SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 31 de agosto de 2015

OUTRAS CONSIDERAÇÕES ACERCA DA LEI DAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS DE POÇO REDONDO


Rangel Alves da Costa*


Como já afirmei em texto anterior (O Projeto de Lei das Organizações Sociais de Poço Redondo – uma análise), a pretensão do prefeito de Poço Redondo com a aprovação da Lei das Organizações Sociais é tão somente para administrar, através das entidades que serão criadas, sem ter de cumprir as exigências legais da licitação na contratação de serviços.
É que as organizações sociais, consideradas como entidades sem fins lucrativos, de interesse social e utilidade pública, estão dispensadas de fazer licitação. Significa dizer que os serviços prestados nas áreas onde atuarão – saúde, educação, obras, assistência social, etc. – serão contratados sem ter de cumprir todos os regramentos do processo licitatório.
O problema é que as organizações atuarão como se fossem a própria prefeitura, com recursos provenientes desta, com funcionários desta, sob o comando de uma equipe escolhida pelo próprio prefeito e sob o total controle deste. Será o prefeito mandando ou desmandando em dois lugares: na prefeitura e nas organizações. E se não comanda com eficiência sequer uma prefeitura, imagine-se com duas atribuições de poder.
As organizações farão os mesmos contratos e prestarão os mesmos serviços de uma prefeitura. Só que sem licitação. Repita-se: os contratos que hoje são celebrados pela prefeitura passarão para as organizações, mas sem licitação. E a lei diz que um dos órgãos que fará a fiscalização das organizações é o “Tribunal de Contas do Município”, órgão, aliás, inexistente.
É a dispensa de licitação na celebração de contratos que está fazendo com que o prefeito municipal tanto tenha se empenhado para a aprovação da Lei das Organizações Sociais. Não há outra motivação para que faça ameaças de parar o município, desempregar, fechar serviços essenciais, senão a sede de ter às mãos – e a seu bel-prazer – um instrumento para fazer contratos sem licitação. Alguém sabe por que é tão bom fazer contratos sem precisar de licitações?
A verdade é que o prefeito municipal, no afã de lançar mão de instrumento tão generoso, vai blefando a torto e a direito. Em primeiro lugar, acaso faça o que vem dizendo, ou seja, fechar tudo, desempregar meio mundo de gente, deixar de prestar serviços essenciais, poderá ser objeto de impeachment. Bastaria que existisse uma verdadeira Câmara Municipal em Poço Redondo e vereadores compromissados com o município e não apenas apadrinhados do gestor municipal.
Acaso o prefeito aja segundo vem propalando, estará aberto o caminho para ser denunciado na Câmara Municipal. Denunciado pelos próprios vereadores, partidos políticos ou qualquer eleitor. A denúncia deverá envolver uma infração político-administrativa. Ora, se até o presente momento a prefeitura vem recebendo verbas regulares para a manutenção dos serviços essenciais e de repente diz que nada mais será prestado se a câmara não aprovar projeto de seu interesse, logicamente que está praticando infração administrativa.
No momento, o posicionamento contrário ao projeto das organizações sociais é uma questão de bom senso e de preocupação e precaução com o próprio futuro do município. Uma administração que se reconhece como ineficiente, mesmo com o recebimento regular de verbas e mais verbas, não se tornará em nada mais eficiente transferindo suas responsabilidades para as organizações sociais. O olho grande está é na dispensa da licitação, e apenas isto.
Ninguém é obrigado a conhecer os termos de uma lei. As leis, tantas vezes, possuem armadilhas nas suas entrelinhas. E esta das organizações foi feita com tal formatação, perigosa demais na sua aplicabilidade, pois contém instrumentos que concedem demasiados poderes ao gestor municipal. Creio que aqueles vereadores que possuem dificuldades de leitura e interpretação deveriam pedir auxílio a alguém responsável.
Por outro lado, muito estranho que a iniciativa de tal projeto surja já depois de tanto tempo de descalabro administrativo e já próximo ao último ano de gestão do prefeito. Muito estranho que haja tanto esforço e tanta ameaça no único intuito de fugir das licitações. E também muito estranho que alguém de mínimo entendimento diga que esta lei é a salvação da pátria. Qual pátria?
Por fim, inadmissível que um vereador diga que apoia a lei porque esta obedece aos princípios legais. Legal pode ser, mas não deixa de ser imoral. E de imoralidade explícita. O simples fato de transmudar os poderes e verbas orçamentárias de uma administração municipal para entidades que serão controladas pelo próprio prefeito, e com dispensa de licitação nos contratos que realizar, já permite imaginar que dessa flor não sairá bom perfume.


Advogado e escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lua de ouro e prata


Lua de ouro e prata


Já fui rico
muito rico
tive ouro
tive prata
porque tive a lua

a lua de lá
do meu sertão
tão dourada
e tão prateada
era toda riqueza

com a riqueza
daquela lua
eu tinha tudo
até empobrecer
na lua da cidade.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: a solidão da solidão


Rangel Alves da Costa*


A solidão da solidão. Já pensou em tal solidão? Se ela existe em pessoas, igualmente existe nos seres, nos fenômenos, nas situações existenciais. Todo mundo sabe que a pedra é o ser mais solitário que existe. Não só solitária como incompreendida. Imaginam a pedra como algo insensível, bruto, fechado em si mesmo. Ledo engano. Nada mais terno e afetuoso que a pedra. A pessoa é sempre acolhida silenciosamente no seu leito e com a própria pedra pode dialogar e segredar o que desejar. Também o vaga-lume é solitário e triste. Vejo como terrível a solidão do orvalho, da folha ao vento, da flor do campo nas distâncias do mundo. Mas creio que ninguém ainda havia considerado a solidão da solidão. Quando o solitário sai, deixa o vazio, deixa o silêncio, deixa apenas o espaço, então é a solidão da pessoa que se foi que fica na solidão. Há um quarto e nele uma pessoa solitariamente amargurada. Chora, sofre, quer sumir, quer morrer, quer viver um amor desfeito, quer qualquer alimento de luz. Mas ali só existe a solidão. Então, depois de todo sofrimento, acaba abrindo a porta e vai em busca de qualquer motivação para viver. Mas o quarto ficou e nele a solidão existente. A solidão que amargurava a pessoa ausente simplesmente se vê sozinha, solitária, triste, angustiada. E que coisa mais triste é a solidão da solidão. Apenas o silêncio da dor e do sofrimento. E pelo ar aquela terrível sensação de almas acorrentadas que caminham naquela direção. Mas nada mais que os espectros da absoluta escuridão da alma daquele lugar, daquele quarto sozinho e solitário.


Poeta e cronista
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domingo, 30 de agosto de 2015

