantado com tamanha revelação, o caçador confirmou, para ouvir em seguida: “Aquilo que você matou não era um veado não. Foi um cavalo do cão. E se quiser continuar vivendo de agora em diante nem pense mais em caçar qualquer bicho. Pegue sua espingarda e dê fim. Do contrário será o seu fim”.
E assim prosseguia Bastião, deleitando os presentes com suas histórias. E sobre se o homem deu fim à espingarda e nunca mais caçou? Ora, para caçador tanto faz a vida do bicho, mas a sua procura garantir de todo jeito.


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Lá no meu sertão...






Olhai os lírios do campo (Poesia)


Olhai os lírios do campo


De roupa de chita vá
pois os que não vão
não têm a sua beleza
nem sabem o valor
da singela humildade

que aqueles olhos
olhem os lírios do campo
e avistem na pureza
toda a beleza da vida

então vá de chinelo
pois aqueles de salto alto
haverão de tropeçar
ante seu pé tão macio
e adornando de pele

e que aqueles olhos
vejam os lírios do campo
e vendo o que é a vida
sintam o nada no ouro.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - patético


*Rangel Alves da Costa


Não. Certamente que no Brasil não há nada a preocupar sua população, não há nada de importante a divulgar pela imprensa do que patetices extremadas. Uma imprensa que se dá ao trabalho de divulgar idiotices não poderia ter outra denominação senão a de estúpida. Veja só uma chamada no G1: “Altas Horas mostra semelhança entre cãozinhos e seus donos”. E no texto diz: “No espírito do quadro Dizem que me pareço com..., o Altas Horas foi às ruas para saber o que as pessoas têm em comum com os seus bichinhos de estimação. E não é que eles têm muito mais em comum do que a gente imagina?”. Gatos parecendo com suas donas, cachorros parecendo com os seus donos, a bicharada tomando a forma humana por que assim a imprensa quer. Patético, simplesmente patético. Por que o Altas Horas não foi às ruas perguntar o que a população está achando dos constantes aumentos do gás de cozinha, das tarifas de energia elétrica, dos produtos nas feiras e nos mercadinhos, do aumento da gasolina? Não. A preocupação é se o pelo da luluzinha da madama se parece com o de sua dona. Cada uma!


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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

POÇO REDONDO, CORDIAIS SAUDAÇÕES!


*Rangel Alves da Costa


Poço Redondo, cordiais saudações! De início, peço que não se incomode com palavras tão apressadas e dizeres que não traduzem meus reais sentimentos. Pois saiba, minha querida Poço Redondo, que o amor nunca é demonstrado na sua verdadeira plenitude.
Você é uma moça bela, linda, lindíssima, minha querida Poço Redondo. Filha de um sertão de luta, queimado de sol, ainda assim demonstra na sua face um sorriso tão singelo que poucos conseguem avistar. Porém confesso, minha Poço Redondo, muitos que vivem sua vida simplesmente a ignoram.
Sua beleza é um mistério, querida Poço Redondo. Seu fascínio é inexplicável, minha Poço Redondo. Tanta magia e encanto nascidos da própria raiz de onde vingou, pois muito já fizeram e ainda fazem para que perdesse de vez toda a sua formosura.
Que coisa mais estranha, minha Poço Redondo. Jamais consegui entender como pessoas existem que ao invés de valorizar sua beleza e acrescer mais encantos, simplesmente torcem para que se enfeie, para que definhe, para que fique desastrosa aos olhos estranhos, e até daqueles do próprio berço.
Olho você tão bonita, querida Poço Redondo, e logo me lembro da história daquela menina tão linda que vivia à janela. Era tanto ciúme mais tanto ciúme, que aqueles que não a conheciam logo imaginavam que era a moça mais feia do mundo. Veja Poço Redondo, o que são capazes de fazer.
Mas aquela menina tão linda, e tão bonita que era, era como flor em primavera que nenhum outono lhe mudava a feição. Assim também com você, minha querida. Por mais que digam isso e aquilo, por mais que neguem ou reneguem sua beleza, jamais deixará de ser tão maravilhosamente bela aos olhos de quem a ama.
Contudo, juro que temo muito. Não sei bem o que acontece, mas a continuidade de sua beleza se deve muito mais ao que já tem sobre si do que mesmo a qualquer mão que chegue ofertando uma graça nova. Parece mesmo que ninguém quer ajudar você a ser cada vez mais bela.
Sobre você, de vez em quando me dizem muito. E de repente fico até entristecido pelo que ouço. Dizem que você anda descuidada, sem o devido cuidado com a aparência, entristecida como se ao relento estivesse. Mas o que fizeram contigo, querida Poço Redondo, para que renuncie assim à sua grandiosidade?
Sei que veste roupa nova, de chita, de cores belas. Mas somente a roupa não é tudo não, minha querida Poço Redondo. Cadê o cuidado com o restante das belezas que possui? E logo você que jamais deixou que a humildade fosse motivo para esconder o melhor e mais belo que possui. Reencontre-se, revista-se de canto novo, minha bela.
Sim, minha querida Poço Redondo, afeiçoa-se àqueles lírios do campo que a Bíblia tanto ensina. Você, na sua humildade, no seu jeito simples e sertanejo de ser, nos seus pés descalços e suores na pele, em suas mãos calejadas e mormaços na face, ainda assim a mais bela entre todas. Olhai os lírios do campo, minha Poço Redondo, e logo sentirá que sua feição brilha mais que todo o ouro de Salomão.
Oh minha querida, como eu gostaria de estar sempre ao seu lado para viver os seus dias. Mas juro que não posso. E por isso mesmo transbordo de tanta saudade. Perante a sua janela, diante de sua porta, perante cada canto de sua existência, eu seria um enamorado poeta a cantar suas belezas sem fim.
E declamando todo o amor sentido, certamente eu diria: Abraço-te minha querida, a ti entrego minha vida, pois um filho apaixonado é mais que enamorado para ser seu defensor, e lutando com todo amor, cuidar de você como flor, e amando cada vez mais, seja na alegria ou na dor...
Despeço-me, minha bela Poço Redondo. Mando um abraço ao filho, mando abraço ao irmão, abraço todo o sertão!


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Lá no meu sertão...


