SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 30 de junho de 2017

AO MEU AMOR


*Rangel Alves da Costa


Ao meu amor... Assim começar um poema, assim iniciar uma cartinha, assim introduzir palavras que traduzam todo o amor sentido. Mesmo sabendo que as palavras sequer se aproximam do que é mostrado pelo olhar, pelo sentimento e pelo coração.
Mas escrevo assim mesmo. E para mais uma vez dizer:
Minha bela, minha namorada. E de repente um livro aberto foi revelando o que jamais pensei ser escrito. E nas suas linhas o que nos foi determinado na estrada de mãos dadas e no passo a dois: sigam!
Imaginei ser tão distante e tão difícil de encontrar o horizonte chamado amor. Mas basta a presença, basta o olhar, basta o sorriso, basta o desejo, basta a certeza de que ela está aqui: minha bela, minha namorada.
Mesmo na distância, é na saudade que o amor tem asas. Mesmo na tristeza, é na certeza do breve encontro que tudo se se transforma em esperança. E é nas asas da saudade e da esperança que sempre estou diante de minha bela, de minha namorada.
Em você pensar e em todo pensar avistar o que os meus olhos já não conheciam. As belezas simples, as flores ocultas, os aromas da brisa, as canções do vento, as poesias das borboletas e dos colibris: a minha bela, a minha namorada.
Já não sou eu senão dividido, já não caminho só senão a dois, já não tenho nada senão compartilhado, já não tenho o egoísmo de me possuir senão a humildade de me dividir e minha outra parte a ela doar: à minha bela, à minha namorada.
À minha bela, à minha namorada, presenteei com concha de mar e dentro dela um segredo de vento dizendo assim: se as águas chegam para apagar os passos na areia, então é preciso aprender a voar sobre a areia. Eis o mistério de amar: aprender a voar.
Ó minha bela, ó minha namorada, que sempre olhemos os lírios do campo. A grandeza está na simplicidade e não no brilho, a riqueza está na humildade e não no deleite, a essência está apenas no que é. E precisamos ser além de nós para sermos mais?
Em teu colo repouso, minha namorada. Sobre tuas mãos me acolho, minha bela namorada. E em momentos assim, de simples ternura e meiguice, novamente em menino me torno e para sonhar beijando uma boca. E encontro a sua.
Minha bela, minha namorada. Como é bom novamente encontrá-la e tê-la só minha. Como é bom encontrá-la para nos meus braços deitar o seu corpo e sentir suas pétalas debruçadas sobre um jardim. E ser abelha na sua colmeia. Tanto mel, todo mel, tudo meu e seu.
Agora, diante de mim, como se sobre minha mente, meu olhar e meu coração, soprasse a mais doce inspiração: a minha bela, a minha namorada. Ela chegou e entrou pela porta. Caminhou sobre mim e sentou no meu colo, viajou sobre mim e bebeu na minha fonte, deitou sobre mim e saciou sua fome.
Entre nuvens e panos, ela também adormece e sonha. Mas ela levantou do seu sono, acordou do seu sonho, e ao abrir os olhos e ao sorrir nos lábios, então me senti refletido pelo mesmo sol e pela mesma lua, tudo nela: a minha bela, a minha namorada.
Já não sei a extensão do beijo, ou o adocicado do  mais doce sabor que possa existir, pois bastando o toque no favo de mel para sentir o paraíso da boca e do seu céu, no céu estrelado dela: a minha bela, a minha namorada.
E nos seus lábios leio poesia e carta de amor, bilhete e recado apaixonado, um livro aberto onde cada palavra é tão verdadeira como tudo nela: na minha bela, minha namorada.
E ainda junto aos seus lábios, como poeta ávido de qualquer soneto, quase em silêncio canto: não quero além do viver ter o prazer de estar ao lado dela, pela estrada, com ela, minha bela, minha namorada.
Por que o passo é curto demais nessa vida. Por que a estrada não se distancia demais nessa vida. Por que tudo simplesmente um dia termina no próprio ser humano, é que temos de seguir adiante na semeadura do que a nós mesmos prometemos: amor.
Amor, amar. E no amor a eternidade daquilo que a vida nos chamar a viver sem medo: a felicidade.


Escritor
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Lá no meu sertão...


A História está atrás. À frente apenas um apaixonado...




O maior amor do mundo (Poesia)


O maior amor do mundo


Sempre busquei na grandeza do coração
dar ao amor a sua exata e real dimensão
multiplicando e somando com exatidão
para que o futuro seja além de mera paixão

adicionei mil beijos sobre outros beijos
somei milhões de abraços a tantos abraços
multipliquei-me em quereres e mais desejos
de tudo o que restava preso desfiz os laços

mas contento-me em ter pouco ao teu lado
como a eternidade necessita ter cada segundo
pois toda colheita só vem do que é semeado
para contigo colher o maior amor do mundo.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – a chuvarada de São Pedro


*Rangel Alves da Costa


Dizem que São Pedro é o responsável pelas torneiras do céu, é o guardião das nuvens prenhes e dos pingos chuvosos. Por isso mesmo que o povo sertanejo faz tanta promessa em seu nome. Em tempo de seca grande, rezas, orações, procissões e promessas, tudo invocando o nome de Pedro. E o santo fez realmente jus ao seu nome no dia que lhe é dedicado, pois neste dia 29 de junho choveu o dia inteiro sertões adentro, e desde a madrugada. Verdade que o sertão está chuvoso, com os campos verdejantes por todo lugar e os tanques e açudes tomados de água, mas para quem já está com terra plantada foi uma benção a chuvarada incessante desse dia. E mais ainda por que foi muita chuva, sem parar, mas do jeito que o sertanejo sempre deseja que caia após uma chuva mais forte: uma chuva mais amena e contínua, de modo que a terra beba da água sem se encharcar. E foi assim o dia inteiro, entrando na noite e na madrugada, já mais chuvisquenta, apenas. Uma benção ao homem do campo, uma dádiva sagrada à semente já lançada na terra, um verdadeiro milagre ao sertanejo que passou perto de cinco anos sem ter esperança de boa colheita. E agora vai ter com fartura, com fé em Deus e São Pedro, assim diz o velho caboclo enquanto levanta as mãos para os céus em agradecimento.