O PROJETO DE LEI DAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS DE POÇO REDONDO – UMA ANÁLISE


Rangel Alves da Costa*


Casualmente, chegou-me às mãos uma cópia do Projeto de Lei nº 09/2015, que dispõe sobre a qualificação de entidades sem fins lucrativos como Organizações Sociais, encaminhado em regime de urgência pelo prefeito municipal Roberto Araújo à presidência da Câmara Municipal de Poço Redondo, na pessoa de sua presidente Maria José de Andrade Lima.
Da leitura e análise do referido projeto, o primeiro aspecto a ser observado é que o mesmo aparenta ser uma simples cópia de documento similar elaborado em outro município. Impossível chegar a outra conclusão, principalmente pelo fato de o mesmo conter dispositivos incompatíveis com a realidade legislativa e administrativa de Poço Redondo.
Prova disso está na previsão contida no parágrafo único do art. 1º e no art. 9º, afirmando que o contrato de gestão será fiscalizado pelo “Tribunal de Contas do Município”. Até que se prove o contrário, não se tem conhecimento que haja um Tribunal de Contas em Poço Redondo.
Tal aspecto, logo conduz à verificação de que não se trata de um documento legislativo original ou ajustado à realidade municipal. A aprovação de um projeto de tal ordem pela Câmara Municipal, na forma como foi proposto, é assumir o risco de um descalabro administrativo ainda maior em Poço Redondo, vez que outorga poderes para que o prefeito municipal crie organismos de administração paralela ao próprio município, e estes com recursos da própria municipalidade. E traz outras graves consequências, como adiante será demonstrado.
Quando, na justificativa, o prefeito Roberto Araújo afirma que a finalidade das Organizações Sociais é permitir que a administração municipal transfira a estas a gestão de certas atividades, dotando tais organizações de verbas orçamentárias municipais, nada mais significa que organizações paralelas à prefeitura – porém atuando com dinheiro do município - e geridas por pessoas que certamente serão escolhidas e influenciadas pelo próprio poder municipal, chamarão para si a responsabilidade pela prática de ações que não vêm sendo realizadas a contento pela gestão municipal. Contudo, o objetivo é implicitamente outro.
Há um reconhecimento explícito da ineficiência administrativa da gestão municipal. Com a desculpa de que a ineficiência terá fim com a outorga de poderes para que organizações façam aquilo que a prefeitura não faz, o que se pretende é permitir uma administração paralela. E há de se indagar: se mesmo com as verbas municipais a prefeitura age de modo tão ineficiente, que eficiência deverá ser esperada de organizações que prestarão serviços com as mesmas verbas municipais? Transferem-se apenas as responsabilidades pelo caos administrativo.
Como bem diz o referido documento legislativo no art. 14, as organizações sociais prestarão atividades com recursos municipais. Mais uma vez comprova-se que a gestão municipal irá transferir valores dos cofres públicos para que as entidades atuem. Esvazia-se de um lado e abocanha-se do outro. A prefeitura deixa de exercer suas atividades precípuas e as transfere para as organizações. E surge um problema: Diferentemente da prefeitura, as organizações sociais estão dispensadas de fazer licitação quando contratarem com recursos do município.
Quando, no art. 13, o documento legislativo diz que as organizações sociais “ficam declaradas como entidades de interesse social e utilidade pública, para todos os fins legais”, é precisamente para lhe permitir um tratamento jurídico diferenciado. E tal tratamento diferenciado irá beneficiar tão somente a prefeitura municipal que, atuando através da organização, ficará dispensada de fazer licitações. Quer dizer, uma porta aberta para o surgimento de fraudes, desvios e outras práticas ilegais.
Demonstrado está que as organizações atuarão como entidades paralelas à administração municipal: com servidores da prefeitura (que serão transferidos para as organizações, por ato do prefeito, porém mantendo todos os direitos de origem), com dinheiro da prefeitura, com estrutura de funcionamento providenciada pela prefeitura, com controle interno do prefeito municipal, com Secretário Municipal responsável pela Comissão de Avaliação. Quer dizer, é outra prefeitura atuando como organização social.
De modo particular, opinando apenas como advogado, pesquisador, escritor e cidadão poço-redondense, creio que a Câmara Municipal não deve ou deveria ir de encontro ao bom senso. Seria total insensatez aprovar uma lei que reconhece a ineficiência administrativa do gestor municipal e em compensação cria uma administração paralela, através das organizações sociais. Organizações estas que atuarão com as já deficientes verbas municipais, mas com o único e exclusivo objetivo de estarem dispensadas de fazer licitações.
E em Poço Redondo, quando o assunto é licitação, praticamente todos os munícipes tem conhecimento dos problemas já ocorridos. Portanto, aprovar uma lei que justamente dispensa a licitação é atitude não só perigosa como irresponsável.


Advogado, escritor, orgulhoso filho de Poço Redondo
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A pedra e o vento (Poesia)


A pedra e o vento


Porque deixei de ser pedra
porque deixei de ser ferro
porque deixei de ser força
porque deixei de ser imbatível

somente agora sei o que sou
somente sou a folha no tempo
somente sou o instante de agora
somente sou a chama ao vento

e como agora tão humano sou...


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: na boca da noite


Rangel Alves da Costa*


A noite tem boca, tem boca sim. E ela começa a se abrir quando o sol se põe e as sombras se espalham pelos horizontes. É momento de magia sem igual. As luzes do dia vão se despedindo e as cores da noite vão avançando. Não durará muito e o negrume abrirá a porta para o passeio do vaga-lume. Mas um pouco antes disso, já chegando às seis horas, começa a haver uma verdadeira transformação por todo lugar, principalmente nas regiões interioranas sertões adentro. Nestes lugares, a boca da noite é verdadeiro chamado a costumes e tradições, através de preces e outros preparos. Mesmo antes das seis e a mulher lança mão de seu rosário de fé e começa a invocar a grandeza de seu Deus e a benevolência de santos e anjos. Acende a vela, ajoelha-se perante o oratório, então se entrega ao diálogo mais verdadeiro e proveitoso que existe. Pede pelo filho, pelo esposo, pela família, pelo fim da estiagem, pela paz e felicidade de todos. O fogão de lenha já estava aceso e tendo por cima uma chaleira de café cujo aroma perfumado já começa a tomar os espaços. O cuscuz cheira noutro fogão, em seguida será a vez dos ovos de capoeira com toucinho, da perna de preá ou da tripa de porco. Alimento e sustento do homem das distâncias do mundo. O homem da casa, que a essa altura já virou duas talagadas de casca de pau, agora somente observa as cores enegrecidas do horizonte. Mesmo na escuridão será possível perceber os sinais de chuva. Mas apenas a lua imensa e um céu estrelado. A aragem transformada em ventania vai trazendo as últimas folhas do dia. Um zunido adiante, uma canção de tempo e de vento. O silêncio da noite e a paz do instante. A voz da mulher chama para o café. No seu rosto um sinal de agradecimento. Deus é bom, imenso e tudo, silenciosamente diz já na soleira da porta.


Poeta e cronista
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sábado, 29 de agosto de 2015

NOITES VELHAS


Rangel Alves da Costa*


A cada nova noite mais tenho saudade da noite antiga. Não que eu seja tão velho assim, não que eu tenha alcançado a canção da lua imensa nos tempos passados, simplesmente porque o noturno de hoje nada mais possui que encante.
Sim, no alto uma lua, na noite um céu estrelado, mas nada igual a outros idos. Noites de magia, de encantamentos, de silêncios coniventes, de encontros furtivos, de beijos roubados, janelas entreabertas e luzes apagadas.
Noites velhas de andantes, errantes noturnos, noctívagos cheirando a limão. A voz ecoando serenatas para a mulher amada, sombras detrás das cortinas com lágrimas nos olhos e apertos no coração. E uma aragem perfumada que descia a montanha para alentar os corpos afogueados de paixões e desejos.
As ruas desertas se abriam para outros caminhos. Os passos certeiros buscavam os escuros da escuridão e os braços se davam sem a palavra tomada de beijos. Pecado mortal a traição, mas salvação da alma a entrega absoluta ao amor tão escuso como verdadeiro. E os lobos uivando nos altos das montanhas tomavam as vozes gritando de amor.
Ruas desertas, praças desertas, bancos solitários, luzes amareladas caindo sobre o misterioso deserto. Mas tudo tão vivaz como o próprio dia. Dizem que na noite tudo acontece entre sombras, pois entre brumas escurecidas os gritos silenciavam em cumplicidade total. Por isso que luzes se acendendo e se apagando pelos quartos, janelas sendo abertas e fechadas, velhas canções somente ouvidas pelos corações.
Noites velhas e tão belas. Romantismo e poesia, ternura e meiguice. O vento soprando e trazendo segredos, cartas relidas e fotografias beijadas, diários sentimentais de um tempo sem véu ou disfarce. Não, jurou que jamais choraria aquela saudade eterna, mas eis que a lua entrando na fresta parece um olhar refletindo o amor.
As moças solteironas aumentavam suas febres em noites de lua cheia. Nem a nudez castigada aplacava-lhes os desejos incontidos. Com fogo sobre o corpo e chamas no coração, se lançavam aflitas num mar de lágrimas e de sofrimentos. E nem a noite escondia a tremulidade dos lábios sedentos de beijos.
As janelas eram abertas sem medo de surpresas indesejadas. Debruçadas no umbral, as solidões inventavam motivos para suportar tanta dor. Ao longe uma canção sem acorde e sem voz. Apenas a harpa da brisa chegando para dizer não sofra. Tudo como o poema drummondiano: vamos, não chores, a infância está perdida, a adolescência está perdida, mas a vida não se perdeu...
Os gatos passeavam pelos telhados em noites assim. Seus miados agourentos, seus mios apaixonados. Quase tudo encontrava um amor, até na imprevisibilidade das telhas. Mas os quartos abaixo, com camas desforradas e lenços molhados, as saudades e as solidões se entregando apenas ao mais escurecido da dor.
Lá fora, ao longe, as luzes vermelhas cheirando a sexo. Mas nem sempre assim. Ao redor duma mesa uma velha prostituta espera eternamente um homem. Qualquer um. Bebe mais um gole e deixa as bordas avermelhadas de um batom desde muito não tocado por outra boca. Num canto, esperando cliente, a rapariga novinha sequer imagina que o espelho de seu futuro está mais adiante.
De vez em quando as nuvens escondiam o luar e as noites se tomavam de breu. Não havia nem olhar nem vozes, não havia nem sombras nem encontros, não havia nem passos apressados nem reencontros, apenas sussurros, gemidos, uma estranheza de pronúncias que somente o desejo e o prazer entendem.
Quando a madrugava chegava, a noite já estava cansada de existir. Havia se dado demais, se entregado demais, amado demais. Mas também sofrido e chorado demais. E ainda assim permanecia até a manhã despertar fazendo de conta que não sabia de nada.


