SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 23 de abril de 2017

A BARRAGEM QUE NUNCA SECA


*Rangel Alves da Costa


Existem barragens, tanques e açudes, que nunca secam. Por estarem localizados em regiões chuvosas ou recebendo água de outros leitos, sempre são avistados cheios. Não há mudança climática ou estação que os faça esvaziar de formar barro no fundo. Situação muito diferente da ocorrida na região nordestina, principalmente no contexto sertanejo do polígono das secas.
Pelos sertões, o sempre costumeiro são as fontes com pouca água ou totalmente vazias, secas, na lama. Como as cheias dependem das chuvas, e estas nem sempre caem em quantidade suficiente para escorrer e juntar líquido nos açudes, tanques e barragens, a visão mais comum é da falta d’água por todo lugar. Falta d’água para o bicho, o homem, o peixe. Quando muito, apenas um restante lamacento que vai se tornando barro a cada dia de sol mais forte.
Sem que haja canalização diretamente dos rios ou dos serviços de abastecimento, é quase impossível que algum reservatório se mantenha cheio por muito tempo na região sertaneja. E causa estranheza – senão suspeita – toda vez que um tanque ou barragem seja sempre encontrado volumoso, com água garantida para os que dela dependam na sobrevivência. Então logo se diz que foi construído por cima de um minadouro ou que algum encanamento faça o trabalho das chuvas.
Contudo, desafiando toda a lógica do meio árido e geralmente seco, há uma barragem no sertão sergipano que sempre é avistada larga, grande, cheia, volumosa de canto a outro. Mesmo estando localizada na região mais seca do estado, onde as estiagens costumam durar três a quatro anos seguidos, e onde os demais reservatórios de água comumente são avistados em barro petrificado, ali a situação é espantosamente diferente. Para muitos leigos, talvez um mistério não revelado da natureza.
Localizada ao lado da povoação de Sítios Novos, no município de Poço Redondo, distante cerca de quinze quilômetros da sede municipal, a barragem é conhecida por jamais secar, mesmo nos períodos mais secos na região. Ano após ano, mesmo que tudo ao redor esteja cinzento e esturricado, que não reste mais nenhum pingo d’água nos reservatórios sertanejos, ali nunca se modifica: água em abundância, profunda, para o banho e para a coleta, para a criação de peixes e até para servir como lar de graças brancas e outros avoantes que por ali costumam ser avistados.
Em meio à sequidão sertaneja, ao barro rachado no fundo dos tanques, encontrar uma barragem que nunca seca é algo realmente espantoso. Ao indagar sobre as possíveis causas dessa permanência de águas, as explicações são as mais diversas e contrastantes possíveis, mas nenhuma que diga que aquelas águas são realmente de chuva, ou das chuvas passadas que ali acumularam em grande quantidade.
Ora, se fosse pelas chuvas passadas, logicamente que os demais reservatórios da região se manteriam do mesmo jeito, mesmo que alguns tanques e barragens possuam menor possibilidade de sustentação das águas acumuladas. Mas enquanto as outras já se tornaram de barro nos fundos, aquela barragem continuam sempre pujante, viva, cheia. Uns dizem que é por causa das águas que escorrem das residências e ali ficam depositadas. Outros dizem que ela surgiu por cima de um minadouro que nunca deixa de verter. Já outros dizem apenas ser um mistério inexplicável.
A verdade é que a barragem continua cheia mesmo no atual período de seca grande e duradoura. Quem passa pela rodovia ao lado, não raro pode avistar atém mesmo carros-pipa fazendo coleta de água. E também as garças brancas por cima das pedras grandes ao meio. E dentre os mistérios há ainda um que de vez em quando é relembrado. E este diz respeito a um monstro que é avistado emergindo das águas no breu da noite ou mesmo debaixo da lua grande. Assim como um monstro no Lago Ness sertanejo.
Como ali é residência desse monstro, então a barragem nunca pode secar. Por isso mesmo que toda noite seres encantados trazem torneiras enormes para despejar mais água. Mais e mais, de modo que nunca seque e deixe o monstro à mostra ou correndo risco de morte. As lendas, contudo, não desmitificam a verdade: a barragem continua cheia perante os olhos de todos. Tudo seco e rachado pelo sertão. Mas ela continua cheia.


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Lá no meu sertão...


Em Poço Redondo, sertão sergipano, no Memorial Alcino Alves Costa.






A lua, as estrelas e o meu amor (Poesia)


A lua, as estrelas e o meu amor


Não quero a lua
não quero estrelas
queria apenas
o meu amor

o meu amor
ilumina a noite
faz brilhar o céu
é lua e estrelas

e se não vem
o meu amor
toda lua é noite
toda estrela apaga.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – ama-me


*Rangel Alves da Costa


Ama-me... e abro a janela e sou feliz logo ao amanhecer. Ama-me... e sorrio para a árvore, para o pássaro, para a ventania, para o cão esquelético. Ama-me... e beijo a brisa e beijo o vento. Ama-me... e canto a canção antiga, a nova canção, qualquer canção. Ama-me... e já não entristeço, já não choro, não lacrimejo, não maldigo a vida. Ama-me... e já terei a palavra, já terei a atenção, já serei um amigo, de braço estendido estarei. Ama-me... e meus olhos brilham, meu semblante prazerosamente enrubesce, minha vida é outro viver. Ama-me... e já não sou aquele de janela fechada, de porta fechada, deitado em lençóis, caminhando sozinho, cabisbaixo e inerte. Ama-me... e serei criança, menino malino, infante brincalhão, traquina de esquina. Ama-me... preciso que me ame. Nada na vida traz tanto prazer, tanta felicidade, tanto contentamento. Ama-me. Abraça-me. Beija-me. Tenha-me. Nada sou sem o teu amor. Ama-me... não sou nada sem o teu amor, nada sou sem esse amar tão em necessário em mim. Ama-me... por que o a noite cai, a lua vem, a canção chama ao afago. Ama-me... por e com todo amor, ama-me. E para o sempre: ama-me!