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quinta-feira, 29 de junho de 2017

NAS PÁGINAS EM BRANCO DA SOLIDÃO


*Rangel Alves da Costa


As palavras são difíceis de serem encontradas. Na mente, cada palavra surge como nuvem ligeira que se transforma a cada instante, até mesmo como uma água de rio que vai passando para não mais retornar.
Será esta a sina do escritor, a de buscar a permanência da palavra? Será seu ofício moldar a pedra como uma Stonehenge de diluída eternidade? Será seu trabalho ser artesão de algo que jamais alcançará a permanência desejada?
Não sei responder. Mas eis-me aqui perante essa janela de solidão diante do caderno aberto, de lápis à mão e com a mente em busca de palavras. Porém tudo nuvem, tudo folha de outono, tudo água de rio. Tudo chega. Tudo passa. Tudo vai embora.
Sinto-me como um pintor naturalista ante uma paisagem cinzenta e árida, porém desejoso de lançar sobre a tela algumas flores de jardim primaveril. Mas nada vejo adiante que precise ser transformado. Hoje não quero flores na minha escrita nem jardins cinzentos. Hoje eu queria apenas escrever. E sobre qualquer coisa.
Mas é difícil demais escrever. Dizem que Hemingway navegava quilômetros até encontrar um peixe que pudesse ser bem descrito nos seus livros. Já Antoine de Saint-Exupéry fez de sua experiência de piloto o encontro daqueles espaços que tão bem descreveu nas viagens de seu Pequeno Príncipe.
Neste momento estou como uma pintura de solidão. Uma pessoa em sua cadeira, olhando adiante para uma imensa janela que dá para um descampado. Avista-se a pessoa, conhece-se do ambiente solitário e das paisagens ao redor, mas ninguém pode imaginar o que poderia estar se passando na mente daquela pessoa retratada.
Ou talvez eu esteja agora como a escultura O Pensador, de Rodin, no seu semblante de bronze, na sua cabeça baixa e pensativa, no seu olhar escondido, no seu gesto tão deprimido. O que estará pensando o pensador? Talvez tudo. E tudo por que as ideias não surgem descompartilhadas de outras imagens mentais.
Mas realmente não sei como estou agora. Só sei que ainda estou em busca de um motivo para escrever e não consigo encontrar. Minha palavra está presa, está enjaulada, talvez exaurida de tanto dizer noutros idos. E agora como num silêncio amedrontado, apreensivo, submisso ao que eu reinvente como escrita.
Mas não há mais o que reinventar, recriar, procriar noutra feição e face. Tudo já foi dito. Tudo já foi escrito. Não quero mais escrever algo que comece num amanhecer de paz, percorra o dia entre labirintos e medos, para somente ao anoitecer a felicidade seja reencontrada. Não quero mais tramas assim nem enredos assim.
Minha tendência agora é escreve sem palavras. Escrever um livro com mais de duzentas páginas, porém sem escrever uma só palavra. Sei que as traças me pedem para escrever mais e mais, sei que as gavetas empoeiradas me pedem para escrever mais e mais. Mas cansei de escrever apenas para a poeira e o pó.
Agora vou escrever apenas livros que não possuam palavras, nem uma letra sequer. Livros calados, quietos, silenciosos. Livros nus, despidos, sem medo de ventania. Livros sem desenhos ou figuras, sem imagens ou prefácios, sem começo nem fim. Um livro em branco. E na brancura nua em que estou agora.
E quando alguém perguntar sobre o que tratarei no meu próximo livro, então simplesmente direi: Sobre o nada. Um livro de páginas em branco do começo ao fim. E tudo como se ali estivesse ausente, levado pelo vento, sumido da existência. E contando a história de cada um sem nada dizer sobre a vida a vida de cada um.
Talvez seja o livro de tudo nascido do nada. E por isso mesmo cada leitor poderá entrar nas suas páginas e imprimir ali suas próprias histórias, suas próprias existências.


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Lá no meu sertão...


Alto de João Paulo, povoação sertaneja em Poço Redondo/SE





Vestida nua (Poesia)


Vestida nua


Vestida
a todo olhar
e nua
ao meu olhar

um vestido
e o seios nus
uma roupa
e o corpo nu

não vejo
o jardim
ou a roseira
apenas a flor.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – filosofia de calçada


*Rangel Alves da Costa


Sempre fui do entendimento que o conhecimento popular possui igual valor aos demais tipos de conhecimentos, principalmente o científico. Não se esquecendo do fato que a Ciência, mesmo com seus títulos e honrarias, pode ser refutada e jogada ao esgoto em qualquer instante, desde que um novo conhecimento surja que lhe tire a validade de primado irrefutável. E o mesmo não ocorre com o conhecimento autenticamente popular, aquele passado de geração a geração, enraizado desde os primeiros tempos e repassado ao longo do tempo. Daí que eu prezo muito mais um bom proseado entre matutos, entre homens do campo, entre sertanejos catingueiros, a qualquer conclave, reunião, discussão acadêmica, debate aflorado nos honoris causa. Ora, Existe uma filosofia insuportável, pedante, incompreensível, que tudo diz e nada diz, chegando a conclusão nenhuma, e aquela que chega aos ouvidos como verdadeiro livro aberto. Vamos aos exemplos. A ciência meteorológica diz que vai chover tal dia e tal hora em determinado lugar. E se não chove, logo vem a desculpa que uma frente fria ou uma precipitação qualquer desviou a nuvem noutra direção. Mas com o homem do mato é diferente. Quando ele olha para a barra do horizonte logo vem a sentença de chuva ou não. E não há quem prove o contrário. E então vai a medicina cobrando milhões para o mesmo serviço que as mãos de uma boa e velha parteira faz por amor ao ofício. E vem a psicologia dizendo que a vida é assim ou assada, enquanto o pai de família responsável chama seu filho num canto e lhe dá toda a psicologia da vida. Enquanto o médico passa uma receita com tarja preta, caríssima e dificílima de ser despachada, a senhorinha vai lá ao quintal e traz na mão a farmácia pronta e a cura perfeita. Ou o velho alquebrado chega ao pé do balcão e pede o remédio da hora. E acabou-se o reumatismo.


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quarta-feira, 28 de junho de 2017

