SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 22 de janeiro de 2019

MEU AMIGO MONSTRO



*Rangel Alves da Costa


Eu tenho um amigo monstro. Acreditem, pois monstro mesmo. Ele tem feição indefinida, às vezes aparece peludo, mais alto ou mais baixo, todo feio e desengonçado, coisa de espantar qualquer um que não fosse eu. Mas já estou acostumado com ele, tanto que se tornou meu amigo.
Tudo nasceu há muito tempo, durante a minha criancice e infância, quando diziam que se eu não dormisse o bicho-papão iria me pegar. Cantavam música falando do bicho-papão, a todo instante ameaçavam com a presença do tal bicho se eu deixasse de fazer isso ou aquilo.
Mas nunca tive medo daquele bicho-papão que tanto me lançavam como verdade. Muitas vezes, eu ficava acordado a noite inteira esperando sua aparição. E nada. Então fui criando um bicho-papão na minha imaginação. Com ele eu toda noite conversava, sorria e chorava, compartilhava minhas dúvidas da idade.
Fui crescendo e nunca mais me desapartei do bicho-papão. Eu sempre sentia a necessidade de sua presença, pois confiando nele muito mais que nas pessoas ao meu redor. E depois, já adulto, o bicho-papão foi se transformando noutro bicho, que achei por bem chamá-lo de monstro.
Então ainda hoje o monstro é meu cordial e sincero amigo. Entro no quarto, fecho a porta e logo o procuro. Ele me aconselha por que diz que me acompanha aonde eu vou e vê o que faço certo ou errado. Acho interessante essa preocupação, pois sei que muitos humanos e que se dizem amigos não estão nem aí. Mas com o monstro é diferente.
Outro dia, encontrei-o de olhos entristecidos, chorosos. Perguntei o que tinha acontecido e ele, cabisbaixo, respondeu: “Um dia já não estarei com você. E temo pelos outros monstros que estejam ao seu redor!”. Algo como um presságio, como uma despedida, mas a verdade é que no dia seguinte não o encontrei mais. Nunca mais retornou. Até que sonhei com ele me dando adeus e dizendo que tivesse muito cuidado.
Passei a ter mais cuidado sim, e por isso mesmo jamais o esquecerei. Sei que na vida existem muitos outros monstros. E monstros humanos de verdade. Mas ainda assim nem os detesto nem os temo. Aprendi com o meu amigo que nada deve ser acreditado apenas pela aparência ou pelo que dizem.
Meu amigo monstro era tão feio e desengonçado, tão amedrontador e temeroso, mas tão singelo e afetivo. Com ele aprendi que o monstro é aquilo que criamos em nossas mentes e aspirações. E que monstros realmente não existem na forma e no jeito que os demais apregoam, mas simplesmente na ideal de mal que tanto desejam que acreditemos.
Então criamos monstros e temos monstros por todo lugar. E a realidade não é bem assim. Existe outro lado que precisamos conhecer antes que espalhemos suas existências. Como num jardim não existem somente espinhos, bem assim na vida humana e seus labirintos.


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Lá no meu sertão...


QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ - Quem conheceu o passado de Poço Redondo, realmente possui razão em reclamar do estado das praças de agora. Basta avistar as fotografias para sentir a diferença. Creio que nada justifica que todas as transformações havidas tenham sido para pior. E igualmente não se justifica que as mudanças na situação lastimável de agora sejam sempre postergadas para amanhã, depois e depois. As fotos abaixo são do ano de 85, na gestão de Alcino Alves Costa.




Flor de beijo (Poesia)



Flor de beijo


Em meu amor
há na boca
uma flor

na bela flor
um lábio
e seu sabor

no sabor
o doce beijo
que dou

na boca
no lábio
de meu amor.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - janela da frente e janela de trás



*Rangel Alves da Costa


Simbolizando passado e presente, ou o antigo e o novo, estão a janela da frente e a janela de trás, depois da sala e após a cozinha. Pela janela da frente vê-se a mocinha passando com roupa, num rebolado só, querendo se mostrar mais aos outros do que a seu próprio destino. Pela janela de trás avista-se a mocinha recatada, de vestida após os joelhos, cabelos em traça, parecendo uma singela flor. Pela janela da frente vê-se a motocicleta passando desenfreada, o carro em alta velocidade, o barulho e o medo. Pela janela de trás avista-se o carro-de-bois passando com seu rangido lento, o animal de carga levando frutas, uma carroça sem tempo de chegar e alguém montado em um alazão. Pela janela da frente vê-se a pessoa apressada, carrancuda, com cara de poucos amigos, sem um bom dia ou boa tarde. Pela janela de trás avista-se a pessoa passando sorridente, com gestos cordiais e cumprimentos de passo a passo, sem pressa de chegar nem de esquecer que avista na caminhada. Pela janela da frente vê-se o mundo imenso e desconhecido, a vida corrida e tudo de todos e de ninguém, rostos desconhecidos e pessoas que nunca se conhecem. Pela janela de trás avista-se a paisagem bela, o canteiro florido, o velho sentado num banco de praça. Mas de repente alguém vai e fecha a janela de trás. E na frente também já não há mais janela. Tudo perigosamente exposto ao mundo.


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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

