SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 30 de abril de 2015

REFLEXÕES CASUAIS


Rangel Alves da Costa*


O homem que caminha sozinho conhece a sombra que o acompanha. Ao sol, não se sente desacompanhado; à noite, pode repousar no colo do amigo.
É preciso conhecer o pássaro que quer ter à janela. Ao amanhecer são muitos os gorjeios, os voos, os pousos, a festa passarinheira. Ao anoitecer, os pios agourentos que tramam os desatinos e os infortúnios.
Necessário não deixar que a solidão torne o solitário totalmente sozinho. A solidão deve ser convívio, interação da pessoa consiga mesma, um instante ideal para a reflexão. E não o vazio completo e angustiante.
O velho e o menino possuem os mesmos sonhos, os mesmos desejos, as mesmas inquietações. Só que o menino esquece ao encontrá-los, e o velho tudo faz para que não se dissipem de suas esperanças.
Não há nada mais triste que uma casa abandonada, uma porta fechada e uma janela ao sopro do vento. E ainda mais triste alguém dentro da casa e a porta e a janela permanecendo fechadas ao alvorecer. Não há vida que não mereça o sol da manhã e o perfume novo da primeira brisa.
Engana-se aquele que egoisticamente imaginar ser único e absoluto. Possui o nome, mas o sobrenome não é seu. Desde a feição ao jeito de ser, tudo numa linhagem que remonta aos primeiros familiares. É tal junção do passado que lhe permite ter uma identidade, mas sem renegar suas origens e seus laços consanguíneos.
Não há doce ou cocada que não requeira uma pitada de sal. A doçura extrema acaba açucarando ou tornando com gosto intragável o adoçado. Por isso que ninguém deseje a alegria incontida, a felicidade extrema, o prazer sem limite. Instantes de dor e de sofrimento são como pitadas de sal tão necessárias à vida.
A vida é curta demais diante da eternidade da morte. Oitenta, cem ou mais anos de vida, mesmo de longa duração terrena, nada significa aos olhos que se fecham ao além. Ou haverá a morte da morte também?
Igualmente à estrada, a vida nunca segue numa só direção. A estrada encontra outras estradas e muitas vezes se deixa levar por outros caminhos. Ou o ser humano sabe a direção que deseja seguir, o mundo adiante que deseja alcançar, ou logo será levado a veredas difíceis de reencontrar-se.
A sede adoça a água salobra e a fome torna em manjar um resto adormecido de pão. Sem fome nem sede, tanto faz que uma jarra esteja servida sobre a mesa repleta de guloseimas. Mas tem gente que sequer guarda um copo de água ou um pedaço de pão. E depois retorna faminto e sedento ao que não existe mais.
Ter medo da chuva é fugir da renovação, da purificação, da esperança. As ruas se lavam, os campos se molham, as fontes se enchem, a vida se inunda de águas novas. E não é diferente com o ser humano. Reencontra seu útero e de braços abertos se faz germinar.
A melancia talvez simbolize a inverdade além da aparência. O coco talvez simbolize o poder de geração interior. A acerola talvez simbolize a grandeza na aparência minúscula. O araçá talvez simbolize a magia além da doçura. O sapoti talvez simbolize o amor quando se torna paixão. E o homem simboliza o que?
Não há chamado que não tenha resposta. Mas a voz é sempre menos ouvida que o coração. Quando este fala não há como não ouvi-lo e possibilitar que tudo silenciosamente aconteça. Assim a palavra silenciosa da prece, da oração.
O pintor é o mesmo em todas as estações. E a mesma beleza avistável nas suas paisagens. É apenas uma forma de dar outra tonalidade à sua pintura quando coloca menos cor no outono do que na primavera.
O sol espalha, alvoroça e queima, como a lua que retrai, sensibiliza e aflige. Daí a alegria fingida no dia e o sofrimento inevitável na noite. Eis que a euforia se cansa e se recolhe como tristeza.


Poeta e cronista
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Amor? (Poesia)


Amor?

Lamento dizer
não sei mais amar
pensei que sabia
até que a palavra
o beijo e abraço
o afeto e o carinho
se tornaram inúteis
diante da corrupção
do corpo e do sexo
e da mentira contada
ao coração inocente

agrada-me dizer
prefiro não saber
amar esse amor
de sopro e vento
volúvel e vulgar
prefiro não merecer
um beijo de acaso
e imaginar amado
pela pedra bruta
e pela cruel ilusão
de um vazio coração.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 959