Poeta e cronista
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Partir e ficar (Poesia)


Partir e ficar


Abraçou-me antes de partir
um aceno já ao longe
um adeus de sombras
e uma saudade grande
e nem sei quanto tempo
daquela minha despedida
deixando assim para trás
o eu que ainda existo

o outro eu foi buscar o sonho
um cálice de esperança
e um sopro de contentamento
e disse-me que voltaria
assim que minha tristeza
que também era tanto sua
deixar de estender nos varais
os lenços molhados de solidão.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: cais e mar no telhado


Rangel Alves da Costa*


Todas as vezes que deito e fico olhando pra cima, em direção ao telhado, encontro um mar, encontro um cais. E encontro muito mais. Há uma pedra molhada, uma onda que vai e que vem, uma gaivota sem rumo, dois barcos: um já muito distante, nas distâncias azuis, e o outro ainda na areia, à minha espera. É neste barco que viajo, que percorro ilhas, que encontro outros portos, que namoro sereias e rezo todas as preces do mundo nos momentos de tempestades. Mas nem sempre coloco o barco nas águas. De vez em quando sou gaivota voando distante, entrando e saindo das nuvens, indo além das marés para pousar no alto das montanhas verdejantes. E deixo de ser pássaro para ser fiel, deixou de ser o que sou para me prostrar ante Deus como um nada. E tão leve fico, tão fortalecido fico, que novamente alço pelos espaços cantando a cantiga de feliz passarinho. Quando não sigo no barco nem sou pássaro avoante, sou coqueiral de cais ou o silêncio das dunas. Às vezes sou concha, outras vezes sou apenas o vento. E como é boa esta paisagem no telhado, esta possibilidade surgida no pensamento e viajada por necessidade de sonhos bons. Adormeço, mas ainda me sinto lá em cima, no mar, no cais do telhado. E sempre acordo cheirando a maresia e entristecido porque no meu cais não há ninguém com flor à mão ou olhos molhados para o abraço de amor.


Poeta e cronista
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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

SERPENTE NA RUA


Rangel Alves da Costa*


Eu vi uma serpente na rua, num calçadão de cidade grande, no principal centro comercial e onde pessoas incessantemente caminham. Era uma cascavel de mais de dois metros de comprimento e com um guizo em incansável chocalhar. E dizem que quando está assim é porque está pronta para o ataque.
Não sei de onde ela saiu, mas estava lá, se arrastando lentamente pelo calçadão. Contudo, parece que eu fui o único a avistá-la. O que mais instiga é que era praticamente impossível de uma venenosa daquelas, enorme, chocalhando sem parar o seu guizo, roçando em calcanhares e pés por onde passava, e ninguém tivesse se dado conta de sua presença.
A cobra imensa entre as pessoas e estas simplesmente caminhando. Não só caminhando como sentadas em bancos ao redor daquela inesperada e assustadora visitante. Mas como o povo iria temer, como iria se assustar, gritar, correr, fugir, se sequer dava a mínima atenção à sua presença? A não ser que de repente ela se lançasse num daqueles calcanhares e agulhasse seu veneno mortal.
Já vi tudo – ou quase tudo – naquele principal calçadão do centro da capital. Já vi gente tirar toda a roupa por não suportar o calor, já vi profeta prometendo o fim do mundo a cada dia, já vi homem estátua adormecer em cima de tamborete em pleno sol do meio-dia, já vi falso doente esmolando pelas esquinas, já vi cego de porta de igreja rejeitar moeda de baixo valor. Mas cobra, e principalmente uma cascavel, nunca havia tido o desprazer de encontrar.
Fico imaginando de onde ela pode ter surgido. Certifiquei-me e não havia nenhum circo pelos arredores, não havia mata nas proximidades de onde ela pudesse ter ido além, não havia escombros de construções de onde pudesse aparecer e seguir em busca de outro esconderijo. Também difícil que tivesse saído das águas do rio mais adiante. Será que alguém a levou em algum saco e permitiu que ela saísse em pleno centro comercial da cidade? Improvável que tenha acontecido assim.


Mas ela estava lá. Lenta, volumosa, porém barulhenta no seu chocalho ameaçador. Cabeça enorme, achatada, duas presas enormes e afiadas, um perigo ambulante. Bastava uma mordida e o sujeito morreria roxeado, sem respirar. O veneno logo lhe tomaria as entranhas e não haveria tempo nem de um socorro. E tanta gente correndo perigo, pois dezenas, centenas de pés passando lado a lado, quase pisando na própria morte. Realmente não sei como muitos não lançaram seus solados ou esbarraram seus pés bem à ponta das venenosas agulhas. Somente um milagre.
Que cena indescritível, a cobra no seu estranho mundo e eu sendo o único ser a percebê-la naquele passeio. Sentado num banco, outra coisa eu não fazia senão mirá-la em cada rastejo. Eu estava tão entretido com ela que se um elefante surgisse não daria a mínima atenção. Por falar em elefante, creio que uns dois ou três passaram por ali também. As pisadas eram tão fortes que o chão chegava a estremecer. E certamente também passaram onças, tatus, girafas, lobos, raposas, porco-espinho.
Ainda que todos os animais da floresta ali passassem, assustassem, ameaçassem, a verdade é que ninguém se importaria. O ser humano não se importa mais com nada, a não ser com a própria vida, e quando muito. O homem não se preocupa mais nem com o perigo nem com ameaça, nem com a tempestade nem com o vendaval. Não era assim, pois até mesmo a brisa lhe era sentida, mas depois foi se tornando insensível, petrificado, indiferente de tudo. Apenas segue, apenas vai adiante como um ser sozinho na multidão.
Se a indiferença também faz o homem cegar, talvez seja esta a explicação para que não avistassem a cobra. Mas por que eu, tão humano quanto os demais, pude avistá-la o tempo inteiro? Simplesmente porque ela não existia. Não havia cascavel alguma naquele calçadão, solta ao redor das pessoas. Talvez num instante de afastamento da realidade, simplesmente eu humanizei o mundo através de uma cobra inexistente.
Em devaneio, imaginei que ao menos diante do perigo o homem procuraria se proteger. A cobra inexistente sumiu, mas ainda hoje sento àquele mesmo banco esperando o seu retorno. Mas só passa gente, só passa ser humano. E quanta frieza, quanta impassibilidade, quanta indiferença.


