SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 31 de março de 2019

A MOÇA QUE CANTAVA TRISTE



*Rangel Alves da Costa


Joana das Flores, assim era o nome dela. Um nome, aliás, muito alegre e florido para uma mocinha de cantar tão triste. Triste ela mesma, e mais triste ainda a melodia ecoando de sua voz bonita.
Acaso cantasse alegrias, felicidades, conquistas, amores amados e conquistados, até se poderia dizer que das Flores era uma cantora completa, com sua voz passarinha e seu mavioso compasso de encantar sereia.
Ecoava seu canto triste quando no quintal, enquanto lavava roupas. Soltava sua voz tristonha em tristonha canção quando estava derreada no umbral da janela, avistando o mundo lá fora e com olhos de dor e ausências. Cantava triste no seu quarto, por todo lugar.
E que letras tristes aquelas daquelas canções entristecidas:

“Que venha a noite em meu viver
nenhuma luz em mim a clarear
basta-me a dor e do mundo seu sofrer
pois sem amor no coração nada mais há

ave agourenta traga-me seu pio de lamento
no breu da noite os meus olhos são de mar
chorar a lágrima de uma vida de tormento
pois sem amor no coração nada mais há

então que venha a noite com seu luar de fel
veneno em cálice em minha boca a derramar
não há viver aqui na terra nem no céu
pois sem amor no coração nada mais há”.


Após cada canção, após cada melodia espalhada aos ventos desalentados, Joana das Flores levava o lenço aos olhos e enxugava o que restava de dor pela canção. E no seu peito, certamente o mesmo canto magoado e cheio de entristecimento. Por mais que pedisse um canto novo, um canto alegre, não havia jeito, pois ao longe ecoava coisas assim:

“Punhal de ponta afiada tão amigo do meu peito
nada mereço além da dor e do sangue derramado
um viver triste e pelo sofrimento assim desfeito
vai coração e foge do meu peito enjaulado

sobre as brumas dos caminhos espinhentos
meu passo segue todo ferido e lancinante
num grito preso e sem mais força aos tormentos
túmulo aberto e onde a cruz é meu amante

não chorem por mim depois de minha partida
dê-me as lágrimas que preciso mais chorar
daqui a pouco chegará a ventania em despedida
e no além será meu lar e meu eterno repousar”.

Mas um dia, mais precisamente ao entardecer de horizonte avermelhado, a mocinha parou o seu melancólico canto assim que avistou alguém passando ante sua janela. Tão belo rapaz, mas tão formoso rapaz, que num instante ela reinventou-se numa nova canção, e como nunca havia cantado antes:

“Quem quiser sofrer dou minha canção
encontrei alguém para um novo cantar
aquele belo rapaz sorriu ao meu coração
e ele com amor é que eu vou me entregar”.

E nunca mais a mocinha cantou tristezas. Mas continua cantando, só que numa felicidade tal que alguém diria ser a mais contente do mundo. É o amor e o seu canto transformador.


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Lá no meu sertão...


Poço Redondo, sertão sergipano





Encontros, olhares e abraços (Poesia)



Encontros, olhares e abraços


Gosto de quem me encontra
e de repente me olha
com espantado sorriso

gosto de pessoas cujo olhar
festejam os amigos e os abraços
brilham o prazer do reencontro
e sem palavras dizem que bom

gosto desse espanto imenso
da mudez surgida pela surpresa
e das mil palavras então nascidas
depois que a certeza se torna alegria

como eu gosto de abraço assim
apertado e trêmulo e todo sem jeito
da mão que quer apertar demais
e da magia do querer saber como vai

então o amigo enche os olhos d’água
então a boca quer se encher de flores
mas a verdade do tempo diz apenas
que vivendo na luta e na esperança.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – pessoas intragáveis, abomináveis, imprestáveis...



*Rangel Alves da Costa


Sim, existem pessoas assim: intragáveis, abomináveis, imprestáveis. E muito mais, pois não raro também são insuportáveis, ridículas, intoleráveis, irritantes, nojentas. Pessoas que se comprazem na desgraça do outro, na fofocagem, na desfaçatez. Pessoas que são espelhos da falsidade, da mentira, da aleivosia, do mau-caratismo. Pessoas que empobrecem os ambientes, que ridicularizam os diálogos, que procuram espalhar lamaçais onde passam ou chegam. Pessoas que são fingidas, mentirosas, traidoras. Pessoas que não são acreditadas nem por si mesmas, que não são confiáveis em nada, que são evitadas a todo custo. Pessoas que puxam tapetes, que semeiam discórdias, que vivem para o mal e a maldade. Pessoas que estão aqui, ali e por todo lugar. Pessoas que um dia até se fez de amiga, que disse uma palavra que parecia acreditada, mas apenas uma artimanha para depois espargir de peçonha. Víboras, cascavéis, carnicentas. Pessoas assim existem muitas. E você, conhece alguma?


