SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 30 de junho de 2018

A GUERRA NORDESTINA QUE ACABOU NA PRIVADA



*Rangel Alves da Costa


Coronel Tibúrcio se fez desafeto do Coronel Mirinaldo. Nos sertões nordestinos sempre acontecia assim: as vinditas de sangue tinham início com as intrigas entre as portentosas famílias e se tornavam em verdadeiros rios de sangue.
Quando os jagunços tocaiaram e mataram o Coronel Mirinaldo, então o Coronel Tibúrcio foi acusado de ser o mandante. Mas não sendo o real mandante, sempre há uma acusação familiar que serve como mote às sangrias sem fim.
Mas a guerra começou mesmo quando o Coronel Tibúrcio foi cravejado de bala enquanto cochilava na varanda de seu casarão. Mesmo ladeado de seguranças, de jagunços e matadores, a guerra sempre alcança uma brecha para matar.
Bastou o Coronel Tibúrcio ser morto e logo um filho do Coronel Mirinaldo foi emboscado e varado de balas. E não demorou muito para um sobrinho do mesmo falecido coronel ser baleado num dia de feira.
Em seguida, apenas um dia após, dois familiares do Coronel Tibúrcio foram mortos em sequência. Era uma desvalia de vida danada. Um viver que não valia absolutamente nada diante dos ódios vingativos de parte a parte. Matar apenas como brincadeira.
Daí em diante, de lado a lado as mortes passaram a ser rotina naquela povoação. Logo esta foi dividida como num campo de guerra e quem era da família ou mesmo parente dos coronéis não podiam, sob hipótese alguma, passar para o outro lado de determinada área da cidade.
Ainda assim as mortes não cessaram. E não cessaram por que as estradas, os quintais, até mesmo outras localidades, eram buscadas para os intentos desenfreados da maldade. Sendo da família ou parente, mesmo que distante, ninguém estava seguro em lugar algum.
Por fim, quando já não havia mais parente nenhum pra morrer, as duas matriarcas marcaram um duelo ao pôr do sol sertanejo. Ninguém jamais poderia imaginar que isso pudesse acontecer, que aquela terrível guerra entre famílias pudesse chegar à culminância de envolver até duas velhas matriarcas.
De um lado, Dona Tribúzia, viúva do Coronel Mirinaldo e matriarca da família, e do outro Dona Cassuça, viúva do Coronel Tibúrcio e igualmente matriarca familiar. Então elas seguiram, armadas até os dentes, rumo à lavagem da honra familiar, ou do que dela restava.
A cidade toda acorreu ao local do duelo, mas se postando aos escondidos, bem ao longe. A refrega foi marcada bem defronte a igreja matriz. Pensou-se noutro local, mas a importância era tamanha que logo se atinou ser o sino da igreja o ordenador do início da refrega.
O Vigário Querêncio, assim que soube do confronto, bandeou-se pelo meio do mundo que ninguém nunca mais soube de seu paradeiro. Dizem que corria tanto que os pés batiam na bunda. Tanto corria como gritava que Deus lançasse fogo e enxofre naquele mundo de perversos e desalmados.
Mas o duelo aconteceu. Cinco metros separando as duas viúvas. Assim que o sino tocou anunciando o início, nenhum tiro foi ouvido, mas a desavença foi resolvida ali mesmo. Dizem que na hora “h” deu uma caganeira tão grande nas duas que ninguém podia dizer se uma corria mais que a outra.
O povo gritava “atira, atira”. Mas atirar como, se o que se buscava salvar naquela hora era a própria vida ameaçada pelo desarranjo? A caganeira foi tão forte que a corrida desesperada das duas foi deixando um rastro deplorável e fedido pelas ruas.
Dizem até que ouviram alguns tiros, ou algo semelhante. Mas certamente não saídos da boca dos rifles. E a guerra, quem diria, acabou na privada. Aliás, de onde jamais deveria ter saído.


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Lá no meu sertão...


Velho Chico em Bonsucesso, Poço Redondo/SE



Divino e sagrado (Poesia)



Divino e sagrado


Confesso-te, amor de toda vida
que todo o sentimento revelado
é a metade da metade escondida
de tudo que para ti tenho guardado

não imagine sequer a imensidão
do que lhe sinto e tenho amado
e indo além do corpo e coração
para ser tão divino e tão sagrado.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - saudade dela...



*Rangel Alves da Costa


Minha menina, minha namorada, tô com saudade de você. Saudade grande, muita, muita, muita saudade. Até parece que estamos na distância da guerra. Até parece que estamos em países diferentes e por muito tempo. Até parece que estou em forçado exílio ou que desde já muito tempo que não nos avistamos. Só uma semana. Isso mesmo, apenas uma semana e já tanta saudade. Não sei bem em você, minha menina, mas em mim é tudo como uma distância sem fim, um tempo demorado demais, um calendário que nunca passa a contento. Só uma semana e tudo isso. Só uma semana e mais parece que o mundo vai acabar de saudade. Dizem que quando a saudade é assim tamanha é o amor que então se revela com maior verdade. Acredito. Bastou que eu não pudesse ir até os seus braços e logo essa terrível vazio se fez em mim. Solidão, solidão, solidão. Queria estar agora juntinho dela, passando a mão pelos seus cabelos, dizendo qualquer coisa ao seu ouvido. E sendo o mais feliz do mundo. Ao lado dela sou feliz, sou o mais feliz do mundo.


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sexta-feira, 29 de junho de 2018

“QUANDO O VERDE DOS TEUS ZÓIO SE ESPAIÁ NA PRANTAÇÃO...”



