SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 27 de junho de 2017

NOITE DE TANTAS BOCAS


*Rangel Alves da Costa


O dia vai fechando os olhos e abrindo a boca. O pôr do sol vai deixando sonolenta a claridade. Quando o candeeiro do sol se apaga e a lua vai mansamente surgindo, então a boca da noite se abre. E se abre para beber da fresca da hora, para saborear o cheiro do cuscuz ralado, para gozar do prazer de um tiquinho de café torrado em pilão.
Assim essa boca noturna lentamente se abrindo. Mas começarei a falar dessa boca noturna através de outras bocas. Eis que a boca é a porta de tudo, é por onde se segue adiante, é onde começa outra vida ou realidade. Na boca do ventre, na boca da mata, na boca do rio, na boca da morte. E tantas bocas entreabertas esperando o momento chegar.
A boca está no poema: “Calei a boca e tomei o corpo, e como não houve mais qualquer resposta, me apossei de tudo. Do grito, do céu da boca, da boca cheia de minha boca vazia de tanto voar em beijos...”. E também no epitáfio: “Oh, lábios que agora emudecem a tristeza de não ter dito adeus!”.
No meio da noite a criança abre a boca chorosa e ecoa toda sua vontade de aporrinhar o silêncio. Ela, apaixonada, mirando o luar imenso que surge, começa soluçando para em seguida querer gritar. E mais adiante, e por todo lugar, as bocas trêmulas conversam com suas saudades, os tempos idos, as boas e dolorosas recordações.
E mais tarde, quando a solidão chega agonizante, a noite se transforma num labirinto cheio de bocas enormes, desdentadas, horripilantes, querendo sugar a quem sofre por merecer. Mas eis que chega um lábio, que chega um carinho suave fechando a boca medonha da noite e selando num beijo a felicidade do reencontro. 
Dizem que o peixe morre pela boca; o guloso também. A boca bebe a água da vidraça molhada e poeticamente deixa estampado o lábio sedento. E as tantas bocas esquecidas quando as palavras raivosas ou apressadas saem pelos ouvidos e as narinas. Cale a boca já morreu, quem manda na sua boca sou eu. Por isso vou navegá-la. Mas se a boca der a permissão, a licença. 
Mas de todas as bocas, não nego, sempre preferi a boca da noite. Desde o amanhecer ao entardecer que vou me preparando para a chegada do momento mágico, misterioso, cativante, delicioso e também assustador. Porque a boca tem face, e também a outra; é verso e reverso. E nela há uma cortina, um palhaço e uma lágrima.
Tão bela e necessária é a boca da noite que a sua chegada exige um rito todo especial. Como ritual de passagem, não é qualquer um que poderá recebê-la sem que a alma e o espírito, e tudo o mais que envolva o ser, estejam devidamente preparados. A noite doa, agracia, mas exige muito de quem irá recebê-la. Sob pena de sumir na sua boca.
Quando a tarde toma em sua mão o pincel de cores avermelhadas, e logo mais, parecendo angustiada, vai sombreando toda a tela, toda a paisagem, então logo pressinto que a noite chegará. E o horizonte vai se abrindo para o negrume descer, tudo vai sombreando ainda mais, e toco no lábio do tempo para sentir a boca. A boca da noite.
Como ainda é apenas boca quase fechada, apenas entreaberta, sem que a noite tenha chegado completamente, então passo a imaginar o que quero encontrar mais tarde. Contudo, há uma imensidão de tempo entre o sombreado da noite e o seu abraço inteiro. E o que acontecerá mais tarde certamente estará na dependência do que o corpo, a mente e o espírito sintam antes de tudo acontecer. Na boca da noite.
Por isso que a boca da noite é bela e feia, é alegre e triste, é amiga e hostil. Vem trazendo uma saudade boa, uma recordação cativante, uma vontade danada de estar ao lado de alguém importante ao coração, um desejo profundo de um diálogo amoroso, um abraço apertado, um deitar no colo da pessoa amada. Mas também o medo terrível da solidão, da certeza que novamente sofrerá olhando a lua, mirando as estrelas, viajando sem sair do lugar.
Boca da noite que vai chamando outras bocas a se abrirem para a prece, para a oração, para o diálogo sagrado perante o oratório no canto da casa. Diante da vela acesa, a boca se move em gritos silenciosos, em sussurros de fé, em palavras santas pela busca de salvação. E tudo parece ser ouvido por Deus.
Boca de uma noite faminta, de lábio vermelho, de lábio carnudo, de lábio sem cor, de lábio apenas lábio. E sonha em se abrir para receber um beijo, se sentir molhada, amada, apaixonada. Ou talvez para a palavra, para dizer que espera da noite o que o ser consciente espera da existência: ter o que merecer.
E por isso mesmo espera a felicidade. Ainda que a boca trêmula e o coração apertado pressintam que ainda não será naquela noite. Nem com outra boca.


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Lá no meu sertão...


A mais bela e prazerosa avenida de Poço Redondo, no sertão sergipano, tem esse nome...




Tanto amo (Poesia)


Tanto amo

Amo
da manhã
ao anoitecer

sob a lua
e sob o sol
tanto amo

pois o amor
é café gostoso
é pão quentinho

pois o amor
é pôr do sol
e céu estrelado

então amo
amor amante
a cada instante.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - palavras que só podem ser ditas em silêncio


*Rangel Alves da Costa


Palavras existem que somente podem ser ditas ou no silêncio do pensamento ou através da escrita. Não há como expressar determinados sentimentos por meio da voz. Os ódios saem retorcidos, as angústias saem mal-entendidas, as solidões saem com ruídos, as alegrias não expressam sua plenitude. Por isso que a pessoa de vez em quando conversa sozinha, como forma intuitiva de apenas jogar pelo ar o que na boca se prende, mas ainda assim sem alcançar os objetivos da coesão compreensiva. As palavras ditas sozinhas também saem tortas, libertas demais, atabalhoadas, turvas e curvas, retalhadas, sem objetivo de compreensão. Mas quero dizer uma coisa. Não raro a pessoa assassina outra em pensamento. Não raro a pessoa aprisiona outra em pensamento. Não raro a pessoa tira a roupa da outra em pensamento. Não raro a pessoa ama, beija na boca, acaricia, leva pra cama, tira a roupa e faz sexo, mas apenas no pensamento. Também a situação em que a pessoa chama a outra de filha da puta, de safada, de imprestável, mas apenas através da ideia. Ou talvez querendo dizer que a ama tanto, que a deseja tanto, que não vive sem ela. Tudo isso poderia ser dito de viva voz, mas a pessoa assim não faz por que palavras e acontecimento existem que só têm validade na ideia, na memória, no pensamento.