DE UM LIVRO ABERTO


*Rangel Alves da Costa


É sempre um erro imaginar que os retalhos da estrada não servem para mais tarde se ter a grande colcha protetora das noites daqueles simbólicos frios que acometem inesperadamente. Igualmente erro imaginar que as lições passadas não formarão um grande livro onde a experiência e os ensinamentos estarão assentados como lições para os percursos restantes.
Não há outro livro que ensine mais que a vida. Não há aprendizagem maior que a capacidade de reconhecer-se nos erros e acertos e procurar mudar ou melhorar. E aprender significa não só compreender como praticar a humildade, a simplicidade, a generosidade, o amor ao próximo.
E na vida, o tempo, o percurso, a aprendizagem também em cada passo. Quanto mais se alonga a caminhada mais o ser humano vai aprendendo a conhecer aquilo que por muito tempo tratou com menosprezo ou futilidade. E igualmente a valorizar pequenas coisas que jamais imaginou tão significativas na existência.
Confesso que quando jovem eu quis ser além de minhas possibilidades. Mas tudo era possível. Parafraseando Fernando Pessoa, porque eu era do tamanho do que desejava avistar e não do tamanho da minha altura... E assim porque sempre fui sonhador e achava que poderia transformar todos os planos em realidade.
Sorte minha que não sonhei demais. Minha vida no sertão me fez pisar no seu chão e sentir no calor de sua terra a importância de primeiro ser o lugar e somente depois o mundo. E foi a vivência do lugar, em meio ao meu povo, que muito modificou meu olhar sobre o mundo.
Relembrando Drummond, fui menino rico. Tive ouro, tive prata, tive diamante. Ter o que eu tive num sertão empobrecido é possuir uma riqueza descomunal. Nunca me faltou brinquedo, comida, roupa, sapato, brilhantina, perfume, tudo tive ao meu alcance. E poucos dos meus amigos tinham sequer a metade do que eu possuía.
Mas caminhei sem querer levar comigo todo o ouro e toda a prata. Segui na estrada sem estar acompanhado da roupa nova, do brinquedo, do presente. Eu sabia que dali em diante tudo teria que ser conseguido pelo esforço, por conta própria. Ou o suor e a sabedoria me dariam a sobrevivência ou nenhuma valia teria o que aprendi no passado.
Tais lições se impuseram em mim como norte e destino. O mundo passa a ser visto de outra forma quando se conhece os seus horizontes e se tem a certeza de que além das montanhas e montes muito desconhecido ainda existirá. Mas nada como ter consciência que a sabedoria serve apenas como passo e não como certeza de chegada.
Pessoas existem que vivem somente o momento. Outros existem que vão moldando seus destinos segundo as oportunidades surgidas. Talvez isso provoque algum bom resultado, mas nada como a noção de se conhecer aonde se quer chegar. É válido arriscar, ter encorajamento para transformar realidades, mas nada como saber que pisa em solo firme e a caminhada é por uma estrada não totalmente desconhecida.
Daí que trago das raízes primeiras a força e as lições da caminhada. Aprendi o comedimento como impulso de ação. Sei que não preciso nem posso ir além do que posso nem ultrapassar fronteiras totalmente desconhecidas. Se adiante há um horizonte e uma vastidão, sempre preciso muito cuidado em avançar pelo hostil e desconhecido.
Talvez tudo isso servisse como livro aberto perante os olhos de todos. Porém, sempre difícil de assim acontecer. Ainda negam as boas lições, deixam de dar ouvidos às sabedorias, fogem dos caminhos seguros ensinados, sempre procuram arriscar na escuridão. Por isso mesmo que de repente o penhasco se mostra em abismo e o passo já não sabe nem pode retornar.
Palavras vãs, diriam. Ora, o vento é professor, a ventania ensina muito, até a brisa sopra sabedoria. Será preciso deixar que os silêncios falem, que tenham voz, que sejam ouvidos. É no silêncio da consciência que está o grande mistério da vida: sou o que quero ser ou sou apenas o que o mundo me deixa ser?


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Lá no meu sertão...


A terra sertaneja sendo arada para a plantação




A lua na noite de ontem (Poesia)


A lua na noite de ontem


Demo-nos as mãos e caminhamos apressadamente
em busca de um refúgio que nos afastasse do medo
e já cansados da estrada cheia de espinhos e curvas
paramos para repousar debaixo de uma grande árvore

mas a noite avançou muito mais apressada que nós
e de repente nossos corpos já estavam tingidos de lua
tão brilhosos debaixo daquele céu de matiz estrelada
que mais parecíamos anéis dourados em noturna paz

então nos abraçamos mais e sem pressa de prosseguir
e nos beijamos mais sem ter vontade de jamais partir
e foi então que a escuridão se fez de véu por todo lugar
por que a lua imensa chamejava somente dentro de nós.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - compro ouro


*Rangel Alves da Costa


Passo pelo centro da capital sergipana e avisto pessoas envelhecidas servindo de anúncios ambulantes: compro ouro. Eis os dizeres nas placas que carregam à frente e atrás dos corpos. São idosos alquebrados, entristecidos, de olhares e feições tão vazios quanto os seus bolsos. E ali como anúncio ambulante, em situação de verdadeira humilhação, em troca de um tostão qualquer. Nada mais que isso. Dizem apenas que compram ouro, anunciam apenas que compram ouro, mas qual riqueza eles possuem, qual o quilate dourado que possuem? Nenhum. Aqueles dizeres deitados pelos ombros e encobrindo os corpos são como as antíteses da vida e da existência. É a pobreza comprando ouro, é a desvalia comprando ouro, é a miséria comprando ouro. Depois que retiram de si aqueles anúncios são apenas uns velhos, uns empobrecidos, uns sofredores que se submetem a tais humilhações para acrescer um ovo ao pão, um açúcar ao café, um pedaço de carne ao feijão. Se tiver. Mas compram ouro. Mas a realidade brasileira os torna compradores de ouro. E tudo saído da ferrugem da alma e da maresia da existência. Lamentável que assim aconteça. Mas assim acontece.


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terça-feira, 27 de junho de 2017

NOITE DE TANTAS BOCAS


*Rangel Alves da Costa


O dia vai fechando os olhos e abrindo a boca. O pôr do sol vai deixando sonolenta a claridade. Quando o candeeiro do sol se apaga e a lua vai mansamente surgindo, então a boca da noite se abre. E se abre para beber da fresca da hora, para saborear o cheiro do cuscuz ralado, para gozar do prazer de um tiquinho de café torrado em pilão.
Assim essa boca noturna lentamente se abrindo. Mas começarei a falar dessa boca noturna através de outras bocas. Eis que a boca é a porta de tudo, é por onde se segue adiante, é onde começa outra vida ou realidade. Na boca do ventre, na boca da mata, na boca do rio, na boca da morte. E tantas bocas entreabertas esperando o momento chegar.
A boca está no poema: “Calei a boca e tomei o corpo, e como não houve mais qualquer resposta, me apossei de tudo. Do grito, do céu da boca, da boca cheia de minha boca vazia de tanto voar em beijos...”. E também no epitáfio: “Oh, lábios que agora emudecem a tristeza de não ter dito adeus!”.
No meio da noite a criança abre a boca chorosa e ecoa toda sua vontade de aporrinhar o silêncio. Ela, apaixonada, mirando o luar imenso que surge, começa soluçando para em seguida querer gritar. E mais adiante, e por todo lugar, as bocas trêmulas conversam com suas saudades, os tempos idos, as boas e dolorosas recordações.
E mais tarde, quando a solidão chega agonizante, a noite se transforma num labirinto cheio de bocas enormes, desdentadas, horripilantes, querendo sugar a quem sofre por merecer. Mas eis que chega um lábio, que chega um carinho suave fechando a boca medonha da noite e selando num beijo a felicidade do reencontro. 
Dizem que o peixe morre pela boca; o guloso também. A boca bebe a água da vidraça molhada e poeticamente deixa estampado o lábio sedento. E as tantas bocas esquecidas quando as palavras raivosas ou apressadas saem pelos ouvidos e as narinas. Cale a boca já morreu, quem manda na sua boca sou eu. Por isso vou navegá-la. Mas se a boca der a permissão, a licença. 
Mas de todas as bocas, não nego, sempre preferi a boca da noite. Desde o amanhecer ao entardecer que vou me preparando para a chegada do momento mágico, misterioso, cativante, delicioso e também assustador. Porque a boca tem face, e também a outra; é verso e reverso. E nela há uma cortina, um palhaço e uma lágrima.
Tão bela e necessária é a boca da noite que a sua chegada exige um rito todo especial. Como ritual de passagem, não é qualquer um que poderá recebê-la sem que a alma e o espírito, e tudo o mais que envolva o ser, estejam devidamente preparados. A noite doa, agracia, mas exige muito de quem irá recebê-la. Sob pena de sumir na sua boca.
Quando a tarde toma em sua mão o pincel de cores avermelhadas, e logo mais, parecendo angustiada, vai sombreando toda a tela, toda a paisagem, então logo pressinto que a noite chegará. E o horizonte vai se abrindo para o negrume descer, tudo vai sombreando ainda mais, e toco no lábio do tempo para sentir a boca. A boca da noite.
Como ainda é apenas boca quase fechada, apenas entreaberta, sem que a noite tenha chegado completamente, então passo a imaginar o que quero encontrar mais tarde. Contudo, há uma imensidão de tempo entre o sombreado da noite e o seu abraço inteiro. E o que acontecerá mais tarde certamente estará na dependência do que o corpo, a mente e o espírito sintam antes de tudo acontecer. Na boca da noite.
Por isso que a boca da noite é bela e feia, é alegre e triste, é amiga e hostil. Vem trazendo uma saudade boa, uma recordação cativante, uma vontade danada de estar ao lado de alguém importante ao coração, um desejo profundo de um diálogo amoroso, um abraço apertado, um deitar no colo da pessoa amada. Mas também o medo terrível da solidão, da certeza que novamente sofrerá olhando a lua, mirando as estrelas, viajando sem sair do lugar.
Boca da noite que vai chamando outras bocas a se abrirem para a prece, para a oração, para o diálogo sagrado perante o oratório no canto da casa. Diante da vela acesa, a boca se move em gritos silenciosos, em sussurros de fé, em palavras santas pela busca de salvação. E tudo parece ser ouvido por Deus.
Boca de uma noite faminta, de lábio vermelho, de lábio carnudo, de lábio sem cor, de lábio apenas lábio. E sonha em se abrir para receber um beijo, se sentir molhada, amada, apaixonada. Ou talvez para a palavra, para dizer que espera da noite o que o ser consciente espera da existência: ter o que merecer.
E por isso mesmo espera a felicidade. Ainda que a boca trêmula e o coração apertado pressintam que ainda não será naquela noite. Nem com outra boca.


