SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 31 de janeiro de 2015

TIÃO E OS OUTROS


Rangel Alves da Costa*


Em uma parte do sertão, aquela mais distante e onde o progresso voraz ainda não pensou em passar, ainda há uma vida muito comum, costumeira, singela, até repetitiva demais.
Assim no homem como no bicho e também na terra. O sol resolve acender noite e dia e assim permanece por anos a fio. A terra seca e fica esturricada, tendo por cima apenas gravetos e espinhos.
As pedras tomam os espaços das plantas e ao redor passam a reinar os seres das grandes estiagens. O mandacaru permanece altaneiro com seus braços abertos em prece e até florando entre os espinhos.
O calango sertanejo vive em correria por cima da terra em brasa. Num passo e já está em cima da pedra balançando a cabeça de canto a outro. O preá se protege do sol dentro da loca e aproveita as sombras do entardecer para arriscar a vida catando e roendo o inexistente.
Mais adiante uma vereda nua, um caminho sem curva, uma mesmice sem igual. Dificilmente alguém passa caminhando com espingarda à mão em busca do alimento do dia. Também quase não há mais o que acertar.
Tal é a paisagem tão conhecida por Tião e todos os sertanejos que por ali sobrevivem. As moradias são pobres, pequenas para o grande número de pessoas em cada casa. E lá dentro e ao redor um quase nada para encontrar.
Tião se atormenta com a estiagem, fica em tempo de endoidar se lhe falta trabalho que garanta a compra de um fubá de milho ou quilo de farinha seca. Ele e a mulher podem suportar o ronco das tripas famintas, mas a filharada não.
Vive com a riqueza do homem da terra. Um pote sem água, uma moringa vazia, uma panela esperando milagre. Parede de barro com retrato de família, imagens de santos e torno de pendurar arreios e cordas.
Um quintal sem cerca, duas braçadas de lenha, um fogo de chão. Galinha ciscando desde muito não existe. Um varal estendido e duas roupinhas esquecidas no meio do tempo. Não há fruta de pomar nem ovos de capoeira.
Mais adiante, Severino pinica o fumo de rolo, recorta a palha seca de milho, embrulha o cigarro e depois passa a língua para fixar as dobras. Limpa a enxada, amola o facão, ou repete o mesmo de todo dia esperando que tais objetos logo tenham serventia.
Zulmira procura pelo quintal três ramos de arruda. É difícil encontrar, mas precisa ao menos dos galhos secos para o benzimento de Joaninha. A moça chegou chorosa e dizendo que sentia estar carregada por alguma coisa ruim. Nada dava certo em sua vida, então precisava que a rezadeira afastasse de vez o mau olhado.
Clemência se vira como pode para colocar alguma coisa no fogo. Conseguiu comprar um quilo de tripa e bucho na feirinha e precisa pinicar para juntar na frigideira com o restinho de banha de porco. Bom mesmo era se tivesse ovos para misturar, mas não tem. Mas a meninada dessa vez não vai comer a farinha sem mistura.
Numa casa faltou gás pro candeeiro, na outra não há mais um pingo de sal. Então a vizinhança acorre nesse momento de precisão. Do mesmo jeito quando a colheita é boa e o feijão de corda é dividido entre muita gente.
Tibério, conhecedor dos mistérios sertanejos, sabendo ler na folhagem se a chuva logo voltará, caminha olhando atentamente em busca de um bom sinal. O sopro do vento e o gemido da folha sinalizam esperança. É nuvem de chuva que se forma adiante e logo pode arribar até ali.
Mas nem vento nem folha se balançado. Está tudo parado, como se nada mais acontecesse ou existisse. Assim como o sertão se sente de vez em quando.


Poeta e cronista
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Os erros (Poesia)


Os erros


Eu pensei
que dizendo amar
seria suficiente
para o ser cativar

eu pensei
que o beijo e a flor
fossem suficientes
para expressar o amor

eu pensei
que a lua prometida
fosse suficiente
para a alegria da vida

mas eu não pensei
em apenas semear
grão a grão no coração
e todo o amor cultivar.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 870


Rangel Alves da Costa*


“Um animal...”.
“Um bicho...”.
“Um homem...”.
“Um rato...”.
“No esgoto...”.
“Um cachorro...”.
“No lixo...”.
“Uma barata...”.
“No chão...”.
“A desvalia...”.
“O esquecimento...”.
“Ratos e homens...”.
“Urubus e crianças...”.
“Doenças e vidas...”.
“No acúmulo...”.
“Da miséria...”.
“De cada dia...”.
“Em cada canto...”.
“Em todo lugar...”.
“Onde houver restos...”.
“Sobras apodrecidas...”.
“A inglória...”.
“Da história...”.
“Humana...”.
“Humano se tornou...”.
“Ter o homem bicho...”.
“O homem faminto...”.
“O homem sedento...”.
“Caçando...”.
“Catando...”.
“Colhendo...”.
“Comendo...”.
“Guardando...”.
“O que a vida...”.
“Nem outros homens...”.
“Querem mais...”.
“E por isso mesmo...”.
“Rejeitam em lixões...”.
“Nos acúmulos fétidos...”.
“Para a sobrevivência...”.
“Do homem...”.
“O homem resto...”.
“O homem dejeto...”.
“O homem rastejante...”.
“O desumanizado...”.
“Ou bicho transformado...”.
“No homem...”.


