SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 26 de abril de 2017

NOSSAS PERFEITAS IMPERFEIÇÕES


*Rangel Alves da Costa


Parece que nossos espelhos pouco ou quase enxergam ou fingem enxergar. Nossos sentimentos ainda vivem nas ilusões de quem somos muito além do que realmente somos. A verdade é que vivemos de fingimentos, de hipocrisias, de irrealidades. Somos os disfarces ocultando as verdades, somos apenas as aparências daquilo que verdadeiramente não somos.
Somos tão imperfeitos que não reconhecemos nossas imperfeições. Insistimos em aceitar o que não somos simplesmente para satisfazer os egoísmos, as vaidades, as soberbas, as pessoais arrogâncias. Não queremos o que realmente somos por medo de que a humildade passe a ideia de humildade e o humanismo passe a aparentar fragilidade. E então, longe as sensibilidades, os humanismos, os afetos e as simplicidades.
Em nós, assim tão humanos, o corpo sendo renegado pelo brilho da roupa que o reveste. Em nós, assim tão racionais, a irracionalidade de agir perante as conveniências e a impetuosidade de ser aquilo que não nos cabe ser. Em nós, assim tão presumidamente inteligentes, as reincidências em erros, os fazeres contraditórios ao próprio desejo da alma, os impulsos perante tudo aquilo que exige comedimento. O que somos, então, senão as mais perfeitas imperfeições?
Somente o próprio reconhecimento das imperfeições é que nos tornam aproximados da perfeição. Apenas aproximados. O restante é tudo imperfeito em nós. Queremos sonhar com o impossível e sempre desejamos tudo o que seja impossibilidade. E o possível é relegado pela facilidade. Assim em tudo e em todos. Erram os sábios e erram os filósofos, erram o rei e a plebe. Não há ninguém na face da terra que sequer se aproxime da perfeição. Todos nós erramos, todos nós agimos erroneamente, todos nós apenas buscamos errar menos.
Diante disso algumas lições. Não posso criticar um erro no próximo em nome de uma perfeição que sequer possuo. Não posso dizer que o outro fez assim quando deveria agir de outro modo, se eu mesmo duvido do acerto naquilo que faço. Imaginam que escrevo bem, corretamente, mas ledo engano de quem pensar assim. Gramaticalmente, minha grafia é cheia de imperfeições. E por que eu posso criticar o modo como algumas pessoas escrevem aqui nas redes sociais ou nos seus cadernos?
Criticar gratuitamente jamais. Nem posso nem devo. Ora, se eu tenho formação de nível superior e ainda assim escrevo errado, então por que cobrar correção linguística e gramatical em muitos que sequer concluíram outros níveis de ensino? Ademais, língua é liberdade, é pássaro, é voo. Escrevam certo ou errado, mas escrevam aquilo que lhes vem como certo. Assim por que muito comum que determinadas pessoas façam da fala ou da escrita uma manifestação de superioridade, como se os iletrados ou analfabetos forem pessoas menores ou devessem ser desrespeitadas pelo seu nível cultural ou educacional.
Não posso nem devo caçoar nem da fala nem do jeito de falar de ninguém. Há que se respeitar também a cultura e o linguajar de cada um. Basta que passe a ideia e ela seja entendida de algum modo, então a mensagem já terá alcançado seu objetivo. Igualmente serve para o seu time de futebol, sua roupa, a canção que gosta de ouvir e o tipo de vida que gosta de levar. Há, repito, que respeitar as liberdades. E pelo simples fato de que absolutamente ninguém é perfeito. Do contrário também a vida não teria valia alguma, pois a cada passo ela está nos ensinando a ser menos imperfeitos. Daí o valor da humildade.
Ser humilde ajuda em muito moldar as imperfeições. Quem preza pela humildade não se fere tanto ao ter que meditar e reconhecer seus erros. Ser humilde é dialogar com a realidade de modo a não se afastar do mundo real. E neste mundo reconhecer aquela antiga verdade dizendo que nada mais somos que a arrogante pedra que vai se tornar pó. E como pó esvoaçar para o sempre até mesmo as perfeições.


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Lá no meu sertão...


QUE MARAVILHA! Nosso amigo e conterrâneo ALAN LEITE, que finca moradia em Sítios Novos, enfim vai publicar seu tão esperado livro. Trata-se do romance “Gonçalo”, onde o autor exara com fertilidade sua robusta criatividade literária. O lançamento será realizado na noite deste sábado 29/04, a partir das 19:30h, no Espaço Drinks, em Sítios Novos. Todo o Poço Redondo está convidado. A população precisa prestigiar aqueles que tanto se esforçam para mostrar ao mundo a arte literária sertaneja.





Menino do mato (Poesia)


Menino do mato


Era uma vez um menino
que sumiu
se perdeu
era eu
era eu

menino danado de mundo
foi pro mato
e adormeceu
era eu
era eu

foi caçar passarinho
mas então
desapareceu
era eu
era eu

mas se perder pelo mato
foi o que o menino
escolheu
e eu
e eu

longe do mundo tão feio
quem a natureza
aqueceu
foi eu
foi eu

viver uma vida assim
aquele menino
escolheu
e eu
e eu.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – manual do beijo na boca


*Rangel Alves da Costa


Não é todo mundo que sabe beijar, eis a verdade. Tem gente que não sabe sequer o que é beijo. Pessoas o confundem ora com mordida ora com sucção, ora com fingimento ora com arrancar pedaço da boca. Muitos ainda pensam que beijar é só tocar o lábio no outro e pronto. Ou ainda molhar o lábio de cuspe e depois secar na outra pele. Ou ainda colocar a língua pra fora, coisa de palmo e meio, e depois fazer como faz o tamanduá catando formigo em buraco fundo. Mas nada disso é beijo. Eu também não sei beijar, diferente do que ocorre com a boca que sempre beijo. E por não saber beijar e tanto querer aprender, é que um dia inventei de escrever um Manuel do Beijo e o mesmo dizia, dentre tantas outras coisas, assim: 1. Beijar é suave poesia, nunca se esqueça disso. 2. Beijar é a confissão silenciosa entre duas bocas, através dos lábios. 3. Beijar é sentir uma flor na outra boca e a pétala no seu lábio. 4. Beijar é tocar a flor e sentir o perfume e a maciez de sua pétala. 5. Beijar é pássaro, é voo, é horizonte distante e tão perto, tudo alcançado pelos sentidos da alma. 6. Beijar é leve voo pela maciez de um algodão doce e viagem que se faz pelo leito de uma mansa nuvem. 7. Beijar é o olho que lentamente se fecha porque já encontrou a luz no caminho. 8. Beijar é apenas tocar e suavemente roçar a pele jasmim em pele carmim. 9. E sentir que da nuvem branda respinga uma gota de orvalho. 10. E na umidez tão serena dois pássaros que alçam voo. E voam. E voam. E voam...