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sábado, 22 de abril de 2017

PARENTES DE SANGUE


*Rangel Alves da Costa


Parente matando parente, sobrinho matando tio, irmão levantando arma pra irmão, famílias em pé de guerra. Então, se indaga: Mas não são parentes, não só todos de uma só família, ainda que de troncos diferenciados e até distantes, e por que agem assim como cobras ruins, como inimigos ferozes, com um matando ou mandando matar o outro? Muitas respostas, mas sempre emerge em primeiro a estranheza de por que assim acontecer e de forma tão medonha e violenta.
Numa das respostas, tem-se que tudo está no sangue. Os ódios, as violências, as brutalidades, a cegueiras, a voracidade, tudo está no sangue. Sangue ruim, queimado, venenoso, que não pode sentir faísca que incendeia. Noutra resposta, pode-se afirmar que tudo está no temperamento brutal que está além do sangue e vai se firmando como comportamento odioso, selvagem, impetuoso. Contudo, nenhuma resposta seria satisfatória para o fato de a brutalidade e a violência serem praticadas entre os próprios parentes, com um matando ou querer matar o outro.
Acaso fosse o sangue fervendo instintivamente, de forma hereditária, a propensão à violência seria contra qualquer um, fosse com parentesco ou não. Acaso fosse o temperamento igualmente flamejante, de modo a formar um caráter bestial, a violência seria também contra qualquer um. Contudo, o que se trata aqui é da propensão de parentes se destruírem uns aos outros como numa guerra sem fim e contra inimigos que gestaram no sangue os mesmos motivos: o ódio.
A verdade é que a consanguinidade gera um parentesco de sangue. Parente consanguíneo, pois, diz respeito a pessoas ligadas pelo vínculo hereditário, de sangue. Quer dizer, pelo vínculo biológico que dá origem ao parentesco natural, gerando troncos familiares comuns e descendências, desde as primeiras raízes.
O parentesco é, assim, a relação existente que se forma entre pessoas não só da mesma raiz familiar como daquelas passam a fazer parte das famílias, como os esposos e as esposas, e por aí vai. Presume-se, neste vínculo, uma relação de amizade, de afetividade, companheirismo, principalmente considerando-se que juntos e unidos fortalecem o clã familiar. Mas nem sempre assim acontece.
Afirmou-se acima que é o ódio gestado entre parentes que leva a rios de sangue a partir do próprio sangue familiar. Mas por que tanto ódio é criado entre os parentes, de modo que vivam se engalfinhando, tocaiando um ao outro, emboscando um ao outro, matando ou mandando derrubar aquele de próprio sobrenome, tronco ou raiz familiar? Ou indagando de outro modo: Por que as aversões e as animosidades se tornam tão ferrenhas entre aqueles que deveriam permanecer sempre unidos e prontos para o enfrentamento de possíveis inimigos externos?
As desavenças por terras são as mais costumeiras entre os integrantes das próprias famílias. Situações como ciúmes, heranças mal resolvidas, partilhas desacertadas, espertezas entre parentes, tudo isso pode se tornar em fagulha e braseiro. Irmãos acusam irmãos de fazer a cerca além do limite certo, parentes acusam parentes de transferir para o outro lado ou dar sumiço em cabeças de gado, familiares se acusam mutuamente de estarem praticando esbulhos, ameaças e roubalheiras. Tudo isso é como graveto perto do fogo. Não demora muito e a bala começa a zunir, a comer no centro.
As inimizades políticas também geram brigas que parecem intermináveis. Quando familiares se desapartam e vão formando clãs poderosos, com núcleos como se fossem únicos e sobrepondo-se aos demais, então o vespeiro começa a se formar. Quer dizer, dentro de uma mesma matriz familiar, diversos núcleos de poder vão sendo gerados pelo próprio poder do latifúndio, do dinheiro, da política. E como todos querem ser os mais respeitados, mais importantes e poderosos, o que se tem então é uma guerra formada entre os parentes. E quando um acaba afrontando ou confrontando o outro, então todos começam a pegar em armas para as vinditas de sangue. Em tal contexto, muito utilizada é a figura do matador de aluguel para agir em nome de poderoso mandante.
Contudo, as famílias não precisam ser nem ricas nem poderosas para viverem em permanente estado de guerra. Os ódios e as intrigas não exigem condição social ou qualquer tipo de poder. Basta que um parente ataque o outro e então os partidos começam a ser tomados e as trincheiras guarnecidas de lado a lado. E não há muita escolha nessa guerra, pois cada um parente pode pagar pelo outro. Tudo vai gerando uma violência tão cega que ao invés de um sobrinho chegar para dar a benção a um tio, o que lhe estende é a arma já cuspindo fogo. E quando as vinganças começam, então é de nunca parar. Assim é que vinganças antigas ainda hoje continuam fazendo vítimas.
Assim os parentes e os parentescos de sangue. É muito mais fácil um estranho sair com vida em meio a essa guerra do que um parente quando marcado para morrer pelo outro. E nada antigo não, nada dos tempos das barbáries coronelistas não. Ainda hoje continua assim. Por trás de potentes raízes e troncos familiares há um filete de sangue que não para de escorrer.


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Lá no meu sertão...


Quando Deus sertanejo acende velas no céu!





Da infinita riqueza (Poesia)



Da infinita riqueza


Quero tudo
tudo todo
todo tudo
do muito
tão pouco
agora

de tudo
o grão
do grão
o pó
do pó
a réstia
o resto
muito
do quase
nada

apenas
a vida
viver
apenas.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – sem perdão


*Rangel Alves da Costa


Situações acontecem que se tornam difíceis demais perdoar. Logicamente que o perdão comprova a propensão humana ao diálogo, ao reconhecimento do erro e o afastamento de rancores e mágoas. Contudo, muitas vezes perdoa-se um insulto maior a um acontecimento até mesmo irrelevante para muitos. Tantas vezes, uma palavra fere muito mais que um bofetão. Uma mentira provoca um dano maior que qualquer outra situação. A ingratidão também causa um dano irreparável. Muito se releva na vida, muito se deixa pra lá, muito se faz de conta que nem aconteceu. Mas difícil demais perdoar a mentira de quem tanto acredita, a falsidade de quem tanto confia, o escárnio de quem nunca teve nada negado. É por essas e outras que de repente a terra parece se abrir aos pés. Duvida, não quer acreditar, tudo faz para confirmar outra verdade. Mas quando se confirma e a dor se alastra onde existia amizade, amor e comunhão, então não há como perdoar. Então não há mais perdão.

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sexta-feira, 21 de abril de 2017

