SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 18 de julho de 2018

A BUCHUDINHA, A FOFOCA E UMA CIDADE QUALQUER



*Rangel Alves da Costa


A mocinha apareceu buchuda e a cidade inteira parou para tomar conta da vida dela. Como se fosse o fato mais estranho e inusitado do mundo, com nenhuma outra coisa a cidade passou a se preocupar.
Os pratos ficavam sujos na mesa, as roupas imundas estocadas num canto, as calçadas cheias de poeira, as panelas queimando no fogão, os remédios esquecidos, os filhos chorando com fome, até os banhos e os asseios eram deixados de lado.
Nada mais na vida importava. A única coisa que importava era a mocinha que de repente apareceu buchudinha. Parecia coisa de fim de mundo. Talvez nem o aparecimento de um disco voador ou de uma porca falante fosse mais interessante.
Portas e janelas abertas, esquinas tomadas de pessoas, calçadas cheias de vizinhos e outros, por todos os lugares os olhares furtivos, as bocas em segredos, as línguas ferinas. Os ares tomavam-se de olhos, bocas, ouvidos, de tudo o mais que servisse para alimentar a boataria.
Tudo de mais desonroso passou a tomar conta de tudo: fofocas, fuxicos, boatos estapafúrdios, disse-me-disse, calúnias, aleivosias, um festim de maledicências. Uma dizia uma coisa e na outra esquina já havia se transformado numa condenação ainda maior. Tudo semeado para ser bem pior.
E também tudo tão próprio de quem não tem o que fazer e deixa de tomar conta da própria vida para se arvorar da vida dos outros. Certamente que as conversinhas e as fofocas acontecem em todo lugar, mas ali parecia nutrir suas forças e sua vitalidade como imprestável, que é o tomar conta da vida dos outros a todo custo.
Enquanto isso, a mocinha andava de canto a outro como se nada daquilo estivesse ocorrendo. Bonita, perfumada, arrumadinha - e buchudinha. Caminhava toda faceira, toda cheia de vida e de formosura, parecendo que nada daquilo estava acontecendo. E para ela tanto fazia, pois bem sabia que vivia num antro de cobras ruins, de serpentes inescrupulosas e linguaradas.
Mas para o lugar era o fim do mundo que a mocinha tivesse aparecido buchudinha. “Como pode uma moça que nem namora aparecer assim?”. Indagava um. “Quem vê a santidade não vê o pecado”. Dizia outra. “Safadeza pura, quenquice deslavada”. Mais uma dizia. “Aí não sabe nem quem é o pai”. Alguém falou. “O pai deve ser qualquer um”. A outra concluiu.
E bota fofoca nisso: “Comadre, bem garanto que nem é o primeiro bucho que pega. Toda desconfiadinha e não vale nada. Já deve ser muito passada e bem passada”. Uma chegava dizendo. E a outra completava: “É o que dá criar fia pro mundo. Pai e mãe são pior do que a própria fia. Depois vai virar rapariga, não vai dar outra...”.
Num canto de calçada, debaixo de pleno sol do meio dia, outras comadres - esquecidas de que existia casa pra cuidar, comida a fazer e tudo o mais - iam cuspindo aleivosias e falsidades. Segundo uma, só podia ser coisa do fim do mundo mesmo, pois quem já havia visto uma virgem engravidar. Contudo, pura ironia em tais palavras. Num repente e todas caíram numa gargalhada só.
E assim a cidade foi se esquecendo de que existia para entrelaçar e remendar maldades acerca da buchudinha. Mas a mocinha nem aí. Continuava passando feliz, alegre, cantando, toda cheia de contentamento. Levava a mão à barriga, sorria, no olhar com que fazendo planos para o amanhã.
A falta de reação da buchudinha aos ataques causava indescritível ferocidade aos fofoqueiros e fofoqueiras. Decidiram então arranjar um responsável pela gravidez da mocinha. De solteiro a casado, de velho a novo, tudo foi inventado. Mas não surtiu nenhum efeito. “O que vamos fazer agora?”. Esta foi a preocupação da fofoqueira maior.
Queriam de qualquer jeito que a mocinha reagisse e, com tal reação, acabasse dizendo ao mundo o que somente a ela e a quem desejasse deveria saber. Também uma forma de alimentar ainda mais a indignidade daqueles que unicamente se comprazem com o que os outros fazem ou deixaram de fazer.
Então outra disse: “Deixar pra lá, é o jeito”. “Não, de jeito nenhum. Sabe que a gente não vive sem falar mal da vida dos outros. A gente tem de continuar falando mal sim”. A maledicência falando. Então a outra ajuntou: “Se é pra falar mal, então vou logo dizer que sua filha logo vai aparecer igualzinha àquela. Não vê macho que não dê em cima”. “O que? Repita isso sua sirigaita, sua rampeira...”.
E foi vestido rasgado, cabelo puxado, saia levantada, um rolo pelo chão. E a cidade inteira ao redor observando feliz. Logicamente que para depois ter o que falar. E a buchudinha vivendo apenas o seu mundo e de vez em quanto se perguntando: será um menininho ou uma menininha?


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Lá no meu sertão...


Casarão de Bonsucesso, povoação de Poço Redondo/SE - Templo da História!




Sem mágoas (Poesia)



Sem mágoas


As cores do outono vão chegando
as flores e as folhas do amor padecem
como fossem suspirar pela última vez

o amor não é de perfume eterno
nem de jardim sempre belo e florido
além dos espinhos surgem os outonos

de repente o desencanto aflora
e os vendavais espalham as esperanças
em redemoinhos difíceis de suportar

e o que fazer então perante o temor
de o amor amado se tornar em desamor
e o desejo do outro seja um vento levou

saber que tudo vem e tudo passa
assim num Eclesiastes de idas e vindas
e abrir a janela para o sol que brilhará

e pela estrada o que partiu avistar
retornando terno e na leveza da paz
e então abrir a porta e deixar entrar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - organizando a vida a partir das pequenas coisas



*Rangel Alves da Costa


O guarda-roupa está bagunçado. Os livros estão desordenados na estante. Os sapatos espalham-se por todo lugar. Os escritos, folhas e anotações, estão dispersos. A cama desforrada, lençóis embrulhados em si mesmos, poeira se espalhando, o pó dando a feição das coisas. Não, não há como dizer que isto é da normalidade da vida. Alguma coisa está errada e precisa ser consertada. Quem gosta de sair pelas ruas com os cabelos desgrenhados, com um chinelo de um tipo num pé e diferente no outro pé, com os botões fechados fora do lugar, com uma veste de frente pra trás? Certamente ninguém gosta, pois não da normalidade. Do mesmo modo os objetos de uso pessoal, as roupas de quarto, os livros, as bijuterias, os enfeites e adornos, tudo gosta de estar arrumadinho e no seu devido lugar. Contudo, fato mais importante é reconhecer que quando as coisas vivem desordenadas, desarrumadas, ao deus dará, também a vida estará assim. O cuidado com os pequenos objetos, com as pequenas coisas, reflete muito bem o estado pessoal, o ânimo, a espiritualidade. Quem está bem de corpo e alma não aceita descuido. Quem está feliz consigo mesmo tende a zelar e a preservar-se ainda mais. E não há que dizer que as aparências enganam. Estas até que podem iludir os olhares, mas não ao que se tem como mais importante: a própria pessoa. Daí que é preciso organizar a vida a partir das pequenas coisas. Quem zela pela vida e pelo que tem tanto quer o melhor para si como procura preservar com carinho aquilo que possui, ainda que seja uma diminuta lembrança. Nada melhor do que a pessoa poder avistar aquilo que sabe onde deixou. Nada melhor do que a pessoa poder avistar-se e dizer que sabe onde está e o que quer na vida.


