SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 22 de julho de 2019

SER APENAS O QUE SOU



*Rangel Alves da Costa


Ser apenas o que sou. E apenas isso. Ser minha própria imagem e semelhança. Ser apenas o que gosto de ser, o que gosto de fazer, o que me traz praz e contentamento.
Eu bem que poderia estar pisando no asfalto, passeando pelos shoppings ou pelos calçadões, mas eu estou aqui.
Eu bem que poderia ser adorador do terno e da gravata, devoto do anel no dedo, abnegado ao termo “doutor”, mas eu estou aqui do jeito que você é e como você está.
Eu bem que poderia chegar, fazer o que eu tenho a fazer, e depois simplesmente partir, mas eu vou onde você está.
Eu bem que poderia simplesmente passar por você, fazer que nem lhe reconheço mais e seguir adiante, mas eu lhe conheço sim, falo sim, abraço sim.
Eu bem que poderia caminhar pelas rodas de um carro, avistar o mundo atrás de um vidro fumê, sequer buzinar perante sua presença, mas eu vou caminhando e sorridente até onde você estiver.
Eu bem que poderia não me esforçar para lembrar o seu nome, mas sinto necessidade de lhe chamar como é conhecido e relembrar sobre tudo o que sei.
Eu bem que poderia não ir além do centro da cidade, não adentrar em ruelas, não visitar o chão batido, não avistar a pobreza, mas de nada disso eu sou distante.
Eu bem que poderia dizer além do que sou, subir estrelas em pedestais, mas bem sei que à escada sobe-se através do chão.
Eu bem que poderia não ser como sou e forjar ser outro, mas outro eu não sei ser. E principalmente ser diferente daquele em mim tanto gosta de povo, gente, de terra e de chão.
Eu bem que poderia negar minhas origens, omitir minhas raízes, ocultar de onde vem e por onde escorre o meu sangue, mas meu orgulho é ser sertanejo.
Eu bem que poderia aprender a dizer sempre não, mas não sei, mas não sei fazer assim, e tudo faço para dizer sempre sim.
Eu bem que poderia não estender minha mão à mão calejada de luta, fingir que não conheço o de roupa rasgada ou de pés descalço, fazer de conta que não é do meu mundo aquele mais desvalido, mas eu já não seria eu, e em mim eu já não estaria.
Eu bem que poderia pedir cardápios, conhecer as cartas de vinhos, mas prefiro o sabor e o prazer de uma comida de cozinha simples, principalmente se feita em panela de barro e saboreada na gulodice.
Eu bem que poderia escolher um perfume importado, de nome difícil, mas sei que o seu aroma não se compara ao cheiro da pele do jeito que a pele é.
Eu bem que poderia não ter muito tempo nem para a lua nem para o sol, bem como não dar muita atenção às flores dos beirais das estradas e aos calangos em cima das pedras, mas converso e dialogo com tudo isso.
Eu bem que poderia ser diferente. Mas eu sou apenas eu. E um igual a você.


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Lá no meu sertão...


Tempo, tempo...



Uma casa velha (Poesia)



Uma casa velha

                                               
Era uma vez
uma casa velha de portas fechadas
de janelas fechadas e sem voz ecoando

era uma vez
um silêncio e uma solidão na casa velha
que fazia entristecer quem ela olhava

era uma vez
uma ventania querendo entrar
pelas portas e janelas da casa fechada

era uma vez
um graveto de pau e uma folha seca
querendo morar naquela velha casa

era uma vez
uma moça bela ao entardecer na janela
e cheiro de café torrado vindo da cozinha

era uma vez
o meu amor que um dia se foi embora
e minhas mãos fechando a casa e partindo.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - olhe a bunda dela



*Rangel Alves da Costa


Creio ser indiscutível que a maioria das mulheres brasileiras gosta de expor seus atributos físicos. Desde muito que o Brasil, lá fora, é reconhecido e lembrado pelas dadivosas ancas femininas. Diga-se, de antemão, não ser exagero ou tara masculina, vez que, como se diz, muitas fazem por onde. Exemplo disso está em grande parte das fotografias postadas nas redes sociais. A mulher esconde tudo, mas não a bunda. A mulher se retorce toda para empinar a bunda. A mulher se posiciona perante o espelho para dar um melhor ângulo ao tamanho da bunda. E, muitas vezes, posta só o formato da bunda mesmo. Quer dizer, a bunda parece ser aquilo que mais se deseja mostrar. E mostra mesmo, à vontade. Algumas até fazem enchimentos para que o bumbum pareça ser mais volumoso e atraente. A cultura da bunda. Apenas isso.


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domingo, 21 de julho de 2019