Poeta e cronista
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

PRATELEIRA, JABÁ E PÉ DE BALCÃO


Rangel Alves da Costa*


As prateleiras dos botequins atuais nem parecem com as de antigamente. Os sortimentos não possuem a variedade de outrora. Desde a entrada ao pé do balcão, nada mais faz lembrar o que se encontrava noutros tempos em cada canto interiorano. Também quase não há mais botequim, ou autêntico boteco de gole e mordida na fruta verdosa. Quando muito um barzinho qualquer repetindo música de apaixonar traído ou abandonado. Te amo meu bebê, e por aí vai.
Os botecos interioranos de hoje não possuem qualquer atratividade. Sequer um bom papo oferecem, muito menos uma visita que se alonga pelo prazer do gole e do proseado, sem pressa de olhar o relógio. Daí ter se tornado um gesto muito menos prazeroso a aproximação do pé do balcão. Pedi o que, se praticamente não há mais um aperitivo confiável, uma cachacinha da boa, autêntica, do engenho mesmo ou de fabricação garantida?
Aliás, nem os botequins nem as mercearias atuais guardam sequer as sombras passadas. Não que tivessem de envelhecer com a mesma feição, mas que não se transformassem tanto, e para pior. Com o crescimento e desenvolvimento das cidades, também sua vida própria e seus costumes vão sendo modificados. A própria cidade passa a desconhecer os seus, os aspectos bucólicos vão dando lugar a novidades que tornam tudo comum. E a modernidade vai impondo um ritmo que vai consumindo a própria história, as tradições e a memória de quase tudo que um dia existiu.
As mercearias foram as que mais se transformaram, e para perder toda aquela suntuosidade tão própria desse comércio de feição interiorana. Bastava entrar por qualquer das duas ou três portas e logo se avistava, quase sempre pelos cantos do balcão ou em cima de uma mesinha, uma variedade de produtos hoje praticamente inacessíveis àquela clientela cativa. Antigamente, pelos balcões ou descendo do telhado em cordames, as pessoas logo avistavam o que fazia parte de qualquer mesa. Ali as carnes salgadas, os queijos, os embutidos, e tudo a preço acessível. Sem falar no caderninho que facilitava muito a vida de todo mundo.
Hoje a jabá tornou-se caro demais ao povo pobre. E o mesmo se diga com relação ao peixe, principalmente o bacalhau. Mas noutros tempos era muito diferente. Tais produtos, diferentemente de agora, não eram exclusividade de supermercados, mercadinhos ou similares, mas à disposição de todos nas pequenas vendas e mercearias interioranas. Até mesmo em pequenas povoações, naquelas vendas ao redor dos sítios e arruados, era possível encontrar a carne-seca e o bacalhau, bem como a legítima mortadela e outros embutidos.
Os fardos de bacalhau eram logo avistados desde a entrada. A maior quantidade empilhada nos cantos do balcão de madeira de lei, coberta com pano de saco de estopa, e uma pequena parte, servindo como amostra, pendurada em cordames descendo do telhado. Era só chegar, mandar cortar uma lasca e experimentar a salgação e o gosto, e depois pedir para cortar a quantidade desejada e a preço barato. E por preço baixo mesmo, pois por muito tempo o bacalhau foi acessível às panelas mais empobrecidas da população.
As peças de carnes-secas igualmente se avolumavam nos cantos dos balcões. Uma parte também era pendurada e experimentada aos pedacinhos. Sempre foi costume interiorano experimentar um pedacinho antes da escolha final. Nem todo vendedor gostava de se dar ao trabalho de cortar lascas de bacalhau e de jabá, principalmente àqueles que pediam não para sentir o gosto, mas como tira-gosto. Assim porque acabava em prejuízo oferecer uma lasquinha disso ou daquilo a todos que desejassem molhar o bico na aguardente.
Aliás, aperitivo que nem precisava de tira-gosto para afastar a ripunação. Não precisava porque, ao contrário das cachaças atuais, naqueles idos as aguardentes eram de qualidade e procedência. Acaso o cabra, ao invés de uma pinga engarrafada, preferisse uma cachaça de engenho, derramada do barril, podia tomar sem medo de ser batizada. Era a branquinha legítima, pura, e por isso mesmo ainda mais malcriada e perigosa. Desce até saborosa, sem faiscar pelos cantos, mas depois pode se tornar num deus nos acuda. A branquinha de engenho tem disso: o fogo-morto se transforma em labareda. E acima da medida é queda na certa.
Mas um tempo de aguardentes de renome e respeito, ao menos na história etílica interiorana. Daqueles idos, hoje só restam, e com qualidade muito inferior, a Pitu e a Caranguejo. Já não se ouve falar em Capim Santo, Serra Grande, Pau de Arara, Teimosinha, Tatuzinho, Gato e Praianinha, dentre muitas outras. Também difícil encontrar aqueles vinhos artesanais de jurubeba. Até mesmo as famosas cajuínas e tubaínas sumiram das prateleiras interioranas. Na verdade, nem o autêntico ki-suco é facilmente encontrado.
Outra bebida com feição interiorana e que vai se tornando raridade, ao menos na legitimidade de preparação, é a cachaça misturada com raiz de pau. Angico, umburana, bonome, aroeira e uma vegetação inteira, dão um sabor especial à aguardente. A lasca da árvore ou o pó da raspagem, misturado à cachaça e deixado adormecer por uma ou duas noites, desperta como maravilha sertaneja. E tão gostosa é que o santo exige o seu gole primeiro.


Poeta e cronista
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Meu olhar (Poesia)


Meu olhar


O orvalho
passa o dia
no meu olhar

a chuva da noite
passa o dia
no meu olhar

o gelo da dor
descongela
no meu olhar

toda solidez
dissolvendo
no meu olhar

assim a lágrima
avistada
no meu olhar.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 869


Rangel Alves da Costa*


“Sim, há um Deus...”.
“Há um Deus de bondade em tudo...”.
“Não se pode negar sua prevalência...”.
“Sua existência, sua presença...”.
“Que tenha fé ou não...”.
“Que professe ou não a religião...”.
“Mas Deus não pode ser negado...”.
“Não foi a máquina...”.
“Que iluminou o mundo...”.
“Não foi a engenhosidade humana...”.
“Que povoou a terra e águas de seres...”.
“Não foi trabalho humano...”.
“Essa grandeza da vida...”.
“Nenhuma máquina faz o sol...”.
“A máquina não faz a lua...”.
“As nuvens, as águas...”.
“Os rios, os mares...”.
“Os campos, os horizontes...”.
“As aragens, a natureza...”.
“As sementes e os grãos...”.
“O homem em si...”.
“Tudo foi obra da criação...”.
“E no seu ofício...”.
“A perfeição do trabalho...”.
“Pois tudo feito para funcionar com perfeição...”.
“Desde o homem ao tempo...”.
“Desde a noite ao dia...”.
“Desde o silêncio à voz...”.
“E fez tudo como um calendário...”.
“Como um relógio...”.
“Como um espelho...”.
“Nada fugiu ao seu intento...”.
“E tudo fez a contento...”.
“E se o homem tomou suas próprias rédeas...”.
“Quis ser dono de seu próprio destino...”.
“Nada de divino existe nesta arrogância...”.
“Deus deu ao homem a existência...”.
“Confiou-lhe o mundo...”.
“Tudo colocou ao seu alcance...”.
“E o livre arbítrio para agir...”.
“E se age contra si próprio...”.
“Contra o seu destino existencial...”.
“Não age em nome de Deus...”.
“Mas num endeusamento...”.
“Que é a sua própria destruição...”.
“Pelo pecado e descumprimento da lei...”.