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terça-feira, 25 de abril de 2017

SERTÃO MOLHADO


*Rangel Alves da Costa


Desde cedinho da Sexta-Feira Santa (e mesmo dias antes) que passou a chover no sertão sergipano, principalmente na região onde as estiagens já se demoram pra mais de quatro anos. Não significa dizer que as chuvas caídas coloquem um fim na secura da terra, mas que as plantas logo verdejarão e as paisagens trocarão a roupagem cinzenta por um esverdeado esperançoso.
Ao menos na cidade de Poço Redondo e arredores mais próximos, as chuvas que caem servem apenas para molhar a terra e não para encher tanques, barragens e açudes. As chuvas sequer são constantes, geralmente apenas chuviscos, faltando uma assiduidade que faça lembrar os tempos de invernada. Tempos estes onde o sertanejo se vê diante da iminência da aragem e da plantação.
Mas desde mais de quatro anos que não se fala em invernada pelos sertões sergipanos. A seca prolongada já foi até lembrada como uma das maiores da história. Com efeito, os campos ficaram completamente devastados, os rebanhos sumiram na magreza, os esqueletos de animais se avolumaram pelas malhadas e pastos esturricados. Tanques sem gota d’água, cactos definhados, escassez e absoluta falta de comida tanto para o homem como para o bicho.
Numa situação tal, qualquer nuvem carregada é logo tida como esperançosa. A cada alvorecer o sertanejo se põe a olhar os horizontes e nestes as barras avermelhadas prenunciando um tempo bom. Mas nada de nuvem chegar. E a cada ano de sofrimento maior a desvalia de um povo inteiro. Dificilmente se viu uma situação de penúria tal como esta que vem sendo amargada pelo já empobrecido homem.
Verdade que passou o Dia de São José e não choveu. Costuma-se acreditar que chovendo nesse dia haverá certeza de mais chuvaradas mais adiante. Planta-se para a colheita no São João e para a festança ao redor das fogueiras. E quando não chove também o esmorecimento no homem ávido por sulcar a terra para lançar sua semente boa.
Contudo, após o Dia de São José começou a serenar com mais frequência, a chuviscar bem mais que em meses e até anos seguidos. De vez em quando uma chuva mais forte, porém localizada e sem afastar do sofrimento o bicho sedento. Chuvinha pouca e sem juntar qualquer meio palmo de água no tanque. Já ao entardecer e o barro já se formou novamente.
Nos últimos dias, entretanto, as torneiras de riba se abriram mais. Ao invés do sol escaldante e do calorão de ferver asfalto, as nuvens chegaram e nublaram tudo. O sertanejo que esperava chuva forte, de correr por cima da terra, encher tanque e fazer enxurrada, teve de se contentar com o pingar miúdo, fino, sem força de juntar água. Um alento, apenas.
A serventia da pouca chuva de agora é somente para molhar a terra e diminuir o calor. A água juntada vai logo embora pela secura que forma barro no fundo do poço. No conhecimento matuto, chuva para juntar água e plantar só serve aquela que desce em trovoada e depois permanece caindo com mais vagar. A chuva forte serve ao tanque, ao barreiro, ao açude, enquanto a mais fina serve para molhar a terra até sua fundura.
Mas o sertão vem aos poucos se molhando. E terra molhada é sinal de que não demora muito e a planta retoma seu viço e sua cor, que o pé de pau logo vai se encher de folhagem novamente, que as plantas rasteiras e os capins logo terão vida nova. Mesmo sem água juntada, a fome do gado será logo diminuída pelos brotos que surgirão por cima da terra renascida.
De qualquer modo, a chuva ou chuvisco que de repente cai é sempre uma benção ao sertanejo. Não demora muito e pelas estradas e veredas sertões adentro, onde tudo estava morto ou esturricado de sol, o que se terá adiante será uma colcha de cores muito diferentes daqueles que o sertanejo tem se acostumado a presenciar. Corre-se o risco de as nuvens prenhes sumirem e tudo definhar novamente, mas no presente a esperança maior.
Um novo olhar do sertanejo perante o seu mundo já é reconhecido de passo a passo. Muitos já não suportavam mais a dor pelo sofrimento do seu bicho de cria. Já não havia mais a aquém correr senão às forças do alto. E bastou que serenasse um dia e no outro os pingos já começassem a cair com mais força que toda esperança foi renovada. E não haverá festa maior se de repente os trovões e os relâmpagos anunciarem a chegada das trovoadas.
Ainda não será tempo de juntar farta comida para o bicho, mas não demora muito e o animal vai ser avistado de cabeça baixa catando seu pão. A graça divina chegada ao sertão molhado, com a esperança de que as torneiras de riba se abram de vez para que o homem se ajoelhe somente perante Deus para agradecer, e não perante qualquer político para implorar um pão, uma cuia d’água.


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Lá no meu sertão...


E pelo sertão, mão na mão, ao lado de minha Myllinha eu vou...




Lenços estendidos em varais (Poesia)


Lenços estendidos em varais


Lenços estendidos nos varais
gotas caídas em tantos ais
um tempo de tristezas sem iguais
amar assim é sofrer demais

quero amar e não sofrer assim
de reinícios já pertos do fim
flores mortas num triste jardim
anjo sem asas aqui dentro de mim

estendo os lenços nos varais
chorar assim já não suporto mais
que o vento torne o negro em lilás
em flores novas que a brisa traz.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – o amor além do amor


*Rangel Alves da Costa


Existe sim o amor além do amor. E além do amor o amor sempre será um amor com muito mais amor. O amor mais forte que o próprio amor, muito mais amor que todo amor que existe, pois um amor ilimitado pelo próprio amor. Um amor que não se contenta em ser apenas amor. Um amor que sempre quer mais do que o amor já deu, pois em horizontes outros onde possa ser encontrado. Um amor assim é um amor imenso, um amor intenso que vai além da imensidão, vez que é amor mas é também a vida daquele que ama e de quem é amado. Um amor muito mais que namoro, que relação, que qualquer união. Um amor além da mão apertando a mão, além do beijo, além do abraço e do corpo a posse, além da palavra que diz o que quer, muito além do amor reconhecido em todos. Um amor que é tão amor e muito mais que amor, pois amor de um vivendo para o outro, amor de um cuidando do outro, amor de um sendo o próprio outro. Um amor que sendo namorado é o melhor amigo, que sendo companheiro é o fiel confidente, que sendo esposo é o próprio escudo. Um amor onde a cama é para repousar e o sexo é para namorar, como dois corpos que apenas se comungam num amor maior que vai além do quarto. Um amor que enxuga a lágrima nos olhos do outro, que sente a mesma tristeza no outro sentida, que semeia flores no mesmo jardim e colhe seus buquês para o amor sem fim. E juntinho em abraço apertado nada precisa dizer, pois o outro sente o que o olho diz, o que o corpo expressa e o que é a paz.


