SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 31 de março de 2014

CONVERTENDO DEBAIXO DO BREGA


Rangel Alves da Costa*


Aos domingos sempre gosto de preparar um regabofe diferenciado, mais apetitoso. Sou amigo do pernil e da feijoada, mas também de qualquer comida que seja feita com carne nova, comprada na feira. Com a intenção de preparar uma panelada mista de carne de gado com carne de porco e fígado, me dirigi ao principal mercado aracajuano.
Ao lado do centro da cidade, o mercado fica apenas a uns quatro quarteirões de minha casa, mas em cujo percurso tenho de passar por botecos e bordéis com fachada de pousadas e encontrar bêbados e prostitutas ainda em pé da noite passada. Parece que não dormem essas mulheres que amanhecem e anoitecem fazendo ponto aos pés das escadas e nos bares “proibidos”.
Todas as vezes que sigo em direção ao mercado, em torno das seis da manhã, encontro as ditas mulheres da vida já na espreita de macho. Algumas novinhas e já envelhecidas, outras mais velhas e já parecendo mumificadas, mas todas sempre banhadas de perfumes baratos, batons vermelhos além dos lábios e ruges nas faces sem cor. De vez em quando ouço um psiu, mas quase sempre tenho de oferecer um ou dois cigarros.
Mas neste último domingo de março aconteceu algo inusitado. Ao seguir pela conhecida rua, mais adiante avistei uma dessas mulheres conversando com um homem. Logo imaginei que estivessem acertando preços ou coisa assim, mas ao me aproximar mais percebi uma Bíblia aberta na mão do rapaz e ele tentando converter a prostituta. Ora, eu nunca tinha presenciado nada igual.
Logicamente que não parei para ouvir o que ele pregava tão fervorosamente, num esforço tremendo para manter sua atenção e mostrar-lhe os caminhos da salvação. Rapidamente, mas não pude deixar de ouvir palavras como o pecado mortal do corpo, a necessidade de fugir da prostituição para receber os grandiosos favores do Senhor, a vida pecadora como porta aberta para o fogo eterno do sofrimento. E também o ouvi dizer que está escrito em Gálatas 5.
Não pude ouvir os versículos, mas logo me veio à mente a passagem em Gálatas que remete aos pecados da carne:  “Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti: Aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus”.
E certamente também mostrou na Bíblia em sua mão o que está escrito em Jeremias 3:2: "Olhe para o campo e veja: Há algum lugar onde você não foi desonrada? À beira do caminho você se assentou à espera de amantes, assentou-se como um nômade no deserto. Você contaminou a terra com sua prostituição e impiedade”. E também as palavras em Coríntios 1, 6:18: “Fujam da imoralidade sexual. Todos os outros pecados que alguém comete, fora do corpo os comete; mas quem peca sexualmente, peca contra o seu próprio corpo”.
Dobrei a esquina ainda imaginando aquela cena. Com a Bíblia à mão, o rapaz pregava como se realmente estivesse disposto a tirar aquela mulher daquela vida de pecados, de prostituição e lascívia. E ela, com um leve sorriso nos lábios vermelhos, apenas olhava nos olhos do pregador como se estivesse apenas esperando o momento de falar, de defender a tese de seu corpo e de seu ofício na vida.
Ao retornar, ansioso para saber o desfecho daquela conversão dominical, não avistei mais nem o rapaz nem a mulher. Não pensei duas vezes e perguntei a outra que estava na calçada se havia visto aqueles dois que tanto conversavam por ali. E emendei perguntando se ele havia conseguido converter a mulher. E sorrindo ela respondeu:
“Que nada. Quem converteu ele foi ela. Agora estão lá em cima no bem bom, mostrando como se faz um pecado”.


Poeta e cronista
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Com a força do amor (Poesia)


Com a força do amor


Olha-me como fortaleza
como muralha indestrutível
pois alicerçado no cimento
que me permitiste no amor

tenha-me como guerreiro
como vitorioso cavaleiro
que venceu todas as brumas
com a espada do teu amor

mas sinta-me na fragilidade
assim como uma folha seca
que teme a fúria do vento
sem o amparo do teu amor.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 565


Rangel Alves da Costa*


“Dia sombreado, entristecido...”.
“Dia sem alvoroços e gritarias...”.
“Dia nostálgico e melancólico...”.
“Cheio de saudades e relembranças...”.
“Um dia diferente sim...”.
“Ora a brisa levemente soprando...”.
“Ora um vento querendo açoitar...”.
“Uma folha ou outra pelo ar...”.
“Zunido da mataria angustiada...”.
“Arvoredos que deram folhas pelo chão...”.
“Pássaros silenciosos e pedras solenes...”.
“Ruas solitárias, bancos vazios...”.
“Janelas dançando ao sabor do vento...”.
“Portas fechadas, portas abertas...”.
“Olhos que surgem e que somem...”.
“Feições que não se demoram...”.
“Um menino passa correndo...”.
“Mas a vida parece escondida...”.
“Uma cadeira de balanço na calçada...”.
“Solitariamente se balançando...”.
“Uma folha cai no seu colo...”.
“Poema seco enviado pela solidão...”.
“Mas que tristeza paisagem assim...”.
“Roupas no varal...”.
“A dança agonizante no varal...”.
“Ninguém aparece para recolher os panos...”.
“Um cachorro que passa, um gato que passa...”.
“Templo nublado...”.
“Entardecer já querendo ser noite...”.
“O sol sumiu sem dar satisfação...”.
“Por isso tudo solidão...”.
“Solidão, solidão...”.
“Alguém aparece numa porta...”.
“A velha senhora levanta a vista adiante...”.
“Fecha o semblante e parece viajar...”.
“Senta na cadeira de balanço...”.
“E se põe a mirar a horizonte...”.
“Os seus olhos estão tristes...”.
“Sua feição também...”.
“E o vento sopra mais forte...”.
“Folhas secas esvoaçam pelos ares...”.
“Chegam ao colo da velha senhora...”.
“Mas é como se nada acontecesse...”.
“Apenas mira o horizonte...”.
“E seu olhar se perde nas distâncias...”.
“Para depois lacrimejar...”.
“Recolhe uma folha e passa nos olhos...”.
“Depois a solta pelo ar...”.
“E a folha vai subindo e segue adiante...”.
“Levando a saudade...”.
“Levando tanta saudade...”.