Poeta e cronista
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Água de sede (Poesia)


Água de sede


Água de beber
bebi
tanta sede ainda
parti
quero veio d’água
aqui
perto da boca
sim
água de sentir
jorrar
no lábio a paixão
amar
matar tanta sede
ainda
nessa tua fonte
infinda
beijo derramado
beijo
gole de desejo
vejo
o sono chegar
descansar
viajar num rio
mar
navegar o corpo
aportar
tanta coisa boa
amar
querer mais
amar
derramar a água
no mar
um barco na cama
e no mar
abraçar abraço
e amar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: seu pé de laranja lima


Rangel Alves da Costa*


Recorda do menino Zezé e seu pé de laranja lima? Sim, aquele mesmo do livro de José Mauro de Vasconcelos. Aquele que fez amizade tão grande com a árvore frutífera do quintal, com ela conversava e dividia suas desventuras infantis, e desesperadamente sofreu quando soube que haviam cortado seu pé de laranja lima. Mas o tal pé de laranja lima é uma simbologia para muitas outras coisas, para muito daquilo que nos apegamos de tal modo que tememos de morte a perda ou a separação. Desse modo, há um pé de laranja numa roupa velha que, mesmo sem uso, não conseguimos nos desfazer. Há um pé de laranja lima no brinquedo antigo, naquele carrinho de madeira ou boi de barro, naquela boneca de pano ou lembrancinha desde muito guardada. Há um pé de laranja nas grandes amizades encontradas pela vida e que tempos perdê-las na ventania da vida. Há um pé de laranja nas doces recordações, naquelas memórias que tememos serem apagadas pela borracha do tempo. Há um pé de laranja lima num álbum de fotografia, numa cartinha já amarelada, num livro de passagem tão marcante noutros de tempos de confirmação da existência. Um grande amor sempre será um pé de laranja lima. Perdê-lo é o que mais tememos. E dói apenas imaginar a frase do garotinho Zezé: faz uma semana que cortaram o meu pé de laranja lima...


Poeta e cronista
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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

CANTADA DE MULHER (OU QUANDO ELAS ATACAM)


Rangel Alves da Costa*


Eis o princípio da igualdade entre os sexos levado a efeito. Não é mais somente do homem a iniciativa de flertar, galantear, paquerar a mulher. O que se mantinha enraizado como verdadeira cultura amorosa, vem se mostrando com feição até mesmo inesperada ante uma sociedade ainda com ranços conservadores. Fato é que hoje em dia – e cada vez mais - elas, as mulheres, também paqueram, dão em cima dos homens, chamam para si a expressão de um desejo que se mantinha escondido.
Desde muito que tenho conhecimento daquelas mulheres de mais idade, também chamadas coroas, adentrando na selva masculina em busca de presa. A prática, costumeira e conhecida demais, consistia em frequentar sozinhas os bares e outros ambientes onde homens jovens e descomprometidos costumam bebericar. Chegavam, estacionavam seus carros logo adiante, de modo premeditamente visível, e pediam um drinque enquanto seus olhos começavam a passear. Dificilmente saíam de tais ambientes sem uma companhia para um instante de entrega carnal.
Não se tratava de prostituição, pois a presa era atraída apenas para uma aventura noturna, sem paga nem recebimento, a não ser dos prazeres consequentes da investida. Apenas uma mulher solteira e solitária que resolvia ir atrás da fruição de seus instintos. Ora, já não estava com idade de namoricos, de sonhos adolescentes, mas tão somente de ficar por um instante, de curtir as casualidades que a noite oferece. Só havia um problema nisso tudo: se ela gostasse do homem então a coisa desandava de tal modo que virava paixão e perseguição.
Situações assim sempre existiram, mas o costume prevalecente na sociedade era de que somente ao homem cabia flertar a mulher. Por mais que ela desejasse, não era visto como algo respeitoso que manifestasse seus desejos perante o homem. Consequência disso eram mocinhas entristecidas pelas janelas, esperando seus príncipes encantados passar para os suspiros da alma e o desalento do coração. Era socialmente inaceitável que desse um psiu, que fizesse um aceno diferenciado, que piscasse o olho naquela intencionalidade tão conhecida, que desse conhecimento ao homem de seu amoroso martírio.
Já o homem sempre pôde tudo nesta seara. Basta determinada mulher passar, com características corporais e físicas que aticem sua volúpia, e logo estará lançando aquele olhar que tira a roupa e a possui ali mesmo. Dá psiu, chama de boazuda, de gostosa, ou simplesmente se comporta de tal modo que quaisquer palavras seriam desnecessárias. Comumente a mulher passa e o olhar continua fixo acompanhando seu andar, como se aquele traseiro fosse algo muito além que uma bunda.
Mas se, no âmbito biológico, os instintos, os desejos e as vontades, não se diferenciam entre macho e fêmea, então por que seriam diferentes no âmbito comportamental? Simplesmente pelo conservadorismo que agora vem sucumbindo de vez no reino das presas e predadores. Atualmente também a mulher, e não acentuadamente o homem, está tomando a iniciativa pelas paqueras, pelas cantadas, pelas buscas amorosas. E tudo consequência de uma juventude feminina que se cansou de ser apenas a escolhida. Agora vai em cima sem rodeios nem meias palavras.
Neste sentido, presenciei um fato interessante alguns dias atrás. Eu estava numa festa no interior sergipano quando ouvi uma mocinha praticamente chamando um jovem aos “finalmentes”. O rapaz passou e ela, ainda diante dele, não mediu palavras: “Eita, isso é que é homem bonito e gostoso. Muita areia pro meu caminhãozinho...”. Ele passou, e surpreendido apenas sorriu timidamente. E ela continuou suspirando, com um olhar de procura e de esperança.
Não sei se depois ele retornou. Acho que não. Havia mulher demais querendo areia pro seu caminhãozinho.


Poeta e cronista
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Amor antigo (Poesia)


Amor antigo


Cantiga debaixo da lua
serenata de um amor antigo

uma rosa jogada à janela
presente de um amor antigo

um bilhete e uma cartinha
a poesia de um amor antigo

beijo soprado na mão
a palavra de um amor antigo

tudo de um amor antigo
nostalgia de eterna saudade.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: não, não estou triste, é que...


Rangel Alves da Costa*


Não estou triste. Já fui muito triste e hoje talvez apenas tristonho de vez em quando. Dizem que sofrer caleja, petrifica, acaba insensibilizando o ser. Não creio nisso não. Quando a tristeza quer simplesmente chega e desanda tudo. A rocha esfarela, o ferro enferruja, o diamante se parte. Lembro-me como se fosse hoje da última vez que vivenciei uma tristeza grande, daquelas arrasadoras. E por besteira. Ela me ensinou a amar e depois partiu de minha vida. Ainda hoje os lenços estão estendidos no varal da memória. Mas hoje ao entardecer, alguém olhou em minha direção e perguntou por que eu estava tão tristeza. Surpreendido com a indagação, apenas disse que não, que estava apenas refletindo sobre a vida. Mas eu não estava triste mesmo, apenas tristonho. Ora, não ouço mais um canto de passarinho, não avisto mais borboletas entrando pela janela, não vejo mais colibri nem beija-flor, nem vejo jardim com flor. Também não encontro mais as manhãs de antigamente. Abro a janela e tudo já parece feio demais. Não há paisagem, não horizonte, não há montanha para o diálogo com Deus. Acendo minha vela junto ao oratório e fico me perguntando se a prece pode aliviar as dores do mundo. Tenho o silêncio como resposta. Mas sei que as dores de minha alma sim. E por isso entristeço no desejo de salvação das almas de outros homens. Sei que eles não desejam assim, não desejam a salvação, pois tiranizam na destruição. Mas por ser uma justa dor, aceito apenas entristecido tal sofrimento.