Em Poço Redondo/SE, Naní e a melhor cocada do mundo



Para a eternidade (Poesia)


Para a eternidade


Não, não perdi o amor
para estar com saudade

o amor não está aqui
mas retornará numa tarde

e mesmo que nunca chegue
digo na certeza e sinceridade

amei demais e o suficiente
para ter o amor em eternidade.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - o sertão sempre me chama


*Rangel Alves da Costa


O SERTÃO SEMPRE ME CHAMA. Aqui estou n’Aracaju entre petições e outros escritos, mas meu pensamento faz curva e faz caminho, vai longe e mais adiante, até pousar suas asas matutas nas terras de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo. Mas não poderia ser diferente. Além da inauguração da Sala Arte da Terra do Memorial Alcino Alves Costa, no próximo sábado, eis que recebo outros convites dignificantes. A professora Tânia Lima já havia me pedido uma visita à escola onde leciona. A sempre humanista Nataly enviou-me convite para um evento beneficente. E ontem o amigo Francisco Galdino de Carvalho, defensor público na comarca poço-redondense, convidou-me para participar de um café matinal que será oferecido ao deputado alagoano Inácio Loiola, em sua residência de Canindé. Tudo na sexta, menos a inauguração, que será no sábado. Significa que aqui estou, mas o sertão sempre me chama, sem falar na saudade constante da terra e sua flor humana. E certamente algum dia eu arribarei de mala e cuia, de embornal e cantil, e em Poço Redondo novamente fincarei meu mundo. Mas não na cidade, que é cidade demais para o meu olhar e os meus sentimentos. Mas numa casinha matuta onde eu possa estender a minha rede e beber água de moringa amanhecida à janela. E conversar com os bichos e a natureza, e falar sozinho...


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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O VALOR DO SILÊNCIO


*Rangel Alves da Costa


Ora, mas eis que de repente tudo silencia e alguém começa a imaginar o nada existente. No silêncio o nada, o vazio, o caos. E assim acredita por jamais ter ouvido ou sentido a sua palavra.
Sequer imagina que é do silêncio que nasce a voz, que surge a ideia, que o mundo se expressa, que a vida se mostra. É, pois, do silêncio que irrompe outro primoroso silêncio: aquele que necessita silenciar intimamente para ser ouvido.
É no silêncio que a prece ecoa às alturas, é no silêncio que o íntimo da alma procura sua razão de existir, que a pessoa se reconhece enquanto força que precisa se reconhecer muito mais. E por isso mesmo emudece para que outras vozes se soltem.
E uma verdade induvidosa: o silêncio é tão ou mais valoroso que a palavra. Mais que isto, há no silêncio um ato de comunicação tão intenso que se torna impossível não ouvir todos os gritos e ecos.
O silêncio é a voz íntima, interiorizada, num ato de comunicação da pessoa consigo mesmo. Mesmo sem a palavra dita, verbalmente expressada, há a voz que interage do ser para com o ser.
O silêncio é a confissão sem medo e sem demora. Em nenhum local ou instante da vida, o silêncio confessaria tudo o que tem vontade de dizer senão no próprio silêncio. Não há receio de palavras, apenas a voz no pensamento.
O silêncio nunca silencia. Mesmo que os espaços estejam calmos, plenos de quietude, sem nenhuma outra voz, ainda assim o silêncio vai busca no pensamento a palavra certa para o instante, num misto de confissão, de recordação e de simples ou profunda meditação.
É no silêncio que o grito ecoa mais alto e a voz brada seu uivo de lobo, mas apenas no próprio silêncio. Ora, vem a ideia, vem a memória, vem a nostalgia, e daí todo um arroubo que se traduz em gritos e brados.
Necessário que o ser humano silencie cada vez mais. O mundo já possui alardes e alaridos em demasia, a vida já possui algazarras e vozerios em demasia. E em instantes assim todo o silêncio se perde em espanto.
Necessário por que o homem tem que encontrar instantes para viver a si mesmo. Nenhum ser humano consegue viver sem ouvir suas próprias vozes interiores e com elas dialogar suas razões, suas aceitações e descontentamentos.
Necessário ainda que o homem silencie até que encontre sua outra voz. De nada vale apenas abrir a boca sem que a palavra surgida tenha valia. Nada adianta apenas falar se o expressado não possui sua razão de ser.
No silencia há o sopesamento do verbo, da expressão, daquilo que vai sair da boca enquanto palavra. Reflete-se no silêncio sobre o acerto do que vai dizer. Medita-se no silêncio sobre a validade e a necessidade do que irá expressar em palavras.
No silêncio há imagens, retratos, faces, feições. No silêncio há molduras, cores, sorrisos, aflições, angústias, tristezas. No silêncio há o som imaginário e tudo o que se deseje avistar. O silêncio permite o reencontro.
No silêncio da brisa, do vento, da aragem do entardecer, há muito além da palavra. Perante a brisa, a aragem e o entardecer, logo o pensamento vai encontrando suas asas e tomando os espaços para seguir nas distâncias.
Mas não precisa fechar a porta e a janela para que o silêncio chegue. Não será necessária a reclusão para que o silêncio se imponha. Longe da multidão e da voz, qualquer lugar serve ao silêncio, principalmente quando busca no seu cantinho um instante de paz.
Então silencie e fale. Você precisa ouvir a si mesmo.


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Lá no meu sertão...


Lá longe...



Florada de solidão (Poesia)


Florada de solidão


Flor de abacaxi
ai que tristeza dá
uma tristeza a florir
na flor do ouricuri
e eu que trazia canto
logo me entristeci
como flor de sapoti

florada de um partir
na lágrima triste florir
um amor desencantado
flor que sumiu daqui
meu pomar de solidão
já não tem o teu sorrir
flor sem flor de ouricuri.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - as pedradas no Papai Noel


*Rangel Alves da Costa


Essa foi boa. Há pouco li no G1 que um Papai Noel de Itatiba, interior de São Paulo, passou vexames ao ficar sem doces para oferecer às crianças. Quando as crianças perceberam que o bom velhinho já não tinha mais balas, então começaram a jogar pedras. Que situação mais triste, meu bom velhinho. Logo você que tanto alegra a criançada e ainda faz perdurar o poder de ilusão sobre a sua real existência, eis que agora teve que amargar o outro lado da moeda. Ao invés de as crianças, ainda que entristecidas, aguardarem o seu retorno com presentes e doces, logo a vingança feita. E certamente disseram que Papai Noel sem balas, doces e brinquedos, não passava de uma farsa natalina, então começaram a juntar pedras e lançar contra o bom velhinho e sua comitiva. Sem poder subir pelos ares no seu trenó ou fugir em disparada com suas renas, o velhinho teve mesmo que se proteger da fúria infantil. E ele já disse que não vai mais a lugar algum sem bala suficiente para toda a criançada. Do contrário, ao invés da roupa, barba e outros apetrechos, vai chegar usando proteção dos pés á cabeça. E ao invés de dizer ho, ho, ho, vai falar que se jogar uma pedra ele joga duas!