Poeta e cronista
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domingo, 30 de março de 2014

RETRATOS, MEMÓRIAS E SAUDADES


Rangel Alves da Costa*


Recordo bem aqueles retratos emoldurados em cima do móvel na sala de estar. Dois retratos diferentes, em preto e branco, mas que ganharam coloração pela maestria artesanal do artista da fotografia. Coloridos artificialmente, em pinceladas realçando as faces, receberam também molduras douradas, se abrindo ao meio.
Meu pai e minha mãe. Jovens, bonitos, ele mais sério e ela com sorriso sempre cativante. Não sei aonde, mas o porta-retrato ainda deve estar guardado em algum lugar. Retratos são diferentes das pessoas, pois têm o dom de permanecer quando os retratados já não estão mais aqui. As feições avistadas agora servem à ilusão da presença, ainda que presentes estejam nos corações familiares.
Também recordo dos retratos de meus avôs Dona Marieta (Mãeta) e Teotônio Alves (Pai China) numa das salas. Um dia um velho restaurador de fotografias bateu à porta de casa e minha mãe pediu que transformasse duas pequenas fotografias num retrato emoldurado de parede. Tempos depois os dois surgiram em tamanho grande, coloridos, adornados em madeira antiga.
Nas paredes ou por cima dos móveis, as fotografias e porta-retratos ganham significação especial. Tantas vezes surgem como meros enfeites, como instantâneos familiares para serem relembrados a qualquer momento, mas o tempo acaba cuidando de transformar os retratos em saudades e recordações. E dolorosas quando aquelas pessoas somente podem ser avistadas naquelas molduras.
De repente, e a fotografia é o único sorriso que resta. E quanto mais o tempo passa mais aqueles retratos parecem ganhar vida própria. O sentimento de ausência, aliado ao imenso desejo daquela presença, acaba provocando um relacionamento tão afetuoso que nem nos instantes possíveis era tão corriqueiro. É como se quisesse revelar na fotografia aquilo que restou incompleto noutros instantes da vida.
Talvez os retratos antigos também chorem, talvez sintam as mesmas saudades, talvez queiram dar os mesmos abraços. A vidraça amarela embaça o olhar marejado, a moldura desgastada acaba escondendo a feição angustiada e querendo expressar além daquela névoa do tempo. E quem olha também retrata o quanto dolorosa é a distância de um olhar: o infinito entre uma presença e uma ausência.
Os álbuns, os escritos, as relíquias tudo serve como recordação, porém nada igual a avistar um sorriso conhecido na parede, um olhar afetuoso em cima da estante, uma feição tão amável em cima de um móvel qualquer. E verdade que ninguém olha num repente e deixa para trás a saudade. A vontade que se tem é de conversar, de perguntar como vai, de falar coisas amorosas. E também de abraçar e revelar todo o amor sentido.
Silenciosamente converso com os meus. Há um retrato de meu pai acima de minha estante e uma fotografia de minha mãe na mesma estante, ao lado de uma Bíblia. Alcino está sorridente na porta de uma casinha sertaneja. Dona Peta também sorridente como sempre se mantinha em vida. E é difícil acreditar como dois sorrisos conseguem transformar em lágrimas os olhos daquele que olha. E sente.
Os retratos são, assim, nossas memórias visíveis, nossas saudades estampadas, nossos encontros distantes. E servem não apenas para o diálogo com os antepassados como para o entendimento de nossas próprias transformações. Também nos sentimos nostálgicos e saudosos de nós mesmos. As feições retratadas que não voltam mais, olhares e sorrisos que não são mais os mesmos.
Diferentemente do que ocorre quando sentimos fisicamente o tempo passando, os retratos possuem o dom de rejuvenescer na saudade, na lembrança de como quase tudo era diferente. E acabamos percebendo que nos dividimos em três: aquele que está dentro de nós, o que está refletido no espelho e o da fotografia. E o temor de desbotar ainda mais o que está dentro de nós.


Poeta e cronista
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Doce e gostoso (Poesia)


Doce e gostoso


Encontrar quem ama
e voltar à infância

querer amar
e o desejo sincero

flor da manhã
e o olhar avistando

a fruta bonita
e a pele do corpo

toque no lábio
e gosto de pirulito

beijo gostoso
o doce se derretendo

dar as mãos
e pegar o brinquedo

correr feliz
e voar bem alto.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 564


