SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 19 de novembro de 2018

POR ENTRE ESQUINAS E LABIRINTOS



*Rangel Alves da Costa


Manuel Bandeira, em poema de expressividade cruenta, havia suposto a existência de um estranho animal sobre os lixões. “Vi ontem um bicho na imundície do pátio, catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: engolia com voracidade. O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem”. Eis o retrato de “O bicho”, tão verdadeiro como voraz, e ainda avistável pelos lixões e por todos os lugares.
“O bicho, meu Deus, era um homem”. Que testemunho tão indigno aos olhos de um ser humano. Mas que presença tão constante e costumeira aos olhos do ser humano. E quantos bichos haverão de estar agora pelos mesmos lixões, pelas ruas insensatas e desumanas, pelas marquises solitárias e perigosas, pelos becos carcomidos de vícios, pelas vielas sangrentas e amedrontadas, pelos barracos disformes e nus. Por entre esquinas e labirintos vive a realidade social mais contundente e mais negada. Todo mundo vê bicho, todo mundo sente a presença do bicho. Mas é bicho, e então se afasta. Mesmo sabendo que não é bicho, mas tão humano quanto o espelho de si mesmo.
Uma selva humana em meio aos homens de bem, assim se imagina. Uns dizem se tratar de feras perigosas. Outros dizem que vivem sempre prontos para o ataque, e por isso mesmo é melhor fugir de suas presenças. Já outros, simplesmente ignoram os uivos, os berros, as ruminações, os olhos famintos e as mãos estendidas. E dizem ainda: nem todos são iguais, e por isso tais diferenças que não nos cabe resolver. E seguem adiante, com olhos atentos, amedrontados, temendo sempre serem alcançados por uma diminuta ferocidade: um menino magro e quase nu que pede esmola. Que tempos, que mundo!
Eu também todos os dias vejo bichos na imundície do pátio, catando comida entre os detritos. Meu olhar não pode fugir aos bichos que se estendem adormecidos por cima de bancos de praças, debaixo de marquises, em meio às calçadas, num canto qualquer. E creio que todo aquele que não finja enxergar, certamente também avista a selva humana que está pelos becos, pelas ruas, pelos escondidos da cidade. E também dentro daquilo que se tem como lar. Barracos caindo, moradias de papelão e madeira, quatro paredes frágeis com uma tosca cobertura por cima. E a fome grassando, a carência doendo dentro de cada um, a ausência de prato, a inexistência de comida.
Não há como negar que realidades assim estão por todos os lugares, nas grandes e pequenas cidades. A noção de bicho está exatamente no espanto causado ante o avistamento dessa realidade. Tem-se que não é da normalidade humana viver catando restos e detritos para se alimentar. Tem-se que foge ao comum entendimento que seres humanos ainda se submetam a restos putrefatos das bolsas de lixo colocados em calçadas. Muitos ainda imaginam que mesmo tendo pouco no seu dia a dia, as pessoas não digerem as podridões que encontram pelas ruas.
Tudo uma questão de sobrevivência. Verdade que o bicho do mato se alimenta bem melhor que o homem. As aves carnicentas se alimentam de restos podres por disposição digestiva. Predadores se alimentam de outros animais por que necessitam sobreviver. Em épocas de seca ou de falta de alimentos, sempre reinventam seus alimentos. Contudo, negam aquilo que não desejam, ainda que estejam famintos. Mas com o homem não acontece assim. O homem não tem a palma pinicada em cesto no lugar da pastagem verdejante. O homem não tem o caroço mastigável quando lhe falta o broto. Com o homem é diferente. Ou tem ou não tem.
Qual a escolha a ser feita quando não há mais comida? O que se deve fazer quanto não resta mais tostão nem vintém para comprar tiquinho disso ou daquilo? Qual atitude tomar perante o choro dos filhos e o passar das horas sem qualquer esperança de alimento? Situações dilacerantes para um ser humano suportar. Por perto e pelas distâncias, quantos fogões sem panela, quantas panelas sem alimento, quantos pratos vazios, quantos pais desesperados ante o pedido dos filhos? O que fazer, então? Mendigar, pedir, implorar, catar, animalizar-se. E logo perante uma sociedade que teme o bicho.
Mas não só pela falta de alimento padece a pobreza ou a indigência. A selva social vive repleta de bichos cheios de dores. A penúria é imensa e dolorosa, mas outras angústias também tomam conta desse perverso tempo. Os miseráveis das drogas e outros vícios, os que tiveram as portas fechadas e passaram a ter o desalento como lar, os que padecem como inúteis e discriminados nos corredores dos hospitais, os que desacreditaram na vida e vivem no pêndulo da mesma vida. E quanto abandono de pais pelos filhos. E quanto dói sentir a sociedade cada vez mais desumanizada pelos egoísmos e acumulações materiais. E para nada.
Agora mesmo eu vi um bicho. Ora, quanta insensibilidade no meu olhar e quanta frieza na minha atitude. Pediu e dei-lhe um copo d’água. Com o cuidado para que minha mão tão limpa não se aproximasse muito da dele. Ele poderia morder.


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Lá no meu sertão...


Emancipação Política de Poço Redondo - 25 de Novembro!



Sobre sonhos possíveis (Poesia)



Sobre sonhos possíveis


Se não tiver estrada eu vou de passarinho
se não houver céu eu vou de sonho mesmo
se não tiver chegada eu já estarei lá

se não tiver amor eu amo a mim mesmo
se não houver abraço eu me enlaço em mim
se não tiver doçura eu como de outra fruta

se não tiver manhã eu saio com a lua
se não houver o sol eu chamo vaga-lume
se você não vem eu espero ter saudade

se mesmo assim nada disso venha acontecer
eu reescrevo tudo e escrevo a esperança.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - um calor terrível



*Rangel Alves da Costa


O calor está realmente terrível. No sertão nem se fala. As altas temperaturas sertanejas sempre existiram, mas vêm se acentuando ainda mais. O solo não possui mais a proteção da vegetação nativa. Os desmatamentos transformaram regiões inteiras em desertos. Numa situação tal, quando a radiação solar desce não há nada que minimize a situação. O sol bate e se espalha em raios chamejantes. O resultado disso é o calor de vulcão a todo instante do dia. Também as estações não existem mais. Ninguém sabe mais se é inverno ou verão, ninguém sabe se é tempo de trovoada ou apenas de sol. E tudo culpa do homem, através de sua sanha destruidora da natureza. Uma terra sem mato, sem árvores, sem folhagens, não há sombra nem proteção alguma. E se torna apenas lugar da fogueira sempre acesa do sol.