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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

DIETA DOS HOMENS E DOS ANIMAIS


*Rangel Alves da Costa


Em meio à natureza, no seu habitat natural, o bicho até pode emagrecer demais por carência de alimentos, porém nunca será visto em situação de sobrepeso ou de obesidade. Grandes, largos, corpulentos, mas jamais pelo excesso de gordura, e sim pela própria compleição física de cada espécie.
Contudo, quando o bicho é caçado pelo homem e passa a viver em ambiente doméstico, logo perderá seu aspecto físico natural. E assim ocorre pelo fato de ser alimentado da forma que o homem faz na sua alimentação: exagerada, gordurosa, desequilibrada. O resultado será uma obesidade contrastante com a normalidade do bicho.
O porco, por exemplo, jamais alcançaria um exagero de quilos, de modo até a não poder mais caminhar, acaso seu ambiente de vida fosse distante do homem e seu chiqueiro tomado de restos de alimentos da mesa, lavagens, rações gordurosas e produtos químicos próprios à engorda. É criado assim por que quanto mais banha alcançar mais presumidamente gordo será, e com isto vendido pelo peso.
Noutra situação, um porco do mato é todo esguio, esbelto, na grandeza e na largura apropriados ao seu tamanho. Não existem lobos gordos demais nem elefantes obesos. Não existem guaxinins fora de forma pelo peso ou onças com sobrepeso. Mas basta que a onça seja domesticada num circo, por exemplo, e toda sua estrutura biológica e química será transformada.
O animal, seja leopardo, raposa, tigre ou hiena, come apenas na sua medida. É a sua fome que vai medir o tamanho de seu prato. Mas não com o exagero humano de ingerir cada vez mais alimentos sem qualquer necessidade, sempre forçando dilatação de seu estômago e consequentemente a obesidade. Já o animal se contenta em apenas se alimentar, não forçando nada além daquilo que seu estômago pede.
Uma ilustração. De repente um tigre, sempre à espreita de sua presa, sai de seu esconderijo e corre em disparada em direção a um lobo. Veloz, atroz, levado pela necessidade de alimento e pela fome que está sentindo, num bote avança sobre a presa e prega seus dentes afiados no pescoço do indefeso animal. Daí em diante, e rapidamente, grande parte do lobo é devorado. Quando está saciado, ou deixa os restos para outros animais ou arrasta para algum esconderijo nos arredores. Será a garantia de uma comida posterior.
Não se observa, contudo, o tigre forçando a ingestão de mais e mais alimento. Acaso fosse assim, ali ele permaneceria para roer até os ossos. Assim ocorre com os demais animais, cuja fome faz devorar suas presas, mas sem fazer disso um desperdício na sua mesa natural. Ademais, não é uma questão de apenas matar o outro animal pelo prazer de sangrar sua jugular, mas de necessidade de sobrevivência, de uma imperiosa necessidade de se alimentar para recompor suas forças e se proteger dos avanços de outros predadores.
Mas o que ocorre com homem na sua dieta? Totalmente o inverso do coelho, do tamanduá, da girafa, da lebre, da zebra, do elefante, do lince, do leopardo. Perante a mesa, ante sua gula infinita, o ser humano é um descontente por natureza. Parece mesmo que a sua gula é tão doentia quanto o alimento que ingere. Geralmente, não há limitação do homem perante o que lhe é disposto enquanto alimento. Quer mais e sempre mais, come mais e sempre mais.
Somente quando o alimento é escasso ou pouco mesmo, situação em que não pode desejar sequer um tiquinho a mais e muito menos repetir o prato, é que o homem se dá, forçosamente, por satisfeito. Mas não quando a comida é farta, quando a mesa é grande e as carnes e os mexidos são muitos e variados. Enche o prato, come de se lambuzar, sempre coloca mais e parece até querer chorar quando já não lhe cabe mais nem uma perna de frango. Despede-se da mesa tristonho, cheio demais, largo demais, esbaforido por dentro e por fora, mas prometendo logo voltar. E volta mesmo. Não espera nem a digestão se completar e novamente já estará enchendo um prato.
Como observado, na forma de se alimentar também uma grande diferença entre o bicho e o homem. O animal é comedido, é educado perante sua mesa e seu alimento. Quando o cachorro é gordo demais, assim o é pela mão humana, que lhe empanturra do que não presta. Assim como faz a si mesmo, devorando tudo pelo prazer da gula, acha que o seu bicho doméstico também deve ter sua doentia obesidade.
Bastaria que se mirasse na dieta dos bichos. Alimentar-se por que é preciso, mas somente na medida da fome. Jamais esvaziar tudo que estiver adiante e encher tudo que estiver por dentro e por fora. E como resultado esse balofamento todo que se vê por aí, onde roupa não cabe mais e até a pessoa não cabe mais em si mesma.


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Lá no meu sertão...


Poço Redondo/SE







Sorte (Poesia)


Sorte


Sorte a minha que existe
para a sorte no amor
e sorrir de felicidade
pelo que o destino doou

é uma estrela a brilhar
em negrumes de solidão
e afastando a tristeza
ser a sorte do coração

sorte a minha e a tua
que a mão uniu na estrada
braços dados em destino
pela sorte assim nos dada.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - aquele menino


*Rangel Alves da Costa


Já tive cavalo de pau, já tive fazenda de ponta de vaca, já tive boi de barro, já tive carro de ripa, já tive dinheiro de cigarro Astória, já tive uma peteca baleadeira. Já tive bola de gude, já tive jogador de botão, já tive rosário de aricuri, já tive cuia de araçá. Já foi bonito penteado na brilhantina e de calça nova abaixo do joelho. Já fui rico, pois já tive um brinquedo que corria sozinho. Já tomei banho nu debaixo de chuva, já pulei quintal para pegar goiaba, já brinquei de pega-de-boi nas noites de lua cheia. Já fui muito rico, pois minha mãe me perfumava com Toque de Amor e Charisma. E é tudo que ainda tenho. Só tenho agora o que tive na meninice. Só me falta mesmo a meninice. Só me falta mesmo aquele menino sertanejo que um dia eu fui.