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sábado, 30 de março de 2019

CHUVA BOA EM POÇO REDONDO



*Rangel Alves da Costa


Chuva boa em Poço Redondo. O sertão molhado, encharcado, enxurrando, pelas beiradas despejando vida. Tanques cheios, açudes no espelho d’água, barreiros tomados da seiva maior, córregos pedindo passagem, riachos e riachinhos em cursos de tempo novo. Horizontes nublados, paisagens gotejantes, plantações sorridentes, a terra cantarolando desde o seu útero.
O que ainda há pouco tempo era dor, sofrimento e desesperança, eis que agora se transforma em boa-nova, em salmo sagrado, em dádiva maior a um povo. Cada nuvem formada é como um manto que chega para dissipar a aflição. Cada nuvem prenhe e se derramando é como se fazendo nascer um fruto bom da fertilidade.
Coisa linda é ver, é sentir, é conviver com um sertão assim. Assim chuvoso, assim molhado, assim escorrendo e chamando mais águas novas. A terra, adormecida sedenta e faminta, de repente abre o seu ventre para a semeadura. Cada pingo de chuva caindo vai gestando uma imensidão de esperança. Só sabe diferenciar o molhado do ressequido quem já mugiu a dor do bicho, quem já berrou a mesmo sofrimento do animal.
Pelos caminhos, estradas e veredas. Em tudo o verdejar que desponta sorridente e feliz. Pelas porteiras, cancelas ou passagens, a feição de um recomeçar a boa e sagrada luta. Em cada malhada, em cada curral ou mato aberto, não mais o desalento abrasado da terra seca, nua, agonizante. As copas altas já florescem. As enxadas já sulcam a terra para o grão ser lançado.
E o que dizer daquele homem, daquela mulher, daquele sertanejo, enfim, passando agora as contas de seu rosário em agradecimento? As promessas já estão sendo pagas. Os santos enterrados de cabeça pra baixo já estão sendo revirados e levados aos oratórios da fé e da esperança. Não, não há que se importar com goteira, com pingueira, com chão molhado, com nada que caia vindo na chuva. Então que chova, e chova muito!
Que imagem e que semblante: O sertanejo abre a porta de sua casa e estende o chapéu para que os pingos caiam em profusão. E depois deita o chapéu sobre a cabeça e se ajoelha ao chão. Qual oração? Todas do mundo. Que cena mais encantadora: o povo sertanejo, do mato, da roça, dos afastados da cidade, indo além da frente de casa de braços abertos e elevados aos céus em meio à chuvarada caindo. O que isso significa? Perguntem ao sertanejo qual a graça maior depois da saúde e da paz!
A chuva é tudo para o sertão e o sertanejo. Quanto mais chove mais se deseja mais chuvarada. E não é para ser diferente. E por isso tanta conta de rosário passada em dedos nus, tanta promessa feita por corações afligidos, tanto apego às coisas do céu e tanta esperança no Pai maior. E ele tinha razão quando dizia: “O sofrimento é muito, mas tudo no tempo de Deus. Deus é pai e não desampara o filho sofrido. O que agora é barro, amanhã vai ser lama, o que agora é seco, amanhã escorrendo vida por todo lugar”.
Somente quem vive o sertão, do sertão e do que ele possa oferecer, sabe dizer o tamanho do padecimento quando tudo seca e tudo some da panela do homem e do bicho. Não tem palma, não tem capim, não tem ração. Tem apenas o bicho magro, esquelético, sofrendo de sede e de fome. De repente vai se achegando um gavião, um carcará, um urubu, e tudo cercando a vaquinha magra em tempo de cair de vez. Mas eis que lá de cima irrompe o trovão, o relâmpago começa a cortar os céus, as nuvens gordas vão se aproximando. E a chuvarada começa a cair.
E quando cai a chuvarada a vida se transforma em festa. Por isso mesmo que Poço Redondo está em festa esses dias. Em cada pingo caído ecoa a mais bela melodia. Em cada tanque que se recobre de água avista-se um verdadeiro milagre. Em sonhos renascidos, a cidade se recolhe para não se encharcar. E deixa que a molhação vá se espalhando pelos campos e mais além.


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Lá no meu sertão...


Em Poço Redondo, num lindo sertão!





Cartilha do coração (Poesia)



Cartilha do coração


Tudo o que quero
venha de ti
e o que tiver
será de ti

o amor que der
receberá
a fidelidade
de mim terá
o prazer em dois
assim será

é o que quero
no nosso amor
se sou amado
amor que dou.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – duras palavras



*Rangel Alves da Costa


Você disse que nesse erro não incorreria mais. Mas fugir do errado pareceu incapaz. E do errado se lambuzou e pediu mais. E agora chora entre soluços e ais. Quem mandou fazer assim? Quem mandou atravessar a estrada e chegar ao fim? Ora, sabia que o perfume não era de jasmim e que as flores mortas não eram de jardim? Chora por que, se eu mesmo lhe chamei e disse a você que pensasse duas vezes antes de um novo erro cometer? Chorar por que se a culpa é somente sua e não do que deseja ser? Era fim de tarde, estava na brisa e quis a tempestade. Era amanhecer, mas não se contentou com o resplandecer, fugiu da luz para o anoitecer e se perdeu no breu até desaparecer. Quer um conselho? Então se olhe agora mesmo no espelho. Não é batom isso que está vermelho, mas o sangue do erro descendo além do joelho e sobre a terra lhe deitando por viver em grupelho. Se quer levantar, então escolha o bom amigo para lhe acompanhar. Alguém que dê a mão e não lhe tire o coração. Alguém que na palavra lhe dê um abrigo e que em cada ação se mostre ser amigo.