*Rangel Alves da Costa


Luiz Gonzaga é bom demais de ouvir de qualquer jeito e a todo instante. Basta ecoar a sanfona do rei do baião e surgir aquele vozeirão primoroso, forte, ritmado, e então tudo se torna numa festa só. Não obstante a junção da sanfona e da voz, formando a mais plangente e autêntica musicalidade nordestina, ainda há em Luiz Gonzaga a plenitude da poesia.
Seja de sua autoria, coautoria ou de outros compositores, principalmente Humberto Teixeira, Zé Dantas, Onildo Almeida, Zé Marcolino, João Silva, Nélson Valença, João e Janduhy Finizola, dentre outros, na música de Luiz Gonzaga há uma poesia que vai muito além da cantoria tipicamente nordestina, ainda que esta também seja marcada pela beleza dos versos. Com o Rei do Baião, contudo, os versos são construídos como se para serem lidos e não cantados. Como consequência, muitas canções se assemelham a recitais melodiosos.
No Velho e Eterno Lua a canção não é somente para ouvir, mas, e acima de tudo, para viajar nos seus versos, nas suas estrofes tomadas de um sentimentalismo lírico tamanho que faz o bardo ajoelhar-se em comoção. Sim, a partir de coisas simples, tudo nascido para falar sobre a terra, sobre o homem, sobre os amores sertanejos e as lidas e sofrimentos do dia a dia. Após esse mote, após a primeira leva de inspiração, então uma asa branca começa a voar além das alturas, um forró de pé-de-serra se transforma em belo canto de saudade, um olhar para o céu numa noite junina logo se torna em celebração do amor. E o jiló?
Quanta beleza nos versos de “Qui nem jiló”: “Se a gente lembra só por lembrar, o amor que a gente um dia perdeu, saudade inté que assim é bom pro cabra se convencer que é feliz sem saber, pois não sofreu. Porém se a gente vive a sonhar com alguém que se deseja rever, saudade, entonce aí é ruim, eu tiro isso por mim que vivo doido a sofrer. Ai quem me dera voltar pros braços do meu xodó saudade assim faz roer e amarga qui nem jiló...”. Esta canção de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira possui alguns dos versos mais bonitos do cancioneiro brasileiro. Disso não se pode duvidar ante a estrofe dizendo que “Se a gente lembra só por lembrar, o amor que a gente um dia perdeu, saudade inté que assim é bom pro cabra se convencer que é feliz sem saber, pois não sofreu...”.
Contudo, nada igual a uns poucos versos contidos numa estrofe da obra-prima que é Asa Branca: “Quando o verde dos teus zóio se espaiá na prantação...”. Mas antes de comentar, vejam mais isto, observem que maravilha e digam se é verdadeira poesia ou não? “Até mesmo a asa branca bateu asas do sertão, entonce eu disse adeus Rosinha, guarda contigo meu coração. E hoje longe muitas léguas, numa triste solidão, espero a chuva cair de novo pra eu vortá pro meu sertão. Quando o verde dos teus zóio se espaiá na prantação eu te asseguro não chore não viu, que eu vortarei viu, meu coração...”.
Irretocável é a letra de Asa Branca, porém, como dito, apenas em poucas palavras e a composição já se irradia de encantamento. Uma simples frase, mas tudo, inegavelmente tudo: “Quando o verde dos teus zóio se espaiá na prantação...”. Este quando o verde dos teus zóio se espaiá na prantação contém tamanha significação e simbologia que em nenhum outro momento musical brasileiro conseguiu alcançar. A ele somente comparado, a meu ver, aos versos contidos em Cafezal em Flor (composição de Luiz Carlos Paraná e sucesso na voz de Cascatinha e Inhana): “Era florada, lindo véu de branca renda se estendeu sobre a fazenda, igual a um manto nupcial, e de mãos dadas fomos juntos pela estrada toda branca e perfumada, pela flor do cafezal... Passa-se a noite vem o sol ardente bruto, morre a flor e nasce o fruto no lugar de cada flor. Passa-se o tempo em que a vida é todo encanto, morre o amor e nasce o pranto, fruto amargo de uma dor...”.
Citei mais versos de a Flor do Cafezal, é verdade. Contudo, não significa que apenas a frase citada de Asa Branca não seja ainda de maior profundidade. E assim por que este “Quando o verde dos teus zóio se espaiá na prantação...”, quer dizer quando a terra voltar a brotar, quer significar quando os pendões do milharal chamarem o retorno do amor distante, quer dizer que quando a esperança renascer dias melhores surgirão aos amores distantes, quer significar que da terra brotando e florescendo também o amor sendo fortalecido nos corações.
Se eu disser, pois, que quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação, eu também estarei dizendo que quando os campos novamente florirem eu voltarei. Eu voltarei viu, meu coração.


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Lá no meu sertão...


Curralinho, Poço Redondo/SE







Assim nós dois (Poesia)



Assim nós dois


Na boca o beijo
no corpo o abraço
no olhar desejo
no sexo o laço

em tudo o amor
o mais amado
viver em voo
no sonho alado

assim nós dois
o que queremos
agora e depois
no que nos demos.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - desenhos no céu



*Rangel Alves da Costa


Olho para cima e me surpreendo. Em meio às nuvens e subindo aos céus, eu sempre creio avistar cadernos, aquarelas, escritas e formações. A nuvem passa e vai levando um poema. A nuvem passa e vai levando um nome. A nuvem passa e vai levando uma flor. A nuvem passa e vai levando uma face. A nuvem passa e vai levando um sorriso. A nuvem passa e vai levando um coração. A nuvem passa e quero voar, quero subir, quero alcançar a nuvem, pois nela o doce olhar do meu amor. Mas nem sempre assim. A nuvem e toda direção do céu nem sempre descrevem ou mostram coisas belas. Muitas tristezas e angústias também. Dependendo do estado sentimental de quem olha para o alto, não raro que surjam desenhos melancólicos e aflitivos. Geralmente apenas a nuvem negra, carregada de lágrimas. E também a tempestade que despena lá de cima somente na pessoa. Encharca a vida, traz agonia, desilusão.