AMIGOS E AMIZADES



*Rangel Alves da Costa


Amigos e amizades são temas que possuem aparência compreensível demais, mas cujo aprofundamento revela feições bem mais delicadas. Ter um amigo não significa ter sua amizade. Amizade é interior, enquanto o amigo pode estar apenas exteriormente. Por consequência, a amizade é algo muito mais difícil de ser conquistado do que um amigo.
A amizade se mantém, não se detém. Mas só se consegue manter amizade quem também sabe manter uma necessária distância do amigo. Amizade em demasia acaba provocando expectativas que nenhum amigo poderá sempre retribuir. E na falta da sempre esperada retribuição, logo o desgaste e o distanciamento.
Erroneamente, pessoas confundem amizade com cumplicidade, com confessionário, com revelações de toda a sua vida e todo o seu viver. Nem sempre confiam em familiares ou em pessoas de mais idade que estejam aptas a ouvir e aconselhar, mas tudo revelam às amizades, principalmente àquelas mais recentes. Ora, as recentes amizades mais parecem descidas do céu. Um erro. Um grande erro.
Amizade não se contenta em apenas fofocar, em revelar segredos amorosos, em dar as mãos para farras, bebidas, noitadas. Pessoas assim até se tornam íntimas, mas não amigas. Isso ocorre muito nas novas amizades. E amizades novas geralmente surgem entre pessoas que não tinham proximidade, pouco se falavam, pouco se conheciam. E por que, de repente, essa pessoa se torna a pessoa mais acreditada no mundo?
Logicamente que mais um erro no que se tem por amizade. Na verdade, determinadas amizades surgem como entrega absoluta entre pessoas praticamente desconhecidas. E se já conhecia, por que não nutriu amizade? É algo surgido como fantasia, como encantamento, como verdadeira magia. E logo será dito que Deus no céu e a amiga na terra. Uma pessoa conhecida de poucos dias e já tornada a mais importante do mundo. E não raro que logo vem o coice e a queda.
Toda amizade vai sendo construída no tempo e mantida na confiança. Não existe amizade de momento. O amigo sempre é, sempre está, sempre permanece. Por isso mesmo que é fácil perceber o que motiva uma amizade duradoura. As pessoas não se traem por que se confiam, as pessoas não se usam por que se respeitam, as pessoas já se conhecem de tal modo que cada uma conhece muito bem os limites.
Não é necessário que a todo instante a amizade vá sendo demonstrada. Ótimas amizades existem que até pouco se encontram, pouco se falam, mas cuja força é percebida em determinados e difíceis momentos da vida. O bom amigo chega na hora da necessidade, da precisão. Mas a amizade nutrida na intimidade não tem esse compromisso. A intimidade apenas busca um proveito pessoal, de segredos e revelações, mas não de estender a mão e até fazer sacrifícios quando o outro necessitar.
A amizade nutrida apenas na intimidade é de fragilidade tamanha que amanhã poderá se tornar em inimizade de fogo a sangue. Por quê? Ora, pelas fofocas, pelas conversinhas, pelas revelações, pelas traições. E bem feito que assim aconteça. Há gente que prefere acreditar no desconhecido a ter confiança naquele que sempre esteve ao lado, que já conhece seus atributos de caráter e honra.
Tudo pode acontecer. Pessoas existem que não são amigas nem de si mesmas. E estas não servem para fazer amizade com absolutamente ninguém. Contudo, não é fácil perceber. Resta ler as muitas ou poucas páginas de sua história e observar se prefere andar com lobos ou cordeiros.
Nunca espere, contudo, que sua vida dependa de um amigo. Nunca se sabe o que virá. Aquele que se mantem oculto de repente chega para servir muito mais que o outro ali ao lado, que sempre se disse à disposição. Assim acontece pelo fato de ser sempre mais fácil dizer do que fazer. Na hora da necessidade, então se pergunta aonde foi aquele que estava ali.
Contudo, é preciso acreditar nas pessoas. Também necessário que as pessoas creiam na existência de grandes e verdadeiros amigos. Ao menos para fazer valer a beleza dos versos da canção: “Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração...”.


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Lá no meu sertão...


Mas sempre sertanejo...



Apenas você (Poesia)



Apenas você


Tua voz
apenas uma palavra
o teu mar
apenas um teu olhar
a tua pétala
apenas a pele tua
um carinho
apenas o teu abraço

nestas noites frias
queria apenas você
apenas você.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – vaqueiros e drogados



*Rangel Alves da Costa


Ontem, sábado, foi dia de festa grande no Parque de Vaquejada União Santa Fé. Mas já na manhã deste domingo, através de pessoas confiáveis de Poço Redondo, no sertão sergipano, acabei tomando conhecimento de uma situação deveras preocupante. Segundo os relatos presenciados na Santa Fé e arredores, o uso de drogas está sendo feito de modo indiscriminado e por todo lugar. Jovens se deixam avistar prontos para cheirar pó, jovens se embrenhando pelos escondidos para fazer uso de todo tipo de droga. E tudo feito em meio a famílias, idosos, adolescentes e até crianças. Certamente que por ali também transitando traficantes e outras pessoas perigosas demais. Pelo que vem acontecendo, significa dizer que aquela arena esportiva está sendo utilizada para fins outros, totalmente ilícitos, e bem diferentes de seus reais objetivos. Ora, a vaquejada é esporte de garra, de valentia e de encorajamento, e não comunga com as práticas viciantes destes acovardados. Necessário se faz que a direção do parque, a Associação dos Vaqueiros e os demais que não comungam com tal situação, tomem imediatas providências. Necessário também se faz que a força policial passe a ter forte presença a cada evento esportivo. E mais necessário ainda que o Ministério Público local seja informado sobre o que vem acontecendo, de modo a instaurar os procedimentos necessários à apuração das responsabilidades. E devidamente punir.


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sábado, 20 de julho de 2019

APENAS SER O QUE SOU



*Rangel Alves da Costa


Eu bem que poderia estar pisando no asfalto, passeando pelos shoppings ou pelos calçadões, mas eu estou aqui.
Eu bem que poderia ser adorador do terno e da gravata, devoto do anel no dedo, abnegado ao termo “doutor”, mas eu estou aqui do jeito que você é e como você está.
Eu bem que poderia chegar, fazer o que eu tenho a fazer, e depois simplesmente partir, mas eu vou onde você está.
Eu bem que poderia simplesmente passar por você, fazer que nem lhe reconheço mais e seguir adiante, mas eu lhe conheço sim, falo sim, abraço sim.
Eu bem que poderia caminhar pelas rodas de um carro, avistar o mundo atrás de um vidro fumê, sequer buzinar perante sua presença, mas eu vou caminhando e sorridente até onde você estiver.
Eu bem que poderia não me esforçar para lembrar o seu nome, mas sinto necessidade de lhe chamar como é conhecido e relembrar sobre tudo o que sei.
Eu bem que poderia não ir além do centro da cidade, não adentrar em ruelas, não visitar o chão batido, não avistar a pobreza, mas de nada disso eu sou distante.
Eu bem que poderia dizer além do que sou, subir estrelas em pedestais, mas bem sei que à escada sobe-se através do chão.
Eu bem que poderia ser egoísta, boçal, demagogo, e me adornar de ilusões para simplesmente querer ser mais que o mundo, mas todo dourado enfeia minha cor de couro e minha tez de areia.
Eu bem que poderia não bater em sua porta, não levar sorriso no olhar nem palavra boa comigo, mas eu sei o quanto deseja e precisa do olhar e da palavra.
Eu bem que poderia não aceitar seu café quentinho, não beber água em caneca, não querer sentar em sua mesa, mas agindo assim eu seria muito diferente do que realmente sou.
Eu bem que poderia não ser como sou e forjar ser outro, mas outro eu não sei ser. Eu bem que poderia negar minhas origens, omitir minhas raízes, ocultar de onde vem e por onde escorre o meu sangue, mas meu orgulho é ser sertanejo.
Eu bem que poderia aprender a dizer sempre não, mas não sei, mas não sei fazer assim, e tudo faço para dizer sempre sim.
Eu bem que poderia não estender minha mão à mão calejada de luta, fingir que não conheço o de roupa rasgada ou de pés descalço, fazer de conta que não é do meu mundo aquele mais desvalido, mas eu já não seria eu, e em mim eu já não estaria.
Eu bem que poderia ser diferente. Mas eu sou apenas eu. E um igual a você.