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sexta-feira, 29 de março de 2019

SCHOPENHAUER NA ÁRVORE DO SILÊNCIO



*Rangel Alves da Costa


Belíssima a assertiva de Artur Schopenhauer: Da árvore do silêncio pende seu fruto, a paz. Fruto doce, apetitoso, e sem qualquer ruído.
E a árvore do silêncio, tão bela e frondosa, pode ser avistada, tocada, sentida, em todo lugar. Desde o asfalto ao chão fecundo lá estará.
E também estará onde ninguém avista, onde somente o semeador conhece o seu lugar e a sua imponência. Tão imensa e visível, tão presente e invisível é a árvore do silêncio.
Não precisa de arvoredo ou pomar, floresta ou mata fechada. Não requer distância do homem para estar protegida. E não morre com o tempo, pois eterna é a árvore do silêncio.
Aliás, a árvore do silêncio não nasce senão da raiz do desejo de cada indivíduo, não cresce senão na mente e não frutifica senão em galhos invisíveis. Mas pressupõe sempre o silêncio para florescer, para dar seus frutos.
E dessa árvore, presença silenciosa ao redor do indivíduo, a paz vai brotando como fruto mais desejado. Fruto doce é o da paz, e talvez o único que possa saciar a fome do mundo.
O mundo, o homem, a vida, as relações, os seres, a existência, as convivências, os amores e os ódios, as intrigas e os entendimentos, tudo necessita de paz. E o fruto da paz não será colhido enquanto não surgir o silêncio que possibilite a reflexão.
Quando o filósofo afirma que da árvore do silêncio pende o fruto da paz, outra coisa não faz senão afirmar que somente o silêncio possibilita ao homem colher a calma e tranquilidade necessárias para refletir acerca dos caminhos que levem à paz.
Ora, a paz citada não é apenas aquela envolvendo quietude, tranquilidade, placidez, sossego, serenidade. Envolve muito mais, eis que a paz referida por Schopenhauer é também aquela fruto de um estado mental e espiritual que leva ao homem o poder da reflexão, da meditação.
A reflexão e a meditação seriam as sementes que germinariam a paz. Ora, a paz não é pensada em meio à guerra, à balbúrdia, às gritarias e desassossegos. O encontro com a paz exige silêncio, concentração, imaginação.
Fácil compreender o porquê de o silêncio frutificar. É no silêncio que o pensamento se aperfeiçoa, que a mente se torna produtiva, surgem as ideias, as boas noções, os caminhos e as possibilidades se tornam mais nítidas.
É no silêncio que o homem encontra consigo mesmo, que alarga sua visão acerca da realidade, que adentra profundamente naquilo que em outra situação seria apenas aparente. Basta que o silêncio paire, que calem as vozes da incompreensão, e o homem estará apto a ser uma voz espiritual diante do mundo.
Que se tomem como exemplos as grandes criações ou invenções humanas, ou mesmo os estudos que produziram descobertas consideráveis. Em tais situações apenas o diálogo do homem com o seu objeto, de forma silenciosa e produtiva, de modo que apenas a aparência da intencionalidade tivesse voz.
Impossível imaginar Mozart ou Bach criando sua música em meio a algazarras. Difícil conceber Einstein debruçado sobre sua teoria em meio a vozes e gritarias. A poesia, a escrita, a pintura, a arte em si, exige um mínimo de silêncio para encontrar sua própria voz.
Que se imagine Schopenhauer subindo à montanha para encontrar o silêncio tão necessário à meditação filosófica. Mesmo tecendo acerca de pessimismos e dores do mundo, não deixa de reconhecer que somente o silêncio possibilita o aprofundamento em tais questões.
Veja-se, por exemplo, o sino da igreja. Ouvir o seu badalar em silêncio provoca um diálogo espiritual de indescritível intensidade. E até dá para ouvir a canção da brisa do entardecer quando o silêncio envolve tudo ao redor.
Sim, na árvore do silêncio a paz. E um canto de pássaro que jamais será ouvido por aqueles que não são nem de silêncio nem de paz.


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Lá no meu sertão...


No mato...


Vida de roça (Poesia)



Vida de roça


Vida de roça é assim
matuta e bonita sem fim

bicho mugindo no pasto
passarinho em avoação
roupa de chita pro gasto
a voz ecoando oração
um mundo belo e vasto
na fé a maior devoção
na mesa pouco repasto
mas fartura no coração

vida sertaneja é assim
no sertão que há em mim.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – “As contas do meu rosário...”



*Rangel Alves da Costa


AS REZAS DA SEMANA SANTA EM POÇO REDONDO – Nesta noite de sexta-feira, na casa de Seu Bernardo e Dona Beatriz no Conjunto Augusto Franco, em Poço Redondo, tive a grandiosa satisfação de reencontrar um povo sertanejo em plena demonstração de fé e devoção. Durante a quaresma, todas as quartas e sextas, homens e mulheres de todas as idades, a partir das sete horas da noite e seguindo até o último ponteiro do dia, reúnem-se na casa humilde, já perto do riachinho, para as rezas e louvores, para as ladainhas e incelenças, em momento único de religiosidade e beleza naquelas vozes ecoando a santa devoção. Reginaldo e Bebé ao lado da mesa sagrada, onde estão presentes as imagens de Nossa Senhora e outras santas, bem como onde está acesa a vela, e em tudo exalando a plenitude da fé matuta, cabocla, da terra. A sala da casa repleta de gente, pela calçada também. Pessoas simples, meigas, de feições sertanejas e corações cativos na adoração. Ali um povo em sua expressão maior em respeito ao período quaresmal. As imagens santas estão pela casa inteira. Nas paredes, o céu dos devotos, nas fitas sagradas e nas promessas, a certeza do quanto ainda se guarda dessa raiz mítica e profunda que é a persistência devocional de um povo. Na última semana da quaresma, as rezas se tornam diárias, e a partir da boca da noite em diante aquelas bandas de Poço Redondo se transformam em lugar sagrado, e da humilde moradia do casal ecoando os hinos de fé: “As contas do meu rosário são balas de artilharia, dão combate no inferno quando eu rezo Ave-Maria! O Rosário de Maria foi feito em Jerusalém, Pai e Filho, Espírito Santo, na hora de Deus, Amém!”.