AS HAVAIANAS DE ALCINO



*Rangel Alves da Costa


Alcino era um apaixonado pelo sertão, pelas histórias cangaceiras, pela música caipira, pela dupla Tonico e Tinoco, pela saga sertaneja e suas múltiplas feições, mas também por alpercatas havaianas. Sandália, chinelo, alpercata, ou qualquer outra denominação que se deseje dar, a verdade é que Alcino não tirava uma dos pés.
Seu costume e apego pelas havaianas era tamanho que não tirava elas dos pés por motivo algum, abrindo exceções somente quando, na condição de prefeito municipal, recebia autoridades políticas e governamentais em eventos oficiais ou se dirigia até o palácio do governo para tratar de assuntos referentes ao município. Ainda assim num desconforto danado.
O desconforto com os sapatos era visível. Alcino só faltava mesmo levar chinelo nos bolsos e calçá-los assim que saísse dos gabinetes. Andava troncho, pisando desconforme, à moda daqueles que usam sapatos apertados demais. E certamente, mesmo que folgados ou ajustados aos pés, tornavam-se apertados demais. Seus pés estavam acostumados mesmo com a liberdade.
Muitas vezes, na capital sergipana e após o uso de sapatos em reuniões oficiais, chegava da rua e ultrapassava o portão em verdadeira correria. Nada de estar apertado e precisar ir ao banheiro, nada de outra motivação para aquela pressa toda, pois simplesmente sua vontade de se desafazer daquele couro e daquelas meias e calçar suas havaianas. Depois, confortado, chegava a sorrir sentindo seus pés em liberdade.
As havaianas eram, assim, sua companheira inseparável, desde o levantar ao deitar. Fazia seu uso em quase todas as situações. Bastava se imaginar calçando sapatos e já fazia cara feia, como se já estivesse sentindo seus pés doloridos e aprisionados. Era um prefeito de havaianas, um líder político de havaianas, um eterno caminhante de havaianas.
Alcino gostava de usar calça social, mas não camisa social. Mesmo de calça assim, nos pés sempre as havaianas. Acaso alguém avistasse ao longe uma pessoa de calça social, camisa fechada (geralmente listrada), cantarolando baixinho a cada passo, e de havaianas, podia saber que se tratava de Alcino.
Certamente que havia motivações para que Alcino gostasse tanto de havaianas. E tudo pode ser explicado pelo próprio amor ao sertão. Seus pés ficavam mais rentes a terra que tanto amava, seus passos ficavam mais seguros por onde fosse, a leveza no passo permitia que caminhasse muito, que incessantemente seguisse. E ter os pés sujos da poeira sertaneja significava também ter sobre si a essência daquele seu mundo.
A liberdade proporcionada pelas havaianas era a liberdade que Alcino tanto procurava em cada passo da vida. Talvez nem sentisse a borracha sob a pele. Talvez simplesmente sentisse a própria terra abaixo dos pés. E neste sentido dissesse a si mesmo que caminhava descalço e que o chão sertanejo fazia parte de sua própria pele.
Tão apaixonado era pelas havaianas que sequer se importava se já estivessem totalmente desgastadas e necessitando de outras. Enquanto filho, já o vi pedindo para que colocassem alguma presilha abaixo da correia que havia quebrado. Em instantes assim, logo outra era providenciada. E com as havaianas seguia até que alguém percebesse - nunca ele - que já estava imprestável ao uso.
Os pés descalços como se de havaianas estivessem calçados. Ou de havaianas para sentir como se estivesse descalço. Ora, sentia necessidade dessa aproximação de pele e chão, de solado e terra, de caminhar sentindo cada sulco aberto ou cada pedrinha espalhada na estrada. Sentir tão fortemente o seu mundo que nenhuma outra forma de percorrê-lo pudesse ser mais prazerosa. Assim por que as havaianas eram como um chão desnudo, liberto, cheio de si mesmo.
Forçá-lo a se manter de sapatos por mais de uma hora seria tortura. Além disso, dava trabalho demais o ato de calçar as meias, de catar os sapatos e depois forçar o ajustamento dos pés àquilo que não queria. Duas inimizades declaradas: os pés de Alcino e o couro endurecido dos sapatos. Não havia nascido para isso, para estar pisando desconforme por aí, e sim para ter sobre o solado um tipo de asas que o fizesse voar pelos seus sertões.
O Memorial Alcino Alves Costa, na cidade sertaneja de Poço Redondo (seu berço e vida) ainda guarda um exemplar dessa paixão de Alcino. Visitantes chegam e perguntam por que aquelas chinelas ali. A resposta é sempre a de que ele gostava de usar havaianas. Mas a resposta certa é outra: “Ali a simplicidade de um homem e o seu passo quase descalço pela sua amada terra sertão!”.
Ali as sandálias do pescador. Do homem humilde, do sertanejo. Ali as asas emborrachadas de Alcino. Ou seu passo caminhante na maciez, ainda que por veredas espinhentas e aflitivas, como o próprio sertão de vez em quando ousa ser.


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Lá no meu sertão...


Curralinho, Poço Redondo, sertão sergipano





Por todo amor que te sinto (Poesia)



Por todo amor que te sinto


Eis que em um entardecer
enquanto na mente estava você
veio a ventania e o vendaval
a tristeza sem haver outra igual
mas eu não me desfiz do pensamento
e em teu nome superei o tormento

entre estrada florida e labirinto
então prossigo pelo amor que te sinto
vencendo armadilhas e espinhos
ao leve pensar nos abraços e carinhos
que o teu dadivoso corpo junto ao meu
na a promessa que o destino nos concebeu.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - o plantador de ovos de galinha



*Rangel Alves da Costa


Zezim Timbó apareceu com uma maluquice de se imaginar que tivesse endoidado de vez. Ora quem já se viu plantar ovos de galinha. Pelo que se sabe, ovos nascem da própria galinha, quando ela põe. Mas o homem disse que ia plantar um pé de ovos de galinha e tava acabado. Saiu à procura de aconselhamentos, mas foi se deparar com Titonho das Aroeiras, famoso loroteiro que fez fama ao espalhar que havia plantado um pé de macarrão. E até levava gente até o roçado, até ser desmascarado pela própria esposa, que reclamava que o esposo não deixava um pacote de macarrão na cozinha, levando tudo pra pendurar num pé de milho. Tava maluco, era o que ela dizia. Mas Timbó foi pedir aconselhamento logo ao plantador de macarrão. E deste logo ouviu: “É a coisa mais fácil do mundo. Pegue uns dois ovos, enterre e todo dia jogue um pouco de água por cima. Vai nascer ovo de não acabar mais”. Assim foi feito. Não restou mais nenhum ovo no quintal, pois tudo enterrado sem resultado algum. Não querendo passar por maluco, então Timbó resolveu um melhor e mais eficiente resultado. E providenciou tudo em conformidade. Logo convidou os vizinhos para o avistamento da plantação de ovos. Com efeito, os vizinhos chegaram e logo se espantaram com um ovo surgindo da terra. Apenas um ovo. E lá dentro, na fundura, uma galinha enterrada. A coitada morreu sufocada.


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domingo, 20 de janeiro de 2019