Poeta e cronista
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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O SANTO IMUNDO


Rangel Alves da Costa*


Para muitos, principalmente entre seus fanáticos fiéis e seguidores, Antônio Conselheiro não era apenas profeta, beato, insurgente, mas verdadeiro santo. Para outros, contudo, um santo sujo, imundo, desprovido de qualquer higiene pessoal. Mas não se cuida aqui de afirmar uma imundície no plano espiritual, moral ou mesmo humana, mas tão somente dialogar, a partir de outros escritos, sobre o seu mau costume de desprezar o asseio corporal e se apresentar sempre malcheiroso, sujo e com piolhos livremente passeando pelos seus cabelos e barba.
Antônio Conselheiro, ou Antônio Vicente Mendes Maciel de batismo, recebeu muitas alcunhas, sendo a de Conselheiro a mais famosa, eis que mestre no aconselhamento ante os problemas trazidos pelo povo sertanejo. Também muitas são as características disseminadas na sua figura. Dependendo do contexto em que é tratado, pode ser avistado como líder espiritual, missionário, ascético, místico levado a santidade, guia de um povo sofrido, profeta dos males do mundo.  Ou simplesmente como um assassino, louco, psicopata, farsante, escravizador de desvalidos. Também comumente chamado de santarrão, falso beato, espertalhão se fingindo de profeta para ludibriar um povo na desvalia de tudo. E ainda de seboso e imundo. Estas últimas características não passaram despercebidas por escritores e jornalistas.
Como será demonstrado, testemunhos dão conta do jeito renegado de ser desse líder messiânico. Talvez desprezando a materialidade mundana ou sem dar a menor importância à aparência ou asseio, a verdade é que o peregrino das vastidões nordestinas arregimentou ao seu lado não apenas seguidores humanos, mas também insetos capilares, pulgas e outros parasitas que passeavam pelo seu corpo e roupão tomado de imundícies. Ao menos é o que afirmam, discordando do próprio Euclides da Cunha.
Neste sentido, Adelino Brandão, no livro “Paraíso Perdido”, diz que Euclides não compartilhava da ideia que lhe passaram de ser Antônio Conselheiro um tipo asqueroso e imundo. Ao invés da sordidez imaginada, ao invés de um rosto esquálido agravado no aspecto repugnante por uma cabeleireira mal tratada onde fervilhavam vermes, emolduram-lhe a face magra e macerada, longa barba branca, longos cabelos caídos sobre os ombros, corredios, cuidados. (São Paulo: Ibrasa, 1996, pp. 116-7). Mas há muitas divergências quanto a tal assertiva.
Cuidando da peregrinação do Conselheiro pelos sertões sergipanos, assim o menciona o jornal estanciano O Rabudo: Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul que lhe serve de hábito a forma do de sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos e sebosos entre os quais se vê claramente uma espantosa multidão de bichos (piolhos). Distingue-se pelo ar misterioso, olhos baços, tez desbotada e de pés nus; o que tudo concorre para o tornar a figura mais degradante do mundo. (O Rabudo, 22 de Novembro de 1874)
No livro “Gotas de Reflexão”, no capítulo intitulado Massada Sertaneja, o escritor Alberto Gonçalves assim se refere ao líder messiânico: Com feições austeras, sujo, açoitado pelas intempéries, uma vasta cabeleira negra imunda, a roupa surrada de brim a lamber as sandálias de couro e um solene cajado nas mãos, mantinha-se igual, porém iluminado, um intransigente defensor dos humildes, sempre pronto a profecias, orações penitências (Gotas de Reflexão, 2011, p. 98).
Citando um artigo publicado no jornal o Estado de São Paulo em 17 de março de 1897, Rogério Souza Silva, no livro “Antônio Conselheiro: a fronteira entre a civilização e a barbárie”, assim transcreve: Mas é preciso que nos convençamos de vez que os conselheiristas, os primitivos fanáticos do cretino e imundo apóstolo do sertão baiano, cercam o messias bandido e, cegos, obedecem à sua voz, davam por ele a vida, mas, sempre a seu lado, sempre bebendo a água inspiradora em que lavava o balandrau gorduroso de seu pregador. (São Paulo: Annablume, 2001, p. 95).
O historiador José Calasans, citando depoimentos acerca do Conselheiro, transcreve as observações feitas por Genes Fontes em 1897: Pálido e magro – de magreza esquelética –, alto, com os cabelos compridíssimos, enfiado em uma túnica azul, a cuja cinta estava atado um cordão de frade franciscano, do qual pendia um crucifixo... Na cabeleira via-se o pulular dos piolhos... Se a cabeça era assim, as mãos sujas, as unhas compridas e sórdidas; tudo completava a sua nojenta figura. (http://josecalasans.com/downloads/artigos/45.pdf). Já o poeta Filipe Cavalcante, em versos intitulados “Antônio Conselheiro”, assim se refere na primeira estrofe: Barbudo, maltrapilho, triste e imundo, vagava errante como um ermitão. Um louco, por fugir da dor do mundo; um santo, por pregar a salvação.
Talvez Euclides estivesse com razão, mas os demais não fogem à verdade. Tudo dependendo do contexto de análise. Ora, o Conselheiro euclidiano já não era o beato caminhante pelas empoeiradas distâncias nordestinas. Já estava assentado na sua Canudos, no seu arraial. Portanto, tendo muito mais tempo de cuidar de seu asseio. Logicamente que numa situação muito diferente daquela onde noite e dia caminhava por cima da terra, em meio ao barro e pó, num sertão de sequidão e suor. A sujeira encontrada certamente que logo o impregnava. O que não justifica, porém, ter de abdicar de qualquer tipo de higiene. Aí era imundície mesmo.


Poeta e cronista
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Sementes e sonhos (Poesia)


Sementes e sonhos


Era noite
e num sonho
senti a semente brotar

era manhã
e ao despertar
senti a semente no coração

era dia
e ao te encontrar
senti a semente florescer

era dia
e ao te sorrir
senti a flor perfumar

era a vida
e ao te beijar
senti como é bom sonhar

e até hoje
entre sementes e sonhos
vivemos cultivando o amor.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: um dia daqueles (todos os dias)


Rangel Alves da Costa*


O brasileiro empobrecido, assalariado, morador de periferia, a cada dia vive um dia daqueles. E todos os dias. É, ao mesmo tempo, o Ulisses de James Joyce, o Hércules mitológico, o trabalhador da música Construção, de Chico Buarque. Realmente, tudo dia ele faz tudo sempre igual, num padecimento que só Deus sabe, num sofrimento que só ele suporta. Chega já depois das dez e após duas estações de trem, ou sei lá quantos ônibus até próximo à sua casa. Todo cansado, estropiado, mal tem tempo de tomar um banho, apreciar uma janta e conversar com a família. Geralmente não tem conversa, mas apenas reclamação da esposa. Dinheiro, dinheiro, dinheiro, mas ela bem sabe que não tem. As contas estão atrasadas, a dispensa vazia, já faltando quase tudo. E ainda começo de mês. Nem tempo de tomar uma cachaça tem. Antes da meia-noite já está roncando para acordar em seguida. Três da madrugada, bem no instante em que a esposa se aproxima querendo um dengo, já tem de pular da cama. Vai jogar água no corpo, tomar uma xícara de café com pão dormido, embrulhar a marmita e abrir a porta. Olha de lado a outro por medo da bandidagem. E sai quase correndo até a estação. O apito, o trem, o trampo. Mais outro trem, mais outro aperto, mais a mesmice de sempre. Todo mundo com cara de sono, mas tendo que ir. Pula já em cima da hora. Precisa bater o ponto ou o salário diminui ainda mais. Então começa a lide do dia. Bate, sacode, levanta, se esforça. Uma dor danada nos quartos, mas ninguém sequer oferece um remédio. O suor desce-lhe, castiga, mas tem de lutar. E assim até o final do dia. E novamente o retorno, ou a folga para retornar, num infinito retornar. E sempre. Sobre o salário, é melhor nem citar quanto ganha.