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domingo, 18 de novembro de 2018

“MULHER NOVA BONITA E CARINHOSA FAZ O HOMEM GEMER SEM SENTIR DOR”



*Rangel Alves da Costa


Quem não se recorda da letra dessa maravilhosa composição musical? Eis duas estrofes: “Numa luta de gregos e troianos por Helena, a mulher de Menelau, conta a história que um cavalo de pau terminava uma guerra de dez anos. Menelau, o maior dos espartanos, venceu Páris, o grande sedutor, humilhando a família de Heitor, em defesa da honra caprichosa. Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor... A mulher tem na face dois brilhantes, condutores fiéis do seu destino, quem não ama o sorriso feminino desconhece a poesia de Cervantes. A bravura dos grandes navegantes, enfrentando a procela em seu furor, se não fosse a mulher mimosa flor a história seria mentirosa. Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor...”.
O que dizer, então? A mulher que tem o poder sobre o homem. A mulher que tem magia sobre o homem. A mulher que envolve e enlaça o homem na sua teia. A mulher que faz o homem se submeter aos desejos.
E, amando, o homem cede. E, apaixonado, o homem se deixa levar. E, desnorteado pelo encantamento, se deixa levar feito asa ao sabor daquele desejo. Mulher e sereia, mulher e vestal, mulher que sempre possui o dom de domar e dominar o homem.
Por que assim? Ora, pela incompletude do homem em si mesmo e pela necessidade de buscar no outro sexo a sua valia, a sua completude. Mas mulher não é qualquer uma. A diferenciada mulher é exatamente aquela que faz o homem se encantar desde o primeiro instante e muitos mais depois de conhecê-la.
Então a mulher passa a exemplificar o prazer e a alegria, o desejo e a vontade, a volúpia e ânsia, o ter e o ser, o sexo e o querer mais. A mulher passa a ser tão importante que o homem de repente passa a ser subjugado por aquilo que chama e tem como flor.
Mas não apenas a mulher que meramente apaixona o homem e, ao apaixonar, simplesmente faz dele um reles objeto em suas mãos. Mulher que também partilha e compartilhar, que ajuda e progride, que sempre deseja o melhor para os dois. Uma guerreira cuja luta não chama a vitória somente a si.
A letra da música a qual o título se refere fala em mulher nova, bonita e carinhosa. Há uma delimitação na idade, na beleza e no jeito de ser. Contudo, não precisa, necessariamente, que carregue sobre si, e perante uma primeira visão, todas essas virtudes.
Nem toda mulher nova é convite ao desejo do homem. Nem toda mulher bonita consegue atrair o desejo do homem. Mas toda mulher virtuosa pelo carinho, cuidado, afeição, possui consigo a chave do aprisionamento do homem.
Uma mulher nova e arrogante de pouca serventia será senão a sexual. Mulher nova e bestializada em atitudes e ações, nenhum encantamento poderá provocar. Mulher bonita, mas cuja beleza não seja expansiva também em aspectos comportamentais, igualmente será desprezada. E como feia logo será vista.
Desse modo, tem-se que a beleza feminina não está somente na idade, no rosto e corpo bonitos, no seu jeito de se mostrar mulher. A real beleza feminina está numa junção de atributos que somente o tempo e o convívio poderão comprovar.
A beleza feminina não é aquela puramente percebida, mas aquela sentida na própria mulher. Sua beleza está na atitude, está na sensação de prazer e bem-estar transmitidos. Está na honradez e no caráter, na simplicidade e na cordialidade. Ora, quem deseja ter uma beleza apenas como enfeite ou objeto de uso?
A mulher que prende e encanta o homem é aquela carinhosa, afetuosa, meiga, que exala brandura. Uma mulher que dê o prazer do compartilhamento como se o homem estivesse perante um jardim.
Daí a existência de muitas mulheres, mesmo novas, bonitas e carinhosas. Mas a que prende o coração do guerreiro e transmuda sua lança em flor é aquela cuja beleza vá além da aparência. O que encanta, verdadeiramente, é o que a mulher possa aflorar do seu íntimo.


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Lá no meu sertão...


Velho Chico - O rio é deles!





Sem perigo (Poesia)



Sem perigo


Talvez eu seja agrotóxico
tóxico, venenoso
e por isso faço mal
à sua flor vaginal
à sua haste labial
à sua pétala sexual

talvez eu seja poluente
nocivo, malévolo
e por isso não posso
beijar sua boca
tocar os seus seios
desfrutar sua nudez

mas leia na minha bula:
sem contraindicações
e indicado em sintomas
de disfunções afetivas
e necessitando de cuidados
de um amor verdadeiro.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - o adeus ao Bar de Nanô



*Rangel Alves da Costa


Ainda não tive forças suficientes para me certificar se realmente Nanô fechou o seu bar. É doloroso demais saber disso. Eu sequer bebo casca de pau ou outra fubuia, mas é preciso muita coragem para chegar à famosa avenida e encontrar o afamado bar de portas fechadas. E entristecer e sofrer todas as dores do mundo por não mais encontrar aquele amigo e tão conhecido balcão, e do lado do dentro o mais enjoado e mais querido de todos os vendeirins. Duvido que no mundo inteiro um dono de bar seja mais problemático, mais carrancudo, mais intransigente do que o Velho Nanô. Mas apenas um jeito de ser e uma forma de logo espantar bebedores ruins, pois pessoa de alma doce e de palavra honesta e cativante.  A verdade é que me chegaram com a notícia, mas não pude acreditar. E nem tive coragem de ir até lá. Não existe Avenida Alcino Alves Costa sem o Bar de Nanô, não existe Rua de Baixo nem Rua dos Vaqueiros sem o Bar do Nanô. E certamente não existe Poço Redondo sem o Bar de Nanô. Então, Nanô, se fechou reabra, e pela vida de muitos e do próprio lugar. Poço Redondo já não tem praças, e ficar sem o Bar de Nanô aí já é demais!