A NOITE DOS GATOS


*Rangel Alves da Costa


Eles surgem silenciosos, noturnos, soturnos, aparecendo nas esquinas, surgindo dos muros, das residências, vindos de todo lugar. Negros, pardos, esbranquiçados, amarelados, de cores mistas ou indefinidas, assim vão surgindo os gatos na noite.
Vão lentamente se achegando aos beirais das calçadas, aos cantos mais escurecidos, aos pés de muros. Confabulam, se roçam, se aproximam, se afastam, de vez em quando parece haver até desavenças e ameaças mútuas. Surgem os primeiros miados.
Os gatos sempre agem assim. São reconhecíveis seus procedimentos de cada noite. Gostam de se reunir em grupos, porém logo vão se dispersando. Os diálogos iniciais entre os bichanos parecem uma distribuição das tarefas noturnas – e madrugada adentro – de cada um.
Ora chegam em maior número, ora apenas uns quatro ou cinco. Mas se avista muito mais dispersos pela escuridão das ruas. Após os encontros iniciais, alguns vão sumindo pelos escondidos enquanto outros permanecem no local ou arredores. Não demora muito e a gataiada já está em plena função noturna.
Coisa estranha acontece nesse bicho caseiro. O gato parece ter duas faces, duas feições, modos distintos de agir se durante o dia ou durante a noite e nas altas madrugadas. Seu comportamento é totalmente oposto se numa ou noutra situação. Ao dia, sempre dócil, fagueiro, amistoso. Mas estranho demais depois do anoitecer.
Quando a noite cai, então o gato se mostra na plenitude de seus segredos, mistérios, desconhecidos. Os gatos da noite são como ébrio apaixonados, são como vagantes solitários, são como seres lascivos e permissivos, são como enfermos cujas moléstias se acentuam quando a lua chega.
Por isso mesmo que a noite dos gatos é tão soturna, tão noturna, tão embriagada, tão insana, tão ávida por estranhezas. Por isso mesmo os gemidos, os miados roucos, os miados aflitivos, os miados de fúria e de incontido prazer. O amor e a insanidade noturna dos gatos.
Gatos de gemidos lúgubres, apavorantes, terríveis, alucinantes. Gatos de canções funestas, medonhas, insuportáveis ao ouvido humano. Gatos que gritam seus prazeres e sofrimentos de forma repetida, incontida, quase mecanicamente. Não são avistados, sentidos, presenciados, apenas ouvidos nos seus gemidos fúnebres ou luxuriosos.
As pessoas gemem ao amar, ao fazer sexo, ao sentir prazer. Mas os gatos gemem incontidamente, sem pudor, nas alturas, como em gritos ensandecidos. As pessoas murmuram e sussurram gozos carnais, mas os gatos gemem o prazer como se os sentidos estivessem transformados em agonias. Por isso que os gatos tanto agonizam nos telhados.
De qualquer modo, noite adentro, madrugada afora, e os bichanos fazendo sua festa noctívaga ou vivendo suas dores noturnas. Já não são aqueles gatos do dia, apenas seres que vorazes se entregam ao que os mistérios debaixo da lua ou no breu da hora permitem fazer.
Triste e lancinante deve ser a solidão dos gatos. Os lamentos, os gemidos, os prantos gritados, não deixam dúvidas do tamanho sofrimento que lhes é impingido. Um luto, uma terrível perda, uma saudade sem fim, um desejo impossível sem fim. Vagam pelos telhados, uivam seus lados lobos, atestam que os sofrimentos noturnos não são apenas de humanos.
Pelos telhados a noite se alonga. Quando a madrugada abre seus braços misteriosamente secretos, os gatos ainda permanecem em sentinelas e ladainhas. Suas vigílias são de suas próprias mortes, de suas próprias ausências, de seus sofrimentos. Ora, se são completamente diferentes durante o dia, então por que não se imaginar as insanas transformações?
De repente os telhados silenciam. O breu da noite já se foi, a madrugada já chama o primeiro clarão do dia. Apenas um ou outro gemido de gato. E pelas esquinas vão novamente sumindo. Dali até o anoitecer apenas os gatos caseiros. Até que novamente transbordem seus instintos felinos.


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Lá no meu sertão...


Nos caminhos sertanejos de Poço Redondo, na aridez sergipana.



Saudade de tudo (Poesia)


Saudade de tudo


Quero pedaço grande de cocada de frade
e depois um gole d’água de moringa de janela
mas cadê Dona Cecília e sua mesinha na calçada?

quero um copo de arroz-doce cheirando a canela
e depois mais outro que é pra provar bem do coco
mas cadê Baíta e seu tacho fervente de gostosura?

quero uma cocada branca mole e meio liguenta
e depois um pirulito de mel enroladinho na tábua
mas cadê Quininha e Luisinha para adoçar essa vida?

quero ainda essa saudade por que vivi esse tempo
por que tomei café torrado na cozinha de Dona Lídia
por que tomei banho nu pelas antigas ruas chuvosas
e ainda estou aqui pra dizer que fui toda a felicidade.



Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – o estranho caso dos objetos que anoitecem e amanhecem fora da loja e ninguém furta ou rouba


*Rangel Alves da Costa


Quando aos finais de semana me desloco de Aracaju para o sertão sergipano, ao passar na cidade de Nossa Senhora Aparecida, de repente me vejo fazendo a mesma indagação: por que esses objetos sempre ficam aqui do lado de fora e nunca meliantes ou ladrões baratos passam para furtar? Fico realmente espantado, admirado, realmente surpreso que perante tamanhos índices de insegurança, de furtos e roubos, objetos amanheçam e anoiteçam fora da loja sem ninguém os levar. Observem se realmente não causa estranheza. Trata-se de uma loja que vende produtos agrícolas e artesanais, principalmente peças em barro, gesso, ferro e madeira, dentre outros. E o proprietário coloca muitas dessas peças artesanais, como grandes imagens de santos, bois, cavalos e outros bichos do campo, além de todos os tipos de quinquilharias para enfeites de residências, fazendas e sítios, na calçada da loja e um pouco adiante, mas ali mesmo deixa tudo quando baixa as portas de seu comércio. Daí que se alguém passar na madrugada pelo centro da cidade, logo vai avistar aqueles objetos do lado de fora da loja, igualmente ao alvorecer e feriados. Então surge a indagação: qual segurança que tem ali, por que de repente não furtam muitos daqueles objetos? E já faz muito tempo que venho observando isso. Eis, então, a comprovação de que ninguém leva às escondidas sequer uma garça grande de gesso. Do contrário, aqueles objetos ali não permaneceriam de dia a noite. Uma situação quase impensável de acontecer. Mas acontece na cidade sergipana de Nossa Senhora Aparecida.
  
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quinta-feira, 20 de abril de 2017

CALADO EU


*Rangel Alves da Costa


Boca fechada resguarda tudo. Muito melhor se manter calado a abrir o verbo de vez, ainda que os motivos e as justificativas sejam os mais plausíveis. Melhor evitar a falar ao vento, mesmo que seja indescritível o prazer de despejar tudo de vez.
Então, calado eu fico, permaneço, continuo. Melhor assim a abrir a boca para dizer umas verdades a grande parte de uma população brasileira que reclama e reclama, critica e critica, mas na hora de votar se ajoelha à mesmice corrupta e lamacenta.
Calado eu fico para não dizer umas poucas e boas a uma gente que parece não ter o que fazer e se compraz em assistir as baboseiras e idiotices de um BBB. E ainda por cima, apaixonadamente, leva às redes sociais seus fervores e suas pequenezas humanas.
Calado eu permaneço para não fazer da voz punhal afiado nem da palavra uma arma mortal. Mas é que dá vontade mesmo de dizer nas fuças umas poucas e boas. A gente vai guardando e guardando, suportando e suportando, mas chega um instante que corda arrebenta e não tem jeito mesmo.
Calado eu fico quando sinto que não vai adiantar mesmo o que eu possa dizer. Falar ao vento é perda de tempo, dizer a quem não sabe ouvir é gastar saliva, dialogar com o analfabetismo político é ter raiva sozinho. Ora, se não fosse o ódio e o rancor aprisionados, creio que o eterno silêncio seria a melhor palavra.
Calado eu fico por que sei que de minha voz pode sair tiro, bala, espoleta, chumbo, estricnina, veneno mortal. Não que minha palavra seja maldosa, cruel, ferina ou bala certeira, mas que se torna impossível não detonar perante determinadas situações. Num doa a quem doer, o mais importante mesmo é não aceitar enraizando os absurdos de um mando insano.
Calado eu estou agora e não sei por quanto tempo continuarei assim. Talvez por um instante apenas ou pela eternidade. Mas não adianta, pois o meu olho brilha, a minha pele eriça, o meu sangue ferve, o meu corpo avermelha. Tudo raiva, tudo ira, tudo ódio por tantas incoerências, injustiças e iniquidades.
Calado eu fico como fica a montanha após a presença do sábio. Medito, reflito, encontro razões. Em silêncio eu fico como o velho sábio ante o as águas que lentamente passam no leito do rio adiante. Medito, reflito, procuro encontrar. Sem palavra permaneço como permanece o céu na presença da luz maior.
Calado eu fico para não, através da voz, levantar os tapetes que escondem as podridões dos poderes, os esgotos políticos, as putrefações que assolam o país. Não significa, contudo, que assim eu permaneça, pois apenas buscando fôlego para bradar de vez um inconformismo que já perdura desde tempos mais antigos.
Calado eu fico para não ferir, machucar, atentar contra qualquer pessoa. Calado eu fico, mas como uma vontade danada de xingar de tudo o que não presta, de dizer nas fuças umas boas verdades, de fazer sair pela boca tudo o que precisa ser gritado e que ainda permanece em doloroso silêncio.
Calado eu fico por que sei que a taça é frágil, que os candelabros são frágeis, que as asas das borboletas são frágeis, que o silêncio é frágil demais para ouvir. Ao abrir a boca, talvez um vendaval saia destroçando tudo. E não quero que o frágil pereça pelos meus ódios e rancores.
Calado eu fico até quando quero falar e dizer te amo, te amo, te amo. Calado eu fico quando eu precisava declamar poesia ao meu amor. Calado eu fico quando quero falar coisas belas e que agradem ao coração. Mas tenho olhos, mãos e corpo que tudo dizem e tudo pedem.
Calado eu fico agora. Emudeço. Vou guardar minha voz para quando eu precise me revelar um segredo: Não haveria de ter palavra. Bastaria o silêncio!