Rangel Alves da Costa*


“Não sei qual vitória esperam...”.
“Mas foram fazer a guerra...”.
“Talvez retornem com a vitória...”.
“Mas a derrota já foi plantada...”.
“Eis o contrassenso humano...”.
“Matar, destruir, para se dizer vencedor...”.
“Dizimar, devastar, para se afirmar glorioso...”.
“Em tudo que faça está a vitória perdida...”.
“A arrogância como demonstração de força...”.
“A imposição como força subjugadora...”.
“E não há quem diga a verdade...”.
“Que a guerra só serve aos generais...”.
“Que os generais não fazem a guerra...”.
“Não vão às trincheiras arriscar a vida...”.
“E jogam nas mãos de inocentes...”.
“As armas para matar outros inocentes...”.
“E depois os espólios da guerra...”.
“A derrota humana ao vencedor...”.
“A derrota humana ao perdedor...”.
“E uma imensidão de vidas ceifadas...”.
“Gritos silenciosos largados além...”.
“E tremulam as bandeiras dos impérios...”.
“As nações canibais e esfomeadas...”.
“Riquezas tiradas da submissão...”.
“Das guerras injustas contra inimigos famintos...”.
“Dos canhões diante de baionetas...”.
“Do poder dizimando a fraqueza...”.
“E tudo para justificar o mal...”.
“Eis que a maldade tão necessária para subjugar...”.
“Povos devem ser submetidos em nome dos impérios...”.
“E quantas nações morrem assim...”.
“Quantos povos são dizimados assim...”.
“Pela arrogância do conquistador...”.
“Pela belicosidade do explorador...”.
“Mas o poder é tamanho...”.
“Que as consciências são silenciadas...”.
“E as vozes não ecoam em protesto...”.
“Ainda que o sangue ainda jorre...”.
“Ainda que inocentes continuem sendo mortos...”.
“Ainda que os escombros apaguem a memória...”.
“Tudo parece justificado pelo poder...”.
“Sim, talvez o poder seja tudo...”.
“Mas até encontrar um império ainda maior...”.
“Que subjugue sua bandeira...”.
“Destrua suas defesas...”.
“E humilhe o seu povo...”.
“Então a vítima clamará por justiça...”.
“Porém sem recordar as atrocidades cometidas...”.
“Apenas afirmando da injustiça do contendor...”.
“Que não permite que ele seja o algoz sozinho...”.
“E assim caminha a humanidade...”.


Poeta e cronista
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sábado, 29 de março de 2014

O CAOS E AS CINZAS


Rangel Alves da Costa*


Uma incontestável certeza: o fim da humanidade caminha no mesmo percurso do homem. Não há como afirmar diferente. O homem sempre foi o seu próprio algoz, o seu destruidor. Contudo, sua ação se encaminha cada vez mais para outras direções. E aonde chega a mão humana o fim estará muito próximo.
Que não se tenha isso como exercício de pessimismo, como visão das coisas pelo lado mais negativo. Não. Tal constatação é fruto de realista reflexão. Ora, se tudo que é indevidamente usado demais, abusado demais ou perde seu controle ou a razão de ser, mais adiante perecerá, então que se veja nesse processo a realidade do mundo, da existência, da vida.
Nada suporta ser continuamente maltratado. Em tudo há um ponto de saturação, de exaurimento. Chega um momento que a corda arrebenta, que o ferro é totalmente tomado pela corrosão. E o mundo chegará a esse ponto pelas ações humanas. Em muitas situações, e diante dos estragos já provocados, nem mesmo as tentativas de preservação darão resultados satisfatórios. Os danos são tamanhos que dificilmente as consequências sequer poderão ser adiadas.
Os exemplos são muitos, estão aí diante de todos, e geralmente com todos como agentes ativos e passivos nos processos de destruição, transformando tudo num verdadeiro caos. E caos social, familiar, político, ambiental, produtivo, existencial, comportamental, em tudo e todos os setores da vida e da sociedade. Infelizmente não há mais nada que não esteja maculado pelas aberrações e vícios mundanos e que ainda se mantenha no resguardo da paz e da tranquilidade.
Ontem o mundo sofria as consequências da violência, mas hoje a violência está ainda maior e será cada vez mais crescente. Não que as guerras sejam deflagradas em maior quantidade, mas pelas guerras urbanas e campesinas que se tornaram mais frequentes e violentas, vitimando um número alarmante de pessoas. É irrefreada a violência no trânsito, nas ruas, nos lugares mais distantes. Basta alguém olhar para o outro e este revida de forma animalesca. Em tudo um motivo para a violência, para a brutalidade, para tirar a vida do próximo.
Um exemplo desse caos é ainda notícia fresca na imprensa sergipana. Nos últimos dias a violência imperou de tal modo e de forma tão aterrorizante que muitos imaginaram estar noutra região do país. Numa só semana e um adolescente foi assassinado dentro da sala de aula, outro foi alvejado por policiais e morreu aos 17 anos. Um ônibus foi incendiado e inúmeras ocorrências com vítimas foram registradas. Segundo informações repassadas à imprensa, ao menos três ônibus são assaltados a cada dia.
Tais dados, ainda que resumidamente, significam muito para uma cidade do porte de Aracaju. E a violência assola impiedosamente todo o interior do estado. Como diz a história, violência havia, mas não assim nessa normalidade e nesse montante. Entretanto, nada mais é que a comprovação de que o caos se instalou de tal modo que não haverá mais saída em pouco tempo. E o que acontecerá quando nem os órgãos de segurança puderem conter o avanço desenfreado da violência?
Acontecerá apenas que o estado de barbárie se instalará de forma tal que o caos transformará tudo em cinzas. Mas não sem antes tornar o homem ainda mais lobo do próprio homem, as relações sociais e de parentesco se tornarem totalmente inexistentes, as pessoas viverem amedrontadas consigo mesmas e perante o próximo e fazendo justiça com as próprias mãos. Quer dizer, quando o mundo estiver devastado naquilo que restava de moralidade, justiça e respeito, então nada mais fará inveja a Sodoma e Gomorra.
Como afirmado, nenhuma exacerbação pessimista nestas palavras. As situações da vida e as pessoas se transformam tão rapidamente, e tão negativamente, que chegará ao estágio de insuportabilidade. As ações humanas pressionam de tal forma o mundo que este abdicará de acolher os seus. E cada um que sobreviva com o que restar. Qual mundo suportará abrigar a devassidão sexual, a violência gratuita, feras tão inimigas entre si?
Contudo, o que realmente espanta é que as pessoas parecem não estar nem um pouco preocupadas com o caos e as cinzas que se anunciam. Talvez achem que não estarão mais presentes para vivenciar o pior. E por isso mesmo vão semeando agora os grãos já apodrecidos da irresponsabilidade e da incoerência. Não sabendo, porém, que já se alimentam dos frutos amargos da insegurança e do medo a cada instante.