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sábado, 17 de novembro de 2018

DESNAMORADO



*Rangel Alves da Costa


Desnamorado não significa ter deixado de namorar ou ter sido relegado por um coração afoito. Não. Desnamorado significa não namorar mesmo, não dividir com ninguém os cacos de um coração melancolicamente poeta.
Desnamorada é a pedra que optou pela solidão debaixo da chuva e do sol. Desnamorado é o mandacaru que se contenta estar de braços abertos perante os espaços. Desnamorada é a noite solitária e só. Desnamorado é o tanque que secou de vez e outra coisa não quer ser senão o barro.
Pois sou assim, sou um desnamorado. E completamente desnamorado. A última vez que namorei faz tanto tempo que foi Matusalém (aquele mesmo bíblico, de uma infinidade de anos) quem primeiro me viu roubando um beijo.
Certa feita, matuto até na alma, fui apresentado a uma menina e a deixei de namorar por não saber o que era nem aonde ia o tal namoro. Emudecido sentei ao lado dela num banco da praça, aos pés do Cruzeiro, e emudecido fiquei. Não sabia o que dizer. Todo envergonhado, sequer atinei que bem poderia ir devagarzinho com a mão e acarinhar a sua mão. Então ela, que não era besta quanto eu, simplesmente levantou e foi embora sem olhar pra trás. E fiquei contando as pedrinhas brancas tão fartas naqueles tempos.
Outra vez, beijei uma boca com gosto de bolacha Maria e recuei na hora. Ainda hoje sinto asco e repulsa quando me lembro. Jurei nunca mais beijar. E jura que prevalece até hoje. Sinceramente, não sei nem como funciona um beijo de língua, um arranca-tudo ou carícia no lábio.
Nunca fui de escrever pequenos poemas e bilhetes para encantar corações. Não gosto de amor rimado, previsível demais, adocicado demais. Mas já recebi muito “batatinha quando nasci esparrama pelo chão, Rangel (ou Delzinho) quando se deita bota a mão no coração...”. Deus me livre de namorar uma assim. Dava vontade de responder: “vou ali, volto já, vou buscar maracujá...”.
Uma vez, num desses namoros de Festa de Agosto, uma menina me fez sentir um calor tão grande que pensei incendiar. Atrevida demais para a minha timidez matuta, puxou-me para um canto e avançou de vez. Acho que perdi os sentidos. Não lembro bem o que aconteceu depois disso. Melhor deixar isso pra lá, né? Tempo bom danado, e ai como dói recordar.
Mas quase sempre sendo filho de prefeito, todo arrumado, cheio de importância sem ter, então menina chovia mais que pingo d’água no sertão. Bonito de verdade eu nunca fui, mas de beleza forjada no que eu era naqueles tempos. Hoje sou completamente feio (ora, não posso pensar diferente, pois nenhuma mocinha sequer olhar pra mim).
Sim, mas depois disso até que experimentei coisa mais séria. Com diz a música cantada por Martinho da Vila, já tive mulheres de todas as cores, de todas as idades, de muitos amores. Já experimentei cores e sabores diferenciados, já arrisquei encontrar e muito já fui encontrado.
Já namorei uma alagoana por doze ou treze anos. Já namorei com musas e deusas, com monstros e assombrações. Já namorei mulher descasada e até casada. Convivi pouco tempo com uma e algum tempo com outra. Mas nunca casei. E meu estado civil até hoje é o de sempre: solteiro. Contudo, releva que agora eu me sinto um verdadeiro desnamorado.
Talvez uma mulher de barro ou uma desenhada em papel de pão, mas de carne e osso quero mais não. A não ser que uma chegue e consiga me fazer retornar aos treze, quinze, dezesseis anos: e coloque a minha cabeça no seu colo, me chame de seu menino, e me mostre a real felicidade do amor. E eu preciso tanto.


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Lá no meu sertão...


Sem moldura





Amar assim (Poesia)



Amar assim


Amar assim
com lápis e papel à mão
e desenhar uma nuvem

amar assim
com nuvem branca no céu
e desejo de alcançar além

amar assim
com asas de passarinho
e voar bem alto em dois

para os horizontes
e aos infinitos do amor
para amar sempre assim.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - saudade



*Rangel Alves da Costa


Eu ia caminhar pelo mato, armar arapuca ou catar araçá, e achava tudo imensamente belo naquele meu mundo-sertão. Eu andava ao redor dos monturos em busca de ponta de vaca para minha fazenda de canto de quintal, e achava tudo imensamente belo naquele meu mundo-sertão. Eu caminhava nas vizinhanças dos quintais para avistar fruta madura dentro dos cercados dos outros e de repente eu me deparava com as velhas senhoras estendendo roupas nos varais e achava tudo imensamente belo naquele meu mundo-sertão. Hoje já não há mato nem caatinga, não há monturos sem lixeiras, não há mais quintais de cercas nem varais de roupas que esvoaçavam feito asas soltas. Por onde caminho, eis que encontro somente a devastação na mataria. Por onde ando encontro apenas o lixo se espalhando por todo lugar. E avisto apenas o muro. Esse muro que esconde a vida desde a porta da frente até o caco de vidro fincado no alto na construção. E nem pensar no cheiro de café torrado exalado da chaleira no fogo de chão.


