SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 15 de novembro de 2019

APENAS UMA CASINHA



*Rangel Alves da Costa


Em local distante, à beira de estrada, entre os tufos de mato, depois da malhada, em local singelo e sublime: uma casinha.
Casinha humilde, simples, de barro, do visgo antigo, da argila lançada aos tufos sobre as ripas. Sua aparência não nega, pois uma casinha de barro mesmo.
Mas será que apenas uma casinha de barro, ripa de pau, cipó da mata, terra e visgo, tudo juntado para ser um lar no passado?
Aparentemente, apenas uma casinha, mas será que sua feição nada representa além de sua velha idade, de seu barro e portas sumindo, de sua sensação de desalento e abandono?
Ao seguir pela estrada, ao passar adiante, certamente se avistará apenas a casinha ao relento dos dias e dias noites, num tanto faz de continuar existindo.
Mas será que é sempre assim ou o olhar deve procurar a vida, seja do passado ou presente, quem dali jamais saiu em sua memória?
A verdade é que seja casarão ou casinha, em suas paredes, dependências e fachadas, sempre haverá uma história que precisa ser conhecida.
Por que foi ali construída, quem morou na casinha, por que foram abrindo a porta e saindo e saindo, deixando tudo à voracidade do tempo que a tudo vence, destrói e sepulta?
Apenas uma casinha, mas talvez uma história grandiosa na sua existência, talvez de tamanha importância no passado que até o tempo se acabrunha em ir derrubando o seu barro.
Por isso, nada existe que não possua alguma importância, significado e história. Tudo tem algo a ser contado sobre sua existência.
E assim com a casinha e com as pessoas. Muitos imaginam que pessoas humildes são como casinhas abandonadas e que, por isso mesmo, sequer merecem atenção, mas não é assim não.
Eis que somos casinha de barro. E muitas vezes, até mesmo depois de no passado termos sidos casa de paredes suntuosas e endereços conhecidos.
O tempo transforma o belo, definha o que se mostra imponente, leva ao chão o que se sentia como duradouro demais.
Somos casinha e seremos casinha de barro acaso desejemos o prolongamento no tempo, viver muitos anos. Mais tarde virá a certeza que o barro está despencando, caindo.
Não adianta querer que tudo permaneça irretocável. Também não adianta fugir da casinha já envelhecida porque a nova é mais confortável.
Tudo é importante demais, tudo deve ser respeitado, admirado e valorizado: na casinha e nas pessoas.


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Lá no meu sertão...


O mesmo sertão...





Duas cartas (Poesia)



Duas cartas


Escrevi uma cartinha
que dizia assim:

namore comigo
que prometo o céu
que prometo a lua
que prometo o mar
tudo para te amar

ela respondeu em cartinha
que dizia assim:

não vivo de ilusões
e nada disso eu quero
esqueceu o que gosto
que é a palavra sincera
e você tem pra me dar?

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – nossas aparências



*Rangel Alves da Costa


Pensando bem, a todo instante saímos de nós para nos tornarmos apenas em nossas aparências. Quer dizer, o verdadeiro eu sempre dá lugar ao outro na própria pessoa. E há como provar que assim ocorre. Ora, cada ser humano possui um código próprio de conduta que, ao menos minimamente, deveria ser obedecido. A pessoa sabe o que é certo e o que errado, conhece o que deve fazer, tem em mente os passos a serem dados, até projeta realizações. Contudo, pouco ou quase nada realiza. Acaba sem tempo de viver pra si mesma e passa a viver pelas ocasiões, pelos acasos e circunstâncias. Deixa-se facilmente levar pelo que não planejou, começa a arriscar, foge do seu padrão comum de conduta, acaba desnorteando toda sua vida. E mais tarde, quando enfim percebe o quanto não aproveitou ou o quanto errou, é que vai tentar reparar. E comete o erro de não priorizar o presente. Não faz o que o instante requer nem consegue consertar nada do passado. Quer dizer, o ser em si mesmo vai se tornando desconhecido do próprio ser.


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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

RELÓGIO SERTANEJO (OU O TEMPO AO MODO DO HOMEM)