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Lá no meu sertão...


A mais bela e prazerosa avenida de Poço Redondo, no sertão sergipano, tem esse nome...




Tanto amo (Poesia)


Tanto amo

Amo
da manhã
ao anoitecer

sob a lua
e sob o sol
tanto amo

pois o amor
é café gostoso
é pão quentinho

pois o amor
é pôr do sol
e céu estrelado

então amo
amor amante
a cada instante.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - palavras que só podem ser ditas em silêncio


*Rangel Alves da Costa


Palavras existem que somente podem ser ditas ou no silêncio do pensamento ou através da escrita. Não há como expressar determinados sentimentos por meio da voz. Os ódios saem retorcidos, as angústias saem mal-entendidas, as solidões saem com ruídos, as alegrias não expressam sua plenitude. Por isso que a pessoa de vez em quando conversa sozinha, como forma intuitiva de apenas jogar pelo ar o que na boca se prende, mas ainda assim sem alcançar os objetivos da coesão compreensiva. As palavras ditas sozinhas também saem tortas, libertas demais, atabalhoadas, turvas e curvas, retalhadas, sem objetivo de compreensão. Mas quero dizer uma coisa. Não raro a pessoa assassina outra em pensamento. Não raro a pessoa aprisiona outra em pensamento. Não raro a pessoa tira a roupa da outra em pensamento. Não raro a pessoa ama, beija na boca, acaricia, leva pra cama, tira a roupa e faz sexo, mas apenas no pensamento. Também a situação em que a pessoa chama a outra de filha da puta, de safada, de imprestável, mas apenas através da ideia. Ou talvez querendo dizer que a ama tanto, que a deseja tanto, que não vive sem ela. Tudo isso poderia ser dito de viva voz, mas a pessoa assim não faz por que palavras e acontecimento existem que só têm validade na ideia, na memória, no pensamento.


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segunda-feira, 26 de junho de 2017

O AMOR PELO JORNAL IMPRESSO


*Rangel Alves da Costa


Noutros tempos, se dizia que determinados jornais escorriam sangue acaso suas páginas fossem amassadas, assim pelos conteúdos de violência estampados nas manchetes e detalhados nos setores policiais. Também noutros idos, muito se dizia que a verdade dos fatos jornalísticos somente era conhecida se na mesma manhã fossem lidos dois jornais: o da situação e o da oposição. Mas mesmo com a violência escorregando entre as mãos ou o enraivecimento perante os acontecidos da política, mantinha-se fervorosamente a paixão pelo jornal impresso, aquele mesmo comprado nas bancas a cada alvorecer ou recebido além do portão residencial.
Hoje a paixão continua a mesma, o profundo amor continua o mesmo. Ao lado do rádio - do velho radinho de pilha colocado rente ao ouvido -, o jornal impresso permanece se constituindo em verdadeiro amigo inseparável, ainda que os olhos já não mais se espantem com as manchetes estampadas dias após dia: “A maioria dos congressistas responde a processos no STF”, “A Operação Lava Jato chegou às altas cúpulas partidárias”, “Corrupção, improbidade, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica: o cotidiano lamacento do poder”, “O Brasil já é considerado o país mais corrupto do mundo”. Manchetes rotineiras que em outros tempos causariam alvoroço, mas hoje apenas parecendo mais um capítulo de novela. Os capítulos seguintes estarão estampados nas vergonhosas manchetes.
O apego ao jornal é mais antigo do que se imagina. Não só na novidade surgida pelos idos de 1808, quando os primeiros jornais começaram a serem impressos no Brasil, mas pelas letras graúdas informando sobre um mundo novo até então desconhecido por muitos. E mesmo mais recentemente, manchetes como estas estampadas perante olhos atônitos: “Amplia aliança entre as potências do Eixo e o Japão” (Jornal do Brasil, 1940), “Jango asilado no Paraguai” (O Dia, 1964), “Goulart decreta a desapropriação de terras, encampa refinarias e pede nova Constituição” (Jornal do Brasil, 1964), “Matou-se Vargas!” (Última Hora, 1954), “Suicidou-se o Sr. Getúlio Vargas” (O Globo, 1954), “Decretado o recesso do Congresso Nacional - Governo baixa novo Ato” (Folha de São Paulo, 1964), “Não vai ter capa!” (Meia Hora, 2014).
O interesse pelo jornal era tamanho que muitos não davam por começado o dia sem que algum diário informativo fosse folheado ali mesmo à mesa, ao lado da xícara de café. O café chegado fumegante, logo ia esfriando ante a avidez pela leitura. Há de se considerar, contudo, que o jornal antigo não era apenas uma junção de folhas noticiosas, voltadas apenas para os editoriais, a política, o esporte e os fatos policiais. Consistiam em pequenas enciclopédias onde havia de tudo um pouco. Assim é que em suas páginas eram encontradas capítulos de folhetins, receitas de bolos, longos obituários, cartas amorosas, fofocas sobre os ricos e famosos, anúncios sobre tudo. Muito escravo já foi anunciado em jornal!
Algo realmente para os dias atuais, mas antigamente escravos bons, de porte atlético, de dentes sadios e brancos, eram oferecidos nas páginas dos jornais como um produto qualquer. No século XIX era constante que os jornais surgissem anunciando o aluguel, a venda ou a recompensa perante fuga de escravos. “Fugiram da Fazenda Pirassununga no dia 20 do corrente os ecravos seguintes: Gregorio 25 annos, preto fulla, sem barba, falta de dentes na frente, e pernas finas...”, “Precisa alugar uma criada que saiba cosinhar e fazer os arranjos de uma casa de família, e um moleque para recados, na rua da Princeza n. 1.”. Anúncios assim eram comuns em séculos passados, e certamente com muitas pessoas interessadas no indigno comércio.
Aquelas mocinhas lacrimosas que ansiavam pela semana seguinte para a aquisição do jornal e acompanhamento da incrível história dos amores separados pelo destino. E assim por que os grandes romances dos inícios da literatura brasileira, principalmente no romantismo, surgiram primeiro em forma de folhetins: Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Aluísio Azevedo, dentre tantos outros. Desse modo, romances famosos nasceram primeiro nas páginas dos jornais, a exemplo de A Moreninha, O Guarani, O Ateneu, Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Por isso mesmo que o velho e sempre novo jornal impresso é sempre amado, esperado e lido. As velhas máquinas tipográficas foram dando lugar a modernos equipamentos de impressão, a velha catação de tipos para formar nomes e nos nomes a junção das frases da matéria inteira, agora cedeu lugar às impressões digitalizadas. Mas o amor é o mesmo, tanto para quem faz o jornal como para o leitor. Para muitos, não há prazer maior que ouvir a voz do jornaleiro em bicicleta ou o barulho do papel caindo depois de arremessado portão adentro. E logo se imagina uma notícia boa. Mas não. Nos tempos modernos não.
Folheando o jornal, colocando as notícias diante do olhar, é como se a proximidade dos fatos fosse muito maior. E também a noção da maior veracidade do escrito no papel do que em qualquer outro lugar. É o prazer de tocar, de folhear, de ir lendo as manchetes e as chamadas, de ir dialogando com a informação. Muita gente continua cultivando esse amor imenso pela palavra escrita em papel, como se tudo ali fosse de sua posse e de sua fruição. E sempre o cuidado para que as letras não caiam ao chão. Acaso caiam, talvez não seja mais possível recuperar a República nem salvar o Brasil dessa putrefata corrupção.


