SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

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sábado, 22 de março de 2014

A EX-PROSTITUTA


Rangel Alves da Costa*


Depois do que ela me revelou, juro que fiquei sem saber o real significado e a dimensão do termo “ex”. Ora, sempre considerei que ex é tudo aquilo que já foi, que já assumiu algo e que não está mais na mesma função, ou ainda um termo para designar um título que não se ostenta mais.
Os livros ensinam no mesmo sentido. Assim, ex indica fora de; relaciona-se ao que deixou de ser alguma coisa. Quando unido por hífen a um substantivo, indica que o nome referido deixou de ser aquilo que era ou de exercer o cargo ou função que tinha.
Pelo relatado, logicamente que o “ex’ ao qual ela se referia devia ser escrito com hífen, pois ex-prostituta. O problema todo é que continuava como prostituta, sobrevivendo dos ofícios da prostituição, mas se julgava, na atual conjuntura, como ex-prostituta que se tornara acompanhante.
Dá pra entender? Mas por que assim, se a mocinha não poderia ter deixado de ser prostituta quando continua se prostituindo? Então ela também cuidou de dar precisas explicações. Disse que continuava se prostituindo, mas não exercendo o mesmo ofício de antes, pois agora de forma diferente e devendo ser reconhecida por outra e moderna denominação.
Complicou tudo, pensei. Era prostituta de um jeito e agora é a mesma coisa, só que de outro jeito. Sim, respondeu ela. Hoje sou ex-prostituta porque deixei de levar a vida daquela maneira, vendendo favores sexuais em cabarés ou portas de falsas pousadas. E hoje sou a ex que se tornou apenas prostituta de atendimento vip a clientes.
E continuo dizendo que nem prostituta, no termo mais vulgar da palavra, era mais. Agora seria mais respeitoso, acaso fosse necessário reconhecê-la desse modo, chamá-la apenas de garota de programa. E talvez fosse até pejorativo demais para uma função sexual que demasiadamente se alastrou e virou status de normalidade na vida de inúmeras garotas.
E confessou que gostava mais ser conhecida apenas como acompanhante. Na verdade, até que caberia reconhecê-la apenas como uma mocinha de vida normal, com o mesmo corpo e as mesmas características de uma virgem que ainda não descobriu e se entregou aos prazeres da carne, à volúpia do sexo. Ora, ainda era novinha, bonita, sexualmente apetitosa.
Prosseguiu dizendo que há imensa diferença entre ser prostituta, ex-prostituta e garota de programa ou acompanhante. A primeira coisa que se sobressai negativamente é a pecha de puta de cabaré, de mulher quengueira que abre as pernas pra qualquer um que lhe queira pagar uns tostões. E viveu isso na pele e por entre as coxas, pois começou na vida ainda adolescente.
Por mais que a prostituta procure exercer seu ofício do prazer ofertado apenas nos prostíbulos, continuará sendo a mesma quenga em qualquer lugar que seja avistada, perante a família, a vizinhança, entre conhecidos e desconhecidos. E sempre vista como aquela pessoa imprestável, vagabunda, que outra coisa não faz senão mendigar pelo sexo de qualquer macho.
Com a ex-prostituta a situação já muda de figura, afirmou. Logo se torna sinônima de força de vontade, de regeneração, ainda que dificilmente uma quenga vá deixar de vez a prostituição e fechar o balaio contra as tentações sexuais. Mas certo é que se torna mais valorizada e pode cobrar bem mais pelo sexo fora das camas podres dos prostíbulos imundos.
Ainda que continue quengando por debaixo dos panos, a sociedade passa a vê-la com outros olhos, a respeitá-la e acolhê-la, e assim pode continuar com seu metiê sem o conhecimento de todos. Nesse passo, já praticamente iguala-se às prostitutas não assumidas, e que são cada vez mais numerosas.
Contudo, o mais surpreendente foi a revelação que agora nem como ex-prostituta se comporta mais. Agora era apenas garota de programa, ou acompanhante, na moderna gíria da prostituição escondida, disfarçada, levada a efeito sem que o círculo familiar perceba a extensão da quenguice. E ela apontou diversos motivos e proveitos para se manter assim, uma prostituta com ares de simples mocinha, uma quenga com feições de estudante recatada e pessoa séria demais.
Mas disse principalmente que o mais difícil agora era a concorrência. E concluiu afirmando ter a máxima certeza que há mais mocinhas sonsas fazendo programas que putas fazendo ponto nos cabarés. Assim revelou-me C. H. T., 20 anos, prostituta, ex-prostituta, e agora acompanhante. Ou uma mocinha igual a tantas que andam por aí, como afirmou antes de atender um telefonema.
Depois retocou a maquiagem, se perfumou, e saiu apressada.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Um comentário:

Julia López disse...

Si los hombres no pagaran por el amor, no existirían las prostitutas.
Pues aunque luego una mujer sea ex prostituta, ese estigma lo llevará siempre con ella y no es justo que aquellos que pagaron por ella luego la desprecien.
Saludos cordiales