Poeta e cronista
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terça-feira, 25 de agosto de 2015

DILMA, POR FAVOR, NÃO SAIA, DISSE O BANQUEIRO AFLITO


Rangel Alves da Costa*


Dilma, mandatária da casa da Mãe Joana, atenda os rogos do banqueiro Roberto Setúbal, presidente do Itaú Unibanco, e dos demais banqueiros que se empanturram com os juros agraciados pelo seu governo, e não saia.
Mas não saia mesmo. Não entristeça seus amigos bolivarianistas de meia-tigela, seus apadrinhados cubanos de meia-pataca, seus iguais das republiquetas de banana. Chico Buarque e José de Abreu certamente não suportariam a dor.
Não saia de jeito nenhum. A máfia corruptora necessita de sua presença no governo. Os apadrinhados e comissionados petistas precisam que continue garantindo suas esbórnias. O que será do PT sem ter um cofre para meter a mão quando quiser?
Por isso não saia. Por conta própria não, de jeito nenhum. Renunciar nem pensar. Fique porque você foi eleita com o voto do povo e por isso mesmo o povo tem de ter a retribuição que merece. E veja o que você está fazendo com o povo: dando banana. De fome ninguém morre não.
Nem pense em sair. Mande fortificar o Palácio do Planalto, colocar muros altos ao redor e fogo de artilharia no alto das torres. Não seria demais, por precaução, que você se amarrasse nas colunas palacianas, de modo a ninguém conseguir tirá-la à força.
Sei que você, Dilma, com o sangue de falsa guerrilheira ou de barata que tem, já providenciou a construção de túneis. Mas cuidado com o lamaçal que assola todo o planalto. Contudo, não correrá risco algum em meio à rataria petista que por lá já faz moradia.
Há muitas outras razões para você não sair. Por que sair se está tudo bem, se o Brasil vive às mil maravilhas, o povo não tem do que reclamar, tudo está segundo o prometido em campanha?
Por que sair se o salário do povo dá para colocar comida farta à mesa, a inflação regride a cada dia, as contas de água, luz e farmácia são uma verdadeira pechincha? Ora, se tudo está tão bem nos hospitais, nos postos de saúde, nas escolas, então não há motivos para despedida.
Lula colocou você aí foi para ficar, e não para sair. E só saia daí se for para entregar as chaves do cofre a ele. Não entregue o poder a mais ninguém, de jeito nenhum. Acaso as urnas sejam traiçoeiras, nem se incomode: dê um golpe. Ora, tanto faz um golpe a mais ou a menos povo.
Dilma, certamente sabe que o poder é a melhor coisa do mundo. Nada se iguala a soprar e sorrir, a bater e não ter troco, a fazer o povo sofrer e fazer de conta que é apenas a elite raivosa.
De cartilha você conhece muito bem. Aprendeu tanto o catecismo guerrilheiro que acha que todo mundo é inimigo. E sai atirando raivosamente e parece não se dar por satisfeita até que a conta de energia do pobre seja igual ao salário que recebe. Como vai comer, como vai ver esse povo?
Mas seja cada vez mais resistente. Não admita golpe, pois golpe só quem pode dar é você. Aliás, ninguém sabe dar mais golpe do que você. O povo anda de olho roxo, de corpo alquebrado, doído por todo lugar. E tudo por causa de seus golpes.
Contudo, preciso lhe confessar uma coisa, Dilma. Por mais que eu digo que não saia, que fique, que resista, olho adiante do Planalto e não vejo nenhum horizonte bom. As nuvens estão carregadas demais, as tempestades avançam, já ouço o ronco dos trovões. Ou será o brado do povo que vem lhe tirar o poder?
Corra Dilma, corra, corra. Não, pare, se esconda. Mas onde? O túnel abaixo já está cheio de ratos e de petistas. Grite, peça socorro a Lula. Mas creio que não adianta. O povo já está subindo a rampa do Planalto. Agora é tarde demais Dilma, não há mais o que fazer.
Mas sempre há uma saída. O problema é que se a saída for igual a que você vem encontrando para o Brasil, sei não. Comece logo a rolar rampa abaixo. Ou será jogada de seu pedestal.


Poeta e cronista
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O pão (Poesia)


O pão

Quem quiser o pão
que semeie a coragem
e adube a vontade
de ter muito mais

quem quiser o pão
ouça o galo cantar
e abrace a manhã
já pronto pra luta

quem quiser o pão
e também o café
chegue cansado à mesa
pelo sacrifício do dia

pois quem quiser o pão
que deseje também viver
pois o pão é a vida
nascida do trabalho.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: flor do passado


Rangel Alves da Costa*


De bom mesmo, a verdade é que o novo só trouxe mesmo o avanço tecnológico. E olhe lá. Nem tudo que chega informatizado possui valia. O restante é um deus nos acuda. Ademais, os modismos, ao invés de inovar, acabam enfeando tudo, através de rituais passageiros de degradação humana e social. Diante de um quadro tal, reconhecidamente contrastante com a força do homem para transformar, só mesmo rebuscando no passado para o alcance de qualquer prazer, alegria, contentamento. Há uma flor no passado que nunca perde o perfume. Há uma flor de antigamente que vive em eterno jardim. Ninguém faz murchar a nostalgia, as recordações, as lembranças. Ora, o novo parece nem mais existir. Os natais de agora não trazem qualquer significação, as missas de agora não produzem qualquer comoção espiritual, os presentes de agora não possuem a singeleza de outros idos, as ruas e vizinhanças de agora são frias e sepulcrais. Havia uma pracinha de proseado ao entardecer, havia uma janela aberta e bela menina entristecida ao umbral, havia cadeira de balanço na calçada e senhoras avistando horizontes com olhar molhado, havia o baleiro passando, o parque com pipoca e algodão doce, a matinê no cinema, a flor colhida em jardim, a fruta caída em pomar. Mas apenas a flor, a flor de antigamente. Quem dera ao menos seu espinho nesse jardim petrificado de agora.


Poeta e cronista
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

EIS O HOMEM!