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quarta-feira, 27 de março de 2019

NO SERTÃO TAMBÉM É ASSIM



*Rangel Alves da Costa


O sertão é também um tanto atravessado. Certamente que Euclides da Cunha não se referiu a todo filho da terra quando disse que o sertanejo é antes de tudo um forte.
Ora, tem cabra frouxo que só a moléstia, tem gente preguiçosa que só a gota, tem gente que não tá nem aí pro cantar do galo.
O sol bate na cumeeira, desce por riba da cama, espalha seu fogo por todo lugar, e o cabra não tá nem aí. Vira-se pro outro lado e começa a roncar novamente.
Acorda, levanta, fi da peste preguiçoso. Deixa de moleza, seu fi da preguiça. Levanta, levanta que já tá na hora de jogar milho pros pintos.
Enquanto Zequinha nem espera o dia amanhecer para começar os afazeres do dia, um e outro roncam até perto do meio-dia. E não é de espantar se passar disso.
Zequinha abre as portas do fundo com tudo ainda escurecido. Até o galo reclama: “Esse fiu da peste não espera nem eu levantar pra cantar e vem logo acordando o poleiro todo”.
Mas Zequinha é assim mesmo, tem tino de sertanejo. Levanta na madrugada, acende o fogão de lenha, prepara um café, chama pra si o punhado de farinha seca com um naco de toucinho, e só depois vai abrir a porta da frente.
O dia ainda não vai ser de chuva, entristece um pouco, mas nada a fazer. Remexe num canto e noutro, junta seus instrumentos de trabalho do dia, depois segue em direção à malhada.
Não há muito no curral. Mas tem que deixar o leite pra derramar sobre o cuscuz da meninada. Antes mesmo de retornar do curral e sua Bastiana já está na cozinha.
Todo dia é assim. Levanta logo cedinho, faz suas preces ao pé do oratório, em seguida começa a fazer da cozinha seu lar e do quintal sua sala de visita.
Lava, enxagua, estende no varal. Vai catar feixe de lenha, faz arrumação de graveto, molha o pé de mastruz e de manjericão, joga na malhada um punhado de milho.
Logo as galinhas acorrem esfomeadas. Pouco, mas assim mesmo. Mas enquanto isso ainda muita gente sequer pensa em levantar.
Uma preguiça que engorda, afrouxa e vai secando o prato e o bolso. E depois vai reclamar que a vida tá ruim, que não consegue somar nem vintém.
Nem chega a metade do dia e Zequinha e Bastiana já fizeram mais que uma multidão. Incansáveis, cientes de que somente através do trabalho o pão vai chegar à mesa, então fazem e fazem mais.
Mesmo na dor e no sofrimento, estes abraçam seus dias como se estivessem construindo - a cada dia - o melhor da vida.
E sob o sol, sob o chão quente e esturricado por falta de chuva, o melhor da vida é poder acordar e deitar com a certeza de que o trabalho do dia foi feita e que a barriga dos meninos não está roncando de fome.


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Lá no meu sertão...


Eita conversa boa!



E depois partiu (Poesia)



E depois partiu


Não tem graça
o que a desgraçada
da Graça
fez comigo

olhou-me
sorrio
beijou-me
e partiu

esperei voltar
e tudo passa
menos a graça
da Graça.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - na rua dos ventos



*Rangel Alves da Costa


Ah! Como eu queria andar ao entardecer pela rua dos ventos para ler Manoel Bandeira sentado num velho banco ou numa calçada qualquer. Rua dos ventos que levanta a saia das meninas bonitas, das bundas torneadas, das calcinhas poucas. Rua dos ventos das folhas mortas em tardes tristes e de sentinelas chorosas pelos arredores. Ai que saudade daquela rua, da rua dos ventos. Pelos quintais, os varais se balançando em festa, as roupas querendo voar, e um dia eu vi a calcinha de Maricota sendo levada pelo ar. Que saudade da calcinha da Maricota, cheirando a goiaba doce, a sapoti, a jabuticaba. Eu vi na rua dos ventos o vento em festa e traquinagem. Levantou a batina do padre Zigmund que fez o sacerdote desandar em aflição. O safado estava sem nada por baixo. Rua dos ventos e das angústias de Purezinha com sua vassoura dia e noite sobre a calçada. Varria e o vento trazia pó. Varria e o vento trazia areia. Varria de novo e o vento enchia tudo de folhagem. Purezinha dizia que a coisa que mais odiava no mundo era a ventania da rua dos ventos. Mas amava morar ali. Eu também gostava demais. Um dia, não sei de vento ou de ventania, fechei minha porta e me lancei na estrada. Da curva ao longe, olhei atrás e vi a porta e a janela abertas. Havia sido o vento em açoite, gritando, implorando para que eu não partisse. Hoje tudo dói na saudade. Saudade de Maricota, de Purezinha, da poesia de Bandeira, da Rua dos Ventos. Saudade de tudo.