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quinta-feira, 28 de junho de 2018

A JANELA FECHADA



*Rangel Alves da Costa


Causa uma profunda tristeza avistar uma janela fechada. Toda vez que está fechada, então logo se mostra no seu inverso: abrir-se para o outro lado, para o mundo, para a vida.
Em muitas residências, é a janela aberta quem primeiro dá bom dia ao alvorecer. Através dela também se toma conhecimento da realidade lá fora. Os olhos passeiam adiante de seu umbral.
De repente a vizinha vai chegando ao redor da janela e começa a contar as primeiras do dia. Fofoca de não acabar, mas a outra gosta e vai puxando conversa sobra a vida alheia. Lá dentro a panela até pode queimar, pois o interessante mesmo está na janela.
É pela janela aberta que a folha seca entra, que a poeira toma conta da sala, que a flor é jogada na intenção da mocinha. E esta, toda sonhadora, nela se debruça ao entardecer para sonhar com o seu príncipe encantado.
Mesmo entreaberta, a janela não deixa de ter serventia ao olhar e ao que se deseja avistar lá fora. Pelas frestas a solteirona procura um jovem que passa, suspira seus desejos e sonhos, enrubesce, lamenta e chora.
Mas depois de fechada, eis que a janela passa a ser de uma tristeza infinita. Surgem os temores, as conversas e as indagações se assim permanece por muito tempo. E se assim permanecer, então tudo se torna em sofrimento e saudade.
Basta que a janela fique algum tempo fechada e a casa inteira se mostra como inabitada, como abandonada, como reclusa em solidão. Dá vontade de chegar pertinho e bater na madeira, chamar e chamar.
Quantas janelas fechadas não se mostram como cruzes de eternos adeuses? Quantas janelas fechadas não se mostram como lenços molhados de entristecimentos? Quantas janelas fechadas não se afeiçoam ao nunca mais?
Triste saber que a pessoa sempre acostumada a estar debruçada sobre a janela jamais vai ser ali avistada. Pessoa de bom dia e boa tarde, pessoa de proseado e de olhar alegre e festivo ali no seu cantinho. Mas que de repente some da janela para nunca mais.
Uma janela que se fecha à boca da noite e na manhã seguinte já não se abre mais. No meio da noite a família vai embora, toma a estrada rumo a outro destino e ao viver menos sofrido que aquele permitido pela seca grande.
Uma janela que se fecha como se chorosa estivesse. Não quer ser fechada. Não quer a escuridão e o abandono, mas não possui forças para continuar aberta. As despedidas sempre começam pelas portas e janelas que choram antes mesmo de serem fechadas.
Então vem a ventania como se tivesse mãos para na janela bater. E bate e bate. E chama e chama. Volta e vem mais forte. E chama e chama. E bate e bate. Ninguém responde, ninguém chega para abrir. Então o vento chora e vai embora.
Noutras vezes, atrás da janela fechada há verdadeiros tormentos. A solidão, o abandono, a viuvez, a carência, a depressão, a angústia, a saudade, os retratos mentais que não querem ir embora. Tudo isso se mostra emoldurado na janela fechada.
Quem passa pela frente nem percebe. Quem avista a janela simplesmente fechada sequer imagina o quanto nela pode estar acontecido. Travesseiros molhados de lágrimas, olhos chorosos, bocas ávidas para gritar.
Também a janela que falsamente se mantém fechada, mas apenas recostada para que as traições se consumam, os corpos adúlteros se encontrem, as camas se molhem de apressados prazeres.
Assim, a janela vai cumprindo sua sina. Aberta para o amanhecer, para o sol, para a lua, para a ventania. Ou simplesmente fechada. Fechada e triste, chorosa, abandonada, apenas uma madeira emoldurada de angústia e solidão.


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Lá no meu sertão...


Na estrada. Eu e Levy...



Sonho de mulher (Poesia)



Sonho de mulher


Sonho de mulher
sempre assim
bem alta
bem-feita
bunda grande
seios rijos
toda loura
ou jambo
apetitosa
ao mundo

eu não
Filozinha
que amo
e pronto.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - ouço lá fora os rojões...



*Rangel Alves da Costa


Noite junina. Véspera de São Pedro. Mas geralmente a noite de toda comemoração. Não só no Nordeste como no Brasil, tudo é comemorado na véspera. É a tradição da antecipação. Assim também com o salário recebido. Já deve tudo, pois antecipou todas as dívidas. Mas deixemos isso pra lá, que se antecipe o que mereça ser logo comemorado. Eu, contudo - e infelizmente -, não estou festejando absolutamente nada. Estou pertinho de tudo, estou ouvindo os ribombos dos fogos, os barulhos dos rojões e outros sons. Muito cheiro de fumaça, alguma fogueira acesa, mesas pelas calçadas, bebidas e comidas. Nesta época surge muita comida boa, sempre de milho e coco. Também o arroz doce em maior profusão. Até que eu queria um tantinho de cada coisa, mas nada que me chegue agora. Apenas a vontade. Enquanto isso, apenas teclando a vida, rascunhando sonhos e esperando a noite avançar. E depois abraçar a minha rede e beijar minha solidão.


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quarta-feira, 27 de junho de 2018

NUNCA DIGA ADEUS!