Rangel Alves da Costa*


Não por culpa do criador, mas da criatura, impossível não chegar a uma lamentável e triste constatação: O mundo não deu certo. Absolutamente não deu. Está tudo pelo avesso, revirado, desconcertado. O que deveria, ao longo do tempo e do desenvolvimento da humanidade, ir simplesmente progredindo, eis que acaba se transformando num oposto obscuro demais e mostrando as feições que jamais se esperaria no mundo moldado pela ciência e seu moderno habitante.
Parece mesmo que as lições do passado a nada serviram. E não foram poucos os exemplos onde o homem foi desacreditado pela sua brutalidade, arrogância, insensibilidade. Os governos tiranos passaram a ser vistos como exemplos a serem repugnados. Os justiçamentos passaram a ser vistos como ímpetos de um povo sem ordem e sem lei. As arbitrariedades fizeram surgir aparatos legais protetivos e as relações foram normatizadas. Mas hoje se indaga acerca da serventia de tudo isso, principalmente quando se observa uma assustadora regressão humana.
Os livros de história trazem relatos aterrorizantes das violências e crueldades de outros tempos. Os bárbaros passando a fio de espada quem encontrassem pela frente, conquistadores sangrentos e suas investidas impiedosas, guerras de conquistas que dizimavam civilizações inteiras. E ainda as crueldades da escravidão, as perseguições e punições por motivos religiosos, a proibição de não sonhar nem clamar por liberdade sob pena de morte, as grandes fogueiras da intolerância que tornavam em cinzas os justos clamores. Hoje tudo isso causa repulsa, porém sem evitar que chamas de ódio ressurjam debaixo das cinzas.
O mundo foi feito para o aperfeiçoamento. O que foi criado serviu apenas como base para melhorias constantes, pois sempre pressupondo a capacidade humana para fazer surgir o melhor para a sua e as demais espécies. E efetivamente progrediu, tanto no bem como no mal. Contudo, a partir do instante que o homem se sentiu dono do mundo e não apenas habitante, outra coisa não fez senão exercitar sua capacidade engenhosa de usurpação e destruição. Então tudo foi sendo exaustivamente revirado, transformado em caos.
Como uma casa que desaba depois de tanto ser negligentemente transformada, certamente que o mundo também não suportará as aviltantes irresponsabilidades de seu habitante maior. Mas são desalentadoras as opções para evitar o pior. Ou terá que ser recriado, colocando no lugar do homem outra espécie mais positivamente virtuosa, ou simplesmente deixar que se acabe pelas próprias mãos do malfeitor, e de forma abjeta, numa devassidão ética, moral, pessoal e institucional jamais imaginada.
Ao criar o mundo e os seres e espécies que nele deveriam habitar, Deus confiou ao homem a primazia sobre tudo e todos, garantindo-lhe, através da racionalidade, o senso necessário ao reconhecimento do bem, do justo, da união, do compartilhamento. Com a confiança depositada, certamente que o criador esperava que o homem pudesse ao menos retribuir cumprindo sua missão. E uma singela incumbência: fazer florescer sobra a terra a dignidade da vida.
Ledo engano do Criador, infelizmente. O homem não só retribui com ingratidão o poder transformador que lhe foi concedido como tenta, a todo custo, negar a primazia divina. Ora, quer ser seu próprio deus, ser seu soberano, ser o dono próprio destino. Só que não mede as consequências das arbitrariedades praticadas para conseguir seus nefastos intentos. E vai simplesmente passando por cima de tudo, de si mesmo e do que ainda lhe reste como espírito e alma, e mais ainda do próximo. Este não possui nenhuma valia àquele que cuja única valorização é o poder. Poder ter mais, poder conquistar mais, poder somar, poder sobre tudo. E não pensa duas vezes em destruir aquele que sirva como empecilho à sua sanha ambiciosa.
Mas nem só de ambição o homem progride na sede. Sua ganância possui muitas vertentes. Na sua concepção nunca há lugar para semear coisas boas, positivas, que reflitam no próximo como gesto de fraternidade, mas somente para disseminar aquilo que lhe permita ser visto como poderoso. Mas como é frágil, fraco, que jamais se sustenta em si mesmo, então faz da arrogância, da violência e da iniquidade, uma redoma para se esconder no seu falso império. De gente assim o mundo está cheio.
A verdade é que tudo vai na contramão da sensatez. Famílias cujos parentes não se reconhecem, filhos que não obedecem aos pais, genitores que negligenciam a criação desde os primeiros anos de vida. Matrimônios imperfeitos e ficções novelescas substituindo a vida real, os modismos ensinando as imprestabilidades, e as pessoas apenas se deixando levar pelas aparências. Enquanto isso a fé se transforma em espada sangrenta e a religião em ceifa de vida. O novo é apenas o aprimoramento do ódio, do delírio coletivo, da intolerância, do medo.
Sim, o homem é o espelho de Deus. E assim o criador o concebeu. Mas o que fazer quando aquele que foi dada tamanha dádiva prefere o lado obscuro da vida? Mas nunca será demasiado tarde para se espelhar. E compreender que ainda há uma face de luz que continua iluminando.


Poeta e cronista
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Ingratidão (Poesia)


Ingratidão

Um beijo apenas
ou um abraço apenas
ou um carinho apenas
ou uma palavra apenas
ou um olhar apenas
qualquer coisa

mas como dói
como dói o desprezo
como dói a ingratidão
como dói o desapreço
quando o coração singelo
está de braços abertos.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: brinquedo de antigamente


Rangel Alves da Costa*


Há quem diga que atualmente menino e menina não brincam mais. E há razão em pensar assim. Não só com relação ao brinquedo, mas em muita coisa a criançada de hoje nem se assemelha à criança de outros idos. Criança de hoje pouco corre descalça pelos descampados, pouco se reúne para o fuzuê da meninice. As crianças de hoje parecem ser moldadas para a idade adulta ainda nos berços. Da criancice à adolescência, e no meio um vácuo dos melhores anos da vida. Nem nas escolas se divertem com brinquedos de verdade. O que oferecem são jogos educacionais burocráticos, num lúdico computadorizado, matemático, frio. Quando em casa, o brinquedo está no computador, no smartphone, na tecnologia. Muita criança de hoje jamais ouviu falar em canção de ninar, em canção de roda, em cantiga de cirandar. A menina nunca viu uma boneca de pano ou uma casinha de boneca, o menino nunca viu uma bola de gude ou uma pipa. Foi-se o tempo do verdadeiro brincadear infantil. Foi-se o tempo do boi de barro, da ponta de vaca, do guarda-roupa pequenino para a menina cuidar, da menina chorona de plástico, do cavalo de pau para subir às estrelas em noites de lua cheia, da bola murcha, da brincadeira de se esconder, da roda cirandeira em noites estreladas. Até da maçã do amor e do passeio no parque. Tão triste que jamais tivessem ouvido que se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, para o meu, para o meu amor passar...


Poeta e cronista
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domingo, 23 de agosto de 2015

UM CAIS DE JORGE AMADO


Rangel Alves da Costa*


As paisagens descritas por Jorge Amado são mistas de simplicidade e de ferocidade nas tramas que nelas se desenrolam. Não ferocidade de truculência ou barbárie, mas pela força e contundência dos personagens perante os seus mundos. Desse modo, em Jorge Amado a descrição de um terreiro de umbanda é entremeada de uma profunda simbologia. A simples citação de uma ladeira antiga traz consigo todo um contexto histórico de luta e de cotidiano sofrido de um povo negro marcado pelo açoite da cor.
Seus livros são muitos e neles as múltiplas descrições de paisagens, contextos e cenários. Contudo, nenhuma descrição surge sem um pano de fundo maior, forte, instigante. Aquelas terras inóspitas, medonhas, com veredas perigosas e cheias de jagunços, tocaias e emboscadas, simbolizam toda uma luta de homens destemidos enfrentando o perigo para demarcar suas terras cacaueiras, e que mais tarde frutificaram em poder e riqueza.
Do mesmo modo, um casarão de coronel cacaueiro não remete apenas à riqueza do homem, mas principalmente o poder político e econômico nascido da luta renhida pela terra e pelo confronto com desafetos de igual poder. O que pretende dizer é que da luta pela terra até a frutificação do cacau dourado foi sendo gestada toda a história da região cacaueira da Bahia, bem como a influência que os seus senhores passaram a ter nas cidades, nos centros urbanos e por todo lugar. Os coronéis e sua decisiva influência na história nordestina e brasileira.
Quando Jorge Amado cita cadeias imundas e delegados “pau mandado”, não se refere apenas a uma situação envolvendo uma trama. Há uma crítica explícita às muitas perseguições políticas ou meramente preconceituosas contra classes empobrecidas. Grita em favor dos negros perseguidos pela cor, pelo credo, pela própria desvalia da vida. Diz do sofrimento imposto aos pais, mães e filhos de santo, aos que optavam pela fé dos atabaques, dos agogôs e dos deuses africanos. Tudo isso foi magistralmente abordado por Jorge Amado nos seus cenários e personagens.
Os bordéis de Jorge Amado vão muito além de meros cabarés. Aliás, bordéis ganham status de centros de poder e de local de tomada de decisões dos coronéis que neles tinham assento e cama garantidos. Já os cabarés se voltam à descrição de situações miseráveis nos prostíbulos interioranos. As cafetinas famosas ou as balofas donas de casas da luz vermelha. Prostitutas falsamente importadas da França e raparigas novinhas enxotadas dos sertões e fazendo vida nas beiras de estradas ou nas imundícies das vilas raparigueiras. Nada mais que um reflexo da sociedade de então e que ainda hoje é avistada com quase a mesma feição.
O cenário do coronel cacaueiro, do jagunço e da tocaia, outro não é que o contexto histórico da formação de povoações através da luta e de muito sangue derramado. O cenário da violência contra os terreiros, da perseguição aos negros e pobres, da intolerância por razões políticas, outro não é senão uma crítica à forma como o preconceito tiranizava e aprisionava aos costumes ainda vigentes à época da escrita amadiana. O cenário da mulher sendo enxotada pela família e tendo que se prostituir para sobreviver, outro não é que aquele mesmo ainda avistado em muitos rincões nordestinos ou mesmo nos centros urbanos.
Contudo, há um cenário que reputo como o mais poético, ainda que também doloroso e triste, na obra amadiana. Em diversos livros Jorge Amado colocou o cais baiano como tela de fundo para o desenvolvimento de suas tramas. Assim acontece em Capitães da Areia, Jubiabá, A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, Mar Morto, Os Velhos Marinheiros, Os Pastores da Noite e Suor, dentre outros. Em todos há um cheiro de mar, de maresia, um murmurejar de ondas batendo e voltando, barcos sendo avistados ao longe, velas acesas nas proximidades das águas, esperanças que vão e que vem, vidas que se fazem e se perdem na beira do cais. É este cais que tanto comove na obra de Jorge Amado.
O cais de Jorge Amado é cheio de mistério e magia, é povoado de pessoas e sonhos, é entremeado de esperanças e desilusões. É como se avistasse os barcos apinhados de cestos de frutas olorosas cortando as águas para as areias do cais. É como se avistasse os velhos pescadores, os viventes nos casebres ao redor remendando redes, limpando musgos das embarcações, lançando tarrafas ao entardecer, revirando mais um gole de cachaça. Próximo ao anoitecer e as mulheres aflitas em oração, lançando todos os rogos ao mar para que seus homens vençam as tempestades.
Também um cais de pedras solitárias e testemunhas de tantas vidas e tantas mortes. Cais onde os meninos de rua – os capitães da areia – se reúnem ao anoitecer depois das proezas do dia. Ali nas areias a cama, o travesseiro, a moradia na noite. Muitos sequer possuem ânimo para a capoeira, chorar suas mágoas, cheirar cola de sapateiro, fazer do vício um falso alento à dor. Tantos outros sequer acordam para a dor do dia seguinte. Ali mesmo são silenciados de vez pelas mãos ferozes que surgem nas noites sem lua.
Cais tão pujante e tão triste este de Jorge Amado. O mesmo cais onde as velas chamejam pelos orixás, flores são deixadas para Iemanjá das águas e os capitães da areia adormecem e despertam para a sorte do mundo.