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segunda-feira, 24 de abril de 2017

COMO ACENDER A LUA


*Rangel Alves da Costa


Sem o sol ainda é possível viver, mas sem a lua não, já disse o velho pensador. Já o sábio explanou em poucas palavras: sem a lua não haveria inspiração, e sem a inspiração apenas o homem na sua insensibilidade. O poeta faz da lua seu caderno e sua escrita.
Mas de repente a lua some. A lua daqui ou do Japão simplesmente desaparece, de Poço Redondo ou do Tibete. Não houve eclipse, não houve nenhum fenômeno que servisse de explicação. Os olhos ávidos se lançam aos céus, as pessoas catam suas fagulhas como se necessitassem de qualquer luz.
O menino chorou por que não pôde sair pra brincar. Estava tudo escuro demais. O noctívago entristeceu por que não sabe vagar sem ser debaixo da luz do luar. As janelas e as portas ficaram fechadas. Não havia cadeiras nas calçadas nem enamorados passeando de braços dados. A lua é tudo.
A lua é tudo mesmo. Lua dos amantes, lua dos solitários, lua dos loucos, lua dos lobos, lua dos apaixonados, lua dos poetas. Quando desce depois que o sol se foi, sua luz parece transmudar toda a feição do mundo. Não mais o calor do dia, mas a serenidade pulsante da noite.
Ora, se o mar fica tão entristecido quando numa noite apenas o farol não é aceso para iluminar suas vagas, que se imagine o mundo inteiro sem lua. Se os habitantes das matas ficam tão lamentosos quando os vaga-lumes deixam de piscar em determinados instantes, que se imagine a total ausência da luz do luar.
Os lobos só comprazem uivar nas montanhas se acima de sua solidão houver testemunho da lua. Os labirintos perdem a graça do medo na completa escuridão. Os humanos não podem se transformar em lobisomens sem a energia mutante daquela única claridade. Não tem qualquer sentido os espaços tomados apenas pelo negrume, pelo breu, pela escuridão.
Não tem graça a noite de lua nova. Nesta fase da lua, quase nada dela se avista, apenas com uma mínima porção visível. Entristecimento também quando ela se faz minguante e vai perdendo sua cor, sendo tomada de escuridão. Um céu sem a chama que tanto atrai e absorve.
Igualmente entristecedor quando a noite é de apenas de nuvens escurecidas no céu e a lua não encontra qualquer espaço para brilhar. Nos escondidos, apenas o desejo de sua luz. Nas noites chuvas então surge uma melancolia terrível. Além das saudades e nostalgias, a pergunta que sempre surge: cadê a lua?
Cadê a lua? Que situação mais terrível uma noite sem luar, um noturno sem a poesia daquele brilho, janelas sem mocinhas sonhadoras mirando o alto, frestas sem clarões, loucos sem ter por quem se apaixonar, horizontes sem aquela luminosidade de espírito e alma.
Cadê a lua? Eu quero a lua, diz o louco em cima da pedra, querendo voar, querendo ir buscar o seu brilho. Cadê a lua? Preciso do semblante iluminado do meu príncipe encantado, diz a mocinha entristecida pelo negrume. Nada o olhar avista além do que está adiante. Falta-lhe o norte enluarado.
Mas se a lua sumiu, então como acender a lua? Não será necessário fazer escada bem alta, de uma altura tão grande que alcance os espaços mais distantes. Não será necessário pedir auxílio ao faroleiro nem ao vivente do alto da montanha. Não será necessário enviar um foguete com palito de fósforo aceso na ponta. Não será preciso nada disso.
Basta perguntar ao cego como acender a lua. O cego sabe. E talvez somente o cego saiba como trazer luz, ânimo e vida, ao que de repente se apagou. E o cego sabe como acender a lua por que ele, vivendo na escuridão, acende a sua luz a todo distante que desejar.
A noite do cego é terrível, pois duradoura demais para um ser vivente. Não há luz elétrica, lanterna, lua, vaga-lume, candeeiro, nada que esteja ao seu alcance quando deseje sair dessa terrível noite. Mas encontra luz de maior claridade que muitas pessoas de olhos bem vivos.
Acende sua lua toda vez que faz de sua cegueira a luz que deseja ter. Ao imaginar que há outra cor além daquela escuridão no olhar, então avista luas, arco-íris, sóis, estrelas, belíssimas paisagens. Por isso que será preciso perguntar ao cego como acender a luz.
E o cego dirá: Estou vendo a lua. Encontre você mesmo a claridade que tanto deseja.


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Lá no meu sertão...


Caminhos sertanejos...





Tanto mel e tanto fel (Poesia)


Tanto mel e tanto fel


Tanto açúcar e tanto mel
ai como é doce amar...

tanto veneno e tanto fel
ai como amarga amar...

quero um pedaço de céu
insisto em querer amar

e deixo o veneno ao léu
para minha vida adoçar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – louco de saudade


*Rangel Alves da Costa


Ainda ontem eu estava na sua presença. Ainda ontem eu a toquei. Ainda ontem eu a acariciei. Ainda ontem a beijei. Ainda ontem a chamei de linda, de minha bela mulher, de meu amor. Ainda ontem tudo isso. Mas hoje já estou com saudade. Não uma saudade vã, qualquer, que chega e que passa. Não uma saudade de instantes, de fotografias de momentos, de memórias boas e cativantes. Mas louco de saudade. Louco de saudade mesmo. Bastou já estar alguns quilômetros distante, e é como se tudo estivesse longe demais e eu tanto precisasse de estar novamente ao seu lado. Preciso mesmo, quero mesmo, estar juntinho a ela, beijando, abraçando, amando, adorando-a como uma deusa maior de um coração imenso de felicidade. Mas estou aqui e ela noutro lugar. Também não importa se ela sinta a mesma saudade ou não, se ela sequer pense em mim. Importa mesmo é que a amo, amo muito, amo demais, e já estou louco de saudade. Talvez hoje à noite eu atire uma pedra na lua e ela caia junto à sua janela com a minha face de tanta saudade.

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domingo, 23 de abril de 2017