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segunda-feira, 26 de junho de 2017

O AMOR PELO JORNAL IMPRESSO


*Rangel Alves da Costa


Noutros tempos, se dizia que determinados jornais escorriam sangue acaso suas páginas fossem amassadas, assim pelos conteúdos de violência estampados nas manchetes e detalhados nos setores policiais. Também noutros idos, muito se dizia que a verdade dos fatos jornalísticos somente era conhecida se na mesma manhã fossem lidos dois jornais: o da situação e o da oposição. Mas mesmo com a violência escorregando entre as mãos ou o enraivecimento perante os acontecidos da política, mantinha-se fervorosamente a paixão pelo jornal impresso, aquele mesmo comprado nas bancas a cada alvorecer ou recebido além do portão residencial.
Hoje a paixão continua a mesma, o profundo amor continua o mesmo. Ao lado do rádio - do velho radinho de pilha colocado rente ao ouvido -, o jornal impresso permanece se constituindo em verdadeiro amigo inseparável, ainda que os olhos já não mais se espantem com as manchetes estampadas dias após dia: “A maioria dos congressistas responde a processos no STF”, “A Operação Lava Jato chegou às altas cúpulas partidárias”, “Corrupção, improbidade, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica: o cotidiano lamacento do poder”, “O Brasil já é considerado o país mais corrupto do mundo”. Manchetes rotineiras que em outros tempos causariam alvoroço, mas hoje apenas parecendo mais um capítulo de novela. Os capítulos seguintes estarão estampados nas vergonhosas manchetes.
O apego ao jornal é mais antigo do que se imagina. Não só na novidade surgida pelos idos de 1808, quando os primeiros jornais começaram a serem impressos no Brasil, mas pelas letras graúdas informando sobre um mundo novo até então desconhecido por muitos. E mesmo mais recentemente, manchetes como estas estampadas perante olhos atônitos: “Amplia aliança entre as potências do Eixo e o Japão” (Jornal do Brasil, 1940), “Jango asilado no Paraguai” (O Dia, 1964), “Goulart decreta a desapropriação de terras, encampa refinarias e pede nova Constituição” (Jornal do Brasil, 1964), “Matou-se Vargas!” (Última Hora, 1954), “Suicidou-se o Sr. Getúlio Vargas” (O Globo, 1954), “Decretado o recesso do Congresso Nacional - Governo baixa novo Ato” (Folha de São Paulo, 1964), “Não vai ter capa!” (Meia Hora, 2014).
O interesse pelo jornal era tamanho que muitos não davam por começado o dia sem que algum diário informativo fosse folheado ali mesmo à mesa, ao lado da xícara de café. O café chegado fumegante, logo ia esfriando ante a avidez pela leitura. Há de se considerar, contudo, que o jornal antigo não era apenas uma junção de folhas noticiosas, voltadas apenas para os editoriais, a política, o esporte e os fatos policiais. Consistiam em pequenas enciclopédias onde havia de tudo um pouco. Assim é que em suas páginas eram encontradas capítulos de folhetins, receitas de bolos, longos obituários, cartas amorosas, fofocas sobre os ricos e famosos, anúncios sobre tudo. Muito escravo já foi anunciado em jornal!
Algo realmente para os dias atuais, mas antigamente escravos bons, de porte atlético, de dentes sadios e brancos, eram oferecidos nas páginas dos jornais como um produto qualquer. No século XIX era constante que os jornais surgissem anunciando o aluguel, a venda ou a recompensa perante fuga de escravos. “Fugiram da Fazenda Pirassununga no dia 20 do corrente os ecravos seguintes: Gregorio 25 annos, preto fulla, sem barba, falta de dentes na frente, e pernas finas...”, “Precisa alugar uma criada que saiba cosinhar e fazer os arranjos de uma casa de família, e um moleque para recados, na rua da Princeza n. 1.”. Anúncios assim eram comuns em séculos passados, e certamente com muitas pessoas interessadas no indigno comércio.
Aquelas mocinhas lacrimosas que ansiavam pela semana seguinte para a aquisição do jornal e acompanhamento da incrível história dos amores separados pelo destino. E assim por que os grandes romances dos inícios da literatura brasileira, principalmente no romantismo, surgiram primeiro em forma de folhetins: Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Aluísio Azevedo, dentre tantos outros. Desse modo, romances famosos nasceram primeiro nas páginas dos jornais, a exemplo de A Moreninha, O Guarani, O Ateneu, Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Por isso mesmo que o velho e sempre novo jornal impresso é sempre amado, esperado e lido. As velhas máquinas tipográficas foram dando lugar a modernos equipamentos de impressão, a velha catação de tipos para formar nomes e nos nomes a junção das frases da matéria inteira, agora cedeu lugar às impressões digitalizadas. Mas o amor é o mesmo, tanto para quem faz o jornal como para o leitor. Para muitos, não há prazer maior que ouvir a voz do jornaleiro em bicicleta ou o barulho do papel caindo depois de arremessado portão adentro. E logo se imagina uma notícia boa. Mas não. Nos tempos modernos não.
Folheando o jornal, colocando as notícias diante do olhar, é como se a proximidade dos fatos fosse muito maior. E também a noção da maior veracidade do escrito no papel do que em qualquer outro lugar. É o prazer de tocar, de folhear, de ir lendo as manchetes e as chamadas, de ir dialogando com a informação. Muita gente continua cultivando esse amor imenso pela palavra escrita em papel, como se tudo ali fosse de sua posse e de sua fruição. E sempre o cuidado para que as letras não caiam ao chão. Acaso caiam, talvez não seja mais possível recuperar a República nem salvar o Brasil dessa putrefata corrupção.


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Lá no meu sertão...


Nos sertões...



Chuva no sertão (Poesia)


Chuva no sertão

Choveu
na sequidão
e as cinzas
de então
brotaram
vida nova
pelo sertão

garranchos
retorcidos
de repente
amanhecidos
em verde vivo
e tão floridos
nos olhares
agradecidos.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - meu pequeno Levy


*Rangel Alves da Costa


Levy é o nome dele. Completou quatro anos de idade recentemente. É de estatura que nos fazem chama-lo de Pequeno Levy. E Levy possui um jeito próprio de ser. Desconfiado, cismado, não gosta de fazer amizades à primeira vista. Sempre chega um tanto taciturno, silencioso, fechado, sem qualquer palavra ou sorriso. Mas daí em diante, acaso encontre alguma oportunidade, começa a se soltar de vez, principalmente se não estiver sob os olhares nem a atenção da mãe. Então o Pequeno Levy desanda de vez, começa com traquinagens sem fim, se solta de não mais parar. Curioso, querendo saber de tudo e conhecer de tudo, pergunta e mais pergunta, repete, nunca se contenta. Um amor de criança, lindo, com voz toda especial, pois pronuncia palavras ao seu modo e com um jeitinho bem sertanejo. É também o meu Pequeno Levy, pois já nos acostumamos a nos gostar, a sermos amigos, a nos amar. De vez em quando ele chega pra mim e diz: gosto de você não. Mas é prova do quanto gosta. Não sai do meu lado, sente segurança ao meu lado, brinca e reina comigo, me tem como um verdadeiro pai e o tenho como um verdadeiro e querido filho. Amo meu Pequeno Levy.