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terça-feira, 17 de julho de 2018

PADRE AGOSTINHO, CAPELÃO DO CARIRI CANGAÇO



*Rangel Alves da Costa


Agora em junho Poço Redondo e os sertões sergipanos e baianos tiveram o imenso prazer de conhecer Padre Agostinho. Mas quem é este homem calmo, pacífico, de voz mansa, que anda sempre carregando lembrancinhas religiosas para distribuir onde passa, que lentamente caminha para suportar uma pequena deficiência numa das pernas, que celebra missa aonde chega e anda de chapéu cangaceiro de canto a outro?
Saibam, pois, que o Padre Agostinho Justino dos Santos é gigante, é grandioso, é imenso. Entronizado Capelão do Cariri Cangaço, Capelão aposentado da Marinha do Brasil, é Padre Católico e do mundo. Apaixonado pelo Nordeste, principalmente pela região do Cariri, abdica de estar no seu Rio de Janeira para cruzar caminhos nordestinos e sertanejos.
Desde muito que atua fortemente no contexto histórico nordestino. Apaixonado pela história do Padre Cícero e pelas dioceses do Crato e de Juazeiro, transita entre as duas - e por toda a região - como um sacerdote respeitado e venerado. É, pois, a partir da Diocese de Juazeiro que o Padre Agostinho sai pelos carrascais nordestinos acompanhando o Cariri Cangaço. Não perde um evento sequer. A cada nova edição, mesmo na distância que for lá estará o Padre Agostinho acompanhado de um ajudante, também da diocese.
A presença deste servo de Deus também a serviço da história, da cultura e das tradições, tornou-se fator marcante a cada evento do Cariri Cangaço. Alguns conselheiros deixam de comparecer, mas Padre Agostinho não. Uns e outros apaixonados pelas andanças do Cariri Cangaço até deixam de estar presente, mas Padre Agostinho não. Chega sem alarde, instala-se quase ocultamente, mas depois vai surgindo para o encantamento de todos.
Em meios aos abraços pelos reencontros, em meio aos preparativos e correrias, de repente ele vai surgindo lentamente, calmo, paciente demais. “Oh Padre Agostinho, por aqui? Que bom revê-lo!”. E ele, sempre de sorriso leve, vai logo repassando um terço de boa sorte, uma fitinha do Padre Cícero, um calendário religioso, algo sempre valioso como dádiva sagrada de reencontro e recordação.
Na manhã do último dia do Cariri Cangaço Poço Redondo 2018, quando todos os participantes ou já tinham seguido ou estavam se preparando para seguir viagem, eis que o Capelão celebrava - ao lado do Padre Mário - a missa pelo aniversário de 78 anos de Alcino Alves Costa. Segundo ele, depois seguiria para Paulo Afonso, daí cortando outros caminhos até Juazeiro. Confessou-me que pagaria do próprio bolso o fretamento de um veículo até Paulo Afonso.
Todas as igrejas abrem suas portas perante sua chegada. Todos os túmulos e cruzes da história se reconfortam perante sua presença. Ao ser perguntado sobre os motivos de usar chapéu cangaceiro e de abençoar os retalhos do passado, bem como celebrar a memória daqueles que a muitos causa ojeriza (como acontece com túmulos de cangaceiros), ele simplesmente afirma que todos foram seres humanos e, como tal, merecem a compaixão divina. Assim suas palavras, conforme citadas pelo conselheiro Raul Meneleu no artigo “O Padre e o Cangaço”: “Também os cangaceiros são filhos de Deus e merecem preces por suas aflitas almas, mesmo sendo injustos." (http://meneleu.blogspot.com/2015/08/o-padre-e-o-cangaco.html).
Foi neste sentido que abençoou as Cruzes dos Nazarenos na Maranduba e proferiu palavras acerca daquelas almas aflitas, comandando depois uma oração conjunta. No dia anterior, na baiana Serra Negra, após o almoço coletivo ele foi avistado recompensando com algum dinheiro as mulheres a serviço na cozinha. Apenas um reconhecimento pelo maravilhoso almoço, dizia ele.
Pois bem. É assim o Padre Agostinho aonde chega e por onde passa. Convidado pelo Padre Mário para celebrar missa em Poço Redondo durante a próxima Festa de Agosto, do altar improvisado defronte ao Memorial Alcino Alves Costa, sorridente disse: “Estarei entre vocês, com fé em Deus!”. Seja bem-vindo, Padre Agostinho. Sempre. Em Poço Redondo e por todo o Nordeste, como assim será no Cariri Cangaço de São José de Belmonte.
E, desde já, rogo ao curador Manoel Severo e a todos os conselheiros Cariri Cangaço que além de Capelão o Padre Agostinho seja oficialmente reconhecido como Sacro Conselheiro do Cariri Cangaço.


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Lá no meu sertão...


Cariri Cangaço Poço Redondo 2018 - Eita saudade!





Na calçada (Poesia)



Na calçada


Na poeira e na ventania
vai o tempo assanhando tudo
e desengonçada assim vai a vida
ajeitando restos pra seguir em frente

sentado na soleira do entardecer
seguro o meu chapéu com as mãos
e as minhas palavras assim tão soltas
que é para a ventania não fazer de folha

depois que adiante a caravana passa
ajeito meus restos que comigo ficaram
e vou tomar meu café com cuscuz ralado
e orar pela vida que a ventania não levou.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - saudade danada do cabaré



*Rangel Alves da Costa


De repente me deu uma saudade danada de um bom cabaré. Não de um cabarezinho desses que tem aí, desses chinfrins molambentos que dizem ser casa de tolerância. Ora, cabaré é coisa séria. Ao menos era. Noutros idos, cabaré era algo tão importante e salutar que os noturnos passados em seu antro tornaram-se verdadeiramente memoráveis. Lugar de encontro de amigos, ambiente de bebida e dança, as grandes orquestras, as grandes vozes, as francesinhas chegadas do litoral. Que coisas mais lindas e cheias de graça. Ali, tilintando riquezas, os bigodudos senhores vendendo e comprando safras inteiras. Os coronéis cacaueiros fazendo dali uma verdadeira varanda de seus casarões. O bom uísque escorrendo pelos copos limpos, brilhosos, importados. As raparigas parecendo em desfile de moda. Não se cheirava apenas a sexo sujo e suarento, a quarto imundo e lençóis maltrapilhos e nojentos, a bebida barata e a furdunço a todo instante. Lugar de prazeres sim, mas de nobres e apetitosos prazeres. Lulu de Boyon, a cafetina, ou a mais bela das carnes novas: Cecily D’Lamour. Um viver em festa. Que saudade, pois, destes honrosos e gloriosos cabarés. Mas depois deste áureo período, nenhum cabaré se prestou sequer a dignificar o nome de puteiro social. Hoje é a rampa das vagabundagens, algo assim como Brasília, Câmara, Senado Federal e muito mais, inclusive aquela togada corte. Mas deixe pra lá.