Poeta e cronista
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Humilde coração (Poesia)


Humilde coração


Queira-me
ao menos de mim a palavra
e talvez o verso que guardo
seja sentido pelo teu coração

queira-me
ao menos de mim o olhar
e talvez aviste nos meus olhos
um retrato querendo sorrir

queira-me
ao menos de mim a metade
e talvez queira me completar
com o que não tenho sozinho

queira-me
ao menos de mim a presença
e talvez encontre à minha sombra
o repouso suave ao teu instante.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: vida e flor do mandacaru


Rangel Alves da Costa*


O mandacaru, a planta símbolo do sertão, não alcançou tal fama ao acaso. Dentre as cactáceas, certamente que é a mais resistente, a mais imponente, ainda que não seja a mais singela. Neste aspecto, invencível é a cabeça-de-frade com sua predisposição para nascer em qualquer lugar, até mesmo por cima das pedras, entre as rachaduras, e ter por acima do seu corpo espinhento e rechonchudo um pequeno jardim de pingentes avermelhados. Mas o mandacaru também tem flor, e que bela flor a do mandacaru. Nasce esbranquiçada e vai tomando uma cor amarelada, como anéis ou enfeites que pendem dos braços estendidos em direção aos horizontes sertanejos. Dizem que os braços estendidos do mandacaru, sempre em direção ao alto, estão rogando piedade ao Senhor dos Sertões. É a planta mais religiosa entre todas que vingam na secura e nos carrascais sertanejos, vez que sempre em gesto de louvação, de prece, de pedido pelas graças divinas. O que tanto implora? Chuva, terra verdejante, água nas fontes, paz ao seu mundo de desvalia. É também a mais duradoura entre todas as cactáceas, pois vai suportando todas as dores das estiagens, todas as angústias das secas, e, ainda que magra e ressequida, sempre altiva na paisagem de desolação. Dizem também que quando chegar o tempo de o mandacaru prostrar-se ao relento sem vida, nenhum olhar, nem de bicho nem de homem, poderá testemunhar. Simplesmente porque o sertão acabou.


Poeta e cronista
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sábado, 22 de agosto de 2015

O DESTINO DO VENTO


Rangel Alves da Costa*


Nada que se aviste no olhar, mas o corpo e os cabelos sentem sua presença. Não diz de onde vem nem para onde vai. Mas vem e vai. Mas para onde o vento vai?
Tudo que tem existência tem um destino. O vento também tem seu destino. Mas qual o destino do vento?
Será que o vento é eterno, será que se finda adiante, será que renasce a cada curva, a cada transpor de montanha. Ninguém sabe com precisão. Qual será o seu destino?
Brisa, aragem, sopro, lufada, vento, ventania, vendaval. Não importa, pois tudo força atmosférica que pelo ar viaja rumo a determinado lugar. Mas aonde pretende chegar?
Pássaro oculto pelos espaços, asas que esvoaçam sem mostrar as penas, viajante apressado ou lento que sempre vem, sempre passa e sempre segue. Onde será seu repouso?
As velas pendem e mudam a direção do barco, as palhas dos coqueiros se agitam, a concha do mar se abre para o seu segredo, tudo se embala na sua passagem. Aonde vai?
Aonde o vento vai, aonde vão a brisa e a ventania? Os cabelos da menina querem seguir seu voo, as folhas se deixam levar, as saias são levantadas. Mas aonde o vento vai?
O vento vem mansamente ou em açoite, chega de bem distante, de lugares desconhecidos, mas no seu percurso vai para algum lugar. Para onde?
O vento nasce em algum lugar, do encontro de massas de ar sob pressão, e vai tomando feição própria e rumando além, sem estrada ou caminho. Mas vai a qual direção?
A direção do vento fica na dependência do que encontrar pela frente, do que lhe permita passar em sobrevoo ou redirecionar seu percurso. Mas até onde tal viagem?
Difícil saber para onde o vento vai. Mas possível saber como ele se aproxima, se calmo e sereno, se agitado ou afoito. Por que não há constância no seu jeito de ser?
Igualmente ao ser humano, também o vento muda, se transforma. Vento voraz, sedento, amedrontador. Brisa leve, quase melodia, apenas beijando a face. Para onde ele vai?
Tal qual ser humano, o vento se atormenta e arrefece, brada e silencia. Destrói quando quer, acaricia quando deseja. Há um querer próprio no vento. Mas qual segredo guardado?
Há um mistério no vento, há um segredo no vento. Não fala, apenas zune, apenas canta, apenas entoa a canção das distâncias. Mas deixa palavras na sua passagem. Por quê?
O vento já desponta sabendo de tudo. Vem de longe, conhece mundos, conhece realidades, traz consigo notícia e jornal, o novo e o velho. Mas aonde vai com tanto saber?
Sábio é o vento, disse o profeta. Basta conhecer seu sopro para saber o que acontecerá. Sempre traz consigo caderno e livro. Mas nunca fica para explicar. Aonde o vento vai?
Misterioso é o vento, disse o pescador. As águas apenas dançam na sua passagem, mas de repente tudo pode ser transformar em desespero. É o vento revirando tudo. Por que assim?
Assim porque em tudo há a inconstância. Tempo de calmaria e tempo de vendaval. O mar conhece bem o seu significado. Por que se sabe o que ele faz e nunca para onde vai?
Vento é força, disse o andante saariano. O deserto se impõe diante de todos, devora resseca, amedronta. Mas a ventania leva suas areias para onde quiser. Mas para onde?
Vento é angústia e sofrimento, disse a mocinha entristecida na janela do entardecer. Espera uma carta no vento, uma flor no vento, mas ele apenas passa. E vai para onde?
Vento é tudo. Nada se esconde de sua força, de sua chegada, de seu encontro. As portas e janelas se abrem à sua passagem e depois some num rastro ligeiro. E vai. Para onde?
Como uma sentença do Eclesiastes, a brisa se transforma em ventania como o vendaval se transforma em calmaria. Sempre se transforma e vai. Mas para onde vai?
Deixai que os sonhos descubram o destino do vento. Deixai que as folhas do outono conheçam seu destino final. O homem não precisa saber. Apenas que o vento vai.
Ou que vai assim como uma vida. Um caminho de perfumada brisa até chegar o vendaval do adeus. Eis que o vento é vida e morte. Um sopro que vem e que vai.


Poeta e cronista
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