*Rangel Alves da Costa


O sertão possui o seu tempo próprio. O seu calendário é o das estações, dos períodos mais chuvosos ou menos chuvosos, dos meses ou anos mais secos ou de menor estiagem. Bem assim o seu vivente, o sertanejo. Cada homem da terra igualmente possui seu próprio relógio. Que se diga também que o seu amanhecer é num tempo diferenciado, que seu meio-dia possui hora certa para chegar, que o seu entardecer e anoitecer é de outra marcação no ponteiro.
Não adianta que digam que tudo deve ser feito segundo o horário oficial. Não adianta que digam que a noite vai das dezoito horas até a madrugada, e que esta se prolonga até o alvorecer. Será perda de tempo dizer a hora que se deve deitar e acordar ou o instante certo do café da amanhã, do almoço ou do jantar. Até porque em grande parte do sertão não há essa história de café da manhã ou muito menos de desjejum nem de almoço, lanche ou café da noite ou jantar, pois tudo comida. E a hora da comida é qualquer hora, segundo o relógio sertanejo.
Galinha sobe ao poleiro na hora que se cansa de ciscar, põe seus ovos na hora que bem deseja e desce para novamente ciscar a qualquer instante do alvorecer. Não tem essa história de esperar o galo cantar de jeito nenhum. E quem canta primeiro, antes mesmo do galo e do sino da igrejinha, é a porta de trás de cada casa cabocla. Quando a porta range se abrindo é por que o sertanejo já acordou e já levantou, ainda que pelos arredores e matarias ainda esteja tudo escurecido demais.
Até a natureza sertaneja não está nem aí para essa coisa de horário marcado. Quando noutros lugares está tudo escuridão, o céu sertanejo apresenta cores e barras avermelhadas que muito dizem sobre as secas e as chuvaradas. A mata silencia durante o dia e murmureja e até grita depois da boca da noite. Também o pôr do sol é mais tardio e mais prolongado. O braseiro do fogão de lenha já está se tornando em cinzas e lá em cima, por detrás das serras, ainda o braseiro do sol se esvaindo em sua última chama. Mas a lua já apareceu. E assim por que o luar do sertão é tão grande e fulgurante que logo se cansa e vai embora antes mesmo de o homem acordar. Por isso que ele acorda numa inexatidão de cor nos espaços.
Quando se diz que no sertão o tempo é marcado pelo compasso do homem, sempre será no sentido de afirmar que tudo acontece perante a necessidade de acontecer. Como as necessidades são sempre grandes, então o sertanejo apressa o seu tempo para ajustá-lo ao que deva ser feito. Daí os dias parecerem mais longos e os noturnos muito mais estreitos. Por lá não existe essa história de um repouso de oito horas. Dorme-se apenas o tantinho para descansar e depois já se levanta num pulo. Por isso mesmo que o sertanejo já está em pé antes mesmo dos bichos do quintal e da mataria.
No sertão, tarde da noite já é madrugada aberta. E assim porque a contagem do tempo respeita outra ordem, outro desejo do homem da terra. Hora do café da noite é no mais tardar às cinco da tarde. Seis da noite o prato já foi lavado, tudo já foi arrumado, só faltando pouco tempo para apagar o candeeiro. De seis horas em diante já é hora de deitar, e muita gente deita mesmo a partir desse instante. Com tudo já sombreado, no breu da noite, não há motivação alguma de continuar perambulando por ali ou acolá.
Somente quando é noite de lua cheia é que o sertanejo se demora mais um tiquinho. De vez em quando lança mão da viola de pinho e ecoa uma moda lamentosa demais. É quando uma pinguinha é levada à boca e mais um acorde ou outro para fechar o dia. Às oito da noite já não resta nenhuma porta aberta. Todo mundo já dorme, já busca seu prazer, já sonha com um mundo melhor. Quando já está tarde da noite somente os grilos fazem festa, os gatos soltam seus gemidos, as almas penadas vagam sem ninguém encontrar.
Quando a madrugada chega já é hora de acordar pra muita gente. Antes mesmo que o galo cante muito sertanejo tá ajeitando seu aió ou embornal para sair pelo mundo, pelo meio do tempo no seu afazer de todo dia. Mexe pelos cantos da casa, procura os apetrechos dos ofícios, bate aqui e bate acolá, desenferruja o que desde muito estava guardado. Depois vira um gole de café, joga na boca um punhado de farinha seca e tudo já está pronto para ser começado. Assim todo santo dia, assim na hora e relógio da precisão sertaneja.
Mas nem é todo sertão é assim. Somente nas distâncias matutas, no sertão sertanejo de vera, como se chama por lá toda a verdade existente.


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Lá no meu sertão...


As águas que ainda restam nos sertões de Poço Redondo, Sergipe





Lua (Poesia)



Lua


A lua
caiu
lá do céu
beijei
amei
feito lua
de mel

lua
no olhar
na boca
tão sua
doce mel
do corpo
flutua.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - na escrita do tempo



*Rangel Alves da Costa


Em Poço Redondo, sertão sergipano, eu fundei e mantenho o Memorial Alcino Alves, um precioso acervo das relíquias e objetos que fazem e fizeram parte do mundo sertanejo. Nos espaços, eu tenho de pilões a oratórios, de ferros antigos de engomar a velhas cristaleiras, de retratos antigos ao artesanato da terra, e também biblioteca. Contudo, o inusitado está na canoa do São Francisco, no carro-de-bois e na prensa de casa de farinha. Anunciei que estava providenciando uma canoa, antiga, original, e ninguém acreditou. Lembro quando ela veio navegando pela estrada de chão e aportou no cais do Memorial. Mais uma maluquice minha, disseram. Não me importei. Só me importo mesmo pelo que deixei de fazer. Ou pelo que ainda não fiz, ainda que seja incompreendido - e até desvalorizado - na importância do livro vivo que a cada dia escrevo com as relíquias de nossa história. Eu passarei, eles passarão, mas o Memorial com fé em Deus permanecerá. E quando, num amanhã distante, outros estiverem perante aquilo que fiz, então sentirão que não fiz em vão. O tempo, e somente o tempo, para escrever a lição.