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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

COZINHAS E QUINTAIS



*Rangel Alves da Costa


Quanta memória boa rebusco agora. Vejo-me caminhando em direção à cozinha da casa e, um pouco mais adiante, à porta troncha que dá passagem ao quintal.
Já não avisto nem minha avó nem sua avó. Minha bisavó subiu aos céus encantada de tempo. Agora só restam as cozinhas e os quintais nas lembranças.
Na cozinha, de barro batido ou na taipa mal-acabada, o fogão de barro tomando um canto inteiro. No barro estendido, blocos ou tijolos sustentando a grelha.
Boca de fogão aberta, faminta, querendo muita lenha e muito mais carvão. A madeira queimando vai se contorcendo como de dor de partida, e para logo virar brasa e carvão.
Por cima da grelha ou apenas dos blocos, sentindo a labareda e a fúria ardente do fogo em chamas, a panela de barro, a chaleira antiga, o tacho para fazer doces.
Depois de tudo cozido, preparado, fervido, as cinzas juntadas para serem recolhidas. Mais ao lado, no outro canto, uma trempe com pote em cima.
Pote pequeno, mas de boca graúda, sempre com água suficiente para que a caneca não se afundasse tanto. Abaixo, no fundo do pote, uma rodilha sempre molhada.
E também um pano todo branquinho para tampar a boca. Quando o pote fica suado, ou a rodilha para reter a água ou a lama vai se formar mais abaixo.
Um pouco acima do pote, penduradas na parede em pequenas forquilhas, três ou quatro canecas d’água, todas de alumínio e sempre brilhosas de tanto serem arejadas.
Ao centro, uma pequena mesa de madeira velha tendo por riba um jarro com flores de plástico. Não há casinha de antigamente onde não houvesse um jarro com flores mortas.
Flores de cinzas, acinzentadas, quase sem cor, mas tão cheias de vida naquele viver humilde. Endurecidas de tempo, quebradiças dos anos, mas sempre ali.
Um alguidar em cima de uma banquinha, uma fruteira por riba do guarda-comida de pouco uso. Já envelhecido demais, mas sempre bonito na sua madeira de lei.
Mas o guardado lá dentro é de valor sem igual: um jogo de porcelana herança familiar. Tudo sempre assim, tudo sempre no seu lugar.
De vez em quando um cheiro de café torrado, um aroma gorduroso de tripa assada, um perfume especial de cuscuz de milho ralado.
Saindo desse velho e primoroso ambiente, logo adiante o quintal. Que saudade daqueles tempos dos quintais, daqueles cercados com árvores frutíferas e galinhas ciscando ao redor.
Onde estão os quintais, os belos quintais com seus cantos de plantas medicinais, do boldo, do manjericão, do mastruz, da raiz curativa pra qualquer doença?
Quintais de poleiros, de mamoeiros e cajueiros, de varais e de tanques de lavar roupa. Quintais de tronco largo para sentar, de tamborete para fumar o cigarrinho de palha, de purrão para juntar água de chuva.
Quintais de pontas de vacas e de meninos brincando de fazendeiro. Não. Não existem mais os quintais. Mas ainda assim eu vou além da porta da cozinha só para imaginar outros tempos.
Quintais de molduras de saudades, de instantes para os reencontros com o passado. É no quintal que o radinho de pilha é ligado e onde o olhar vagueia em inesquecíveis imagens. O vento sopra e vai secando uma lágrima descida num canto do olho.
Quintais que iam avançando e de repente já davam na mata, nas catingueiras, nas umburanas e aroeiras. Um bicho corre e de repente já está no quintal, querendo entrar na cozinha. Então o cabo de vassoura é levantado para espantar a aparição repentina.
Quantas lágrimas são derramadas por cima das roupas sendo lavadas e enxaguadas nos tanques velhos dos velhos quintais. E também quantos soluços são exalados perante as roupas estendidas nos varais, com seus braços abertos querendo voar.
Ali está uma mulher estendendo a roupa e cantarolando uma velha canção: “Tardes sertanejas que se vão, logo chamam as luas do sertão. E eu aqui tão triste, ai como dói meu coração...”. Será minha mãe? Será sua mãe? Não sei. Não sei. Só sei que dá saudade. Eu sei.
Os quintais já não existem mais. Mesmo nas cidadezinhas interioranas, poucos são os quintais que ainda podem ser encontrados. As velhas cercas foram substituídas por muros, o chão das plantas e dos bichos foi transudado em cimento frio.
Abrir a porta da cozinha e seguir mais além já não causa sensação prazerosa alguma. Não há o canto de um passarinho, não há uma fruta caída, não há ovo de galinha a ser recolhido. Também não há mais a plantinha curativa no canto nem o velho tamborete.
E da porta da frente em diante apenas o asfalto, a buzina, a azucrinação do dia. Um viver que é vida, mas não é tão viver na vida.


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Lá no meu sertão...


Em Bonsucesso, Poço Redondo/SE. Lá no alto, um belíssimo casarão colonial.




Noturno em grito (Poesia)



Noturno em grito


Tudo dói e entristece
resseca-me a atormenta

e como eu queria ser
a água da chuva caída
forte no meio da noite
escorrendo pelos caminhos
renovando a sequidão
e renascendo esperanças

ai como eu queria ser
essa lua imensa que brilha
desde o sertão às distâncias
e levar a luz à escuridão
e dizimar os negrumes frios
e as solidões que afligem

mas nem a água nem a chuva
e como tudo dói e entristece
e resseca-me e atormenta.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - um verso erótico e acanhado



*Rangel Alves da Costa


Passei no quintal e vi sua calcinha estendida no varal. E fiquei no cio feito um animal. Mas seu irmão chegou com um gesto anormal. E vestiu a calcinha de fio dental. E saiu se rebolando todo sensual. Mas depois você veio e vi bom sinal. Imaginei na outra calcinha ali no varal. Mas vestiu calça e camisa de tergal e caminhou feito homem e até meio brutal. Que mundo, meu Deus, que coisa sem igual. Homem de calcinha e mulher galalau. Jurei nunca mais passar em quintal. Ninguém sabe mais o que cuíca e o que é berimbau. Na água doce pode dar bacalhau. O que parece jardim pode ser matagal.