BASTIÃO DE TIMBÉ, O ANIVERSÁRIO DE UM GRANDE SERTANEJO E RENOMADO VAQUEIRO



*Rangel Alves da Costa


Hoje Bastião de Timbé, seus familiares e amigos, estão em festa, pois a comemoração de seus 79 anos de idade. Sem dúvidas que um grandioso dia para felicitar e abraçar este filho de Francisco Alves dos Santos (Timbé) e Conceição Marques que ainda está entre nós e que por toda a existência soube tão bem construir uma história de honradez, luta e tenacidade.
Atualmente morador da cidade, sempre encontrado entre amigos na sua calçada na Praça da Matriz de Poço Redondo, no sertão sergipano, certamente distanciado daquele seu outro tão vivenciado nas suas lides de homem da terra, da fazenda, do gado, da vaqueirama, da pega-de-boi. Bem assim mesmo, pois Bastião notabilizou-se principalmente como vaqueiro, e um dos maiores de todo o sertão sergipano.
Foi com o seu pai Timbé, também grande vaqueiro e amante dos currais e da lida com o gado, que Bastião começou a tomar gosto pelas coisas dos sertões catingueiros e cheirando a boi brabo, traquina e corredor. As fazendas Capela e Lagoa da Mangabinha, de seu pai Timbé, foram seus primeiros berços de aprendizado. O passo seguinte foi se tornar vaqueiro em outros locais, nas fazendas grandes de renomados senhores.
Antes disso, porém, prestou serviços temporários na grande e afamada Fazenda Cuiabá, de Hercílio Brito, onde ajudava o recém-falecido Rivaldo de Janjão no tangimento de rebanhos e na pega de boi valente. Foram lições primordiais para o seu aprimoramento das coisas da vaqueirama. Tanto assim que o seu nome logo chegou ao conhecimento de outros portentosos donos de fazendas. Piduca Alexandre (irmão de João Maria de Carvalho da Serra Negra), dono de muitas propriedades nas terras sertanejas de Poço Redondo, logo viu no jovem Sebastião a pessoa ideal para tomar conta de seus pertences de gado e terra. Assim o convidou para ser vaqueiro na Barraca dos Negros, uma de suas grandes propriedades.
Quando esta propriedade foi vendida aos Honorato, o passo seguinte foi ser transferido para a Baixa Verde, também de Seu Piduca, onde permaneceu até adquirir seu próprio pedaço de chão, lá pelos idos dos anos 70. Mesmo não podendo ser comparada às grandes fazendas em extensão e rebanhos, mas a sua Pia da Barriguda passou a se constituir o seu imenso mundo e a ser seu orgulho maior.
Em 2017, mais por pedidos familiares do que por desejo próprio, Bastião deu adeus ao curral, aos bichos de cria, despediu-se da moradia, fechou a porteira e foi morar de vez na cidade. Vendida a Pia da Barriguda, certamente que sua memória ainda convive com todo o seu passado de vaqueiro, de homem do mato, de destemido em cima de um cavalo alazão. Sempre ladeado de netos, filhos, parentes e amigos, um encanto de pessoa em atenção e proseado. A verdade é que fez fama e continua reconhecido como um dos maiores de toda a história sertaneja.
Em seu livro Vaqueiro, Cavalo e Boi (ainda não publicado), o saudoso Alcino Alves Costa, primo de Bastião, tece algumas considerações sobre sua vida vaqueira, e diz: “Sebastião de Timbé era um extraordinário conhecedor de rastros, mateiro que sabia distinguir a pegada de uma rês fosse ela qual fosse... Montado em seus cavalos, o Meladinho ou o Escurinho, Bastião de Timbé não temia boi. Era vaqueiro de vanguarda e detentor de grande conhecimento da caatinga. Era um daqueles que se costumava dizer: ‘este não dá corda pra ninguém’... Nos campos do sertão sergipano o gado era quase selvagem. Está na história de Poço Redondo a odisseia do gado brabo de Mané do Brejinho; assim como o heroísmo dos notáveis vaqueiros de Poço Redondo, especialmente representados pelos incomparáveis Abdias, Tião de Sinhá, Rivaldo de Janjão, Sebastião de Timbé e Elias de Tonho Gervásio...”.
Hoje ali na sua calçada, muitos que passam talvez nem conheçam sua fama e sua história. Mas, sem dúvidas, um dos maiores nomes da história vaqueira de Poço Redondo. Parabéns, Bastião. Feliz aniversário e muitos anos de vida abrilhantando ainda mais o grande livro sertanejo.


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Lá no meu sertão...


FELIPE, Rei do Xaxado de Poço Redondo



Tudo ou nada (Poesia)



Tudo ou nada


De uma mesma mulher
de uma só mulher
eu sou namorado
sou esposo
sou amante
sou amigo

dessa mesma mulher
dessa única mulher
sou seu companheiro
e seu guardião
seu escudo
e sua lança

ou nada
nada depende de mim
apenas dessa mulher
que tudo imagino ser
para ser mesmo tudo
ou nada.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - as pessoas, segundo o seu mundo



*Rangel Alves da Costa


As pessoas geralmente traduzem o mundo em que vivem. Outras vezes, não se deixam levar por influências, modismos ou imposições. Muita gente já cresce de raiz tão forte que nada consegue desvirtuar seu destino de honestidade, honradez e caráter. Ante o mundo moderno, onde as influências são muito mais negativas do que proveitosas, certamente que é muito difícil se envolver sem se deixar transformar. As aproximações são, infelizmente, para a semeadura do que seja menos proveitoso na vida. Dificilmente alguém se mostra amigo de verdade, aconselha para o bem, não procura tirar proveito e sempre se mostra com palavra amiga e sincera. Raridade encontrar pessoas assim. Mas a verdade é que ainda existem muitas pessoas que jamais se deixaram transformar pelos outros. São chamadas de antigas, de bestas, conservadoras e ultrapassadas, mas não arredam pé de seus princípios. Ainda bem que seja assim. A pecaminosidade não consegue enlamear, a libertinagem não tem seu chamado atendido, os pecados tantos nem sempre assombram, pois sabem o querem e também sabem escolher seus próprios passos. Sem pressa do novo, deixam simplesmente passar. E depois caminham com graça e sabedoria.


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sábado, 19 de janeiro de 2019

