SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 22 de maio de 2017

O LAMPIÃO DE NELSON XAVIER


*Rangel Alves da Costa


Quem não se recorda daquela cena de abertura da minissérie “Lampião e Maria Bonita”, quando o Lampião protagonizado pelo ator Nelson Xavier aparece à frente de parte de seu bando e num instante, como se estivesse percebendo algo estranho nos arredores, primeiro levanta a mão direita e depois a esquerda, em sinal de alerta? Ao som de um refrão da maravilhosa “Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor”, na voz plangente de Amelinha, a minissérie produzida pela Rede Globo de Televisão em 1982, passava a contar, embora de modo fictício, a história do mais famoso casal nordestino, senão do próprio cangaço.
Interessa notar, contudo, que desde esta cena de abertura já se percebia a força interpretativa do grande ator que foi Nelson Xavier. Ninguém jamais interpretou Lampião, o líder cangaceiro dos carrascais nordestinos, como o ator paulista nascido em 1941 e falecido recentemente, em 10 de maio. O que se tem a partir daí e ao longo de toda a trama é um ator vestido e revestido de corpo e alma num personagem. Não há caricatura, não há trejeitos forçados, não há mera imitação. O que há, na verdade, é a concepção mais original possível daquilo que de uma forma existiu. E Nelson Xavier traduz com máxima expressividade esse autêntico nordestino, com seus mistérios e segredos, sua tenacidade e carisma.
A minissérie da Rede Globo, escrita por Aguinaldo Silva e Doc Comparato, com direção de Paulo Afonso Grisoli e Luiz Antonio Piá, alcançou retumbante sucesso não pela história contada, descontextualizada que foi dos fatos reais. O pano de fundo é o cangaço, mas com trama fictícia. O que permitiu seu reconhecimento e aplausos foi justamente a beleza das interpretações conduzidas por Nelson Xavier como Lampião e Tânia Alves como Maria Bonita. Ao lado dos cenários nordestinos, da riqueza de detalhes que despertavam interesse maior pela saga, bem como da encarnação dos atores refletindo com exatidão os seus personagens, o resultado não poderia ter sido melhor.
Ora, impossível agora traduzir todo o gestual de Virgulino Ferreira da Silva, o seu modo exato de andar, de falar, de comandar e conviver com o seu bando e demais pessoas alheias à sua saga, porém não menos envolvidas. Sabe-se, porém, e através de relatos, que Lampião era místico, “cabreiro”, metódico, de palavras comedidas e ordens veementes. Mas pouco mais que isso se conhece do líder estrategista das caatingas nordestinas. Como chefe de bando, certamente impunha a seu modo a condução de sua luta. Já o homem em si, o Lampião de nome e sobrenome, na sua intimidade e como ser preocupado com o seu destino, ainda não foi totalmente decifrado. Contudo, Nelson Xavier expôs esse retrato com maestria.
E assim por que o Lampião encarnado por Nelson Xavier é verdadeiramente aquele que se mentaliza ou se imagina sobre o rei cangaceiro. Aquelas mãos entrecruzadas, cheias de anéis dourados, são as mãos de Lampião. Aquela figura cheia de cartucheiras, embornais, lenço ao pescoço, chapéu estrelado, armas e outros adornos, não pode ser outro senão Lampião. Aquele olho mais baixo atrás de óculos arredondados, cego, que nunca se abre totalmente em qualquer cena, é o olho de Lampião. Aquele rosto nordestino, moreno, queimado de sol, só pode ser o semblante de Lampião. Aquele gestual, aquela fala, aquele jeito de andar, só pode ser mesmo de Lampião. Sim, é Lampião, mas é Nelson Xavier.
O papel desempenhado pelo ator paulista foi algo incontestável em termos de dar contornos de revivência ao emblemático personagem. No gestual, na força interpretativa, no semblante e no olhar de olho cego, bem como nas demais expressões requeridas, em todos estes aspectos Nelson Xavier se fez imenso, enorme, essencial, como se nenhum outro ator pudesse captar e transpor com tamanha originalidade os passos, as lutas e os cotidianos do rei do cangaço. Por isso mesmo que nunca é demais afirmar que quem nunca conheceu Lampião pode encontrar a maior proximidade possível no personagem vivido por Nelson Xavier. O ator sempre dizia que o seu melhor papel havia sido o de Chico Xavier. Mas todo mundo o relembra sempre como Lampião.
E relembra também aquela abertura da saga cangaceira com os versos de Otacílio Batista e Zé Ramalho: “Virgulino Ferreira, o Lampião, bandoleiro das selvas nordestinas, sem temer a perigo nem ruínas, foi o rei do cangaço no sertão. Mas um dia sentiu no coração o feitiço atrativo do amor, a mulata da terra do condor dominava uma fera perigosa. Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor”.
“Santinha, hoje vamo arribar daqui...”. Dizia Nelson Xavier na trama. Mas eu tinha certeza que ouvia do próprio Lampião.


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Lá no meu sertão...


               Eu e Myllinha...



Menino menino (Poesia)


Menino menino


Menino vá ali
catar carambola
e jabuticaba caídas

já vou
já vou!

menino vá ali
calçar sapato
e ser homem feito

vou não
vou não!


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - sou o silêncio da pedra e o grito silencioso da pedra


*Rangel Alves da Costa


Não é poesia, é verdade: sou o silêncio da pedra e o grito silencioso da pedra. Dura, esquecida no meio do tempo, sem amigo que chegue pra prosear, vencendo o sol e a chuva, eis a pedra. Pedra incompreendida, evitada, indesejada, malvista, culpada por tudo. Ora, sempre dizem que há uma pedra no meio do caminho, que no meio do caminho há uma pedra. Tida como insensível, embrutecida, arrogante, impenetrável demais. Contudo, apenas uma pedra. E esta pedra senão o meu eu petrificado na beira da estrada, no meio do mundo, nos beirais da vida. Quem me avista há de dizer que viu uma pedra. Não tenho palavras. Não tenho carinho. Não tenho afetos. Não tenho carícias a oferecer. Somente sou assim por que somente sou assim. Ano após ano e chega a ventania a me açoitar, ano após ano e chega a tempestade a me encharcar, ano após ano e chegam os redemoinhos e os vendavais querendo me açoitar. As pessoas fazem assim também. Ninguém chega para sentar ao meu lado e filosofar a vida. Ninguém chega e ao redor de mim canta uma canção tão bela e tão antiga. Ninguém reconhece a pedra senão como um estorvo. Mas melhor que seja assim. Eles passarão e eu, mesmo em pó transformado, aqui continuarei. Por enquanto sou apenas o silêncio da pedra e o grito silencioso da pedra.


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domingo, 21 de maio de 2017

UM CAFEZINHO, AGORA...