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terça-feira, 26 de março de 2019

O VELHO EM SEUS LABIRINTOS



*Rangel Alves da Costa


A cama desforrada de dias. Não havia pressa nem qualquer prazer em dobrar os panos, ajeitar o travesseiro, deixar tudo arrumado para a noite seguinte. Mesmo forrada, assim que deitava tudo parecia em redemoinho. Virava-se de lado a outro, estendia o braço ao outro lado, mas desde muito que ali já não deitava ninguém. Por fim, levantava o olhar em direção ao telhado e começava a viajar por um mar sem fim. Somente nas ilusões de ilhas e cais conseguia adormecer. Uma saudade fingida.
Levantava-se quase na madrugada. Caminhava para a cozinha, colocava água na chaleira para fazer café, acendia o fogão e depois abria a porta de trás, tendo o quintal adiante. De xícara à mão, dava passos lentos pelos arredores, olhava para os espaços ainda de pouca luz e então iniciava um ofício que trazia como compromisso desde que se viu em viuvez. Ajeitava as plantas do canto do quintal, aguava, conversava com cada ramo, cada folha e cada flor. Sempre pressentia estar sendo carinhosamente vigiado por sua falecida esposa. E por isso mesmo repetia sempre o seu nome. Não raro que suas lágrimas também caíam sobre as plantinhas.
Não forrava a cama todo dia, mas jamais se esquecia de varrer a casa. Todo santo dia passava a vassoura de canto a outro. E depois, de espanador à mão, afastava o pó acumulado pela ventania do dia passado. Em dois instantes se demorava mais na sua limpeza. Ao chegar defronte ao retrato da falecida na parede, ali parava em profunda reflexão. Olhava e olhava, mirava e mirava, falava baixinho, para depois sacudir qualquer impureza que na moldura estivesse, mas não sem antes levar a mão e, em gesto amoroso e suave, tocar a face através do vidro. Era com se a sentisse afagando pela face a sua mão.
Noutro momento, já perante a velha mesa da sala, postava-se em frente ao antigo jarro com flores de plástico. Trazia o jarro para perto de si e chegava a acariciar cada flor já sem cor. Carícia de saudade, de dolorosa recordação, um devotamento tão singelo ao que um dia havia sido ali colocado por sua amada. Lembrava-se que ela cuidava daquele jarro como se fosse de um caqueiro florido, de flores vivas, colhidas em jardim. Tanto cuidado ela tinha que de vez em quanto ele ouvia as flores de plástico sendo chamadas por carinhosos nomes. Por fim, dizia: ela já não está, mas façam de conta que suas mãos ainda zelam por este jardim tão perfumado na memória.
A porta da frente só era aberta depois de a casa varrida. Mas tudo cedo demais ainda. O dia ainda amanhecia e o velho já havia completado seus pequenos afazeres de toda manhã. Então abria a porta e caminhava pelos arredores. E arredores tão solitários quanto a sua solidão. Nada além que um descampado, um canteiro sem flores entregue ao outono, um banco carcomido de madeira, amendoeiras que desciam folhas aos turbilhões, um tempo de silêncio, apenas. Caminhava pelo canteiro, tocava os roseirais magros pela estação, juntava gravetos e restos, reclamava da vida sem cor. Seguia depois para o banco e ali ficava aguardando a chegada de qualquer passarinho ou borboleta.
Aquele velho banco do amanhecer mais parecia sua pedra de meditação. Ali sentava, ali pensava, ali voltava ao passado, ali refletia sobre tudo. E por isso mesmo tanto entristecia. De repente seus olhos amiudavam de tal modo que mais pareciam querer fechar. Ficavam apertados demais, comovidos demais, entristecidos demais. Mas ao abri-los pressentia-se perante uma estrada ainda a ser caminhada, uma vida ainda a ser vivida, mesmo que o seu corpo e sua idade já estivessem na plenitude esmaecida dos outonos da vida. Então dizia uma palavra qualquer, talvez que esperasse um pouco mais. Sabia que sua amada estava sentada ao lado. Sua falecida esposa nunca saía de sua presença.
Então levantava para retornar. Nada mais que cinquenta metros entre o velho banco de jardim sem flores e a porta de casa, mas ia caminhando tão lentamente que parecia nunca querer chegar. Por que a pressa se dentro de casa apenas o silêncio e a solidão? Por que a pressa em ficar sozinho e na presença daquela que não podia abraçar, acarinhar, e dizer da saudade? Desejava mesmo dizer: Leva-me contigo, meu amor!


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Lá no meu sertão...


Velho Chico, Curralinho, Poço Redondo, sertão sergipano





Língua (Poesia)



Língua


Amo-te
ou te amo
tanto faz
que a gramática
queira assim
ou não

respeito a língua
mas a sua língua
suave e doce
de lua e sol
e não o léxico
que empobrece
o amor.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - livro de ouro



*Rangel Alves da Costa


Que nome saudosamente bonito, singelo e afetuoso: Livro de Ouro. Quem já foi estudante conhece um. Quem já organizou eventos estudantis conhece um. Não se trata de um livro qualquer, mas de ouro mesmo. Não do metal precioso, mas tão mais precioso que o metal, vez que fazendo parte dos grandes sonhos, das lutas, das grandes esperanças. Livro de Ouro que era repassado a um e a outro que desejasse colaborar na formatura, na festa da escola, na gincana, no evento estudantil. Livro de Ouro cuja assinatura valia apenas um dinheiro apenas, mas com um valor inestimável e indescritível. No livro de capa bonita, talvez dourada, as assinaturas e os valores doados. E depois o prazer de ter recebido tanta colaboração. Por isso mesmo o dourado daquela luta incessante e que tanto valia ser lutada. E perante um sonho maior, um momento grandioso na vida: a vivência estudantil. Oh tempos, oh glória, oh saudade grande!