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domingo, 25 de junho de 2017

AINDA HÁ TEMPO


*Rangel Alves da Costa


Já passei dos cinquenta anos. Pouca coisa, mas passei. Mas o que a partir de agora direi, certamente servirá para todas as idades, mesmo jovens e no gozo da mocidade.
E direi apenas que ainda dá tempo de fazer, de refazer, de novamente buscar acertar ou tentar fazer melhor o que a experiência ou os anos vividos puderem permitir.
Ainda há tempo de amar um outro amor diferente do amor amado e que não deu certo. Um término de relacionamento não pode ser visto como um fim do que o coração deseja ter.
Ainda há tempo de viver o ontem, de ser o passado bom, de viver a infância, de ser o menino sonhador e o moleque traquina e brincalhão. Os desejos e prazeres não morrem com a idade.
Ainda há tempo de escrever versos de amor em bilhetes, de colher flor no jardim, de versejar uma estrofe amorosa e, furtivamente, colocar a bela recordação numa janela amada.
Ainda dá tempo de tomar banho na chuva, totalmente nu debaixo da chuva, de braços abertos e cantarolando um silêncio de felicidade. O mais belo reencontro com a liberdade do corpo e da alma.
Ainda há tempo de querer o arco-íris, de querer beijar a lua, de querer acariciar estrelas, de subir pelos espaços em busca dos misteriosos desconhecido. E, no alto, sentir-se como um Pequeno Príncipe.
Ainda dá tempo de correr pelos campos, de deitar sossegadamente sobre a relva, de beber água fresca na fonte, de se encantar com as borboletas dos campos. E depois dizer a si mesmo que é feliz.
Ainda há tempo de desejar goiabada com queijo, de sonhar com doce de coco na sua maciez de sabor, de querer doce de leite de bolas grandes. E se lambuzar e se fartar com tantas delícias da vida.
Ainda dá tempo de acordar logo cedinho e descalço correr à janela, para logo sentir de adiante o sopro maravilhoso da brisa do amanhecer. E pular a janela para ir conversar com os pássaros, com as borboletas e os colibris.
Ainda há tempo de ter cavalo de pau, bola de gude, peteca baleadeira, casinha de boneca, boneca de pano, brinquedo de barro e castelos de areia. Ainda dá tempo de tudo isso por que jamais perece a alma menina do coração.
Ainda dá tempo de dizer a si mesmo que vai conseguir, que vai conseguir, que não vai parar enquanto aquele objetivo não for conquistado. Pelo desejo muito se sonhou e muito foi conseguido, por isso que sempre ainda há tempo para querer algo mais.
Ainda há tempo de regar o jardim, de cuidar dos canteiros, de afastar os intrusos, de preservar aquilo que tanto bem faz ao olhar e ao coração. E depois, de rosa à mão, ter a certeza que o cultivo do bem traz a certeza da melhor colheita.
Ainda dá tempo de bala de mel, de picolé de graviola, de sorvete de coco, de jujuba e pé-de-moleque. Os desejos, os gostos e os sabores, não se perdem no tempo. E se é o adulto que deseja, então que o menino ainda existente vá saborear seu doce prazer.
Ainda há tempo de tentar não mais pisar em espinhos, de não deixar que encubram de panos seu arco-íris, de não permitir que o brinquedo seja jogado no lixo. Ora, as pequenas coisas devem sempre ser preservadas para se ter os prazeres no instante que se desejar.
Ainda há tempo vestir aquela roupa velha, rasgada, desbotada, toda sem jeito de ser, mas que tanto carinho e conforto provocam no corpo. Como aquele Pé de Laranja Lima do menino Zezé, coisas existem que são inseparáveis e insubstituíveis.
Ainda há tempo de ser feliz. Sim, muito feliz. Tempo de não deixar que a dor enclausure os sentimentos nem que as lágrimas provoquem um mar de angústias na lama. Um tempo de sorrir e de cantar, de viver e amar. Ainda há um tempo assim em cada ser.


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Lá no meu sertão...


Os Pífanos da Família Vito, de Poço Redondo, sertão sergipano




A poesia (Poesia)


A poesia


Quando olhei
e quando quis
escrevi versos
encantados

quando abracei
e quando beijei
escrevi poemas
enamorados

quando senti
seu sexo no meu
escrevi livros
apaixonados.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – milho verde na estrada


*Rangel Alves da Costa


Já faz muito tempo que o sertão está tão guarnecido de milho verde num período junino. Em menor quantidade, mas nunca faltou milho na fogueira de Santo Antônio, São João e São Pedro, porém vindo dos lotes irrigados existem numa faixa sertaneja. Este ano a situação se mostrou diferente. Mesmo que os lotes continuem produzindo em grande quantidade, também a terra molhada de chuva fez frutificar a melhor e mais famosa iguaria junina. Aqueles produtores que acreditaram em inverno bom, que as chuvas não faltariam neste período, acabaram tendo bons resultados. E o que se vê é o milho em profusão pelos campos e também à venda pelas estradas. Aqueles que plantaram mais tarde, somente colherão nos meses seguintes, mas outros que se anteciparam agora estão lucrando com a venda por todo lugar. Em diversos pontos no trecho rodoviário que liga Poço Redondo a Canindé de São Francisco, no alto sertão sergipano, é possível encontrar milho novo, na palha, colhido no mesmo dia. Não faz muito que quatro espigas eram vendidas a dois reais, já na tarde deste dia de São João, eu comprei setenta e cinco espigas a dez reais. Quer dizer, o preço barateou muito, e isso exatamente pela fartura, pela grande quantidade de milho ofertado. Então, quem gosta de milho assado na fogueira ou cozido em fogão de lenha, certamente se fartará. E nisto a certeza que os incas, maias e astecas, tinham razão: não há alimento mais rico e mais substancioso que o milho. Então que venha mais uma espiga. E tanto faz se assada ou cozida. O sabor e a gostosura são os mesmos.