A BARRAGEM QUE NUNCA SECA


*Rangel Alves da Costa


Existem barragens, tanques e açudes, que nunca secam. Por estarem localizados em regiões chuvosas ou recebendo água de outros leitos, sempre são avistados cheios. Não há mudança climática ou estação que os faça esvaziar de formar barro no fundo. Situação muito diferente da ocorrida na região nordestina, principalmente no contexto sertanejo do polígono das secas.
Pelos sertões, o sempre costumeiro são as fontes com pouca água ou totalmente vazias, secas, na lama. Como as cheias dependem das chuvas, e estas nem sempre caem em quantidade suficiente para escorrer e juntar líquido nos açudes, tanques e barragens, a visão mais comum é da falta d’água por todo lugar. Falta d’água para o bicho, o homem, o peixe. Quando muito, apenas um restante lamacento que vai se tornando barro a cada dia de sol mais forte.
Sem que haja canalização diretamente dos rios ou dos serviços de abastecimento, é quase impossível que algum reservatório se mantenha cheio por muito tempo na região sertaneja. E causa estranheza – senão suspeita – toda vez que um tanque ou barragem seja sempre encontrado volumoso, com água garantida para os que dela dependam na sobrevivência. Então logo se diz que foi construído por cima de um minadouro ou que algum encanamento faça o trabalho das chuvas.
Contudo, desafiando toda a lógica do meio árido e geralmente seco, há uma barragem no sertão sergipano que sempre é avistada larga, grande, cheia, volumosa de canto a outro. Mesmo estando localizada na região mais seca do estado, onde as estiagens costumam durar três a quatro anos seguidos, e onde os demais reservatórios de água comumente são avistados em barro petrificado, ali a situação é espantosamente diferente. Para muitos leigos, talvez um mistério não revelado da natureza.
Localizada ao lado da povoação de Sítios Novos, no município de Poço Redondo, distante cerca de quinze quilômetros da sede municipal, a barragem é conhecida por jamais secar, mesmo nos períodos mais secos na região. Ano após ano, mesmo que tudo ao redor esteja cinzento e esturricado, que não reste mais nenhum pingo d’água nos reservatórios sertanejos, ali nunca se modifica: água em abundância, profunda, para o banho e para a coleta, para a criação de peixes e até para servir como lar de graças brancas e outros avoantes que por ali costumam ser avistados.
Em meio à sequidão sertaneja, ao barro rachado no fundo dos tanques, encontrar uma barragem que nunca seca é algo realmente espantoso. Ao indagar sobre as possíveis causas dessa permanência de águas, as explicações são as mais diversas e contrastantes possíveis, mas nenhuma que diga que aquelas águas são realmente de chuva, ou das chuvas passadas que ali acumularam em grande quantidade.
Ora, se fosse pelas chuvas passadas, logicamente que os demais reservatórios da região se manteriam do mesmo jeito, mesmo que alguns tanques e barragens possuam menor possibilidade de sustentação das águas acumuladas. Mas enquanto as outras já se tornaram de barro nos fundos, aquela barragem continuam sempre pujante, viva, cheia. Uns dizem que é por causa das águas que escorrem das residências e ali ficam depositadas. Outros dizem que ela surgiu por cima de um minadouro que nunca deixa de verter. Já outros dizem apenas ser um mistério inexplicável.
A verdade é que a barragem continua cheia mesmo no atual período de seca grande e duradoura. Quem passa pela rodovia ao lado, não raro pode avistar atém mesmo carros-pipa fazendo coleta de água. E também as garças brancas por cima das pedras grandes ao meio. E dentre os mistérios há ainda um que de vez em quando é relembrado. E este diz respeito a um monstro que é avistado emergindo das águas no breu da noite ou mesmo debaixo da lua grande. Assim como um monstro no Lago Ness sertanejo.
Como ali é residência desse monstro, então a barragem nunca pode secar. Por isso mesmo que toda noite seres encantados trazem torneiras enormes para despejar mais água. Mais e mais, de modo que nunca seque e deixe o monstro à mostra ou correndo risco de morte. As lendas, contudo, não desmitificam a verdade: a barragem continua cheia perante os olhos de todos. Tudo seco e rachado pelo sertão. Mas ela continua cheia.


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Lá no meu sertão...


Em Poço Redondo, sertão sergipano, no Memorial Alcino Alves Costa.






A lua, as estrelas e o meu amor (Poesia)


A lua, as estrelas e o meu amor


Não quero a lua
não quero estrelas
queria apenas
o meu amor

o meu amor
ilumina a noite
faz brilhar o céu
é lua e estrelas

e se não vem
o meu amor
toda lua é noite
toda estrela apaga.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – ama-me


*Rangel Alves da Costa


Ama-me... e abro a janela e sou feliz logo ao amanhecer. Ama-me... e sorrio para a árvore, para o pássaro, para a ventania, para o cão esquelético. Ama-me... e beijo a brisa e beijo o vento. Ama-me... e canto a canção antiga, a nova canção, qualquer canção. Ama-me... e já não entristeço, já não choro, não lacrimejo, não maldigo a vida. Ama-me... e já terei a palavra, já terei a atenção, já serei um amigo, de braço estendido estarei. Ama-me... e meus olhos brilham, meu semblante prazerosamente enrubesce, minha vida é outro viver. Ama-me... e já não sou aquele de janela fechada, de porta fechada, deitado em lençóis, caminhando sozinho, cabisbaixo e inerte. Ama-me... e serei criança, menino malino, infante brincalhão, traquina de esquina. Ama-me... preciso que me ame. Nada na vida traz tanto prazer, tanta felicidade, tanto contentamento. Ama-me. Abraça-me. Beija-me. Tenha-me. Nada sou sem o teu amor. Ama-me... não sou nada sem o teu amor, nada sou sem esse amar tão em necessário em mim. Ama-me... por que o a noite cai, a lua vem, a canção chama ao afago. Ama-me... por e com todo amor, ama-me. E para o sempre: ama-me!