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segunda-feira, 16 de julho de 2018

COLHENDO OS FRUTOS DO CARIRI CANGAÇO EM POÇO REDONDO - UMA IDEIA EDUCACIONAL



*Rangel Alves da Costa


Juro que por alguns dias eu fiquei como que anestesiado pelo absoluto sucesso do Cariri Cangaço Poço Redondo 2018. Passado o impacto mais que positivo, eis que de repente passei a conviver com um verdadeiro dilema: O que fazer para que o Cariri Cangaço não tenha sido apenas um evento e pudesse continuar produzindo frutos perante toda a comunidade?
Na verdade, bons frutos já haviam sido colhidos com a plena aceitação, participação e envolvimento da comunidade. O povo de Poço Redondo e pelos sertões ao redor, não somente amou a realização do Cariri Cangaço como já demonstrou seu desejo de querer mais, de ter outros eventos de igual porte e natureza. Contudo, o meu desejo - e bem antes que o futuro nos reserve o que mereçamos - é que algo mais fosse colhido deste evento amado e admirado por todos.
Fazer o que, então? E sobre isto eu venho meditando já desde uns dois ou três dias. Da reflexão contínua e duradoura, eis que me surgiu uma ideia: Por que não dar continuidade ao Cariri Cangaço Poço Redondo perante a comunidade escolar? Ora, sabido é que a maioria do alunado de Poço Redondo ficou ausente das inaugurações dos marcos históricos.
O envolvimento da educação municipal com o evento se deu basicamente no desenvolvimento de projetos e nas apresentações culturais ocorridas na Praça de Eventos. E de forma igualmente grandiosa. Entretanto, a maioria dos alunos não pôde conhecer a sua história mais de perto, a partir da explanação acerca de cada marco histórico inaugurado.
Eis, então, a questão fundamental: Por que não possibilitar que o alunado da rede municipal vá conhecer de perto e igualmente ouvir as explanações acerca dos marcos históricos de Canário, das Cruzes dos Soldados, de Zé de Julião, de Antônio Canela, da Igreja Nossa Senhora da Conceição de Curralinho, de Brió, de Zé Joaquim, da Maranduba e das Cruzes dos Nazarenos?
Para uma ideia, de todos os marcos históricos programados para serem inaugurados durante o evento, nada menos que três deles sequer foram visitados por escassez de tempo: Brió, Zé Joaquim e Maranduba. Então, por que não permitir que os alunos de Poço Redondo tenham prazer e honra de inaugurá-los?
Como isso aconteceria? Ora, basta que a Prefeitura Municipal de Poço Redondo, através da Secretaria Municipal de Educação, promova atividades extraescolares objetivando fazer o mesmo percurso realizado durante o segundo dia do evento, ou seja, visitando a Estrada Histórica Antônio Conselheiro e a Estrada Histórica da Maranduba.
Semanalmente ou a cada quinze dias, um grupo de alunos seria escolhido para participar de tais percursos históricos. As explanações acerca dos marcos históricos seriam feitas por Rangel e Belarmino, contando com a participação dos próprios professores. E toda a comissão organizadora teria o maior prazer em acompanhar alunos e professores.
Apenas uma ideia, mas creio que bastante válida acaso se considere os frutos que advirão de tais atividades. Levando alunos aos locais históricos, possibilitando com que conheçam de perto as linhas escritas no passado, certamente permitirá não apenas a aquisição de conhecimento sobre sua própria história como colocará perante cada olhar o retrato vivo de nossa imensa riqueza histórica e cultural.
A ideia está dada. Então avante Prefeitura Municipal de Poço Redondo, avante Secretaria Municipal de Educação. O Cariri Cangaço ainda está bem vivo e presente em todos nós. Até que chegue 2019, com fé em Deus!


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Lá no meu sertão...


O Memorial Alcino Alves Costa sendo presenteado!





Contentar-se (Poesia)



Contentar-se


Se no leito macio do peito
a paz de um rio
sorrio

se me afastando do pranto
eu me desencanto
canto

se já não quero o silêncio
torturante e aflito
grito

se o teu nome na saudade
eu tanto chamo
amo.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - com medo do Eclesiastes


*Rangel Alves da Costa


O livro bíblico do Eclesiastes causa mais temor que alegria ao ser humano. Sua sabedoria, colocando a existência num ciclo de acontecimentos que vão e voltam, verdadeiramente provoca mais medo que esperança. Partindo da premissa que nada acontece de uma só forma, ou seja, de que tudo acontece como num pêndulo onde de um lado é uma coisa e no outro o seu oposto, o Eclesiastes permite que a pessoa tema pelo oposto. Ora, se tudo nasce e tudo morre, se vem o dia e depois vem a noite, se há o sorriso e depois a tristeza, se sempre há o verso e reverso em tudo, a verdade é que muita gente vive apegada ao acontecimento futuro. Por consequência, tem medo da alegria, tem medo de sorrir, tem medo do contentamento. Por quê? Simplesmente por imaginar que logo estará triste, melancólica, aflita. Não somente isso, pois ao imaginar assim - pois o Livro diz que é assim - acaba não usufruindo nada daqueles instantes que seriam o lado bom da vida.


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domingo, 15 de julho de 2018