*Rangel Alves da Costa


Não, nunca diga adeus. Adeus é gesto ou palavra dolorosa demais para ser dita. E em cada expressar um rompimento que vai de uma margem a outra do coração.
Nunca diga adeus. Jamais acene em gesto de despedida. A mão é mais frágil que o coração e o seu sinal pode fazer mais sofrer do que distanciar.
Nunca diga adeus. Não diga a palavra mais triste de se dizer e depois encharca mil lenços de lágrimas. E nos varais estender-se ainda em dolorosos prantos.
Nunca diga adeus. Não abra a janela para avistar na distância aquele que de repente parte. Acaso olhe atrás, é como se gritos bradassem o desejo do retorno.
Não, nunca diga adeus. Não acenda e depois sopre a vela por que nada mais resta a iluminar. É no vazio e no silêncio que a chama se faz tão necessária para reacender a vida.
Nunca diga adeus. Nada vai impedir o trem de passar. Nada vai impedir a carruagem de seguir. Nada vai impedir de o apito soprar em despedida. Sempre haverá retorno!
Nunca diga adeus. Os olhos que brilharam de encantamento não merecem naufragar em sofrimentos e desilusões. Mirar os horizontes e saber que a vida é cheia de estradas.
Não, nunca diga adeus. Nunca diga adeus por que quem ama jamais desaparta de seu amor, quem tem o seu bem dentro do coração jamais ficará na solidão da distância.
Nunca diga adeus. Não cimente a despedida com suas lágrimas, não regue as flores tristes com suas lágrimas, não assente a poeira do caminho com suas lágrimas.
Nunca diga adeus. Quem partiu vai ficar, quem vai ficar vai partir. As fronteiras das despedidas se abrem diante de todo passo. Basta um segundo e já será outra direção.
Nunca diga adeus. Acaso não consiga impedir a partida, então que haja a compreensão de que não há convívio de eternidade. Que a saudade boa permaneça como laço inseparável.
Não, nunca diga adeus. Aquele que parte não quer dizer adeus. Aquele que parte não segue em alegria ou contentamento. E por querer ficar, então não haverá separação.
Nunca diga adeus. As flores de plástica caem, as flores do caqueiro murcham, as flores do jardim morrem. Que não morra caía nem murche ou morre também. Precisa viver.
Nunca diga adeus. Dói demais, é lancinante, é torturante de nem poder suportar. Mas se sofre assim é pelo amor sentido. E se der adeus abdica de continuar à sua presença.
Não, nunca diga adeus. Olhe para os quadros envelhecidos na parede. Olhe para os álbuns amarelados que restam nos baús. Tudo está ali. Nada foi dado adeus.
Nunca diga adeus. O namoro desfeito, a relação rompida, o noivado acabado, o casamento chegado ao fim. Mas ninguém morreu. Então não diga adeus.
Nunca diga adeus. O amor paixão não suporta um laço desfeito. Mas ninguém nasceu entrelaçado. O coração vai saber o momento certo de novamente busca a ponta da linha.
Não, nunca diga adeus. Ninguém vive de porta e janelas fechadas. Ninguém se enclausura sempre num mundo de angústia e solidão. O sol sempre chama. E há a luz da vida.
Nunca diga adeus. Sinta-se como sendo aquele a quem o adeus está sendo dado. Você entristece. Você vai chorar. Não vai querer fazer chorar a quem não merece sofrer.
Nunca diga adeus. Você sabe que o sol nasce e o sol se põe. Todo dia é assim. E assim também com a lua e as estações. Aquilo que deseja que volte, haverá de voltar sem adeus.
Nunca diga adeus. Choramos os mortos e as despedidas. Mas se com a saudade fica todo o amor sentido, então que se resguarde a presença no peito sem jamais dizer adeus.
Não, nunca direi adeus. Nem quero que me dê adeus. Ou existo agora ou nunca existirei. E se existo agora sempre estarei presente. E se existe agora sempre será presença.
Até mais! Eis a palavra. Até breve! Eis a promessa. Desde a terra à eternidade tudo será reencontro. E sem adeus!


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Lá no meu sertão...


Lindo sertão!



O velho e o entardecer (Poesia)


O velho e o entardecer


Quando o entardecer chega na estrada
quando os horizontes cintilam fogueiras
quando o sol poente chameja vermelho
quando as folhagens aquietam em silêncio
quando passarinhos procuram seus ninhos
quando a brisa sopra uma velha canção
quando os canteiros sem enchem de ocres
quando os sinos se preparam para ecoar
quando toda a vida é mais silenciosa
então o velho senhor se põe a conversar
conversa com o vento e com a ilusão
de ter um bom amigo de tão fiel coração

e conta sua vida e toda sua saudade
rumina as queixas e brada os queixumes
fala baixinho quando o dizer é amargo
quando relembra os seus e suas saudades
quando revive a estrada e suas passagens
quando lacrimeja os segredos guardados
quando chora a dor de tantos adeuses
até que a noite chega trazendo a lua
e naquela face a frágil luz da existência
a lâmpada da vida que já tão calejada
sabe que sua estrada é de curta jornada.

Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - Mariazinha



*Rangel Alves da Costa


Encontrei Mariazinha derreada no umbral da janela e tão triste estava que mais parecia uma flor murcha em desolação. Aproximei um pouco mais e senti que a bela mocinha pranteava, então perguntei por que chorava assim, vez que tão bela como flor na janela, talvez uma Cinderela e dona da felicidade. Mariazinha apenas me respondeu: “Por nada”. Insisti na indagação e novamente ela falou bem baixinho, soluçando e com voz quase inaudível: “Por nada. Foi um cisco no meu olho”. Também entristecido, silenciei algum instante para depois, de costas pra ela, dizer: “Os ciscos, Mariazinha, causam mesmo um aperreio danado, mas geralmente num só olho e os seus dois olhos lacrimejam igualmente. Também acho que a ventania traz muito cisco por aqui. Todos os dias entram ciscos no seu olho, Mariazinha? Desculpe dizer, mas todo dia encontro você assim entristecida e chorosa. Toda dia eu passo por aqui e sempre a encontro derramando uma infinidade de lágrimas. Pode me dizer, sou seu amigo, o que está havendo Mariazinha? Sei muito bem que a alma possui ciscos inseparáveis, sei muito bem que a solidão causa ciscos até dolorosos demais. Mas sua lágrima não é trazida pelo grão na ventania, mas pela felicidade que você deixa que o vento leve. Chore não. Amanhã voltarei e você poderá me dizer a verdade”. Dei menos de cinco passos e logo ouvi a voz de Mariazinha: “Mas ele não me quer!”. Era o que eu esperava ouvir. Então, olhei na sua direção e disse: “Ele tá certo de não querer. Quem quer uma mulher chorona? Sorria, coloque flor no cabelo, seja a mais linda do mundo. Depois feche essa janela e vá ser flor. Toda paixão deseja uma rosa”.