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segunda-feira, 25 de março de 2019

TALVEZ NUNCA SEJAMOS FELIZES



*Rangel Alves da Costa


A felicidade é supremo bem buscado incessantemente por cada ser humano. E no seu rastro, a busca também de seu contexto maior: a paz, a harmonia, o contentamento, a alegria, a prosperidade. Fugindo das desventuras, das angústias e das desilusões de cada dia e de cada instante, o que se deseja ter é o regozijo da alma e o distanciamento das preocupações. Contudo, por mais que se deseje e se busque, a verdade é que talvez nunca sejamos felizes. Quer dizer, que jamais estaremos desapegados dos tristes e inesperados acontecimentos que chegam rolando pela vida como bola de neve.
Mais difícil do que se imagina é fugir dos problemas e das preocupações. Por mais que a pessoa procure dar rumos certos à sua vida e desse modo se distanciar de aperreios, ainda assim não estará livre da ação do outro, da sociedade, do próprio mundo. Quanto mais a pessoa pensa que está bem consigo e com o mundo, mais aproximado estará dos açoites que chegam vorazes de outras paragens. De repente e um acontecimento distante lhe deixa em rebuliço. Explica-se que seja assim por que não se move apenas pelas próprias forças, mas principalmente pelas engrenagens externas.
Tudo fica mais claro pela ideia de que os problemas dos outros são nossos também. Igualmente pela certeza de que uma ação externa pode causar graves consequências internas. Determinadas decisões políticas, por exemplo, acabam afetando grande parte da população, e esta muito distanciada dos centros de poder. Uma decisão de gabinete ou uma “canetada”, ou mesmo um anúncio de acontecimento futuro, pode causar um transtorno imenso à população. Decide-se pelo aumento do gás ou da gasolina lá em cima, mas os efeitos são generalizados. E assim com milhões de exemplos.
Então difícil é ser feliz ante as preocupações pelo causado pelos outros. Tudo se faz para a manutenção da paz, da despreocupação, da normalidade, mas nunca possível de ser assim. A dependência do que é decidido em outro lugar ou a preocupação com as notícias surgidas, logo afasta a tranquilidade interior. Deita-se numa rede para descansar, para pensar em coisas boas e positivas e na tentativa de um sono sossegado, ou até se promete a não se preocupar com o que não diga respeito a si, mas não tem jeito. Desse modo, a paz mental vai sendo invadida por situações, fatos e imagens, indesejados e a felicidade igualmente interrompida.
Tudo bem que a pessoa diga que tão despreocupada está que será capaz de adormecer e sonhar até mesmo tendo uma pedra como travesseiro. Tudo bem que a pessoa esteja livre de dívidas, com os seus afazeres e compromissos em dia, que não lhe esteja faltando a comida ou o remédio. Tudo bem que a pessoa diga que não há de se preocupar com nada pelo fato de não ter feito nada de errado. Pode dizer e pensar o que quiser, mas fato é que de repente surge um fato que vai desconsertando a sensação de plena felicidade e de que tudo está bem. Como numa página do Eclesiastes bíblico, o que é de uma forma é predestinado a ser de outra, e assim por diante, num ciclo de acontecimentos que deixa a pessoa à mercê daquilo que não pode controlar.
Sim, está com a conta paga, está com a feira feita, está com a viagem de férias programada, está contente pela aquisição de uma casa nova ou de um carro novo. Tudo parece na perfeita paz, tudo envolto em felicidade. Então chegam os jornais e suas manchetes, as conversas rotineiras dando conta dos acontecidos, as informações televisivas e seus espantos e absurdos. A notícia de um amigo enfermo, o falecimento de um ente querido, uma tragédia acontecida pelos arredores, um entristecimento sem fim por um inesperado acontecimento na comunidade. E não há como fugir disso. Basta ter sentimentos, basta ter a normalidade humana, para que tais situações comecem a afetar de uma forma ou outra, e sempre angustiadamente.
Mesmo que de repente a felicidade chegue em nome de um prêmio milionário de loteria e a imaginação de que todos os problemas materiais estarão resolvidas dali em diante, não há como não sentir e sofrer com as tragédias cotidianas. Não há ser tão insensível que não tenha agonizado e sofrido com os recentes dramas de Brumadinho, dos meninos do Flamengo, da escola de Suzano e tantas outras. Ante tais fatos, não há como fechar os olhos para a realidade e fingir que está apenas feliz. E até se torna difícil o distanciamento de tais informações por que as mesmas estão presentes a todo instante na televisão, no rádio, nas redes sociais, nas conversas da vizinhança, por todo lugar.
Até mesmo a Lava Jato transforma o clima já carregado em voraz tempestade, afetando não só a paz dos envolvidos como os debates contraditórios do restante da população. Lula preso, Temer preso, um monte de gente presa. Aplausos de uma parte, revoltas de outra parte. E pelo mundo afora os absurdos acontecendo, os genocídios sendo confirmados, as ditaduras e tiranias esmagando vidas. Não há como deixar de saber. Não há como deixar de sentir. E é por isso mesmo que talvez nunca sejamos completamente felizes. As realidades outras não permitem.


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Lá no meu sertão...


Bonito, né?! Se tivesse uma ajudinha, 
ia ficar mais bonito ainda, né?!



Um mais um (Poesia)



Um mais um


Na conta do amor
quando eu era um
eu não era nada

segurei tua mão
e somei ao meu eu
o amor que é teu

se já somos dois
e o amor tudo trás
que somemos mais.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - os bichos da solidão



*Rangel Alves da Costa


A solidão é uma selva de seres pavorosos e aterrorizantes. Um negrume de gritos aturdidos e alucinantes. A solidão é um coração selvagem ao avesso, onde os sentimentos tornam-se os mais apavorantes. É uma estepe em breu e seus lobos uivantes. Um labirinto medonho de sonhos agonizantes. Garras, punhais afiados, fios lancinantes. Unhas pontudas e presas mortais, voracidades atordoantes. Botes, ataques, fúrias em rompantes. Carcarás, urubus, gaviões, carnicentos arrepiantes. E não há como fugir, sequer por instantes. Eis que os bichos da solidão rondam espírito e alma, sugam as esperanças, destroem os entristecidos amantes.