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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

CARTINHA DE AMOR A UMA MENINA DA ROÇA



*Rangel Alves da Costa


Não sei o que dizer. Juro que não encontro palavras que verdadeiramente expressem a minha intenção. É fácil escrever para uma menina urbana, citadina, acostumada com as leituras e os proseados. Mas não para uma menina da roça, tímida, acanhada, ainda que de boa leitura e boa escrita.
Na verdade, o que me faltam são os ajustamentos das palavras. Não quero ser poético demais nem frio em demasia. Não quero florear minha escrita nem lançar perante o seu olhar uma carta qualquer. Será flor do campo com feição de flor do campo, gosto de fruta por que com sabor de fruta madura. Uma escrita assim solenemente terna e apaixonante, ecoando um canto de passarinho e um murmurejar de folhagem ao entardecer.
Mas como eu queria que cada palavra tivesse cheiro de mato, que cada letra cheirasse a terra molhada, que todo o escrito tivesse cheiro e sabor de doce de panela, tivesse a feição e o gosto do araçá madurinho, tivesse a beleza de uma flor de mandacaru. Quem dera, minha amada, quem dera que o seu olhar, ao passear pelas linhas trêmulas e desajeitadas, encontrasse relvas, brotos, sementes e folhas. Quem dera minha menina, que a cartinha tivesse voz e dissesse: você é linda!
Mas não sei, não sei se vou conseguir. Sou da cidade demais, cheiro a cidade demais, tenho em mim metade de asfalto e metade de cimento. Ainda que eu sinta e viva o sertão, que tanto ame sua malhada e sua catingueira, sua janela e o bicho mugindo adiante, também sei que sou ruído e buzina demais. Compreenda-me. Não sou assim tão de ferro e ferrugem. Não sou assim tanta poeira e maresia. Dentro de mim eu guardo e levo o encanto das coisas belas, a magia das coisas que tanto bem fazem ao coração. Sou assim como você, minha menina. Não vivo a terra e o barro, nem sempre ouço o galo cantar nem o bicho berrar, mas também sou assim como você.
Um pedaço de papel qualquer. Não quero folha bonita nem caneta dourada. Não pingo um tiquinho de perfume sobre a folha porque não uso loção. Mas juro, e juro por tudo na vida, que não há coração mais apaixonadamente apreensivo do que o meu. Ora, escrever com palavra, escolher cada palavra como se fosse voz, escolher a voz ideal para ser ouvido. E, quem sabe, ao segurar nas mãos e lançar o olhar sobre os meus dizeres, você enfim sorria o mais belo sorriso do mundo e reconheça, no mais profundo do coração, que há alguém que verdadeiramente a ama. Então leia, por favor:
Boa tarde, boa noite, bom dia, meu amor... Sabe o que eu tô sentindo agora? Aquilo mesmo que os horizontes sentem quando o sol vai embora. Aquilo mesmo que o alvorecer sente quando a lua vai embora. Aquilo que mesmo que o lenço sente quando já não há vulto na curva da estrada. Saudade, saudade, saudade...
Ontem falei com você, meu doce araçá, minha fruta do mato, minha flor silvestre, mas foi como se sua palavra somente aumentasse minha vontade de voar, de ser passarinho, de chegar à sua janela e pousar no seu lábio. Lábio de mel sim, um favo na flor, um beijar beija-flor. E eu aqui, tão distante e tão sozinho, imaginando você tão bela com sua singeleza e simplicidade. No umbral da janela, mirando as distâncias ressequidas de sol, mas com olhar tão de mar que tudo parece encharcado de benção.
Meu amor, meu amor. Menina da roça minha flor. Chinelo no pé ou descalço pé, pulseira de cipó trançado, cabelos ao vento, a roupa mais simples que possa existir, mas sempre tão bela. A roupa, minha menina, é o corpo que faz, é o gosto que faz, e não a moda que manda. Seja sempre assim. Continue tímida, continue acanhada, continue com olhos fugidos, continue quase sem sorriso. Vá caminhar ao redor, conversar com a natureza, sentar numa pedra, riscar pelo chão. Desenhe um coração num tronco de pau e depois escreva nossos nomes entrecruzados.
Nada mais belo que esse encanto do simples, da ternura da vida. Compreendo que seja assim e peço que assim continue. Nada force ou leve pra dentro de si nada que não seja do seu jeito ou do seu agrado. O mundo lá fora é um mundo, mas jamais igual ao mundo que há em você e que a rodeia. Quero ouvir sua voz quase num sussurro, quero afagar o seu corpo de pétala e seu lábio de flor, quero dizer bem baixinho: amor, meu amor! Daqui, daqui dessa dolorosa distância, abro minha mão para um amado beijo e depois lanço em voo pelos horizontes do entardecer.
Beijo que chega já. Sinta o beijo em você. Sou eu!


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Lá no meu sertão...


Eu Rangel



Sem despedida (Poesia)



Sem despedida


Por fim assim
então o fim
bom pra você
melhor pra mim

ser dividida
e abrindo mais
minha ferida
não era vida

vou por aí
sem lhe seguir
viva sua vida
sem despedida.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - assim aconteceu



*Rangel Alves da Costa


Na vitrola tocou a música mais apaixonada de Diana: “Quanto mais eu penso em lhe deixar mais eu sinto que eu não posso, pois eu me prendi a sua vida muito mais do que devia. Quando é noite de regresso você briga por qualquer motivo, confesso que tenho vontade de ir pra bem longe, pra nunca mais te ver. Ó meu amado porque brigamos, não posso mais viver assim sempre chorando. A minha paz estou perdendo, nossa vida deve ser de alegria, pois eu lhe amo tanto...”. Mas a paixão era tamanha que em seguida colocou a música de José Ribeiro: “Tens a beleza da rosa, uma das flores mais formosas, tu és a flor do meu lindo jardim e eu a quero só para mim. O teu suave perfume às vezes causa-me ciúme, ao te beijar, sinto no coração o pulsar da mais pura paixão. Porém, tenho medo que tua beleza de rosa se transforme num espinho, quase morro só em pensar em perder teu carinho...”. A aflição tomava-lhe o peito. Quando a paixão transborda, gente se transforma em lobo querendo uivar. Amava demais e não podia perder a flor brotada em seu coração. Correu ao quarto e se perfumou dos pés à cabeça: Charisma, Topaze, Toque de Amor, Tabu, Promesa... Experimentou mil roupas, forçou sorrisos perante o espelho. Estava bonita? Abriu a janela e de repente viu seu amor passar. Estremeceu dos pés à cabeça, quase desmaia. E mais ainda quando ele se aproximou - sem antes ajeitar os cabelos com um pequeno pente e um espelhinho de bolso - e foi diretamente à sua janela para perguntar: “Está gostando da Festa de Agosto? Hoje tem baile no mercado com os Dissonantes, você vai? Se for me avise, pois quero lhe tirar pra dançar”. Pálida, sem palavras, trêmula dos pés à cabeça, ela ficou como que fora de si. Ele deixou um sorriso esperançoso enquanto ela desabava ao chão, num desmaio de amor. Perdeu o baile. E ele namorou outra. Assim aconteceu.