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sábado, 24 de junho de 2017

MAIS DE MIL GATOS


*Rangel Alves da Costa


Não sei de onde aparecem tantos gatos. Tenho certeza que mais de mil. Durante um dia, apenas um ou outro são avistados pelas calçadas e esquinas, mas depois do anoitecer há uma verdadeira invasão de gatos.
Gatos brancos, gatos pardos, gatos pintados, gatos amarelados, gatos pretos, gatos cinzentos, de todas as formas e cores de gatos. Algo realmente inacreditável. De todos os becos os bichanos vão surgindo, se reunindo, parecendo dialogar sobre a forma de como aterrorizar as pessoas naquela noite.
Só pode ser um complô de felinos, não há como pensar diferente. Depois disso, vão se espalhando aos montes, às dezenas, centenas, aos montes, subindo pelos muros, pulando janelas, entrando por qualquer passagem de porta ou portão. E então ninguém tem mais sossego daí em diante.
A noite inteira, madrugada adentro, até romper a aurora, e a gataria com seus gritos, miados, gemidos, agouros, cios insuportáveis. Remexem em telhados, viram móveis, sujam tapetes, lambuzam tudo o que encontrarem pela frente.
Rápidos, velozes, somem num raio como enxotados, mas para retornarem no instante seguinte. E quando tudo já parece sem as suas insuportáveis presenças, eis que os seus gemidos ecoam bem ao lado, como que propositalmente. E assim todos os dias, todas as noites, na vida sem sossego ou paz por causa da gataria.
Alguns vizinhos já tomaram atitudes drásticas com relação a isso. Utilizaram-se até de espingardas para espantar os bichanos. Outros mantêm varas pontiagudas para enfrentá-los. Fala-se até em uso de chumbinho em alimentos pelos cantos dos muros. Se um ou outro morre ninguém sabe. Ou ninguém diz. Sequer se espalha a fedentina de bicho morto.
Mas a verdade é que ninguém suporta mais tanto aperreio provocado pelos peludos, endiabrados, intoleráveis mesmo. O pior é que não surge nenhum dono para ser chamado à atenção ou culpado, ao menos em parte, pelas algazarras noturnas.
Diz que gato na noite assombra, assusta, traz presságio ruim, ecoa sempre um mau agouro. Ao lado do mito, da lenda ou crença popular, a verdade é que provoca mesmo uma terrível danação.
Fato é que se torna muito difícil repousar quando se tem pelo telhado o passeio aterrorizante do bichano. Nunca se contenta em zanzar silenciosamente de canto a outro, em fazer seus passeios noturnos sem importunar a vida dos seres humanos.
Acha-se sempre no direito de fazer da noite e da madrugada seu festim alarmante, tenebroso, intolerável. E daí vai soltando seus lamentos, e então vai gritando suas dores, e então vai ecoando seus gemidos, acordando a escuridão com suas funestas vozes.
De cima da casa ao seu interior, sobre tudo o gato se acha no direito de propriedade. Invade, toma de assalto, vai destruindo tudo por onde passa, vai espalhando terror a cada passa que dá. Destelha casas, torna tudo em uma só fedentina. Só falta mesmo que estilhaços caiam e se espalhem por cima das camas e pessoas.
E num instante um som terrível do telhado, bem em cima da cama onde a pessoa tenta adormecer. E de repente o barulho de um jarro caindo, de uma taça sendo lançada ao chão. Quando a pessoa corre para saber o que aconteceu só encontra a destruição. E o gato certamente estará bem ao lado escondido.
Daí uma certeza irrefutável. Os gatos são os seres mais insuportáveis que possam existir. Fantasmas, almas do outro mundo, visitantes noturnos, meliantes, puladores de muros, extraterrestres, seja lá o que for, tudo será sempre menos insuportável que gatos reunidos exclusivamente para atazanar sossegos e vidas.
Adiante do telhado, lá em cima, sempre há uma lua bonita e estrelas que brilham majestosamente. Mas nada disso possui significação ao bichano. Seu único prazer é não deixar que a noite do humano seja de sono, repouso e sonho.


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Lá no meu sertão...


Nesta sexta-feira junina, ao lado de amigas em quermesse de Poço Redondo, no sertão sergipano.




A pedra chora (Poesia)


A pedra chora


A pedra chora
e eu me nego
a chorar

não possuo
nem a humildade
nem o sentimento
da pedra que chora

por isso mesmo
minha insensível
petrificação

e a falta em mim
daquela sinceridade
da pedra.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – afeto sem preço


*Rangel Alves da Costa


Toda vez que a seca se espalha e se prolonga pelos sertões, então se observa o quanto o homem da terra possui apego, afeição e estima, verdadeiro e desmedido amor, ao que tem ou lhe resta como rebanho de cria. Já com mais de ano de estiagem, quando a pastagem já está esturricada e sem alimento algum para o boi, a vaca, o cavalo ou o jumentinho, e o sertanejo se vê perante a difícil situação de alimentá-los, então seu apego ao que tem se mostra em toda feição. Geralmente pobre, com poucos recursos de sobrevivência, ainda assim passa a comprar palma, capim, o que for necessário à mínima alimentação. Chega ao extremo de fazer feira numa semana e na seguinte nada comprar para alimentar a família, pois o pouco dinheiro daquela semana será revertido em comida para o bicho. E assim pelos sertões inteiros. Quando as secas se prolongam por anos, a soma dos gastos já terá sido muito maior que o valor das três vaquinhas magricelas restantes. Quer dizer, acaso venda o que lhe resta de rebanho, não cobrirá quase nada do muito que já gastou. Mas ainda assim sofre, padece, chora, lamenta, mas não vende sua vaquinha de jeito nenhum. E assim faz pelo amor, pelo afeto, pela estima que tem por aquilo que possui a feição de verdadeira família.


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sexta-feira, 23 de junho de 2017

AO LONGE JÁ OUÇO O APITO DO TREM


*Rangel Alves da Costa


Não tenho tempo. Só tenho pressa. Por isso tenho que correr, correr, correr. Ao longe, já ouço o apito do trem. Ouço alguém me chamar. Um grito desesperado. Um brado voraz. Tudo chama. Não tenho relógio de pulso, mas há um relógio na estação dizendo que está na hora. A fumaça já é avistada entre as serras. Não ouvi, ainda não ouvi, mas há quem afirme já ter escutado o apito do trem.
Não recordo bem se fechei a porta do fundo, se forrei a cama do quarto de dormir, se tornei em cinzas as brasas flamejantes ainda há pouco. Não sei se recolhi a fruta caída que avistei de manhã. Não recordo bem se reguei as flores do pequeno jardim ao lado ou se joguei pingo d’água no caqueiro de rosa triste. As folhas de erva cidreira talvez  Nada sei. Só sei que tenho pressa. E por isso tenho de correr, correr, correr, e assim vou correndo, correndo, correndo.
Havia prometido a mim mesmo escrever uma longa carta para deixar em cima da mesinha da sala da frente. Não sei bem quem poderia entrar pela porta e se deparar com o escrito, mas eu sentia necessidade de deixar algo escrito sobre o que fui e passei ali. Gostaria muito de dizer o quanto fui feliz por muito tempo, mas também o quanto fui infeliz por muito mais tempo. Iria pedir que jogasse um pouco de água nas plantas que ainda restassem e que nunca apagasse os poemas deixados nas paredes.
Dentre tais poemas, há um que gosto demais. Jamais irei esquecê-lo: “E quando a noite caiu e eu também caí, quando eu quis segurar a lua, a lua estava escondida entre os cabelos morenos de um céu que um dia foi meu...”. Também outro que gosto muito: “No teu mar macio, de leveza e vida, de perfume e calor, o meu barco segue em busca de nada encontrar, apenas seguir e seguir, e amar e amar...”. Mas tanto faz. Apague-os, se assim desejar. Não fui poeta de nada, nunca fui poeta de nada. Talvez a minha poesia estivesse somente no meu olhar.
Avistar da janela adiante era como ter poesia no olhar. Sentar no meio do tempo ao entardecer, avistando aquele mundo amarelado e tão belo, aquela fogueira se apagando no alto, chegava-me como verdadeiro poema. Mas nunca poema alegre, de contentamento. Em tudo uma nostalgia, uma saudade doída, uma relembrança amarga e dolorosa. Em tudo um sofrimento infinito. Não sei bem se foi por isso que resolvi partir.
Na verdade, sempre gostei de minha solidão, de minhas quatro paredes, de minha rede, das caminhadas que fazia ao redor. Sempre gostei muito de conversar com a pedra, de conversar com os bichos, de conversar com a brisa e o vento. De xícara fumegante à mão, então eu saía até perto da pedra grande para avistar o mundo adiante. Então eu avistava as distâncias, os horizontes, imaginando outras vidas e outros caminhos além. Em instantes assim, contudo, não me chegava desejo algum de partir algum dia. Desejava mesmo a eternidade naquele lugar, uma eternidade que se entranhasse ao chão depois do último pó do adeus. Mas de repente resolvi partir.
Não tenho quase nada para levar. Lembro-me somente do trem que logo partirei e do meu instante de partida que havia chegado. Daí ouvir o grito a me chamar, daí imaginar que tudo estava dizendo para me apressar. Tudo dizendo para correr, correr, correr. E por isso, para não perder o trem, é que estou correndo, correndo, correndo. Que eu não espere qualquer adeus, qualquer lenço acenando, qualquer lágrima. Não há absolutamente ninguém que faça assim por mim. Aliás, não há absolutamente ninguém que sinta qualquer coisa por mim, nem ódio nem amor, nem amizade nem desapreço, nem carinho nem inimizade.
Não nego que sentiria prazer em ter algum na janela de lágrimas nos olhos e lenço balançando à mão. Mas impossível que assim aconteça. Não haverá tempo para me despedir do varal estendido no quintal. Sempre sentia um prazer diferente – um tanto mórbido – em ficar por horas a fio perante o varal. Aqueles panos querendo voar, querendo se desprender, querendo rumar por aí sem destino. Talvez aquelas imagens penetrassem tanto em mim que de repente me fiz impulsionado a fazer o mesmo.
Vou partir sem qualquer despedida do varal. Não sei sequer se deixei alguma roupa estendida por lá. Ou sei. Não sei. Talvez eu tenha ficado estendido lá. E o que parte agora é apenas a roupa. Que corre e corre, por que tem pressa. Muita pressa de chegar a qualquer lugar.