*Rangel Alves da Costa


Aqueles meus afetos estão perdidos e agora só me resta uma xícara de café. Mas amo do mesmo jeito. Sem boca pra beijar, roço o lábio na borda da xícara e me imagino sorvendo um beijo gostoso. Não quero pensar nisso agora. Já desde mais de duas horas que não tomo um cafezinho e necessito de seu afago. Uma pequena xícara, apenas, mas como uma companhia que me ouve e fala baixinho. E a tudo compreendo.
Não vivo sem um cafezinho. Acaso não houvesse nem o pó nem o grão, certamente derramaria na xícara um punhado de noite sem lua e depois, lentamente, sorveria um instante de alegria e prazer. Mas lá dentro a água já ferve e a xícara já está ao redor, o café também, então não há com o que me preocupar. Porém preocupo-me sim. Basta levar a xícara à boca e é como se no caldo oloroso e enegrecido também chegasse uma saudade grande. Saudade amarga, fervente demais, de coisas tão presentes e tão distantes.
Mas enfrento o medo para tomar um cafezinho agora. Sigo até o fogão e de lá retorno com a pequena xícara que diz muito mais que a largueza do mundo e de tudo. Não há poesia minha que não venha antecedida por um gole de café, não há prosa minha que não surja molhada de café, não há qualquer escrito que não chegue perfumado e com inigualável sabor. Talvez esteja no café minha inspiração, vez que sem qualquer gole também nada sei fazer. Sequer pensar. Depois de um cafezinho e um cigarro eu me torno poeta, profeta, filósofo, um sábio. Mas também menino, também nostálgico, também em busca de mim mesmo através de outros passos passados.
Fogo de chão, de tora e gravetos. A chama valseia pelo ar enquanto a chaleira repousa sobre o braseiro. Um momento mágico na vida interiorana de onde vim. Agora mudou, mas por lá nunca era um café qualquer. Café de verdade, café torrado, batido em pilão, peneirado, pronto para formar o caldo grosso ao ser juntado à água fervente. Daí era só esperar um pouquinho até que as borbulhas começassem a surgir e o líquido oloroso e aromático se derramar pelas bordas. Nem precisava de coador. Dali mesmo ia direto à xícara. E que coisa tão boa de recordar.
Mas quero um cafezinho, agora... E depois mais outro e mais outro. Adoro café. E café negro retinto, forte, sem açúcar, chegando ao oleoso perto dos lábios. Sempre gostei de café, mas não nesse metodismo apaixonado. Por muito tempo experimentei o café comum, desses servidos pelas mesas de jantares e desjejuns. Lembro-me muito bem que minha concepção de café se iniciou pelo seu aroma perfumado ao entardecer.
Na cidadezinha onde nasci, lá pelos sertões sergipanos mais distantes, o entardecer era uma verdadeira festa ao olfato, senão a todos os sentidos. Dona Lídia primeiro torrava o café em grão, depois batia no café pilão, para mais tarde despejar o pó no caldeirão fervente ao fogão de lenha, pois era muito café para servir a tanta gente ansiosa por uma xícara de seu esmerado preparo. E então, uma festa pelos ares. Quando fui lá implorar um pouquinho na xícara, jamais imaginaria que eu iria verdadeiramente me apaixonar. E me fiz assíduo daquela xícara a todo entardecer sertanejo.
Tempos depois, já na capital sergipana, passei a experimentar café de máquina de balcão. Uma delícia também, pois o autêntico café era despejado diretamente na água fervente da máquina e já descia borbulhando e oleoso. Hoje em dia está muito difícil encontrar um bom café pela cidade. Aquelas máquinas praticamente não existem mais. Os cafés modernos perderam o gosto e a essência. Mas isso não me faz menos apaixonado pelo café, que bebo desde as quatro da manhã até a noite chegar. Infelizmente café solúvel, mas não o que fazer. Esquento a água e depois despejo na xícara já com duas colheradas pequenas de grãos miúdos. Em seguida vou ao portão avistar e sentir a chuva caindo, reabrindo velhos baús na memória e recordando ainda aquele entardecer sertanejo e o café de Dona Lídia.
Por isso que bebo na xícara e na memória aquele cheiro gostoso de outrora. Dispenso o uísque, rejeito o bom vinho, mas peço-lhe encarecidamente que me traga um cafezinho. E agora.


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Lá no meu sertão...


No coração cabe um porta-retratos?



O pássaro (Poesia)


O pássaro


O pássaro
voa e voa
no horizonte
a sua proa
e alegre
assim à toa
a altura
povoa
e seu canto
ecoa

o pássaro
que voa e voa
ao retornar
novo canto
entoa
e na tristeza
destoa
pela solidão
que magoa.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - o gato


*Rangel Alves da Costa


Não faz muito tempo que presenciei uma cena das mais apavorantes. Com efeito, neste domingo 21/05, logo cedinho, eu estava dedilhando no computador quando ouvi um barulho forte pelas dependências da casa. Levantei, abri rapidamente a porta do escritor, e logo compreendi a situação: um cachorro de um parente meu havia se soltado e queria a todo custo abocanhar um gato também do mesmo parente. O cachorro valente, parecendo faminto, avançava feroz pra cima do bichano e este, desesperadamente tentando se defender, lançava suas patas contra as investidas vorazes. Que cena lamentável. Mais um minuto e o cachorro sangraria o gato. Sem outra coisa a fazer, lancei mão de chutes e de um cabo de vassoura até enxotar o valente. E no cabo de vassoura levei-o para onde não deveria ter saído. E depois disso, talvez ainda amedrontado, o gato não larga mais o meu pé. Fui aprontar um cafezinho e ao retornar encontrei-o em cima do meu birô. Exige que descesse. Desceu, mas desde então permanece deitado juntinho de mim, bem rente aos meus pés. Medo, temor de nova investida do cachorro, busca de proteção ou mero gesto de agradecimento? Não sei. Só sei que o bichano continua aqui.