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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

CÍCERO DANTAS, TRAJETÓRIA DE LUTAS E VITÓRIAS


*Rangel Alves da Costa


Imensos são a admiração e o respeito que tenho por Cícero Dantas. Possuo especial entusiasmo por pessoas que arduamente conseguiram vencer os osbstáculos para alcançar um destacado lugar perante aquilo que tanto lutou. E em Cícero todas as características de um vencedor, ainda que sua luta seja ininterrupta em busca de novos sóis na existência pessoal e profissional.
Antes de adentrar ao mérito profissional, que hoje em Cícero se mostra de modo perfeitamente estabelecido, urge afirmar sobre outros combates enfrentados para chegar aonde chegou, sempre prosseguindo. Ora, Cícero teve de vencer até mesmo a descrença pessoal sofrida por qualquer sertanejo. Teve de vencer ainda a luta contra o peso corporal e as dificuldades tão próprias daqueles que se tornam estudantes sem ao menos saber se poderão concluir seus estudos.
Num breve histórico pessoal, tem-se que Cícero Dantas de Oliveira, filho de Aleone Dantas de Oliveira e Sebastiana Quitéria Oliveira, nasceu em Monte Alegre de Sergipe em 05 de março de 1979. De família numerosa no sertão sergipano, após a adolescência passou a dividir sua terra natal com outras localidades interioranas, principalmente Poço Redondo. Antes de pensar em seguir a carreira jurídica, o jovem Cícero exerceu os ofícios de servidor dos correios, da Secretaria de Segurança Pública de Sergipe e do IBGE. Foi casado e possui um filho, Álvaro Dantas, que hoje se constitui no maior amor de sua vida.
Antes mesmo de enveredar pelos caminhos profissionais de formação acadêmica, Cícero Dantas já se mostrava habilidoso desde os mais simples aos mais difíceis ofícios de sobrevivência. Inteligente, com espírito de liderança, sempre pensando além do momento, foi fazendo da aptidão pessoal o caminho para alcançar outros voos. Então abriu as porteiras do seu sertão e chegou a capital sergipana para dar início ao seu maior: ingressar no curso jurídico, abraçando a carreira do Direito. Cícero queria ser advogado.
Em 2007 iniciou seus estudos na seara do Direito. Mas tudo numa dificuldade danada. Já não estava no seu sertão, próximo aos familiares, e então, como se diz, “tinha de se virar sozinho”. Mas seu esforço e inteligência mais uma vez permitiram vencer mais esses obstáculos no percurso estudantil. Sendo reconhecido como um dos mais capacitados e habilidosos do curso, antes mesmo de sua conclusão já havia preparado sua tese monográfica. E igualmente já inscrito na Seccional da Ordem dos Advogados em Sergipe, pois se submeteu e foi aprovado no exame de ordem antes mesmo da formatura propriamente dita.
Não obstante isso, ainda estudante ingressou como estagiário no escritório do renomado criminalista Evaldo Campos. E após sua formação, em 2012, já integrava os quadros profissionais deste que é um dos mais conceituados escritórios de advocacia de Sergipe e do Nordeste. Atualmente, Cícero é sócio administrador do referido escritório, especialista em Ciências Criminais, com especialização em Processo Civil, Processo Penal e Direito Eleitoral, além de ser professor de Direito na Faculdade Pio Décimo. Acrescente-se que também é um bem requisitado palestrante em simpósios e congressos jurídicos, bem como autor de livro jurídico.
Como observado, em Cícero Dantas de Oliveira avista-se uma trajetória merecedora de todos os reconhecimentos, elogios e aplausos. Mesmo hoje sendo considerado um dos maiores criminalistas de Sergipe, ele continua o mesmo sertanejo dos tempos idos, na sua simplicidade e humildade. Mais que um exemplo a ser seguido, Cícero representa a exemplificação maior da luta para a vitória. Então, carinhosamente levanto, efusivamente, aplausos ao amigo Cícero.


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Lá no meu sertão...


Bonsucesso, em Poço Redondo, sertão sergipano





Aqui esperando (Poesia)


Aqui esperando


Aqui sempre sentado
na calçada do entardecer
e sempre esperando
a esperança acontecer

dia após dia e assim
aqui em meio à ventania
e sempre esperando
o que me traga alegria

o que eu tanto espero
e sem sinal de aparecer
basta que me chegue
e me trazendo você.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - Audiane voltando a sorrir


*Rangel Alves da Costa


Audiane, menina Audiane, um beija-flor me contou que voltou você a sorrir. Mas um colibri me contou que você nunca deixou de sorrir e o que havia, na verdade, era o contentamento pela vida preso dentro de seus medos, angústias e aflições. E foi preciso soprar para fora de si um outono entristecido e sem cor, para que novamente seu jardim florescesse em beleza em resplendor. Coisa boa, menina Audiane, aconteceu em você. Caminhaste sobre espinhos e armadilhas, sobre espinhos e fogo, para enfim encontrar o horizonte cativante da felicidade. As lições aprendidas certamente jamais serão esquecidas, pois servirão para não voltar o passo, para jamais retroceder na aflição, mas as dores sofridas, estas sim, estas foram transformadas em força e fé, em compromisso com a vida e com todos aqueles que tanto a amam e dependem de você. Que notícia boa me deu o beija-flor, pois o reencontro do sorriso, da alegria e do contentamento, é como janela de luz que se abre a todos os instantes de sua vida. E esta janela está em você. Deixe sempre aberta esta janela boa, esta janela de paz, esta janela iluminada, e todos, com igual felicidade, dirão: Audiane está sorrindo. Deus devolveu-lhe o sorriso e Audiane é sorriso de luz!