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Lá no meu sertão...


Presente de luxo (e de gostosura)



Essência (Poesia)



Essência


Amo-te
quero-te
és meu amor
dizer assim
sem nada
dizer

o amor
é silêncio
é sensação
é sentir
e sentido
sem palavra

a palavra
dizendo ama
ecoa
a essência
que somente
o coração
pode expressar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – qualquer palavra



*Rangel Alves da Costa


O pau torto da palavra é madeira de lei na sabedoria. O sábio não precisa escrever com letras douradas ou expressar seu conhecimento entre os ramos dourados da latinidade gramatical. Como dito, chega de floreios e adornos, chega de redondilhas ou alinhavamentos para dizer o simples, o inteligível, o que realmente possa ser entendido. Besteira besta usar anela e gravata na boca. Besteira besta pensar que o sentido da palavra vem acompanhado da formação. A boca até entorta na palavra escolhida, forjada, forçada no egoísmo verbal. Ao invés de um leve sopro, de uma brisa, de um aroma singelo, muita boca prefere se abrir em tempestade. Será que é para assustar ou para amedrontar o ouvinte? Pra que dizer “Você Excelência é um digníssimo canalha!” ou “Vossa Senhoria possui a sabença suficiente que não passa de um verme asqueroso”. Melhor dizer: “Um fi da gota é o que você é!”. Ou apenas: “Seu fi da égua imprestave!”. Tá entendido? Na verdade, a palavra clama por entendimento, e não por incompreensão. Ou pede apenas que seja ela mesma, e não um significado mirabolante. E o que é mesmo a palavra senão o encontro do dito com o significado? Por que ósculo se beijo ecoa muito mais bonito? Por que arma perfurocortante se faca peixeira faz a mesma sangria? Por isso que prefiro outra palavra.


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sexta-feira, 19 de julho de 2019

SAUDADE, SUA DANADA



*Rangel Alves da Costa


Saudade, sua danada, por que faz assim comigo, com você, com todo mundo? Por que és tão boa e tão desatinada, tão necessária e tão mortal? Faces já petrificaram pelo cimento de seu poder. Olhos e corações já inundaram e naufragaram ante sua tempestade de recordações. O que era para ser apenas lembrado, recordado, revivido, eis que se transforma em turbilhão.
Danada, danada, você é uma danada. Sentimento dos mais estranhos. Também dos mais exigentes. A saudade não vem a qualquer hora nem em qualquer lugar. Nem tudo provoca saudade. Ela exige motivação e ambientação para acontecer. É sempre romântica, nostálgica, cautelosa demais. Gosta de aparecer junto com o pôr do sol, debaixo do clarão da lua, em instantes de chuva, assim que ecoa uma canção antiga. Também gosta de ser provocada. Parece adorar quando a pessoa vai em busca de velharias, de baús, retalhos e velhos recortes dos tempos idos. Nada lhe atiça mais que um retrato de pessoa amada, uma carta de amor, uma visão ou perfume que produza aquele tão conhecido e doloroso sentimento de querer de novo.
Tudo isso provoca saudade e disso ela se alimenta. Alimenta-se ainda da solidão, das casualidades da vida, das pequenas coisas que fazem relembrar. Gosta de ter um lenço ao lado, uma vela para ser acesa, um copo de bebida, uma taça de vinho, mas também três a cinco gotas de veneno. Por que ela também é devastadora. O dia inteiro ela se transmuda em sorriso, alegria, contentamento. Parece mesmo esperar o momento exato para reaparecer e agir. E sem querer, muitas vezes apenas porque ouviu a onda quebrando no cais, a pessoa começa a recordar e a sofrer. Então a saudade sorri, mas um sorriso dissimulado e frio. E também devastador.
A saudade é pássaro, é passo, é vento soprando. Possui asas, vai e volta em instantâneos voos. Num instante e já está trazendo no seu bico um bilhete que faz atormentar ainda mais. Com poder próprio de ação, de comando de vida e destino, ela abre a janela, escancara a porta, e segue adiante em correria. Não se incomoda com curvas, desafios ou perigos, pois sobe da terra e alcança as nuvens. O pensamento é seu caminho mais certeiro, aquele por onde trafegam as vontades, os desejos, as necessidades da alma. Basta pensar e já se está caminhando. Basta imaginar e já se está diante da pessoa que se deseja reencontrar. No encontro a desilusão, eis que mesmo tendo voz de súplica, a saudade não consegue transportar o outro até a presença de quem tanto entristece pela distância.
Talvez esta seja sua maior falha: sente necessidade de ter bem ao lado, de usufruir, de se dar, e por isso mesmo se apressa em direção ao desejo, mas não pode transportar fisicamente a pessoa desejada. E a certeza de ter avistado na mente, a certeza de ter conseguido estar face a face, bem como a certeza que o reencontro fortaleceu ainda mais o amor sentido, são as consequências mais dolorosas provocadas pela saudade. A mente avista, o corpo sente, parece que está à presença, tudo se transforma em possibilidade, mas apenas a ilusão que conflagra e devora. Sofre, chora, se aflige, se atormenta, mas nunca desiste, pois toda grande saudade sempre retorna, e tantas vezes mais forte que a pessoas chega às portas do ensandecimento. E como vento vai, ganha asas novamente pelo ar e faz surgir da aflição uma velha cantiga de amor.
A saudade é tão ardilosa quanto estrategista. Se oculta, mantem-se escondida, foge de situações para reaparecer em outros contextos. Sempre silenciosa, premeditadamente soturna, só fala intimamente e muitas vezes chegar a gritar o mais alto dos gritos. Talvez com poderes mágicos, acaba conduzindo a pessoa para ambientes propícios a desvelar seus mistérios. Abre a porta do quarto sem se preocupar em acender a luz e simplesmente diz: agora sinta toda saudade guardada no peito, incontida na alma, revelada no teu coração que desespera por tanto esperar qualquer reencontro.
E no silêncio do quarto escuro, em meio a mais aflitiva das solidões, novamente faz surgir a sua silenciosa voz: agora reencontre na mente o que deseja, vá buscar no pensamento aquilo que lhe faz tanta falta, e não veja distância naquilo que pode ter agora ao teu lado. E vai fazendo com que a pessoa relembre a face do amor distante, traga ao pensamento os laços familiares que já estão em outra dimensão, relembre momentos e situações e tenha necessidade de ter tudo de volta, ao menos por alguns instantes. E não para por aí. Abre a janela para as cores do entardecer sejam avistadas, para que a poesia da noite recaia em versos, para que a chuva molhe o rosto e se misture às lágrimas. Depois de atormentar a alma, de afligir todo o ser, simplesmente vai embora.
Vai embora, a saudade vai embora, mas não sem antes deixar um rastro de agruras e sofrimentos. Sempre deixa para trás um lenço molhado, um olhar vazio, um coração fragilizado. Mas depois retorna. Espera somente o lenço enxugar para depois retornar.