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Lá no meu sertão...


Nos sertões...



Chuva no sertão (Poesia)


Chuva no sertão

Choveu
na sequidão
e as cinzas
de então
brotaram
vida nova
pelo sertão

garranchos
retorcidos
de repente
amanhecidos
em verde vivo
e tão floridos
nos olhares
agradecidos.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - meu pequeno Levy


*Rangel Alves da Costa


Levy é o nome dele. Completou quatro anos de idade recentemente. É de estatura que nos fazem chama-lo de Pequeno Levy. E Levy possui um jeito próprio de ser. Desconfiado, cismado, não gosta de fazer amizades à primeira vista. Sempre chega um tanto taciturno, silencioso, fechado, sem qualquer palavra ou sorriso. Mas daí em diante, acaso encontre alguma oportunidade, começa a se soltar de vez, principalmente se não estiver sob os olhares nem a atenção da mãe. Então o Pequeno Levy desanda de vez, começa com traquinagens sem fim, se solta de não mais parar. Curioso, querendo saber de tudo e conhecer de tudo, pergunta e mais pergunta, repete, nunca se contenta. Um amor de criança, lindo, com voz toda especial, pois pronuncia palavras ao seu modo e com um jeitinho bem sertanejo. É também o meu Pequeno Levy, pois já nos acostumamos a nos gostar, a sermos amigos, a nos amar. De vez em quando ele chega pra mim e diz: gosto de você não. Mas é prova do quanto gosta. Não sai do meu lado, sente segurança ao meu lado, brinca e reina comigo, me tem como um verdadeiro pai e o tenho como um verdadeiro e querido filho. Amo meu Pequeno Levy.



Escritor
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domingo, 25 de junho de 2017

AINDA HÁ TEMPO


*Rangel Alves da Costa


Já passei dos cinquenta anos. Pouca coisa, mas passei. Mas o que a partir de agora direi, certamente servirá para todas as idades, mesmo jovens e no gozo da mocidade.
E direi apenas que ainda dá tempo de fazer, de refazer, de novamente buscar acertar ou tentar fazer melhor o que a experiência ou os anos vividos puderem permitir.
Ainda há tempo de amar um outro amor diferente do amor amado e que não deu certo. Um término de relacionamento não pode ser visto como um fim do que o coração deseja ter.
Ainda há tempo de viver o ontem, de ser o passado bom, de viver a infância, de ser o menino sonhador e o moleque traquina e brincalhão. Os desejos e prazeres não morrem com a idade.
Ainda há tempo de escrever versos de amor em bilhetes, de colher flor no jardim, de versejar uma estrofe amorosa e, furtivamente, colocar a bela recordação numa janela amada.
Ainda dá tempo de tomar banho na chuva, totalmente nu debaixo da chuva, de braços abertos e cantarolando um silêncio de felicidade. O mais belo reencontro com a liberdade do corpo e da alma.
Ainda há tempo de querer o arco-íris, de querer beijar a lua, de querer acariciar estrelas, de subir pelos espaços em busca dos misteriosos desconhecido. E, no alto, sentir-se como um Pequeno Príncipe.
Ainda dá tempo de correr pelos campos, de deitar sossegadamente sobre a relva, de beber água fresca na fonte, de se encantar com as borboletas dos campos. E depois dizer a si mesmo que é feliz.
Ainda há tempo de desejar goiabada com queijo, de sonhar com doce de coco na sua maciez de sabor, de querer doce de leite de bolas grandes. E se lambuzar e se fartar com tantas delícias da vida.
Ainda dá tempo de acordar logo cedinho e descalço correr à janela, para logo sentir de adiante o sopro maravilhoso da brisa do amanhecer. E pular a janela para ir conversar com os pássaros, com as borboletas e os colibris.
Ainda há tempo de ter cavalo de pau, bola de gude, peteca baleadeira, casinha de boneca, boneca de pano, brinquedo de barro e castelos de areia. Ainda dá tempo de tudo isso por que jamais perece a alma menina do coração.
Ainda dá tempo de dizer a si mesmo que vai conseguir, que vai conseguir, que não vai parar enquanto aquele objetivo não for conquistado. Pelo desejo muito se sonhou e muito foi conseguido, por isso que sempre ainda há tempo para querer algo mais.
Ainda há tempo de regar o jardim, de cuidar dos canteiros, de afastar os intrusos, de preservar aquilo que tanto bem faz ao olhar e ao coração. E depois, de rosa à mão, ter a certeza que o cultivo do bem traz a certeza da melhor colheita.
Ainda dá tempo de bala de mel, de picolé de graviola, de sorvete de coco, de jujuba e pé-de-moleque. Os desejos, os gostos e os sabores, não se perdem no tempo. E se é o adulto que deseja, então que o menino ainda existente vá saborear seu doce prazer.
Ainda há tempo de tentar não mais pisar em espinhos, de não deixar que encubram de panos seu arco-íris, de não permitir que o brinquedo seja jogado no lixo. Ora, as pequenas coisas devem sempre ser preservadas para se ter os prazeres no instante que se desejar.
Ainda há tempo vestir aquela roupa velha, rasgada, desbotada, toda sem jeito de ser, mas que tanto carinho e conforto provocam no corpo. Como aquele Pé de Laranja Lima do menino Zezé, coisas existem que são inseparáveis e insubstituíveis.
Ainda há tempo de ser feliz. Sim, muito feliz. Tempo de não deixar que a dor enclausure os sentimentos nem que as lágrimas provoquem um mar de angústias na lama. Um tempo de sorrir e de cantar, de viver e amar. Ainda há um tempo assim em cada ser.