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domingo, 10 de dezembro de 2017

NAS VEREDAS DE UM MUNDO


*Rangel Alves da Costa


O home tá o restim, só o cangaço. Tomem, pela vida que leva. Coroné pensa que ele é bicho pra sustentar no lombo, pru riba das costas e pru todo lugar, a sina da dor, do sofrimento, do fardo pesado. Mai num é não. O home inté se ajoeia pru causa do peso mai adespois se alevanta.
Tem home covarde, que se ajoeia mermo e se deixa rolar no chute das bota. Mai outo não. Ninguém nasceu fio de uma égua pra ser ispizinhado, martratado, ferido naquilo que é. Argum dia vem o troco e quano o troco é bem dado entonce começa a guerra.
Só seno mermo fi da cegueira mai cega pra pensar que a pessoa, só pruque é pobe, tem de viver debaixo da sola, com as costa esperano chibata, teno que fazer as orde e as desorde mandada pelo outo. E num só isso não. A pobeza num pode ter nada pru mode o poderoso mandar acabar com tudo. Só o rico pode ter tudo, mai a pobeza nada.
Veja que desaforo da gota serena. Pru causo de intriga de terra, se achano no direito de poderoso, entonce vai e manda sangrar uma rês, duas, três, um rebanho intero. E achano que o mai fraco tem que suportar tudo isso calado. Quer tomar na força o terreninho do outo, achano que o mai fraco, o da pobeza, tem de ficar calado.
Mai existe tudo isso mermo entre pobe. Tem gente que é mai ruim que o diacho raivoso. O que dói é quano o pobe se ajunta com o poderoso pra ferrar com a vida daquele que nem tem onde cair morto. Ou quano muito tem uma casinha de barro, um pedacim de chão e duas ou três vaquinha. E uma fiarada que só.
Vida da gota é essa. Vida frebenta da gota serena é essa, seu moço. Quem vai aceitar que uma fia sua, menina nova e aina cheirano a mijo, seja deflorada por quarque um? Mai o poderoso se acha no direito de martratar a bichinha. O pior que achano que tudo vai ficar assim mermo. Fica não, seu moço. Não com pai de famia honrado e valente, que dá a vida mai num aceita uma desfeita dessa.

Num é fáci viver num mundo assim não. O pobe sempre tratado cuma escravo. No mundo sertanejo é cuma se Deus tivesse criado tudo na divisão. De um lado os que tudo pode e do outo os que nem nada pode nem nada tem. E aina pru riba uma tar de justiça pra abençoar os marfeito de quem tem poder. O pobe mata, vai preso e é esquecido, mai o rico manda matar e é cuma nada tivesse acontecido.
Quantas cova rasa, quanta cruz perdida, quanta ossada esquecida nesse meio de mundo? Tudo da pistola, do mosquetão, do clavinote, da espingarda, da arma sedenta de sangue. Tudo ofício da jagunçada a mando do coroné dono do mundo. E quano as casinha de barro e cipó fica sem dono, entonce chegue logo o dono do mundo.
Assim esse mundo. E muito mais pior do que se possa dizer. Entonce pregunto: inté quano isso vai acontecer até que o troco seja dado? E assim pruque tem veiz que o bicho sai de debaixo da sola da bota e sobe botina a riba. E vai subino mais inté chegar no ôio do poderoso e preguntar o pruquê de tanto martrato e tanta preseguição.
Entonce, quano o ôio da honra e da valentia confronta o ôio medroso do poderoso, tudo começa a desandar praquele que se achava arriba de tudo. Agora sabe que já num pode fazer tudo cuma quer sem que a valentia venha cobrar explicação. Entonce a canga é tirada das costa e aqueles tratado como bicho vai ser respeitado.
Entonce é assim que aparece um Antonho Sirvino e um Lampião. É assim que tomem aparece um Corisco, um Labareda, um Vorta Seca, um Canário, um Azulão, um Zabelê, um Sabonete, um Luís Pedro, um Cajazeira, um Balão, um Zé Sereno. Mai tomem muié valente da gota cuma Dadá, Adília, Maria Bonita, Enedina e tantas outa.
Quano a canga foi tirado do lombo, quano o home acordou sua valentia, entonce tudo mudou. O cangaço já num era feito de home tendo de suportar o peso do poder, da injustiça e do mando nas costa, mai ele mermo fazeno valer sua razão de home. E cobrando aina o preço de tanta dor sofrida no passado.
E num venha dizer que cangacero era tudo gente ruim, tudo bandido, tudo matador. Num me venha dizer que entraro na caatinga e arribaro no mundo só pra fazer mardade. Dizer assim é num conhecer a razão de tudo assim acontecer. E pior ainda: é num conhecer o outo lado. Esse sim, matador, carrasco, bandido, com o punhal do poder na mão pra sangrar toda a vida sertaneja. Quem feiz mais mardade no sertão, foi o cangacero ou o poderoso?
Conveusar é fáci demai, saber é que é difíci, seu moço. Só viu a terra tremer quem estava desprotegido. Só viu o sangue jorrar quem num tinha cuma fugir. Só ouviu o grito de dor quem tava do lado do sofrimento. Ninguém se alembra disso. Mai é preciso sempre se alembrar. E pra num tá falano bestera.


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Lá no meu sertão...


Na boca da noite...






Faces do amor (Poesia)


Faces do amor


O amor
acredita
e descredita
que exista
assim tudo
ou apenas
nada

no amor
uma certeza
tão incerta
que sequer
reconhece
que exista
ou não.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – insaníssima mente


*Rangel Alves da Costa


Doida não. Maluca não. Louca não. Desajuizada não. Insana não. Mas insaníssima, além da conta e muito mais. Uma mente tão insana que desaconselha toda e qualquer explicação. Mas tento explicar aqui apenas pelo fato do perigo que ela representa, pois nada mais terrível, medonho e voraz, que uma mente incerta numa pessoa mais incerta ainda e a fazer insanidades que o mundo ensandecido duvida. Beija e cospe no rosto. Afaga e depois fere. Chama de amor e depois esculacha. Dá um sorriso e em seguida quer morder. Dorme abraçada e amanhece querendo chutar. Mostra-se calma e normal, mas num repente já está jogando pedra, ponta de pau e o que estiver à mão. Pede e recebe, mas depois diz que nada foi feito para lhe ajudar. Quanto mais tem mais acha pouco e sem faltar um grão no monte recebido, então o mundo acaba. E existe uma pessoa que é bem assim, completamente assim, mais que doida, mais que insana, mais que maluca. Conheço-a por que sofri em pouco tempo as dores de uma eternidade e o sofrimento quase interminável. Minha ex-namorada. Insanissimamente isana.