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terça-feira, 13 de novembro de 2018

HERÓIS SERTANEJOS



*Rangel Alves da Costa


Há bravura maior que o do vaqueiro em meio ao toco de pau e aos pontiagudos espinhos das matas e catingueiras?
Há coragem maior que a do bravo caçador que adentra os escuros da mata em busca da caça para alimentar a família?
Há esforço maior que o do lavrador, de enxada ou foice à mão, sobre o chão rachado de calor e debaixo da fornalha do sol?
Há persistência maior que a do pobre homem da terra que replanta a planta morta e depois ainda faz renascer a esperança de colher grão?
Há heroísmo maior que sofrer o sofrimento do bicho na pele e no osso, que chorar a mesma lágrima do animal, que berrar por dentro o mesmo berro de dor daquele na desvalia da fome e da sede?
Todos são heróis, são sertanejos de excepcionalidades indescritíveis. De nobreza inigualável é a vida do sertanejo, do homem da terra, do mato, dos escondidos, das distâncias matutas.
E todos são igualmente heróis, bravos guerreiros, fulgurantes Ulisses em Odisseia. Na história e no cotidiano sertanejo, não há coadjuvante, não há personagem de segundo plano no seu enredo e trama.
Todos, indistintamente, são protagonistas, atores principais nas páginas reais de uma epopeia chamada existência. De uma saga chamada sobrevivência.
No livro-sertão, cada personagem possui importância igual, cada um influencia na gestação de uma realidade a muitos desconhecida e até incompreendida, mas sempre tão comovida e comovente.
Além deste pedestal de lutas e vitórias, de sofrimentos e inglórias, há de se reconhecer o heroísmo em cada um, em cada ser nascido e vivente no mundo-sertão. Todos são, pois, heróis sertanejos. Não existe o sertanejo comum, o reles sertanejo, o sertanejo desvalido de tudo.
Mesmo na pobreza e magrez há o heroísmo da sobrevivência, mesmo na carência e no sofrimento há o heroísmo da luta por dias melhores, mesmo na angústia pela mesa sem prato e pelo prato vazio há o heroísmo dá invenção do viver, mesmo na lágrima que cai escondida e na prece que nunca é ouvida há o heroísmo pela abnegação da esperança incontida.
Há o heroísmo na acumulação de riquezas em meio hostil. Há o heroísmo na casa bonita e no móvel da sala, vez que sempre um sonho realizado. Há heroísmo no veículo na garagem e no sítio para repouso e estadia, vez que nascidos de cada pingo de suor. Mas outros heróis tão reais que chegam a assemelhar a deuses e semideuses de um Olimpo Matuto.
Mateiros, roceiros, pequenos agricultores, vaqueiros, autônomos, vendedores, pescadores, fateiras, varredoras de rua, garis, lenhadores, coureiros, bordadeiras, rendeiras, artesãos, doceiras, lavadoras de roupas, pedreiros, serventes, caçadores, feirantes, beatas, missionários, benzedeiras, rezadores, todos, enfim.
Lampião foi herói na jornada, Padre Cícero e Frei Damião heróis nas suas missões de fé, Antônio Conselheiro no seu desvario consciente por um mundo humanizado através do trabalho e da religião.
Gonzagão foi herói, Dominguinhos também. Mas também Tião, Bastião, Jucundina, Luzia, Timóteo, Pedro, João, Bastiana, Porcina, Minervina. Heróis da luta, do suor, da prece, da oração, da persistência, da vela acesa, do rosário nas mãos.
Aquela heroína que encontrei no Assentamento Madre Teresa de Calcutá: debaixo do sol, voltando da mata e carregando na força dos braços uma carrada de toco de pau para fazer lenha. Que heroína maior desse mundo-sertão!
Heróis como eu e você, que sertanejos somos sem jamais abdicar desse orgulho maior!


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Lá no meu sertão...


Dona Zefa da Guia em visita ao Memorial Alcino Alves Costa



O amor e os repentistas (Poesia)


O amor e os repentistas


Num encontro de violeiros
era sobre amor o repente
cada uma estrofe diferente
entre aplausos e berreiros
e veja o que se deu de presente

esse tal de amor
é uma calçola rasgada
bem no fundilho furada
que esconde a fundura
mas não oculta a beirada

pois digo que o amor
é cueca no fundo abrida
na parte baixa desprevenida
tentando por tudo esconder
o que só pensa encontrar saída

entonce arrepare o que digo
que o amor tá é bem vestido
de jaquetão mais que prevenido
pra quem quiser lhe abusar
sem que lhe seja permitido

Belarmino um violeiro
Raí outro repentista
e teve ainda outro artista
que prefiro não dizer
nem que Padre Mário insista.

Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - acredite...



*Rangel Alves da Costa


Nonô Quirino era o homem mais silencioso do mundo. Não abria a boca pra ninguém, não dizia uma palavra sequer, achavam até que era mudo. Mas bastava ficar sozinho, sentado num tronco de pau ou em cadeira na calçada, então ele se danava a falar sozinho. Falava e respondia a si mesmo. De vez em quando se aborrecia, dizia impropérios, para depois sorrir a gargalhada solta. Já Sinhá Dindô gostava de tomar uma de arrepiar. Com quase cem anos, mas não saía do pé do balcão. Chegava, mandava logo encher o copo, olhava pro pé do balcão e dizia: “Santo, eu beberrão, sei que tá aí de boca aberta esperando um golinho, mas dessa vez não tem não”. E em seguida virava a talagada. Bastava cuspir e pedir outra. Assim no mundo sertão, e sem falar no papagaio que acabou com um casamento e ainda foi ser testemunha do adultério. Quando o juiz quis desacreditar na sua palavra, o louro logo afirmou: Olha que eu andei sabendo umas coisas também sobre o senhor!