Poeta e cronista
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

PRESERVAÇÃO


Rangel Alves da Costa*


O lixo da humanidade se acumula por todo lugar. Não são apenas os resíduos sólidos e líquidos, os restos e as sobras que se acumulam pelos esgotos, lixões, leitos de rios e onde a sede poluente do homem possa alcançar. Há também o lixo da consciência, da falta de conscientização, do descaso e da negligência, da degradação e da permissividade destruidora. Tudo isso causa enorme prejuízo ao ambiente planetário e humano.
O ser humano é agressivo demais consigo mesmo e com o seu meio natural. Não obstante suas disfunções comportamentais, ainda acumula em si o próprio lixo do descuido, do tanto faz, da irresponsabilidade nos atos e ações. E acaba consumindo aquilo que envenena a alma e o organismo. O fisicamente imprestável lhe serve como alimento, como gula e insaciedade, e o resto desse consumo é descartado no próprio ambiente da vida. E então tudo acaba se transformando numa poluição só, afetando o ser e o seu meio.
O mais doloroso é que ninguém parece se dar conta da lei da causa e efeito, ou da lei das consequências pelos maus atos, ou ainda de todas as leis que prevejam o pagamento de alto preço pelas incoerências cometidas. Somente quando o rio que passa pela aldeia morre é que começa a perceber o que motivou aquela destruição, somente quando o calor diário chega perto dos quarenta graus é que começa a se perguntar o porquê de estar acontecendo assim. Quer dizer, tem de sentir o efeito para conhecer as causas.
Tudo parece ser uma questão de responsabilidade do homem, desde a sua fase infância. Desde cedo deveria aprender que o consumo desenfreado pode lhe causar prejuízos, engordar e provocar danos à saúde. Desde criança deve aprender que jogar lixo na rua não só é falta de educação como entope bueiros e prejudica a vazão das águas das chuvas. Desde muito cedo que deveria saber que devastar as florestas, poluir o ar, desmatar as matas ciliares e abusar dos recursos naturais poderão trazer graves consequências futuras.
Talvez somente no mesmo passo dos modismos que a preocupação ambiental vingaria de vez nas mentes jovens. Ora, se tanta coisa que não presta, não tem serventia humana alguma, de repente aparece e se enraíza na sociedade e passa a ditar comportamentos, pensamentos e atitudes, então bem que a questão ambiental poderia ser experimentada e consumida pela juventude. E somente assim teríamos algo realmente sério sendo fruído sem imposições.
Atualmente, após o aumento da preocupação com as questões ambientais e do progressivo desenvolvimento do meio ambiente como objeto de estudo, não mais se admite uma educação escolar dissociada da educação ambiental. Permeando diversas disciplinas ou sendo objeto de currículo específico, a verdade é que a questão ambiental tornou-se de fundamental importância no processo de ensino-aprendizagem.
Muito justifica que seja assim, que a educação ambiental tenha alcançado o reconhecimento como objeto de estudo, seja enquanto disciplina específica, com currículo próprio, ou permeando, de forma transversal, diversas outras disciplinas. Ademais, enquanto as disciplinas geralmente se voltam para temas específicos, a educação escolar possui abrangência quase que globalizante, pois seus temas já eram objeto de abordagem das ciências em geral.
Por muito tempo, a questão ambiental pontuou em temas relacionados, por exemplo, à biologia, à geografia e outras disciplinas relacionadas às ciências do homem e da natureza, mas sem a profundidade exigida para a ampliação e o aprofundamento de seus conceitos, parâmetros e diretrizes. Contudo, a partir do instante em que a sociedade passou a ser alertada para os graves problemas ambientais planetários e, consequentemente, o surgimento de novos conceitos voltados à questão ambiental, então a educação teve de chamar para si a incumbência de ser o nascedouro de uma nova forma de se pensar e se proteger a natureza e os recursos naturais. O que, no todo, serve de base à educação ambiental.
E que o ensino escolar sirva também para o aprendizado acerca do ambiente pessoal e interior do ser humano. A natureza intrínseca de cada ser necessita também ser preservada contra a devastação da própria pessoa.


Poeta e cronista
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Opções (Poesia)


Opções


Se eu não quisesse mais viver
saberia muito bem o que fazer

subiria em cima da lua
e me jogaria no meio da rua

esperaria o fogo do entardecer
e nas cinzas do sol iria desaparecer

como é difícil de acontecer assim
deixo que a morte decida por mim.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 868


Rangel Alves da Costa*


“Assusta-me a cidade feia...”.
“Dói-me a selvageria...”.
“Afronta-me tanta arrogância...”.
“Feri-me tanta iniquidade...”.
“O cimento que sangra...”.
“O ferro que corta...”.
“O barulho que atormenta...”.
“A multidão que alucina...”.
“Fechem os portões...”.
“Coloquem os cadeados...”.
“Elevem os muros...”.
“Construam guaritas...”.
“Ainda assim...”.
“Infelizmente ainda assim...”.
“Ao desvão tudo estará...”.
“Então adeus...”.
“Uma estrada me espera...”.
“Um caminho me conduzirá...”.
“Para bem distante disso tudo...”.
“O campo...”.
“Apenas o campo...”.
“Num lugarejo distante...”.
“Num chão escondido...”.
“Lá fincarei moradia...”.
“Uma casinha...”.
“Uma rede de dormir...”.
“Uma esteira de chão...”.
“Um fogão de lenha...”.
“Uma moringa...”.
“Um pote...”.
“Um radinho de pilha...”.
“Um caderno...”.
“Um lápis...”.
“Um embornal...”.
“Um chinelo de dedo...”.
“E um sol imenso...”.
“Uma lua bonita...”.
“Uma manhã passarinheira...”.
“Um anoitecer enluarado...”.
“E a certeza...”.
“Que a felicidade existe...”.
“E comigo estará...”.
“Lá perto do vento...”.
“Lá longe de tudo...”.
“Na vida que preciso ter...”.
“Porque ainda preciso viver...”.


Poeta e cronista
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

TANTO MAR, TODO MAR


Rangel Alves da Costa*


Quem dera ser poeta e em versos azuis/esverdeados cantar toda a beleza do mar. Quem dera ser literato e inventar uma história bonita desde o porto às distâncias sem fim. Quem dera ser navegante e singrar entre calmarias e procelas rumo ao desconhecido destino. Quem dera ser terra, areia de cais, beira d’água, caminho molhado, estrada d’além.
Jorge Amado descreveu o mar como o misterioso que chama à vida e à morte. Os negros do cais recolhendo os cestos de frutas olorosas trazidas do recôncavo em faustosas embarcações. Relatou acerca dos meninos vivendo ao redor do porto e daquelas águas com canto de sereia. As mulheres chorosas tentando avistar o barco de retorno. Os corpos ardentemente suados se entregando aos prazeres do cais. E as velas acesas para os santos e orixás, oferendas de graça e rogos de dor. Tudo ali na beira do mar.
Os versos camonianos glorificaram as bravuras dos intrépidos navegantes em meio à fúria do mar tenebroso. E disse o poeta que “Por mares nunca de antes navegados/ Passaram ainda além da Taprobana/ Em perigos e guerras esforçados/ Mais do que prometia a força humana/ E entre gente remota edificaram/ Novo Reino, que tanto sublimaram”. Um canto das conquistas lusitanas vencendo as fúrias de mares desconhecidos, cheios de mistérios e fazendo chegar a portos impensados aos homens de então.
E mar também presente em Hemingway. Ora, o seu “O Velho e o Mar” nada mais que uma ode à persistência perante as dificuldades. O velho pescador lança todas suas forças naquela que talvez seja sua última conquista. Experiente, vivente do mar e para o mar, jamais imaginaria que aquele peixe lhe fosse tão custoso de ser alcançado. E também a demonstração que o mar e os seus seres possuem tamanhas forças que desafiam o entendimento do mais experimentado dos pescadores.
Mas o mar está em tudo, em todo lugar, até mesmo naqueles inesquecíveis versos da Portela de 1981, com seu enredo “Das maravilhas do mar fez-se o esplendor de uma noite”, numa genial composição de Davi Correa e Jorge Macedo: Deixa-me encantar com tudo teu e revelar lá, la, iá/ O que vai acontecer nessa noite de esplendor/ O mar subiu na linha do horizonte desaguando como fonte/ Ao vento a ilusão teceu/ O mar, oi o mar, por onde andei mareou, mareou/ Rolou na dança das ondas no verso do cantador/ Dança quem tá na roda/ Roda de brincar/ Prosa na boca do vento e vem marear/ Eis o cortejo irreal com as maravilhas do mar/ Fazendo o meu carnaval, é a vida a brincar/ A luz raiou pra clarear a poesia/ Num sentimento que desperta na folia/ Amor, amor/ Amor sorria, ôôô/ Um novo dia despertou/ E lá vou eu, e lá vou eu, pela imensidão do mar/ Esta onda que borda a avenida de espuma me arrasta a sambar”.
No cenário musical, talvez o mais marinheiro tenha sido Dorival Caymmi. Cantou o mar baiano de forma poeticamente triste, como as águas que chegavam ao cais num misto de dor e sofrimento. E tal poética é revelada em canções dolentes como “O mar”: “O mar quando quebra na praia é bonito, é bonito/ O mar.../ Pescador quando sai nunca sabe se volta, nem sabe se fica/ Quanta gente perdeu seus maridos, seus filhos nas ondas do mar/ O mar quando quebra na praia é bonito, é bonito...”.
E assim o mar vai sendo avistado, sonhado, escrito, cantado, navegado. De olhos tristonhos e pés descalços alguém caminha na beira do cais. Adiante, em ondas que chegam e recuam, o mar cantando sua misteriosa canção. Para muitos é um chamado, para outros apenas soluços molhados que se espalham na areia.
Há um velho farol que deixou de iluminar por causa dos olhos constantemente encharcados. Olha adiante a avista aquela mansamente falsa imensidão, tudo tão solitário e triste. Apenas um barquinho que vai sumindo na linha do horizonte. E ao redor, por cima das areias úmidas e próximas às pedras lavadas de açoite, flores mortas se deixando levar. E mais adiante alguém que caminha ao abraço das águas profundas. Do mar...