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terça-feira, 12 de novembro de 2019

VALDIR NOGUEIRA, OU A GRATIDÃO PELA AMIZADE



*Rangel Alves da Costa


Valdir José Nogueira, talvez somente Ariano Suassuna para descrevê-lo assim de relepada, quando o mestre armorialista diria: “Olhe no homem a pedra em seu estado de pedra, no silêncio e na mansidão do tempo, no seu estado de sol e de chuva, e no seu lodo encobrindo segredos. Mas tente se aproximar da pedra, falar com a pedra, aprender com a pedra. E terá uma pedra que é um reino de humildade, de simplicidade, de conhecimento e de sabedoria. Assim é Valdir, o belmontense, o guardião da Pedra do Reino, dos segredos do Castelo Armorial, o olhar dos casarões antigos e avivados na cor, o jardineiro das pedras portuguesas e o estandarte da cavalaria, dos bacamarteiros e de toda a cultura brotada em seu imenso Pajeú”.
O prazeroso destino me fez chegar a Valdir Nogueira durante o Cariri Cangaço Belmonte, em outubro do ano passado. O evento parecia somente ele. A voz do evento parecia somente a dele. Tudo se fazia perante sua presença, orientação e guia. Homem de estatura mediana, de gestos despreocupados e ao mesmo tempo atentos a tudo ao redor, de calmaria em mar bravio, de palavras profundas e desapressadas, numa ser de simplicidade difícil de ser encontrada. Um chapéu na cabeça, óculos moldurando um olhar de águia. Acessível, de mão estendida e sorriso estampado e, de repente, um amigo. Um grande amigo.
Algumas ligeiras informações. Valdir Nogueira, filho de Pedro Andrelino Nogueira e Aliete Moura Nogueira, é escritor, historiador, professor, palestrante, com profunda atuação na Secretaria Municipal de Turismo de Belmonte, membro da Associação Cultural Pedra do Reino, Conselheiro Cariri Cangaço, dentre outras atividades. Enquanto historiador apresentou estudos sobre os coronéis belmontenses, sobre a saga dos Pereira e dos Carvalho, a valentia de Quelé do Pajeú, sobre a Lendária Casa de Pedra, acerca do Capitão Luiz Mariano da Cruz, sobre o Movimento Sebastianista, sobre as Memórias do Antigo Casarão e a Morte do Coronel Gonzaga, sobre a História de São José do Belmonte, e muito mais.
Desde aquele Cariri Cangaço que Valdir Nogueira começou a despertar minha atenção e curiosidade. Ora, seu conhecimento histórico e cultural poderia levá-lo ao pedestal daqueles que se acham diferenciados pelo saber. Mas quem avista e dialoga com Valdir encontra um conhecido de soleira da porta ou de pé de balcão. O contexto cultural no qual está envolvido, num emaranhado de ricas e preciosas informações, bem que poderia torná-lo como aquele indivíduo que só tem tempo para o acúmulo do que interessa. Mas Valdir procurar compartilhar, de forma sucinta e inteligível, toda informação recolhida nas suas andanças, nos seus olhares, no seu sentimento de historiador do singelo e do grandioso.
Dificilmente alguém vai se preocupar com as pedras portuguesas antigas cimentadas nos belos casarões belmontenses. Dificilmente alguém se orgulha tanto com o que convive como Valdir. Peça-lhe para falar sobre Ariano Suassuna, sobre a Pedra do Reino encravada em Belmonte, sobre João Antônio, João Ferreira e demais personagens daquela saga de fanatismo, loucura e sangue. Valdir é sebastianista, é armorialista, é um livro de Ariano. Valdir é o guardião dos mistérios e segredos da Serra do Catolé. Creio que Valdir seja o próprio Quaderna narrando a epopeia de seu povo e de sua terra.
Por tudo isso - e muito mais - eu aprendi a devotar admiração especial por Valdir Nogueira. Meu leitor em alguns textos que publico, igualmente sabedor de minha escrita engajada com a cultura e a história sertaneja, ele bem sabe que muito nos aproximamos na apreciação das singelezas da vida. Então de repente faz surgir de sua boca uma nostalgia encantadora: “Hein Rangel, vai fumar um cigarrinho em deforete?”. Para depois lembrar que deforete é um termo interiorano para indicar descanso ou folga. Mais adiante se volta pra mim e diz: “Viu Rangel, aquele senhor na madorna no sombreado da igreja?”.  E repliquei: “Só você Valdir, para aparecer agora com essa madorna!”.
E de sua boca vão saindo pérolas e preciosidades já fora do alcance e do entendimento moderno. E de sua presença aquele sopro de vento bom e de sombreado debaixo de frondosa árvore. Abraço-te, amigo Valdir!


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Lá no meu sertão...


Casa velha, do barro que somos...


E daí? (Poesia)



E daí?


Ela ficou com outro
e daí?

o outro ficou com ela
e daí?

quanto o outro era eu
aquele outro esperou

e se abri a porta e saí
o outro logo entrou

troca de um pelo outro
e daí?

ela fica com quiser
e daí?

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - cangaço, testemunhos e mentiras



*Rangel Alves da Costa


O cangaço é tema dos mais discutidos, estudos, debatidos. Cheio de indagações, insinuações e invencionices, não deixa de ser atraente como tema de estudo e de conhecimento da história nordestina, e também brasileira. Contudo, ao redor do cangaço circunda um mundo de mentiras, de absurdos, de coisas sem pé nem cabeça. Testemunhos partindo de ex-cangaceiros, ex-policiais da volante, ex-comandantes de tropas, ex-coiteiros, ex-coronéis nordestinos, velhos sertanejos e muitos daqueles que juraram por tudo na vida ser verdade os seus relatos e testemunhos. Contudo, na grande maioria tudo mentira. Ex-cangaceiro puxando a sardinha pra seu prato, ex-comandante querendo dar uma de valente, ex-coiteiro dizendo aquilo que nunca viu. O falso testemunho, e acreditado porque partido de pessoa supostamente acima de qualquer suspeita, acabou colocando um cangaço em verdadeiro descrédito. Ora, mas um contou de forma diferente o mesmo fato. Outro já conta a mesma história toda enviesada. Afinal, onde está a verdade? Difícil saber, e daí que a maioria dos escritos sobre o cangaço estar cheia de inverdades. Para dissipar - ou fazer uma síntese compreensiva - do cangaço e seus fatos, não há outro meio senão de cotejar supostas verdades e, mesmo que não se chegue ao fato real, alcançar algo em que se possa acreditar. Mas sempre com a certeza de que seus achados e conclusões são provisórios.