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sábado, 20 de maio de 2017

O ESPANTO E O GRITO: EDVARD MUNCH ANTECIPANDO NOSSO APOCALIPSE DE AGORA


*Rangel Alves da Costa


Nestes momentos de pavor extremo, não seria algo de outro mundo se a bandeira nacional, ao invés da geometria pátria ornando o lema Ordem e Progresso, passasse a ostentar aquela imagem eternizada pelo pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944) na sua pintura O Grito, na primeira versão de 1893. A força expressionista é tamanha que logo traduziria a fisionomia e o sentimento do povo brasileiro comum ante os últimos acontecimentos envolvendo políticos e até o governante maior.
Com efeito, nada mais representativo à realidade nacional de momento do que o simbolismo expressionista contido na famosa pintura: algo parecido com um ser humano, de feição e sexo indefinidos, tendo ao fundo um mar azul, atravessando uma ponte e no seu semblante um olhar espantado, aflito, angustiado, aterrorizado, tendo por consequência o grito. Grito este que mesmo silenciosamente se ouve por todo lugar. No caso brasileiro, o grito sufocado, pasmo, terrificado.
Ora, tudo na pintura se afigura à nossa espantosa realidade. Há uma paisagem marinha ao fundo, uma menção perfeita às nossas belezas praieiras. Há uma ponte representando uma passagem de uma situação a outra, que talvez seja o próprio futuro da nação. Há um ser misto de humano e fantasmagórico, andrógino, que simboliza sem igual o brasileiro que sequer se reconhece mais como ser real ou como um frankensteiniano entrecortado pelas agruras. E que contexto apavorante!
E o que simbolizaria aquele olhar atônito, aqueles olhos aterrorizados e emoldurados por mãos que seguram o rosto transparecendo não acreditar no que vê, não crer na visão daquilo que está mais adiante? Nada mais que o espanto diante daquilo que de repente se tornou o Brasil, como se estivesse se deparando com monstros invencíveis. Os monstros que surgem dos labirintos do poder, da governança, do empresariado, da política, mostrando suas garras odiosas e destrutivas.
O espanto, o assombro, o sobressalto, o não acreditar no que está adiante: um país afundado em lamaçais putrefatos, um esgoto de onde saem ratos graúdos e asquerosos, um covil de serpentes venenosas, um leito apodrecido por onde jorram as fedentinas da corrupção, da improbidade, da ilicitude, da evasão de divisas, do peculato, de infinidade de crimes abismais. Os lixos debaixo do tapete não teriam mais cabimento. Não há tapete que comporte tamanha imundície. E o que se viu foi tudo ser lançado pelo ar como praga devastadora.
Que país é este de agora que espanta e faz gritar? Não há silêncio ou mudez que não sejam rompidos pela espantosa e vergonha realidade a que todos se submetem. E por causa de alguns ladrões, alguns espertalhões, alguns corruptos. E por causa dessa nefasta política de espertalhões e aproveitadores, de corruptores e corrompidos, de mafiosos e ladrões baratos. E por causa dos tratamentos diferenciados entre ladrões de milhões e ladrões de galinhas. E por causa das impunidades que afagam as improbidades e as ilicitudes políticas e governamentais desde os tempos mais antigos.
Diante de uma situação dessas, não há grito que não grite. Não se tem mais um só dia que não surja um novo escândalo envolvendo Brasília, envolvendo aqueles que deveriam ser os responsáveis pelo crescimento e desenvolvimento nação. Ora, por que não há o crescimento e o desenvolvimento tão almejados pela população? Simplesmente por que roubam tudo, desviam tudo, fazem do dinheiro público um vergonhoso festim. E ainda chamam ao banal da sem-vergonhice o alto empresariado, de modo que este suporte bancar a outra parte da insaciável fome da corrupção.
Aquele olhar atônito, esbugalhado, espantado, não avista mais que isso. Mas talvez aviste muito mais. Direcionado que está a Brasília, neste horizonte o que vislumbra na paisagem do poder o deixa verdadeiramente estarrecido. Deixa para trás o mar de real beleza, atravessa a ponte, gritando, gritando, gritando. E adiante vai afundar, junto com o próprio País, no abismo das incertezas.
Desse modo, com o seu O Grito, nunca é exagerado intuir que Edvard Munch antecipava o apocalipse brasileiro de agora. E um Apocalipse cujo juízo final não deixará a salvo nenhum daqueles pecadores da política e do poder. Todos, absolutamente todos, cairão.


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Lá no meu sertão...


               Mesmo sem qualquer promessa de apoio até agora, em junho do próximo ano esse povo e o Memorial Alcino Alves Costa realizarão o maior evento da história de Poço Redondo: CARIRI CANGAÇO POÇO REDONDO!







Com cravo e canela (Poesia)


Com cravo e canela


Na boca
queijo e goiabada
bolo e cocada
mamão e mel
e cadê o beijo?

beijo adocicado
beijo com cravo
e muita canela
dentro da panela
da boca.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - uma igreja sem telhado


*Rangel Alves da Costa


Em Poço Redondo, no sertão sergipano, a igreja matriz está sem telhado desde que a estrutura desabou há uns sete meses atrás. Depois disso, toda missa é celebrada a céu aberto, ao dispor das intempéries naturais e o querer da lua em iluminar mais ou menos. “Abismus et reduction ad absurdum”, ou o abismo reduzido ao absurdo, é este o melhor provérbio para traduzir o que vem ocorrendo com o a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo. Será que as paredes cada vez mais úmidas terão que também cair para que restem somente escombros? Será que o piso terá que afundar para que reste tão somente o abismo? Cristo Deus, Pai Eterno! Qual a consideração que o homem tem pelo templo sagrado de sua fé? Qual o respeito que os poderes têm para com a religiosidade de um povo? Ora, igreja não vota, e por isso mesmo que tanto faz que ela acabe de vez ou não. Assim devem pensar os políticos. Santo e Misericordioso Deus, quanta ingratidão contra uma igreja que clama de mão estendida. Que o Livro de Ouro da Perseverança e da Fé seja aberto e repassado a partir de agora perante governantes, políticos, empresários, poderosos. Será preciso mostrar que a igreja agora chora, sofre, implora. E não se pode esquecer que ali também é a casa de cada um. Ali um Pai e uma Mãe esperam pelos seus filhos.


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sexta-feira, 19 de maio de 2017