Poeta e cronista
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Ternura (Poesia)


Ternura


Chorei não
minha flor
essa lágrima
não é de amor

chore não
minha flor
nenhuma lágrima
nem de amor

se for chorar
e por amor
não serei espinho
na sua flor

se eu chorar
e por amor
é com saudade
de minha flor.

Rangel Alves da Costa


PALAVRAS SILENCIOSAS – 563


Rangel Alves da Costa*


“A terra, o grão...”.
“O passo, o chão...”.
“A fé, a oração...”.
“A fome, o pão...”.
“O sim e o não...”.
“Mas não é poesia...”.
“Não é dor nem alegria...”.
“Nem mistério ou magia...”.
“Apenas palavras...”.
“O canto do dia...”.
“Pois tudo nasce...”.
“Assim como...”.
“O amor e a dor...”.
“O aroma e o sabor...”.
“A fuga e o favor...”.
“O cansaço e o labor...”.
“O vazio e a cor...”.
“O frio e o calor...”.
“Mas não precisa rimar...”.
“Aqui verso não há...”.
“Como poema de amar...”.
“Ou estrofe a brilhar...”.
“Apenas a palavra...”.
“Uma escrita qualquer...”.
“Na palavra que couber...”.
“Na escrita ao acaso...”.
“No que de repente vem...”.
“Como o apito e o trem...”.
“A saudade de alguém...”.
“A tristeza também...”.
“A distância e o além...”.
“Entretanto e porém...”.
“Tudo ao acaso...”.
“Escrita sem pretensão...”.
“De alegrar o coração...”.
“De trazer comoção...”.
“Não, isso não...”.
“Apenas a letra torta...”.
“Em cima da página morta...”.
“E entregue ao vento...”.
“Para esvoaçar em lamento...”.
“E desaparecer além...”.
“Como tudo na vida...”.
“E eu também...”.
“E sozinho...”.
“Se você não vem...”.
“Palavra sem rima...”.
“Sem flores por cima...”.
“Apenas com a intenção...”.
“De ser lida ao desvão...”.


Poeta e cronista
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sexta-feira, 28 de março de 2014

HUMILDES E HUMILHADOS


Rangel Alves da Costa*


O próprio conceito de humilde traz no seu bojo o sentido de humilhado, de humilhação. Dependendo do contexto, ser humilde significa viver modestamente, possuir baixo poder aquisitivo, fazer parte de classe social menos favorecida, não possuir grandes pretensões na vida a não ser aquelas que permitam a sobrevivência. Ou simplesmente ser recatado, respeitoso, servil, simples, sem aparentar orgulho ou soberba.
Contudo, ser humilde não se confunde com ter humildade. Enquanto aquele se volta mais para o socialmente desfavorecido, esta busca um nivelamento de relações, com respeito mútuo que não permita distinções por poder ou riqueza, formação ou prestígio. O ser humilde geralmente é forçado a encurvar-se, a submeter-se, enquanto a humildade exige respeito e tratamento digno e igualitário.
Aquele que se relaciona com o próximo com senso de humildade ou respeita o menos favorecido pela sua própria condição humana, age se contrapondo a uma verdadeira praga social que assola a classe mais humilde: a humilhação. E esta vista no seu aspecto mais pejorativo, desumano e existencialmente inaceitável. Neste sentido é que se fala em pessoas humilhadas pela sua condição social, pela sua cor, raça ou opção sexual, dentre outros fatores.
Como sempre observável no longo processo humano de desigualar os iguais, a humilhação foi sendo forjada para mostrar que pessoas existem que, pelo simples fato de serem menos aquinhoadas que outras, a estas devem obediência e temor. A Bíblia fala em submissão, mas somente à vontade de Deus, como escrito em Crônicas, II, 7:14: se o meu povo se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra. Assim, humilhar-se somente a Deus, e não ao homem.
Mas contrariamente a toda lição, é o homem que incessantemente humilha o outro, procura desfazer do próximo, desrespeitá-lo até onde possa. E não há dúvida que a humilhação é, verdadeiramente, a mais desonesta, injusta e desumana forma de ferir o caráter, de atacar a dignidade e afetar a honra do ser humano. É como se a submissão fosse uma forma de dizer que as coisas devem ser como eu quero, e não como você necessita que sejam; como uma forma de afirmar que deve suportar calado o que de bom ou ruim lhe seja impingido.  
O seu conceito não deixa dúvidas quanto ao enojamento que carrega em si, eis que atitude tomada para rebaixar a pessoa humilde ao reles do chão, ao húmus. É a imposição ao outro uma condição de ser abjeto, imprestável, menor, vil, desprezível, que não merece respeito nem valorização. Avista-se o desprezo ou desvalorização do ser humano; a escravização ou submissão do indivíduo a situações socialmente inaceitáveis; a violação premeditada dos direitos do cidadão; a busca de tornar o outro sempre inferior, sempre necessitando do outro para conseguir aquilo que lhe é assegurado por lei.
Age com humilhação aquele que sempre vê o povo humilde como preguiçoso, como marginal, como destituído das mesmas qualidades de outros cidadãos. A polícia humilha o negro, o pobre, o malvestido, o esfarrapado, o abandonado, o favelado ou morador das distâncias empobrecidas. A generalização de classes como tendentes à marginalidade é um ato de humilhação, como também as abordagens sempre pressupondo um bandido e não um ser humano.
Age com humilhação aquele que graceja do aluno que vai à escola com roupa rasgada ou caderno sem capa; aquele que nas repartições públicas torna o atendimento um total desrespeito ao cidadão que vai pedir uma informação ou resolver um problema; aquele que discrimina pessoas ou age com discriminação perante determinadas classes de indivíduos. O péssimo atendimento nos hospitais e outras unidades de saúde, nos fóruns, nas repartições públicas e nas antessalas são explícitas formas de humilhação.
Não há humilhação maior imposta ao indivíduo que pagar impostos cada vez mais elevados e não poder contar com os serviços essenciais quando necessita. Indivíduos jogados em macas no chão de hospitais, que têm de aguardar cinco meses ou mais para a realização de um exame, que não podem contar com os remédios necessários para o seu tratamento, são formas degradantes de humilhação. 
Contudo, o que mais dói é saber que a humilhação é fruto da arrogância de um ser humano em face de outro ser humano, só que este na desvantagem da necessidade. O que mais grita na alma é ter a certeza que muitos humilham como forma de mostrar poder e superioridade diante de pessoas que já sofrem demais em situações normais da vida. Mas assim é feito porque é próprio do ser humano ver o outro com inferioridade. E, se for pobre, como um verme que deve ser pisoteado.