Escritor
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Lá no meu sertão...


Os Pífanos da Família Vito, de Poço Redondo, sertão sergipano




A poesia (Poesia)


A poesia


Quando olhei
e quando quis
escrevi versos
encantados

quando abracei
e quando beijei
escrevi poemas
enamorados

quando senti
seu sexo no meu
escrevi livros
apaixonados.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – milho verde na estrada


*Rangel Alves da Costa


Já faz muito tempo que o sertão está tão guarnecido de milho verde num período junino. Em menor quantidade, mas nunca faltou milho na fogueira de Santo Antônio, São João e São Pedro, porém vindo dos lotes irrigados existem numa faixa sertaneja. Este ano a situação se mostrou diferente. Mesmo que os lotes continuem produzindo em grande quantidade, também a terra molhada de chuva fez frutificar a melhor e mais famosa iguaria junina. Aqueles produtores que acreditaram em inverno bom, que as chuvas não faltariam neste período, acabaram tendo bons resultados. E o que se vê é o milho em profusão pelos campos e também à venda pelas estradas. Aqueles que plantaram mais tarde, somente colherão nos meses seguintes, mas outros que se anteciparam agora estão lucrando com a venda por todo lugar. Em diversos pontos no trecho rodoviário que liga Poço Redondo a Canindé de São Francisco, no alto sertão sergipano, é possível encontrar milho novo, na palha, colhido no mesmo dia. Não faz muito que quatro espigas eram vendidas a dois reais, já na tarde deste dia de São João, eu comprei setenta e cinco espigas a dez reais. Quer dizer, o preço barateou muito, e isso exatamente pela fartura, pela grande quantidade de milho ofertado. Então, quem gosta de milho assado na fogueira ou cozido em fogão de lenha, certamente se fartará. E nisto a certeza que os incas, maias e astecas, tinham razão: não há alimento mais rico e mais substancioso que o milho. Então que venha mais uma espiga. E tanto faz se assada ou cozida. O sabor e a gostosura são os mesmos.


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sábado, 24 de junho de 2017

MAIS DE MIL GATOS


*Rangel Alves da Costa


Não sei de onde aparecem tantos gatos. Tenho certeza que mais de mil. Durante um dia, apenas um ou outro são avistados pelas calçadas e esquinas, mas depois do anoitecer há uma verdadeira invasão de gatos.
Gatos brancos, gatos pardos, gatos pintados, gatos amarelados, gatos pretos, gatos cinzentos, de todas as formas e cores de gatos. Algo realmente inacreditável. De todos os becos os bichanos vão surgindo, se reunindo, parecendo dialogar sobre a forma de como aterrorizar as pessoas naquela noite.
Só pode ser um complô de felinos, não há como pensar diferente. Depois disso, vão se espalhando aos montes, às dezenas, centenas, aos montes, subindo pelos muros, pulando janelas, entrando por qualquer passagem de porta ou portão. E então ninguém tem mais sossego daí em diante.
A noite inteira, madrugada adentro, até romper a aurora, e a gataria com seus gritos, miados, gemidos, agouros, cios insuportáveis. Remexem em telhados, viram móveis, sujam tapetes, lambuzam tudo o que encontrarem pela frente.
Rápidos, velozes, somem num raio como enxotados, mas para retornarem no instante seguinte. E quando tudo já parece sem as suas insuportáveis presenças, eis que os seus gemidos ecoam bem ao lado, como que propositalmente. E assim todos os dias, todas as noites, na vida sem sossego ou paz por causa da gataria.
Alguns vizinhos já tomaram atitudes drásticas com relação a isso. Utilizaram-se até de espingardas para espantar os bichanos. Outros mantêm varas pontiagudas para enfrentá-los. Fala-se até em uso de chumbinho em alimentos pelos cantos dos muros. Se um ou outro morre ninguém sabe. Ou ninguém diz. Sequer se espalha a fedentina de bicho morto.
Mas a verdade é que ninguém suporta mais tanto aperreio provocado pelos peludos, endiabrados, intoleráveis mesmo. O pior é que não surge nenhum dono para ser chamado à atenção ou culpado, ao menos em parte, pelas algazarras noturnas.
Diz que gato na noite assombra, assusta, traz presságio ruim, ecoa sempre um mau agouro. Ao lado do mito, da lenda ou crença popular, a verdade é que provoca mesmo uma terrível danação.
Fato é que se torna muito difícil repousar quando se tem pelo telhado o passeio aterrorizante do bichano. Nunca se contenta em zanzar silenciosamente de canto a outro, em fazer seus passeios noturnos sem importunar a vida dos seres humanos.
Acha-se sempre no direito de fazer da noite e da madrugada seu festim alarmante, tenebroso, intolerável. E daí vai soltando seus lamentos, e então vai gritando suas dores, e então vai ecoando seus gemidos, acordando a escuridão com suas funestas vozes.
De cima da casa ao seu interior, sobre tudo o gato se acha no direito de propriedade. Invade, toma de assalto, vai destruindo tudo por onde passa, vai espalhando terror a cada passa que dá. Destelha casas, torna tudo em uma só fedentina. Só falta mesmo que estilhaços caiam e se espalhem por cima das camas e pessoas.
E num instante um som terrível do telhado, bem em cima da cama onde a pessoa tenta adormecer. E de repente o barulho de um jarro caindo, de uma taça sendo lançada ao chão. Quando a pessoa corre para saber o que aconteceu só encontra a destruição. E o gato certamente estará bem ao lado escondido.
Daí uma certeza irrefutável. Os gatos são os seres mais insuportáveis que possam existir. Fantasmas, almas do outro mundo, visitantes noturnos, meliantes, puladores de muros, extraterrestres, seja lá o que for, tudo será sempre menos insuportável que gatos reunidos exclusivamente para atazanar sossegos e vidas.
Adiante do telhado, lá em cima, sempre há uma lua bonita e estrelas que brilham majestosamente. Mas nada disso possui significação ao bichano. Seu único prazer é não deixar que a noite do humano seja de sono, repouso e sonho.


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Lá no meu sertão...


Nesta sexta-feira junina, ao lado de amigas em quermesse de Poço Redondo, no sertão sergipano.