Poeta e cronista
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O livro (Poesia)


O livro


Ao longo dos anos
estivemos escrevendo um livro
e agora precisamos ler cada palavra
para compreendermos nossa história
e tudo que vivenciamos nessa caminhada

mas as páginas se apressam demais
voam e esvoaçam diante do nosso olhar
e tenho medo que chegue logo ao final
sem que eu me lembre o que esteja escrito

ao longo de todo o livro
nada mais escrevemos que a verdade
desde o primeiro olhar ao primeiro beijo
desde o compromisso com a caminhada
ao que o destino ofertasse por merecimento

mas as páginas se apressam demais
voam e esvoaçam diante do nosso olhar
e tenho medo que chegue logo ao final
sem que eu me lembre o que esteja escrito.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 867


Rangel Alves da Costa*


“Mande para mim...”.
“Uma notícia boa...”.
“Ou venha logo aqui...”.
“Para uma visita...”.
“Preciso de um dengo...”.
“Quero cafuné...”.
“De abraço apertado...”.
“Um carinho qualquer...”.
“Não deixe que a distância...”.
“Vá se tornando saudade...”.
“Não deixe que a estrada...”.
“Vá se tornando sem fim...”.
“Penso em você...”.
“Como penso em mim...”.
“Não posso esquecer...”.
“Nada do nosso passado...”.
“O que foi construído...”.
“E permanece alentado...”.
“Muito mais que amor...”.
“Fomos bons amigos...”.
“Muito mais que desejo...”.
“Tivemos afeição...”.
“Por isso gosto tanto...”.
“De pensar em você...”.
“Beijando e abraçando...”.
“Entregando um café...”.
“Rimando poesia...”.
“No verso que era seu...”.
“Compartilhando sua vida...”.
“Como pedaço de mim...”.
“Por isso venha...”.
“Ou mande notícias...”.
“Comprarei um bom vinho...”.
“E um charuto cubano...”.
“Prepararei uma sobremesa...”.
“Na medida do açúcar...”.
“E depois deixaremos que o instante...”.
“Diga o que devemos fazer...”.
“Talvez apenas a palavra...”.
“Ou quem dera o silêncio do beijo...”.
“Mas tanto faz...”.
“Se o prazer é a presença...”.
“E amarei de todo amor...”.
“Ainda que me chame somente de amigo...”.
“Ainda que retorne depois do anoitecer...”.
“E a solidão novamente me faça...”.
“Pensar e pensar em você...”.


Poeta e cronista
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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

EM ALGUM LUGAR NO SERTÃO


Rangel Alves da Costa*


Casinha sertaneja, nas distâncias do fim do mundo, moradia de uma gente que não diferencia muito do que existe pelos arredores. Uma gente calango, preá, macambira, xiquexique, catingueira, bicho de moita. Mas também com feição da lua e do sol.
Como retrato e moldura, assim é a gente e o seu entorno. Vegetação rala, acinzentada de secura; árvores tronchas, miúdas, recurvadas pelo peso da seca. E uma gente magra, ossuda, de feição carcomida e pele abrasada do queimor do dia a dia.
Uma casinha de barro no meio do mundo, quase caindo, em tempo de despencar de vez. Uma porta na frente e uma porta atrás, uma janela e um telhado misto de palha, telha e tábua. Mas nada que protegesse de alguma coisa. Quando o vento queria entrava por todo lugar, de cima a baixo.
Um quintal sem cercado, nenhuma galinha ciscando, nada de bicho caseiro. O papagaio se despediu dessa vida cantando um aboio dolente: Vejo o céu se abrindo e me vejo subindo. Mas puxam minha asa e não é gente de casa, quem será, quem será? Preciso subir e a São Pedro pedir pra chuva chegar...
Com o cachorro aconteceu algo mais triste ainda. A coruja agourenta piou durante três noites seguidas e no quarto dia o urubu pousou num pé de pau defronte ao casebre. O coitado do cachorro, já sem força pra correr ou se defender, só viu quando o bicho preto avançava em sua costela. E foi comido ainda vivo.
A coruja voltou na semana seguinte e durante muitas noites piou aquela sentença ruim. Preocupados com o que pudesse acontecer, os donos da casa redobraram as rezas. E quando o filho reclamou de doença então se viram desesperados. Era a morte no pio da agourenta. Mas Deus era mais, assim conceberam com maior devoção.
Por duas noites seguidas fizeram vigília com um saco à mão. Precisavam prender a danada e acabar com a maldição. Mas ela agourava ora num canto ora noutro, e sempre se escondendo na escuridão. Foi preciso trazer o oratório pro meio do tempo e deixar que a fé espantasse a coisa ruim. E nunca mais ela piou ao redor nas noites escurecidas.
Quando o menino se deu por sadio, o passo seguinte foi caçar calango pra jogar em cima da brasa do fogo de chão. Os seus pais olhavam a cena e ficavam em tempo de se acabar, mas sabiam que ou ele comia aquilo ou seria pior. A seca estava impiedosa demais, sem comida de mato nem preá pra misturar à farinha.
Quando saía para caçar, e durante o dia inteiro sem colocar um só corredor dentro do aió, o sertanejo começava a lançar o olhar pelos arredores das pedras. A esperança era de que algum cágado surgisse de dentro de uma loca. Não pra matar o bicho, pois malvadeza demais comer aquilo que se mexe com a panela já fervendo, mas com outra expectativa.
Ora, todo sertanejo sabe que quando cágado sai da loca em época de seca é porque trovoada se aproxima. É dito e certo. Basta que o bicho seja encontrado pelos descampados ardentes e não demora muita para o tempo começar a mudar. O horizonte enegrece, as nuvens escuras aparecem e os trovões começam a pipocar.
Mas enquanto o cágado não aparece e a barra do amanhecer não dá sinal de qualquer chuvarada, então não há muito a fazer. Mas o verdadeiro sertanejo nunca se entrega, nunca se dobra aos infortúnios. Reforça sua fé, aumenta sua esperança, se faz cada vez mais forte num corpo cada vez mais frágil.
É um mundo de contrastante. Um casebre despencando, fogo de chão apagado, panela vazia e resto de nada pra matar a fome do menino. Pote com água barrenta, moringa vazia, nenhum preá que sirva pra enganar a danada.
E do lado de fora aquele sol imenso, escaldante, iluminando uma paisagem tristemente bela que parece sumir em miragem. Quando a noite cai surge a lua encantadora com todo o seu esplendor. E é quando todo o sertão se transforma numa magia indescritível.
No meio do tempo, debaixo do sol, o casebre tomado de uma luz tão forte que desnuda todas as entranhas e deixa à mostra as costelas da miséria. No meio do mesmo tempo, só que debaixo da lua, aquela casinha envolta pela grandeza do luar. O luar sertanejo que sempre surge radiante para alentar todo sofrimento.