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Lá no meu sertão...


A sertanejinha mais linda do mundo. Minha bela namorada!



Sertão, meu sertão (Poesia)


Sertão, meu sertão


Cadê meu chapéu de couro, meu alforje e meu gibão?
leve essa caneta dourada e esse papel feio e de tanta letra
e me traga meu aió de cipó trançado e o meu embornal
e pergunte a Zefinha se vai botar baião-de-dois no fogão

cadê minha lua tão sertaneja e meu sol tão chamejante?
leve esse sapato brilhoso e esse terno vaidoso e egoísta
e me traga uma cuia de araçá e um punhado de quixaba
e pergunte a Joaninha se amanhã vai quarar rouba na cacimba

cadê meu tempo, minha vida, meu passo naquela estrada?
olho a ventania no varal e me pergunto se a vida é assim também
as craibeiras tardam tanto a chegar que choro a finura da catingueira
tenho tanto medo que tudo seja assim que peço meu rosário de contas

e Bastião me vem dizendo que não há mais capim nem palma
silencio porque já ouvi de Totonho que já não há mais nada lá fora
enquanto isso Delourdes canta uma velha canção para não chorar
mas não há quem não chore se o gado não berra e o galo não canta mais

sofro e choro num sertão assim castigado de braseiro sobre a terra
mas ainda assim muito mais contente que viver fingindo alegria distante
por isso deixo pra trás meu anel de doutor e toda essa minha esnobês
e vou caminhar pela terra sertão de chinelo de dedo como meu pai fazia.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – doces e saborosas recordações


*Rangel Alves da Costa


De vez em quando eu sinto o retorno das doces e saborosas recordações. Pirulito de mel, vendido em tábua grande, doce como a própria infância. Arroz-doce, encorpado, com muito coco e por cima a canela se espalhando. Mungunzá de milho amarelo, feito no tacho, também com muito coco e de inigualável sabor. Cocada branca e cocada preta, mole ou dura, em bandeja estendida na janela. Bolo de molho, de arroz, de puba, de macaxeira, mas também de leite e de ovos. Tudo feito em forno de lenha, na cozinha, depois colocado na mesa para esfriar e ser repartido. Cuia de araçá madurinho, bem amarelinho, miudinho e doce que nem bala de açúcar. Melão coalhada, araticum, quixaba, tudo de dar água na boca só em pensar. leite quentinho esguichado do peito da vaca e com um tiquinho de farinha já despejada no prato de estanho. Goiaba, mamão e jabuticaba, roubados pelos quintais. Quanto mais perigo corria mais sabor tinha a fruta afanada. E mais uma bela recordação da infância: avistar calcinhas vermelhas e rendadas nos varais. E imaginar sua dona tão jovem e tão bonita.
  
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quarta-feira, 19 de abril de 2017

ANDANDO PELO SERTÃO


*Rangel Alves da Costa


Um dos maiores que tenho na vida é estar no meu sertão sergipano, em Nossa Senhora da Conceição meu berço de nascimento, mas principalmente andando de chinelo de dedo pelos caminhos de terra nua.
Causa indescritível prazer quando saiu do asfalto da cidade e mais adiante encontro a estrada, a vereda, o caminho. E ao redor de tudo as paisagens, que mesmo secas e cinzentas despertam alegria ao olhar. Pisando em chão batido, em terra solta, por riba de grãos graúdos, de pontas de pedras e espinhos, vou seguindo adiante nos meus percursos de reencontro.
Percursos de reencontro pelo fato de já ter caminhado outras vezes pelas mesmas estradas e rumo aos mesmos lugares, mas a cada retorno um novo prazer pelo cotejo entre o ontem e o agora. E reencontro também pela revivência com a história, com as velhas raízes sertanejas, com o que ainda resta do passado.
Foi numa dessas andanças que no último sábado eu enveredei para o outro lado da cidade, seguindo até uma antiga comunidade denominada Alto de João Paulo, uma povoação de raiz familiar e que até hoje preserva muito do seu passado mais distante. Surgida apenas como Alto, pois localizada numa região mais alta cerca de um quilômetro após o Riacho Jacaré (que passa ao redor da cidade de Poço Redondo), depois passou a ser conhecida como Alto de João Paulo, numa merecidíssima homenagem a um de seus mais afamados moradores: João Paulo, de saudosa memória.
Como dito, na tarde deste último sábado fui caminhando até o Alto de João Paulo para conversar com amigos que tenho por lá e distribuir alguns bombons de chocolate às crianças. Depois da passagem do Riacho Jacaré, na subida ao redor do antigo campo de Luiz Doce, a sensação é de reencontro com um Poço Redondo ainda vivo na sua memória. Reencontrar o Alto é como sentir a presença daqueles sertanejos que tanto dignificaram a nossa história. Os cangaceiros, os vaqueiros, os lavradores, os homens das caatingas e os homens da terra.
A povoação e seus arredores foram berço de nascimento de muitos jovens que mais tarde serviram ao bando do Capitão Lampião como cangaceiros, a exemplo de Adília e seu irmão Delicado, Sila e seus irmãos Novo Tempo, Mergulhão e Marinheiro (Du, Gumercindo e Antônio), filhos de Paulo Braz São Mateus e irmãos de João Paulo. Berço de convivência também de famosos vaqueiros como Humberto Braz e Abdias, igualmente irmãos de João Paulo. No Alto de João Paulo também morava o maior artesão de chocalhos, ferros e ferraduras da região, o renomado Galego.
Alto de João Paulo do próprio João Paulo, dos Mulatinho, de Maximino, de Adília, de toda a família Braz, Sarmento e tantas outras, cujas raízes foram gerando gerações e gerações. E ainda hoje tudo parecendo como ontem. Uma comunidade de feição familiar e de parentes e amigos sentados ao entardecer debaixo e ao redor das árvores centenárias. E de vez em quando era como se ouvisse João Paulo gritando todo festeiro. Voz alta, quase um grito, cumprimentando a todos e a seu sertão. E como foi bom avistar famílias nas calçadas, crianças brincando, amigos em proseando. Bem ali ao lado da cidade e uma comunidade ainda preservada em toda a sua inteireza.
E lá nos sertões antigos um povo fincou raiz e fez erguer gerações. E as gerações surgidas se dividiram em permanecer no lugar ou se mudar pra cidade. Os que permaneceram ainda preservam em pujança toda vida e história. E Deus permita que o progresso chegue sem jamais apagar a memória e a história do Alto de João Paulo, desde suas raízes aos seus troncos e frutos de agora. Contudo, o que tanto me alenta é saber que mesmo os que vivem na cidade ou mesmo em outras localidades, possuem apego e amor indescritíveis pelo seu tão rico chão sertanejo, bem ali, pertinho, numa caminhada só, depois da passagem do riachinho.
Tudo isso, catado como história e colocado no embornal da memória, é o que sempre me move a tanto gostar de andar pelos caminhos do meu sertão.