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sábado, 9 de dezembro de 2017

LOUVAÇÃO AO CUSCUZ


*Rangel Alves da Costa


Cuscuz, cuscuz, sempre cuscuz. Repetido, novamente trazido à mesa, mais uma vez sobre o prato, na gulodice e no prazer, sempre o cuscuz. Tão bom é o cuscuz que merece ser cantado, louvado, referenciado, ainda que seja puro, sem mistura alguma, apenas no seu delicioso sabor.
Na verdade, o cuscuz é um dos pratos típicos mais apreciados do mundo. Típico por que cada povo costuma ter uma receita própria e à base de milho, arroz, trigo e outros cereais. Dependendo da região, o cuscuz se torna num misturado que mais parece outro prato.
As receitas são muitas, levando miúdos, carnes diversas, queijos, salsichas e outros embutidos, temperos, conservas, dentre outras opções. Mas nada igual ao nosso velho e conhecido cuscuz nordestino, sertanejo de cheiro e fogão. Cuscuz de massa ou flocos de milho, sem mistura, saído fumegante do cuscuzeiro.
Conheço muita gente que se basta no cuscuz puro, sem acompanhamento algum. Até diz que qualquer coisa misturada às fatias amareladas acaba distorcendo o generoso sabor. E com razão. E tem gente que aprecia tanto o prato que é capaz de devorar um cuscuz inteiro em poucos instantes.
“Agora, imagine sendo o cuscuz autêntico, de milho ralado em quintal, cozido em fogão de lenha e recoberto por pano limpo, de onde logo surge uma névoa quente, cheirosa, perfumada, apetitosa, para depois ser fatiado e saboreado com manteiga da boa, ovos de galinha de capoeira ou queijo da terra se espalhando ainda quente pelas fatias e ao redor...”.
Conheci um senhor que causava um problema sério na hora do café da manhã ou do jantar. Sempre queria cuscuz, e puro, mas tendo de ser vigiado pela família para não fugir do limite. Como eram feitos dois cuscuz, sendo o dele um pouco menor, comia inteirinho o seu e depois olhava para os cantos e, não avistando ninguém, corria a pegar fatias no outro cuscuzeiro.
“Agora, imagine se esse cuscuz tão apreciado fosse saboreado com uma xícara de café batido em pilão e torrado, feito em chaleira antiga, derramando pelas beiradas o mel enegrecido dos deuses. Manteiga se derretendo por cima de cada fatia, mais adiante uma porção de tripa assada, fininha, mas daquelas que escorre pelo canto da boca a cada mordida...”.
Muita gente come o cuscuz puro por falta mesmo da chamada mistura. Mas tenho certeza que muito mais gente prefere ele assim, sem acompanhamento algum, pelo simples prazer em comer, em saborear cada pedaço de fatia, e sempre querendo mais. Quando no ponto, nem muito endurecido nem muito molhado, descendo ainda fumegante no prato, realmente faz esquecer qualquer outra comida que possa ser misturada. Basta esfriar um pouquinho e mastigar revirando os olhos.
“Agora, imagine um cuscuz de milho ralado, como aqueles próprios das fazendas e lugarejos afastados, chegando sobre a mesa acompanhado de um bom pedaço de porco assado, uma boa costela de gado, ou mesmo uma carne torrada e oleosa. Antes de tudo, molhar a fatia com o óleo da fritura, depois espalhar por cima uns pedaços já cortados segundo cada garfada ou colherada, e tendo ao lado uma xícara de café negro e encorpado. É um não querer sair mais nunca da mesa...”.
Muita gente prefere pão, inhame, macaxeira, sopa, ou mesmo o que tiver na hora da fome da manhã e da boca da noite. Mas há os verdadeiros apaixonados, fanáticos pelo cuscuz. E tanto faz que seja em floco ou a simples massa, bastando que chegue com aquele cheiro inconfundível do milho cozido. Verdade que o aroma nunca é igual àquele ralado em quintal e cozido sumarento sobre o fogão de lenha, mas a intenção vai pela fome e a fome faz surgir o perfume.
“Agora, imagine um cuscuz caipira, de milho ralado, com leite de coco por cima, ou mesmo leite de gado morno, com nata grossa por riba. Imagine um cuscuz assim acompanhado de uma perna de preá assado, de uma nambu ou codorna, de uma caça qualquer. Imagine um prato assim diante de um cabra que chega cansado ou que tem de ter sustança para o trabalho do dia. A pessoa come de perder a hora, de dar moleza, de dar vontade de somente se estirar numa rede e sonhar. Com mais cuscuz...”.
Sinto o cheiro enquanto escrevo. Tão forte e aromático que não poderei resistir. É cuscuz. Outra coisa não pode ser. Mas dessa vez quero com ovos na banha de porco misturado com tripé. E uma xícara de café batido em pilão.


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Lá no meu sertão...


Alessandro, vaqueiro de Poço Redondo, no sertão sergipano




Todas as canções de amor (Poesia)


Todas as canções de amor


A voz do amor nunca se cansa de cantar
qualquer canção quando deseja amar
por que sua voz nasce de um coração
que canta o amor em versos de paixão

gorjeios e madrigais na voz de um sabiá
sopro de vento que ecoa a sede de amar
como a cigarra grita ao se apaixonar
e a chuva canta a sede do corpo molhar

quero a sua voz cantando uma canção
que vá além do canto e seja declaração
poema de amor cantado em louvação
ao que deseja amar e enche de emoção

assim também o canto dessa minha voz
um grito pulsante tão amante e atroz
canção ecoando o que existe entre nós
e chamando você para cantarmos a sós.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – o gato na manhã


*Rangel Alves da Costa


A noite inteira de gatos miando, gemendo, gritando, atiçando o telhado. Gemidos tão medonhos que causam espantos, miados tão tristonhos que causam arrepios. Talvez os amores derramados debaixo da lua, talvez as saudades choradas na noite, talvez os desejos aflorados na dor da solidão. E assim a noite inteira até a madrugada e além. E assim também todas as noites e madrugadas dos dias. Sempre os mesmos gatos com os seus noturnos de estranhezas e assombros. Contudo, difícil imaginar que a aurora chegue e a manhã desperte e de repente um gato ainda continue gemendo suas aflições no telhado. Mas assim acontece. Ao ouvir sua voz, logo abro a porta e miro em direção ao alto, no telhado, para avistar o bichano na sua agudeza melancólica sem fim. Já é manhã e ele continua ali, de repente miando uma infinita dor, de repente gemendo uma dor indecifrável. Então logo imagino o percurso da noite até chegar àquele triste instante. A noite inteira na solidão, a noite inteira desejando uma companhia, a noite inteira sentindo saudade, e após a madrugada a certeza de nada ter acontecido. Por isso tamanha dor na manhã e a inércia de tudo. Nem vontade de descer do telhado possui. O gato não imagina, contudo, que o meu telhado fica também ali e que choro e sofro a mesma dor da solidão e da saudade.