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sábado, 22 de abril de 2017

PARENTES DE SANGUE


*Rangel Alves da Costa


Parente matando parente, sobrinho matando tio, irmão levantando arma pra irmão, famílias em pé de guerra. Então, se indaga: Mas não são parentes, não só todos de uma só família, ainda que de troncos diferenciados e até distantes, e por que agem assim como cobras ruins, como inimigos ferozes, com um matando ou mandando matar o outro? Muitas respostas, mas sempre emerge em primeiro a estranheza de por que assim acontecer e de forma tão medonha e violenta.
Numa das respostas, tem-se que tudo está no sangue. Os ódios, as violências, as brutalidades, a cegueiras, a voracidade, tudo está no sangue. Sangue ruim, queimado, venenoso, que não pode sentir faísca que incendeia. Noutra resposta, pode-se afirmar que tudo está no temperamento brutal que está além do sangue e vai se firmando como comportamento odioso, selvagem, impetuoso. Contudo, nenhuma resposta seria satisfatória para o fato de a brutalidade e a violência serem praticadas entre os próprios parentes, com um matando ou querer matar o outro.
Acaso fosse o sangue fervendo instintivamente, de forma hereditária, a propensão à violência seria contra qualquer um, fosse com parentesco ou não. Acaso fosse o temperamento igualmente flamejante, de modo a formar um caráter bestial, a violência seria também contra qualquer um. Contudo, o que se trata aqui é da propensão de parentes se destruírem uns aos outros como numa guerra sem fim e contra inimigos que gestaram no sangue os mesmos motivos: o ódio.
A verdade é que a consanguinidade gera um parentesco de sangue. Parente consanguíneo, pois, diz respeito a pessoas ligadas pelo vínculo hereditário, de sangue. Quer dizer, pelo vínculo biológico que dá origem ao parentesco natural, gerando troncos familiares comuns e descendências, desde as primeiras raízes.
O parentesco é, assim, a relação existente que se forma entre pessoas não só da mesma raiz familiar como daquelas passam a fazer parte das famílias, como os esposos e as esposas, e por aí vai. Presume-se, neste vínculo, uma relação de amizade, de afetividade, companheirismo, principalmente considerando-se que juntos e unidos fortalecem o clã familiar. Mas nem sempre assim acontece.
Afirmou-se acima que é o ódio gestado entre parentes que leva a rios de sangue a partir do próprio sangue familiar. Mas por que tanto ódio é criado entre os parentes, de modo que vivam se engalfinhando, tocaiando um ao outro, emboscando um ao outro, matando ou mandando derrubar aquele de próprio sobrenome, tronco ou raiz familiar? Ou indagando de outro modo: Por que as aversões e as animosidades se tornam tão ferrenhas entre aqueles que deveriam permanecer sempre unidos e prontos para o enfrentamento de possíveis inimigos externos?
As desavenças por terras são as mais costumeiras entre os integrantes das próprias famílias. Situações como ciúmes, heranças mal resolvidas, partilhas desacertadas, espertezas entre parentes, tudo isso pode se tornar em fagulha e braseiro. Irmãos acusam irmãos de fazer a cerca além do limite certo, parentes acusam parentes de transferir para o outro lado ou dar sumiço em cabeças de gado, familiares se acusam mutuamente de estarem praticando esbulhos, ameaças e roubalheiras. Tudo isso é como graveto perto do fogo. Não demora muito e a bala começa a zunir, a comer no centro.
As inimizades políticas também geram brigas que parecem intermináveis. Quando familiares se desapartam e vão formando clãs poderosos, com núcleos como se fossem únicos e sobrepondo-se aos demais, então o vespeiro começa a se formar. Quer dizer, dentro de uma mesma matriz familiar, diversos núcleos de poder vão sendo gerados pelo próprio poder do latifúndio, do dinheiro, da política. E como todos querem ser os mais respeitados, mais importantes e poderosos, o que se tem então é uma guerra formada entre os parentes. E quando um acaba afrontando ou confrontando o outro, então todos começam a pegar em armas para as vinditas de sangue. Em tal contexto, muito utilizada é a figura do matador de aluguel para agir em nome de poderoso mandante.
Contudo, as famílias não precisam ser nem ricas nem poderosas para viverem em permanente estado de guerra. Os ódios e as intrigas não exigem condição social ou qualquer tipo de poder. Basta que um parente ataque o outro e então os partidos começam a ser tomados e as trincheiras guarnecidas de lado a lado. E não há muita escolha nessa guerra, pois cada um parente pode pagar pelo outro. Tudo vai gerando uma violência tão cega que ao invés de um sobrinho chegar para dar a benção a um tio, o que lhe estende é a arma já cuspindo fogo. E quando as vinganças começam, então é de nunca parar. Assim é que vinganças antigas ainda hoje continuam fazendo vítimas.
Assim os parentes e os parentescos de sangue. É muito mais fácil um estranho sair com vida em meio a essa guerra do que um parente quando marcado para morrer pelo outro. E nada antigo não, nada dos tempos das barbáries coronelistas não. Ainda hoje continua assim. Por trás de potentes raízes e troncos familiares há um filete de sangue que não para de escorrer.


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Lá no meu sertão...


Quando Deus sertanejo acende velas no céu!





Da infinita riqueza (Poesia)



Da infinita riqueza


Quero tudo
tudo todo
todo tudo
do muito
tão pouco
agora

de tudo
o grão
do grão
o pó
do pó
a réstia
o resto
muito
do quase
nada

apenas
a vida
viver
apenas.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – sem perdão


*Rangel Alves da Costa


Situações acontecem que se tornam difíceis demais perdoar. Logicamente que o perdão comprova a propensão humana ao diálogo, ao reconhecimento do erro e o afastamento de rancores e mágoas. Contudo, muitas vezes perdoa-se um insulto maior a um acontecimento até mesmo irrelevante para muitos. Tantas vezes, uma palavra fere muito mais que um bofetão. Uma mentira provoca um dano maior que qualquer outra situação. A ingratidão também causa um dano irreparável. Muito se releva na vida, muito se deixa pra lá, muito se faz de conta que nem aconteceu. Mas difícil demais perdoar a mentira de quem tanto acredita, a falsidade de quem tanto confia, o escárnio de quem nunca teve nada negado. É por essas e outras que de repente a terra parece se abrir aos pés. Duvida, não quer acreditar, tudo faz para confirmar outra verdade. Mas quando se confirma e a dor se alastra onde existia amizade, amor e comunhão, então não há como perdoar. Então não há mais perdão.

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sexta-feira, 21 de abril de 2017

A NOITE DOS GATOS


*Rangel Alves da Costa


Eles surgem silenciosos, noturnos, soturnos, aparecendo nas esquinas, surgindo dos muros, das residências, vindos de todo lugar. Negros, pardos, esbranquiçados, amarelados, de cores mistas ou indefinidas, assim vão surgindo os gatos na noite.
Vão lentamente se achegando aos beirais das calçadas, aos cantos mais escurecidos, aos pés de muros. Confabulam, se roçam, se aproximam, se afastam, de vez em quando parece haver até desavenças e ameaças mútuas. Surgem os primeiros miados.
Os gatos sempre agem assim. São reconhecíveis seus procedimentos de cada noite. Gostam de se reunir em grupos, porém logo vão se dispersando. Os diálogos iniciais entre os bichanos parecem uma distribuição das tarefas noturnas – e madrugada adentro – de cada um.
Ora chegam em maior número, ora apenas uns quatro ou cinco. Mas se avista muito mais dispersos pela escuridão das ruas. Após os encontros iniciais, alguns vão sumindo pelos escondidos enquanto outros permanecem no local ou arredores. Não demora muito e a gataiada já está em plena função noturna.
Coisa estranha acontece nesse bicho caseiro. O gato parece ter duas faces, duas feições, modos distintos de agir se durante o dia ou durante a noite e nas altas madrugadas. Seu comportamento é totalmente oposto se numa ou noutra situação. Ao dia, sempre dócil, fagueiro, amistoso. Mas estranho demais depois do anoitecer.
Quando a noite cai, então o gato se mostra na plenitude de seus segredos, mistérios, desconhecidos. Os gatos da noite são como ébrio apaixonados, são como vagantes solitários, são como seres lascivos e permissivos, são como enfermos cujas moléstias se acentuam quando a lua chega.
Por isso mesmo que a noite dos gatos é tão soturna, tão noturna, tão embriagada, tão insana, tão ávida por estranhezas. Por isso mesmo os gemidos, os miados roucos, os miados aflitivos, os miados de fúria e de incontido prazer. O amor e a insanidade noturna dos gatos.
Gatos de gemidos lúgubres, apavorantes, terríveis, alucinantes. Gatos de canções funestas, medonhas, insuportáveis ao ouvido humano. Gatos que gritam seus prazeres e sofrimentos de forma repetida, incontida, quase mecanicamente. Não são avistados, sentidos, presenciados, apenas ouvidos nos seus gemidos fúnebres ou luxuriosos.
As pessoas gemem ao amar, ao fazer sexo, ao sentir prazer. Mas os gatos gemem incontidamente, sem pudor, nas alturas, como em gritos ensandecidos. As pessoas murmuram e sussurram gozos carnais, mas os gatos gemem o prazer como se os sentidos estivessem transformados em agonias. Por isso que os gatos tanto agonizam nos telhados.
De qualquer modo, noite adentro, madrugada afora, e os bichanos fazendo sua festa noctívaga ou vivendo suas dores noturnas. Já não são aqueles gatos do dia, apenas seres que vorazes se entregam ao que os mistérios debaixo da lua ou no breu da hora permitem fazer.
Triste e lancinante deve ser a solidão dos gatos. Os lamentos, os gemidos, os prantos gritados, não deixam dúvidas do tamanho sofrimento que lhes é impingido. Um luto, uma terrível perda, uma saudade sem fim, um desejo impossível sem fim. Vagam pelos telhados, uivam seus lados lobos, atestam que os sofrimentos noturnos não são apenas de humanos.
Pelos telhados a noite se alonga. Quando a madrugada abre seus braços misteriosamente secretos, os gatos ainda permanecem em sentinelas e ladainhas. Suas vigílias são de suas próprias mortes, de suas próprias ausências, de seus sofrimentos. Ora, se são completamente diferentes durante o dia, então por que não se imaginar as insanas transformações?
De repente os telhados silenciam. O breu da noite já se foi, a madrugada já chama o primeiro clarão do dia. Apenas um ou outro gemido de gato. E pelas esquinas vão novamente sumindo. Dali até o anoitecer apenas os gatos caseiros. Até que novamente transbordem seus instintos felinos.