Poeta e cronista
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Cenas (Poesia)


Cenas


Cena um
eu te olhando
você me olhando
um sorriso aqui
e outro acolá
nós dois caminhando
um diante do outro

cena dois
mãos dadas
beijos e abraços
a felicidade em nós
uma canção de amor
juras de eternidade
a poesia em dois

cena três
nossa fuga
diante das tempestades
diante dos temporais
vencendo os desafios
mas curvados ao tempo
ao peso dos anos
até o fim

fim
não sei se do filme
ou de nós dois.

Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 562


Rangel Alves da Costa*


“Peço perdão...”.
“Pelo sim e pelo não...”.
“Respeito o próximo...”.
“Por devoção...”.
“Ajo segundo...”.
“O coração...”.
“Assim aprendi...”.
“Lembro a lição...”.
“Meu pai dizia...”.
“Seja o exemplo...”.
“Ainda que somente a você...”.
“Para ter mais tarde...”.
“O que merecer...”.
“E quem aprende...”.
“Não vai esquecer...”.
“Minha mãe dizia...”.
“Olhe ao redor...”.
“Na multidão...”.
“E sempre só...”.
“Pois a desumanidade...”.
“Age sem dó...”.
“Meu avô dia...”.
“Leia o livro que escrevi...”.
“Livro da vida e seu sentir...”.
“Sem ter letra para ser lida...”.
“Mas a lição de toda vida...”.
“Desde o abandono...”.
“A toda guarida...”.
“Minha avó dizia...”.
“Cuidado com o mundo lá fora...”.
“Saiba partir sem ter ido embora...”.
“E ao voltar traga consigo...”.
“Seu corpo inteiro como seu amigo...”.
“Pois quem cuida de si...”.
“Não amarga castigo...”.
“Um amigo dizia...”.
“Guarde na memória...”.
“O que lhe vem como história...”.
“Reler a lição...”.
“É procurar a vitória...”.
“Mas jamais esquecendo...”.
“Que a estrada...”.
“De sol ou enluarada...”.
“É você mesmo que abre...”.
“Na sua jornada...”.
“É você quem constrói...”.
“O que afaga ou lhe dói...”.
“Tudo como uma semente...”.
“Semeada quando nem se sente...”.
“Que frutifica ou floresce...”.
“Como a fé e a prece...”.


Poeta e cronista
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quinta-feira, 27 de março de 2014

FEUDAIS (AINDA)


Rangel Alves da Costa*


As concepções medievalistas de poder e de mando ainda possuem guarida no mundo contemporâneo, neste mesmo mundo onde se supunha superadas as relações absolutistas e de obediência servil. Eis que muitos senhores - que se alardeiam ungidos pela democracia e pelo respeito às leis - continuam mantendo sob muros feudais, impenetráveis e fechados a quatro chaves, os espaços coletivos que imaginam como unicamente seus.
Quando se diz que este ou aquele senhor tem como feudo aquilo que pressupõe democracia ou que o possui como se dono fosse e nisto pretendesse se perpetuar, eis alguns aspectos do ranço feudalista moderno. Se num tempo distante o poder absoluto era exercido nos intramuros das cidadelas e arredores, hoje pode ser percebido perante as instituições e até mesmo na vida social.
São as relações feudais transpostas ao mundo novo. Historicamente, o feudalismo pode ser conceituado como um modo de organização social, político e cultural baseado no regime de servidão, onde o trabalhador rural era o servo do grande proprietário de terras, o senhor feudal. O feudalismo predominou na Europa durante toda a Idade Média, entre os séculos V e XV.
No feudalismo, um senhor proprietário de terras mantinha sob seu domínio tudo que houvesse nos limites do seu feudo, desde a produção à liberdade de seus servos e coleta de impostos. Caracterizava-se principalmente poder absoluto nas mãos dos senhores feudais e utilização do trabalho servil. Os servos responsabilizavam-se pela produção de alimentos e os senhores feudais cuidavam principalmente de providenciar meios para defesa de seu poder e de sua propriedade.
A sociedade moderna geralmente vê como absurdas as práticas feudais, sequer procurando enxergar o momento histórico como propícia aos abusos de dominação, exploração, de servidão. Ora, era uma relação entre poderosos e servos, entre o mando e a obediência, sem leis que regrassem tais relações. Contudo, a mesma sociedade muitas vezes mantém os olhos bem fechados para as novas feições feudais que podem ser encontradas ali e acolá.
Para se ter uma ideia, senhores existem que se apegam ao mando, ao comando, ao poder de tal forma que passam a imaginar estar diante de uma propriedade exclusivamente sua. Agem ainda como o velho senhor feudal que ordena, que submete, que apenas diz como deve funcionar. De tanto interiorizar que não apenas comanda, mas que é realmente dono, sequer lhe vem à mente - em manobras sempre tendentes à perpetuação - que mais tarde possa estar do outro lado, ou seja, recebendo ordens e obedecendo a estatutos e leis.
E realmente tudo faz para não entregar o bastão, ainda que o seu comando seja por prazo determinado, o seu poder esteja delimitado por lei, o seu reinado tenha momento certo para acabar. E, como no feudalismo, lançam mão de todas as armas para não repassar o poder a ninguém, ainda que seja um par com maior capacidade de gestão. E o poder que deveria ser gerido democraticamente, observando os processos de escolha, acaba se transformando numa tirania inaceitável.
Inaceitável, porém mantida pela mão forte e as manobras de dominação. Se no feudalismo real o senhor somente era destronado pelas guerras empreendidas pelos inimigos igualmente poderosos, no feudalismo moderno geralmente é a via judicial o caminho mais recorrente para se acabar com os ranços absolutistas. Por isso tantas e tantas vezes os próprios pares recorrem ao judiciário para afastar do comando aquele que se prega na cadeira e dela decide não mais sair.
Os novos senhores feudais usam as armas mais inimagináveis para não deixar os tronos que interiorizam como seus. Estatutos são rasgados, negados ou descumpridos; leis perdem vigência pelo próprio punho do poderoso; manobras ardilosas são empreendidas, geralmente com a conivência de alguns membros, para que os opositores sejam  desacreditados ou que se vejam sem qualquer chance de arrancar do pedestal a pedra dura da tirania e da imoralidade.
E os novos senhores feudais, tantos e tantos que se acham mais poderosos que tudo, se presumem sempre acima da lei e tão importantes que se imaginam incontestáveis, estão nas entidades de classe, nos clubes de futebol, nas academias literárias e por todo lugar. Em cada um destes organismos os estatutos são claros, induvidosos, afirmando sempre que o comando deverá ser exercido por determinado período, com possibilidade de reeleição. Mas não de perpetuação.
Contudo, o que sempre se vê sãos os regimentos, leis e estatutos apodrecendo debaixo do braço destes senhores ou sendo zelados pelos cupins de suas gavetas. E quantos feudos ainda encastelados em Sergipe. Que venha o rei da moralidade para destroná-los.