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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A REINVENÇÃO DO FOGÃO DE LENHA E DO CANDEEIRO


*Rangel Alves da Costa


Nem sempre as tecnologias avançam sem retorno aos seus primórdios. Exemplifica-se com o forçado retorno do uso do fogão de lenha em lugar do fogão a gás. O que surgiu para resolver um problema, pois trabalhoso demais ir à mata todo dia em busca de feixe de lenha para acender o fogão, agora se transformou num problema ainda maior: o custo elevado do botijão, tornando-o já inacessível a grande parte da população brasileira.
Somente este ano, seguidas foram as elevações no preço do famoso gás de cozinha. E cozinhar de manhã, perto do meio dia e ao anoitecer, ainda que não seja muita comida, tornou-se verdadeira preocupação para a população mais carente. Mesmo economizando o máximo, levando ao fogo apenas o necessário, a duração do gás permanece quase a mesma. O valor para aquisição de outro botijão, contudo, totalmente desnorteou a renda familiar. Não é todo dia que a família tem cerca de cem reais para a compra. E acaso compre, será a troca do gás pelo alimento. Então cozinhar o que?
Com o uso da energia elétrica está ocorrendo quase a mesma coisa, mas desta feita com um esforço incomum da população carente para manter em casa um dois bicos de luz acesos. Como ocorre com o preço do gás de cozinha, todo dia é noticiado mais um aumento na tarifa da energia elétrica. Muita chuva motiva aumento, pouca chuva também, escassez nem se fala. Logo colocam a culpa na natureza para sangrar ainda mais a já exaurida pobreza. Fato é que nem todo mundo pode mais utilizar um luxo simples como um ventilador.
Mesmo que o consumo seja mínimo, a conta sempre chega e tem que ser paga em dia, na data, sob pena de logo haver o corte no fornecimento. E quando a família faz as contas e percebe que todo o dinheiro juntado não dá para pagar a farmácia, a água, o gás e a energia, então tudo desanda de vez. Uma situação agravada ainda mais pelos sucessivos aumentos e a diminuição da renda da família. Fato é que não raro a fatura não é paga, o botijão seca e não um vintém para comprar outro botijão, a doença chega e não há como comprar sequer um comprimido.
Uma situação deveras preocupante. Observa-se um empobrecimento maior das classes menos favorecidas economicamente, e com a pobreza forçada o retorno às práticas costumeiras em tempos mais antigos. A única diferença existente é que naqueles idos sequer havia energia elétrica, bico de luz, geladeira ou televisão. Era tudo no candeeiro mesmo, na lamparina ou na placa. O luxo era ter um radinho e radiola, e estes utilizando pilhas para o seu funcionamento. Sim, havia o preço do querosene e do pavio para o candeeiro, também o custo da camisinha para a placa, mas um quase nada perto da dificuldade que se tem hoje para pagar uma fatura.
Quanto ao fogão, fosse de chão, de forno de barro, de cozinha, sempre a lenha do mato, o garrancho, o tronco cortado a machado para alimentar suas chamas. Mesmo retirando a madeira da natureza, ainda num tempo onde a retirada de algumas toras não produzia qualquer efeito danoso à vegetação. Ademais, ou se ia atrás da madeira, da tora ou do feixe de lenha, ou se tornava impossível botar no fogo a panela de barro. Mesmo comida pouca, era por cima da chama ou do braseiro que a carne da caça era cozida, que a tripa e o bucho eram passados na banha de porco, que o cuscuz perfumava todo o quintal, que o café batido em pilão espalhava seu gostoso aroma por todo o lugar.
O problema não é só esse retorno indesejado ao sacrifício de ir catar lenha e trazer o feixe na cabeça ou lombo do animal. Hoje já não existe madeira como antigamente, a lenha está tão escassa que nem mesmo aqueles moradores de casebres solitários conseguem mais encontrá-la pelos arredores. Se no passado juntavam-se feixes e mais feixes pelos cantos das cercas ou nos quartinhos de quintal, hoje seria um pesaroso trabalho a cata de apenas uma porção para um cozido bem feito. Toda a mata foi derrubada, todo pé de pau foi jogado abaixo pela serra ou pelo machado. E poucos teriam dinheiro suficiente para comprar um carvão encarecido exatamente pela falta de madeira.
Foi o costume com as facilidades do gás de cozinha e do bico de luz e da tomada que acabou renegando antigas práticas. Nem pensar em ficar sem minha água gelada, minha novela ou a música no meu som, logo diria uma. E outra certamente diria que prefere a escuridão a se submeter à chama do candeeiro. Nem pensar em acender o pavio ou derramar gás no pequeno bojo. Coisa de pobre, diriam por fim. Não seria diferente com relação ao fogão de lenha. Catar cavaco ou pedaço de pau ninguém vai mais. E sem ter como acender a boca do fogão, não há outra a fazer senão escolher o que vai ser descartado naquele mês de miséria.
E se de repente faltar o gás de cozinha, o bico aceso de luz e a água na torneira? Um desespero total que desde já muita gente tem que ir se acostumando. Ou se reinventa ou vai padecer ainda mais com os absurdos aumentos de todo dia.


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Lá no meu sertão...


Em silêncio...





Culpada (Poesia)


Culpada


Amanheceu
e você longe de mim

no dia longo
e você feito saudade

anoiteceu
e você uma distância

e amanhã
o que será do amanhã

quem sabe um dia
tudo seja vã memória

mas dói demais
escrever minha história

e você apague
toda minha trajetória.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – senhora dona da casa


*Rangel Alves da Costa


Senhora dona da casa, se achegue, por favor. Venho com Deus em louvor, na paz sagrada estou. Forasteiro eu sei que sou, na estrada que Deus criou, caminhante dos sertões, matuto que matutou. Mas chego de longe agora, e já no alto da hora me sinto faminto e cansado, pois recorro à senhora, que se tiver sem demora me alimento e vou embora. O mundo é fácil não, em tudo a devastação, irmão desconhece irmão, todo o ser em aflição, por isso sei que a senhora, antes de dizer não ouça o seu bom coração. Eis um filho que implora um tiquinho de agora e no mesmo passo vai-se embora. Levo na mala o nada, levo no aió a jornada, pois nada tenho pra levar senão o meu caminhar. Não sei onde vou chegar nem o lugar de ficar, só sei que tenho de partir, mas antes de prosseguir queira o seu pão repartir. Repartindo o seu pão, em Deus a multiplicação, matando a fome e a sede desse tão aflito irmão. É o que peço somente, nada além da semente daquilo que de repente é um pouco em demasia. Gota d’água e colher, perante a barriga vazia é um mundo de alegria.