A CASINHA DE BARRO QUE GANHEI



*Rangel Alves da Costa


Não faz muito tempo, durante a participação num evento histórico e cultural realizado na Escola Estadual Professor Justiniano de Melo e Silva, na cidade de Poço Redondo, no sertão sergipano, fui surpreendido quando uma das coordenadoras do evento, a professora Sandra Félix Cruz, anunciou que uma turma de alunos iria me presentear. Restou-me esperar o que aconteceria daí em diante. Mas logo imaginei o que poderia ser quando ela se aproximou de um objeto em cima de uma mesinha mais adiante.
Em cima da mesinha uma casinha de barro, ou de taipa, como se costuma dizer no sertão. Contudo, uma réplica tão perfeita daquelas moradias sertanejas erguida no cipó e barro, daqueles casebres levantados na lama do poço e na ripa da catingueira, que mais parecia a presença vida daquele mundo-sertão. Toda a estrutura é a mesma das casas originais, no barro e no telhado de palha, na junção da massa visguenta em meio à madeira. Tudo igual.
Logo me encantei. Cuido do Memorial Alcino Alves Costa, também em Poço Redondo, e aquela casinha teria uma serventia sem igual para contar a história do mundo sertanejo. Ao lado de objetos antigos, relíquias, fotografias e outros objetos que traduzem o passado desse tão belo e tão esquecido, aquela construção teria papel fundamental no resgate desse passado, embora ainda existente pelos arredores da cidade e mais adiante.
Estar diante dessa casinha de barro é realmente estar perante uma autêntica moradia sertaneja. Ora, pelos sertões sempre abundaram estes tipos de moradias. Pelas distâncias matutas ainda são costumeiras nas beiras das estradas, depois das cancelas, nos escondidos dos matos. Moradias empobrecidas e de pessoas empobrecidas. Sua humildade é avistada na própria aparência. Uma porta e uma janela, poucas dependências, o bastante apenas para a proteção e a subsistência no que a vida oferecer.
Nos sertões, as casinhas de barro afeiçoam-se à própria carência sertaneja. Lá dentro não há nenhum luxo, nenhum conforto, nenhum prazer senão de se estar protegido do sol e da chuva e de outras surpresas da natureza. Lá dentro a cama de vara, a esteira, a cozinha esfumaçada, a panela agastada, o pote, a moringa, a mesa tosca, o tamborete. Dificilmente mais que isso. Talvez uma rede, um rádio de pilha, um jarro com flores de plástico, um prato de estanho e uma caneca de alumínio e só.
Sim, uma feição de medonha pobreza, mas tão real como ainda de fácil comprovação. Muitas casinhas assim, de cipó e barro, ainda estão espalhadas pelas vastidões sertanejas. Mas é nelas, em meio ao barro e à cobertura de palha ou de telha, que o sertanejo encontra a sua felicidade de viver e a elas se devotam com o prazer da gratidão. Ora, não precisa de luxo algum, de grandeza alguma, apenas a riqueza de ter o seu cantinho para chamar de lar e nele criar os seus. E tantas vezes assim permanecer durante toda a existência.
E agora, na sua imensa expressividade e significação, ela faz parte do acervo do Memorial. E lá está numa mesinha, tendo ao lado um carro-de-bois, bem ao modo daquelas outras que estão pelos arredores. E quem adentra aos espaços logo reconhece e, de certa forma, também se reencontra com suas raízes. Recorda-se sempre das tantas casinhas de barro que conheceu, e até que no passado seus familiares já tiveram como moradia uma residência, singelamente empobrecida, mas tão sertaneja como nenhuma outra.


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Lá no meu sertão...


No Memorial...



Panela de barro (Poesia)



Panela de barro


Do fundo do poço
do visgo da lama
a mão calejada
juntando pedaços
afastando as sobras
acariciando o barro
até que a panela
ganhe sua forma
para depois secar
queimar e torrar
na madeira abrasada
para então se ter
já pronta de uso
e levar ao fogo
e fazer comida
no barro queimando
no fogão de lenha

e depois de tudo
e depois da serventia
de repente rachar
de repente quebrar
e em pó se tornar
assim como a vida.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – remédio pra gato



*Rangel Alves da Costa


Hei de encontrar um remédio pra gato. Mas não que esteja doente e precise de cura, mas por que tenho de dar sumiço sem chegar ao extremo. E não são dois, três ou cinco gatos não, pois são dezenas, talvez centenas. Mesmo durante o dia eles não dão sossego, mas depois do anoitecer aparecem em verdadeiro cardume (se peixes fossem). Uma gataria que ninguém suporta. Reviram lixo, sobem nas coisas, passeiam pelos móveis, pulam das alturas, quebram e destroem tudo. Já coloquei tela nas janelas, grades por todo lugar, deixo os portões e as janelas abertas por pouco tempo, mas ainda assim eles aparecem. Amarelos, cinzas, brancos petos, de todas as cores. Não adianta espantar. Eles correm e no instante seguinte já estão de retorno, e em maior quantidade, como de propósito ou zombando na cara. O que fazer, então/? Tenho de encontrar um remédio urgente. Ou eles ou eu. E pelo que sinto, eles estão em vantagem. E não permitirei que isso aconteça. Nem que eu saia de casa e coloque em meu lugar uns dez cachorros.


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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

MARIA E OUTRAS MARIA



*Rangel Alves da Costa


Toda Maria sertaneja simboliza a mulher na sua força, na sua pujança, na sua luta. Da Maria mãe do Senhor a Maria mãe de José, de Bastião, de Leocádio, de Zefinha, de Fabiano.
Mas Maria no prenome, apenas. Ou no primeiro nome da composta designação. Maria das Neves, Maria das Dores, Maria do Carmo, Maria da Anunciação, Maria do Sertão.
Este escrito, pois, é sobre uma Maria que é tantas Maria. E em todas a mesma Maria da luta, da fé, da Abnegação, do sonho, do sofrimento, da esperança. Maria de tudo.
E ainda, não é só uma história de Maria, pois uma história de mulher sertaneja. E como tal poderia ser uma história de Bastiana, de Zefinha, de Joana, de Conceição.
Maria olha para o alto e observa bem se apareceu alguma nuvem de chuva. Nada de plantação, apenas o cuidado de ir catar lenha seca e antes que caia qualquer pingo d’água.
Maria abre a porta do quintal e de cuia à mão vai de cantinho a cantinho. Há uma roseira, um pé de hortelã, um pé de cidreira, um pé de boldo. Preciso derramar água por riba.
Maria junta a roupa que tá suja, faz uma trouxa bem feita, coloca na cabeça e se bandeia para a beirada do riachinho. Aí ensaboa, bate a roupa, esfrega, estende pra secar.
Maria também lava no tanque do quintal, mas só quando alguma água sobra depois da serventia da casa. A não ser pra molhar planta, primeira cuidar no de beber e de comer.
Maria sempre canta enquanto lava, seja no quintal ou na beirada do riachinho. Mas só Maria para entender por que sempre escolhe velhas canções que sempre fazem chorar.
Maria gosta mesmo é de estender roupa no varal. Estende tudo e mais tarde coloca um tamborete por perto e fica só olhando a roupa seca querendo esvoaçar. E tanta recordação!
Maria não tem luxo algum. Também sua pobreza nunca permite luxo alguma. Mas ela já confessou que se tivesse milhões ainda assim nada de brilho ou de seda colocaria em si.
Maria não usa brinco, não usa batom, não usa roupa de grife, não usa sapato bom, não usa relógio ou pulseira, não usa brinco ou adorno. Maria só veste o pano que lhe recobre.
Maria possui por vício a fé, possui por bebida a sede, possui por fome a precisão. Mesmo necessitada demais e de tudo, sempre crê no amanhã como o dia de acontecer.
Maria reza, Maria ora, Maria passa o terço e o rosário entre as mãos. Não tem vela todo dia para acender, mas acende na mente e no silêncio da oração todas as velas do mundo.
Maria possui na parede um céu inteiro. Jesus Cristo, São Pedro, São José, Santo Antônio, São Francisco de Assim, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora de Lurdes.
Maria possui um outro céu na parede que é o céu sertanejo. Não só na parede como em cima de mesinhas. Aí o Padim Ciço Romão Batista e o Frei Damião, os dois santos matutos.
Maria tem fogão de lenha, de fogo no chão. Tem purrão pra guardar água de chuva, tem panela de barro, tem moringa e tem caneca de alumínio dependurada na cozinha.
Maria não escolhe comida, também não haveria de escolher. Na fome come o que tiver. Cata pedaço de pão, resto de preá assado, farinha seca, rapadura ou qualquer coisa.
Maria possui um jeito estranho de ser. Gosta de andar descalça, de falar com os bichos do mato, de sorrir para o vento, de brincar com passarinhos e borboletas. Numa felicidade só.
Maria talvez seja incompreendida. Talvez queiram que ela seja como as outras, mas ela é só Maria. Nada muda e ninguém muda o seu jeito de ser nem move sua palavra.
Maria não escolhe trabalho. Maria trabalha em tudo que lhe traga sustento, mas sempre com dignidade. Pega na enxada, no facão, enxadeco, no cabo da marreta, em tudo.
Maria deita cedo e acorda cedo. Antes de o galo cantar e ela já está em pé. Ajoelha-se perante o oratório, fala com os anjos e santos, conversa com os mistérios sagrados e se benze.
Maria nunca arredou o pé do seu chão em direção a qualquer cidade grande ou capital. E jura que prefere a morte a fechar a porta de sua casa em despedida ou viagem longa. É terra.
Maria tem os olhos fundos e profundos. Tem o rosto encovado dos magros. Tem as mãos calejadas da luta. Tem a sede da terra e a fome do bicho. Mas é a mais feliz do mundo.
Maria é assim. Eu a conheço. Sou sertanejo e vivo e convivo com muitas assim. Dasdores, Querência, Joaninha, Socorro, Esmeralda, Filó, Titoca...