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Lá no meu sertão...


Ali no meu sertão sergipano de Poço Redondo...




Noite, noite... (Poesia)


Noite, noite...


Ah quanta saudade sentida
em meio a essa noite perdida
onde a lua se esconde de mim
e a escuridão parece sem fim

ai essa dor que me vem agora
como lágrima dolente que chora
o pranto doloroso por tanto amar
e do amor sequer saber onde está

oh estrela que brilha sozinha
leve contigo a dor que é minha
e joga réstias de luz à minha janela
para sonhar que quem chega é ela.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – aprender na dor


*Rangel Alves da Costa


Não sei se está frio ou está quente. Não sei se sinto frio ou calor. Não sei se tenho vontade de chorar ou de sorrir. Não sei se estou solidão ou multidão. Nada sei. Triste é saber e nada poder evitar. Também tanto faz saber. A pedra me ensinou muita coisa. Segundo ela, é preciso petrificar para não se espantar tanto com a vida. É preciso enrijecer para não ser levado ao longe, e espatifado nos muros da vida, igual a uma folha qualquer de outono. É preciso ser ferro e diamante para que não imaginem que é apenas pó para ser num instante soprado e pelos caminhos apenas restarem as réstias. Não há ilusões nesse mundo, não há ilusões nessa vida. Quem tem flores com espinhos certamente ficará com as flores, sem compartilhar ao menos uma rosa. Quem tem auroras e sopros perfumados de brisa certamente ofertará ao outro o calor de mais tarde. Quem tem duas mãos para estender certamente estenderá apenas uma, e para logo esta ser recolhida. Não há que se iludir com demasiadas bondades nem com afagos exagerados. Ora, o homem é o lobo do homem e assim o será para a eternidade. Quem não aprendeu no sofrimento jamais haverá de aprender em qualquer outra situação. Somente na dor se aprende a ser forte suficiente para não se deixar levar por canções sem voz. Somente após padecer - e no dia seguinte ainda amanhecer – é que o homem poderá dizer que o seu pó novamente petrificou. Ainda que depois seja novamente feito pó pelas ventanias que sempre chegam.


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quinta-feira, 22 de junho de 2017

LAMPIÃO: AS FACES E AS VERSÕES


*Rangel Alves da Costa


O texto abaixo, anteriormente intitulado “Existiram quantos Lampião?”, foi reescrito com o título acima e publicado em jornal impresso. Poucas modificações foram introduzidas, mas a modificação no título se deu para que não fossem ventilados erros gramaticais, pois este autor bem poderia tê-lo intitulado de “Existiram quantos Lampiões?”, porém preferiu não pluralizar tão importante nome da história brasileira, apelido único e que assim de deverá ser respeitado. Mas vamos ao texto em si.
O cangaço, enquanto fenômeno social dos sertões nordestinos, ainda hoje é construído e reconstruído segundo as muitas versões surgidas. Atrás de seu conceito sempre persistem indagações que vão sendo preenchidas segundo as vertentes abraçadas pelos historiadores.
É como se tivessem existido vários mundos dentro do próprio mundo cangaço. Tanto assim que os fatos vão sendo sempre recontados de forma diferenciada, como se negando verdades nascidas desde outros tempos. E quando se trata sobre Virgulino Ferreira da Silva, o Capitão Lampião, então tudo se desanda mesmo.
Existiram quantos Lampiões dentro de um só Lampião? Sim, aquele mesmo nascido Virgulino Ferreira da Silva, quantos existiram? Quantos homens couberam num só corpo e numa só feição daquele nordestino arretado que um dia se insurgiu contra o mundo dos poderosos (ao menos em parte)?
Ora, ante o emaranhado que se tornou a história do cangaço, perante os labirintos que a todo dia colocam a saga dos homens das caatingas, há de se perguntar quantos Lampiões existiram naquele único e famoso Lampião. Assim há de ser sob pena até se duvidar sobre a sua real existência. Ora, por vezes chega a parecer que nem se fala de homem, mas de um ser mítico, imaginado na crendice popular.
Diante das histórias e mais histórias, ante as lendas e os mitos que se propagam a seu respeito, diante das inúmeras versões para os mesmos fatos, não há como não perguntar quantos Lampiões existiram naquele rei cangaceiro, naquele Lampião desgarrado de seu Pernambuco, de sua Vila Bela, e tomando o mundo nordestino de assalto.
As datas sobre alguns eventos de sua vida são tão discordantes que até parecem se tratar de pessoas diferentes. Igualmente com relação à sua infância, ao seu batismo, à sua criação. Para muitos até Lampião já nasceu cangaceiro. Até mesmo filmes enveredam num imaginário difícil de acreditar.
Vários, muitas pessoas, num só ser humano. Assim com Virgulino Ferreira da Silva, mas principalmente com Lampião. O herói, o bandido, o religioso, o facínora, o covarde, o estrategista, o líder, o dominado, o carrasco, o comedido, tudo isso numa só pessoa.
Tudo isso numa só pessoa, num só Lampião, por que é assim que sua imagem é propagada, segundo a intuição da pessoa que de um modo ou outro o concebe. O mais espantoso é que dificilmente Lampião é visto a partir dele mesmo.
Comumente, a história trata o homem pela sua saga e não pela sua sina. Desse modo, Lampião é quase sempre estudado e definido como o cangaceiro. Apenas. Lampião cangaceiro, líder de bando, carrasco, a frieza peçonhenta das matas.
Mas também como o injustiçado, como o ferido desde o seio familiar, como o odioso levado pela vingança. Ainda neste sentido, o homem já gestado em meio à violência e, portanto, o cabra marcado a se eximir de si mesmo para conviver com outra realidade.
Daí uma indagação: Quantos pesquisadores, estudiosos do cangaço e pesquisadores, já se voltaram mais para Virgulino, o homem, e não priorizaram tanto Lampião, o cangaceiro? A verdade é que a história do mito de vez em quando se esquece da origem.
E assim por que além do Lampião em si, o cangaceiro das caatingas, existia um homem chamado Virgulino Ferreira da Silva. E somente se conhecendo a história do homem é que se pode chegar ao desvendamento daquilo que o destino lhe reservou.
A construção da história do homem através da história do mito, invariavelmente provoca a construção de identidades diferentes, contraditórias, até que se negam a si mesmas. Uma hora Lampião é o devoto e temeroso dos castigos de Deus, outra hora é o que observa passivamente crianças sendo lançadas ao alto para serem apanhadas pela ponta do punhal.
Nada de exagero. É assim que dizem, seja mentiroso ou não. O Lampião devoto de Padre Cícero e de Nossa Senhora, mas ao mesmo tempo aquele que consentiu com as maldades de Zé Baiano, o carrasco ferrador.
Então, quantos Lampiões dentro de Lampião existiram? Há o Lampião que foi morto na chacina do Angico, há o Lampião que foi envenenado, há o Lampião que sequer estava no coito sangrento naquele alvorecer sertanejo, há o Lampião que fugiu, há o Lampião que morreu já centenário lá pelas Minas Gerais. Então: quantos cangaceiros existiram num só homem?
Dizem até que Lampião foi comunista. Dizem e tentam provar. E também aquele Lampião “amulezado”, segundo a insanidade de alguns. Contudo, o mais difícil mesmo parece mesmo é conhecer aquele Virgulino antes de se tornar Lampião.
Afirmar simplesmente de seu banditismo é prova maior do total desconhecimento de sua história, principalmente familiar. Afirmar de seu heroísmo é igualmente desconhecer das maldades consentidas e pactuadas enquanto líder maior de seu bando.
Então, quantos Lampiões na face de Lampião existiram? Tal resposta certamente jamais será obtida. Prova maior é que todo dia surge um novo livro contando a história de um Lampião diferente.