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terça-feira, 26 de junho de 2018

UM AVISO A MANDO DE LAMPIÃO



*Rangel Alves da Costa


Virgulino Lampião não anda gostando nada das explicações estapafúrdias, mirabolantes e desengonçadas, que a todo dia surge a seu respeito. Querem porque querem que a sua valentia, o seu caráter, o seu comportamento e as suas propensões, sejam explicadas à luz do laboratório, do experimento, da pesquisa, da Ciência, enfim. Ao invés de compreender o homem, querem coloca-lo num tubo de ensaio.
Então Virgulino Lampião pede apenas que olhem para trás, que analisem a sua história familiar, que observem as condições e as circunstâncias de sua vida, que procurem conhecer as motivações para o mundo cangaceiro que veio depois. Segundo o Capitão, ao invés de compará-lo a qualquer outra coisa - como se fosse um rato de laboratório - primeiro deveriam procurar conhecer o que fez da criança um bicho, o que fez do homem uma fera, o que fez do cangaceiro uma coisa do outro mundo. E certamente avistariam o medo, a violência, a perseguição, a injustiça, o sangue derramado. E não pelas suas mãos. Somente depois que a sangria estava aberta é que não se pôde nunca mais estancar.
Pessoalmente eu bem compreendo a propensão ao cientificismo de muitos daqueles que tentam conhecer e explicar Lampião através de estudos, teses e teorias. Contudo, Virgulino Lampião é impossível de entender e muito menos de explicar. Na verdade, Lampião apenas nos espanta. Absurdamente espanta, deixa-nos boquiabertos e arrebatados! Quanto mais a pessoa imagina conhecê-lo mais ele cuida de negar, de dizer e repetir, o quanto é vago nosso conhecimento sobre sua pessoa e os seus modos de pensar e de agir. E como entender e explicar um homem que é, no todo e ao todo, apenas uma interrogação ou, quando menos, uma espantosa exclamação?
Padim Ciço pode ser teorizado perante os supostos milagres e pela atuação sacerdotal e política. Frei Damião pode ser explicado perante seu compromisso de uma religião dos humildes, suas pregações nas Santas Missões e na sua abnegação religiosa. Antônio Conselheiro pode ser estudado perante seu idealismo político-religioso e seu misticismo exacerbado. Pedro Batista pode ser analisado perante seu compromisso de peregrinação, sua força espiritual de cura e aconselhamento e seu poder de atração de devotos. Mas como explicar Lampião, preclaros cientificistas, nobres freudianos, junguianos ou de outras escolas psicanalíticas? Será que a Psicologia tem as respostas? Será que até a Parapsicologia possui as respostas?
Mais difícil ainda entendê-lo e explicá-lo por que Virgulino Lampião nasceu dotado de todas as ciências do mundo. Sim, Lampião foi a Ciência em pessoa. Nele há Psicologia, Psicanálise, Psicopatologia, Geopolítica, Geografia, Estratégia Militar, Política, Administração, Religião, Misticismo, Biologia, Direito, Arte, Filosofia, tudo, absolutamente tudo. O apontamento de apenas alguns fatores ou aspectos para explicar a grandeza (para o bem ou para o mal) que foi este homem, sempre recairá apenas em recorte explicativo.
Do mesmo modo não adianta ir além ou aquém na tentativa de conhecer ou de explicar Lampião. Tanto assim que o que é dito é logo refutado, desmentido, dito de outra forma, ainda assim muito distante da realidade. E simplesmente por que ninguém conhece Lampião. Digladiam em palavras sobre o seu nascimento e sobre sua morte, diz isso e aquilo, mas nada que se assente como pedra da verdade. Daí indagar: Por que não se sabe sequer se o cangaço lhe era um modo forçado de vida ou se continuou como líder por tanto tempo apenas pelo prazer da luta?
Mas deixe pra lá. Segundo o próprio Virgulino Lampião me segredou durante o Cariri Cangaço Poço Redondo, só há uma maneira de entendê-lo e explicá-lo: Tentar segurá-lo a cada vento que passa!


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Lá no meu sertão...


Levy, o menino diante do rio...




A saudade pela estrada (Poesia)



A saudade pela estrada


Primeiro passou a boiada
depois passou o tropel
depois passou duas reses
depois vaqueiro e cavalo
depois passou uma vaca
depois um cavalo sozinho
depois um triste vaqueiro
depois mais nada passou
depois só o vento passou
nenhum mugido do gado
nenhum aboio de vaqueiro
nenhuma réstia dos tempos
onde as veredas e estradas
eram do boi e da boiada
eram do cavalo e vaqueiro

aquele olhar tão tristonho
chorando quando nada passou
um dia fechou a janela
no mesmo dia a porta fechou
e também seguiu pela estrada
na solidão dos desalentados
e assim foi sumindo de tudo
como tudo passa e tudo morre
e na poeira vai ficando apenas
as saudades daqueles sertões.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - o pote e o homem