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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

SEDUZA-ME



*Rangel Alves da Costa


Seduza-me... Seduza-me assim sem a nudez vulgar, sem a permissividade, sem o rebolado forçado das nádegas. Seduza-me assim sem apelação, sem erotismo libertino, sem querer mostrar o que se deve imaginar pelo olhar. Seduza-me sem palavras bobas, vãs, apelativas, dando-se além do que se pode dar. Seduza-me sem a correria do sexo, sem o gozo sem prazer, sem o sexo prostituto. Você pode, tudo de belo há em você, então seduza-me...
Seduza-me pela doce palavra, pela poesia na voz, pelo sussurro saindo do lábio macio. Seduza-me pelo livro que você leu, pelo personagem que você gostou, pela crítica que você foi capaz de fazer. Seduza-me pelo interesse por coisas boas, interessantes, capazes de trazer conhecimento. Seduza-me ao lembrar de Drummond, de Florbela Espanca, de Neruda. Seduza-me com uma valsa vienense, um noturno de Chopin, uma barcarola de Tchaikovsky. Seduza-me com os coronéis amadianos, com os corvos de Poe, com as tragédias shakespearianas. Não pedirei demais. Se disso não for capaz, então seduza-me apenas pelo que és. Mas seduza-me!
Eu sei que você possui um corpo de mulher. E não precisa ser mais feminino do que a feminilidade do corpo. Eu sei que você tem bunda. Eu sei que você tem seios. Eu sei que você tem boca e lábios. Eu sei que você tem umbigo. Eu seio que você tem sexo. Ora, basta olhar e confirmar. Aliás, não conheço mulher que não tenha corpo, bunda, seios, umbigo, lábios, sexo, etc.
Mas não sabia que uma mulher tivesse que andar quase nua para ser reconhecida como mulher. Saiba que os olhos do homem não gostam de encontrar a mulher já nua. Interessa mais ao olhar o despertar, o imaginar sobre o existente abaixo das roupas. Os olhos desnudam o corpo feminino inteiro. E o que haverá de interessante numa nudez que é mostrada rua acima e rua abaixo? Então se vista.
Então adorne seu corpo de roupa. Então seja você mesma sem precisar se exibir. E não se preocupe que se for bela, mais bela ainda será vestida em beleza e honradez. Então se mostre na sua inteireza sem precisar de nudez, sinta-se a mais bela com a roupa mais simples que vestir, sinta-se encantadora de pés descalços ou sem adorno algum. Você não precisa ser outra para ser a mais bela, a mais atraente, a mais desejada. Saiba que a sedução não nasce do banal nem da promiscuidade. Seduzir significa encantar, e não provocar apenas desejo.
Seduza-me pois és capaz de seduzir-me. Mas por enquanto não diga nada, não se levante, não caminhe, não corra até o espelho, não passe maquiagem no rosto e nem precisa se perfumar. Fique aí mesmo e escute:
Tens um mar. Tens um pomar. Tens um jardim. Tens uma lua e um sol. Tens um paraíso. Um mar no olhar, um pomar no lábio e na boca, um jardim no corpo, uma lua no sorriso, um sol no calor da pele. E tens um paraíso. Ora, por qual escada subirei ao céu senão pelos teus braços dizendo que venha? Mas não precisa avermelhar de vergonha. Apenas a verdade. Linda, a tudo sintetiza. E de uma beleza tão bela que o poeta apenas diria: Eis a flor. As pessoas tão vãs, tão outonais, e uma flor mulher com seu jardim em si mesma.
Bastou-me dizer o que sinto, o que desejo e o que espero de uma mulher. E dizer o quanto me seduz a fragrância da feminina simplicidade. Encanta-me, seduze-me...


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Lá no meu sertão...


Curralinho...




O lobo (Poesia)



O lobo


Um copo de vinho
vazio
papel de poesia
rasgado
ponta de cigarro
de lado
agora a escuridão
sem ter lua

fechei a janela
não quero voar
guardei o veneno
não querer beber
meu punhal
vive dentro de mim

sem sono
e sem sonho
abro a porta
e saio por aí
e o lobo da noite
o lobo uivante
é o lobo de mim
um lobo em mim.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - a igreja e seus playboys



*Rangel Alves da Costa


Tenho o sacerdócio como missão, como aproximação do homem à palavra de Deus, como pastor juntando rebanhos aos pastos da fé, e não como fazem estes padres que de sacerdotes não são nada, apenas uns playboys, uns artistas, uns aproveitadores. Não se sabe a o certo se como meio de diminuir a formalidade do sacerdócio e atrair - ou não perder - mais fiéis, mas a verdade é que a determinadas igrejas transformaram seus altares em palcos, seus pastores em ídolos pops, e seus féis em fanatizados. Padre country, padre romântico, padre sertanejo universitário, padre sofrência, padre reggae, padre fazendo shows milionários e ganhando rios de dinheiro. E depois chegando com aquelas vozes mansinhas, desconfiadas, querendo pregar o que não fazem na vida, que é o dever de respeitar muito mais a igreja, seus ensinamentos e suas vocações. O pior é que a própria igreja permite que os padres artistas propaguem seus dotes e vendam suas imagens como se fosse algo normal. Não é não. Como também não é normal que uma igreja que se diz pobre e santa dê-se ao luxo de esbanjar riqueza por todos os lados.