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Lá no meu sertão...


Nos caminhos sertanejos de Poço Redondo, na aridez sergipana.



Saudade de tudo (Poesia)


Saudade de tudo


Quero pedaço grande de cocada de frade
e depois um gole d’água de moringa de janela
mas cadê Dona Cecília e sua mesinha na calçada?

quero um copo de arroz-doce cheirando a canela
e depois mais outro que é pra provar bem do coco
mas cadê Baíta e seu tacho fervente de gostosura?

quero uma cocada branca mole e meio liguenta
e depois um pirulito de mel enroladinho na tábua
mas cadê Quininha e Luisinha para adoçar essa vida?

quero ainda essa saudade por que vivi esse tempo
por que tomei café torrado na cozinha de Dona Lídia
por que tomei banho nu pelas antigas ruas chuvosas
e ainda estou aqui pra dizer que fui toda a felicidade.



Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – o estranho caso dos objetos que anoitecem e amanhecem fora da loja e ninguém furta ou rouba


*Rangel Alves da Costa


Quando aos finais de semana me desloco de Aracaju para o sertão sergipano, ao passar na cidade de Nossa Senhora Aparecida, de repente me vejo fazendo a mesma indagação: por que esses objetos sempre ficam aqui do lado de fora e nunca meliantes ou ladrões baratos passam para furtar? Fico realmente espantado, admirado, realmente surpreso que perante tamanhos índices de insegurança, de furtos e roubos, objetos amanheçam e anoiteçam fora da loja sem ninguém os levar. Observem se realmente não causa estranheza. Trata-se de uma loja que vende produtos agrícolas e artesanais, principalmente peças em barro, gesso, ferro e madeira, dentre outros. E o proprietário coloca muitas dessas peças artesanais, como grandes imagens de santos, bois, cavalos e outros bichos do campo, além de todos os tipos de quinquilharias para enfeites de residências, fazendas e sítios, na calçada da loja e um pouco adiante, mas ali mesmo deixa tudo quando baixa as portas de seu comércio. Daí que se alguém passar na madrugada pelo centro da cidade, logo vai avistar aqueles objetos do lado de fora da loja, igualmente ao alvorecer e feriados. Então surge a indagação: qual segurança que tem ali, por que de repente não furtam muitos daqueles objetos? E já faz muito tempo que venho observando isso. Eis, então, a comprovação de que ninguém leva às escondidas sequer uma garça grande de gesso. Do contrário, aqueles objetos ali não permaneceriam de dia a noite. Uma situação quase impensável de acontecer. Mas acontece na cidade sergipana de Nossa Senhora Aparecida.
  
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quinta-feira, 20 de abril de 2017

CALADO EU


*Rangel Alves da Costa


Boca fechada resguarda tudo. Muito melhor se manter calado a abrir o verbo de vez, ainda que os motivos e as justificativas sejam os mais plausíveis. Melhor evitar a falar ao vento, mesmo que seja indescritível o prazer de despejar tudo de vez.
Então, calado eu fico, permaneço, continuo. Melhor assim a abrir a boca para dizer umas verdades a grande parte de uma população brasileira que reclama e reclama, critica e critica, mas na hora de votar se ajoelha à mesmice corrupta e lamacenta.
Calado eu fico para não dizer umas poucas e boas a uma gente que parece não ter o que fazer e se compraz em assistir as baboseiras e idiotices de um BBB. E ainda por cima, apaixonadamente, leva às redes sociais seus fervores e suas pequenezas humanas.
Calado eu permaneço para não fazer da voz punhal afiado nem da palavra uma arma mortal. Mas é que dá vontade mesmo de dizer nas fuças umas poucas e boas. A gente vai guardando e guardando, suportando e suportando, mas chega um instante que corda arrebenta e não tem jeito mesmo.
Calado eu fico quando sinto que não vai adiantar mesmo o que eu possa dizer. Falar ao vento é perda de tempo, dizer a quem não sabe ouvir é gastar saliva, dialogar com o analfabetismo político é ter raiva sozinho. Ora, se não fosse o ódio e o rancor aprisionados, creio que o eterno silêncio seria a melhor palavra.
Calado eu fico por que sei que de minha voz pode sair tiro, bala, espoleta, chumbo, estricnina, veneno mortal. Não que minha palavra seja maldosa, cruel, ferina ou bala certeira, mas que se torna impossível não detonar perante determinadas situações. Num doa a quem doer, o mais importante mesmo é não aceitar enraizando os absurdos de um mando insano.
Calado eu estou agora e não sei por quanto tempo continuarei assim. Talvez por um instante apenas ou pela eternidade. Mas não adianta, pois o meu olho brilha, a minha pele eriça, o meu sangue ferve, o meu corpo avermelha. Tudo raiva, tudo ira, tudo ódio por tantas incoerências, injustiças e iniquidades.
Calado eu fico como fica a montanha após a presença do sábio. Medito, reflito, encontro razões. Em silêncio eu fico como o velho sábio ante o as águas que lentamente passam no leito do rio adiante. Medito, reflito, procuro encontrar. Sem palavra permaneço como permanece o céu na presença da luz maior.
Calado eu fico para não, através da voz, levantar os tapetes que escondem as podridões dos poderes, os esgotos políticos, as putrefações que assolam o país. Não significa, contudo, que assim eu permaneça, pois apenas buscando fôlego para bradar de vez um inconformismo que já perdura desde tempos mais antigos.
Calado eu fico para não ferir, machucar, atentar contra qualquer pessoa. Calado eu fico, mas como uma vontade danada de xingar de tudo o que não presta, de dizer nas fuças umas boas verdades, de fazer sair pela boca tudo o que precisa ser gritado e que ainda permanece em doloroso silêncio.
Calado eu fico por que sei que a taça é frágil, que os candelabros são frágeis, que as asas das borboletas são frágeis, que o silêncio é frágil demais para ouvir. Ao abrir a boca, talvez um vendaval saia destroçando tudo. E não quero que o frágil pereça pelos meus ódios e rancores.
Calado eu fico até quando quero falar e dizer te amo, te amo, te amo. Calado eu fico quando eu precisava declamar poesia ao meu amor. Calado eu fico quando quero falar coisas belas e que agradem ao coração. Mas tenho olhos, mãos e corpo que tudo dizem e tudo pedem.
Calado eu fico agora. Emudeço. Vou guardar minha voz para quando eu precise me revelar um segredo: Não haveria de ter palavra. Bastaria o silêncio!