*Rangel Alves da Costa


No Livro do Eclesiástico, 33:13-14, há uma síntese do quanto o ser humano, ao invés de imaginar dono de si, está sempre na dependência da vontade e do desejo de Deus. Vejam, então: “Como a argila está nas mãos do oleiro para que a molde e dela disponha a seu bel-prazer, assim o ser humano está nas mãos de quem o fez”. Quem o fez? Assim, Deus, oleiro do mundo, tendo o homem em suas mãos, o fez à sua imagem e semelhança, o fez bom, digno, honrado, o fez humanizado e não desumanizante. Contudo, de suma importância que o homem, existindo por permissão divina, saiba compreender melhor a lição. O oleiro molda o pote, a moringa, o alguidar e a bacia, por exemplo, não para ser em seguida quebrado, e sim para uso cotidiano. E o homem moldado por Deus, será que lhe é permitido ter outra destinação na sua existência? Logicamente que não, pois toda transgressão humana foge aos desígnios de Deus e por Este será combatido no tempo certo. O pote foi para a água e não para o veneno, a moringa foi para a água e não para o sangue. E o homem foi para a fraternidade, o amor e a compaixão, ou para a brutalidade, a violência e o desregramento? Por isso é preciso muito cuidado com as arrogâncias, com os egoísmos e as soberbas. De repente o pote se quebra e ninguém sequer imagina como um simples sopro de vento o fez despedaçado ao chão. Ou de repente a chama da vela apaga. Precisamos pensar mais sobre tudo isso.


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segunda-feira, 25 de junho de 2018

A BAGACEIRA



*Rangel Alves da Costa


Bem que eu poderia tratar do famoso “A Bagaceira”, obra-prima da literatura regionalista brasileira e escrita por José Américo de Almeida, publicada em 1928. Ou mesmo sobre “A Bagaçada”, cordel-primor da literatura popular nordestina, tão prometido e até declamado pelo seu autor, o Mestre Vitorino das Quixabeiras, mas que nunca foi transformado em livreto. E não, segundo ele, por que não haveria papel no mundo que desse para imprimir sua obra disputada por todos, e até no tapa.
Em “Bagaceira”, o José Américo de Almeida situa o engenho como o cosmos de uma realidade social brutal e apavorante, onde chama para o seu contexto não só o poderio senhorial como a pobreza e a miserabilidade dos brejeiros e sertanejos. E o termo bagaceira para identificar o local onde, nos engenhos, são juntados os bagaços, os restos da moagem. Tudo o que não presta mais se torna em bagaceira. No caso específico do romance enquanto crítica social, a bagaceira se traduz nos restos humanos e suas desvalias. Quanto ao conteúdo de “A Bagaçada”, é melhor deixar pra lá.
Talvez seja mesmo melhor deixar pra lá por que muita gente já colocou as tripas pra fora perante o descrito em “A Bagaçada”. Somente para dar uma noção, Vitorino das Quixabeiras, seu autor cordelista, certamente que exagerou no ponto ao transformar seu folhetim numa inversão da sociedade nordestina então predominante. Desqualificou totalmente o poderio coronelista, chafurdou a força política e o mando, e ergue no patamar social, como personagens de uma casta maior, os escravizados dos canaviais, os pés descalços pelas vielas, as prostitutas e as rampeiras do cais. Neste aspecto, o bagaço era refeito e valorizado em detrimento do sumo social poderoso.
Pois bem. Bagaço, termo que origina a bagaceira, é o nome que se dá aos restos depois de moídos e espremidos. Diz-se do resultado do processo de compressão da matéria-prima, onde o refugo serve como subproduto para reaproveitamento e novas utilidades. Por consequência, a bagaceira pode ser tida não só como o entulhamento do bagaço como aquilo que está em desordem, na baderna, na esculhambação. Ou ainda o que está abaixo de outros níveis na camada social, considerando-se a riqueza e a pobreza.
No sentido usado por José Américo de Almeida, a bagaceira possui o duplo sentido de ser o resto da cana depois de moída e também de ser a camada social submetida ao império do senhor do engenho e por este tratada como coisa que outra valia não tem senão à escravização ao trabalho, ao mando e ao poder. Astuto, Vitorino das Quixabeiras dizia ainda que a sua bagaçada servia para demonstrar como a sociedade se escraviza por conta própria, vez que em constante desordem e defendendo posições sempre discordantes ou contrastantes. Bastava valorizar mais quem realmente deveria ser valorizado e tudo estaria resolvido.
Contudo, a realidade atual demonstra que um novo engenho foi se formando e outra coisa não produz senão bagaceira. Não se fala mais no sumo da cana ou, no caso específico, naquilo que é de melhor produzido, mas tão somente nos seus entulhos. Engenho que bem poderia se chamar de política, de poder ou de governança, o mesmo que ao invés de produzir o melhor para a sociedade vai se achando no direito de apenas amontoar a bagaceira no povo. É este povo que vai chafurdando de tudo o que é ruim e que continuamente vai sendo lançado pela política e pelos políticos.
Ora, as máquinas do engenho continuam em pleno vapor, continuamente trabalhando perante os seus objetivos. Mas o que é construído senão bagaço, bagaceira, restos, entulhos? O sumo da cana, ou o que de melhor possam fruir e usufruir logo vai se tornando benesses de poucos. Mas a bagaçada é lançada ao povo, é jogada bem no seio social mais carente e necessitado. Ao invés de colher um pouco de sua luta, pois no povo o sacrifício para alimentar as riquezas, o que se tem é uma sociedade alienada dos frutos por ela mesma produzida. A esta somente o bagaço, tudo o que não preste e não possui uma digna serventia.
No engenho do poder e do mando, a bagaceira, pois, não é outra senão o povo. Não somente visto como imprestável, o povo ainda tem que receber sobre si todo o fardo do que é contra si produzido pelas governanças e pela política. Servindo como verdadeiro lixão, a sociedade tem de acolher os amontoados de dores e sacrifícios lançados daquele voraz e impiedoso engenho. Vive na bagaceira, é a bagaceira, é sempre tratado como bagaço. Não importa que ali esteja o homem, o trabalhador, pois ao poder importa somente que ele vive amontoado em seus próprios restos.
Quem possui mais valia em meio à bagaceira, será o homem ou será um bicho de lixo qualquer? Tanto faz, segundo diz aquele do pedestal. E afirma ainda que o homem convive com segurança, com educação, com saúde, com qualidade de vida. Esquece apenas que tudo isso, no Brasil, também não passa de bagaceira.