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Lá no meu sertão...


Em Poço Redondo, buscando as raízes primeiras...



Em você (Poesia)


Em você

Um céu
na boca

um mar
no olhar

uma nuvem
na pele

uma lua
no sexo

um paraíso
no prazer

em você
em você.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - solidão em noite chuvosa e fria


*Rangel Alves da Costa


Quem dera o cobertor quentinho, um abraço apertado, um colo, um umbro, um travesseiro grande, uma xícara fumegante de chocolate, outro corpo ao lado. Mas nada disso se tem. Apenas a solidão em noite chuvosa e fria. Quem dera deitar ao lado dela e junto ao seu corpo fazer cobertor, roçar a pele na pele e a tudo esquentar, sentir a sua presença como um calor de noturno sol. Mas nada disso acontece, pois nada disso se tem. Apenas a solidão em noite chuvosa e fria. Quem dera um bom e velho vinho, uma dose de rum, um conhaque, um uísque. Quem dera janelas e portas fechadas, cama de panos grossos, travesseiro macio e a leveza de uma música clássica. Mas nada disso se tem. Apenas a solidão em noite chuvosa e fria. Quem dera que a chuva parasse, que o frio diminuísse e o frio sumisse aos poucos. Quem dera que os pingos não gotejassem no olhar, o frio não estremecesse a alma e a solidão fosse embora por um motivo maior. Mas continua apenas a solidão em noite chuvosa e fria. E então tira a roupa, abre os braços e se deixa lançar sobre o tapete da sala. E as lágrimas petrificam na mais fria solidão.


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quarta-feira, 21 de junho de 2017

O CHEIRO DAS PRIQUITINHAS JUNINAS


*Rangel Alves da Costa


A cada ano, como uma diversa revoada, o período que antecede os festejos juninos vem trazendo consigo o cheiro das priquitinhas. Cheiro forte, marcante, bem característico de todo chinelo, sandália ou alpercata de couro cru.
São as priquitinhas juninas que são trazidas de outros estados - principalmente Bahia e Pernambuco - e passam a fazer parte das paisagens aracajuanas, pois estão por todo lugar, em toda esquina, debaixo de cada marquise.
Ainda são poucas pela cidade. Apenas num ou noutro lugar é possível avistar algum vendedor carregando penca de priquitinhas ou mesmo com elas expostas ao chão. Talvez seja a crise que também tenha alcançado os produtores artesanais dessas chinelas tão apreciadas pela população nordestina.
Mas a tradição do comércio dessas chinelas deverá se acentuar nos próximos dias ou semanas. O São João já se aproxima, as bandeirolas já enfeitam as lojas, os enfeites juninos já são avistados de banca a banca. E uma coisa que não pode faltar é a priquitinha.
E não pode nem deve faltar por muitos motivos. Não há São João, Santo Antônio ou São Pedro, sem priquitinha. Não tem sentido algum arrastar os pés por algum salão forrozeiro sem que seja levando consigo o cheiro da priquitinha. Todo nordestino que se preza faz da priquitinha sua companhia de toda hora no período festivo.
As priquitinhas são inseparáveis das mais autênticas quadrilhas juninas. Estão nos pés tanto dos dançadores como dos tocadores de forró. Os turistas, principalmente estrangeiros, ficam encantados quando se deparam com uma priquitinha nova, bem trabalhada, sedosa, com o seu cheiro tão peculiar e atraente.
Como diz o outro, tem até gente que não gosta, mas nunca houve nada melhor que ter uma priquitinha para usar nas devidas ocasiões ou mesmo a qualquer momento do dia. Não há contraindicação, somente proveito e prazer. Quando nova ou de pouco uso, a priquitinha é sempre leve, um pouco apertada, mas logo amaciada pelo uso.
Tem gente que ansiosamente espera esse período apenas para comprar seis ou mais priquitinhas e assim ter sempre reserva para usar o ano todo. Quando perguntado o porquê de tanto gosto pela chinelinha de couro cru, logo responde: Ora, se não tenha da outra, o jeito que tem é usar dessa priquitinha mesmo. Ao menos o nome e o cheiro me fazem lembrar alguma coisa.
Sem pretender erotizar a seriedade do texto, a verdade é que não se pode negar que a denominação de priquitinha a esse tipo de sandália de couro surgiu mesmo como referência à genitália feminina. Por motivos que não exigem maiores esclarecimentos, diziam que o cheiro da sandália nova era o mesmo da outra priquitinha em determinadas situações.
Deveras, peculiar é o cheiro da priquitinha junina. Mas neste aspecto, também em situações diferentes, pois apresenta cheiros diferenciados segundo seu estado de uso. Quando nova, intacta, a sandália possui o cheiro forte e adocicado, levado ao odor de suor. O mesmo cheiro sempre presente nas selas de couro cru, nos rolós, nos chapéus, nas indumentárias feitas pelos artesãos do couro. Só que com menor acentuação, menor exalação.
Com a constância do uso, a priquitinha vai perdendo a estranheza do cheiro forte. Sequer é sentido qualquer fragrância marcante. Apenas com o suor dos pés é que ela retoma um pouco de seu aroma suarento. Contudo, tudo desanda quando ela é molhada. Então é um deus nos acuda. E há até gente que diga que já não cheira mais a priquitinha, mas a outra coisa no mesmo sentido.
Realmente, quando a priquitinha, já usada, afadigada de tanto pisar, está molhada, passa a exalar um odor quase insuportável. Todo o cheiro é redobrado, triplicado, tornado quase em putrefação. Daí que muitas vezes os salões forrozeiros ficam empesteados da mistura do suor e das sandálias de um couro ainda cru, molhado e ainda secando ao sol.
Mas nada disso afasta o gosto e o prazer de estar usando um desses chinelos de couro. É a aparência junina amoldada ao conforto que ela proporciona. Igualmente se diga com relação à aparência matuta, caipira, nordestina e sertaneja. E gente há que possui uma alma nordestina tão grande que sempre usa chapéu de couro e alpercata de couro cru, mesmo nas capitais.
Contudo, não se vista mais a quantidade de vendedores de tempos atrás. No passado, essa época do ano era de ruas completamente tomadas por pessoas carregando pencas de priquitinhas. Agora são em número bem menor, mas oferecendo sempre, e a preço bom, o chinelo ao gosto da freguesia.
Será a feição junina em tempos novos que vem diminuindo suas tradições tão próprias? Também. Exemplifica-se em muitas situações, desde a ausência do autêntico forró à nudez das ruas outrora enfeitadas de bandeirolas.
Os dias e as noites juninas não são mais aquelas. As fogueiras foram praticamente esquecidas, as comidas típicas escassearam. Os fogos já não passeiam mais nos céus como antigamente. Apenas um mês. Um mês e suas priquitinhas para fazer relembrar.