A EVOLUÇÃO DA POBREZA EM POÇO REDONDO



*Rangel Alves da Costa


“Poço Redondo nunca foi pobre, de pobreza extrema e panela sempre vazia, de carência de tudo, também nunca teve gente mendigando pelas ruas nem pelas calçadas de cuia na mão”, assim se dizia acerca da realidade social e dos meios de sobrevivência de Poço Redondo. E com razão. Assim se dizia por que verdade: Poço Redondo nunca teve gente pedindo esmolas.
Tal contexto acima, contudo, refere-se apenas aos naturais de Poço Redondo, aos nascidos na localidade. Mesmo jamais tendo sido um município rico, de bonanças e com todas as facilidades da vida, também jamais foi um chão sertanejo dividido entre empobrecidos e miseráveis.
Quem já viu alguém nascido em Poço Redondo pedindo esmola de porta em porta, na porta da igreja ou pelas calçadas mendigando tostão? Nunca houve uma situação assim. Aqueles pedidos que até hoje são feitos em determinados períodos do ano, a exemplo da Semana Santa e do Natal, são exemplos de uma cultura ainda viva onde se imagina que os mais favorecidos possam fazer valer seus sensos humanitários e ofertar um peixe, um coco, um quilo disso ou daquilo ou presentear com uma lembrancinha de final de ano. Mas não no sentindo da esmola.
Noutros idos se dizia, por exemplo, que Boboca era pobre, que Remígio exemplificava a pobreza, que tantos outros não tinham sequer como se sustentar. Isso também é verdade, mas não no sentido da mendicância. Pessoas pobres sempre existiram e continuarão existindo. Cozinhas, despensas e armários estiveram e ainda estão vazios por todo lugar. Nenhum destes, contudo, já passou pela humilhação de bater à porta do conterrâneo ou erguer a cuia pedindo vintém, ainda que muito agradecessem toda e qualquer ajuda que fosse chegando.
Como do conhecimento da maioria, Poço Redondo, enquanto município sertanejo, sempre foi econômica e socialmente desfavorecido. O desemprego sempre foi um grave problema, a distribuição e geração de renda são mínimas, os meios de sobrevivência sempre foram precários. Nunca houve qualquer filho de Poço Redondo com extrema riqueza. Os ditos ricos de hoje não são naturais do lugar. Os “ricos” de ontem possuíam apenas terras - na maioria das vezes improdutivas - e rebanhos, mas nada de somas pessoais que os caracterizassem como ricos de verdade.
Até hoje a riqueza de Poço Redondo se traduz no passado. Mas como dito, apenas riquezas de terras e de rebanhos. Somente isso. Atualmente, mesmo os mais favorecidos ainda continuam no patamar das facilidades da sobrevivência. Não há um grande empresário, não há um grande investidor, não há um fazendeiro cujas terras alcancem além dos limites municipais. Aliás, foram as terras que no passado permitiram que Poço Redondo jamais chegasse a uma situação de pobreza ou de miséria.
Com relação a terra e ao seu uso, o quadro produtivo de Poço Redondo era bem diferente de agora. Ora, grande parte das famílias possuía seu terreninho, seu cercadinho, sua pequena propriedade. Afora os latifúndios que se entremeavam desde Canindé às divisas estaduais, quase todo o chão poço-redondense estava nas mãos de gente da terra. Nele se plantava o feijão, o milho, a melancia, a abóbora, havia criação do pequeno rebanho, havia trabalho e renda. Tanto os pais como os filhos cuidavam do que possuíam. Mas hoje, quantos ainda continuam ao menos com seu pedacinho de chão?
Atualmente não há pequenas propriedades como outrora, por consequência também não há renda nem emprego. Aqueles rapazinhos de ontem pegavam no cabo da enxada, mas hoje já não fazem mais. Até mesmo os serviços de servente de pedreiro são evitados por aqueles que vêm indignidade neste tipo de trabalho, ainda que tanto necessitem para a sobrevivência. Ainda assim, não há que se dizer que a pobreza se alastra por Poço Redondo. A pobreza existente é a da falta de melhores meios de sobrevivência, mas não do posicionamento num quadro de miséria.
Desde os tempos mais antigos o natural de Poço Redondo sempre soube “se virar” para ter o seu ganha-pão. Lavadeiras, fateiras, varredeiras, domésticas, sempre foram avistadas fazendo seus trabalhos com dignidade. Com o advento dos programas sociais de geração de renda, como o Bolsa Família, a situação melhorou muito para muitas famílias. Portanto, não há que se dizer que haja pobreza extrema em Poço Redondo. Com um porém, contudo.
Os pedintes, mendicantes e outros que rotineiramente são avistados erguendo as mãos, geralmente não são naturais de Poço Redondo. Verdade é que a chegada de muitas famílias de outros municípios e regiões transformou profundamente o quadro social. A pobreza, aí sim, tornou-se num grave problema e se alastra cada vez mais. Atualmente há panelas vazias, pratos sem nada e crianças chorando. Mas essa rotina de miséria e dor nunca foi própria daqueles nascidos em Poço Redondo.


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Lá no meu sertão...


Sertanejice




Vida vaqueira (Poesia)



Vida vaqueira


Bom dia sertão adiante
o galo nem bem cantou
e já levantei num rompante
a obrigação me chamou
e da luta sou seu amante

cavalo relincha a vida
roupa do homem é gibão
na oração a despedida
nos caminhos do sertão
pegar rês mais atrevida
o facheiro é meu irmão

cantando aboio e toada
os sonhos vão no bornal
catingueira já quebrada
pelo romper do animal
a rês na encruzilhada
o passarinho deu sinal

em correria o alazão
espinho lanhando a face
não há dor nem aflição
o sangue como disfarce
e a novilha pelo chão
na vaqueirama o desenlace

de vida vaqueira eu sou
de rosto todo lanhado
na vaqueirama um dotô
na fé meu anel dourado
assim sou feliz sim sinhô
vivendo a vida de gado.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - canto de amor ao sertão



*Rangel Alves da Costa


Sou sertão, acima de tudo sertão. Sou o caçuá e a cabaça, sou a enxada e a foice, sou o velame e a macambira, pois sou sertão. Na sua criação, Deus reservou ao homem um mundo tão próprio de se viver que quanto mais o forasteiro renega mais o sertanejo abraça. Sou deste sertão. E sou o casebre e a tapera, sou a vaqueirama e o gado, sou a catingueira e o bonome, pois sou sertão. Não há riqueza nem desvalia, mas apenas um viver na medida da existência e tudo acrescido à força de um povo sempre lutador. Sou este sertão, sou deste sertão. Sou a moringa e o pote, sou o alguidar e o purrão, sou o mastruz e o croá, sou tudo que no existe. De terra molhada ou esturricada, de fontes transbordantes ou na lama, do jeito que esteja, neste sertão estarei feito pedra de estrada e calango destemido. Sou sertão, e acima de tudo sertão. Sou o café peneirado, sou o cuscuz ralado, sou o feijão batido, sou o graveto e o feixe de lenha, pois todo o sertão eu sou. Sou a vereda e a estradinha, sou a panela de cozinha, sou o resto de toco e o tufo de mato. Sou o fruto do quintal, sou a roupa do varal, sou a renda e o bordado, sou o candeeiro e a vela da fé. Padim Ciço eu sou, Frei Damião também sou, e por que não o Capitão Lampião? Pois sou. A lua e o sol também sou.