Poeta e cronista
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Inspiração do poema (Poesia)


Inspiração do poema


Ouvi o badalar dos sinos
o relógio irrompeu o seu canto
a poesia está pela metade
nada mais para o momento
porque a lua já desce lá fora
porque a noite me chama
e preciso desse instante
em meio a lua e a escuridão
para rebuscar doces lembranças
e depois me entregar ao poema
com a inspiração que me vem
com a tua preciosa recordação

o poema precisa de abraços
necessita de beijos e carinhos
e não posso imaginar o amor
sem que os versos sejam teus
em teu nome e com tua face
por isso preciso sair agora
recolher da saudade tanta
o que me falta à feliz poesia.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 561


Rangel Alves da Costa*


“Enquanto você deitava...”.
“Meu sonho já terminava...”.
“Enquanto você sonhava...”.
“Eu já levantava...”.
“Enquanto você acordava...”.
“Eu já caminhava...”.
“Já havia aberto a janela...”.
“Dialogado com o alvorecer...”.
“Cumprimentado os passarinhos...”.
“Caminhado ao redor...”.
“Abraçado a natureza...”.
“Enquanto você levantava...”.
“Eu já trabalhava...”.
“Já havia ajeitado a cerca...”.
“Alimentado animal...”.
“Molhado o jardim sem flor...”.
“Recolhido folhas medicinais...”.
“Montado em animal...”.
“Experimentado o galope...”.
“Enquanto você vestia a roupa...”.
“Eu já havia suado...”.
“Já havia cansado...”.
“Feito e me refeito com água da fonte...”.
“Conhecido léguas...”.
“Visitado diversos caminhos...”.
“Movido e removido muita coisa...”.
“Enquanto você tomava café...”.
“Eu amargava a fome...”.
“Amargava a sede...”.
“Colhia fruta do mato...”.
“Beliscava araçá e araticum...”.
“Fingia de estar com força e vigor...”.
“Enquanto você abria a porta...”.
“Eu já retornava...”.
“Já deixava na sombra o animal...”.
“Já recolhia a sela...”.
“Já procurava um tamborete...”.
“Pra descansar um segundo...”.
“E prosseguir na luta...”.
“Enquanto você não sabia o que fazer...”.
“Eu nem sabia como dar conta de tudo...”.
“Como me virar em muitos...”.
“Para nada deixar para depois...”.
“Eu já seguia e fazia...”.
“Sabia que havia mais a fazer...”.
“Enquanto você sentava à sombra...”.
“Preguiçosamente olhando o horizonte...”.
“Eu gritava o seu nome...”.
“E perguntava se o trabalho do pai...”.
“Não seria espelho para o filho...”.


Poeta e cronista
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quarta-feira, 26 de março de 2014