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Lá no meu sertão...


No Memorial Alcino Alves Costa - Anete e família



Sorte (Poesia)



Sorte


Que sorte a minha
ter te encontrado
assim sozinha

mais sorte ainda
que ao meu coração
fosse bem-vinda

e sorte imensa
que ao teu coração
fui recompensa

e afortunados
na sorte do amor
enamorados.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – aqui sozinho



*Rangel Alves da Costa


Aqui sozinho. Estou agora aqui sozinho. Um gato mia, e uma gata está no cio. Lá no telhado, sob o luar, e eu sozinho. Passei na praça e vi pessoas enamoradas. Beijos e abraços, juras de amor, olhos nos olhos. Ainda estão amando assim, mas eu aqui na solidão. Lua e estrela numa paixão iluminada. Atrás de nuvens vão se esconder e namorar. E eu aqui sozinho. A ventania vai passando com as folhagens, e de braços dados e sussurros apaixonados. E eu aqui, aqui sozinho. Mesmo a rua no seu deserto, no seu noturno de solidão, encontra algum para abraçar os seus mistérios. E eu aqui sozinho. Gafanhotos, insetos noturnos, corujas, gaviões, carcarás, todos com seus gemidos, com seus ruídos, para serem percebidos. E de repente já saídos da solidão. Mas eu aqui na noturna solidão. Ela não veio, ela não vem, ela se foi. Minha metade me deixou na solidão. E fiquei somente na outra metade da solidão. E tão inteira e apavorante é a solidão.


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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

INDO MAIS ALÉM DA CIDADE



*Rangel Alves da Costa


Somente quem sai das esquinas, calçadas, bancos e muretas de praças, pode encontrar algo muito mais proveitoso pelos arredores, indo além da cidade. Somente indo além dos centros urbanos, ou daquilo que se tem como a nata da cidade, pode encontrar o estranhamento maravilhoso daquilo que este pertinho, mas que permanecia desconhecido.
Muitas vezes, basta apenas alguns passos, virar esquinas, alcançar os portais das estradas ou das veredas. Logo se tem outra feição da paisagem, da natureza, das existências ou redor. Uma flor de jurubeba brilha seu avermelho amarelado bem adiante. Que coisa mais linda! Logo vem à imaginação. Uma porta é aberta, uma cancela range, outro sertão vai surgindo.
Verdadeiramente, o sertão não é cidade, e sim o contexto maior que inclui os campos e os descampados, as estradas e sendas, os casebres e as construções, as malhadas e os currais, as portas humildes e as cozinhas toscas. Sim, pois o sertão está mais adiante e somente é melhor avistado e sentido mais adiante. Experimentem, pois, sair da cidade.
Experimentem caminhar por aí, como se diz. Experimentem experimentar o prazer de encontrar belezas em coisas tão simples e tão singelas. Experimentem dialogar com os silêncios dos horizontes e paisagens e conversar com os habitantes desse mundo: gente, bicho, pedra, planta. O que há além da cidade de Poço Redondo senão o tantas vezes e maravilhoso desconhecido? Ou mesmo o já conhecido que precisa ser revisitado.
Quando sigo pela estrada do Poço de Cima eu logo começo a experimentar isso tudo. Quando é tempo mais verdoso, chovido, o primeiro encantamento vem com o encontro das belas flores de jurubeba que ladeiam a estrada. Mas que besteira, alguém poderia dizer. Verdade que não é todo mundo que consegue sequer avistar um poético por do sol. Não é todo mundo que consegue ter as sensações despertadas perante uma flor de mandacaru, um ninho de pássaro, uma craibeira florida.
Apenas uma questão de maior ou menor sensibilidade. Mas eu me encanto com a florzinha vermelho alaranjada da jurubeba. Basta o encontro e o olhar para que em mim vão surgindo diversas indagações. E mais adiante, e por todo lugar, os casebres históricos, as marcas dos tempos idos, os sopros de vozes antigas, os mesmos passos daqueles primeiros desbravadores. O problema é que não basta apenas sair da cidade, seguir adiante. Necessário se faz que o caminhante dê sentido a cada passo.
O andante precisa dialogar com cada encontro, deve ter a sensibilidade de dar importância às pequenas e grandes coisas. Ora, tudo possui um sentido que precisa ser decifrado. Um mandacaru não é apenas um mandacaru, uma casinha de beira de estrada não é apenas uma casinha de beira de estrada, um curral antigo não é apenas um curral antigo. Sempre muito mais, pois tudo com uma razão de ser e de estar ali. Por isso mesmo que há muito que precisa ser encontrado além da cidade.
As pessoas de Poço Redondo precisam experimentar mais seus interiores e povoações, precisam conhecer comunidades, pessoas humildes, vidas que talvez nunca tenham saído de lá. Os jovens precisam conhecer suas nascentes históricas, os marcos do seu passado. Precisam desvendar pequenas feições que permaneceram escondidas mas que, quando conhecidas, tornam-se primorosas ao conhecimento.
Precisam conhecer as riquezas e as histórias ribeirinhas, precisam conhecer os marcos históricos do cangaço na região, precisam trilhar os caminhos das cachoeiras e das quedas d’água. Precisam perguntar o por que dos nomes dos lugares, saber de seus surgimentos, mostrar curiosidade acima de tudo. Não apenas saber, mas também conhecer. Há uma razão para o nome Curralinho, Cruz da Donzela, Aracaju.. Por quê? Precisam saber.
Quantos em Poço Redondo conhecem alguma coisa o Território de Maria de Rosário? Nem um por cento. Mas precisam saber. Por que o nome Barra da Onça? Por que Queimada Grande? Será que já existiram muitas onças no passado de Poço Redondo? Será que os antigos habitantes faziam muitas coivaras, queimadas e limpeza de pastos através do fogo? Coisas até simples, mas que nem todos se preocupam em juntar seus retalhos. A verdade é que há muito a aprender no livro chamado Poço Redondo. E igualmente com relação a todo município e a todo povoação. Por que o nome Quilombo Serra da Guia? O que historicamente isto significa? Simples indagações que precisam ser conhecidas por todos.
Logicamente que o centro urbano é bom, é muito mais confortável do que estar suando e cansando pelos aléns do lugar. Logicamente que é muito bom sentar na calçada da Câmara de Vereadores e ficar tomando cerveja, falando de tudo e de nada e fofocando enquanto os outros passam, mas o viver exige mais que estes meros prazeres. Prazeres outros existem que alimentam muito mais. Basta sair da cidade e seguir seus caminhos.