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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

NO SERTÃO TAMBÉM É ASSIM



*Rangel Alves da Costa


O sertão é também um tanto atravessado. Certamente que Euclides da Cunha não se referiu a todo filho da terra quando disse que o sertanejo é antes de tudo um forte.
Ora, tem cabra frouxo que só a moléstia, tem gente preguiçosa que só a gota, tem gente que não tá nem aí pro cantar do galo.
O sol bate na cumeeira, desce por riba da cama, espalha seu fogo por todo lugar, e o cabra não tá nem aí. Vira-se pro outro lado e começa a roncar novamente.
Acorda, levanta, fi da peste preguiçoso. Deixa de moleza, seu fi da preguiça. Levanta, levanta que já tá na hora de jogar milho pros pintos.
Enquanto Zequinha nem espera o dia amanhecer para começar os afazeres do dia, um e outro roncam até perto do meio-dia. E não é de espantar se passar disso.
Zequinha abre as portas do fundo com tudo ainda escurecido. Até o galo reclama: “Esse fiu da peste não espera nem eu levantar pra cantar e vem logo acordando o poleiro todo”.
Mas Zequinha é assim mesmo, tem tino de sertanejo. Levanta na madrugada, acende o fogão de lenha, prepara um café, chama pra si o punhado de farinha seca com um naco de toucinho, e só depois vai abrir a porta da frente.
O dia ainda não vai ser de chuva, entristece um pouco, mas nada a fazer. Remexe num canto e noutro, junta seus instrumentos de trabalho do dia, depois segue em direção à malhada.
Não há muito no curral. Mas tem que deixar o leite pra derramar sobre o cuscuz da meninada. Antes mesmo de retornar do curral e sua Bastiana já está na cozinha.
Todo dia é assim. Levanta logo cedinho, faz suas preces ao pé do oratório, em seguida começa a fazer da cozinha seu lar e do quintal sua sala de visita.
Lava, enxagua, estende no varal. Vai catar feixe de lenha, faz arrumação de graveto, molha o pé de mastruz e de manjericão, joga na malhada um punhado de milho.
Logo as galinhas acorrem esfomeadas. Pouco, mas assim mesmo. Mas enquanto isso ainda muita gente sequer pensa em levantar.
Uma preguiça que engorda, afrouxa e vai secando o prato e o bolso. E depois vai reclamar que a vida tá ruim, que não consegue somar nem vintém.
Nem chega a metade do dia e Zequinha e Bastiana já fizeram mais que uma multidão. Incansáveis, cientes de que somente através do trabalho o pão vai chegar à mesa, então fazem e fazem mais.
Mesmo na dor e no sofrimento, estes abraçam seus dias como se estivessem construindo - a cada dia - o melhor da vida.
E sob o sol, sob o chão quente e esturricado por falta de chuva, o melhor da vida é poder acordar e deitar com a certeza de que o trabalho do dia foi feita e que a barriga dos meninos não está roncando de fome.


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Lá no meu sertão...


Meninos do Velho Chico - Infância Ribeirinha!






O silêncio do pássaro (Poesia)



O silêncio do pássaro


No alto da árvore
um pássaro canta
e depois silencia

voa o pássaro triste
retorna ao ninho
e depois silencia

no silêncio do pássaro
um canto de saudade
que grita na mudez

depois solta voz
num cantar que é o meu
pois sou eu, sou eu...

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - continua o choro dos inconformados



*Rangel Alves da Costa


A eleição passou, Bolsonaro foi o vencedor, mas muita gente ainda não se conformou. Haddad se conformou, Lula talvez tenha se conformado, mas o fanatismo petista ainda não. A prova disso está nas redes sociais. Mas agora com atuação diferente. Como já não podem deturpar o candidato, agora agem para desqualificar o eleito. Até para Moro está sobrando. Criam situações inexistentes sobre o futuro governo Bolsonaro, transmudam declarações em inverdades, mentem deslavadamente na tentativa de criar espanto. Ademais, criam situações como se o eleito já tivesse assumido e já estivesse governando em cima de erros. Colocam a culpa nos aumentos, nas falcatruas e tudo o mais. Devem estar ensaiando para depois. Enquanto isso abandonam Lula, esquecem que o ex-presidente existe. A preocupação agora é com Bolsonaro. E deverão ter muito tempo de preocupação. É a ladainha, o choro contínuo e persistente dos inconformados.


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domingo, 11 de novembro de 2018