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Lá no meu sertão...


Como um viver parado no tempo...



Na noite (Poesia)



Na noite


Na noite escura
sem brilho da lua
olho adiante
e vejo a rua nua
e o pensamento
contra mim atua
trazendo à mente
a saudade sua

minha saudade
é saudade tua
ponho-me a voar
e procurar a lua
caio em soluços
no meio da rua.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – sertão de noites molhadas



*Rangel Alves da Costa


Linda face a sertaneja. Nos beirais do anoitecer, o negrume relampeja. As nuvens abrindo seu véu, chuva caindo do céu. Casas de portas fechadas, janelas mais encostadas. Frio de aconchego e abraço, a palavra joga seu laço. Ruas quase desertas, as solidões descobertas. O chão encharcado de vida, ao homem a promessa cumprida. As luzes brilhando no asfalto, réstias do alto, chuva caindo sem sobressalto. Por todo sertão assim, uma alegria sem fim. A mão que conta o rosário, no sertanejo um fadário. Agradecer ao sagrado pelo sertão molhado, pela vida renascida, pelo homem e pelo gado.


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quinta-feira, 18 de julho de 2019

FLOR DE PLÁSTICO



*Rangel Alves da Costa


Quando estou com saudade eu me lembro da flor. Quando quero beijar eu me lembro da flor. Quando quero abraçar eu lembro a flor. Quando quero amar não tenho a flor. A flor vive no pensamento, mas nunca está comigo.
Imagino a flor viçosa, colorida e perfumada, ainda que no jardim de um coração desfolhado e sem cor. Quem dera tê-la mesmo entre espinhos e ferroadas de abelhas famintas. Mas não tenho a flor.
Quem dera ao menos a flor do mandacaru, que brota, encanta, apaixona, mas na manhã seguinte só lhe resta as cinzas de flor. Mas não tenho esta flor e nenhuma outra flor. Dói imaginar quanto efêmera é a vida e, nos seus instantes de viver, outra coisa procurar senão o amor.
Quem dera ter uma flor do campo, uma florzinha miúda de beiral de estrada, tão pequenina e tão encantadora que o sentimento logo desperte ante a sua beleza. E tocá-la com as mãos, acariciá-la, beijar e seguir adiante sentindo saudades. E querer voltar. Também não tenho esta flor.
Quem dera ter uma flor escondida nas distâncias do mato, quase oculta pelas folhagens, mas de tamanha beleza que o seu encontro se pareça mais com aquele amor desejado e somente na luta encontrado. Também não tenho esta flor.
E na loucura da vida vã, no desespero de querer algo que me alegre os olhos e o coração, eis que me vi adiante de uma flor de plástico, ou uma imagem já quase sem cor e empoeirada sobre a mesa. Não tinha outra flor.
Só tenha esta flor, a flor de plástico na solidão de um jarro. Eu queria a rosa vermelha, eu queria a rosa mais bela, eu queria um jardim de rosas, para numa só flor dizer e mostrar todo o meu amor. Mas diante de minha solidão apenas a flor de plástico. O que fazer, então? Limpar, lavar, cuidar da flor de plástico.
Novamente colocada no jarro sobre a mesa, então sentar na cadeira de balanço na sala escurecida e ficar dizendo a mim mesmo, enquanto meus olhos a ela voltam: A gente ama o que está perto e não se esconde, não foge da gente. A gente ama o que pode ser alcançado pelos olhos e o coração. A gente ama o que pode beijar e tocar com as mãos. A gente não ama a flor por ser flor, mas a gente ama a flor por nos despertar o amor, ainda que seja de plástico.
A gente ama a flor de plástico e a flor do jardim. Mas se a flor verdadeira vá se tornando apenas uma ilusão perante o desejo de tê-la sempre ao lado, então não há como renegar o amor que se mostre fiel e leal, afetuoso e meigo, presente na flor de plástico.
E é a flor que tenho. A flor de plástico é a flor que tenho aqui, aqui juntinho de mim. A flor que me olha e me lança uma aura de confiança e paz.  E por isso que amo a flor de plástico.