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Lá no meu sertão...


A sertanejinha mais linda do mundo. Minha bela namorada!



Sertão, meu sertão (Poesia)


Sertão, meu sertão


Cadê meu chapéu de couro, meu alforje e meu gibão?
leve essa caneta dourada e esse papel feio e de tanta letra
e me traga meu aió de cipó trançado e o meu embornal
e pergunte a Zefinha se vai botar baião-de-dois no fogão

cadê minha lua tão sertaneja e meu sol tão chamejante?
leve esse sapato brilhoso e esse terno vaidoso e egoísta
e me traga uma cuia de araçá e um punhado de quixaba
e pergunte a Joaninha se amanhã vai quarar rouba na cacimba

cadê meu tempo, minha vida, meu passo naquela estrada?
olho a ventania no varal e me pergunto se a vida é assim também
as craibeiras tardam tanto a chegar que choro a finura da catingueira
tenho tanto medo que tudo seja assim que peço meu rosário de contas

e Bastião me vem dizendo que não há mais capim nem palma
silencio porque já ouvi de Totonho que já não há mais nada lá fora
enquanto isso Delourdes canta uma velha canção para não chorar
mas não há quem não chore se o gado não berra e o galo não canta mais

sofro e choro num sertão assim castigado de braseiro sobre a terra
mas ainda assim muito mais contente que viver fingindo alegria distante
por isso deixo pra trás meu anel de doutor e toda essa minha esnobês
e vou caminhar pela terra sertão de chinelo de dedo como meu pai fazia.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – doces e saborosas recordações


*Rangel Alves da Costa


De vez em quando eu sinto o retorno das doces e saborosas recordações. Pirulito de mel, vendido em tábua grande, doce como a própria infância. Arroz-doce, encorpado, com muito coco e por cima a canela se espalhando. Mungunzá de milho amarelo, feito no tacho, também com muito coco e de inigualável sabor. Cocada branca e cocada preta, mole ou dura, em bandeja estendida na janela. Bolo de molho, de arroz, de puba, de macaxeira, mas também de leite e de ovos. Tudo feito em forno de lenha, na cozinha, depois colocado na mesa para esfriar e ser repartido. Cuia de araçá madurinho, bem amarelinho, miudinho e doce que nem bala de açúcar. Melão coalhada, araticum, quixaba, tudo de dar água na boca só em pensar. leite quentinho esguichado do peito da vaca e com um tiquinho de farinha já despejada no prato de estanho. Goiaba, mamão e jabuticaba, roubados pelos quintais. Quanto mais perigo corria mais sabor tinha a fruta afanada. E mais uma bela recordação da infância: avistar calcinhas vermelhas e rendadas nos varais. E imaginar sua dona tão jovem e tão bonita.
  
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quarta-feira, 19 de abril de 2017

ANDANDO PELO SERTÃO


*Rangel Alves da Costa


Um dos maiores que tenho na vida é estar no meu sertão sergipano, em Nossa Senhora da Conceição meu berço de nascimento, mas principalmente andando de chinelo de dedo pelos caminhos de terra nua.
Causa indescritível prazer quando saiu do asfalto da cidade e mais adiante encontro a estrada, a vereda, o caminho. E ao redor de tudo as paisagens, que mesmo secas e cinzentas despertam alegria ao olhar. Pisando em chão batido, em terra solta, por riba de grãos graúdos, de pontas de pedras e espinhos, vou seguindo adiante nos meus percursos de reencontro.
Percursos de reencontro pelo fato de já ter caminhado outras vezes pelas mesmas estradas e rumo aos mesmos lugares, mas a cada retorno um novo prazer pelo cotejo entre o ontem e o agora. E reencontro também pela revivência com a história, com as velhas raízes sertanejas, com o que ainda resta do passado.
Foi numa dessas andanças que no último sábado eu enveredei para o outro lado da cidade, seguindo até uma antiga comunidade denominada Alto de João Paulo, uma povoação de raiz familiar e que até hoje preserva muito do seu passado mais distante. Surgida apenas como Alto, pois localizada numa região mais alta cerca de um quilômetro após o Riacho Jacaré (que passa ao redor da cidade de Poço Redondo), depois passou a ser conhecida como Alto de João Paulo, numa merecidíssima homenagem a um de seus mais afamados moradores: João Paulo, de saudosa memória.
Como dito, na tarde deste último sábado fui caminhando até o Alto de João Paulo para conversar com amigos que tenho por lá e distribuir alguns bombons de chocolate às crianças. Depois da passagem do Riacho Jacaré, na subida ao redor do antigo campo de Luiz Doce, a sensação é de reencontro com um Poço Redondo ainda vivo na sua memória. Reencontrar o Alto é como sentir a presença daqueles sertanejos que tanto dignificaram a nossa história. Os cangaceiros, os vaqueiros, os lavradores, os homens das caatingas e os homens da terra.
A povoação e seus arredores foram berço de nascimento de muitos jovens que mais tarde serviram ao bando do Capitão Lampião como cangaceiros, a exemplo de Adília e seu irmão Delicado, Sila e seus irmãos Novo Tempo, Mergulhão e Marinheiro (Du, Gumercindo e Antônio), filhos de Paulo Braz São Mateus e irmãos de João Paulo. Berço de convivência também de famosos vaqueiros como Humberto Braz e Abdias, igualmente irmãos de João Paulo. No Alto de João Paulo também morava o maior artesão de chocalhos, ferros e ferraduras da região, o renomado Galego.
Alto de João Paulo do próprio João Paulo, dos Mulatinho, de Maximino, de Adília, de toda a família Braz, Sarmento e tantas outras, cujas raízes foram gerando gerações e gerações. E ainda hoje tudo parecendo como ontem. Uma comunidade de feição familiar e de parentes e amigos sentados ao entardecer debaixo e ao redor das árvores centenárias. E de vez em quando era como se ouvisse João Paulo gritando todo festeiro. Voz alta, quase um grito, cumprimentando a todos e a seu sertão. E como foi bom avistar famílias nas calçadas, crianças brincando, amigos em proseando. Bem ali ao lado da cidade e uma comunidade ainda preservada em toda a sua inteireza.
E lá nos sertões antigos um povo fincou raiz e fez erguer gerações. E as gerações surgidas se dividiram em permanecer no lugar ou se mudar pra cidade. Os que permaneceram ainda preservam em pujança toda vida e história. E Deus permita que o progresso chegue sem jamais apagar a memória e a história do Alto de João Paulo, desde suas raízes aos seus troncos e frutos de agora. Contudo, o que tanto me alenta é saber que mesmo os que vivem na cidade ou mesmo em outras localidades, possuem apego e amor indescritíveis pelo seu tão rico chão sertanejo, bem ali, pertinho, numa caminhada só, depois da passagem do riachinho.
Tudo isso, catado como história e colocado no embornal da memória, é o que sempre me move a tanto gostar de andar pelos caminhos do meu sertão.