A SAUDADE


*Rangel Alves da Costa


Assim no sorriso, assim na alegria, assim na paz, mas de repente a saudade vem devastando tudo. O mundo presente vai abrindo portas e janelas, a realidade presente vai buscando feições e estranhas sensações, a vida vai se tornando triste, pesarosa, e tantas vezes lacrimosa. Mas o que aconteceu? Simplesmente a saudade, esse mistério d’alma que toma conta do ser e transmuda tudo em passado, em memória, em vontades, em dores pelas ausências.
A saudade é sentimento dos mais estranhos. Também dos mais exigentes. A saudade não vem a qualquer hora nem em qualquer lugar. Nem tudo provoca saudade. Ela exige motivação e ambientação para acontecer. É sempre romântica, nostálgica, cautelosa demais. Gosta de aparecer junto com o pôr do sol, debaixo do clarão da lua, em instantes de chuva, assim que ecoa uma canção antiga. Também gosta de ser provocada. Parece adorar quando a pessoa vai em busca de velharias, de baús, retalhos e velhos recortes dos tempos idos.
Nada atiça mais a saudade que um retrato de pessoa amada, uma carta de amor, uma visão ou perfume que produza aquele tão conhecido e doloroso sentimento de querer de novo. Tudo isso provoca saudade e disso ela se alimenta. Alimenta-se ainda da solidão, das casualidades da vida, das pequenas coisas que fazem relembrar. Gosta de ter um lenço ao lado, uma vela para ser acesa, um copo de bebida, uma taça de vinho, mas também três a cinco gotas de veneno.
O veneno da vontade de não mais existir diante de tanta saudade. Por que ela também é devastadora. O dia inteiro ela se oculta na alma e faz transparecer que tudo está tão bem que nada poderá afastar a vivacidade, o sorriso e o contentamento. Traiçoeira demais. Parece mesmo esperar o momento exato para reaparecer e agir. E sem querer, muitas vezes apenas porque ouviu a onda quebrando no cais, a pessoa começa a recordar e a sofrer. Então a saudade sorri, mas um sorriso dissimulado e frio. E também devastador.
Como diria o poeta, a saudade é pássaro, é passo, é vento soprando. Possui asas, vai e volta em instantâneos voos. Num instante e já está trazendo no seu bico um bilhete que faz atormentar ainda mais. Com poder próprio de ação, de comando de vida e destino, ela abre a janela, escancara a porta, e segue adiante em correria. Não se incomoda com curvas, desafios ou perigos, pois sobe da terra e alcança as nuvens. O pensamento é seu caminho mais certeiro, aquele por onde trafegam as vontades, os desejos, as necessidades da alma.
No encontro à desilusão, eis que mesmo tendo voz de súplica, a saudade não consegue transportar o outro até a presença de quem tanto entristece pela distância. Talvez esta seja sua maior falha: sente necessidade de ter bem ao lado, de usufruir, de se dar, e por isso mesmo se apressa em direção ao desejo, mas não pode transportar fisicamente a pessoa desejada. E a certeza de ter avistado na mente, a certeza de ter conseguido estar face a face, bem como a certeza que o reencontro, tudo acaba avivando ainda mais o amor sentido. Amar tanto e não ter a presença, assim a consequência mais dolorosa provocadas pela saudade.
Através da saudade a mente avista, o corpo sente, parece que está à presença, tudo se transforma em possibilidade, mas apenas a ilusão que conflagra e devora. Sofre, chora, se aflige, se atormenta, mas nunca desiste, pois toda grande saudade sempre retorna, e tantas vezes mais forte que a pessoas chega às portas do ensandecimento. E como vento vai, ganha asas novamente pelo ar e faz surgir da aflição uma velha cantiga de amor. Nada canta mais que a saudade, nada perfuma mais que a saudade. De repente chega a ilusão de se ouvir a velha canção, de sentir um inexistente perfume, de reencontrar as distâncias e além.
A saudade é tão ardilosa quanto estrategista. Se oculta, se mantem escondida, foge de situações para reaparecer em outros contextos. Sempre silenciosa, premeditadamente soturna, só fala intimamente e muitas vezes chegar a gritar o mais alto dos gritos. Talvez com poderes mágicos, acaba conduzindo a pessoa para ambientes propícios a desvelar seus mistérios. Abre a porta do quarto sem se preocupar em acender a luz e simplesmente diz: agora sinta toda saudade guardada no peito, incontida na alma, revelada no teu coração que desespera por tanto esperar qualquer reencontro.
E no silêncio do quarto escuro, em meio a mais aflitiva das solidões, novamente faz surgir a sua silenciosa voz: agora reencontre na mente o que deseja, vá buscar no pensamento aquilo que lhe faz tanta falta, e não veja distância naquilo que pode ter agora ao teu lado. E vai fazendo com que a pessoa relembre a face do amor distante, traga ao pensamento os laços familiares que já estão em outra dimensão, relembre momentos e situações e tenha necessidade de ter tudo de volta, ao menos por alguns instantes. Depois de atormentar a alma, de afligir todo o ser, simplesmente vai embora.
Vai embora, porém sempre retorna. Deixa apenas o lenço molhado secar para retornar.


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Lá no meu sertão...


Um sorriso, apenas...




Lágrima de rio e mar (Poesia)


Lágrima de rio e mar


Era noite
chorei
uma
duas
lágrimas
mas depois
um rio
um mar

era manhã
e me avistei
tão triste
e solitário
que naveguei
pelo rio
pelo mar
e naufraguei.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - as priquitinhas estão chegando


*Rangel Alves da Costa


As priquitinhas estão chegando. Como se fossem aves de arribação que em determinados períodos do ano migram em revoada, assim também com as priquitinhas quando se aproxima o período junino. Vindas de outros estados nordestinos (principalmente Bahia e Pernambuco) e colocadas à venda nas esquinas, nas calçadas, debaixo das marquises de lojas e por todo lugar, logo se avista um cordame contendo uma dezenas delas, e cada uma mais bonitinha que a outra. São de acolhidas sempre prazerosas e aceitas por quase toda a população que gosta de possuí-las em meio aos festejos juninos. Digo das priquitinhas de couro cru - ou mesmo sintéticas - que são de vendagem garantida por toda a cidade. São chinelas baratas, tipicamente nordestinas, em diversos moldes e modelos, e que quando calçadas provocam uma sensação bucolicamente interiorana. Verdade que são malcheirosas quando molhadas e que soltam suas tiras pelo descuido ou utilizadas demais pelos salões forrozeiros, mas tão barata é que vale a pena ter sempre um par reservado às imprevisíveis situações. Quanto custa uma priquitinha? Vinte, no máximo trinta reais, dependendo do couro e do modelo. E elas estão à venda por todos os lugares do centro, exalando aquele cheiro típico de couro novo e chamando cada pessoa que passa ao seu desfrute.


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quinta-feira, 18 de maio de 2017

O ÚLTIMO BOLERO NO PARIS CABARET


*Rangel Alves da Costa


Que noite mais triste aquela. Ainda hoje se comenta da tristeza infinda daquela noite, num entremeado de choros, prantos, chiliques, discursos inflamados, e sexos declaradamente órfãos de safadeza. A tristeza foi tão grande que no dia seguinte ao ocorrido uma velha prostituta enfartou subitamente e caiu já sem vida de pernas abertas, numa posição das mais esquisitas. Já outra novinha, depois de cortar os pulsos em dois lugares e ainda assim sobreviver, eis que subiu na ponte e se atirou deixando bilhete: “Lá em cima ou lá embaixo, alguém ainda há de me comer”.
Só isso. Mas por que assim? Sem os senhores do cacau como clientes certeiros, vez que a vassoura de bruxa havia deixado o mais rico quase pedindo esmola, toda a pujança do Paris Cabaret - nome pomposo e convidativo à dinheirama - começou a definhar. Os uísques desapareceram e no seu lugar os copos com cachaça barata. As mulheres tão cheias de bijuterias e demasiados perfumes, de repente passaram a ser avistadas em penduricalhos, malcheirosas e sempre embriagadas. Os marinheiros do porto também haviam sumido. Os errantes e noctívagos ali já chegavam bêbados a cochilar pelas mesas.
Uma pobreza só por todo lugar. Raramente aparecia um cliente para ser disputado quase a tapa pelas quengas de plantão. Então, já sem poder manter o cabaré de portas abertas, o proprietário aviadado tomou a decisão de fechá-lo. Quase o mundo se acaba depois que a notícia foi dada. Choro, gritos, desmaios, ameaças de tirar a vida ali mesmo. Mas não houve jeito. Cada mulher tomou seu destino e o famoso caberá fechou as portas. Mas não de vez.
Ao anoitecer do dia seguinte, entrando pelos fundos, Clarimunda Boca de Pelúcia acendeu um bico de luz do salão principal, colocou um bolero na vitrola, virou um copo de cachaça e se pôs a dançar sozinha, chorosamente relembrando seus dias de quenga novinha e sempre disputada pelos coronéis cacaueiros. Mais um copo de cachaça, mais um bolero, e a mulher enlouquecidamente dançando sozinha pelo salão. De repente a luz apagou, a música parou na vitrola, apenas vozes foram sendo ouvidas, cada vez mais presentes, mais próximas, ali mesmo no salão.
“Coroné Salú, não há como duvidar que a safra vai ser boa demais esse ano. Não há um só pé de cacau que não esteja pingando de fruto grande, dourado, amarelado. Vou mandar cacau pra esse mundão inteiro. Se mais porto tivesse por aqui, mais porto eu ainda ia precisar pra mandar tanto cacau pra todo lugar. Mas também tenho de ganhar muito dinheiro pra sustentar meu gosto por essa putaiada toda. E só gosto de xibiu novo, seja a que preço for. Sendo novinho e ajeitadinho eu tô em riba. Já até encomendei uma duas novinhas lá do recôncavo. Vi dizer, compadre Salú, que lá pelas bandas do recôncavo é de se achar mulher novinha como cacau em safra boa. Se não fosse a gorducha da minha esposa, até que eu ia mandar trazer uma sob encomenda pra viver comigo. Já envelhecido como eu, só mesmo perfume de xibiu novo pra trazer força e encorajamento. Essas daqui já comi a me fartar. Tem umas que até dá pra pagar um pouco mais. Lembro muito bem que por muito tempo eu me achava até o dono dessa quengaiada toda. Mas foram sendo usadas demais, envelhecendo, e hoje só resta esse resto aí. Só venho aqui mesmo pra não perder o costume. Mas o que faço mesmo é beber meu uísque, dar dinheiro a uma e outra e depois ir embora. E sei que isso logo vai fechar quando o coronel do cacau se bandear pra outro cabaré. Aí num sei o que há de ser dessa quengaiada. Xibiu tem, mas dá a quem, num é mesmo Coronel Salú?”.
Desnorteada, bêbada, completamente fora de si, Clarimunda enlouquecia no silêncio de seu absurdo. Ouviu vozes inexistentes, sentiu fantasmas antigos, silenciou o bolero que ainda toca sem parar. Apagou o bico de luz que ainda continuava aceso. A aflição tornada em completa loucura. Rasgou a roupa, passou o punhal das unhas pontudas sobre a pele. Estava irreconhecível. Bebeu mais do que encontrou pela frente. Tateando, subiu ao balcão e gritou, cantarolando: “Perfume de gardênia, tem a sua boca...”. E depois despencou ao chão.