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Lá no meu sertão...


Pelo chão...



Pomar em flor (Poesia)



Pomar em flor


Minha menina linda
bela flor de maracujá
doce sabor do doce araçá
uma fruta de pele macia
sapoti que alimenta meu dia

que pomar de menina
quanta felicidade em mim
uma sede uma fome sem fim
vou correndo atrás do pomar
quero a fruta abraçar e beijar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - tanto gosto



*Rangel Alves da Costa


Gosto de lua, gosto de silêncio, gosto da madrugada e do anoitecer. Gosto da boca da noite e do sino tocando, gosto da roupa balançando em varal, gosto de quintal e de toco de pau na malhada. Gosto de sentir o cheiro do café borbulhando, gosto de ouvir prato sendo colocado à mesa, gosto de saber que o menino não vai dormir com fome. Gosto de avistar gente na janela, gosto de avistar a debulhada de feijão de corda. Gosto de ouvir os velhos amigos dividindo a pingo ao redor do balcão, gosto de ouvir cantoria, toada e aboio. Gosto de avistar estrada de chão em linha reta e a sua distância sem fim. Gosto de sentar à mesa quando tem buchada, feijoada ou sarapatel. Gosto de caminhar pela beira do rio e de lançar pedrinhas sobre as águas. Gosto de ouvir o sino da capelinha e de avistar velas acesas perto de oratórios. Gosto de beijar a boca dela e de quanto ela me faz cafuné. Gosto de namorar minha flor. Sei que também tem espinhos, mas só sinto a flor. Tanto gosto dela.


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domingo, 24 de junho de 2018

PALAVRAS E GRÃOS



*Rangel Alves da Costa


Semear com palavras os grãos daquilo que se deseja colher, não somente para si como para outras fomes de vida.
Avistar na aridez a flor e simplesmente seguir o caminho. Ora, se a flor foi possível tudo também poderá ser possível.
Nunca ter pressa ou adiantar demais o passo ante o esperado. O tempo é oleiro que molda o barro segundo a força de cada coisa. É preciso esperar o barro ganhar segurança.
Não desistir é a melhor maneira de saber conquistar. Dois passos apenas e tudo pode estar perdido acaso se desista já perante a chegada.
Ter no silêncio a palavra maior, a maior lição, a maior sabedoria. A voz do silêncio sempre ensina. É preciso ouvir cada palavra antes de toda ação.
Pessoas, imperceptivelmente, escrevem salmos sem ter a mínima noção de tamanha sabedoria. Querem para si o melhor, fazem de seu desejo um passo. Mas nem sempre seguem na caminhada.
Outras pessoas sobem à montanha e não sabem conversar com Deus. Sobem à altura, porém não procuram sentir a magia do alto do monte, não dialogam com a natureza, não abrem os braços para alcançar o infinito.
Quantos sentimentos somem ou se perdem por medo de serem revelados. Amor, compaixão, fraternidade, amizade, tudo isso aflora sem que haja reciprocidade da pessoa para com o mundo. Então tudo se interioriza e some.
Viver as coisas simples da vida. Ser tão verdadeiro quanto a vida pede que seja. O sorriso é para ser sorrido. A lágrima é para ser chorada. O abraço é para ser compartilhado. O amor é para ser demonstrado.
Quanta tristeza esconder o dom do encantamento com o luar. Por que não correr pra debaixo da chuva e tomar seu banho? Por que não conversar com o silêncio e a imaginária dureza da pedra? Tudo é possível.
Saber que aquele resto de pão foi o pão que faltou como alimento e sobrevivência na casa empobrecida. Saber que aquela roupa jogada ao lixo serviria muito bem para vestir alguém que vive em molambos e descalço.
Tão belo e tão desnecessário o relógio de milhões, o brinco de milhões, a caneta de milhões, a gravata de milhões, o carro de milhões, a arrogância que não vale nada. E tudo vale, por preço qualquer, ao que se alegra e sorrir com coisa qualquer.
Poucos querem calçar as sandálias da humilhada. Poucos se sentem bem usando as sandálias do pescador. Poucos colocarão no seu passo a humildade como sandália. Mas, como diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades...
Ainda há uma flor a ser colhida e um canteiro a ser aguado. As folhas secas caem e são levadas pela ventania. As amendoeiras descem suas folhas, mas depois se renova com vida nova. Então que se caminhe pelo jardim para participar de sua vida e sentir as transformações.
E fazer do sonho a possibilidade. Sim, tudo é possível. E fazer do sonho a realidade. Sim, tudo é possível. Sonho bom é aquele que se deseja na medida do que se necessita. Por isso que para o humilde tudo o que é conseguido é um sonho realizado.
Já noite. Sentir o que ela traz. Preparar um cafezinho, caminhar até a porta da frente ou de trás e deixar que o pensamento frua, que a memória busque, que tudo aconteça. Lá em cima a lua. Dentro de si uma lua ainda maior.
E depois deitar. Muitos não dormem nem com a cabeça em travesseiro de penas de ganso. Mas muitos adormecem até com a cabeça em cima da pedra. E sonham. E sonham.