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Lá no meu sertão...


Eu (ao centro), Lélia e o diretor Hermano Penna, de “Sargento Getúlio”, “Olho de Boi”, “Aos Ventos que Virão” e “Zé de Julião - Muito Além do Cangaço”, dentre tantos outros filmes.




Do tempo e do vento (Poesia)


Do tempo e do vento


Do tempo e do vento
aprendi a esperar as folhas caídas
das velhas amendoeiras e nelas escrever
mil cartas de amor e de solitária solidão

do tempo e do vento
aprendi a conversar sozinho ao entardecer
e dar conta em mim mesmo de muita coisa
principalmente que sou novamente criança

do tempo e do vento
aprendi a deixar a porta se abrir sozinha
e a janela bater ao sopro de estranha mão
que chega sempre inusitada como a morte.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - mulheres que se vulgarizam em fotografias


*Rangel Alves da Costa


Avistar fotografia de mulher bonita é sempre um colírio ao olhar. A beleza deve ser mostrada, vista, apreciada. Há mulher tão encantadoramente flor que basta um retrato da face e todo um jardim já será avistado. Contudo, mulheres existem que forjam a si mesmas para se mostrarem gostosas, sexys, apetitosas. Quando postam nas redes sociais fotografias apelativas, em poses insinuando erotismo, ou mesmo apenas para mostrar os seus dotes carnais, então logo se tem a mulher vulgar, banal, libertina, barata. E ali já não será mais apreciada qualquer beleza senão apelativos e permissivos dotes sexuais. É como se aquela que posta retrato assim, em pose e moldura desavergonhada, estivesse chamando homem para si, macho para si, dizendo que venha, me cante, me mande mensagem pelo Messenger que sou assim mesmo e mais safada ainda. Infelizmente é isso que muito ocorre nas redes sociais, principalmente no facebook. Mulheres que perdem seus encantos femininos para se mostrarem apenas como reles prostitutas.

Escritor
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terça-feira, 18 de abril de 2017

OS NAMOROS EM POÇO REDONDO E EM QUALQUER LUGAR


*Rangel Alves da Costa


Muito diferente dos namoros passados, onde até chegar à relação sexual propriamente dita passava-se por um longo processo e intensas expectativas, atualmente os enamorados poucos se conhecem e já querem se conhecer muito mais.
Só pra lembrar, no passado o namoro possuía uma feição tão respeitosa e valorizada que equivalia mesmo mais a muitos casamentos de hoje. Num tempo mais distante ainda, o namoro era na casa da moça, sob os olhares dos pais, sentadinhos em cadeiras e sem chances de atracamentos.
Tal costume evoluiu, porém sem perder o caráter de respeito e seriedade. Namoro às escondidas, por detrás dos muros, não eram costumeiros como agora. Tantas vezes, o rapaz pedia a mão da moça para namorar e desde logo se comprometia a respeitá-la. Também havia aliança de compromisso e verdadeiro compromisso. Ostentar um anel de noivado era honra maior para toda moça.
Já casados, ou mesmo ainda noivos, a fidelidade era tamanha que o homem se ausentava por longo tempo e ainda assim nem sempre corria perigo de ser passado pra trás, ou corneado, como comumente se diz. Com efeito, quando a situação estava difícil no sertão (secas, desempregos) o homem arribava em busca de emprego no sul do país. A noiva ou esposa ficava esperando pacientemente o seu retorno. E de lá ele enviava uma pequena mensal ora para levantar uma parede da futura casa ora para manter a dignidade familiar.
Mas os tempos foram transformando as fidelidades em traições, os compromissos em banalidades, as relações em eventualidades. E de repente nem precisava que o homem estivesse distante para ser traído abertamente. Traíam-se pelas portas da frente e dos fundos, pelas janelas e através de amigas alcoviteiras. As mocinhas desgarraram-se dos pais e do respeito outrora sagrado, para também se embrenharem nos namoros libertinos e permissivos demais.
Se a prática sexual era usualmente permitida apenas depois do casamento, os ventos das mudanças foram transformando tudo em cafonice. De repente - e para espanto e desespero das famílias - as meninas apareciam barrigudas. E o pior: tantas vezes sem qualquer identificação do responsável pela prenhice. Depois das festas de agosto então. Depois da festa principal de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo - a Festa de Agosto -, nos meses seguintes surgiam os comentários, as fofocas e os espantos. Muito sertanejo de hoje nasceu assim.
Mas depois não somente nas festas de agosto a situação se acentuava, pois bastava um baile qualquer e no outro dia os monturos, quintais, nas beiradas do riachinho e arredores, calcinhas e outras roupas íntimas eram encontradas aos montes. Gente que esquecia o sapato, a chinela, o tênis, mas principalmente a vergonha. Um mundo já de desmedida sem-vergonhice. Mas ainda nada comparado aos usos atuais que se dá ao corpo, como se o sexo pelo sexo justificasse qualquer verdadeiro prazer.
A verdade é que os modismos avançaram de tal modo que até o corpo passou a ser objeto de banalidade consumista. Pouco se vê ou se fala em verdadeiro namoro, em relacionamento respeitoso entre ambos os enamorados. E quase não há mais namoro, pois a juventude se permitiu enveredar por caminhos de tanto-faz, de experiências, de jogos sexuais. Em muitas situações, o termo namoro deu lugar ao “ficar”. E de ficar em ficar, quando o mel esvazia da colmeia, o que resta é somente a desonra.
Difícil de acreditar, mas em época de festas, com muitos rapazes de fora que se achegam já sabendo das facilidades em muitas mocinhas locais, os encontros e os olhares já são quase certeza de safadezas. Sem ao menos se conhecerem ou sequer sabendo o nome um do outro, num passo e já estarão se entregando em qualquer lugar. No dia seguinte ele desaparece e ela fica querendo mais. E aí o maior perigo: na ausência daquele, começa a querer se satisfazer com outros e mais outros. E de repente apenas a mulher de qualquer um.
Qualquer coisa que se diga à juventude sobre os perigos dessa nefasta permissividade, logo se corre o risco de ser achincalhado, chamado de ultrapassado, de cafona. Mas os exemplos permanecem e se acentuam cada vez mais. A verdade é que atualmente ter filhos requer cuidados muito maiores além da criação e formação, pois quando a porta é aberta e o mundo começa a chamar só mesmo Deus para livrá-los de todo o mal.