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Lá no meu sertão...




Lua na noite (Poesia)



Lua na noite


Se a lua cai
eu sinto seu clarão
e a minha dor se vai

mas se ela não vem
na noite escurecida
minha dor vai além

e agonizo de dor
com tristeza infinita
com saudade do amor

lacrimejo e choro
tudo é tão ruim
por seus braços imploro.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - Charles Dickens e o nosso mundo



*Rangel Alves da Costa


O escritor inglês Charles Dickens costumava permear seus romances com ambientações sombrias, tristes, desesperançadas. Docas enevoadas, galpões abandonados, ruas escurecidas, marquises sonolentas, crianças pobres, famílias carentes, um mundo de tristezas e desilusões. Mesmo em ambientações tão distantes, na localização e no tempo, parece-me que são demasiadamente aproximadas com nossa realidade presente. Ora, mesmo com as ilusões das alegrias, das festas e dos luxos, forçoso é avistar as descrições literárias de Dickens. Tudo difícil demais, complicado demais, num emaranhado de dores e aflições. Mesmo achando que não sofremos as desilusões das infâncias perdidas e os sofrimentos das famílias desvalidas de quase tudo, ainda assim somos órfãos de uma autêntica felicidade. Somos carentes e empobrecidos. Muito. Nosso mundo é acinzentado, ocre, fumacento, tenebroso e padecente demais.


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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A QUASE MORTE E O RENASCIMENTO DE UMA IGREJA



*Rangel Alves da Costa


Serei logo direto. O que não é reparado vai sendo destruído aos poucos. O que não é preservado possui muito menos tempo de existência. O que é simplesmente abandonado ainda mais, pois morre mais rapidamente nas suas entranhas.
Assim com a vida humana, material, histórica e cultural. A foto abaixo exemplifica bem tudo isso. A Capela de Santo Antônio do Poço de Cima, mesmo sendo a primeira igreja construída nos primórdios da história de Poço Redondo, continua preservada e ainda mais bela pela iniciativa popular.
Por quê? Simplesmente pelo fato de que pessoas da comunidade, jovens como Enoque Correia e João Vitor, dentre outros, abençoados e impulsionados pelo Padre Mário, chamaram para si a incumbência de não deixá-la morrer.
Não faz muito tempo que a igrejinha do Poço de Cima estava praticamente em ruínas, a todo tempo sob o risco de desabar de vez e tornar-se apenas escombros. O mato, o tempo e o abandono, iam tramando seu fim.
Ao longe, ao invés da fachada, avistava-se apenas a mataria tomando conta de tudo. O povo tinha até medo de se aproximar. Até mesmo as sepulturas ao redor viviam ao esquecimento.
Por que toda essa transformação? Por que hoje em dia se constitui em paisagem bonita e até prazerosa de visitação? Por que a comunidade retornou ao seu meio e aos ofícios de devoção e fé? Por que as celebrações na igrejinha se tornaram constantes e concorridas? Por que atualmente há missas, novenas, procissões e festejos religiosos, se o seu tempo de existência já estava com dias contados?
Simplesmente pelo já relatado. Acaso não existisse a sensibilidade, a preocupação e a ação humana, certamente que somente as cinzas da história restariam na igrejinha. Ela renasceu da quase morte e tão bela está por que naqueles jovens aflorou o idealismo tão corajoso: “Não podemos deixar morrer parte de nossa História!”.
E não deixaram mesmo. A semente lançada e que tão belamente frutificou, deveria, isto sim, servir de motivação para que o poder público municipal o mesmo fizesse com outras feições da história de Poço Redondo que estão morrendo.
Será que a administração municipal nada pode fazer para evitar que outra parte da história do Poço de Cima desabe de vez com as últimas casinhas ainda existentes? Seria tão difícil assim firmar parceria com seus proprietários para que uma “mão de barro” lançada pudesse salvar o que resta naquelas antigas moradias? E as construções primorosas e seculares de Curralinho, Bonsucesso e outras povoações?
Já perdemos a Gruta do Angico para Piranhas e os empresários. Já perdemos Cajueiro para os forasteiros. Já perdemos Curralinho para o abandono. E quanto Poço Redondo ainda tem que perder para que nossas riquezas comecem, enfim, a serem preservadas?


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Lá no meu sertão...


Quando chove...





Um poeta (Poesia)



Um poeta


Um poeta
e sua noite nua
tecendo versos
jogando na rua
para ser lidos
pela luz da lua

sou eu
esse desvalido
poeta que anoiteceu
de amor desquerido
e renasce o amor
no amor já morrido.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - por que não aceitar o fim de um relacionamento?