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sábado, 14 de julho de 2018

ALI NA RUA DOS VAQUEIROS E NOUTROS LUGARES DE POÇO REDONDO



*Rangel Alves da Costa


Pouca gente de Poço Redondo ainda sabe da Rua dos Vaqueiros e muito menos de sua importância no contexto histórico da cidade. Infelizmente não é um fato isolado. Sim, quase todos sabem onde fica o Alto de Tindinha, o Alto de João Paulo e o Poço de Cima. Mas de sua história, sua importância, a motivação para os nomes, o significado na história do município? E o Tanque Velho, o Gado Manso, o Campo do Luizão?
Certamente que muitos dirão que os mais jovens não têm obrigação alguma de conhecer. Certamente alguns dirão que o passado deve ser enterrado com o seguinte epitáfio: O que passou não interessa! Ledo engano. Desde os sobrenomes familiares, num percurso desde avôs, bisavôs, tataravôs, tudo é importante se conhecer. Basta uma olhada para as primeiras raízes dos Sousa, dos Feitosa, dos Lucas, dos Sá, dos Cardoso, por exemplo, para se ter um livro aberto sobre a história de Poço Redondo.
Alguém já procurou saber o porquê de a Rua de Baixo ficar numa parte alta da cidade e a Rua de Cima ficar na parte mais baixa? Coisa sem importância, alguns dirão. Mas não é assim não. Quem não conhece sua história familiar nem as raízes e fatos peculiares de seu berço de nascimento é um verdadeiro apátrida de si mesmo e de sua terra.
Algum jovem estudante dirá que o nome Riacho Jacaré vem do fato de aquele riozinho que corta a cidade ter sido, no passado, lugar de muitos jacarés de beira d’água. O que o professor dirá, confirmará ou não? Ou vai contar outra história? Difícil que o próprio educador se saia bem pelo fato do desconhecimento histórico. Não todos, mas grande parte dos professores de Poço Redondo sequer sabe o porquê de “Poço Redondo”.
Tô inventando não. Conheço o interesse pela história de Poço Redondo como a palma da mão. Mas uma só mão, pois a outra ainda é carente de muita sabedoria e conhecimento. Alegro-me quando ouço novos causos sobre João da Bicha, sobre Julinho do Cassimicoco, sobre Tonho Bioto, sobre Tonho Doido, sobre Nalvinha, sobre Expedido, Manezinho Tem-Tem, sobre Seu João Fotógrafo, sobre Zé Goiti, Zé Aleixo, Dudu Ribeiro, Agenor da Barra, sobre João de Virgílio, sobre Maninho e Zé de Bela. Sobre Zé de Julião, então. Será que vale a pena se debruçar sobre a história grandiosa e espetacular de Dionízio Cruz?
Gente, as molduras e os retalhos do passado, as relembranças de pessoas de Poço Redondo ou que marcaram presença no seu cotidiano, é o que nos tornam conhecedores e mais aproximados com toda a sua existência. Pois bem, voltando à Rua dos Vaqueiros, então pergunto: o que você sabe sobre a Rua dos Vaqueiros e o porquê desse nome? Atualmente, quem andar pela Avenida Alcino Alves Costa estará caminhando sobre a Rua dos Vaqueiros, a mesma que também é chamada de Rua de Baixo e já foi Avenida 31 de Março e Avenida Poço Redondo.
Sim, todos estes nomes para uma só avenida. E Rua dos Vaqueiros pelo fato de ser naquele local que moravam alguns dos mais importantes vaqueiros de Poço Redondo, ou residiam, conviviam ou possuíam famílias ali. Vaqueiros da estirpe de Mané Cante, de Tião de Sinhá, de Abdias, de Bastão Joaquim, dentro tantos outros. Nas suas calçadas cotidianamente estavam Humberto Braz, João Paulo, Chico de Celina e muito mais. Localidade de moradia de Ulisses, de Neguinho, de Messias de Zé Vicente, de Liberato, de Ireno Cirilo, de Né Cirilo, de Manezinho de Céu.
Por ali também a vaqueirama que retornava das lidas ao entardecer e iam molhar a goela com casca de pau. Os Vito só viviam por ali, até mesmo Alzira que quando amanhecia com o lenço virado na cabeça também experimentava uma quixabeira. Galego do Alto, o ferreiro maior, descia de seu mundo e só retornava já calibrado de casca de pau. Rua também dos aboios, das toadas, dos causos e proseados sobre a rotina sertaneja. Alcino e Dona Peta também já moraram ali. Eu já morei ali.
Hoje é Rua dos Vaqueiros apenas na memória, mas tudo bem. Também na memória aqueles vaqueiros que tanto orgulho ainda nos lega. Na mesma Rua dos Vaqueiros onde antigamente as sertanejas passavam com potes e latas na cabeça em direção ao tanque. Hoje está muito diferente. Quase tudo comércio. Apenas Dona Marietinha ainda sentadinha na sua calçada para avistar saudosamente o passado.


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Lá no meu sertão...


O tempo e o vento...



Tanto faz (Poesia)



Tanto faz


Tanto faz
não é assim que se diz?

queria assim não
no peito a desilusão
no olhar a aflição
no ser a devastação
em tudo a solidão

tudo já fiz
mas de tudo incapaz
então tanto faz.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - por favor, alguém acenda o candeeiro



*Rangel Alves da Costa


Por favor, alguém acenda o candeeiro! A noite está fria, de escuridão, e já orei, já roguei, mas tudo continua muito difícil. Por favor, alguém acenda o candeeiro. Mesmo que eu quisesse, na situação em que estou, eu não teria forças para nenhum passo. Não faz muito tempo que perguntei: Eli, Eli, lhama sabactani?! Deus, meu Deus, por que me abandonaste?! A chama da vela sequer me iluminou, a força da prece nada me reacendeu, a fé que tenho em nada surte efeito. Todas as luzes do mundo ao meu redor e ainda assim apenas a escuridão. Estou triste, melancólico, aflito. Preciso de uma luz, preciso de uma luz. Preciso de uma sagrada lux, de um feixe divino de paz e contentamento. Mas antes que o meu bom escute e atenda minhas preces, peço que, por favor, alguém acenda o candeeiro!


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sexta-feira, 13 de julho de 2018

