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sábado, 8 de agosto de 2015

Respeito e devoção (o senso ético natural entre os povos)


Rangel Alves da Costa*


As transformações mundanas ainda não conseguiram afastar o respeito e a devoção enraizados na cultura e na tradição de determinados povos. Porém não se trata de apego à sacralidade, através da religiosidade, da fé e dos cultos. Logicamente que há um fundamento religioso no que continua sendo preservado, mas apenas como forma de cultuar o que foi convencionalmente escolhido como sagrado.
O respeito e a devoção ainda presentes de forma diferenciada entre as mais diversas sociedades, certamente que vão além dos cultos católicos. E vão além porque ainda que se comungue da crença e da obediência à divindade católica, bem como a seus santos, anjos e mistérios, tais povos também cultuam deuses pagãos, ritos animistas, cultos ancestrais e uma crença mitológica tão viva que seus deuses são chamados a intervir em todos os aspectos da vida comunitária.
Nestas sociedades há um senso ético que acaba sendo sintetizado no respeito, na devoção e na preservação daquilo que é considerado como essencial à vida e à sobrevivência. Há um profundo apego à natureza, aos animais, aos elementos fundamentais do universo. Há uma intensa valorização da semente que será lançada a terra, da fonte que corre cristalina pelos arredores, de cada bem da vida que é obtido através da luta e do sacrifício. Cultuam os astros, as estações, tudo que soa como mistério sagrado ao homem.
Na verdade, são povos e sociedades que desde tempos primitivos já percorrem um caminho ético de vida e de mundo, e caminho este que os conservacionistas e ambientalistas atuais tanto lutam para aprofundar na consciência do homem. O compromisso com a preservação da terra, do meio ambiente, dos recursos naturais e de tudo aquilo essencial à sobrevivência humana, ainda que sejam emergências do tempo presente, já estava difundido entre sociedades antigas e ainda permanece como fundamento da própria existência.
Para se ter ideia do respeito e da devoção, bem como do senso ético natural que continua enraizado nos povos, basta se apontar o significado existente de um simples grão para muitas comunidades mesoamericanas. Os mexicanos, por exemplo, não deixam que um grão de milho caia sem que se peça desculpa. Adoram e cuidam de cada grão como se a própria vida dele dependesse. Não plantam nem colhem, debulham e fazem uso, sem que um verdadeiro ritual seja considerado. Um grão se torna num pequeno deus que não pode deixar de ser cultuado.
E assim acontece pelos próprios fundamentos da existência de tais povos. O milho foi o alimento que garantiu a sobrevivência de gerações a gerações. Utilizado para o pão, para a broa, para o mingau, para a cerveja, como farinha e uma infinidade de usos, passou a ser verdadeiramente adorado, cultuado, devocionado. Eis o senso ético natural destas comunidades. Reconhecem que do milho dependem para sobreviver e por isso mesmo zelam por cada grão como se estivessem cuidando da vida. E assim acontece desde as civilizações tolteca, olmeca, asteca e maia, dentre outras que floresceram no Novo Mundo.
O culto e a devoção ocorrem ainda com relação a diversos elementos da natureza. Para muitos povos ameríndios e desde as primeiras sociedades pré-colombianas, a terra possui significado especial. Esta não só permite sobreviver enquanto leito de vida como fornece tudo aquilo que o homem necessita para sobreviver. Daí o seu sentido de sacralidade, de adoração enquanto elemento da natureza e de onde brota toda fonte de existência. Por consequência, há de se pedir permissão aos deuses da terra para que se lance uma ferramenta sobre o chão e ali se deposite um grão.
Ainda hoje muitos povos pedem permissão aos deuses da natureza para qualquer ação que provoque mudança no seu estado natural. Não se corta um galho de árvore ou se recolhe um fruto sem que primeiro se lance um pedido. Não há desmatamento, derrubada de árvore ou feitura de coivara sem que um pequeno ritual garanta a concordância dos deuses. Ainda se avista pessoas conversando com os seres da natureza, abraçadas aos troncos e beijando árvores, ajoelhadas sobre a terra, lançadas sobre a terra como gesto de devoção. E acaso sejam perguntadas por que assim fazem, logo se terá a resposta mais singela possível: o bom filho agradece aos frutos da mãe.
Assim, desde os tempos mais primitivos que há um senso ético natural entre os povos que os tornam reconhecidos como ambientalistas natos. As lições antigas foram repassadas e ainda se mantém vivos o respeito e a devoção aos seres e aos elementos naturais. E não seria pedir demais ao homem moderno que faça nascer em si ao menos o mínimo de ética humana. Desta ética certamente surgirá uma nova conduta perante si mesmo e atitudes de respeito ao meio natural e social. Mesmo que não pretenda cultuar o grão que o alimenta, não seria demais respeitar a terra de onde tudo brota.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Um comentário:

Mary disse...

É bem verdade que tem haver respeito, cada um com sua crença,sem querer impor o outro o que vc acredita,todo mundo é capaz de fazer suas próprias escolha.

Tenha um excelente fds!

Bjos