A pedra chora (Poesia)


A pedra chora


A pedra chora
e eu me nego
a chorar

não possuo
nem a humildade
nem o sentimento
da pedra que chora

por isso mesmo
minha insensível
petrificação

e a falta em mim
daquela sinceridade
da pedra.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – afeto sem preço


*Rangel Alves da Costa


Toda vez que a seca se espalha e se prolonga pelos sertões, então se observa o quanto o homem da terra possui apego, afeição e estima, verdadeiro e desmedido amor, ao que tem ou lhe resta como rebanho de cria. Já com mais de ano de estiagem, quando a pastagem já está esturricada e sem alimento algum para o boi, a vaca, o cavalo ou o jumentinho, e o sertanejo se vê perante a difícil situação de alimentá-los, então seu apego ao que tem se mostra em toda feição. Geralmente pobre, com poucos recursos de sobrevivência, ainda assim passa a comprar palma, capim, o que for necessário à mínima alimentação. Chega ao extremo de fazer feira numa semana e na seguinte nada comprar para alimentar a família, pois o pouco dinheiro daquela semana será revertido em comida para o bicho. E assim pelos sertões inteiros. Quando as secas se prolongam por anos, a soma dos gastos já terá sido muito maior que o valor das três vaquinhas magricelas restantes. Quer dizer, acaso venda o que lhe resta de rebanho, não cobrirá quase nada do muito que já gastou. Mas ainda assim sofre, padece, chora, lamenta, mas não vende sua vaquinha de jeito nenhum. E assim faz pelo amor, pelo afeto, pela estima que tem por aquilo que possui a feição de verdadeira família.


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sexta-feira, 23 de junho de 2017

AO LONGE JÁ OUÇO O APITO DO TREM


*Rangel Alves da Costa


Não tenho tempo. Só tenho pressa. Por isso tenho que correr, correr, correr. Ao longe, já ouço o apito do trem. Ouço alguém me chamar. Um grito desesperado. Um brado voraz. Tudo chama. Não tenho relógio de pulso, mas há um relógio na estação dizendo que está na hora. A fumaça já é avistada entre as serras. Não ouvi, ainda não ouvi, mas há quem afirme já ter escutado o apito do trem.
Não recordo bem se fechei a porta do fundo, se forrei a cama do quarto de dormir, se tornei em cinzas as brasas flamejantes ainda há pouco. Não sei se recolhi a fruta caída que avistei de manhã. Não recordo bem se reguei as flores do pequeno jardim ao lado ou se joguei pingo d’água no caqueiro de rosa triste. As folhas de erva cidreira talvez  Nada sei. Só sei que tenho pressa. E por isso tenho de correr, correr, correr, e assim vou correndo, correndo, correndo.
Havia prometido a mim mesmo escrever uma longa carta para deixar em cima da mesinha da sala da frente. Não sei bem quem poderia entrar pela porta e se deparar com o escrito, mas eu sentia necessidade de deixar algo escrito sobre o que fui e passei ali. Gostaria muito de dizer o quanto fui feliz por muito tempo, mas também o quanto fui infeliz por muito mais tempo. Iria pedir que jogasse um pouco de água nas plantas que ainda restassem e que nunca apagasse os poemas deixados nas paredes.
Dentre tais poemas, há um que gosto demais. Jamais irei esquecê-lo: “E quando a noite caiu e eu também caí, quando eu quis segurar a lua, a lua estava escondida entre os cabelos morenos de um céu que um dia foi meu...”. Também outro que gosto muito: “No teu mar macio, de leveza e vida, de perfume e calor, o meu barco segue em busca de nada encontrar, apenas seguir e seguir, e amar e amar...”. Mas tanto faz. Apague-os, se assim desejar. Não fui poeta de nada, nunca fui poeta de nada. Talvez a minha poesia estivesse somente no meu olhar.
Avistar da janela adiante era como ter poesia no olhar. Sentar no meio do tempo ao entardecer, avistando aquele mundo amarelado e tão belo, aquela fogueira se apagando no alto, chegava-me como verdadeiro poema. Mas nunca poema alegre, de contentamento. Em tudo uma nostalgia, uma saudade doída, uma relembrança amarga e dolorosa. Em tudo um sofrimento infinito. Não sei bem se foi por isso que resolvi partir.
Na verdade, sempre gostei de minha solidão, de minhas quatro paredes, de minha rede, das caminhadas que fazia ao redor. Sempre gostei muito de conversar com a pedra, de conversar com os bichos, de conversar com a brisa e o vento. De xícara fumegante à mão, então eu saía até perto da pedra grande para avistar o mundo adiante. Então eu avistava as distâncias, os horizontes, imaginando outras vidas e outros caminhos além. Em instantes assim, contudo, não me chegava desejo algum de partir algum dia. Desejava mesmo a eternidade naquele lugar, uma eternidade que se entranhasse ao chão depois do último pó do adeus. Mas de repente resolvi partir.
Não tenho quase nada para levar. Lembro-me somente do trem que logo partirei e do meu instante de partida que havia chegado. Daí ouvir o grito a me chamar, daí imaginar que tudo estava dizendo para me apressar. Tudo dizendo para correr, correr, correr. E por isso, para não perder o trem, é que estou correndo, correndo, correndo. Que eu não espere qualquer adeus, qualquer lenço acenando, qualquer lágrima. Não há absolutamente ninguém que faça assim por mim. Aliás, não há absolutamente ninguém que sinta qualquer coisa por mim, nem ódio nem amor, nem amizade nem desapreço, nem carinho nem inimizade.
Não nego que sentiria prazer em ter algum na janela de lágrimas nos olhos e lenço balançando à mão. Mas impossível que assim aconteça. Não haverá tempo para me despedir do varal estendido no quintal. Sempre sentia um prazer diferente – um tanto mórbido – em ficar por horas a fio perante o varal. Aqueles panos querendo voar, querendo se desprender, querendo rumar por aí sem destino. Talvez aquelas imagens penetrassem tanto em mim que de repente me fiz impulsionado a fazer o mesmo.
Vou partir sem qualquer despedida do varal. Não sei sequer se deixei alguma roupa estendida por lá. Ou sei. Não sei. Talvez eu tenha ficado estendido lá. E o que parte agora é apenas a roupa. Que corre e corre, por que tem pressa. Muita pressa de chegar a qualquer lugar.


Escritor
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Lá no meu sertão...


Ali no meu sertão sergipano de Poço Redondo...




Noite, noite... (Poesia)


Noite, noite...