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Lá no meu sertão...


Felipe, Rei do Xaxado de Poço Redondo, sertão sergipano



Manhã de sol (Poesia)



Manhã de sol

                                               
Manhã de sol
janela aberta
jardim em flor
entre flores e frutos
os colibris passeiam
as borboletas voam
as abelhas dançam
e as pétalas vicejam
a beleza da paz

então pulo a janela
e também vou voar
vou ser passarinho
no jardim do arrebol
na manhã de sol.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - a Bíblia e os exageros aos olhos modernos



*Rangel Alves da Costa


A Bíblia contém verdadeiros exageros aos olhos modernos. Com efeito, alguns preceitos soam como impraticáveis, inobserváveis, impossíveis de serem considerados como algo que realmente possa ser acolhido. Assim manda oferecer a outra face para ser igualmente atingida, desfazer-se dos bens para ajudar o próximo, silenciar perante as injúrias e abominações, perdoar todo mal e toda pessoa maldosa, dentre outros aspectos. Muito disso é justificado como simbólico pela Igreja, afirmando que a leitura mais aprofundada leva a outro conhecimento das exigências. Mas assim está escrito e é pela escrita que se conhece. Ademais, determinados costumes citados na Bíblia, e muitos destes tidos como prova de fé e de comunhão, são tidos como absurdos no mundo moderno. Há uma passagem onde o pai, pela fé, só não matou o filho porque um anjo impediu. Há cordeiros e outros animais constantemente sendo imolados perante os altares, e para o agrado de Deus. Em muitas passagens, o sangue jorra em nome dos sacrifícios. Assim, perante a lei moderna, muito do contido na Bíblia se consubstanciaria como ação criminosa. A verdade é que, forçosamente, muito do livro sagrado foi revogado em nome dos novos costumes e das novas exigências de convívio. Será preciso, pois, depurar seus ensinamentos e acolhê-los segundo a crença e a fé arraigadas em cada pessoa. É esta que faz sua própria lei, moral e de conduta, ajustando-a ao que a Bíblia ensina e diz.


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quarta-feira, 17 de julho de 2019

PALAVRAS E PENSAMENTOS



*Rangel Alves da Costa


Não acendi a lamparina do sol nem dei luz ao candeeiro da lua. A única coisa que fiz foi não deixar que as chamas se apagassem em mim.
Não coloquei água na nuvem nem abro a torneira para a chuva cair. A única coisa que fiz foi ter a perseverança de semear até a chegada dos pingos.
Não pintei de amarelo o entardecer nem de avermelhado o por do sol. A única coisa que fiz foi não deixar que as tintas se derramassem senão no meu olhar.
Não Tirei o frio do congelador nem o calor de dentro do forno abrasado. A única coisa que fiz foi deixar que tudo acontecesse perante os ditames da natureza.
Não escrevi versos em flor para um amor nem teci estrofes de dor para um desamor. A única coisa que fiz repassar para o papel o meu instante de alegria ou de sofrimento.
Não achei a cor azul mais bonita nem a cor vermelha a mais bela. A única coisa que eu disse é que todas as cores do mundo deveriam ter os matizes do arco-íris.
Não disse que gosto de café bem quentinho ou que prefiro o café já refrescado na xícara. A única coisa que eu disse é que tenho de ter um cigarro para fumar depois.
Não silenciei na hora nem gritei naquele instante. A única coisa que fiz foi olhar e não acreditar no que via.
Não falei que prefiro milho cozido a milho assado. A única coisa que fiz foi sentar no tamborete e ficar esperando qualquer espiga de milho, que fosse assada ou cozida.
Não fui por que o caminho é sem curvas ou por que a estrada era em linha reta. A única coisa que fiz foi me encorajar para seguir por qualquer percurso, sem nada temer, na força da fé.
Não fiquei enamorado por que o beijo dela era doce ou por que o seu abraço era caloroso e apertado. A única coisa que fiz foi ouvir sua palavra, e por isso enamorei.
Não aceitei um Deus da igreja nem um Deus de outros cultos. A única coisa que fiz foi aceitar um Deus no qual acredito existir e que possui templo sagrado em meu coração.
Não disse que sempre prefiro o sim e sempre ignoro o não. A única coisa que fiz foi ouvir novamente a pergunta para responder sem medo de errar.
Não disse que prefiro mulher nua à mulher vestida de longo. A única coisa que fiz foi dizer que não precisa estar nua ou vestida para ser bela pelo próprio jeito de ser.
Não imaginei que a cultura diferenciava os povos ou que o modo de viver de cada povo pudesse ser afetado pela própria cultura. A única coisa que fiz foi dizer que respeito toda cultura e todo povo.
Não afirmei que a moça à janela deveria levar um lenço à mão ou que suas lágrimas deveriam molhar sua face. A única coisa que fiz foi dizer que cada deve navegar no rio de suas lágrimas.
Não disse que o certo estava certo e o errado estava errado. A única coisa que fiz foi afirmar que o certo e o errado dependem daquele que quer comprovar sua razão.
Não afirmei que durmo por que estou cansado ou por que estou com sono. A única coisa que fiz foi dizer que durmo apenas para sonhar.


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Lá no meu sertão...


Nas ribeiras de Curralinho...





Amor: interrogação (Poesia)



Amor: interrogação

                                               
Amor...
amor...
o que é mesmo
o que é o amor?

para o sábio
o coração em fruição

para o poeta
a vida sendo vivida

para o amante
uma devoção que é paixão

a mim
um desconhecido, apenas...