O TAPETE E O LIXO



*Rangel Alves da Costa


Dois reis em países distintos: um que fazia tapete voar e outro que não admitia que o tapete saísse do piso. O primeiro não só fazia o tapete voejar nas distâncias como mandava imediatamente limpar qualquer tipo de poeira que existisse junto ao assoalho. Mas nunca existia sujeira alguma. Por mais que os opositores do rei ventilassem qualquer tipo de imundície, jamais havia como comprovar tais indícios. Por isso mesmo o soberano pouco se importava que vasculhassem seu reinado de cima a baixo.
Já o segundo, começava logo a espernear e a ameaçar todo mundo toda vez que os seus súditos reclamavam de sua falta de aptidão para fazer o tapete subir aos ares. Muita gente foi deserdada e muitos sofreram pelos grilhões por causa disso. Quando os opositores juntavam forças e exigiam que o tapete fosse levantado, mais ainda o rei mandava que os seus bajuladores e serviçais assentassem pregos pelas beiradas. Mas todo mundo sabia o motivo daquela insistente negativa do soberano: abaixo do tapete só havia lixo, as podridões do reino.
Mas um dia, um cheiro ruim e insuportável começou a tomar os ares desse reino de tapete intocável. Todo mundo sentia a podridão, todo camponês e serviçal passou a não suportar aquele ar infectado de coisas podres. Somente o rei e seus bajuladores pareciam não sentir. O sacerdote sentia, o mago da corte sentia, a rainha também sentia. Mas o soberano não estava nem aí para o que estava acontecendo. Foi quando, pelos escondidos, começaram as insinuações de onde vinha aquela putrefação. E chegou-se à conclusão que só podia ser de debaixo do tapete do palácio real.
Com efeito, embaixo do tapete bonito, lustroso, ornado com ouro e diamantes, havia mais que um lamaçal. Tudo de pior que podia haver na gestão do reinado estava ali se alimentando da podridão e crescendo na infestação. Ali a corrupção, a improbidade, a ilicitude, a roubalheira, a esperteza, a ladroice, o desvio, a falsificação, a fraude, a deslavada desonestidade. Ante tal descoberta, e sem o rei mais poder esconder qualquer coisa, o que se viu a seguir foi um reinado ter fim por causa de um tapete, e que outra serventia não tinha senão encobrir todas as podridões de um rei e todo o seu reinado.
Qualquer semelhança com casos muito conhecidos na vida brasileira não terá sido mera coincidência. O Brasil também possui lugar garantido no pedestal dos tapetes majestosos por cima e infectados por baixo, ocultando as podridões. Com efeito, parece até de nascença brasileira a velha e conhecida frase: quando se deseja esconder, basta varrer tudo para debaixo do tapete. E significa dizer que mais vale a aparência de limpeza do que a revelação do lixo que se mantém escondido. Ou ainda que a beleza de um tapete (de uma prefeitura, de um órgão público, de um palácio, de um parlamento, de um ministério ou de gabinete) imagina-se suficiente para ocultar os lamaçais existentes.
Ora, mas o que seria esse tapete na vida pública brasileira? Qual a feição de tal tapeta na vida político-partidária? A aparência de honestidade, a feição da probidade, da boa e incorrupta gestão, do bem público sendo respeitado segundo os objetivos maiores de servir ao bem coletivo. Contudo, logo aparece o cisco de moeda que precisa ser escondido, logo surge uma ilicitude que precisa ser ocultada, logo vem uma esperteza que não pode ser do conhecimento de ninguém. Então, tais pequenas sujeiras vão sendo devidamente levado para debaixo do tapete. E assim vai e assim prossegue, com entulhos e mais entulhos sendo acumulados, para de repente as podridões começarem a surgir. E agora?
Em casos tais, a negativa é a primeira coisa que se faz. Não há um só gestor ou governante que admita que o seu tapete é penas de ludibriação. É comum que até se ameace, que se diga que exige provas (sob pena de ir às barras da justiça) da existência de algum lixo. Quanto mais negativa mais o acúmulo da podridão se evidencia, chegando mesmo ao deslavado escancaramento. Quando não há mais a fazer, quando as evidências deixam induvidosas as ilicitudes continuamente, então se tenta, a todo custo, colocar a culpa na varredora da prefeitura, na que serve cafezinho no palácio, no que passa o aspirador por cima do brilhoso tapete.
Como dito, tanto o tapete como o lixo está costumeiramente presente na vida pública e privada, nas administrações, nas ações governamentais e nos cotidianos político-partidários. Sem falar nas aparências que se quer demonstrar quando há interesses ocultos em jogo. Mostra-se o que está por cima, o bonito, o belo, o asseado, mas nunca o que se mantém escondido. E quando o tapete é levantado descobre-se um país: Brasil.
Quando começam as prisões de figurões, de políticos e gestores até então tidos como inatacáveis e incorruptíveis, é que os tapetes são levantados para o escancaramento dessa realidade putrefata na vida brasileira. E há muito tapete. Muito tapete por todo lugar. E algum cheiro ruim sempre surge no ar.


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Lá no meu sertão...



A CORPORAÇÃO MUSICAL ALCINO ALVES COSTA VIVE E PULSA DE CORAÇÃO FESTIVO - No próximo dia 25 de novembro, data comemorativa da Emancipação Política de Poço Redondo, a nossa sempre amada e esperada Banda Marcial estará fazendo uma dupla apresentação: Alvorada Festiva-Musical e Desfile Cívico. Neste ano, a alvorada festiva certamente será surpreendente e comovente, pois toda a equipe está organizando uma apresentação inesquecível, com homenagens que por enquanto ficarão em segredo. À tarde, acompanhando o centro educacional de Marcileide, fará outra apresentação memorável. Uma prova que resistimos às tempestades e aos vendavais, e que agora, com mais ânimo, mais alegria e mais vontade de mostrar todo o nosso potencial, abraçamos Poço Redondo e todo o sertão como seiva maior de nossa existência. E muito mais virá por aí. Algo assim esplendoroso, maravilhoso, indescritível. Aguardem!



Construindo a felicidade (Poesia)



Construindo a felicidade


Estou catando de novo
mil pedrinhas da felicidade
que eu havia perdido

depois das pedrinhas
vou catar grãos de areia
para reconstruir a felicidade

depois dos grãos de areia
vou em busca da mulher amada
e a colocarei no castelo
feito de pedrinhas e areia.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - que viagem!



*Rangel Alves da Costa


Que viagem eu fiz hoje. De ônibus, do sertão à capital, foi uma viagem daquelas. Mas tudo por culpa minha. Bem sentado ao lado da janela, olhando as paisagens enquanto comia uma banana, não sei por que fui jogar fora a casca. Melhor não ter feito isso, agora tenho certeza. Lancei fora a casca e de repente ouvi um carro totalmente descontrolado. Vindo atrás do ônibus, os pneus passaram por cima da casca e perderam o controle. Sorte não ter acontecido o pior. Mas não ficou somente nisso não. Espalitei os dentes e também joguei fora o palito. Por que fiz isso? O mesmo carro fincou um pneu no palito que imediatamente furou. Foi um estouro danado. Situação terrível também aconteceu com um guardanapo que joguei pela janela. Levado pelo vento, eis que bateu no vidro do carro e quebrou na hora. Vije Maria! Foi o que pensei. Da janela, então resolvi tirar uma fotografia do sol entre as serras. Quando apertei o dispositivo da câmera no celular, então se fez um clarão tão grande que o motorista do carro logo atrás ficou sem ver na nada e foi parar rente a uma cerca. Ante os acontecidos, resolvi fechar de vez o vidro da janela. Foi pior. O ar de fora fez uma pressão tão grande que o carro de trás subiu na hora e acabou passando, como um disco voador, por cima do ônibus que eu estava.


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