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Lá no meu sertão...


Eu e o Pequeno Levy...





Lábio (Poesia)


Lábio


Não quero bombom
nem sorvete bom
apenas boca de batom
lábio de suave marrom
prazer nesse meio tom

e sentir no lábio a flor
e sentir na flor o sabor
e no sabor o clamor
do corpo assim pecador
tão amante do amor.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - os imorais políticos e sociais


*Rangel Alves da Costa


Não tem jeito não. Tudo está afundadamente afundado, e bem fundo, como diria o outro. O tapete não suportou guardar debaixo de si tanta coisa podre, lançou aos esgotos, em lama se transformou, entrou em estado de putrefação e hoje está aí essa imundície toda. Governante, ex-governante, secretário, ministro, político, poderoso, tudo agora mostrando sua verdadeira face, sua feição mais vergonhosa. De cima abaixo, do primeiro ao último escalão, só há ladrão, desonesto, pilantra, espertalhão, picareta, imoral, safado, mentiroso, finório usurpador de todas as virtudes públicas. Como há gente safada nesta República, como há gente sem um mínimo de caráter neste Poder, como há salafrário neste Planalto, como há verme asqueroso nesta Política, como há mafioso e desonesto neste Brasil. Contudo, não seria de se esperar muito diferente. Não seria de se esperar que o homem comum após ser eleito ou passando a exercer alto comando no poder, mudasse o senso de esperteza presente na maioria do brasileiro. O povo comum, o povo em si, gosta de tirar proveito em tudo, gosta de se dar bem demais nas mais diversas situações de vida, e não pensando duas vezes em dar rasteira no próximo para alcançar seus objetivos. Esse caráter um tanto duvidoso do povo, nunca iria mudar naquele do povo que é eleito. Uma vez alcançado o poder, logicamente que vai agir com esperteza diante das novas possibilidades. E as possibilidades de agir espertamente são muito maiores: dinheiro muito, benesses muitas, a farra das convidativas ilicitudes. Então se lança de corpo e alma no lamaçal. Mas ali está apenas o homem saído do povo, pois a gente comum age da mesma forma se encontra um modo de se dar bem perante o que esteja ao alcance.


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quarta-feira, 17 de maio de 2017

POR QUE DURVAL RODRIGUES ROSA TEVE DE RENUNCIAR À PREFEITURA DE POÇO REDONDO EM 1964?


*Rangel Alves da Costa


Durval Rodrigues Rosa foi umas das maiores expressões da política do sertão sergipano, principalmente em Poço Redondo, onde o grupo político sob o seu comando saiu vencedor em diversos pleitos eleitorais, elegendo não só a si mesmo por duas vezes (1963/64 - 1977/1982) como a seus filhos João Rodrigues Sobrinho, mais conhecido como João de Durval (1971/72), e Ivan Rodrigues Rosa (1993/1996), além de ter participado vitoriosamente de outros pleitos.
Seu Durval, como mais conhecido, faleceu aos 83 anos em 28/09/2003, ainda sob o manto da respeitabilidade enquanto forte liderança política. Poucos sabem, contudo, que o filho de Dona Guilhermina e de Seu Cândido teve ameaçado até de ser preso quando eleito pela primeira vez em Poço Redondo. Em plena gestão da administração municipal, e de repente as transformações políticas ocorridas no Brasil a partir do Golpe Militar de 64 o atingiram injustamente.
Seu Durval, homem sempre respeitado, de palavra, de extrema honradez pessoal e política, vitorioso na terceira eleição realizada no município, teve que ceder ao império arrogante e insensato das botinas dos generais. Contudo, de modo diferente do que costumeiramente se comenta, não teve seu mandado cassado pelos generais, e sim renunciou, embora forçadamente, ao que lhe fora conferido pelo voto popular. Ora, a polícia da ditadura estava em Poço Redondo pressionando, forçando a essa tomada de decisão.
Cassado teria sido se a governança municipal lhe tivesse sido retirada por ato de lei, a partir de ato emanado do governo militar. Contudo, o que ocorreu foi uma renúncia forçada ao exercício de prefeito sob pena de ser preso. Ou deixava a governança municipal ou seria acusado “seja lá do que fosse” e levado à prisão pelos generais. Bem ao modo do que ocorreu com o governador Seixas Dória e os deputados Baltazar Santos, Viana de Assis, Cleto Maia e Nivaldo Santos.
Com efeito, a 31 de março de 64 o Brasil passou ao crivo do regime militar, com a deposição do presidente João Goulart e a tomada do poder pelos generais. Tinha início o período conhecido “anos de chumbo” e que perduraria por vinte e um anos, até 1985. A partir daí, principalmente através do Ato Institucional nº 1 (AI-1, que dava poderes absolutos ao novo governo revolucionário para cassar os direitos e mandatos políticos daqueles que não fossem simpatizantes ao regime instalado), iniciou-se uma série de perseguições políticas em todas as esferas.
Seu Durval havia sido eleito legitimamente no pleito realizado em 03 de outubro de 1962, tendo como adversários Joaquim Fernandes de Barros (candidato do então prefeito Eliezer Joaquim de Santana) e Francisco Néri de Araújo (Chico de Lulu). Eleito pelo PSD, vindo do mesmo grupo do recém-assassinado Zé de Julião, assumiu os destinos do município a 1º de janeiro de janeiro de 1963 e o seu mandato deveria durar quatro anos. Contudo, sua gestão duraria apenas um ano e meio, pois teve de renunciar no dia 12 de junho de 1964.
Em Sergipe, diversos mandatos foram tomados “à força”, desde o governador a deputados. Também prefeitos foram depostos, como Geraldo Maia, de Propriá; Pascoal Nabuco, de Estância; José Figueiredo, de Capela; José Carlos Torres de Souza, de Neópolis; e Epaminondas Martins, de Amparo de São Francisco. E no sertão sergipano dois prefeitos não foram depostos, porém tiveram de renunciar: Durval Rodrigues Rosa, de Poço Redondo; e Francisco Machado Costa (Chiquinho Lameu), de Canindé de São Francisco.
Verdade é que na noite de 12 de junho de 1964, forças policiais dos generais revolucionários marcaram reunião na Câmara de Vereadores de Poço Redondo. A polícia da ditadura já sabia o que aconteceria ainda naquela noite, pois ali estavam exatamente para tratar do novo prefeito que assumiria os destinos do município. Igualmente sabiam que o prefeito Durval Rodrigue Rosa logo faria chegar à presidência da câmara sua carta de renúncia. E assim aconteceu. Totalmente pressionado, ameaçado de prisão se não renunciasse, seu Durval não teve outra saída. Eleito ainda naquela noite presidente da câmara, Cândido Luis de Sá, Seu Candinho, ato contínuo se tornou prefeito municipal, sob as bênçãos dos generais.
Mas por que Seu Durval teve que ceder aos generais e renunciar ao mandato? Formalmente, ele não havia sido acusado de subversão à ordem pública ou de propagação de ideias comunistas, então por que foi forçado a renunciar? Os fatos nunca foram devidamente esclarecidos, pois as atitudes dos generais nunca eram justificadas com precisão. Intui-se, contudo, que a conduta política de Seu Durval incomodava o regime. Os generais não queriam no poder um homem que fazia, ao seu modo, um socialismo sertanejo através do atendimento às demandas mais populares, e cuja voz destemida, e sempre ouvida, poderia pregar contra o regime ditatorial em vigência.