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - redemoinhos



*Rangel Alves da Costa


Por mais sólidas que sejam as estruturas, por mais que sejam impenetráveis os portões e as portas, por mais que seja impossível alcançar os interiores e dependências, nada disso impede que os redemoinhos da existência a tudo destruam. Ora, tudo não passa de casa de vidro. Casa de papel manteiga, casa de asas de borboleta. O ser humano, a pessoa humana, não passa de uma casa de vento. Sim, é cálice frágil, é asa de borboleta, é folha de outono, é uma poeira ao espaço, mas principalmente é vento. E vento este cuja força sempre está na dependência e predisposição da força humana. Quanto maior a fragilidade na pessoa maior será o poder de transformação do vento em ventania, em vendaval, em redemoinho. Enquanto casa de vento, o ser humano pode abrir suas portas sem que sinta ameaçado por redemoinhos. Não há fúria de vento que não passe além e deixe intacto aquele que se reforçou intimamente de tal modo que jamais estará de corpo aberto para os acasos. Mesmo casa de vento, a pessoa estará imune aos vendavais toda vez que se encontrar mais preparado que a fúria mais repentina. Mas preciso será que o ser humano seja mais forte que o vento. Mas o que geralmente se tem é que uma simples brisa, um sopro de nada, já transforma tudo em folha seca, levando ao longe, ao além...


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terça-feira, 16 de julho de 2019

O VELHO AMIGO ZEQUIAS E SUAS VERDADES EM PALAVRAS TRONCHAS



*Rangel Alves da Costa


É. De vez em quando bate uma saudade danada. A gente que sempre tá juntinho pra um dedo de prosa, mas não tem jeito. O que resta é somente a saudade.
Velho amigo, amigo velho, bom dia, boa tarde, boa noite. Não sei se agora debaixo de lua ou de sol, mas sei que diante da face de Deus sertanejo.
Desde muito que o tamarineiro não ouve nosso proseado ao entardecer. Debaixo daquele sombreado e nossa voz matuta falando da vida e da sina, do tempo e do destino, dizendo sobre a planta e o bicho.
Nosso amigo Zequias enviou-me missiva outro dia. Cartinha rabiscada por algum parente, certamente, vez que nosso bom homem só aprendeu a ler no livro do tempo e escrever por cima da terra. Mas não há ninguém mais culto por todo o sertão. Um verdadeiro mestre no ofício da sobrevivência.
Fiquei muito triste com o que relatou, e por isso mesmo preciso que me confirme o tamanho da dor retratada. E quem dera apenas uma dor de passagem, assim como um espinho na sola do pé, mas um sofrimento duradouro e difícil de ser combatido. Eis, amigo, que a dor descrita se espalha e aflige o sertão inteiro.
Queria não acreditar no amigo Zequias, mas impossível diante da lucidez de suas palavras tronchas. Acaso seja mesmo verdade o que descreve, então o nosso sertão parece estar com os dias contados, bem perto do fim.
Mas não imagine que o sertão irá sumir debaixo do chão, mas é outra terra que vai acabar encobrindo o nosso rincão. E de tudo aquilo que desde muito aprendemos a amar e cativar, muito pouco restará como sombras da pujança de um dia, de nossas raízes e nossos antepassados.
Acredito no Zequias, mesmo me estraçalhando por dentro não posso deixar de acreditar. Mas parece coisa do outro mundo. Faz pouco tempo que peguei a estrada e tudo por aí já parece transformado em outro mundo. Pelo que disse, só mesmo a lua e o sol sertanejo continuam vindo e voltando como antigamente, sendo no dia a dia o que sempre foram. Mas o resto.
Dói-me acreditar, velho amigo, que até o autêntico matuto, o verdadeiro caboclo sertanejo, está se deixando conduzir pela modernidade. Disso ninguém foge, sei bem disso, mas também não se deve renegar sua condição nem relegar ao esquecimento a cultura sertaneja, sua história e suas tradições.
Fiquei sabendo que quase ninguém mais se dá o trabalho de ir buscar o animal no cercado, colocar sela e fazer montaria. Cavalo, burro, jegue e jumento estão sendo praticamente abandonados quando se trata de pegar estrada e ir de canto a outro. Não se ouve mais relincho pelas veredas, não se descansa mais debaixo de umbuzeiro, pois tudo agora no lombo da motocicleta.
Zequias me disse tudo, e coisas realmente de espantar. Disse que por aí tem gente que tange vaca em cima da moto, que entra na mataria montado na máquina e que sequer se lembra de matar a fome e a sede do jumentinho esquecido nos descampados do mundo. Mas não pode faltar de jeito nenhum a comida gordurosa da motocicleta.
Então, velho amigo, então eu fico aqui me perguntando se não chegará o dia de vaquejada sem cavalo, de pega de boi sem cavalo, de corrida de mourão sem o animal. E seria a visão mais triste avistar uma cavalhada sem aqueles cavalos enfeitados e os honrados cavalheiros empunhando suas lanças com majestade indescritível.
Zequias falou-me de tudo, ou quase tudo. Relatou-me que o sertão está cada vez mais quente e os riachinhos cada vez mais secos. E também que quase não há mais mataria, não se avista mais aquelas árvores portentosas se sobressaindo ao lado das catingueiras e tufos espinhentos.
Segundo ele, nem ao amanhecer nem ao entardecer se ouve mais um só canto passarinheiro. Sumiram as rolinhas fogo-pagô, os canários, os cabeças, os azulões, os coleirinhos, as sabiás. Ninguém avista mais uma seriema, uma nambu ou codorna. Até o preá, que é bicho mais da terra que qualquer outro, sumiu de vez daquele chão.
Também pudera amigo, não poderia ser diferente. Onde não há mato não pode haver bicho, onde não há planta na beira de riacho não há como a água se segurar, onde só há devastação tudo dizimado estará.
A verdade, amigo, é que passarinho precisa da copa das árvores para fazer seu ninho, precisa de galhagens para pousar depois do voo, precisa das flores para se alimentar. E como pode sobreviver num lugar que praticamente virou deserto? O mesmo se diga com os outros bichos que precisam dos tufos de mato, da fonte para matar a sede, da natureza para sobreviver.
Zequias me disse muito mais, mas vou ficando por aqui. Quem dera chegar por aí e ainda poder ouvir um aboio, uma toada dolente, uma cantoria matuta. Sei que o fole silencia mais que abre o berreiro e também que quase não há mais salão de arrasta-pé. E os pífanos de noites de leilão emudeceram de vez. Tudo de fazer chorar.
Falei demais, não sei, porém falaria muito mais se essa saudade no meu peito não chuvarasse nos olhos. E agora choro, uma tempestade. Ainda assim sinto no rosto o sol em chamas do meu sertão. Mas qualquer dia ainda terei sua lua.