MARIAZINHA



*Rangel Alves da Costa


Mariazinha. Apenas este o seu nome. Todo mundo a chama assim, apenas Mariazinha. Contudo, tal nome pode ser o de muitas outras mulheres, outras jovens e mocinhas. E assim por que a vida, os dramas e as alegrias de Mariazinha podem espelhar o jeito de ser e viver de qualquer outra mulher. Seguem, então, três pequenas histórias sobre ela.
Encontrei Mariazinha derreada no umbral da janela e tão triste estava que mais parecia uma flor murcha em desolação. Aproximei um pouco mais e senti que a bela mocinha pranteava, então perguntei por que chorava assim, vez que tão bela como flor na janela, talvez uma Cinderela e dona da felicidade. Mariazinha apenas me respondeu: “Por nada”. Insisti na indagação e novamente ela falou bem baixinho, soluçando e com voz quase inaudível: “Por nada. Foi um cisco no meu olho”. Também entristecido, silenciei algum instante para depois, de costas pra ela, dizer: “Os ciscos, Mariazinha, causam mesmo um aperreio danado, mas geralmente num só olho e os seus dois olhos lacrimejam igualmente. Também acho que a ventania traz muito cisco por aqui. Todos os dias entram ciscos no seu olho, Mariazinha? Desculpe dizer, mas todo dia encontro você assim entristecida e chorosa. Toda dia eu passo por aqui e sempre a encontro derramando uma infinidade de lágrimas. Pode me dizer, sou seu amigo, o que está havendo Mariazinha? Sei muito bem que a alma possui ciscos inseparáveis, sei muito bem que a solidão causa ciscos até dolorosos demais. Mas sua lágrima não é trazida pelo grão na ventania, mas pela felicidade que você deixa que o vento leve. Chore não. Amanhã voltarei e você poderá me dizer a verdade”. Dei menos de cinco passos e logo ouvi a voz de Mariazinha: “Mas ele não me quer!”. Era o que eu esperava ouvir. Então, olhei na sua direção e disse: “Ele tá certo de não querer. Quem quer uma mulher chorona? Sorria, coloque flor no cabelo, seja a mais linda do mundo. Depois feche essa janela e vá ser flor. Toda paixão deseja uma rosa”.
Doutra feita, mesmo ao longe eu avistava Mariazinha jogando pedaços de papel pela janela. Certo dia, depois que ela fechou a janela, eu segui até o beiral do jardim e comecei a abrir cada papelzinho daquele. Coisa feia eu fiz, reconheço, mas o que eu encontrei justificativa toda minha curiosidade. E assim porque num papel estava escrito: “Doces os versos que cantam o meu coração. Uma canção tão bela que resplandecem como um Sermão. Mas quem sou eu para ser feliz assim, se sei que todo sim em mim é sempre uma desilusão”. E noutro avistei: “Hoje a borboleta não veio. Hoje o colibri não veio. Hoje a folha seca não veio. Hoje nem um pássaro nem um madrigal. Ontem tudo estava aqui e hoje nada veio. Será que eu estou em mim ou também saí?”. E ainda noutra: “Minha boneca de pano nunca mais falou comigo. Sequer olha para mim e me dá um sorriso. Creio que me ouviu dizer que gostava muito de boneca de milho, daquelas de cabelos amarelados e lisinhos. Mas eu estava só brincando. Mas nisso tudo aprendi a importância de quem nunca nos fala, mas sempre diz tudo. Minha boneca de pano é minha amiga, a única que tenho. E nada na vida eu faria para enraivecer. Vou pedir desculpas a ela e deixar que adormeça no meu colo”.
Por fim, Mariazinha, como sempre, mostrava-se totalmente diferente das outras mocinhas. Sua janela era sua vida, porém sempre melancólica e entristecida. O que a diferenciava, contudo, era o desapego a roupa nova, a roupa nova, a enfeites e brincos, a tudo que fosse modismo. Gostava de andar de pés no chão, totalmente descalça. Gosta de colocar uma flor no cabelo. Gostar de pendurar no pescoço um cordão com conchas do mar. Então ficava muito mais bela, muito mais bonita. Caminhando, na beleza e na leveza de seu corpo, mais parecia uma rosa passando toda perfumada. Não havia perfume, apenas seu aroma feminino e tão encantador. Por isso mesmo que é difícil entender por que Mariazinha tanto sofre, tanto chora, tanto agoniza na sua janela. Mas sei. O amor ou suas armadilhas. O amor e suas tramas de doer n’alma.


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Lá no meu sertão...


Enquanto a caravana passa...



Cor do dia (Poesia)



Cor do dia


Não sei se o dia
está assim
vermelho
amarelado
ou carmim

só sei que sua cor
tá tão escura em mim
sem sol por dentro
sem lua de cetim
cor de tristeza
e dor sem fim.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - noite fria



*Rangel Alves da Costa


Agora, na altura da leitura, já é dia e o sol já se incumbiu de a tudo aquecer. Mas a noite era fria no instante deste escrito. Mas não apenas o frio do clima, da estação, do período chuvoso, e sim o frio da ausência, da saudade, da solidão, do querer ter o outro pertinho feito cobertor. E não há frio mais gélido e nevoento que o frio noturno da solidão. Não há vinho ou uísque que faça passar, não há lareira ou cama quente que faça passar. É frio que adentra a alma, que consome as entranhas, que atormenta a vida. Retratos de recordação, imagens de lembranças, pensamentos de saudade, tudo como se jogasse em nudez numa fonte gelada. A vontade da presença, o desejo de querer ter, a ânsia de abraçar, a necessidade de chegar mais juntinho e se agasalhar bem dentro do outro. Sim, meu amor. É você mesma que tanta falta me faz. Sobre mim despeje todo esse calor perfumado de amor!


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quinta-feira, 12 de julho de 2018

DOIS VELHOS



*Rangel Alves da Costa


Era uma vez dois velhos. E dois velhos da mesma idade, octogenários, igualmente carregados de tempo, de marcas na face, de livros escritos em tantas histórias. Dois velhos viventes num mesmo mundo, pois na capital e tão perto de tudo. Pelos desatinos da vida, os dois também viúvos, carregados de filhos, netos e até bisnetos. Quase tudo igual entre os dois. Quase por que uma diferença fundamental entre eles: os modos de viver a velhice.
Verdade que a velhice é da normalidade da vida e que, cada vez mais, pessoas avançam na idade. Nossos idosos estão por todo lugar. São avistados passeando na praia, no shopping, nos calçadões, sentados em praças, caminhando pelos arredores, fazendo compras, descansando em cadeiras pelas calçadas, jogando dama e dominó debaixo dos pés de paus, dialogando com jovens ou pessoas da mesma idade. São avistados assim, porém nem todos. E eis outra diferença fundamental: a velhice da convivência e a velhice da solidão.
Os idosos geralmente possuem familiares de sua descendência. Quase sempre vivem ao redor da família. Os netos até parecem gostar mais dos avôs que os próprios filhos. É do comum da linhagem familiar que haja preocupação de uns para com os outros. De certa forma, mesmo não dividindo a mesma casa ou mesmo que ao menos um quarto esteja permanentemente reservado para a paternidade maior da família, a proximidade é o que sempre se imagina haver. Ademais, até mesmo pela idade e pelas carências, o idoso sempre necessita de olhares especiais dos seus, também uma forma de reconhecimento e respeito. Mas então surge mais uma diferença fundamental: a velhice reconhecida e acolhida e a velhice simplesmente abandonada.
A velhice, como dito, sempre necessita de cuidados especiais. A idade avançada vai trazendo problemas de toda ordem. Seu corpo já está fragilizado, seu organismo já não possui as defesas necessárias contra as enfermidades mais costumeiras. Um simples desconforto ou uma mera queda pode provocar um grave problema na estrutura óssea. Ademais, mesmo a junção de tempo e de experiências de vida, é na velhice que os sentimentos afloram com mais pujança, que as nostalgias podem transformar recordações em angústias, sofrimentos e depressões. Como bem diz o ditado, nesta fase da vida se reencontra, forçadamente, o estágio da criancice, o retorno ao mundo infantil, como a dizer que o velho passa a requerer os mesmos cuidados de uma criança. Não sempre assim, mas quase sempre. Neste passo mais uma contradição fundamental: a velhice cuidada e a velhice relegada aos cuidados de si mesma.
Mesmo os mais jovens e ainda mais na velhice, o controle se torna em elemento essencial na manutenção da existência. Muitas vezes, o velho é teimoso, é ranzinza, não aceita nenhum controle, vive dizendo que sabe muito bem o que fazer. Outras vezes, por achar que já viveu demais e nessa altura da existência já se tornou um fardo difícil aos seus, simplesmente vai abdicando de todo cuidado que deveria ter consigo mesmo. Não faz exercícios, não faz caminhada, não toma o remédio na hora certa, não repousa de forma conveniente, não procura se alimentar conforme o prato mais condizente à sua idade. E nem sempre há algum parente por perto para levar a medicação na hora certa, para lembrar sobre as prescrições médicas, para não deixar que ele coloque na boca tudo o que tiver vontade. Então surge mais uma questão fundamental: a velhice que vive aos olhos da família e a velhice que vive na cegueira do tanto faz.
Todas as questões levantadas acima, todas elas se voltando para uma possível explicação posterior acerca de duas formas de velhice: a velhice amparada e a velhice esquecida. Do mesmo modo, o idoso que vive aos cuidados dos seus e o idoso que sequer tem família que lhe lance um olhar. O texto foi intitulado de “Dois velhos” neste sentido, como forma de analisar as contradições havidas nesta fase tão bela e tão problemática da vida, que é a velhice. Dois velhos por que se pressupõe um velho que vive sua idade sem problemas financeiros, sem falta de cuidados médicos e medicação, sem problemas de alimentação, e, o que é mais importante, com o todo o cuidado, valorização e respeito de sua família. E outro velho. Este vivendo sem nada ou com parca aposentadoria, convivendo com a solidão da viuvez e no distanciamento dos seus. Quer dizer, filhos e netos sempre ausentes e que sequer procuram saber se ainda vive ou se já morreu.
Pode mesmo parecer espantoso, mas muito mais comum do que se imagina. Por perto e distante existe uma velhice completamente abandonada, esquecida, quase de inexistência social. Enquanto uns são levados por suas famílias para passeios, praias, shoppings, cinemas e tudo o mais, outros vivem na escuridão do esquecimento, da pobreza, da carência de tudo, principalmente de carinho e afeto. Quem dera fosse apenas uma digressão descritiva, mas muito mais realista do que imagina nossa vã filosofia sobre a velhice. Saibam, pois, que há uma velhice que vive sob os túmulos da viva vida.