Poeta e cronista
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Mar (Poesia)


Mar

Mar
o que será
o que é
o mar

o mar
está no olhar
ou além
no além-mar

o mar está
no além-mar
além do olhar
além do mar

amar
o mar
o mar além
e no olhar.
  

Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 866


Rangel Alves da Costa*


“E vem o sol...”.
“E depois a chuva...”.
“Assim a vida...”.
“Cheia de alegrias e sofrimentos...”.
“E vem a noite...”.
“E depois o dia...”.
“Assim a vida...”.
“Cheia de faces e contrastes...”.
“E vem o vendaval...”.
“E depois a calmaria...”.
“Assim a vida...”.
“Entre temores e esperanças...”.
“E vem a vida...”.
“E depois a morte...”.
“Assim a vida...”.
“Com suas chegadas e partidas...”.
“E vem a multidão...”.
“E depois a solidão...”.
“Assim a vida...”.
“Com seus encontros e desencontros...”.
“E vem a fome...”.
“E depois o pão...”.
“Assim a vida...”.
“Num eterno ter e nada ter...”.
“E vem o sonho...”.
“E depois o pesadelo...”.
“Assim a vida...”.
“E seus profundos mistérios...”.
“E vem a voz...”.
“E depois o silêncio...”.
“Assim a vida...”.
“Em tudo a incompreensão...”.
“E vem a certeza...”.
“E depois a inexistência...”.
“Assim a vida...”.
“Numa filosofia incerta...”.
“E vem o agora...”.
“E depois o passado...”.
“Assim a vida...”.
“Num pêndulo à ventania...”.
“E vem o amor...”.
“E depois a discórdia...”.
“Assim a vida...”.
“Na incerteza do sentimento...”.
“E vem o trem...”.
“A única certeza é o trem...”.


Poeta e cronista
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

DEUSES SEDENTOS DE SANGUE


Rangel Alves da Costa*


O convívio com os deuses nem sempre foi pacífico ao longo dos tempos. Parece sempre ter havido um relacionamento muito mais conturbado do que se imagina. Se por um lado o ser humano confiava sua existência à ação das forças superiores, e para atrair proteção se lançava a práticas extremas, por outro lado tais divindades sempre se mostraram exigentes nas oferendas feitas em seu nome, deixando demonstrar que não se davam por satisfeitos com quaisquer rogos ou preces.
A verdade é que a história da humanidade está repleta de deuses sedentos de sangue e de outros sacrifícios hoje tidos como cruéis. De um lado, por simbolizar a vida e a expiação do pecado; e de outro, por ser poderoso fluído da vida terrena transformado em seiva da divindade, o sangue humano e do animal sempre foi o escolhido para abundar no cálice ritual continuamente ofertado aos seres espirituais. O problema é que os deuses não se contentavam com outro brinde. E tinham uma sede descomunal.
Os antigos – e até os modernos perante diversos rituais – acreditavam que somente oferecendo holocaustos chamavam a atenção das divindades para os seus anseios, aplacavam suas fúrias e os tornavam agradecidos pelas intercessões. Procuravam, assim, nos rituais esparramados de sangue, confirmar suas crenças e devotamentos. Acreditavam que o sangue jorrado confirmava o pacto entre o terreno e o divino, entre a fé e o sobrenatural. Ora, o deus deveria reconhecer que aqueles gestos extremos mereciam ser recompensados.
Mas será que os deuses, na concepção de seres míticos e sobrenaturais e idealizados como benfeitores e protetores, necessitavam de sangue derramado, de sacrifícios cruéis, imolações e atitudes humanas degradantes, para agir perante seus protegidos? Exigir isso do seu séquito de adoradores não transmudaria a feição de um deus do bem, da paz e da bondade, para um deus perverso e desumano? A justificativa de limpeza espiritual através do sangue não contradiz o pecado de matar para ser perdoado?
Somente no mundo das crenças o sangue pela morte pode significar redenção. Mas assim acontecia, e partindo dos exemplos dados pelos seguidores da divindade maior. A moderna concepção de divindade aponta para uma contradição religiosa extremada, mas naqueles idos tudo parecia se justificar para a sobrevivência em meio ao temor, ao pecado e ao sobrenatural. De repente traduzia-se que um sacrifício deveria ser praticado como exigência divina e assim se fazia. E desse modo inocentes e animais eram colocados diante da lâmina afiada.
Os sacrifícios em nome da divindade não foram, contudo, prerrogativas apenas de povos pagãos, mas também dos povos bíblicos. A Bíblia está repleta de exemplos de sangue derramado como oferenda de invocação ou como agradecimento pela ação. Mas principalmente para remissão dos pecados. Acreditava-se no seu poder de purificação, que o sangue ofertado seria um pacto com a divindade. E por isso mesmo estaria perdoado todo aquele que fizesse do sacrifício uma prova de veneração.
Em Gênesis 8:20, Noé toma animais e aves limpas para oferecer em holocausto. Em Levítico 4:3-4, Moisés diz aos israelitas que seus pecados serão perdoados com o oferecimento de sacrifícios. E não com o sacrifício de um animal qualquer, mas de preferência novinho e saudável. E para ser degolado perante o altar. O livro sagrado está repleto de situações assim, onde o sangue da morte servia para salvação de almas, pois lavava as impurezas, e para lembrar o próprio sacrifício de Cristo.
Não se discute aqui o mérito ritualístico, a justificativa religiosa de então para que assim acontecesse. A crença do povo se sustenta em razões tão espirituais e pessoais que se torna improvável dizer do acerto ou não dos meios utilizados para a confirmação da fé e do pacto com a divindade. Mas não se pode negar que é difícil conceber que fosse preferível ter o sangue derramado a se contentar com preces, súplicas e veneração. Em obediência ao desejo sagrado, o povo encharcava de vermelho o que hoje o cristão venera na eucaristia e no respeito aos mandamentos.  
Observa-se, pois, que o sangue possuía significação especial para os povos antigos. Não era apenas o líquido vermelho que circulava nas veias e artérias, mas a própria sorte da existência. Através do sangue se penitenciava para obter redenção. Sacrificar para o sangue se derramar significava ter os pecados remidos. E se os seguidores de Deus se utilizavam de sacrifícios para sua proteção, então logicamente que outros povos se viram no direito de dar continuidade aos rituais, mesmo que tivessem crenças politeístas, com deuses desde o sol ao pedaço de pau.
Entre os incas, maias e astecas, por exemplo, o sacrifício de seres humanos era de normalidade cotidiana. Acreditava-se que as pestes, as longas estiagens, as catástrofes naturais e tudo que ameaçasse a existência do povo, eram provocadas pelas fúrias dos deuses. Então ofereciam sangue humano como forma de aplacar as cóleras divinas e se fazerem merecedores de suas dádivas. Nos constantes rituais, principalmente crianças e jovens saudáveis eram deitados na pedra de expiação e seus corações arrancados. Ainda pulsando eram erguidos em direção ao sol e aos astros.
Atualmente, o sangue animal – e até humano - ainda é jorrado em muitos rituais. Mas as leis e o próprio homem buscam preservá-lo de todos os tipos de sacrifícios. E o que era devoção aos deuses se tornou um crime. Hoje é a lei penal que diz os limites da fé.