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domingo, 10 de novembro de 2019

ZEZÉ PINGO D’ÀGUA: POÇO REDONDO PRECISA CONHECER A HISTÓRIA DESTE GRANDE HOMEM



*Rangel Alves da Costa


O seu nome de batismo era José Bernardino de Sá. Contudo, pelos sertões sergipanos, principalmente em Poço Redondo e Porto da Folha, apenas Seu Zezé Pingo D’água. E basta esse nome para se referir a um buraqueiro (nascido em Porto da Folha), mas que já pelos dezesseis anos pelos caminhos de Poço Redondo, desde o Poço de Cima ao Poço de Baixo, e que deixou seu nome grafado com letras de eternidade.
E por que tão esquecido, tão pouco lembrado e falado? Algum jovem pode indagar. Simplesmente pelo fato de que a história é injusta com os grandes homens e a educação interiorana não procura resgatar quem verdadeiramente construiu a história municipal. Mas hoje basta estar na presença de um Bernardino ou de um Sá para ter adiante a raiz de Seu Zezé. Pelos netos já se tem uma ideia da marcante presença: Messias dos Correios, Zé de Maristela, Dorinha de Gerino, o saudoso Zé Delino, Marcelo de Carmelita, o professor Fernando Sá, e tantos outros.
Não se sabe bem a origem do termo “Pingo D’água” acrescido ao nome de Seu Zezé, mas certamente por se tratar de homem de baixa estatura, miúdo, um baixinho e franzino, conforme comumente se diz. Então, naquele grande homem um pingo d´água pelo seu tamanho físico. E sempre bem vestido, com seu chapéu panamá e seu paletó escuro, ainda que desgastado de tempo. Amigueiro, calmo, pacífico, com poucas e tão certas e necessárias palavras. O seu nome já dizia tudo.
Como dito, Seu Zezé, nascido José Bernardino de Sá a 29 de dezembro de 1894, na sergipana e sertaneja Porto da Folha, mas migrando ainda rapazote, aos dezesseis anos, para as bandas de Poço Redondo. Casou com Maria da Conceição Dória, tendo o casal oito filhos: Luís de França e Sá, Manoel Rodrigues, Adelino Alves (Delino), João Bernardino (João Pingo D´água), Rosa Soares (Rosinha), Maristela de Sá, Antônia Rosa e Maria Carmelita de Sá (professora Carmelita). Netos e bisnetos em profusão, e todos de importância fundamental na vida de Poço Redondo.
Digno de notar a preocupação de Seu Zezé e de Dona Maria com a educação dos filhos, principalmente as mulheres. Num tempo onde o estudo era uma raridade e a formação de difícil alcance, suas filhas não só enveredaram pelo mundo da aprendizagem como se tornaram professoras, a exemplo de Dona Rosinha, Dona Maristela e Dona Carmelita. Muitos filhos de Poço Redondo devem a abnegação destas o que aprenderam nas antigas salas de aulas.
Mesmo miudinho no tamanho, Seu Zezé era homem de estatura sempre elevada quando se tratava dos grandes assuntos da povoação. Com voz firma, sempre ouvida, interferia em assuntos políticos, agrários, comunitários, primordialmente no que dizia respeito à melhoria da qualidade de vida da população mais carente. Foi dono de muitas terras (as chamadas terras de eréu), mas disto tudo não vingou nenhuma riqueza. Foi também delegado, juiz de paz, comissário de ensino e ocupante de outros cargos outorgados pelo reconhecimento de sua sabedoria e honestidade.
Seu Zezé faleceu, aos 105 anos, pelo idos de 1999. Uma longa duração de vida para um grande que deixou plantadas muitas, firmes e duradouras raízes. E a ele, sua filha Carmelita, a querida professora Carmelita, escreveu o poema intitulado “No Sertão do Morgado”, que abaixo transcrevo:

O velho José Bernardino
que mais de cem anos viveu
deixando sua história
neste Sertão de meu Deus

homem quase analfabeto
estabeleceu no Sertão
servindo nesta cidade
conforme a sua missão

De Delegado, Juiz de Paz
a Comissário de Ensino
neste povoado servia
lutando com as causas pequenas
nesta região assumia

no campo deste Morgado
tudo ele conhecia
os acidentes geográficos
de Porto da Folha a Serra da Guia

com dezesseis anos de idade
neste sertão já vivia
festejando com os amigos
em Poço de Cima servia

com seus terrenos de hereus
ajudou a esta população
dando pequenas moradias
aos pobres deste Sertão

a sua pequena história
mostrou muito a profecia
dos povos ancestrais
exemplos de nossos dias

tinha muita sabedoria
dada por Deus o Criador
conhecia os sinais do tempo
na sua vida de agricultor.

Eis, assim a síntese da vida de um pai escrita por uma filha. Dona Carmelita, nossa eterna professora Carmelita, expressando na inteireza um grande homem: Seu Zezé Pingo D’água.


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Lá no meu sertão...