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Lá no meu sertão...


Eu (ao centro), Lélia e o diretor Hermano Penna, de “Sargento Getúlio”, “Olho de Boi”, “Aos Ventos que Virão” e “Zé de Julião - Muito Além do Cangaço”, dentre tantos outros filmes.




Do tempo e do vento (Poesia)


Do tempo e do vento


Do tempo e do vento
aprendi a esperar as folhas caídas
das velhas amendoeiras e nelas escrever
mil cartas de amor e de solitária solidão

do tempo e do vento
aprendi a conversar sozinho ao entardecer
e dar conta em mim mesmo de muita coisa
principalmente que sou novamente criança

do tempo e do vento
aprendi a deixar a porta se abrir sozinha
e a janela bater ao sopro de estranha mão
que chega sempre inusitada como a morte.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - mulheres que se vulgarizam em fotografias


*Rangel Alves da Costa


Avistar fotografia de mulher bonita é sempre um colírio ao olhar. A beleza deve ser mostrada, vista, apreciada. Há mulher tão encantadoramente flor que basta um retrato da face e todo um jardim já será avistado. Contudo, mulheres existem que forjam a si mesmas para se mostrarem gostosas, sexys, apetitosas. Quando postam nas redes sociais fotografias apelativas, em poses insinuando erotismo, ou mesmo apenas para mostrar os seus dotes carnais, então logo se tem a mulher vulgar, banal, libertina, barata. E ali já não será mais apreciada qualquer beleza senão apelativos e permissivos dotes sexuais. É como se aquela que posta retrato assim, em pose e moldura desavergonhada, estivesse chamando homem para si, macho para si, dizendo que venha, me cante, me mande mensagem pelo Messenger que sou assim mesmo e mais safada ainda. Infelizmente é isso que muito ocorre nas redes sociais, principalmente no facebook. Mulheres que perdem seus encantos femininos para se mostrarem apenas como reles prostitutas.

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terça-feira, 18 de abril de 2017

OS NAMOROS EM POÇO REDONDO E EM QUALQUER LUGAR


*Rangel Alves da Costa


Muito diferente dos namoros passados, onde até chegar à relação sexual propriamente dita passava-se por um longo processo e intensas expectativas, atualmente os enamorados poucos se conhecem e já querem se conhecer muito mais.
Só pra lembrar, no passado o namoro possuía uma feição tão respeitosa e valorizada que equivalia mesmo mais a muitos casamentos de hoje. Num tempo mais distante ainda, o namoro era na casa da moça, sob os olhares dos pais, sentadinhos em cadeiras e sem chances de atracamentos.
Tal costume evoluiu, porém sem perder o caráter de respeito e seriedade. Namoro às escondidas, por detrás dos muros, não eram costumeiros como agora. Tantas vezes, o rapaz pedia a mão da moça para namorar e desde logo se comprometia a respeitá-la. Também havia aliança de compromisso e verdadeiro compromisso. Ostentar um anel de noivado era honra maior para toda moça.
Já casados, ou mesmo ainda noivos, a fidelidade era tamanha que o homem se ausentava por longo tempo e ainda assim nem sempre corria perigo de ser passado pra trás, ou corneado, como comumente se diz. Com efeito, quando a situação estava difícil no sertão (secas, desempregos) o homem arribava em busca de emprego no sul do país. A noiva ou esposa ficava esperando pacientemente o seu retorno. E de lá ele enviava uma pequena mensal ora para levantar uma parede da futura casa ora para manter a dignidade familiar.
Mas os tempos foram transformando as fidelidades em traições, os compromissos em banalidades, as relações em eventualidades. E de repente nem precisava que o homem estivesse distante para ser traído abertamente. Traíam-se pelas portas da frente e dos fundos, pelas janelas e através de amigas alcoviteiras. As mocinhas desgarraram-se dos pais e do respeito outrora sagrado, para também se embrenharem nos namoros libertinos e permissivos demais.
Se a prática sexual era usualmente permitida apenas depois do casamento, os ventos das mudanças foram transformando tudo em cafonice. De repente - e para espanto e desespero das famílias - as meninas apareciam barrigudas. E o pior: tantas vezes sem qualquer identificação do responsável pela prenhice. Depois das festas de agosto então. Depois da festa principal de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo - a Festa de Agosto -, nos meses seguintes surgiam os comentários, as fofocas e os espantos. Muito sertanejo de hoje nasceu assim.
Mas depois não somente nas festas de agosto a situação se acentuava, pois bastava um baile qualquer e no outro dia os monturos, quintais, nas beiradas do riachinho e arredores, calcinhas e outras roupas íntimas eram encontradas aos montes. Gente que esquecia o sapato, a chinela, o tênis, mas principalmente a vergonha. Um mundo já de desmedida sem-vergonhice. Mas ainda nada comparado aos usos atuais que se dá ao corpo, como se o sexo pelo sexo justificasse qualquer verdadeiro prazer.
A verdade é que os modismos avançaram de tal modo que até o corpo passou a ser objeto de banalidade consumista. Pouco se vê ou se fala em verdadeiro namoro, em relacionamento respeitoso entre ambos os enamorados. E quase não há mais namoro, pois a juventude se permitiu enveredar por caminhos de tanto-faz, de experiências, de jogos sexuais. Em muitas situações, o termo namoro deu lugar ao “ficar”. E de ficar em ficar, quando o mel esvazia da colmeia, o que resta é somente a desonra.
Difícil de acreditar, mas em época de festas, com muitos rapazes de fora que se achegam já sabendo das facilidades em muitas mocinhas locais, os encontros e os olhares já são quase certeza de safadezas. Sem ao menos se conhecerem ou sequer sabendo o nome um do outro, num passo e já estarão se entregando em qualquer lugar. No dia seguinte ele desaparece e ela fica querendo mais. E aí o maior perigo: na ausência daquele, começa a querer se satisfazer com outros e mais outros. E de repente apenas a mulher de qualquer um.
Qualquer coisa que se diga à juventude sobre os perigos dessa nefasta permissividade, logo se corre o risco de ser achincalhado, chamado de ultrapassado, de cafona. Mas os exemplos permanecem e se acentuam cada vez mais. A verdade é que atualmente ter filhos requer cuidados muito maiores além da criação e formação, pois quando a porta é aberta e o mundo começa a chamar só mesmo Deus para livrá-los de todo o mal.

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Lá no meu sertão...


Nas águas do Velho Chico em Bonsucesso, povoação ribeirinha no município de Poço Redondo, sertão sergipano.