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Lá no meu sertão...


A maravilhosa arquitetura residencial de Curralinho, povoação ribeirinha do município de Poço Redondo, sertão sergipano.






Da mais profunda raiz (Poesia)


Da mais profunda raiz


Uma algibeira
de meu avô
uma cristaleira
de minha avó
avô de aroeira
tão sertaneja
avó de roseira
do meu sertão

minha vó rendeira
meu vô de feira
esqueça tudo
feche a porteira
não vou chorar
minha choradeira
não acendo mais
saudade fogueira.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - o amor pelo jornal impresso


*Rangel Alves da Costa


Atualmente, ante as redes sociais e os sites informativos que disseminam as notícias ao tempo que acontecem, numa velocidade informativa sem precedentes, pode até parecer incoerente que pessoas ainda sintam prazer em folhear os jornais impressos a cada manhã. Nas manchetes e demais páginas, as notícias de ontem, porém já tão envelhecidas que nada podem acrescentar ao já divulgado e conhecido. Há pessoas, contudo, que verdadeiramente se comprazem em ter seu jornal a cada alvorecer e desfrutar entre goles de café o saber inigualável daquelas palavras impressas. Mas muitas explicações para que o amor pelo jornal e pelo livro impresso permaneça. Folheando o jornal, colocando as notícias diante do olhar, é como se a proximidade dos fatos fosse muito maior. E também a noção da maior veracidade do escrito no papel do que em qualquer outro lugar. É o prazer de tocar, de folhear, de ir lendo as manchetes e as chamadas, de ir dialogando com os fatos. E muita gente continua cultivando esse amor imenso pela palavra escrita em papel, como se tudo ali fosse de sua posse e de sua fruição, deixando para depois da visita o reencontro com o que despertou a atenção. É o prazer de ir recolher o jornal lançado depois do portão, é o prazer de ir até a banca e de lá sair com o mundo à mão. E sempre o cuidado para que as letras não caiam ao chão. Acaso caiam, talvez não seja mais possível recuperar a República nem salvar o Brasil dessa putrefata corrupção.


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terça-feira, 16 de maio de 2017

CHICO NICÁCIO, UM NOBRE HOMEM DE POÇO REDONDO


*Rangel Alves da Costa


Chico Nicácio, nome mais conhecido de Francisco Anicácio Silva, é nome que infelizmente parece perdido na memória viva de Poço Redondo. Nem mesmo os mais velhos retomam o seu nome e as grandes qualidades que sobre ele recaem. Os mais jovens então, que muitas vezes sequer sabem os nomes dos avôs, dificilmente já ouviram falar na sua existência. E se ouviram também foi um tanto faz. Que triste sina a dos grandes homens interioranos de serem mortos até na memória.
Pois saibam que Chico Nicácio representou Poço Redondo em toda sua pujança e louvor, mesmo num tempo de tudo tão pouco e tão difícil. Saibam que Chico Nicácio foi médico interiorano sem formação em medicina, foi farmacêutico sem possuir tal graduação acadêmica, foi um remediador onde a doença necessitava de uma urgente injeção, de um comprimido, de um preparado medicinal.
Outro dia, em proseado no Memorial Alcino Alves Costa, em Poço Redondo, o amigo Djalma Feitosa (Doutor de Iolanda) fez lembrar da ausência do nome de seu pai em uma importante via pública, fazendo merecidamente ao que representou Zé de Iaiá na vida sertaneja, mas também de Chico Nicácio, tão injustamente negligenciado pelas autoridades municipais. E nome que não caberia apenas numa rua escondida em qualquer canto, mas no local onde hoje está instalada a Praça de Eventos. Ora, ali ele residia com sua família.
Chico Nicácio residia precisamente numa casa ao fundo da atual praça, noutros idos apenas um descampado arenoso. E um pouco mais acima, enveredando por uma estradinha, localizava-se uma propriedade sua chamada Gado Manso, nos arredores do atual Conjunto Lídia Souza, e posteriormente adquirida por Ermerindo Alves Costa. Como visto, Chico Nicácio também era homem de posses, mas de poucas posses, vez que seu interesse maior sempre foi servir à população.
De altura mediana, magro, esbelto, de postura refinada, sempre elegante, Chico Nicácio mais parecia um nobre europeu em terras matutas. Voz grave, grossa, de semblante fino e bem caracterizado no rosto, sempre sobressaía por onde passava ou chegava. Nunca largava uma maleta de couro envernizado, nos moldes mesmo daquelas levadas pelos médicos em visita aos enfermos, de onde puxava a cura para meio mundo de enfermidades. Quando comprimido não dava jeito, então logo cuidava de preparar a injeção. Assim era Chico Nicácio e sua sabedoria medicinal.
Mas também político, homem de liderança e de grande influência nas hostes partidárias de Poço Redondo. Candidatou-se a vereador e foi eleito, assumindo o mandato em 1963 ao lado de Luís de Sousa (Luís Maranduba), Cândido Luís de Sá, Lourival Félix de Azevedo e Darcy Cardoso de Sousa. O prefeito eleito foi Durval Rodrigues Rosa, posteriormente forçado a renunciar pelos generais de 64. Em seu lugar assumiu Cândido Luís de Sá, que havia vencido o próprio Chico Nicácio por três votos a um na disputa para a presidência da casa (Darcy não votou, pois estava afastado, e mais tarde Joãozinho de Bizu, genro de Durval, assumiria o seu lugar).
Na mesma sessão do dia 12 de junho de 1964 que elegeu Cândido Luís de Sá para presidência da Câmara Municipal e em seguida foi declarada a vacância do prefeito municipal que havia renunciado naquela mesma noite, Seu Candinho se tornou prefeito e Chico Nicácio assumiu a presidência da casa legislativa. Mesmo tendo sido eleito vereador apenas uma vez, o homem da medicina sertaneja continuou com presença marcante e influenciadora na política local, sendo procurado todas as vezes que um candidato precisava não só de apoio político como de sua sabedoria nas mais diversas vertentes.
Assim - ou quase assim - foi Chico Nicácio, um homem tão nobre e tão respeitado no seu tempo e tão injustamente esquecido pelos de hoje. Mas infelizmente é assim. Nem quando se dá nome a rua a maioria quer saber quem foi, muito menos quando os grandes sertanejos são simplesmente relegados ao esquecimento.