Curralinho do São Francisco, em Poço Redondo, sertão sergipano





Ponto final (Poesia)



Ponto final


Não adianta encher o mar
com as próprias lágrimas

não adianta tanto sofrimento
se o querer pode trazer alento

não adianta insistir em ficar
se há porta aberta e uma estrada

no amor também assim
tudo se faz para continuar

há perdão, morte e renascimento
mas até que as vidas não suportem mais

e a única saída será de tudo abdicar
para enfim a vida recomeçar a viver.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - vou-me embora pra Pasárgada...



*Rangel Alves da Costa


Vou-me embora pra Pasárgada. E o caminho quem me ensonou foi Manoel Bandeira, o poeta. Não adianta permanecer, ficar, insistir na mesmice. Ora, aqui nada acontece de novo, ou quando acontece diz respeito a fatos velhos e requentados. Ódios políticos, fanatismos políticos, ideologias sangrentas, justiça fazendo injustiça, governanças destemperadas, brincadeiras de governar. Chega! A corrupção valendo a pena, condenação que não se condena, endeusamentos de lamaçais, santificações de ídolos da ladroeira. Chega! Redes sociais apontando armas, armas em cada palavra e cada gesto. A descrença em tudo, a certeza de que o fim já chegou. Ora, a humanidade já caminhou e parece já ter encontrado seu destino: o fim. A droga é normalidade, a prostituição é bonita, a derrocada da vida como algo comum. Os cabarés fechados. Que pena! Cortes judiciais que são cabarés, gabinetes que são bordéis, poderes que são prostíbulos, parlamentos que são desavergonhadas imundícies. Não, aqui não fico mais não. Vou-me embora pra Pasárgada, por lá só amigo do rei, lá tenho a mulher que quero na cama que escolherei...


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sábado, 9 de novembro de 2019

OS SERTÕES DO SERTÃO



*Rangel Alves da Costa


O Sertão é dividido em muitos sertões. Há o sertão sertanejo, o sertão apenas da memória, o sertão do progresso e do modismo, o sertão enquanto geografia e características peculiares.
Neste sentido, o sertão do mandacaru, do xiquexique, da flor de jurubeba nos beirais das estradas, das secas e das estiagens, das esperanças de chuva e das trovoadas de vem em quando.
Mas há um sertão que nem o progresso consegue afastar totalmente a sua feição: o sertão cultural, tradicional, enraizado em si mesmo. O sertão e sua autenticidade, bem como sua força de permanência.
Como exemplo, temos as permanências das manifestações culturais dos pífanos, do reisado, do samba-de-coco, da cavalhada, do aboio e da toada, do xaxado e do forró, das velhas vozes ecoando emboladas e nostalgias musicais.
É neste contexto que se insere o sertão da roça, do mato, do curral, do casebre de cipó e barro, da poeira levantando na estrada pela passagem da boiada, da cozinha cheirando a coisa boa da terra e do quintal do purrão e do varal.
E se insere pelo fato de que as permanências culturais e tradicionais sempre nascem e afloram a partir dos arredores e das distâncias das cidades ou centros urbanos. Quanto mais familiar for a tradição, mais força ela terá.
Nas povoações, fazendas, solidões das matarias e pequenos mundos, é onde continua gestando o grande sopro de vida do sertão. O sertão do mato é o legítimo sertão, aonde é possível encontrar o verdadeiro sertanejo.
A cidade consume sem saber que está se embrenhando naquilo que de mais puro e original há no seu mundo-sertão. Ora, a prova disso está no eterno amor pela vaquejada, pela vaqueirama, pela vida de gado.
Vaqueiro e boi não são da cidade não. Pega-de-boi e alazão pelo mato não são da cidade não. Aboio e toada, cantoria e versejar matuto não são da cidade não. É tudo do mato, tudo cheirando a terra, a bicho, a estrume, a sol, a espinho e toco de pau lanhando a pele.
O profundo amor pela vaquejada é também o amor profundo ao sertão em sua raiz maior. Mesmo que os costumes vaqueiros tenham se modificando, a raiz continua, pois gestada no amor sentido pela vida de cavalo e gado.
Hoje as mocinhas se enfeitam para as vaquejadas, fazem do descampado e da mataria verdadeira passarela de desfile, sem saber que estão reverenciando algo grandioso no mundo-sertão: a cultura da pega-de-boi no mato.
Os novos vaqueiros, todos encorajados e destemidos, nada mais são que a permanência dos velhos vaqueiros do passado. Antigos vaqueiros que se preocupavam muito mais em cuidar do gado, em ir atrás de boi desgarrado, em seguir pelos estradões levando boiada.
O cheiro do couro não mudou, o sol sobre a pele não mudou, o espinho na pele não mudou, a força e a valentia não mudaram, o afoitamento é o mesmo. E não mudou pelo fato de que o sentido da vida vaqueira é exatamente a relação entre cavalo e boi, e não a forma como hoje isso se traduz.
É, pois, neste sertão do vaqueiro e da vaquejada, que continua pujante aquele sertão de outrora. Como dito, os vaqueiros de agora são os mesmos vaqueiros de outrora nas suas proezas e valentias.
Não há que se dizer sobre um vaqueiro que surge agora para o sucesso, mas tão somente num sertanejo que vai seguindo os mesmos passos de seu pai, de seu avô, de seu bisavô.
Daí também o Parque de Vaquejada União Santa Fé, nos arredores da cidade de Poço Redondo, se constituir num grande livro onde as antigas tradições sertanejas estão tendo continuidade na escrita. E que bom que seja assim.
Na vaqueirama e na vaquejada aquele sertão único entre passado e presente. E a beleza de ter um troféu da história levantado.


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Lá no meu sertão...