A SOLIDÃO DA ÁRVORE SEM SOMBRA


Rangel Alves da Costa*


Dizem que certa feita um menino perguntou a um viajante por que ninguém era avistado descansando debaixo de uma velha árvore logo adiante, esta sempre solitária, com poucos galhos e quase sem folhas. E o homem respondeu que as pessoas a evitavam não pelo fato de ser tão desnuda e afastada das demais, mas pela sombra que não podia oferecer aos que sempre desejam abrigo e proteção.
Acrescentou que assim como as pessoas preferem admirar o belo ao desvalido, elegem no olhar o luxo ao empobrecido, do mesmo modo ocorre com a árvore de grande copa sombreada frente àquela toda nua no meio do tempo. O bicho do mato descansa e o homem chega a sonhar debaixo das folhagens tantas de uma jaqueira, mas ninguém avista qualquer vulto debaixo de uma catingueira magra e ossuda.
Mas a sombra e sua ausência remetem a considerações ainda maiores. Estar à sombra significa estar resguardado, protegido, afastado de situações desconfortáveis. Estar à sombra expressa fuga e busca de uma realidade melhor. Contudo, estar sem o manto sombreado não significa apenas a desproteção, a ter de suportar as intempéries. Mas principalmente reconhecer quanta importância se dá aquilo que abriga em determinado momento e quanta desvalorização é imposta ao que não pode oferecer a mesma proteção.
E desde então o menino guardou na memória a visão daquela árvore tão solitária e rejeitada pela carência de sombra se derramando ao redor, esquecida em meio às outras árvores, relegada à condição daquilo que igualmente existe, porém sem o devido reconhecimento de sua existência. Apenas um tronco no esquecimento e abandono dos tempos. E imaginava quanto injusto era uma árvore ser assim ignorada somente porque não tinha galhagens fartas, folhagens abundantes e verdadeiros leitos de acolhimento ao redor do seu tronco.
Mas aos poucos foi vendo a situação de forma diferente e compreendendo o verdadeiro significado da solidão da árvore sem sombra. E no seu entendimento, a árvore não era somente a planta, um tronco lenhoso, um pé de pau no meio da mataria ou do descampado, mas também algo como uma existência humana. Desse modo, a árvore era o próprio homem perante o olhar do outro que sempre deseja encontrar uma sombra boa e acolhedora, importante e protetora.
Nesse passo, se a árvore é o homem, a sua sombra seria uma espécie de reflexo de sua importância e também uma emanação do poder de ter diante de si, debaixo de seu véu sombreado, todos aqueles que tudo fazem para estar abrigados sob o manto protetor da opulência. E tal opulência, crescida na seiva da riqueza e da influência, é facilmente avistada nas galhagens grossas, folhas grandes e vistosas, nos frutos por todo lugar. E numa árvore assim, tão humana como o próprio homem, a sombra sempre será avistada e desejada.
E tão abundante que não falta quem esteja por ali procurando aconchego. Perante o que tem farto sombreado e o que está exposto ao sol e à chuva, dificilmente alguém procura se abrigar debaixo de braços nus. Parece instintiva a busca de fácil abrigo. Tornou-se natural ao homem correr para os braços daquele que imagina com sombra suficiente para fazê-lo protegido diante das ameaças e livrá-lo das situações inesperadas.
E assim acontece para cumprir as lições contidas em velhos ditados: Pau que não dá sombra não serve nem pra amarrar burro brabo; pau sem sombra é madeira de lenha; pau que não dá sombra morre esturricado e abandonado. Ora, ninguém valoriza a árvore desfolhada; ninguém senta debaixo da árvore raquítica, esquelética; ninguém ali se deita para olhar para cima. Diferente ocorre quando o sombreado se estende de lado a outro.
Eis o homem no lugar da grande árvore, daquele tronco imponente com poderes de chamar ao seu redor verdadeiras multidões, com a facilidade de ter a seu jugo pessoas nascidas para viver acostadas aos privilégios dos outros. O homem com sombra, pois com poder e riqueza; homem com sombreado, pois com imensa influência no meio onde está fincado. E tantos e mais tantos verdadeiramente sentem-se poderosos demais por fingir abrigar sob sua copa uma leva imensa de fracassados.
Até que esta árvore humana dá abrigo no primeiro instante, parece refrescar, acolher e dar proteção aos que chegam ao seu costado. Até que esta árvore pode influenciar diante de uma ou outra necessidade. Mas somente até o instante que perceber que o indivíduo confia demais no seu falso sombreado. Então o torna tão submisso ao falso manto que mesmo ao sol vai achar que continua protegido. E dessa submissão o uso para satisfação de interesses próprios, escusos, eleitoreiros.
Enquanto isso a outra árvore sem sombra continua solitária, esquecida e abandonada. Não tem o falso manto protetor da outra, por isso mesmo rejeitada. Igual ao ser humano tido como insignificante, vai aprendendo a se valorizar pelo que possui. E se um passarinho ali faz um ninho não será derrubado pelos que apaixonadamente disputam espaço à sua sombra.


Poeta e cronista
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Tatuagem (Poesia)


Tatuagem

Minha pele é pele
sua pele é flor
quero além da pele
quero além da flor
uma tatuagem
escrevendo amor

uma escrita eterna
muito além da pele
muito além da flor
letras desenhadas
com lápis de cor
uma tatuagem
palavras de amor

o seu nome e o meu
nos acompanhando
seja onde for
uma tatuagem
dois nomes de amor.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 560


Rangel Alves da Costa*


“Agora, o silêncio...”.
“E no silêncio a voz...”.
“Ainda silêncio...”.
“Mas também a voz...”.
“O pensamento fala...”.
“A mente grita...”.
“A ideia balbucia...”.
“Tudo tem voz...”.
“Voz da brisa...”.
“A voz do mar...”.
“A voz do farol...”.
“A voz do cais...”.
“A voz da gaivota...”.
“A voz da imensidão...”.
“E também os gritos...”.
“O terrível grito da saudade...”.
“O grito da lembrança...”.
“O grito do amor...”.
“O grito no espelho...”.
“O grito no poema...”.
“O grito na fotografia...”.
“O grito da boca...”.
“O grito do lábio...”.
“O grito do corpo...”.
“E depois o silêncio...”.
“Ou talvez...”.
“Talvez o silêncio...”.
“A lágrima cai silenciosa...”.
“O silêncio da lua...”.
“O silêncio da noite...”.
“O silêncio da solidão...”.
“Apenas o vinho se derramando...”.
“A fumaça do cigarro...”.
“A chama da vela...”.
“E então ressurge o pensamento...”.
“Com suas vozes...”.
“Os seus gritos...”.
“E então...”.
“Não suportando mais...”.
“Abro totalmente a janela...”.
“E grito...”.
“E ecoo de verdade...”.
“Onde você está?”.
“Onde você está?”.
“Onde você está?”.
“Onde você está?”.
“Onde você está?”.
“Onde você está?”.
“Onde você está?”.