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Lá no meu sertão...


A beleza do pôr do sol em Bonsucesso, povoação ribeirinha no município de Poço Redondo, sertão sergipano.





Prazeres molhados (Poesia)


Prazeres molhados


Eu queria descer na chuva
eu queria o chão molhar
queria correr no mundo
queria correr no mar

eu queria molhar teu corpo
eu queria tua pele banhar
e escorrer pelo teu sexo
me perder nesse mar

eu queria escorrer da janela
e toda sua cama molhar
e na mansidão do prazer
a tua noite encharcar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - o aviadado Rosa-Flor


*Rangel Alves da Costa


Nas terras interioranas ainda se utiliza muito do termo “aviadado” para expressar a homossexualidade masculina. Pelas praças, nas calçadas e nos pés de balcão, de vez em quando se ouve que “fulano de tal é aviadado”, que “sicrano tem um caminhado aviadado”, que “beltrano aviadou de vez”. Mas quem não gostou muito foi o eternamente assumido Rosa-Flor, talvez o gay mais declaradamente mulher do mundo. Toda vez que pressente estar sendo chamado de aviadado, dá meia volta num saltinho, roda a bolsinha, dá um ligeiro requebrado com as mãos na cintura e diz: “Tudo. Pode me chamar de tudo. Pode me chamar de boiola, de viado, de baitola, de xibungo, de afeminado, de mulherzinha, de qualquer coisa, pois assumo o que sou, mas nunca de aviadado. Essa coisa de aviadado é pra que não aviadou de vez, é pra quem se esconde usando calcinha, mas eu não. Eu sou mulher, sim senhor, fêmea absoluta, gostosa, apetitosa, uma gardênia perfumada. Aviadado nunca. E dá próxima vez que me chamar assim vou dizer quem de sua família é aviadado e você finge que não sabe”. Ao ouvir isso, certa feita um metido a valente retrucou: “Pois entonce tenha coragem e diga quem na minha famia aviadou, diga...”. Então Rosa-Flor disparou: “Você, seu boiolão. E quer que eu diga agora mesmo o nome de seu bofe?”. O valentão acovardou, amarelou, estremeceu, acabou saindo de fininho. E com um caminhado meio esquisito mesmo.


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segunda-feira, 15 de maio de 2017

A FORÇA DAS ARMAS


*Rangel Alves da Costa


Além de ser humano dotado de razão, inteligência e poder de liderança, o homem possui atributos outros que lhes servem ora como escudo ora como meio de ataque perante as diversas situações de vida. Possibilidades estas que tanto servem para o bem como para a prática do mal. Eis que cada um sempre se utilizando da arma que dispuser no momento. Ou buscando se impor a partir daquilo que esteja ao seu alcance.
A arma se torna, assim, elemento essencial tanto na vida própria como nas relações humanas, políticas e sociais. Sem arma o homem estará desprovido até mesmo da tomada de qualquer decisão. A arma da vontade, por exemplo, impulsiona a fazer ou não fazer, a agir de um modo ou de outro. Neste sentido, o simples ato de encorajar-se diante do mundo é a utilização da arma da perseverança.
Pretendo ir além dos aspectos conceituais, mas primeiro se diga que arma é qualquer instrumento ou ferramenta que sirva para atacar, ameaçar ou se defender. É ainda o objeto passível da prática de crime como revólver, faca, punhal, etc. No sentido figurado, arma pode ser vista como tudo aquilo que uma pessoa dispõe ou utiliza segundo seus intentos e objetivos. Armas que ferem, que matam, que fazem sangrar. Armas que intimidam e procuram a todo superar inimigos. Mas também a arma da concórdia, do perdão, da indiferença.
Contudo, outras armas existem que desafiam o próximo a todo instante, até mesmo populações inteiras. O poder é arma poderosíssima para quem o detém. Não menos poderosas são as armas do dinheiro, da riqueza, do mando, do exercício e da governança. O poder de tais armas, porém, dependem do uso e da intencionalidade de quem as usa. Ora, armas servem também para a prática do bem.
E tanto servem para a prática do bem como para cativar pessoas. As armas do amor, da amizade, do companheirismo, do respeito, da união, da fidelidade e da fé, dentre tantas outras, possuem usos de consequências sempre positivas e verdadeiras. E assim por que as discórdias são apaziguadas perante o amor ou o afeto, as inimizades são absorvidas pelas amizades verdadeiras e pela fidelidade, as falsidades são submetidas ao respeito.
Diferentemente, outras armas tentam impor, submeter a todo custo. As armas do poder também se inserem neste contexto. Quanto Maquiavel discorreu sobre os atributos do príncipe e afirmou que os fins justificam os meios para o alcance de objetivos, nada mais faz do que afirmar que o poder deve utilizar de todos os meios e todas as armas para manter-se no pedestal do império de mando. Não importa quem se torne vítima, não importa se justo ou injusto, não importa se contra a própria natureza humana. Importa mesmo é a manutenção do poder, custe o que custar.
Mas também tão conhecidas foram as armas dos senhores da escravidão, as armas dos senhores da Inquisição, as armas dos senhores da guerra e da tirania, as armas dos senhores da bestialidade e do ódio. Cruéis armas das confissões sob tortura, terríveis armas da submissão do fragilizado econômica e socialmente. Armas bestiais utilizadas por verdadeiros insanos. Hitler, por exemplo, usou de diversas armas para expressar seu ódio, seu preconceito e sua loucura. Stálin usou, dentre outras armas, a dizimação de milhares como demonstração de força e poder.
Também a palavra é poderosa arma, mas tanto para o bem como para o mal. Há a palavra que ordena um massacre, há a palavra que pede concórdia. Há a palavra espalhando humanismo e há a palavra pregando o ódio e a perseguição. Há a palavra surgida no alto do monte e pregando as bem-aventuranças e há também a palavra seca e execrável nos discursos das tiranias e das ditaduras. A palavra que fere mais o punhal, que queima mais que o fogo, que contamina e envergonha pela sua carga de falsidade, de aleivosia, de desavergonhadas mentiras. Mesmo consideradas abomináveis em todos os sentidos, o que mais se observa são as armas das palavras vis e maléficas.
A verdade é que as armas são bem menos utilizadas para o bem do que para o mal. Veja-se no exemplo dado pelos governantes. Enquanto pessoa comum, o governante jamais teria como acertadas diversas medidas que o poder lhe dá o direito de levar adiante. Utiliza a arma do governante por que necessita muito mais se impor do que trazer reais benefícios com determinadas medidas tomadas. Assim porque o exercício de poder não é racional, comedido, mas egoísta e arrogante, impositivo e até mesmo cego.
E a flor, o que se diria da flor como arma? Apenas uma flor para causar verdadeiras e profundas transformações. Flor que alimenta o amor, flor que torna a paixão mais apaixonada, flor que simboliza a beleza do mundo. E certamente torna menos amargos e mais esperançados os corações já desiludidos de tudo.