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domingo, 24 de março de 2019

NO PASSAR DAS ÁGUAS



*Rangel Alves da Costa


Este texto está sendo iniciado exatamente às 17h10min deste domingo de tempo entre o ensolarado e o nublado em Poço Redondo, Sertão Sergipano do São Francisco. E está sendo escrito em local mais que inusitado, pois bem defronte ao Riacho Jacaré, afluente do São Francisco que passa ao redor da cidade. Daqui de onde estou, passos de apenas cinco metros já bastam para alcançar as margens molhadas.
A verdade é que recentemente construíram um bar quase dentro do riacho. Somente hoje de manhã, assim que aqui me dirigi para avistar as águas muitas que chegaram com as chuvaradas nas cabeceiras, é que me deparei com tal construção. Tudo bem. E é numa de suas mesas que estou agora para descrever, com o olhar dividido entre o teclado e as águas que passam. Aqui retornei exatamente para comparar o volume de água do amanhecer e de agora, já depois das cinco da tarde.
Pois bem, hoje de manhã, um pouco acima das oito horas, e assim que eu soube das águas muitas que haviam chegado, logo para cá me dirigi. Momento único e encantador, novamente poder avistar o Jacaré largo, grande, despontando como veia molhada em pleno sertão. E também quase um espanto, principalmente ante a situação lamentável que ele apresenta no seu dia a dia. Um rio muito diferente daquela feição antiga, de pedras grandes, de poços fundos, de águas limpas ao banho logo depois das primeiras cheias. E agora apenas um leito seco, sujo, cheio de focos de enfermidades que se acumulam nos empoçamentos.
Mas a natureza é dadivosa, e também surpreendente. De repente, quando menos se espera e as águas começam a surgir em profusão, fortes, afoitas, vindas das distâncias de suas nascentes. E que espetáculo maravilhoso então se faz. As águas muitas tomam os limites do leito, levam restos apodrecidos acumulados, passam por cima de cercas, destroem arames, espalham os garranchos secos e as ossadas de animais, e vão seguindo adiante, como se dissessem que ali, ali no leito do rio, as correntezas é que ainda comandam a vida, ainda que apenas de forma passageira. E assim por que, acaso novas chuvaradas não caiam nas cabeceiras, em menos de uma semana já estará completamente seco.
As águas, sendo novas e de primeira enchente, ainda estão sujas, enegrecidas, barrentas. Somente após a terceira enchente é que se tornam limpas e prontas ao banho, acaso o sertanejo ainda faça como antigamente, quando o banho no riachinho era verdadeira festa desde o alvorecer. Contudo, mesmo barrentas e sujas, as águas passando, escorrendo, seguindo seu rumo, tornam-se verdadeiro encantamento ao olhar. E não somente a visão de momento, mas também a nostalgia que chega, a memória que começa a chamar retratos antigos do mesmo riachinho. Tais recordações, numa junção de passado e presente, acabam trazendo alegrias e tristezas.
Hoje cedo o riacho estava mais forte e volumoso, mais ondulado e até de perigosa passagem. Agora, já se aproximando das seis horas da noite, o volume é menor e de maior mansidão, mas ainda assim com água muita ante o ontem e os dias passados. Com a noite se aproximando, o que agora se avista é uma paisagem de sentimentalismo ao olhar sertanejo. Quem conheceu o riacho noutros tempos, quem também conheceu seus dias de magreza e sofrimento, a visão de agora serve não só de lento e esperança, mas principalmente de certeza que este sertão continua dadivoso sem igual.
Instantes já passaram e já saí de lá. Agora estou aqui imaginando aquela paisagem. E nela o reencontro de talvez amanhã.


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Lá no meu sertão...


Duas Igrejas de Poço Redondo/SE: Maranduba e Bonsucesso





A voz do vento (Poesia)



A voz do vento


E tudo estava tão silencioso
até que a voz do vento
trouxe uma palavra
que não acreditei
pudesse ser verdade

e disse a voz do vento
que o outono chega
que a folha morre
que o sopro leva
e tudo fim

e disse a voz do vento
que nada é o fim
pois há primavera
de rosa e jasmim
e que um jardineiro
em mim.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – primeiro se olhe no espelho



*Rangel Alves da Costa


Maria tem que mudar por que ela é enjoada, é teimosa, é a intrigância em pessoa. Só Maria que tem de mudar, pois aos olhos do outro tem tais defeitos. Mas Maria diz o mesmo dessa pessoa. Joaquim tem que mudar por que ele é falso, mentiroso, covarde. Só Joaquim tem que mudar, pois aos olhos do outro uma pessoa não pode ser assim como ele. E Joaquim acha a mesma coisa com relação à pessoa. Bastiana tem que mudar por que é safada, namoradeira, sibite e fácil que só. Só Bastiana tem que mudar, pois aos olhos da outra ele não passa disso mesmo ou muito pior. Mas Bastiana acha exatamente a mesma coisa dessa pessoa. Torquato tem que mudar por que ele não passa de um farrista, de um descompromissado e de um irresponsável. Somente Torquato tem que mudar, pois inadmissível que alguém seja assim igual a ele. E Torquato acha a mesma coisa dessa pessoa. Afinal de contas, quem está certo ou está errado? Eis que surge aquele velho dito: primeiro se olhe no espelho pra depois falar qualquer coisa dos outros. E é assim que deve ser feito mesmo: primeiro se olhe no espelho.