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Lá no meu sertão...


São Francisco de Curralinho





Porta aberta (Poesia)



Porta aberta

                                               
Somos agora
a folha seca
e o pó de areia
e nada mais
que fuligem
e grão de poeira
de tudo aquilo
que fomos tanto
e não somos mais

somos agora
o que já passou
o que não existia
e o que na ilusão
ainda restou
o vento levou.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - difíceis escolhas



*Rangel Alves da Costa


Não sei nem o dia nem a hora que vou partir, mas partirei. Oh triste sina de nascer para um adeus. Por isso mesmo acredito que a vida é uma ilusão desmerecida ao ser humano. Este deveria ao menos não ser surpreendido pelo destino fatal. Mas assim mesmo. Não deixarei testamento nem escrito sobre o que desejo que façam comigo após o último fechar de olhos. Mas quero ser velado apenas pelo silêncio e pela solidão. Ora, foram fiéis companheiros no percurso da existência. Em ambiente escurecido, com a porta sempre aberta para o vento soprar, apenas uma vela acesa num canto qualquer. Não quero flores, não quero lágrimas, não quero palavras mentirosas. Ele foi bom, ele foi isso, ele foi aquilo. Que se esqueçam de tudo, do que fui e do que deixei de ser. E acaso uma ventania me leve ao abrigo final, que a mesma ventania faça uma cruz de pedaço rústico de pau, onde a mão do tempo deixará a verdade em epitáfio: e agora na eternidade do silêncio e da solidão...


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segunda-feira, 15 de julho de 2019

ASSIM ACONTECE



*Rangel Alves da Costa


Não há beleza maior que o voo da borboleta e o seu bater de asas. Mas muito cuidado com o voo da borboleta e o seu bater de asas.
O simples bater de asas de uma borboleta pode interferir no curso normal das coisas. As asas batendo movimentam o ar. O ar expande-se em crescente. O resultado final pode ser catastrófico.
No ser humano, as asas da borboleta estão nos pequenos gestos, nas palavras ligeiras, nas atitudes impensadas. Age-se como se nenhuma consequência houvesse, mas depois se tem o contrário.
As asas das palavras esvoaçam sem a real percepção de seu poder. Tudo parece normal a quem pronuncia, mas de consequência alarmante para quem é dirigida. A palavra pode chegar como navalha, como ponta afiada, como ferro em brasa.
Um simples olhar é um bater descomunal de asas de borboleta. Tantas vezes o olhar diz mais que mil palavras. A repreensão ou a aceitação se lançam do olhar e vão ter reflexos imediatos na outra pessoa.
Um aceno, um simples aceno, quanto efeito há num gesto assim. Aceno de adeus que provoca tristeza e melancia. Aceno distante que objetiva mostrar o reconhecimento e a saudade. O aceno ao não existente. De repente acena-se pelo desejo da presença.
Similar às asas da borboleta é a consequência do pingo d’água que cai. E muito mais quando é pingo após pingo. Quando caído na água, o pingo adentra no espelho d’água com força maior que o imaginado.
O impacto do pingo na água, de imediato provoca uma pequena onda. Mas esta inocente onda pode se expandir de tal modo e chegar até à margem como verdadeiro tsunami. De um leve impacto, a formação de uma turbulência devastadora.
Tudo é assim, sempre se expandindo do nada. Um simples olhar e mais um amor surgido. Um bater à porta e uma notícia para fazer sorrir ou chorar. O grão brotando de modo despercebido. E depois a flor, o fruto...
Muitas vezes, a lua lá em cima é como se uma tempestade surgisse lá embaixo. Lua que faz o insano enlouquecer ainda mais. Lua que faz apaixonar e chorar de saudade. Lua que açula as marés e muda o curso de muita coisa sobre a terra.
O vento que sopra e traz a folha seca. A folha seca que cai sobre um umbral de janela. A janela que sempre espera a bela mocinha ao entardecer. Entardecer que vai se transformar em poesia, alegria ou sofrimento, assim que a bela mocinha encontrar a folha seca.
E assim tudo vai acontecendo. Não é preciso que as coisas aconteçam de modo espantoso, real demais, visível demais. As coisas mais importantes e surpreendentes vão surgindo ao acaso.
Assim como o silêncio que silencia e grita.


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Lá no meu sertão...


Chuva no sertão...



Dói (Poesia)



Dói


Dói demais
viver correndo atrás da felicidade
e tudo à frente estar bem atrás
num retrovisor chamado saudade

e a felicidade
naquela feição de beijos e abraços
em cada encontro ao final da tarde
dois apaixonados em enlaçados laços

e o que se tem agora
é uma estrada de jardim sem flores
um retrato no bolso que sozinho chora
a dor de um passado e os seus amores

dói demais
querer demais a felicidade
e de ser feliz se sentir incapaz
pois o que restou foi somente saudade

dói demais
caminhar distante da felicidade
e olhar pra trás e não avistar mais
o amor que causa tamanha saudade.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - negação do amor



*Rangel Alves da Costa


Amar, estar com alguém, ou a solidão, o que você prefere? A imensa maioria das respostas seria no sentido de ter a relação amorosa como preferência. Alguns ficarão em dúvida. Outros, como tomados de um ateísmo amoroso, simplesmente dirão que a solidão é bem melhor. As justificativas seriam muitas, principalmente pelos adeptos do amor, do amar, do estar com alguém. Sim, o amor é bom, faz engradecer, anima e motiva o ser humano, faz com que ele se sinta compartilhado e compartilhando. Já outros afirmarão que o amor é bom, mas nem tanto. E assim porque faz sofrer, faz doer, machuca de vez em quando. Já eu, este escrevinhador, pessoal afirmo, refirmo, grito e brado: o ateísmo amoroso é tão essencial como a liberdade do indivíduo. O amor a dois deve ser negado porque apenas raramente existe. De uma centena de situações, quase a totalidade apenas finge amar, apenas ama por circunstância, apenas diz amar. Que amor é esse que a traição é tida como brincadeira? Que amor é esse onde a banalidade se torna mais forte que a compreensão? Que amor é esse que só chama ao sexo e jamais à palavra, ao diálogo, ao verdadeiro convívio? Que amor é esse que tanto faz como tanto fez que um vire a esquina e não volte mais? Que amor é esse que não respeita o outro, que não preza prelo outro, que nada faz para alimentar o que diz ser amado? Basta olha atrás e sentir como era o amor. Basta olhar ao redor para perceber o inexistente amor.