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Lá no meu sertão...


No Alto de João Paulo, em Poço Redondo, sertão sergipano.



Um só em dois (Poesia)


Um só em dois


O amor dividido
em dois assumido
já perde o seu mando
para ser terno e brando
como uma gota caída
pelo mar logo absorvida

não há dono no amor
tudo tem aquele que doou
assim somado e em união
sozinho não se tem permissão
de dizer que ama demais
se sem o outro tudo incapaz.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - de portas fechadas


*Rangel Alves da Costa


Viajando pelas estradas sertanejas ou mesmo em qualquer caminho nos afastados do mundo, de curva a curva encontro casinhas de portas fechadas. Não significa que estejam abandonadas, que seus habitantes fugiram das secas grandes, pois é costume que as portas permaneçam fechadas na maior parte do dia. E assim por que já chegando perto do entardecer de pôr de sol, logo uma janela é aberta, depois a porta, até que de lá de dentro vá surgindo alguém. Uma cadeira de balanço no alpendre ou debaixo do umbuzeiro, um silêncio de profunda solidão, uma paisagem tanto desolada como majestosa atraente. E é de se imaginar os dias daquele povo de portas fechadas, com seus quintais, seus fogões de lenha, seus pequenos afazeres, uma vida diferenciada. São pessoas que acordam ainda na madrugada e quando a lua desce em mais fulgor já se tem como noite cheia e pronta ao recolhimento. Os candeeiros são acesos, os radinhos de pilha tocam suas canções, alguma palavra, talvez. Mas logo a escuridão somente cortada pelo clarão da lua e a luz amarelada do candeeiro entre as fechas. Adormecer para viver novamente. E tudo sempre igual, e se repetindo sempre.


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domingo, 14 de maio de 2017

TODAS AS MÃES


*Rangel Alves da Costa


Dia das Mães. Ou dia de todas as mães, vivas e presentes ou ausentes pela partida. Mães separadas de seus filhos pelas circunstâncias da vida ou mães que não faz muito tempo se foram em lágrimas ainda choradas. Mães que não são apenas aquelas que gestaram filhos, que os trouxeram ao mundo entre choros e alegrias, mas que desde a primeira semente cativaram e cultivaram os seus como a boa terra com seu grão.
Mães que sofreram as dores e as aflições da gravidez e jamais desapartaram de seus ventres os filhos mesmos nascidos e já crescidos. Mães de cuidados, de cuidadosos banhos e fraldas quentinhas, de loções e lavandas, de pós e infindáveis carinhos. Mães de ninar, mães de cantar, mães de acordar no meio da noite diante de qualquer ruído ouvido. Mães aflitas pelo choro pequenino, pelo corpo febril, pela enfermidade de seu filhinho.
Mães do esmero na papinha, no mingau, no leito materno colocado na boquinha como primeiro alimento. Mãe pobre e desesperada, de berço de bambu, de esteira, de molambo, mas sempre mãe. Mãe que sente todo o seu filho dentro de si. Mas que não desaparta um só instante para que não sinta preocupação e saudade. Mãe que tanto se orgulha em ver seu filho tomado banho, perfumado, arrumado e fotografado para a posteridade.
Mãe que ansiosamente aguarda o primeiro aniversário de seu filho. Sempre aquela mulher orgulhosa de sua cria. Mãe que silenciosamente chora por ter tão pouco a dar àquele que merece sempre mais para crescer saudável. Mãe que muitas vezes não tem leite nem farinha, não tem fralda nem remédio, não tem qualquer coisa que minimize a pobreza, mas que se reinventa na sua força materna para que seu filho sempre adormeça sem o choro da barriga vazia.
Mãe que se eterniza como mãe, em amor infinito enquanto durar. E que sofre toda vez que o filho já crescido abre a porta para sair, que se atormenta esperando seu retorno, que em preces e orações pede que Deus sempre proteja o seu. E que só dorme depois da certeza que o seu filho retornou em paz. E que tantas vezes se vê diante dos inesperados da vida e por isso sofre todas as dores de mãe.
Assim uma mãe, desde a gestação ao nascimento, num mundo entremeado de alegrias e sofrimentos, mas nada que lhe seja mais importante que o orgulho de mãe. Um orgulho bom que se faz perfaz em amor tamanho que nada da vida pode superar a grandeza de tal sentimento. Por isso mesmo que ela continua tão presente depois da ausência da terrena. Eis que toda mãe é imortal: nenhuma morte jamais conseguiu levar total uma mãe. Ela sempre está ao lado do seu.
Drummond, nosso poeta maior, assim resumiu essa eternidade de mãe no poema Para Sempre:

“Por que Deus permite
Que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
É tempo sem hora
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E a chuva desaba
veludo escondido
Na pele enrugada
Água pura, ar puro
Puro pensamento
Morrer acontece
Como o que é breve e passa
Sem deixar vestígio
Mãe, na sua graça
É eternidade
Por que Deus se lembra
- Mistério profundo –
Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
Junto de seu filho
E ele, velho embora
Será pequenino
feito grão de milho”.

Todas as mães são, assim, poemas. Tristes, belos, melancólicos, felizes, nostálgicos, amorosos, saudosos, fraternais. Mas todas em versos de um poema: Mãe nasceu para fazer nascer, e nunca perece nos frutos brotados...


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Lá no meu sertão...


Ao lado de quem tanto amo...



Saudade de filho (Poesia)


Saudade de filho


Minha mãe
onde está você?

minha mãe
onde está agora?

e se eu adoecer
e se eu entristecer
e se eu chorar
e se eu precisar
de seu colo de mãe
e se eu precisar
de suave acalanto
diga minha mãe
onde está você?

não ouço a voz
não vejo a face

e eu queria apenas
a sua presença

mas Deus a dizer
onde está você.


Rangel Alves da Costa