Poeta e cronista
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Com asas e sonhos (Poesia)


Com asas e sonhos


O tempo esvoaça e passa
e sem ter asas para acompanhar
rogo que a solidão se desfaça
e na terna paz enfim caminhar

nada quero além da esperança
que a estrada permita encontrar
o acaso que seja a mudança
e no amor o coração libertar

e libertado ter asas e sonhos
e voando alto a sorrir e a cantar
a mesma alegria de astros risonhos
que brilham por viver para amar.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 865


Rangel Alves da Costa*


“Amar...”.
“E ler verso na nuvem...”.
“Amar...”.
“E sorrir para o sol...”.
“Amar...”.
“E falar em silêncio...”.
“Amar...”.
“E sentir perfeição...”.
“Amar...”.
“E tomar banho de chuva...”.
“Amar...”.
“E adormecer feliz...”.
“Amar...”.
“E contar as estrelas...”.
“Amar...”.
“E cumprimentar o espelho...”.
“Amar...”.
“E ter um segredo...”.
“Amar...”.
“E valorizar a vida...”.
“Amar...”.
“E orar pela dádiva...”.
“Amar...”.
“E não temer solidão...”.
“Amar...”.
“E cantar a canção...”.
“Amar...”.
“E se sentir com asas...”.
“Amar...”.
“E saber que terá...”.
“Amar...”.
“E viver na certeza...”.
“Amar...”.
“E ter um diário feliz...”.
“Amar...”.
“E ser a mais bela...”.
“Amar...”.
“E não pensar em distância...”.
“Amar...”.
“E não chorar a tristeza...”.
“Amar...”.
“E fazer desse amor...”.
“A semente...”.
“De mais amar...”.
“E mais amar...”.
“Sempre...”.


Poeta e cronista
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domingo, 25 de janeiro de 2015

A CIVILIZAÇÃO DA BARBÁRIE


Rangel Alves da Costa*


As civilizações, enquanto nascedouros das sociedades humanas, existem desde os tempos mais antigos, quando os povos unificaram suas tradições, costumes e leis primitivas, bem como aceitaram ser regidos por lideranças. Contudo, tudo ainda muito disperso e desorganizado, sendo muito mais de feição tribal que mesmo de grupo social unificado. Somente com o desenvolvimento e o reconhecimento de determinadas características como próprias de determinado povo se pode falar em civilização.
Em tal percurso, o chamado mundo civilizado passou a denominar o estágio mais evoluído das civilizações. Nesse estágio, o povo já pode ser claramente identificado por um governo, pela formação social e econômica, pelos aspectos políticos, históricos e culturais. É o estágio da identidade cultural, da evolução no próprio meio social e na afirmação de poder perante as outras sociedades. Daí os contrastes entre as diferentes civilizações.
O reconhecimento de uma civilização se dá, assim, pelo estágio evolutivo do seu povo. Quanto mais a economia, a política, a cultura, a representatividade governamental e a sociedade evoluem mais evoluída estará a civilização. Entretanto, ainda que a civilização tenha alcançado um alto estágio evoluído, ainda assim não será garantia de reconhecimento nos limites conceituais de mundo civilizado.
Não há um patamar de reconhecimento de um mundo verdadeiramente civilizado, eis que tudo em constante aprimoramento. Pressupõe-se, contudo, que civilizada é a sociedade que alcançou um alto grau de evolução em todos os setores, principalmente na forma de ser, viver, pensar e agir de seu povo. Quer dizer de um estágio de barbárie e ignorância, vai se aprimorando até alcançar um refinado contexto social.
Supõe-se, então, que uma sociedade civilizada já se livrou desde muito de concepções ultrapassadas, conservadoras e limitadoras da liberdade humana. Numa sociedade assim não haveria mais escravidão, justiça pelas próprias mãos, submissão à mulher, desigualdade por motivos de sexo, preconceito e discriminação por qualquer motivo, respeito às liberdades individuais e coletivas, reconhecimento do ser humano como objeto maior de proteção. Seria ainda uma civilização pautada na lei, com governo legítimo e democraticamente forte.
Imagina-se que uma sociedade de alto nível civilizatório possui algumas características que a diferencia de outros povos, principalmente pelo estágio cultural alcançado pelo sua população. O senso de moralidade predomina sobre os desregramentos, a ética emerge com importância nas relações sociais, o reconhecimento e a valorização da vida própria e do próximo exsurgem como aprendizado intrínseco. Mesmo com altos e baixos nestes aspectos, ainda assim será uma sociedade que pode servir de exemplificação positiva perante todos os povos.
Entretanto, a realidade demonstra que todo o percurso civilizatório relatado acima não passa de uma ilusão sociológica ou antropológica. E assim porque as transformações existentes nas sociedades, e que permitiram suas evoluções, não alcançaram todos os contextos sociais da mesma forma. Houve desenvolvimento econômico, cultural, político e social, mas a população em si, enquanto agrupamento de pessoas dotadas de características próprias, permaneceu oscilando entre a nova e a realidade mais primitiva, mais bestial e bárbara.
A verdade é que grande parte da população do magnífico mundo civilizado vive contestando o próprio conceito de civilizado. Ora, considerando que civilizado é o que é aprimorado, decente, exemplar, educado, evoluído, em contraste com o feroz, rude, arrogante, violento, estúpido, bárbaro, logo se tem que a dita civilização não conseguiu moldar o caráter de muita gente. E nesta afirmação a certeza que o mundo bárbaro, selvagem e atroz continua com moradia garantida no admirável mundo novo.
Mas não há que fazer comparações entre os chamados povos bárbaros, como os vândalos, godos, celtas, gauleses, suevos e visigodos, com os cruéis do mundo novo, do mundo tão civilizado de agora. E não porque as barbáries praticadas pelos estrangeiros da antiguidade se justificavam pelas guerras de conquistas, pelos ataques e defesas, num tempo onde a afirmação de um povo se dava com a vitória sobre outros povos, mesmo que sangue tenha impiedosamente jorrado dos inocentes submetidos.
Naqueles idos, os comandados por sanguinários como Átila, rei dos hunos, e Gengis Khan, o conquistador mongol, eram verdadeiros anjos se comparados aos atuais terroristas da fé. Os chefes de grupos radicais como Boko Haram, Estado Islâmico, Al-Qaeda e Talibã, são indiscutivelmente muito mais atrozes e violentos que qualquer líder bárbaro da antiguidade. Se houve aprimoramento civilizatório foi apenas nos instrumentos utilizados nas práticas terroristas.
Desse modo, devem ser repensados o conceito e percurso de mundo civilizado. Civilizar pressupõe crescer, desenvolver, agir com novas práticas que demonstrem que o mundo aprendeu com os erros do passado. Não pode ser tido como civilizado um mundo que se desenvolve apenas econômica, política e culturalmente, quando grande parte de sua população se conserva no estágio mais primitivo da violência e da barbárie. Que mundo novo é este que aprimora cada vez mais a forma de violentar a vida?