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Lá no meu sertão...


Eu ao lado de Zefa da Guia, guerreira sertaneja




Veneno de mel (Poesia)


Veneno de mel

Teus lábios são como doce colmeia
de sabor de pétala molhada de mel
doçura derramada na pele macia
e que me devora e que me extasia

e eu assim completamente apaixonado
mais que paixão uma coisa tão louca
que perco o juízo e me vejo transtornado
tomando veneno pelo mel de sua boca

e envenenado pela doçura do lábio
já não sei quem sou e nem o que é o beijo
se é mesmo veneno no desejo e na ilusão
ou se é o sabor tão doce e mortal da paixão.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - uma homenagem


*Rangel Alves da Costa


DONA MARISTELA, orgulho vivo da história de Poço Redondo. Professora de um tempo onde o magistério era verdadeiramente exercido como arte e devoção. Antiga professora de sala de aula, ensinando tudo ao mesmo tempo, e de sala de mundo, de vida e de tudo. Uma verdadeira mestra que ainda nos guarnece de tantas e tão importantes informações do nosso tão rico e espantoso passado. Sua lucidez abrasa de tão vívida que ainda está. Sua amizade abraça todo o sertão e vai além das ribeiras do Velho Chico. Recentemente ouvi de sua boca, num documentário de Hermano Penna, algo que me fez estremecido pela coragem dessa mulher, pois Dona Maristela disse, se referindo àquela primeira eleição tomada a todo custo de Zé de Julião: “Zé de Julião foi o eleito, foi o vitorioso, mas foram contando e recontando votos, derrubando ao chão e pisando por cima, até que chegasse ao empate. E com o empate o candidato mais velho seria eleito e Zé de Julião derrotado. Foi assim que aconteceu”. E há poucos dias, encontrando-a na Avenida Alcino Alves Costa (no mesmo local da fotografia abaixo), ela me abraçou e disse: “Encontrei uma coisa e só me lembrei de você...”. E me prometeu brevemente presentear o Memorial. Abraço-te agora e sempre, Dona Maristela. Que deus a conserve com saúde, paz e essa lucidez grandiosa.



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terça-feira, 20 de junho de 2017

NO BALCÃO DE NANÔ


*Rangel Alves da Costa


Já escrevi alguns textos sobre Nanô, um vendeirim fincado nos sertões sergipanos de Poço Redondo, cuja especialidade de seu botequim é a famosa casca de pau. Também vende cervejas, refrigerantes e outras bebidas, mas sua especialidade é mesmo a mistura de cachaça de engenho, legítima, branquinha mesmo, à raiz, casca e folhas de pau.
A especialidade de Nanô possui freguesia garantida. Desde as primeiras horas do dia, até mesmo antes que surja qualquer raio de sol, e já chegam ao pé de balcão em busca de uma talagada boa de angico, de umburana, de cidreira, de hortelã, de ameixa, dentre tantas outras que vão apurando cada vez mais na garrafa. E possuem serventia desde como simples aperitivo à cura de enfermidades, segundo a crendice popular.
Mas na Nanô, já na altura dos seus mais de oitenta anos, não é fácil de lidar. Diferentemente de outros donos de botecos que tudo fazem para agradar a clientela, Nanô é de pouca conversa, é homem de cisma e de não aceitar de bom grado que ali chegue todo tipo de cliente, principalmente os costumeiros maus pagadores. Também não gosta que se demorem muito no seu pé de balcão nem que cheguem com dinheiro graúdo demais para pagar a conta do já bebido.
Neste último sábado estive com ele, um velho amigo de outras datas. No seu botequim já tomei muita cerveja, já experimentei fartamente muita casca de pau, já proseei demoradamente, ainda que soubesse o quanto difícil é tirar causos e proseados de sua boca. Fui lá encher um garrafa de cachaça, ou melhor, colocar mais aguardente numa mistura já pronta e com gosto apurado demais. Não estou bebendo, mas sempre tenho cachaça sertaneja para oferecer aos visitantes do Memorial Alcino Alves Costa, entidade de preservação cultural que administro na cidade de Poço Redondo.
Chego ao sertão sergipano geralmente às sextas-feiras e por lá permaneço até o entardecer de domingo. Assim que chego, logo chega um amigo ou outro para uma visita, para uma conversa, para tratar de qualquer assunto, e então encontra numa das mesas uma fartura de aguardente legitimamente sertaneja, que é a cachaça misturada com raiz, casca ou folha de pau. Tem gente que vai só beber, e muitos deles logo cedinho, coisa de cinco ou seis da manhã. Mas sirvo com prazer. E foi por isso que fui até o botequim de Nanô para reencontrá-lo e prover o memorial de bebida sertaneja.
Lá no botequim, enquanto o vendeirim se esmerava em encher o litro, logo cuidei de registrar o ato em algumas fotografias, mesmo sabendo que ele não gosta de ser retratado. Mas não disse nada. Olhou e até sorriu, como se disse que esse aí é meu amigo e então vou deixar. E ontem, ao rever tais retratos, escrevi alguma coisa e postei em rede social com os seguintes dizeres:
“Pra toda arripunação e qualquer tipo de dor, não há remédio melhor que o do balcão de Nanô. Dor de corno sofredor, dor por que a mulher deixou, então não há o que fazer senão o balcão de Nanô. Dor da saudade que chegou, dor da tristeza que encostou, então vai buscar alegria bem no balcão de Nanô. Também se não tem remédio nem no hospital tem doutor, a cura é alcançada lá no balcão de Nanô. Mas é preciso cuidado, um conselho que lhe dou: não leve dinheiro graúdo nem saia de lá devedor, ou terá de suportar o mau humor de Nanô”.
Já retornei do sertão, mas tenho certeza que as palavras junto com uma das fotografias, ontem mesmo chegaram ao seu conhecimento. E também tenho certeza de sua aceitação, de seu sorriso e de sua palavra dizendo “aquele num tem jeito não”. E todos gostam das singelas reverências que faço a ele, tanto assim que suas familiares compartilham e até guardam como lembranças. Quando chego lá, então logo ouço os comentários e as risadas. Daí o meu contentamento em registrar esse cotidiano tão sertanejo como a minha própria vida e o meu jeito de viver.
Abraço, amigo Nanô. Que Deus lhe permita viver muito mais e ainda molhar muito fundo de copo com sua legítima casca de pau.