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Lá no meu sertão...


Dona Marieta (Mãeta), minha avó materna



Novo tempo de viver (Poesia)



Novo tempo de viver


Há um silêncio em mim
que precisa de voz e gritar
há uma solidão em mim
que precisa viver e amar
há um sofrimento em mim
que precisa de vez apagar

meus olhos não querem chorar
minha boca não deseja veneno
minha face não quer a aflição
meu passo não quer mais ficar
e hoje já abri a porta e a janela
e só desejo um sol e um girassol.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - proezas da feijoada



*Rangel Alves da Costa


Vem aí a 14ª Feijoada do Raí. Sim, esta será a 14ª Feijoada do Raí por que as anteriores foram todas realizadas nas beiradas do São Francisco, em Curralinho, seu berço de nascimento e onde pretende se tornar vigário e prefeito. Aliás, tão famosas são as feijoadas preparadas por Raí que o mesmo já cozinhou a iguaria sertaneja até mesmo para Lampião e seu bando. Certa feita, tendo tomado conhecimento da maestria do ribeirinho Raí no preparo de feijoada, Virgulino Lampião ordenou ao coiteiro Mané Félix que fosse até Curralinho e de lá trouxesse o rapaz para o preparo de uma panelada. Assim que recebeu a ordem, tão nervoso Raí ficou que sequer perguntou ao coiteiro se as carnes, os toucinhos e o feijão já estavam no coito. Tremendo feito vara verde, subiu na canoa de seu avô Valter e lembrou de levar apenas duas panelas grandes e três quilos de feijão preto, mas nada dos preparativos. Ao chegar diante do Capitão, perguntado se havia trazido tudo, o coitado do Raí - temendo o pior - disse que sim. Foi quando pediu licença para preparar a feijoada um pouco mais afastado e logo inventou o inesperado: feijoada de bode com preá. Matou um bode que encontrou ao redor, caçou de dez a quinze preás, depois botou toda a carne fresca dentro do panelão de feijão preto. Os cangaceiros comeram de lamber os beiços e repetir, somente Lampião de vez em quando dizia que estava sentindo um gosto meio diferente. Ao ouvir isso, já se mijando de medo, Raí apenas dizia: “Foi o toucinho que não veio apurado Capitão!”. Dessa se salvou por pouco. Mas não foi a primeira vez que Raí se meteu a inventar feijoada. Em Curralinho mesmo se meteu a fazer feijoada de peixe e quase leva a pior. Assim que soube da intenção do rapaz, que já havia encomendado dez quilos de surubim para colocar no feijão, João de Virgílio correu e foi contar a história a Ciano, seu tio. Quando soube da conversa, Ciano jogou o chapéu de lado, pegou um taco de sinuca e correu em direção à beirada do rio onde Raí estava. Só não apanhou no lombo por que entrou nas águas e com uma braçada só foi parar no Pontaleão. Mas dessa vez, na 14ª Feijoada, prometida para ser realizada no Memorial Alcino Alves Costa, Raí prometeu iguaria da boa e da melhor. Vamos aguardar, sem surpresas!


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quarta-feira, 11 de julho de 2018

SOBRE AMORES DESFEITOS E VENTANIAS



*Rangel Alves da Costa


As separações, os adeuses, as brigas, as despedidas, os términos e as desavenças, jamais serão um tanto faz. Ao menos para aqueles que, mesmo fragilizados, nutriam algum sentimento.
Quando o laço é desfeito e cada um tem que tomar outro rumo, logicamente que vai levando consigo a dor, a angústia, a aflição e, quem sabe, já a saudade de um distanciamento tão recente.
Mentira - e absoluta mentira - de quem disser que um rompimento nada provoca, ou, como tentam fingir, apenas abre caminho para uma nova vida, para um renascimento. Não é assim não.
Toda despedida vem acompanhada de um doloroso processo de refazimento do próprio ser. Ora, o amor não é brincadeira, o compartilhamento de sentimentos não é um simples joguete, as relações não são tão fugazes assim que provoquem um tanto faz após o seu término ou até o mero distanciamento.
Quem ama não desama quando o outro dá as costas, quem ama não desapega no instante seguinte ao afastamento, quem ama não inventa “outro amor” apenas para dizer que está bem.
Quem ama, ama. Quem ama permanece amando até que as chamas do impossível amor vão se apagando e em cinzas se transformem de vez. E não de modo tão fácil como se imagina.
Mas, como dito, tudo a partir de um doloroso processo de refazimento da alma, do espírito, de todo o ser. Processo este que envolve tristeza, que chama a lágrima, que traz a saudade.
E não é covardia ou fraqueza mostrar que as sombras daquele adeus ainda permanecem. Não é covardia fazer aflorar os sentimentos e até de modo mais visível que o jamais feito no passado.
Feio é fingir, inaceitável é dizer que está bem melhor sem o outro, inadmissível é, como dito, “inventar alguém” para fingir estar amando e dizer que já deu a volta por cima. Mas nem todo mundo é assim.
Muita gente vive mesmo no e do tanto faz. O amor é feira, o sentimento é banal, o coração é sem janela ou porta. Eu sou daqueles que pensa muito diferente. Eu sou daqueles que trata o amor com o respeito que o amor exige.
Como diz a música, se é pra chorar eu choro, se é pra sofrer eu sofro, se é para sentir saudades eu não meço distância. Tudo por um amor que, ao invés de fingido, sempre vale a pena ser amado, mesmo depois do distanciamento.
Do contrário, qual a valia de tudo aquilo já vivido ao lado do outro? Por fim, é bom lembrar que todo coração de pedra não passa de um lenço aberto esperando ser molhado de lágrimas.