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Lá no meu sertão...


Nas águas do Velho Chico em Bonsucesso, povoação ribeirinha no município de Poço Redondo, sertão sergipano.







Canção pra ela (Poesia)


Canção pra ela


Pensei que era folha ao vento
mas era ela seguindo e seguindo
pensei em segurar o vento
mas deixei ela partindo e partindo

assim a vida em seu dia de ventania
o amor que veio de repente vai partir
e sem lágrima, tristeza ou agonia
sopro mais a ventania até ela sumir.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - minha nova vida de solteiro


*Rangel Alves da Costa


Infelizmente nada a comemorar na minha nova vida de solteiro. Também tanto faz estar em um relacionamento sério ou solteiro. Tudo apenas uma questão de status de Facebook e para as fofocas de plantão. Antes no meu status constava: Em um relacionamento sério com Milla Ferreira. Porém antes mesmo de o relacionamento terminar eu já lia: Em um relacionamento sério. Apenas isso, sem dizer com quem. Foi então que descobri que eu já estava sem namorada, e sem saber. Mas ontem avistei o seu perfil e lá constava ela como solteira. Pois bem. Tudo terminada. Só que no meu ainda consta o tal do relacionamento sério. Vou deixar assim. Não tem nada não. Em um relacionamento sério comigo mesmo. Melhor assim. Sinto-me bem sendo solteiro. Aliás, nem sei por que fui permitir que o meu status de solteiro fosse modificado. Acaso eu encontre namorada vou logo avisar: Estou num relacionamento sério com alguém. Veja lá no Facebook. Acaso ela pergunte com quem, então direi comigo mesmo. E se ela não implicar com isso, não desconfiar que eu esteja mentindo ou apenas ludibriando, então terei o maior prazer de colocar o seu nome no local que agora está vago. Essa merecerá constar. Não a outra que se tornou solteira sem eu saber de nada.

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segunda-feira, 17 de abril de 2017

CARTA A UMA MENINA QUE ABRIU A PORTA E SAIU


*Rangel Alves da Costa


Não sei se esta cartinha jamais será lida por ela, pela menina que abriu a porta e saiu. Mas que bom se alguma ventania fizesse chegar perante suas mãos e seu olhar estas sinceras e palavras.
Confesso que pouco tenho a dizer à menina que abriu a porta e saiu. Também confesso que não sei e até agora não entendi o porquê de ela haver agido assim, de ter aberto a porta e tomado um caminho.
Sei que a menina já ouviu muito sobre os perigos da estrada. Desde as vovós de antigamente, muito já se disse sobre os lobos maus, sobre os labirintos perigosos, sobre as perigosas surpresas existentes em cada curva.
Eu mesmo já pedi e insisti perante a menina que não cometesse a loucura de simplesmente abrir a porta e partir. Deitei sua cabeça no meu colo, afaguei seus cabelos, e baixinho lhe disse que o desconhecido lá fora não resolveria problema de ninguém.
E também lhe disse que nada melhor que a palavra para se chegar ao entendimento. Se estava com problemas, se não estava gostando de ficar, se não se sentia mais feliz ao meu lado, então que não escondesse nada.
Mas a menina ouvia e ouvia. E eu repetia e repetia, pedia e pedia. A sua mudez me perturbava. Uma pedra diante de mim. Por vezes, até que dizia entender cada palavra dita. De vez em quando acenava em aceitação. Mas depois tudo simplesmente era esquecido.
Nem nos dias anteriores nem naquele dia lhe dei qualquer motivo para que abrisse a porta e partisse. Aliás, não recordo um só motivo para que repentinamente abrisse a porta. Não há sol novo em nenhum lugar, a lua é a mesma aqui e acolá. Nada adiantou.
O que mais me espanta é por não se tratar de uma adolescente rebelde, de uma menininha emburrada, de uma jovem aventureira, mas de alguém que ao meu lado estava com a intenção maior de construir o mundo. Menininha minha, minha promessa de amor e de viver.
Coloquei flor nos seus cabelos, fiz cafuné deitado na rede, convidei a passear. Talvez o frescor de lá fora nos fizesse bem aos sentimentos. E quem sabe de mãos dadas ela reaprendesse a não querer desapartar. Não quis. Mas disse que ia abraçar a brisa. Abriu a porta e não voltou.
Eu sabia que assim aconteceria. Bastava apenas o instante chegar. E eu não podia fazer absolutamente nada para impedir. Ora, era desejo dela. E somente ela pode dar o norte que quiser à sua liberdade. E, sem olhar pra trás, foi se distanciando, sumindo, sumindo...
Sozinho fiquei. Sozinho fiquei, mas sem lágrima, sem mágoa, sem dor ou angústia. Absolutamente nada podia fazer ante aquela decisão. Fiquei apenas tentar juntar os velhos farrapos de minha solidão. E entre velharias encontrei o papel onde escrevi esse cartinha:
“Se na distância e em meio aos caminhos, a felicidade possa encontrar, então feliz eu também estarei. Que seja seguro o caminho, que seja fresca a água que vai beber, que seja bom o alimento que possa encontrar. O que de ti restou em mim ainda está dentro de mim.
Falta-me café na xícara e é como eu ouvisse sua voz me perguntando se queria um pouco mais. A cama está desarrumada, a rede balança sozinha. Não tenho vontade de deitar. A porta continua aberta e através dela me chega uma canção de saudade. A ventania traz uma folha morta como se fosse um lenço de enxugar o mar.
Mas não preciso. Não estou chorando. Jamais chorarei. O pranto se derrama apenas em tristeza, em saudade, em retratos que não saem do meu olhar. Logo virá a noite, logo virá outro dia. Mas não sei como a vida vai continuar.
Falta-me o café na xícara. Já não quero mais escrever. Meu coração, como está meu coração, eu não sei. O silêncio entorpece tudo. Talvez a lua não venha essa noite. Talvez a lua não venha nunca mais”.


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Lá no meu sertão...


Alguém me despertou, e como raiz fincou, o amor pelo sertão...