Poeta e cronista
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Confissão da pedra (Poesia)


Confissão da pedra


Aviste-me
toque-me
sinta-me

sente
que sou
pedra?

ou sente
que sinto
o que sou?

e se sinto
sou além
da pedra

então sinta
o silêncio
em mim

e se silencio
tenho voz
e sentimento.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 864


Rangel Alves da Costa*


“Eu era feliz e não sabia...”.
“Menino nu pelas ruas...”.
“Menino correndo na chuva...”.
“Menino do tição de fogo...”.
“Menino do cavalo de pau corredor...”.
“Menino pulando quintal...”.
“Menino livre de tudo...”.
“Menino derrubando o varal...”.
“Menino sonhando voar...”.
“Menino pássaro...”.
“Menino passarinho...”.
“E como eu era feliz...”.
“Como eu era feliz e não sabia...”.
“Minha avó fazendo cafuné...”.
“Meu avô ensinando a sonhar...”.
“Minha mãe com seus carinhos...”.
“Meu pai com suas lições...”.
“Um chinelo novo...”.
“Mas preferia descalço...”.
“Cabelo arrumado na brilhantina...”.
“Mas preferia esvoaçando ao vento...”.
“Sujo de terra e de folha do mato...”.
“Roupa toda engomada...”.
“Mas preferia a rasgada...”.
“Aquela mais velhinha e remendada...”.
“Comida na hora certa...”.
“Mas preferia pitomba...”.
“Goiaba e carambola...”.
“Ou pedaço de bolo de macaxeira...”.
“Ou naco de cocada branca...”.
“Deitar ainda cedo...”.
“Mas preferia pular a janela...”.
“Ou ficar olhando a lua pela fresta...”.
“Ai como eu era feliz...”.
“Era tão feliz e não sabia...”.
“E depois o sonho de amor...”.
“O menino apaixonado...”.
“Jogando flor pela janela...”.
“Soltando beijo no vento...”.
“Presenteando com fruta do mato...”.
“Pedindo um beijo...”.
“Querendo tanto namorar...”.
“Até que um dia cresci de vez...”.
“E foi a última vez que cresci...”.
“E é tão triste crescer assim...”.
“Quando a criança não ficou para trás...”.


Poeta e cronista
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sábado, 24 de janeiro de 2015

UM BELO JARDIM SEM FLORES


Rangel Alves da Costa*


Dificilmente alguém imaginaria um jardim sem flores. Tanto faz que o espaço seja grande ou pequeno, que haja grande diversidade de plantas, que os canteiros estejam bem cuidados ou pouco conservados, pois o pensamento logo se volta para as espécies floridas dando vida, graça e perfume ao ambiente.
Assim, pensar em jardim é pensar em flores. E pensar em flores é ter em mente as rosas, azaleias, begônias, hibiscos, cravos, lírios, crisântemos, copos-de-leite, bromélias, camélias, violetas, dálias, hortênsias, gardênias, jasmins, gerânios, tulipas e margaridas, dentre outras espécies.
Aos olhos do poeta, as flores são a própria essência do jardim, e sem as pétalas floridas restarão apenas plantas sem vida ao redor de canteiros. Portanto, impensável um jardim sem sua atmosfera primaveril, sem suas cores perfumadas e colibris ávidos por mais um beijo.
Aos olhos de muitos, mesmo para os apressados caminhantes, os jardins sempre chamam atenção e encantam, mas nada igual aos dias em que amanhecem floridos, radiantes, cheios de cores. Em épocas assim, a maioria passa a ter os olhos da sensibilidade e o coração muito mais amoroso.
Quantos olhares se fixam mirando um jardim abandonado, triste, com plantas carcomidas e folhas mortas? Quantos olhares apreciam um jardim sem encanto algum, sem poesia alguma, sem nada que desperte sentimentos? Quantas pessoas caminham até os canteiros para recolher um galho seco e espinhento?
Havia uma menina que pensava diferente da maioria. Não que gostasse de jardins sem flores ou que apreciasse os canteiros com folhas mortas e pétalas esturricadas. Não que sentisse prazer em ver o outono transformando a florada em cinzas levadas pelo vento. Nada disso.
Diferentemente das outras pessoas, ela avistava o jardim pelos olhos do coração, e não pelo olhar enxergando a paisagem. Para falar a verdade, nem jardim ela possuía defronte ou dos lados de sua casa. Após a janela de seu quarto existia apenas um pedaço de terra com plantas secas e restos de folhagens à espera da ventania.
Verdadeiramente, ali nunca fora sequer um lugar de cultivo de qualquer planta que florescesse. O que ali existiu antes de secar pelo sol escaldante e falta de chuva, havia sido apenas uma plantinha ou outra que nasce em qualquer lugar. Mas nada de jardim, e muito menos florido.
Contudo, aos olhos dela, ali estava o mais belo e pujante dos jardins. Aos olhos dos outros seria um jardim sem jardim, um local sem canteiros, canteiros sem plantas, e plantas sem flores. Nem flores vivas nem mortas, simplesmente sem flores.
Mas ela avistava seu belo jardim. Onde havia apenas graveto carcomido e torto ela avistava planta, onde existia apenas terra nua ela enxergava canteiro, onde existiam apenas restos de folhas secas ela enxergava ramos verdejantes. Mas não avistava flores.
Era um belo jardim sem flores. Mas que estranho e triste um jardim assim. Mas não para ela, que logo cuidava de florir cada planta que fazia surgir diante do olhar. E mais estranho ainda que quanto mais entristecida ou lacrimejante mais seu jardim florescia.
Abria a janela para espalhar todo o sofrimento sentido. Sabia que quanto mais triste ficasse mais sofreria, mais seria atormentada. Então enxugava os olhos com a mão e cuidava de encontrar flores onde não existia e num jardim que jamais existiu.
E assim, entre rosas e violetas, entre gerânios e jasmins, ia criando a ilusão de um mundo bonito, de uma vida bela e cheia de felicidade. Assim era que superava suas angústias e aflições adolescentes.


Poeta e cronista
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O sino e a canção (Poesia)


O sino e a canção


O sino da igreja
e a velha canção
ecoam em mim
a mesma tristeza

o sino é chamado
e anúncio de morte
a canção é saudade
trazendo aflição

então quando ouço
o sino e a canção
acendo uma vela
no meu coração. 