Memorial Alcino Alves Costa - Poço Redondo, sertão sergipano





Recomeço (Poesia)



Recomeço


Tudo começa
e tudo termina

na vida
a morte é fim

no amor
é recomeço

morre um amor
para em outro nascer.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – o trem e a estação



*Rangel Alves da Costa


. Talvez mil anos assim, uma vida inteira ante o relógio da estação e a espera infinita do apito, da fumaça, do cheiro de flores, dos sorrisos ou das lágrimas. Talvez até que seja eu na desilusão de meus dias. Já não sei se trem de partida ou de chegada. A estação sempre vazia, triste, silenciosa. Os bancos desocupados, folhagens dançando pelo chão de terra. A ventania chegando e trazendo poeira, um cachorro latindo, uma saudade distante. Um cheiro diferente no ar. Não sei se de fumaça do trem ou da aparência antiga e maltratada do lugar. Mais de mil anos de adeuses, abraços, despedidas. De um lado, ao longe, apenas a curva da montanha entreaberta para sua passagem; do outro, onde o olhar vai se perdendo na finura dos trilhos, apenas uma cor sombria de desalento. Os trilhos não deixam marcas, não indicam da proximidade ou da já distante partida. Nos encaixes, madeira velha divisando o percurso, nenhum sinal de calor do instante. O trem ainda não veio dessa vez. Talvez nunca venha. Apenas a memória correndo nas vagas daqueles trilhos rumando ao nada.


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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

RETRATO DE UM RIO



*Rangel Alves da Costa


Perante o meu olhar, uma fotografia do Rio São Francisco e suas beiradas, com algumas embarcações e um leito raso de água. Lá em Bonsucesso, povoação sertaneja em Poço Redondo. Mas poderia ser em Curralinho, em Cajueiro, em Jacaré. Aquele que avista a fotografia logo se enche de encantamento. Não poderia ser diferente, pois tudo emoldurado numa beleza poética sem igual.
O Velho Chico, mesmo padecente como de vez em quando se mostra, assim tão magro e tão ossudo, com suas veias esvaídas, não deixa de encantar o seu beiradeiro e o seu visitante. Logicamente que o beiradeiro sofre, lamenta e chora quando seu rio parece pouco demais e passando sem vida, e principalmente se puxar da recordação e relembrar outros tempos, nos idos de antigamente, que tanto rio como a ribeira d’água era uma festa só.
Um rio rico de outrora. Grandes embarcações chegando e partindo, carrancas apontando nas curvas, afastando os maus espíritos das águas, e pedindo passagem rumo aos portos. Sacos de açúcar, de farinha, de biscoitos, de carne seca, de sortimentos. E á na beirada, pronto pra ser embarcada a lenha, os fardos de algodão, um carregamento de peles, as produções ribeirinhas e sertanejas. E nas calçadas altas - e assim tão altas por causa das constantes cheias -, as pessoas sentadas em cadeiras para o maravilhamento perante aqueles momentos.
Hoje o rio já não é aquele rio. Corre no mesmo lugar, faz curva entre as mesmas serras, vai cortando o mesmo caminho entre as beiradas, mas perdeu sua pujança de outrora. A pujança da água muita, da largueza do espelho d’água, do peixe em profusão para a tarrafa e a rede. Pelas margens, na sonolência dos dias, os barcos e as canoas repousam na esperança de dias melhores. Contudo, há uma magia no rio que nada parece afastar. Seja de água muita ou rasa, o rio continua apaixonando tanto o visitante como o povo ribeirinho.
Logo o espírito e alma bebem da magia do alvorecer e do entardecer. Verdadeiramente não há cenário mais mágico e cativante. Contudo, seria preciso avistar além da moldura para adentrar nas raízes do próprio rio, de seu meio e de seu habitante. A pintura de cores vivas se mostra apenas uma aparência. Há, na alma do rio e do seu povo, um âmago tomado por sensações muito diferentes daquelas tidas apenas pela visão do cenário.
É um rio que sofre e um povo que sofre, é um rio que pranteia e um povo que chora, é um rio que vai se exaurindo nos braços aflitos de seu ribeirinho. Somente quem vive o dia a dia conhece a real situação. Somente quem nasceu e se criou nas suas beiradas conhece a dor da saudade de um passado de águas grandes, piscosas, cheias de vida e de embarcações. Hoje há apenas um leito. E quase de morte. Os vapores não passam mais, os navegantes seguiram outro porto. Cadê o surubim, há de se perguntar.
Tudo passou, tudo seguiu na curva do rio. E nas beiradas ficou o seu habitante, o beiradeiro, o ribeirinho. Aquele que sorri no olhar e chora no coração.


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São Francisco, um rio que passa...