Vô Sinhô e Vó Sinhá (Poesia)


Vô Sinhô e Vó Sinhá


Vô Sinhô
mundo grande
que é tudo
vida

Vó Sinhá
viver imenso
do tamanho
mundo

Sinhô e Sinhá
digam ao menino
o que é a vida
o que é mundo

e me façam
alargar tudo
e ser assim
imensidão.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – o amor e seu troco


*Rangel Alves da Costa


Depois de tudo, depois de ter feito o que foi possível fazer, ainda assim sair da relação amorosa como um verme asqueroso, um vagabundo safado, um verdadeiro imprestável. Ela pediu uma flor e ele correu mundos atrás de um buquê. Ela pediu um doce e ele entristeceu porque não pôde oferecer a doceria inteira. Ela queria uma fruta e ele se embrenhou pelo mercado levando um cesto às costas. Ela pediu um biscoito e ele quase compra a prateleira inteira. Ela pediu um algodão doce e ele chegou a perguntar ao moço quanto era o carrinho e como fazia aquele algodão. Ela pediu jaca e ele logo trouxe as maiores que pôde encontrar. Ela pediu um anel de compromisso e ele mandou que escolhesse o que desejasse. Ela pediu um picolé e ele quase levou a sorveteria. Ela pediu uma joia e ele comprou para os dedos, para as orelhas, para os braços e até para os cabelos. Ela pediu o mundo e ele prometeu para breve. Ela pedia e pedia e ele dava e dava. Mas quando ele pediu apenas que ela nada lhe escondesse, ela simplesmente abriu a porta e disse que a estrada era dos vagabundos, vira-latas e imprestáveis. Ou melhor, nem abriu a porta a porta. Mandou-o embora pelo whatsapp.


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domingo, 16 de abril de 2017

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS E O POLÍTICO QUE ROUBAVA TUDO


*Rangel Alves da Costa


O submundo da política brasileira atual não caberia somente numa estante, mas numa imensa biblioteca. Livros e mais livros para contar sobre as tramoias do poder, as roubalheiras políticas, os enredos lamacentos e enlameados de Brasília e adjacências. Em obras cujos títulos revelariam seus putrefatos conteúdos, logo se avistaria a nudez desavergonhada da corrupção em todas as esferas de poder.
Além de títulos novos, muitos outros títulos surgiriam como versões de livros famosos. Ora, obras como “O Poderoso Chefão” (de Mario Puzo), “Os Submundos do Vaticano” (de Morris West) e “O Homem Nu” (de Fernando Sabino), teriam reedições perfeitas com títulos aproximados para mostrar as máfias que se articulam pelos corredores e gabinetes, os lodaçais que alimentam a política e os políticos, os desavergonhamentos de toda uma classe de poder e mando. E “O Príncipe” (de Maquiavel) traduzido em diversos sentidos para mostrar quais os verdadeiros meios e os fins da classe política brasileira.
Neste sentido, “O Menino do Pijama Listrado” (de John Boyne) seria convertido em “O Político do Pijama Listrado”, dessa feita narrando as desventuras de um político corrupto que tem de trocar seu terno importado e seu relógio de ouro por uma roupa listrada de presidiário.
“Alice no País das Maravilhas” (de Lewis Carol) não receberia um título mais apropriado que “A Vida no País das Roubalheiras”, contando a história de um povo que aos poucos vai caindo na toca dos ladrões e ao abrir os olhos avista somente espertezas, corrupções, ladroeiras, lamaçais de todo tipo. Pensa que é fantasia, mas percebe que está num beco sem saída.
“A Menina que Roubava Livros” (de Markus Zusak) certamente seria transmudado para “O Político que Roubava Tudo”, cuidando de um político que enganou até a morte para surrupiar mais algum. Um enredo sobre artimanhas e vilezas de uma política tão gulosa de enriquecimento ilícito que já não admite receber valores senão em caixas e grandes pacotes.
“Brasil, País do Futuro” (de Stefan Zweig) receberia um título digno do que a pátria foi transformada: “Brasil, País sem Futuro”. Neste, ao invés do ufanismo exacerbado, o que se encontraria seria o relato fiel de um país imensamente rico e que se tornou extremamente empobrecido pelas corrupções desenfreadas em todos os setores da vida política e governamental.
“O Ladrão do Tempo” (de John Boyne) receberia a seguinte versão: “O Ladrão do Planalto”. Se no livro original alguém não envelhece por que rouba o tempo, na versão a ladroeira parece eternizada desde a colonização do país, até mostrando um incomparável rejuvenescimento no tempo presente.
“O Ladrão de Casaca” (de Arsène Lupin) caberia em inúmeros títulos perante a realidade brasileira atual: “O Ladrão de Terno”, “O Ladrão de Quatro Dedos”, “O Ladrão Companheiro”, “O Ladrão da Estatal”, “O Ladrão do Caixa Dois”, “O Ladrão da Petrobras”, “O Ladrão do Senado”, “O Ladrão de Brasília”, dentre tantos outros ladrões.
“Colheita Maldita” (de Stephen King) logo se tornaria “Que Colheita Maldita!”, enredo este baseado em colheitas fartas de verbas públicas, de propinas, de caixa dois, de fraudes em licitação, em lobbies, em venda de emendas, mas que depois se mostraram como provas irrefutáveis para condenação de políticos e outros poderosos.
“O Sol é para Todos” (de Harper Lee) receberia o sugestivo título de “O Sol agora é quadrado para Todos”. E seu conteúdo mostrando que todos os políticos, dirigentes, governantes, empreiteiros, ministros, secretários, autoridades, poderosos, todos, indistintamente, de repente podem ser encarcerados e condenados, tendo que trocar as paisagens ensolaradas de seus gabinetes pelas carceragens onde o sol sempre nasce quadrado.
“Os Últimos Dias de Pompéia” (de Edward Bulwer-Lytton) seria transmudado para “Os Últimos Dias de Poder”, narrando os instantes finais da derrocada daqueles que por muito tempo agiram como inexpugnáveis e imunes a todos os tipos de punições pelas roubalheiras praticadas contra os cofres públicos. E uma vastidão de versões para “Ascensão e Queda de um Império”. Não faltariam argumentos para mostrar como os impérios da política e do poder de repente sucumbem pela voracidade ilícita de seus governantes.
Talvez uma imensa biblioteca chamada Brasil. E logo na entrada os seguintes dizeres: Sua delação também pode ser transformada em livro. Então aponte cada um safado que há neste país afundado pelas vilezas do poder corrupto, corrompido e corruptor.


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Lá no meu sertão...


Hoje não há mais a coragem de outros homens. Mas muita gente ainda vive na canga, feito bicho açoitado, chicoteado.








De partida (Poesia)


De partida


O amor acabou
mas não levo comigo
nem adeus nem lágrima
pois se o amor acabou
não preciso comigo levar
nada da tristeza que ficou
que a tristeza permaneça
nos erros e desacertos
no que não foi felicidade
e não sorriu para mim
quando a porta foi aberta
e o passo foi de ir embora

por isso sigo sozinho
levando comigo o que restou
o sorriso que eu já tinha
o semblante que já era meu
e um caderno de poesias
sem versos ou rimas bonitas
como todo amor que acaba.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – mais acima há um céu estrelado


*Rangel Alves da Costa


Mais acima há um céu estrelado. Eu sei, eu vejo, eu sinto. E também uma lua que brilha como um anel de noivado em dedo apaixonado. Eu sei, eu vejo, eu sinto. E como eu queria tocar as estrelas, afagar a lua, sentir a noite em poesia. Dizem que as estrelas passeiam em busca de leitos de amor. Dizem que a lua sempre quer iluminar as faces apaixonadas. Mas tudo tão distante. Olho bem acima de mim e vejo a lua e estrelas. Meus olhos tremem e meu peito pulsa, sou todo outro além de mim. Subo no olhar e toco o inexistente. Não tenho motivos para estar assim. Não se busca o amor imaginário em céu esculpido de luzes. O amor está aqui, está no rente da terra, em qualquer lugar. E querendo alcançá-lo nas impossíveis e inatingíveis alturas. Como sou desajuizado. Sou bestinha, meu Deus! O amor está aqui e a lua e as estrelas lá em cima. Mas tudo distante. Tudo tão distante. Tudo distante demais.