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Lá no meu sertão...


Matriz de Nossa Senhora da Conceição - Poço Redondo/SE







Tô triste (Poesia)



Tô triste


Tô triste
muito triste
sim

quem ama
desalegra
sem amor

quem ama
lacrimeja
a distância

e quem dirá
o adeus
o adeus.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - as boas intenções de Malala num país de péssimas intenções



*Rangel Alves da Costa


A paquistanesa Malala Yousafzai, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz e ativista dos direitos humanos, está visitando o Brasil e, ao que nos parece, sem conhecer bem o tipo de importância que os mandatários deste país varonil dão à educação, às igualdades, aos direitos humanos, ao conhecimento, às questões de gênero e demais questões. Significa dizer que os discursos bem intencionados de Malala e seus ensinamentos para combater meio mundo de mazelas ainda persistentes entre nós - principalmente com relação à educação - pouca ou nenhuma serventia terão. Infelizmente é assim. Sua ajuda a projetos de inclusão educacional teria valia somente até o dinheiro acabar. Depois disso será preciso mendigar internamente e sem nada conseguir. Nunca há dinheiro para a cultura, para a educação, para grandes projetos sociais. O Brasil é país de ouvir, de reclamar, de se sentir vitimizado, mas de nada fazer. O Brasil é país do tanto faz no que diz respeito à educação, ao conhecimento, ao respeito ao ser humano. Não há Malala nem qualquer outro Nobel da Paz que consiga modificar um tantinho assim da realidade brasileira. A cultura do tanto faz, da negligência e da omissão com questões cruciais, sempre dirá que é melhor deixar o país deitado eternamente em berço esplêndido. E omisso, e preguiçoso, e na desvalia de tudo.


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terça-feira, 10 de julho de 2018

O ABISMO DA CAVERNA QUE NÓS VIVEMOS



*Rangel Alves da Costa


O mundo inteiro vivenciou, comoveu-se, sofreu e chorou, com o drama dos meninos e do adulto tailandeses que durante mais de quinze dias permaneceram nas escuridões perigosas da caverna Tham Luang. O que era para ser apenas um passeio após um treino de futebol, acabou se transformando num drama de proporções mundiais. Todo o planeta passou a voltar seus olhares, rogos e orações para a caverna tailandesa.
Somente no décimo oitavo dia os quatro últimos foram resgatados por uma força-tarefa internacional. Entraram para se proteger das chuvas, mas foram adentrando mais e mais com a força das águas que iam inundando cada recuo que davam. Por fim, foram dados como desaparecidos até se transformarem em angústia mundial. Felizmente resgatados com vida, sem danos aparentes ou ferimentos, deixaram algumas lições que por muito tempo estarão escritas.
No caso da caverna Tham Luang, a certeza dos perigos que rondam os desconhecidos. Muitos são os perigos presentes em campo aberto, em terra firma, rente e acima do chão, imaginem-se os contratempos que estão ocultos nas fendas escurecidas, nos subsolos longínquos, nos subterrâneos assustadores. Da boca da caverna em diante, ainda que a mesma já tenha sido explorada, sempre algum temor pelo inesperado. E mais ainda quando a sua entrada de repente é fechada por águas que insistem a tudo inundar.
Sempre há perigo. Os exemplos são muitos dos pesadelos escondidos em tais abismos. A literatura é farta em fazer da caverna uma simbologia de confronto com o desconhecido. Sempre há encontro com o inesperado, sempre há luta para retornar, sempre há o terror perante a escuridão. Ora, dentro da caverna há um verdadeiro submundo povoado pelo desconhecido. Neste sentido ontem mesmo escrevi:
“[...] a caverna tem se mostrado como um local que abriga em si o mito, a lenda, o medo, o mistério, o segredo, o inexplicável. Ora, desde os tempos primitivos que ficar aprisionado em caverna significa se manter num pêndulo entre a vida e a morte. Numa caverna Platão situou o seu mito da difícil escolha. O Minotauro vivia nos labirintos de uma caverna, assim também a Medusa e outros seres vencidos por Ulisses na sua odisseia. Na caverna o belo e o inexplicável, os subsolos assustadores e as formações encantadoras. Dizem que seres extraterrestres fazem suas bases em cavernas. Dizem também que suas entranhas possuem portais não só para o além como para o negro submundo. Dizem muito sobre as cavernas, e geralmente como lugares espantosos e assustadores. E agora, perante o acontecido na Tailândia, há a comprovação que nestas fendas terrestres há muito mais mistérios e perigos do que imagina nossa vã filosofia”.
A caverna, contudo, serve como alusão a muito mais. Não queremos aceitar, mas vivemos ao redor e dentro de cavernas. Não queremos admitir, mas vivemos procurando cavernas, quase sempre estamos nos afastando da luz em busca de sua desconhecida escuridão. No ser humano há sempre a propensão para fugir do lugar seguro, para sair de onde lhe dê segurança e paz, indo sempre em busca das fendas aterrorizantes. Muitas vezes, arrisca-se apenas pela aventura, mas depois por se deixar entranhar noutros mundos que não os seus.
A caverna está, ameaçadoramente, presente em tudo. Está constantemente chamando o ser, está sempre dizendo que não é ruim se arriscar para aprender com o perigo e o sofrimento. Quando a pessoa não vai, não aceita entregar-se ao desconhecido, eis que a caverna da realidade se mostra à sua frente. E, infelizmente, dessa não há como fugir. Não há como fugir da vida. E esta vida, que tanta luz e tanto sol vai mostrando a cada um, também revela os encontros com os inesperados e os dolorosos.
A cada passo a dor e o sofrimento, a cada pedaço da estrada as angústias e as desilusões. Ninguém quer que seja assim, mas a caverna exige que padeça e sofra, que se submeta e saiba vencer. Noutras vezes, os abismos que se abrem pelo próprio chamado do ser. Cavernas das drogas, fendas dos desregramentos, buracos dos desnorteamentos da vida. Enquanto uns lutam até o fim para vencer os abismos, estes simplesmente vão afundado, indo mais e mais em busca dos precipícios, até que tudo se fecha de vez.


Escritor
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