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domingo, 14 de julho de 2019

MUITA CHUVA



*Rangel Alves da Costa


O tempo quente e abafado, o clima seco, o céu aberto de azuladas nuvens, o sol sempre chegando forte e se espalhando pelos quadrantes, tudo isso, segundo a meteorologia, prenuncia uma mudança intensa climática. E logo – e sempre – apareceu Overland Amaral, o homem do tempo sergipano, para dizer que não tardaria a ter muita chuvarada desde o beiral da praia à mais distante fronteira. Com efeito, tudo foi se confirmando à medida que o tempo nublado foi chegando e trazendo consigo meio mundo de molhação. Alegria ao sertanejo, mas também muitos problemas.
Muita chuva, muita água caindo por todo lugar. Desde o litoral ao sertão, o que se teve nos últimos dias foi um verdadeiro abrir de torneiras sem fim. As nuvens prenhes, gordas, muitas, deixaram-se derramar de forma intensa e continuada. Por consequência, as precipitações chuvosas acima da normalidade para o período, causando enxurradas e alagamentos, inundações e desabamentos, além de outros problemas que o outro e os administradores nunca estão preparados para enfrentar.
Não só em Sergipe como em outros estados nordestinos, conforme as notícias repassadas a todo instante, as águas também caíram fortes e muitas. Ao lado do sertão sergipano, na região baiana de Pedro Alexandre e Coronel João Sá, as chuvaradas foram tão fortes que uma barragem transbordou e deixou a povoação em pânico, com vias completamente alagadas, famílias desabrigadas e localidades até ilhadas. E após as chuvas e os transbordamentos, certamente que a volta à normalidade vai requerer muito esforço e sacrifício.
A capital sergipana, que nunca está preparada para receber duas cuias de água, logo parece em correnteza quando as nuvens derramam seus pingos. Áreas que sempre alagam e se tornam intransitáveis ante qualquer chuvarada, nas chuvas seguintes – e ano após ano – apresentam o mesmo problema, como se a gestão municipal achasse que basta que o sol saia e as águas escoem e tudo já estará resolvido. Em Aracaju nunca houve uma política séria para resolver os problemas das constantes inundações em pontos já reconhecidos como críticos.
E as águas muitas caídas fazem somente alertar para um problema desde muito existente. Os serviços de emergência, a exemplo da defesa civil, logo entram em prontidão, quando deveriam apenas fazer o monitoramento. Mas não, pois a cada chuvarada se prontificam a resolver um caos situações preexistentes de caos. Ademais, as mesmas ruas, as mesmas esquinas, os mesmos canais, e toda localidade onde já se saiba que não suporta aquelas duas cuias de água, novamente apresentarão os mesmos problemas. Será que imaginam que nunca vai chover, que nunca vai cair uma chuvarada mais forte?
De qualquer modo, é a população aracajuana que sempre tem de suportar tais incoerências de gestão. Será que custa mais de dois sacos de dinheiro realizar os devidos reparos ao menos naquelas localidades onde, a cada chuva mais forte, os problemas se repetem? Quando cessam as precipitações e o sol vai aparecendo, então as mãos do poder se elevam para agradecer pela saída da pedra quente de suas mãos. E daí parece imaginar que o sol é a solução para tudo. E que o sol vai desentupir bueiros, vai limpar as imundícies dos canais, vai acabar com o lixo que atravanca as boca-de-lobo e as tabulações da cidade.
Noutros recantos do estado, ainda que os mesmos problemas existam, as chuvaradas acabam se transformando em motivos de muito mais alegrias do que aborrecimentos. As roupas sempre molhadas nos varais são menos desgastantes que as ruas alagadas e águas tomando as dependências das casas. As pingueiras e goteiras são mais suportáveis que as ruas impedindo a passagem pelas águas acumuladas. As portas e janelas quase sempre fechadas são muito menos preocupantes os buracos que vão se acumulando e causando perigo aos veículos e transeuntes. Diferente do que geralmente ocorre na capital, as chuvaradas são sempre bem-vindas aos interioranos, principalmente aos sertanejos.
O sertanejo sempre sonha e sempre espera por chuva grande, alentada, que caia forte e constante, mesmo sabendo que a chuva mais compassada a que possui maior serventia terra e à plantação. O desejo de chuva forte vem pela necessidade de novamente ter os tanques e açudes cheios, os campos verdejantes, as esperanças sempre renovadas. Na mente de cada sertanejo, a cada pingo caído uma sensação boa de menos humilhação, menos sofrimento e muito mais certeza de comandar seu próprio destino. E diz a si mesmo que graças a Deus, e por muito tempo, não vai se ajoelhar perante o político atrás de água para matar a sede do bicho e de sua família.
Certamente uma festa ao coração a cada chuva caída. O coração sertanejo pulsa mais forte, seus olhos brilham de alegria, seus braços se elevam em agradecimentos. Com tanques e açudes transbordando, com riachos e rios tomados de água muita, com as plantas vicejando e a terra boa a tudo, então a vida se torna repleta de alegrias e felicidades. Ao menos durante o período chuvoso e até um pouco mais adiante, sempre outra feição de vida no difícil viver sertanejo.


Escritor
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