*Rangel Alves da Costa


Não passa de extremada babaquice o fato de não aceitar o fim de um relacionamento. Ora, se não deu mais, se os caminhos não são os mesmos, então que cada um vá cuidar de sua vida como bem entender, e não continuar obrigando ou querendo ser dono daquele que disse não. Igualmente inadmissível que o fim de um relacionamento seja motivo para violências, perseguições e até mortes. Rotineiramente os jornais estampam manchetes dizendo que alguém não aceitou o fim do relacionamento e matou a ex-companheira. Por que assim, por que tanta barbárie, se ninguém é forçado a conviver com o outro apenas por que este assim deseja? Será que a pessoa que deseja liberdade tem viver submetida ao medo, à pressão, à chantagem, à perseguição e à mira de uma arma? Como se diz, vá viver sua vida e deixe o outro viver. Se não deu certo, então dê a volta por cima e procure ser novamente feliz. Não é caçando ou ferindo o outro que a paz do amor será reencontrada. É preciso respeitar o próximo, e tal respeito inclui a sua plena liberdade de fazer o que bem desejar. Até mesmo de passar na frente de mãos dadas com outro e mostrar-se satisfeita pelo prazer de não mais conviver com um monstro, um imbecil ou coisa parecida.


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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

LAMPIÃO DE CELULAR



*Rangel Alves da Costa


Cornélio Tesourinha, que ainda hoje autoproclama-se o mais afamado de todos os coiteiros que no passado serviram ao Capitão Lampião e seu bando, de vez em quando vem com umas histórias que sequer me aproximo para ouvir. Evito a todo custo os seus tão conhecidos deslavamentos. Quem já se viu tanta mentira assim, e logo num homem já na curva dos cem?
O homem mente tanto que dá engasgo só de ouvir pelos outros. E o pior que ainda tem um monte de gente que vai à procura do mentiroso para se deleitar com suas conversas sem pé nem cabeça, com seus embustes de fazer estátua acordar e correr. Mas bem feito. Como se pode acreditar num homem que diz que já foi casado com uma raposa, que tem um filho guaxinim, que já morreu e foi mandado de volta? Só se foi pra continuar mentindo muito mais!
Ainda vem um cabra me perguntar se podia ser verdade a história contada pelo mentiroso e dando conta de que no tempo do cangaço o bando de Lampião tinha do bom e do melhor, desde telefone celular a água gelada de geladeira no coito. E também televisão e forno micro-ondas, além de outros utensílios de alta tecnologia.
Interessei-me pelo tamanho da mentira e arribei apressado na direção da casa do lorotista, ainda que com a certeza de que avermelharia de raiva. Chegando lá, como se tivesse tomado um remédio para evitar o pior, comecei a fazer perguntas e mais perguntas. Eu só faltava estrebuchar perante tanta mentira, mas ele nem aí. Sobre o tal celular (e também sobre a informática cangacista), o desavergonhado contou assim, tim-tim por tim-tim:
“Celular mesmo só tinha Lampião, e mandado de presente pelo Coronel Veriano das Flores, lá da região do Quiproquó. O problema é que o telefone do Capitão deu problema logo na tardezinha da véspera daquela matança em Angico. A bateria descarregou e o fio, que era puxado de Piranhas, do outro lado do rio, talvez tivesse sido tirado da tomada, e ninguém sabe por quem. Ou sabe, mas nunca quis dizer. Eu sei quem foi, e depois eu digo.
Na verdade, nada teria acontecido daquele jeito se o telefone de Lampião tivesse bom. Com certeza, gente da própria volante, e gente graúda, tinha telefonado pra ele e avisado pra se retirar. Mas era assim mesmo que se fazia. Eu mesmo já presenciei o Capitão marcando jogo de carteado pelo celular, e com gente graúda da volante. Enquanto pensavam que tava caçando cangaceiro, tava mesmo era jogando buraco, relancinho e três-sete, debaixo dum pé de umbuzeiro. Lampião era bom de jogo e nunca perdia. Também nunca aceitava o dinheiro ganho. Pelo contrário, dava ao graúdo da volante um negocinho por fora.
Mas a verdade é que naquela tardezinha do dia 27 o celular ficou totalmente descarregado. Quem também não gostou da falta de energia foi Maria Bonita, acostumada demais a tomar água quase congelada da geladeira que tinha no coito. Geladeira novinha e mandada de presente por Mané Belarmino, um fazendeirão que naquele tempo existia pelas bandas do Poço Redondo.
Maria Bonita só gostava do bom e do melhor. Todo dia se aporrinhava por que a televisão dela era a pilha. Certa feita, ela disse a Lampião que ou ele arranjava uma televisão bem grande, dessas fininhas de parede, ou ela ia assistir filme noutro lugar. No instante seguinte, o cangaceiro já tava mandando bilhete pra Mané Belarmino. E certamente pra ele mandar pro coito a melhor televisão que existisse. Mas voltando ao celular, pois foi assim mesmo.
Lampião gostava de tirar retrato com ele, até mandava que filmassem ele fazendo jeito de tiro e de ataque. Mandava retrato direto pra Padre Ciço. Sempre se afastava um pouco quando o assunto era mais segredoso, mas ainda dava pra ouvir: “Dez caixas de munição e mais duas de arma boa. Também uma remessa de charuto cubano e uma porção de litros de uísque escocês. Maria disse que não se esqueça dos vinhos, dos perfumes franceses e dos queijos finos...”. Mas logo esse celular que ele tanto gostava foi acabar a bateria.
E na véspera do triste acontecido. Eu mesmo não vi não, não vou mentir, mas dizem que quando lhe mandaram um balaço, o rei cangaceiro tava de celular na mão. Mesmo sem carga na bateria, certamente queria fazer uma ligação de urgência. Talvez gritar perguntando: “Seu fi de uma égua, é com traição que quer me pagar o que me deve?”. Foi tarde demais. O celular não falou e a bala comeu no centro. Sim, pra que não esqueça, a verdade é que depois do acontecido, com aquela matança toda, carregaram a bateria do celular e encontraram no whatsapp uma lista espantosa de amigos: governador, político, comandante de volante, coronel, todo mundo. Foi assim mesmo, pode acreditar!”.
Acreditar? Mas como acreditar em tanta mentira? Mas, por fim, perguntei: “E entre os coiteiros, quem tinha telefone celular?”. “Eu”, e esta foi a resposta mais deslavada que já ouvi. E o velho mentiroso, talvez achando pouco, ainda disse: “Mas o meu era feito de osso de gado...”.


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Lá no meu sertão...


Menino da estrada...