Escritor
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Instante



Seu menino (Poesia)



Seu menino


Meu amor me beija
e sou menino em seu colo
meu amor me faz cafuné
e sou menino em seu colo
meu amor me acarinha
e sou menino em seu colo
meu amor me fez dengo
e sou menino em seu colo
meu amor diz que me ama
e me chama de seu menino

não quero crescer
menino quero sempre ser.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – a prostituta



*Rangel Alves da Costa


A prostituta. O que será uma prostituta? A prostituta é uma mulher qualquer. Qualquer por que igualmente mulher, por que do sexo feminino, por que pessoa comum, por que pessoa normal. A prostituta é uma mulher da vida. Ora, vivente, existencial, entre todos, presença, da vida em plenitude. A prostituta é uma mulher safada. Sim, pode ser safada não por ser prostituta, mas gastada como outra mulher qualquer. A safadeza é só pelo ato do sexo, pelo ato da carne, pelo ato da facilidade, pelo ato comercial que se reputa? Não, pois muita prostituta, mesmo levando a peja de safada, tantas vezes é muito mais digna e honrada que outras mulheres que se revestem de santidade. Houve, sim, um tempo em que a prostituta era tida como o escárnio social, o grande mal entre as pudicas e recatadas, mas o que o mundo fez senão aproximar as ações e as atitudes como relação ao sexo? Atualmente, tão promíscua e obscena é a sociedade que se quer deixa indubitável os limites da prostituição e da busca comum do prazer. Será que a prostituta é somente aquela do cabaré, do programa, da esquina e da casa da luz vermelha? Mero engano. O mundo afeiçoa-se muito mais a um prostíbulo do que se imagina. Qual o valor do sexo para muitos e muitas? O mesmo valor de um instante e de um esquecimento. Nenhum.


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sábado, 23 de junho de 2018

SILÊNCIO



*Rangel Alves da Costa


Hoje é véspera de São João, mas sempre o dia que o festejo junino é comemorado. Ouço sons de fogos tomando os ares, pipocando pelas ruas, chispando pelas calçadas. Ouço os sons, mas é como se nada ouvisse. Sinto apenas o silêncio.
Sei que existe um cachorro latindo pelos arredores. Seu latido é alto e insistente. As motos barulham, os carros também. As pessoas passam conversando do lado de fora, de vez em quando surgem gritos. Contudo, sinto apenas o silêncio.
Já é fim de tarde e estou na semiescuridão da sala. Olho ao redor e só encontro objetos antigos, relíquias do passado, vestígios dos tempos idos. Tudo isso deixa o ambiente mais escurecido, mais anoitecido, mas gosto de estar assim. E também pelo silêncio que se espalha pelos quatros cantos.
Tenho o silêncio como a voz que quero ouvir a todo instante. Nada me faz tão bem, nada me deixa mais confortado. Do silêncio trago minha reflexão, minha dedicação, meu pensamento. Do silêncio trago a palavra vazia a ser preenchida pelas memórias e pelas saudades.
Bebo do silêncio toda a sede que tenho. Tudo o que preciso como alimento da alma e do espírito me chega através do silêncio. Lá fora as bandeirolas dançam ao sabor da ventania do entardecer. Parece chuva caindo, mas apenas um silêncio entrecortado por outro silêncio. É o barulho que me dói.
Este o momento propício para avistar o sol chamejando suas labaredas. Quase não resta mais sol ao poente. Na semiescuridão, aquele amarelado de fogo entre nuvens e horizontes. Na natureza, as folhas apenas farfalham o seu sonolento silêncio.
Sei que não há mais revoadas lá fora. Daqui vejo as bandeirolas em sua valsa. O cachorro parou de latir, os fogos diminuíram, os barulhos também Não sei se ouvirei logo mais o sino da igrejinha. Gosto de ouvir o bradar dos sinos, mas gosto muito mais do silêncio.
Melhor esquecer os barulhos, os sons, os ruídos. Tanto faz que seja São João ou outra data. Tanto faz o ribombar da bomba ou do foguete. Quero apenas o silêncio e pronto. Ouvir asas de borboleta, ouvir papel de seda caindo, ouvir a voz silenciosa da folha seca que passa além da janela.
Verdade que a esta hora sempre chega a velha canção ecoando. Uma velha canção que todo dia chega ao entardecer. Canto sua melodia, danço sua valsa triste, deito aos teus braços e me faço acarinhar em suas pétalas. Ilusão a minha em ouvi-la sempre.
De mim, do meu silêncio meu, cuido eu como se velasse a mudez. Creio que já mais de dez horas sem abrir a boca pra dizer palavra. Falaram comigo e não respondi. Insistiram para que eu abrisse a boca, mas eu me calei. E mesmo que falasse, que bradasse, que gritasse, ainda assim eu estaria em silêncio.
Sinto muito, mas não quero que minha amada fale além do beijo, do abraço, do carinho. E a ela nada direi além do beijo, do abraço, do carinho. Nossos corpos já entendem a nossa voz, decifram nossos desejos, e basta apenas o encontro e a aproximação para que os gritos ecoem em nós.
Prezo este silêncio como necessidade d’alma. Aliás, necessidade que se perfaz no silêncio da oração. Não há momento mais mágico e mais encantador que o da silenciosa oração. Também o momento onde se fala mais alto, onde se grita: a fé nunca silencia no seu silêncio de prece.
Resta-me agora conversar com a noite, com a lua, com a paisagem escurecida de lá fora. Nada mais direi que o olhar, e ainda assim o diálogo perfeito, como naquela bela canção que “eu só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar...”.


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Lá no meu sertão...


Vaqueiros






Ela está ali (Poesia)



Ela está ali


Ela está ali
olho em direção ao quarto
e a encontro assim tão bela
mesmo na semiescuridão
sempre avisto a perfeição
beleza que jamais vi
nela que está ali

e encerro aqui o poema
tenho outro verso a escrever
mas bem juntinho dela
e ela está ali.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – o varal



*Rangel Alves da Costa


Toda vez que passo num quintal e avisto o varal, é como se o cordame balançasse vidas, embalançasse dores, ressecasse lágrimas e aflições. É como se as roupas estendidas de braços abertos quisessem se abraçar, quisessem voar, ir além pra qualquer lugar. Os lenços que enxugaram olhos pranteando amores, os lenços que se encharcaram de saudades e recordações, agora ressequidos temem a desilusão. Tão belo o varal, mas tão triste o varal. De repente vejo uma camisa solta ganhando os espaços. De braços abertos como quer abraçar. Vai subindo aos espaços em busca de abraços, buscando o amor terreno que o céu desfez os laços.


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