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 863


Rangel Alves da Costa*


“Sou a igreja e o sino...”.
“Sou o chamado da fé...”.
“Sou a crença e o fervor...”.
“Sou o culto e seu louvor...”.
“Sou a raiz e a planta...”.
“Sou a semente e o grão...”.
“Sou a chuva e o broto...”.
“Sou a pétala e a abelha...”.
“Sou o aroma e o perfume...”.
“Sou o vento e a canção...”.
“Sou a brisa enlaçada...”.
“Sou a valsa da natureza...”.
“O sopro em grande salão...”.
“Sou o passo e a cor...”.
“Sou a paisagem e a moldura...”.
“Sou a roupa e o varal...”.
“Sou a tarde em nostalgia...”.
“Sou cadeira de balanço...”.
“Sou tristeza e tanta saudade...”.
“Sou a lágrima e o lenço...”.
“Sou o retrato na memória...”.
“Sou aquilo que já não é...”.
“Sou toda a eternidade...”.
“Sou o amor e a paixão...”.
“Sou o abraço e o aperto...”.
“Sou o beijo e a mordida...”.
“Sou o prazer e o grito...”.
“Sou todo sim e todo não...”.
“Sou tudo e apenas resto...”.
“Sou a pureza e a perdição...”.
“Sou a lição e o livro...”.
“Sou a palavra e o verbo...”.
“Sou poema e poesia...”.
“Sou letra e sou rabisco...”.
“Sou ponto final e reticências...”.
“Sou verdade e ficção...”.
“Sou o que queiram ler...”.
“Sou eu e não sou ninguém...”.
“Sou meu tudo e meu nada...”.
“Sou o que penso ser...”.
“Sou o que jamais serei...”.
“Sou simplesmente assim...”.
“Sou a lua e o sol...”.
“Sou toda luz lá de cima...”.
“E sou apenas o vaga-lume...”.
“Que pensa que é estrela...”.


Poeta e cronista
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O cordel das temeranças de Lampião


Rangel Alves da Costa*


Alguns escritos dão conta que Virgulino Ferreira da Silva, o Capitão Lampião, era homem possuidor de feições pouco conhecidas. Alastrou-se espantosamente muito mais o seu lado tenaz, bravio, guerreiro e até cruel e sanguinário. Fala-se muito no bandoleiro de sangue no olho que nada temia no seu mundo catingueiro, no intrépido dos carrascais espinhentos que devolvia em dobro o estampido de fogo, no algoz de todo aquele que estivesse em seu encalço.
Muito se escreveu acerca das rixas entre vizinhos e as perdas familiares que serviram como motivações ao enfrentamento dos poderosos. A vindita particular do rapaz Virgulino se transformaria numa guerra pública do sertanejo Lampião. Os seus desafetos se transformaram em apenas alguns para serem avistados em todos aqueles que representassem o poder opressor, a submissão do homem da terra, a perseguição ao fraco e a manutenção da impiedosa balança condutora de todas as injustiças sociais. Os inimigos então passaram a responder pelo nome de Estado, governo, política e poder. Sobre tudo isso muito se escreveu.
Também muito se escreveu acerca do vaga-lume que se transmudou em perigosa tocha de fogo. E assim para mostrar o quanto Virgulino soube aproveitar os inconformismos do sertanejo de então para transformar tantas iras em respostas organizadas aos desmandos continuamente praticados. Outros grupos cangaceiros já preexistiam à sua chegada, e até fez parte do bando de Sinhô Pereira, mas nenhum orientado estrategicamente por um líder nato, nenhum que conseguisse despertar para suas fileiras tantas pessoas que se sentiam perseguidas ou necessitavam fazer ecoar suas revoltas. E Lampião foi mestre maior na condução desse levante até então apenas gestado.
Com os aparos e os recortes, o Capitão até que se ajusta nessa moldura, mas nele havia outras vertentes conhecidas de muitos, porém pouco disseminadas. A verdade é que pouco se escreveu acerca do homem Lampião, o sujeito em si, aquele de sobrenome Virgulino Ferreira da Silva. A maior parte do que foi dito e escrito - e em grande parte inventado - diz respeito ao cangaceiro, ao líder de bando, àquele retratado no meio da mata de chapéu estrelado, paramentos encourados e geralmente de arma em punho. Mas o outro Lampião, aquele que estava no homem, no seu íntimo, onde estava e como era?
Digo logo o nome do cabra que melhor assuntou sobre isso: Pelôco de Biribeira, apelido de um hoje desconhecido cordelista e repentista. Nascido na região do Mundaréu e tendo vivido até uns vinte anos após a morte de Lampião em 38, ficou conhecido de feira e feira como o mais fiel cantador dos feitos do Capitão. Não só dedilhava a história na viola como transcrevia para o cordel toda a sua saga. Contudo, o folheto que mais fez sucesso na voz e no papel foi um onde retratava o homem Lampião, ou o Virgulino em si mesmo.
“As temeranças de Lampião” foi o título consignado ao cordel que depois de pendurado no barbante em dia de feira se transformou em sucesso absoluto. O folheto artesanal, rudemente impresso e com capa de tosca xilogravura, parecia apenas mais um dos tantos escritos por aquele menestrel das proezas debaixo do sol. Onde houvesse uma feirinha em arruado e lá estava Pelôco da Biribeira levantando sua tenda de esteira e ripa e fincando seus varais de barbante. Aí pendurava seus cordéis e depois sentava num tamborete de viola em punho para cantarolar pelejas e feitos.
Mas por que o tal do “As temeranças de Lampião” fez tanto sucesso pelo mundão interiorano? Ora, simplesmente porque abordava o lado mítico do Capitão, envolvendo aspectos de sua religiosidade, suas virtudes cristãs, seus receios pelas coisas do céu, suas crenças terrenas, os seus temores enfim. Daí o termo “temeranças” no título, indicando que o livreto tratava exatamente dos medos do maior dos cangaceiros. Deixando também claro que o homem tão temido guardava consigo temores de coisas difíceis de acreditar. Aspectos, pois, bem conhecidos do sertanejo perante o seu mundo misto de fé, fanatismo e crendice.
Pelôco da Biribeira, mesmo sem o intuito da pesquisa, foi buscar na oralidade nordestina essa vertente curiosa do Capitão. Sertões adentro, de boca em boca, proseados se alongavam dando conta do imenso fervor religioso de Lampião, do seu respeito incontido às coisas sagradas, do seu devotamento. E também sobre o homem supersticioso de não acabar mais. Diz o cordelista que não havia quem fizesse o Capitão pegar em arma na sexta-feira santa, que logo arribava do coito se ouvisse uma ave agourenta piando a noite inteira.
Atualmente muito já se conhece acerca da feição religiosa de Lampião. Mesmo a luta sanguinária travada no dia a dia jamais diminuiu seu fervor místico, sua devoção às coisas sagradas e seu temor a Deus. Rezava todos os dias e levava consigo algumas orações, principalmente para manter o corpo fechado. Tinha devoção especial por Padre Cícero, a quem tinha como verdadeiro santo nordestino. Não admitia que cangaceiro de seu bando brincasse com as coisas sagradas e maldissesse qualquer aspecto da fé católica.
É famosa a passagem onde Lampião e parte de seu bando assistem missa celebrada pelo Padre Arthur Passos na igrejinha de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo. O vigário aceitou celebrar o ofício perante os cangaceiros, mas com a obrigação de deixarem as armas pesadas do lado de fora. E assim foi feito, com a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas sobre os versos de Biribeira, alguns deles serão citados depois.


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