Poeta e cronista
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terça-feira, 25 de março de 2014

NEM TODO HOMEM É BICHO. NEM TODA MULHER É VÍTIMA


Rangel Alves da Costa*


Que se tenha, de antemão, que o presente texto não objetiva justificar a violência do homem com relação à mulher, negar os primados jurídicos e penais da Lei Maria da Penha nem afirmar que a mulher deveria sofrer as mesmas reprimendas quando age com agressividade perante o seu companheiro.
Do mesmo modo, não é esboço de viés machista, defendendo a primazia da ação do homem perante a mulher, também não se presta a redefinir conceitos de relacionamentos amorosos ou conjugais nem de patamares de violências e agressividades. Ainda que necessariamente aborde tais aspectos, o objetivo maior é apontar a realidade que está por trás da lei e o que ela passou a permitir em seu nome.
Diante de tais pressupostos, o que se pretende é principalmente mostrar que a lei, na sua desenfreada visualização do homem como agressor e marginal e cega proteção à mulher, ou vitimização desta e penalização daquele, acaba agindo apenas na parte mais visível e sensacionalista de cada caso. E onde a mulher é sempre tida como vítima, deixando de lado um problema ainda mais grave: as circunstâncias que levam a situações de agressividade.
Mas tais circunstâncias sob a ótica da realidade, e não de meros testemunhos da suposta vítima, como constatado na maioria das ocorrências prestadas nas delegacias especializadas de proteção à mulher. A prevalência da realidade, do fato em si, certamente transmudaria em muito as situações rotineiramente noticiadas, onde basta que a mulher informe - maldosamente ou não - que foi agredida, e o homem já se torna “enquadrado”.
Tudo por culpa da lei, que no afã de respostas imediatas, praticamente expurgou do seu procedimento os princípios da verdade real, do contraditório e da ampla defesa. Além de ser inconstitucional, pois promulgada em desobediência ao primado constitucional da igualdade entre o homem e a mulher, a lei, antes de proteger a mulher vítima de agressão, estabelece a palavra de uma só parte como suporte suficiente para a culpabilização. E nem de joelhos a verdade do homem se sobreporá ao que seja noticiado pela mulher.
Diante da lei e da palavra da mulher, o homem praticamente não possui defesa, não tem mais saída. Ao menos perante a autoridade policial, que vai mandar prendê-lo imediatamente, ouvi-lo para instaurar um inquérito ou, e também, requerer judicialmente uma medida protetiva de urgência, no sentido de afastar de vez o suposto agressor da presença da vítima. Em juízo a situação piora ainda, pois a palavra da mulher é sempre tida como prova incontestável.
Contudo, surge um problema, ou diversos problemas. E se a mulher, então suposta vítima, não tiver sofrido agressão alguma e só prestou queixa para prejudicar ou se vingar do seu companheiro, namorado ou esposo? E se foi a própria mulher que provocou a situação, que tudo fez para que o homem agisse com violência? E por que numa discussão de casal que acaba chegando a vias de fato, somente a mulher é vítima? Qual o parâmetro para se saber se a mulher foi agredida porque agiu premeditadamente ou se realmente foi submetida às atrocidades do outro?
Como observado, são muitas questões a serem respondidas, mas as respostas que se tem nem de longe correspondem ao problema maior: diante das diversas circunstâncias, a Lei Maria da Penha é sempre justa? Para ser justa teria de ser mais isenta, mais investigativa e menos penalizadora. Ora, situações existem onde a mulher age premeditadamente para prejudicar o homem, para colocá-lo em armadilha, tudo fazendo para que este a ameace ou pratique alguma agressão.
Por maiores que sejam as críticas que possam recair, mas será preciso dizer que não são raras as situações onde o homem, diante da lei possuída pela mulher como arma, se torna escravizado, subjugado, submetido, achincalhado. Acreditem: a mulher bate na cara do marido; chama-o de viado safado, de corno conformado, de ladrão e o escambou, e ainda por cima diz que se ele for macho ao menos toque nela. E muitas vezes o homem suporta tudo calado, amedrontado, pois sabedor do que ela é capaz de fazer.
E ela faz. Sai correndo e chega à delegacia chorando, dizendo que foi agredida. Como a palavra dela tem quase força de sentença, então ele se vê sem saída. Em casos assim, mais costumeiros do que se imagina, a lei simplesmente penaliza sem dó nem piedade. Contudo, como pisado todo verme se revirava, o pior pode acontecer depois, vez que o injustamente condenado cobrará com moeda de sangue o mal que lhe foi feito pela falsa vítima  e pela justiça.
Mas não significa, logicamente, que a mulher sempre provoque a injusta agressão. Os dados acerca do crescimento da violência do homem contra a mulher não podem ser negados. Como parte mais frágil, ela precisa ser protegida mesmo, e de forma diferenciada. Entretanto, a polícia deveria investigar melhor cada situação para não incorrer no risco de que toda palavra de uma mulher ciumenta ou maldosa seja uma sentença condenatória.
Em muitos casos, o polo dos agressores deve ser invertido, eis que nem todo homem é bicho e nem toda mulher é vítima. Basta fugir do discurso fácil de vitimização e ter coragem para constatar.


Poeta e cronista
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Água na boca (Poesia)


Água na boca


Um tempo de frutas
e de doces amores
de mangas olorosas
e beijos lambidos

um tempo de pomares
e de tantos encontros
de frutas da estação
e sabores no coração

um tempo de ontem
e de tanta saudade
um pomar que sumiu
um amor que partiu

ali manga e goiaba
aqui fome e desejo
mas nada como o pomar
e aquele sabor de amar.


Rangel Alves da Costa