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sábado, 15 de abril de 2017

QUEREMUNDO VIRANDO BICHO


*Rangel Alves da Costa


Se as histórias se confirmaram, nesta Semana Santa Queremundo novamente surgiu para assustar o sertão inteiro. Já reina medonhamente desde o início da quaresma, quando sua transformação em lobisomem deixa meio mundo em polvorosa, desde os iluminados das ruas aos escondidos dos quintais e afastados de plena escuridão. E já desde mais de vinte anos que essa história passa de boca em boca, com gente jurando pela mãe e pelo pai que é verdade, que até já o avistou no breu debaixo de pouca lua.
Quem coisa mais estranha e esquisita é essa história de Queremundo, o que vira bicho, o que vira lobisomem, o que é avistado como um ser transfigurado em fera. Tanta coisa num só por que a cada relato surge uma aparição diferente, sendo a de lobisomem a mais constante e afamada. Mas há gente dizendo que do seu vulto outra coisa não se avista senão um cachorro grande, peludo demais, de cabeça disforme, olhos afogueados e dentes descomunais. Há também quem afirme ser metade homem e metade bicho, sendo da cintura pra cima a coisa mais feia do mundo, com olhos em chamas, orelhas pontudas, dentes apunhalados e cabelos desgrenhados por todo lugar.
Seja de que jeito for, a verdade é que a história de Queremundo virando bicho se alastra desde muito. O homem é estranho mesmo, de poucas palavras, um tanto carrancudo, gostando de viver afastado de todo mundo. E quando o período quaresmal se aproxima então, pois chega a sumir por dias. E tal fato logo chama a atenção dos conversadores debaixo dos pés de pau, afirmando sempre que o cabra se esconde assim porque passa o dia dormindo para a transformação da meia-noite em diante. E também porque não quer mostrar as marcas pelo corpo deixadas pelos tocos e gravetos quando rola pelo chão quando em bicho vai se transmudando e pelos arames que lanham o corpo do bicho em fuga.
Tudo isso, contudo, sem ninguém ter certeza. O próprio Queremundo é capaz de desandar bofetão em qualquer um que lhe chegue com a mínima insinuação. Só não diz nada - e até fica todo manso e desconfiado - na presença da Velha Totonha. Somente ela sabe o seu segredo, somente ela conhece o começo e fim dessa história de virar bicho da quaresma em diante. Contudo, não revela nada a ninguém. O que seus olhos viram e seus ouvidos ouviram, jurou jamais repassar a ninguém. Somente ela sabe o que fez com que Queremundo passasse a ter essa sina triste na vida. Também ela, na sua sabedoria da idade, tinha certeza da veracidade daquelas histórias sempre repetidas de bichos esquisitos surgidos naquele período santo. E Queremundo não era o primeiro não, pois muitos e muitos já se transformaram em monstros em meios às escuridões, e mais comumente em lobisomens.
Lobisomem é um bicho homem, já se espalhava essa história desde os tempos de antanho. Mas homem amaldiçoado, pecador por demais nas andanças terrenas, trazendo no destino a sina dos uivos e arremedos nas noites feias e escuras. Já outros, coitados, padecentes por aquilo que não deu motivo, pois homens-bichos pelos mistérios familiares e das crenças que acabam desfavorecendo a vida. Entonce, a pessoa se torna lobisomem, em triste rito de transformação na noite de lua cheia no período quaresmal, ou já nasce predestinado à horrenda sina da monstruosa transformação.
O primeiro, por ser gente ruim da peste, um “fi do cabrunco” que bate na mãe e dá rasteira em aleijado, rouba esmola de igreja ou age com desfaçatez ante a fé de um povo. O segundo, porque nascido em família de sete filhos e não é batizado pelo do meio. Ou seu irmão ou irmã se torna seu padrinho ou madrinha ou não terá jeito mesmo, pois em bicho haverá de se tornar nas noites negras e aterradoras. De qualquer modo, quando chega o tempo da semana santa os bichos aparecem depois que o negrume se fecha e mais medonhos se tornam perto da meia-noite e daí em diante. Quando a lua se esconde, o predestinado corre em busca de cama de capim e ali rola, se atormenta todo, até o bicho aparecer em seu corpo. Quando levanta e começa a correr em direção às estradas, curvas de caminhos e aos quintais, já será apenas o lobisomem.
E o coitado do Queremundo com a triste sina de virar bicho. Mas por quê? Somente a Velha Totonha sabe dizer. Mas não diz. Coisas do sertão e seus mistérios. Além de ser o que é, assim um mundo de seca e de sofrimento, o sertão também é uma terra de mistérios, assombrações e encantamentos, principalmente nas noites negras, nos negrumes mais escurecidos, nos breus ausentes de lua. Ou de luas de fogo nos olhos dos lobisomens.


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Lá no meu sertão...


AGRADECIMENTOS PELAS DOAÇÕES DE ALIMENTOS - O Memorial Alcino Alves Costa, após a distribuição de cestas básicas perante famílias carentes da Rua do Campo, do Bairro Lídia, do Alto de Tindinha e do Bairro São José, vem a público expressar sua especial gratidão às seguintes pessoas: Professor Joaquim Macedo (Colégio Purificação), Professor Orlando (Orlando de João de Ioiô da Serra Negra), José Bernardino (Zé de Maristela), advogado Adimeron Loureiro, advogado Cícero Dantas, casal Shiru’s Reinaldo e Cidinha, Arianne Costa, Fernandes Reis, secretária municipal Marizane Silva, Ustane e Mito, Ana Lélia e Telê, Edinha, Mário Kempes, Batista e Mary Correia (Rondônia), Manoel Gerônimo, escritores Archimedes Marques e Elane, Mylla Ferreira, Josael Batista, Luiz Eduardo (Panificação Tio Luiz), dentre outros. Diferentemente do ano passado, dessa vez optamos por fazer as doações nas próprias localidades. Não foi o número de cestas que gostaríamos de ofertar, mas em quantidade suficiente para colocar alimentos na mesa de muita gente. Obrigado a todos. Feliz Páscoa!






Festa da lua (Poesia)


Festa da lua

Um dia
a lua caiu
e num sexo
sumiu

no corpo
a lua ficou
e nunca mais
fulgurou

numa noite
de namorar
a lua começou
a brilhar

e pelo céu
foi uma festa
lua brilhando
em toda fresta.


Rangel Alves da Costa