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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

MEMÓRIAS DE UM CALANGO


*Rangel Alves da Costa


Estava de partida. E por isso mesmo, e pela última vez, apressou-se entre os matos rasteiros, vencendo os tocos das macambiras e dos croatás, passou por cima de espinhos e armadilhas da terra, para alcançar a pedra grande onde costumava ficar observando o seu mundo ao redor. Acostumava ficar lá no alto com o jeito tão próprio de qualquer calango: balançando a cabeça, virando de lado a outro, tudo tão rapidamente que parecia o novo surgindo a cada instante.
Era um calango, apenas. E já envelhecido demais para continuar ali na mesmice dos dias. Principalmente agora, quando seu olhar astuto e cheio da sabedoria do tempo, já divisava a chegada de um sofrimento tão conhecido. Não queria ter tal certeza, mas nada lhe negava que a estiagem não demoraria a chegar e com ela todas as consequências mais dolorosas ao homem, ao bicho, a tudo que fosse sertão.
A terra quente, escaldante, quase em braseiro por todo lugar, impulsionava e fazia com que o calango se apressasse ainda mais. Uma galhagem seca despencou do alto e quase estraçalha o seu rabo. Mas não tinha nada acaso fosse atingido naquele lugar. Já nem se lembrava mais de quantos rabos havia perdido na sua luta pela sobrevivência. E não demorava muito para já estar refeito. Certa vez, um machado afiado acertou-lhe em cheio. O rabo ficou e ele saiu como que voando pra dentro de uma toca. Duas semanas ali comendo formiga e outros insetos, até que já estivesse inteiro novamente.
Já tinha ouvido de seu avô histórias do arco-da-velha. Sempre recordava aquelas dizendo sobre Antônio Conselheiro e Lampião. Certa feita, dizia o velho calango, cruzou a vereda onde o Conselheiro passava e quase se dá mal. Apressou-se para fugir daqueles solados de couro cru, mas quando olhou pra cima era o cajado do homem que descia já rente à sua cabeça. É agora, pensou. Mas no instante seguinte, ouviu “aleluia”, e a madeira foi novamente levantada. Já Lampião gostava de treinar pontaria em cabeça de calango. Por isso que onde o bando estivesse lagarto nenhum chegava perto.
Muito sofrido ali, de vez em quando imaginava. Vida de calango não era fácil, dizia a si mesmo. Bicho afoito, miúdo, ligeiro, corredor, mas num sofrimento danado para fugir das surpresas da mata. Seu medo maior era sair em disparada e quando desse conta já estar na boca de uma cascavel ou de outra peçonhenta qualquer. E sabia que corria esse risco a todo instante, não só na sua correria como debaixo dos feixes de mato e dentro das locas de pedra. Não era nada agradável encontrar, lá no fundo da toca, uma peçonhenta pronta para lhe atacar.
Certa feita - e isso jamais lhe saiu da memória -, quase vira comida de gente. Gostava de estar correndo ao redor do casebre sertanejo mais adiante, após uma malhada mais limpa, quando estranhou que toda vez que chegava ali, logo aparecia um menininho, magricela e barrigudo, com uma vara à mão e tentando acertar-lhe a cabeça. Será que esse menino quer mesmo me matar? Indagou. Mas um dia, numa instante em que o garotinho estava dentro de casa, ele se aproximou devagarzinho e resolveu entrar pelo canto da porta.
Lá dentro, logo percebeu o menino chorando e dizendo que estava com fome. Os pais, tristonhos de acabar mundo, nada responderam. Certamente estavam com a mesma fome. Então o calango percebeu o motivo de aquele garotinho tanto correr atrás de sua cabeça com a vara à mão. Queria acertá-lo para depois jogá-lo sobre as brasas do fogão de lenha no quintal. Foi quando o calango chorou, e tão triste ficou que ficou como que entorpecido junto ao barro de um canto de parede. Só despertou quando ouviu o pai dizendo: É um calango, pegue, pegue...
Saiu tão desesperado que nem sentiu o braseiro lhe queimar quando fugiu pela porta dos fundos. Já ao longe e descansado da correria, novamente chorou e novamente sofreu pelo terrível sofrimento daquela família. Mas sabia que todo o sertão estava na mesma agonia. Sabia que por todo casebre e por todo barraco havia uma família no mesmo padecimento. E por isso mesmo comendo calango, cobra, folha, palma seca, o que encontrasse para fingir de comida.
Nunca mais retornou pelos arredores daquela casinha. Tinha vontade sim, um desejo imenso de avistar novamente aquele barrigudinho. Mas era melhor evitar. Talvez sofresse mais ou talvez encontrasse a mesma vara em sua direção. Agora corria e se apressava por outros caminhos, porém em cima do mesmo queimor de terra. E seu objetivo agora era alcançar logo a pedra grande e de lá de cima se despedir daquele lugar. Do alto olhar ao redor, avistar aquele seu misterioso. Despedir-se como alguém que dá adeus àquilo que tanto amou. Doía-lhe por dentro, mas tinha que partir.
Mas partir pra onde? Perguntou a si mesmo. Lá longe o asfalto é quente demais e o pneu é duro demais. Não há como sobreviver no mundo dos homens. Então desceu da pedra e foi em direção ao casebre daquele menino barrigudinho.


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Lá no meu sertão...


Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo - Feliz Natal!





Um Natal no Sertão


Um Natal no Sertão


Então é Natal...
a música ecoa pelas distâncias
mas pelas estradas sertanejas
seguem os Três Reis Magros
Reis Magos não, Magros mesmo
talvez famintos, talvez tristonhos
levando nas roupas os rasgões
levando no embornal o nada
nenhum presente para os seus
mas é Natal, diz a música...

então é Natal...
Maria e José logo terão um filho
Joana e Pedro já tiveram muitos
e tantos meninos Jesus sertanejos
chegados no capim da manjedoura
para depois chorar sofrimentos
a cada novo dezembro que chega
em eterno presépio de pobreza
mas é Natal, diz a música...

ao longe um brilho nas casas ricas
os presentes bonitos comprados
iguarias e espumantes guardados
roupas douradas para o brilho
de uma ilusão doentia e cega
pois os olhos jamais enxergam
que adiante há uma estrada nua
e nela aqueles Três Reis Magros
guiados por uma estrela apenas

e todos seguem à sua manjedoura
pois ali os tantos meninos choram
pois ali meninos Jesus sertanejos
nascem e crescem e sobrevivem
querendo apenas um pão do Natal!


Rangel Alves da Costa