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sábado, 23 de março de 2019

“AGRADA-ME O SEMBLANTE DAQUELE QUE ME RECEBE COM ESPANTO BOM”



*Rangel Alves da Costa


De vez em quando me perguntam por que eu tanto gosto de visitar pessoas idosas e humildes da cidade onde nasci. E eu sempre respondo: “Agrada-me o semblante daquele que me recebe com espanto bom”.
O que isso significa? Pois bem, significa que quanto mais humildes são as pessoas, mais empobrecidas e idosas são as pessoas, mais elas gostam de ser visitadas. E em cada visita um reconhecimento de sua valia na vida.
Pessoas existem que a partir de determinados momentos da vida passam a viver como esquecidas. Quando a idade vai avançando e passam a viver mais reclusas, então é como se se tornassem esquecidas pela sociedade, até mesmo pela mesma família.
Outras, simplesmente pela precariedade dos meios de sobrevivência. A pobreza acaba afastando conhecidos e também familiares em melhores condições financeiras. Tais pessoas, apenas pelo simples fato de serem pobres, tornam-se negligenciadas pelos demais.
Quando a idade avança e a pobreza se torna gritante, então ainda surgem fatores como o abandono, o distanciamento e o esquecimento. É como se tais pessoas sequer existissem para a sociedade. É como tanto faz que ali ou acolá continuem existindo vidas humanas.
Mas não só pela pobreza, vez que tornou-se da normalidade que aquelas pessoas que já não mais convivem no meio social, não são mais ativas como noutros idos ou que já não tenham o status de antes, igualmente passem a ser menosprezadas nas suas existências.
Pessoas com tais perfis se tornam, como dito, propensas ao esquecimento dos demais. E se isso acontece até com amigos, conhecidos e familiares, que se imagine com relação aos mais jovens, que não se importam sequer consigo mesmos.
Solitárias, sempre da porta pra dentro ou na calçada de casa, quando muito recebe um bom dia ou um boa tarde de qualquer passante. E quanto mais o tempo passa mais tal situação se agrava, até chegar ao esquecimento total.
São tais pessoas que eu gosto de visitar. São tais pessoas que jamais saem do pensamento. São tais pessoas que merecem o meu passo, a minha busca, a minha palavra. E quando bato a porta: “Agrada-me o semblante daquele que me recebe com espanto bom”.
Toda vez que chego numa casa, mais próxima ou mesmo distante – e até mesmo no meio do mato ou nos beirais das estradas matutas -, sinto que a surpresa feita causa um espanto bom. Como se o visitado não estivesse acreditando naquela visita.
Chegar, cumprimentar, dar uma palavra amiga e de recordação, dizer que está ali não por acaso, mas por uma visita desde muito pensada, tudo isso provoca uma sensação indescritível aquele que geralmente tem a solidão como companhia. E que coisa boa ao espírito, à alma, à autoestima.
É como se dissesse por dentro, na voz interior, que jamais esperava que alguém se lembrasse de sua existência e ali estivesse para um proseado, para um relembrar causos e fatos passados, reabrindo velhos livros e antigos baús. O coração pulsa mais forte, os olhos chegam a brilhar.
E sempre digo que em tais pessoas sempre é possível encontrar tesouros de sabedoria. É a experiência de vida que as transforma em sábias. É na junção da escrita do passado que é possível avistar aquilo tão ricamente existente e que não existente mais perante o mundo novo. Tudo isso é imensamente enriquecedor.  
Por isso que não me canso de visitar conterrâneos nos seus casebres, atrás das portas, nas suas calçadas. Chego como amigo e sempre saiu como um discípulo que muito aprendeu naquele breve diálogo. E sempre prometo que voltarei. E sempre volto.


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Outras formas de prazer (Poesia)



Outras formas de prazer


Hoje eu vi
tua nudez
mais uma vez

hoje eu senti
tua chama
na cama

hoje eu toquei
a tua flor
com amor

hoje o prazer
veio no olhar
no admirar

pois amar
não é só possuir
mas também sentir.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – agora noite, agora chove...



*Rangel Alves da Costa


Agora noite, agora chove... Não ouço o cricrilar insuportável dos grilos. Não ouço o gato gemendo no telhado. Não vejo vaga-lumes cortando o breu em instantâneos de vida. Não ouço passos nem assovios, vozes ou sussurros, mas ouço o barulho da chuva. A janela está aberta e a porta da frente também. Do telhado os pingos caem como se as frestas estivessem por todo lugar. Meu caderno de escrita molhou e já não tenho poesia para esta noite. Experimentei mais uma xícara de café e desisti de me manter aceso à custa de mais um gole. Quero dormir e não posso. Preciso dormir e não posso. Minha rede já está armada e me esperando, mas sei que não conseguirei dormir. Sem lua e sem estrelas, sem folhagens chegando pelos espaços, sem os grilos cantando a solidão, eu nada sou. Sinto-me também molhado, encharcado por dentro. E só resta uma coisa a fazer, sair porta afora e deixar que a chuva me molhe ainda mais, encharque de vez e depois me escorra pelo chão em rio. Ou assim farei ou, do mesmo jeito, ficarei: encharcado por dentro e por fora e escorrendo em mares de angústia, de tristeza e de solidão.


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