Ah quanta saudade sentida
em meio a essa noite perdida
onde a lua se esconde de mim
e a escuridão parece sem fim

ai essa dor que me vem agora
como lágrima dolente que chora
o pranto doloroso por tanto amar
e do amor sequer saber onde está

oh estrela que brilha sozinha
leve contigo a dor que é minha
e joga réstias de luz à minha janela
para sonhar que quem chega é ela.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – aprender na dor


*Rangel Alves da Costa


Não sei se está frio ou está quente. Não sei se sinto frio ou calor. Não sei se tenho vontade de chorar ou de sorrir. Não sei se estou solidão ou multidão. Nada sei. Triste é saber e nada poder evitar. Também tanto faz saber. A pedra me ensinou muita coisa. Segundo ela, é preciso petrificar para não se espantar tanto com a vida. É preciso enrijecer para não ser levado ao longe, e espatifado nos muros da vida, igual a uma folha qualquer de outono. É preciso ser ferro e diamante para que não imaginem que é apenas pó para ser num instante soprado e pelos caminhos apenas restarem as réstias. Não há ilusões nesse mundo, não há ilusões nessa vida. Quem tem flores com espinhos certamente ficará com as flores, sem compartilhar ao menos uma rosa. Quem tem auroras e sopros perfumados de brisa certamente ofertará ao outro o calor de mais tarde. Quem tem duas mãos para estender certamente estenderá apenas uma, e para logo esta ser recolhida. Não há que se iludir com demasiadas bondades nem com afagos exagerados. Ora, o homem é o lobo do homem e assim o será para a eternidade. Quem não aprendeu no sofrimento jamais haverá de aprender em qualquer outra situação. Somente na dor se aprende a ser forte suficiente para não se deixar levar por canções sem voz. Somente após padecer - e no dia seguinte ainda amanhecer – é que o homem poderá dizer que o seu pó novamente petrificou. Ainda que depois seja novamente feito pó pelas ventanias que sempre chegam.


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quinta-feira, 22 de junho de 2017

LAMPIÃO: AS FACES E AS VERSÕES


*Rangel Alves da Costa


O texto abaixo, anteriormente intitulado “Existiram quantos Lampião?”, foi reescrito com o título acima e publicado em jornal impresso. Poucas modificações foram introduzidas, mas a modificação no título se deu para que não fossem ventilados erros gramaticais, pois este autor bem poderia tê-lo intitulado de “Existiram quantos Lampiões?”, porém preferiu não pluralizar tão importante nome da história brasileira, apelido único e que assim de deverá ser respeitado. Mas vamos ao texto em si.
O cangaço, enquanto fenômeno social dos sertões nordestinos, ainda hoje é construído e reconstruído segundo as muitas versões surgidas. Atrás de seu conceito sempre persistem indagações que vão sendo preenchidas segundo as vertentes abraçadas pelos historiadores.
É como se tivessem existido vários mundos dentro do próprio mundo cangaço. Tanto assim que os fatos vão sendo sempre recontados de forma diferenciada, como se negando verdades nascidas desde outros tempos. E quando se trata sobre Virgulino Ferreira da Silva, o Capitão Lampião, então tudo se desanda mesmo.
Existiram quantos Lampiões dentro de um só Lampião? Sim, aquele mesmo nascido Virgulino Ferreira da Silva, quantos existiram? Quantos homens couberam num só corpo e numa só feição daquele nordestino arretado que um dia se insurgiu contra o mundo dos poderosos (ao menos em parte)?
Ora, ante o emaranhado que se tornou a história do cangaço, perante os labirintos que a todo dia colocam a saga dos homens das caatingas, há de se perguntar quantos Lampiões existiram naquele único e famoso Lampião. Assim há de ser sob pena até se duvidar sobre a sua real existência. Ora, por vezes chega a parecer que nem se fala de homem, mas de um ser mítico, imaginado na crendice popular.
Diante das histórias e mais histórias, ante as lendas e os mitos que se propagam a seu respeito, diante das inúmeras versões para os mesmos fatos, não há como não perguntar quantos Lampiões existiram naquele rei cangaceiro, naquele Lampião desgarrado de seu Pernambuco, de sua Vila Bela, e tomando o mundo nordestino de assalto.
As datas sobre alguns eventos de sua vida são tão discordantes que até parecem se tratar de pessoas diferentes. Igualmente com relação à sua infância, ao seu batismo, à sua criação. Para muitos até Lampião já nasceu cangaceiro. Até mesmo filmes enveredam num imaginário difícil de acreditar.
Vários, muitas pessoas, num só ser humano. Assim com Virgulino Ferreira da Silva, mas principalmente com Lampião. O herói, o bandido, o religioso, o facínora, o covarde, o estrategista, o líder, o dominado, o carrasco, o comedido, tudo isso numa só pessoa.
Tudo isso numa só pessoa, num só Lampião, por que é assim que sua imagem é propagada, segundo a intuição da pessoa que de um modo ou outro o concebe. O mais espantoso é que dificilmente Lampião é visto a partir dele mesmo.
Comumente, a história trata o homem pela sua saga e não pela sua sina. Desse modo, Lampião é quase sempre estudado e definido como o cangaceiro. Apenas. Lampião cangaceiro, líder de bando, carrasco, a frieza peçonhenta das matas.
Mas também como o injustiçado, como o ferido desde o seio familiar, como o odioso levado pela vingança. Ainda neste sentido, o homem já gestado em meio à violência e, portanto, o cabra marcado a se eximir de si mesmo para conviver com outra realidade.
Daí uma indagação: Quantos pesquisadores, estudiosos do cangaço e pesquisadores, já se voltaram mais para Virgulino, o homem, e não priorizaram tanto Lampião, o cangaceiro? A verdade é que a história do mito de vez em quando se esquece da origem.
E assim por que além do Lampião em si, o cangaceiro das caatingas, existia um homem chamado Virgulino Ferreira da Silva. E somente se conhecendo a história do homem é que se pode chegar ao desvendamento daquilo que o destino lhe reservou.
A construção da história do homem através da história do mito, invariavelmente provoca a construção de identidades diferentes, contraditórias, até que se negam a si mesmas. Uma hora Lampião é o devoto e temeroso dos castigos de Deus, outra hora é o que observa passivamente crianças sendo lançadas ao alto para serem apanhadas pela ponta do punhal.
Nada de exagero. É assim que dizem, seja mentiroso ou não. O Lampião devoto de Padre Cícero e de Nossa Senhora, mas ao mesmo tempo aquele que consentiu com as maldades de Zé Baiano, o carrasco ferrador.
Então, quantos Lampiões dentro de Lampião existiram? Há o Lampião que foi morto na chacina do Angico, há o Lampião que foi envenenado, há o Lampião que sequer estava no coito sangrento naquele alvorecer sertanejo, há o Lampião que fugiu, há o Lampião que morreu já centenário lá pelas Minas Gerais. Então: quantos cangaceiros existiram num só homem?
Dizem até que Lampião foi comunista. Dizem e tentam provar. E também aquele Lampião “amulezado”, segundo a insanidade de alguns. Contudo, o mais difícil mesmo parece mesmo é conhecer aquele Virgulino antes de se tornar Lampião.
Afirmar simplesmente de seu banditismo é prova maior do total desconhecimento de sua história, principalmente familiar. Afirmar de seu heroísmo é igualmente desconhecer das maldades consentidas e pactuadas enquanto líder maior de seu bando.
Então, quantos Lampiões na face de Lampião existiram? Tal resposta certamente jamais será obtida. Prova maior é que todo dia surge um novo livro contando a história de um Lampião diferente.


Escritor
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Lá no meu sertão...


Em Poço Redondo, buscando as raízes primeiras...



Em você (Poesia)


Em você

Um céu
na boca

um mar
no olhar

uma nuvem
na pele

uma lua
no sexo

um paraíso
no prazer

em você
em você.


Rangel Alves da Costa