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Lá no meu sertão...


Corporação Musical Alcino Alves Costa, de Poço Redondo, sertão sergipano





Sinais do tempo (Poesia)


Sinais do tempo


São os sinais do tempo
ou os sinais de agora
dizer de um contratempo
e depois se ir embora

e partir assim
e me deixar assim
é tudo tão ruim
tanta dor em mim

tire dessa mala
o corpo e o coração
e no sofá da sala
me ame com paixão

não deixe que o tempo
mostre os seus sinais
ou que um contratempo
nos separe mais

não parta assim
não me deixe assim
é tudo tão ruim
tanta dor em mim

tire dessa mala
o corpo e o coração
e no sofá da sala
me ame com paixão

tire dessa mala
o corpo e o coração
e no sofá da sala
me ame com paixão.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - qualquer coisa serve


*Rangel Alves da Costa


A vida não está fácil. Está tudo muito difícil. Não há lugar para querer demais, para demasiadas ambições ou egoísmos desenfreados. As humildades haverão de prevalecer nos corações conscientes. Não se diminui nem deixa de ser a si mesmo todo aquele que alcançar o contentamento com menos do que o esperado. Ora, qualquer coisa serve, qualquer coisa haverá de servir em tempos difíceis. Um pouco ao menos no prato, uma roupa menos cara, uma compra a menos, menos isso e menos aquilo. Não se vive apenas de luxo, de fartura, de abundâncias. Há tanta coisa faustosa, grandiosa, rica demais, que não possui nenhum luxo ou requerente na sua existência. Olhai os lírios dos campos, olhai as pétalas ao amanhecer, olhai os horizontes ao entardecer. Contudo, não que não se regre na busca da felicidade, da paz, da harmonia, da fraternidade, da comunhão. Coisas existem na vida que nos enriquecem sem que vivamos para o luxo ou a riqueza. Mas alcançando u m pedestal que nem os reis conseguem ter em seus dias de glória.


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segunda-feira, 19 de junho de 2017

SEM MACARRONADA, STROGONOFF OU CARNE FRITA


*Rangel Alves da Costa


Aos domingos, em grande parte das residências é dia de uma comida especial, diferenciada, mais apetitosa ou apenas para sair da rotina. Um dia de macarronada, de lasanha, de strogonoff, de cozidos gordos, de lombos assados, de iguarias de todo jeito.
Mas ali, naquela casa, o domingo vai passar sem macarronada, lasanha, strogonoff, cozidos gordos, lombos assados, sem qualquer tipo de iguaria. Já não teve nada para o café da manhã, certamente não terá para o almoço e a janta.
Aliás, em muitas moradias se torna absolutamente desnecessário que se use os termos café da manhã, almoço ou janta, para nomear as normais refeições do dia. Nestas residências empobrecidas, de miséria absoluta ou chegando a este patamar, é apenas o de comer. O de comer na manhã, ao meio-dia, depois da boca da noite.
Amanhece e anoitece sem ter o de comer. Sem ter o de comer na panela, no prato, em riba da mesa. O adulto sofre, entristece, fica agoniado, mas acaba suportando forçadamente. Mas diferente quando há criança que precisa ser alimentada.
Nada mais triste que um lar onde a criança passa fome pela ausência absoluta de comida, onde a infância esmorece por falta de alimento, onde a pele chega ao osso por falta de pão. E também nada mais ao pai e à mãe ouvir o choro do seu e nada ter para aliviar a fome.
Nestes lares, em tantos lares espalhados pelas distâncias, sertões adentro e escondidos do meio do mundo, não há farinha seca muito menos feijoada, não há pão com ovo e muito menos risoto, não há tripa assada com farinha e muito menos frango ao molho pardo.
Casa de barro, levantada na ripa e no cipó, com móveis de tamborete, de tronco e resto de madeiro, com esteira fazendo às vezes de cama, com fogão de lenha e prato de plástico ou alumínio, não conhece a fartura nem o sabor da macarronada ou da carne frita bem temperada.
Sorte na vida quando há fubá de milho para um cuscuz, uma papa, um mingau. Vida feliz quando há um pão, uma bolacha, um bolachão, um pedaço de qualquer coisa. Grande acontecimento quando a panela ferve e nela uma carne com água e sal, tempero e um cheiro bom que chega a se espalhar pelos ares.
Mas no domingo nenhum macarrão, nenhuma macarronada, nenhum sarapatel, nenhum buchada, nenhum frango assado ou cozido, nenhum pernil de porco. Nenhuma cerveja, nenhum guaraná, nenhum vinho, nenhuma bebida gelada. Mas a mesma família de carne e osso como as demais famílias. Mas no prato a diferença.
Não significa dizer que as famílias empobrecidas vivam na eterna penúria, sem comida à mesa ou algum alimento no seu dia, mas tão somente que sua sobrevivência é muito diferente daquela de mercadinho, de feira, de compra disso ou daquilo. E no domingo o nada ou quase nada como alimentação.
Convidados não chegam aos casebres para o almoço, churrasqueiras não são abrasadas nas casas pobres e tristes, isopores não são preparadas para guarnecer bebidas nas casas carentes de quase tudo. Há mesas, porém nelas o vazio perante olhares que tantas vezes choram suas carências.
Quando há quintal e neste duas ou três galinhas, talvez o almoço seja exatamente farofa de ovo, ovo com pão, ovo com cuscuz, ovo com ovo. Acaso a galinha vá pra panela, em dois ou três dias e novamente a fome sobre a mesa e sem o ovo do dia a dia. Por isso a pobreza tudo faz para não puxar o pescoço daquela que lhe forneça a esperança do alimento.
Enquanto isso, enquanto a mesa vazia se mostra imensa perante barrigas vazias e olhares entristecidos, talvez as sobras do fausto almoço dominical sejam logo lançadas em lixeiras, em sacos plásticos em vasilhames para os monturos. É o desperdício diante da fome.
Mas assim mesmo a vida. Enquanto uns adormecem depois do farto e sortido almoço, outros apenas tentam enganar, de olhos abertos ainda que adormecidos, a fome mais feia do mundo.


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