Pelo jardim (Poesia)



Pelo jardim


Mesmo agora na solidão
ao mesmo jardim retornei
aonde a gente se encontrava
e a primeira vez que abracei

e por ali ela sempre passava
sequer me avistando sentado
fingindo que eu não estava
ou um estranho e abandonado

mas eu a deixava passar
também fingindo que nada via
e ao invés de sofrer e chorar
dava milho aos pombos com alegria.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - o perigo da posse de arma



*Rangel Alves da Costa


Só na cabeça dos estrategistas do planalto achar que a posse de arma vai trazer mais segurança ou defender a população. Pelo contrário, a posse (ou ter a arma em casa para defesa pessoal) é apenas um passo para que a pessoa comece a ter o porte (ou seja, a andar armado). E será que todo mundo que compra arma vai utilizá-la somente no ambiente doméstico ou para defesa pessoal? Duvido. Certamente que as armas sairão das casas e tomarão as ruas. E tomando as ruas, nas mãos de criminosos, violentos e perigosos, a desproteção de todos será ainda maior. Serão muito mais armas e muito mais bandidos, não há que duvidar disso. Por outro lado, também não se pode esquecer-se do perigo que pode representar uma arma no ambiente doméstico ou familiar. A violência humana já se exacerba sem ter por perto uma arma de fogo, que se imagine tendo bem ao lado uma pistola. Certeza de agressividade, de morte, de terríveis consequências. Votei em Bolsonaro, mas desta feita ele atira no próprio pé.


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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

ANETE, VINTE ANOS DEPOIS



*Rangel Alves da Costa


Até meados dos anos 80 do século passado, as terras pertencentes aos municípios de Poço Redondo e Canindé de São Francisco, no sertão sergipano, na sua grande maioria pertenciam a um reduzido número de proprietários, latifundiários que pouco exploravam suas riquezas e mantinham aquelas vastidões muito mais pelo poder da posse do que seu efetivo uso. Um destes latifúndios, de propriedade de Antônio Leite, o Toinho Leite de Ribeirópolis, e denominada Barra da Onça, enquadrava-se no contexto da improdutividade pela sua dimensão e como afronta àqueles que, pelos arredores ou mais distantes, sonhavam em ter apenas um pedacinho de chão para garantir a sobrevivência.
Foi neste cenário que começaram as lutas pela reforma agrária na região sertaneja, até que no ano de 1986 surgiu, enfim, o Assentamento Barra da Onça, pedra fundamental para o grande número de desapropriações e assentamentos que surgiram daí em diante. Contudo, uma vida de grandes dificuldades para os assentados, principalmente pela necessidade de se reinventarem na terra árida, seca e sem opções produtivas, mas também pela demora nas ações governamentais que garantissem a digna sobrevivência. Nesta moldura de esperança ensolarada é que estava igualmente retratada a família de Agenor Miguel da Silva e Maria de Fátima da Silva, gestora de uma prole que passaria a somar treze filhos, sendo nove mulheres e quatro homens.
Dentre as filhas de Seu Agenor e Dona Maria de Fátima estava uma franzina de dez anos, de cabelos escorridos e alourados, olhos grandes e melancólicos, de sorriso pouco e sonhadora. Seu nome: Anete Alves Silva. Desde criança convivendo com um mundo de pobreza e dificuldades, morando em casa de taipa apinhada de gente, passando até fome, a menina Anete só começou a perceber alguma mudança em sua vida quando o assentamento foi visitado por pessoas desconhecidas e retratando aquela realidade através de fotografias. Segundo ela, já estava na escola da comunidade com a professora e mais dois colegas quando chegou um senhor pedindo para fotografá-la ali mesmo sentada na cadeira escolar. Este fotógrafo outro não era senão o mestre da fotografia Sebastião Salgado.
Com a despedida dos visitantes, a difícil vida tomou sua normalidade. Verdadeira dádiva sagrada quando a família recebia alguma cesta de alimentos ou qualquer quilo disso ou daquilo para ajudar na sobrevivência de tantos num só e empobrecido lar. Na imaginação de Anete - que sequer recordava mais daquele retrato tirado na sala de aula -, nada mudaria senão por força do tempo e destino. Tudo estava nas mãos de Deus. Até que cerca de um ano após a fotografia chegaram outros visitantes e dessa vez para afirmar que o seu retrato havia sido escolhido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para figurar nas cartilhas e cartazes da Campanha da Fraternidade de 1998.
E mais: que dali em diante Anete teria seus estudos pagos e que a família seria ajudada no que necessitasse para a sobrevivência. E não demorou muito para que chegassem doações não só para sua casa como para outras famílias da Barra da Onça, e também para outras comunidades de Poço Redondo. Desse modo, segundo Anete, toda sua vida começou a mudar a partir daí, como num sonho bom que estava acontecendo. E o sonho foi acrescido quando o então governador Albano Franco mandou providenciar uma casa bem maior e confortável para a numerosa família.
Assim os passos da mudança na vida de Anete, a menina da Barra da Onça fotografada por Sebastião Salgado e que ganhou mundo na Campanha da Fraternidade de 1998 (Fraternidade e Educação: A Serviço da Vida e da Esperança). Em março de 98, comentando sobre a fotografia contida no cartaz, Dom Ervin Kräutler, Bispo de Xingu/PA, teceu as seguintes observações: "Com seu rosto e cabelos desordenados, esta menina representa milhões e milhões de crianças-jovens, do Oiapoque ao Chuí, de Fernando de Noronha a Tabatinga. Pode ser da roça ou das periferias das cidades. Sua posição, suas mãos segurando o lápis, seu olhar e sua boca nos dizem: 'Olhe, estou aqui! Quero aprender! Quero ver! Quero ter vida digna! É por isso que me esforço, faço até sacrifícios! Mas eu preciso de vocês! Quero que me ajudem!'. Seus olhos, tão expressivos, abrem-se para um futuro que se deseja melhor: justo, fraterno, solidário. São olhos ávidos de amor e compreensão. Seu brilho traduz e expressa uma grande esperança: a de que um dia todas as lágrimas serão enxugadas e, finalmente, haverá de surgir um mundo novo, sonhado e querido por Deus".
Hoje Anete, mais conhecida como Nety, está com trinta e um anos de idade, ainda moradora da Barra da Onça, permanecendo muito agradecida àquele inusitado acontecimento em sala de aula, quando uma fotografia mudou totalmente os rumos de sua vida. Casou-se aos dezessete anos, mas hoje está separada e em relacionamento com outro sertanejo. Concluiu o ensino fundamental e não prosseguiu nos estudos. Atualmente, conforme confessa, seu sonho maior é fazer tratamento para ter um filho, vez que um problema de ovário sempre a impediu de ser mãe, esperança grande que ainda deseja realizar.
Desse modo, vinte anos depois e Anete, ou a Nety de agora, pode ser ainda encontrada na Barra da Onça, sempre bela, alegre, com sorriso largo e olhos bem diferentes daqueles retratados por Sebastião Salgado. Olhos de vida, de agradecimento, vívidos e esperançosos pela dádiva maior que lhe possa acontecer, sob os préstimos da medicina: conseguir ser mãe, enfim. E quem desejar ajudá-la a realizar seu tratamento, pode entrar em contato com este articulista pelo telefone (79) 99830-5644. Anete ficará muito grata por mais este presente de vida.


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