Doçura de fel (Poesia)



Doçura de fel


Exagerei no açúcar
e açucarei demais
não sabia que o amor
pede um pouco de sal
não sabia que a doçura
pode fazer mal

de beijos e abraços
e apenas nesse mel
sem qualquer palavra
que falasse do fel
com seu amargo sabor
quando o doce acaba.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – Seu Salustiano (Seu Salú)



*Rangel Alves da Costa


No último dia 02 de novembro, nas andanças por Santa Rosa do Ermírio, povoação de Poço Redondo no sertão sergipano, eu tive o prazer de chegar até a porteira de Seu Salú. Não o conhecia, mas que tão grata surpresa e proveito bom que a vida me trouxe naquele anoitecer. Seu Salú já vai se aproximando de uma estrada centenária, mas nem parece que já tenha idade assim avançada. A mente em perfeito estado de a tudo ouvir, a tudo entender, sobre tudo dialogar. Memória viva, acesa, atiçada, lembrando-se de cada detalhe do passado e mais além. Palavra na conformidade do proseado, sorriso quando há motivo de sorrir, feição mais fechada quando o assunto assim reclama. E o melhor de tudo: Um dos braços direito de José Francisco do Nascimento, o Zé de Julião, naquele famoso roubo às urnas na segunda eleição havida em Poço Redondo (03 de outubro do ano de 1958). Seu Salú estava presente, também galopou em tropel naquele acontecido, levando urna e fincando na estrada uma saga sem igual. Ele sabe de tudo, de tudo e muito mais. E prometeu-me contar tudim, tim-tim por tim-tim, desvendando mistérios e segredos que ainda rondam - e até assombram - aquele episódio e suas trágicas consequências. Por isso mesmo retornarei, e na mesa grande sentarei sem pressa, apenas ouvindo e ouvindo, e certamente com o maior interesse do mundo, a sabedoria lúcida e verdadeira de Seu Salustiano.


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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

DO LADO ESQUERDO DO PEITO



*Rangel Alves da Costa


Eu que não danço nem valsa, não tiro o pé do lugar nem em xote nem baião, ainda assim fico todinho arrepiado e estremecido quando o amigo Sávio do Acordeon puxa o fole e começa:  “Nenhuma carta lembrar, e nem um anjo pra me ajudar, será que já me esqueceu, eu não sei, eu preciso só saber. Quantas vezes eu falei, pra que você não me iludisse assim, me deixou sempre a sonhar. Fale agora, por favor, fale agora eu preciso só saber. Meu grande amor diga pra mim aonde está. Diga pra mim qual a razão, dessa triste solidão...”.
Ele sabe que gosto demais dessa música, e até me avisa antes quando vai dedilhar na sanfona o nostálgico romantismo. E quem não gosta de ouvir Sávio, de dançar com os acordes de Sávio, de passar a noite inteira vendo esse menino mostrando sua arte maior, que é a da sanfona? Em sua simplicidade, que o torna sempre o mesmo sobre os holofotes e na roda de amigos, Sávio faz do palco, da sanfona e da voz, a demonstração que Poço Redondo também é culturalmente rico através de seu nome.
Sávio, o tão conhecido e festejado Sávio do Acordeon, é autenticamente sertanejo de Poço Redondo, na região semiárida sergipana. Desde cedo, ainda meninote, que começou a dedilhar sanfona e logo se mostrava com habilidade sem igual na música regional, principalmente o forró. E seu aprimoramento foi tamanho que atualmente é requisitado para shows em toda a região sertaneja e tem cadeira cativa no município alagoano de Piranhas, onde os turistas que por lá chegam se comprazem de sua maestria no acordeon, também cantando magistralmente.
Por isso mesmo que toda vez que se pensar em festa grande, em multidões na Praça de Eventos, o primeiro nome a ser recordado deve ser sempre o de Sávio. E não precisa dizer muito sobre os motivos, apenas que ele é nosso, é da terra e é bom demais. Apenas que Sávio é mestre na sua arte. Então, amigo Sávio, puxe o fole que quero ouvir “Anjo Querubim”:
“Fiz você pra mim, meu brinquedo, meu anjo querubim, meu segredo guardado só pra mim, meu amor mais louco. Até de tanto amar, fiz também algo pra gente ninar, uma criança pra gente adorar, tudo num sufoco. E você não gosta mais de mim, vem dizer que eu não soube dar amor. E achar que a vida é mesmo assim, cada um leva um barco sofredor. Meu baião, coração, arranca essa dor do meu peito pra eu não chorar. Meu baião, coração, arranca essa dor do meu peito pra eu não chorar. Meu baião, coração...”.
Contudo, Sávio, para além da música e do artista, e em pedestal mais alto, está o amigo. E este guardado sempre do lado esquerdo do peito, bem dentro do coração... A você, meu amigo, esta singela homenagem.


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Lá no meu sertão...


Lavadeiras do Velho Chico, em Curralinho, Poço Redondo, sertão sergipano





Tanta vida e tanto amor (Poesia)


Tanta vida e tanto amor


Tanta vida
e tanto amor

Maria e João
num sertão
João e Maria
num só coração

casa de barro e cipó
uma lua e o sol
Padim Ciço na parede
pote que mata a sede

ele faz um cafuné
ela traz gole de café
na rede a balançar
tanta vida e tanto amar.

Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - preciso voltar a Curralinho



*Rangel Alves da Costa


Meu caderno tá ficando amarelado. Minha folha de papel tá sem uso. Vou fazer a ponta do lápis. Preciso pensar, meditar, refletir. Preciso de instantes de solitária solidão e dos silêncios murmurantes das águas. Preciso escrever sobre a vida, passado e tudo. Preciso voltar a Curralinho de meu Poço Redondo. Preciso... Curralinho é aldeia sertaneja e de pescador, o Velho Chico adiante, nas margens as canoas adormecidas, tudo parecendo estático ou sem pressa de passar. Quando quero refletir, sobre o mundo meditar, então corro às suas beiradas e me deixo ser barco, ser espelho d’água, ser a lenta mansidão no véu molhado que vai. O dia passando assim, o rio adiante e eu apenas me enchendo de silêncio e sabedoria e colhendo palavras boas para colocar num caderno. Por isso preciso voltar a Curralinho. Preciso...


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