Rangel Alves da Costa*


“Na voracidade do mundo...”.
“Na feiura do mundo...”.
“Na desumanidade do mundo...”.
“Algumas recompensas...”.
“À dor e ao padecimento...”.
“Ninguém apaga a manhã...”.
“Ninguém rouba a lua...”.
“Ninguém furta o sol...”.
“Ninguém leva a esperança...”.
“Ninguém é dono de tudo...”.
“Na impetuosidade do mundo...”.
“Na incongruência do mundo...”.
“Nos desmandos do mundo...”.
“Restam algumas dádivas...”.
“Algumas retribuições...”.
“Ninguém tomou para si a primavera...”.
“Ninguém escraviza a poesia...”.
“Ninguém submete o desejo...”.
“Ninguém se arvora dos sonhos...”.
“Ninguém esconde a estrada...”.
“Ninguém fecha o olho à visão...”.
“Ninguém chega no lugar do verão...”.
“Ninguém mortifica o amor...”.
“Na inquietude do mundo...”.
“Na desesperança do mundo...”.
“No entristecimento do mundo...”.
“Ainda assim restará a conquista...”.
“Mas esta a quem merecer...”.
“Uma janela aberta à vida...”.
“Uma porta aberta ao caminho...”.
“Um passo procurando encontrar...”.
“Uma boca querendo sorrir...”.
“Um coração querendo sentir...”.
“Uma vida querendo viver...”.
“Um ser desejando amar...”.
“Uma esperança querendo acontecer...”.
“Uma recompensa de fé...”.
“A certeza de um Deus maior...”.
“Muito acima de tudo no mundo...”.
“Deste mundo cruel e perverso...”.
“Que tudo quer fazer sofrer...”.
“E tudo quer fazer chorar...”.
“E tudo quer fazer desistir...”.
“E espera somente que o homem...”.
“Ao invés de abraçar a manhã...”.
“Ajoelhe-se ante a escuridão...”.


Poeta e cronista
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quarta-feira, 29 de abril de 2015

O HUMILDE MUNDO DE BASTIANA


Rangel Alves da Costa*


Durante mais de cinquenta anos Sebastiana conviveu com seu esposo numa tapera nos escondidos de beira de estrada de chão, verdadeira vereda. Leocádio, companheiro da vida inteira e única companhia de todo dia, havia morrido de teimosia, como repetia a esposa.
Ele, já envelhecido e conhecedor dos perigos da vida, jamais poderia fazer o que fez. Ora, todo sertanejo sabe muito bem que após tomar café quente ninguém pode pegar frieza e muito menos sereno ou pingo de chuva. Mas o velho, encantado com a chuva repentinamente caindo, virou goela adentro o café ainda quente e correu porta afora, abrindo os braços no meio do tempo molhado. Estuporou e morreu.
Bastiana, como era mais conhecida, se despediu do seu velho dizendo apenas que também já estava arrumando a mala para partir, e que não demoraria muito. Ele podia esperar onde estivesse. Mas os anos foram passando e ela continuando em pé, cheia de reumatismos e dores nas cadeiras, mas ainda andando de canto a outro no vai e vem do dia após dia. Já havia passado dos oitenta e ainda saía para recolher lenha nos arredores da moradia.
Para qualquer outra pessoa seria verdadeiramente insuportável aquele jeito de viver, aquela mesmice e aquela solidão permanente. Mas ela suportava quietinha, no sopro dos anos, apenas levando no olhar um brilho opaco de nostalgia. Depois da partida do esposo ficou mais de ano sem abrir a boca, sem dizer uma palavra sequer, mas depois começou a falar com o cachorro magro, o gato arisco e a rolinha fogo-pagô que não saía de sua janela. E logo desandou a falar sozinha como se alguém estivesse por ali num diálogo constante.
Falava sozinha, mas ainda não estava caduca. Entendia muito bem o seu mundo, sua vida, sua situação na existência. Desde muito que não ia à cidade nem avistava um só pé de pessoa. De vez em quando avistava vultos passando na estrada adiante, lavando gado ou só de passagem, mas ninguém chegava à sua porta para pedir ao menos um copo d’água. Certamente achavam que naquele desvão de mundo e naquela casinha caindo aos pedaços já não morava ninguém.
Mas ela, Bastiana, continuava por lá e nos seus afazeres de cada dia, lutando pela sobrevivência. Alimentava-se da terra, do mato, do quintal, do que conseguia. Puxava o pescoço de uma galinha e tinha carne garantida para quase um mês, colhia feijão de corda e garantia a panela cheia, fazia farinha da terra e assim ia se mantendo sem necessidade de feira ou qualquer esmola. Voltava do mato trazendo folhagens que acabavam num misto saboroso e medicinal de chá e café. E não precisava nada mais que isso para sobreviver.
Mesmo a idade não modificou seus costumes. Acordava com o cantar do galo, soprava a chama do candeeiro, lançava mão do rosário e seguia rumo ao oratório. A mesma prece de sempre: Pai Nosso, que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O Pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação, as livrai-nos do mal. Amém.
Depois se benzia e rumava ao quintal para conversar com as galinhas ainda sonolentas, mas já esperando a visita. Mexia numa planta e noutra, jogava uma cuia d’água, recolhia ovos, juntava lenha para o fogo da manhã. Noutros tempos ralava cuscuz, cortava toucinho de porco, fazia mexido com ovos. Mas agora jogava alguns ovos numa panela e deixava ferver. Era o seu café da manhã de todo dia.
Depois inventava de varrer a casa. E era quando a poeira subia e o pó tomava os cacarecos envelhecidos. E lá ia Bastiana sacudindo a poeira. Isso todo dia, até chegar o momento de abrir a janela e a porta da frente para a luz do dia entrar e a ventania fazer seu passeio. Depois sentava numa velha e carcomida cadeira de balanço rente a janela e ali permanecia até a hora de jogar água por cima do corpo. Retornava para conversar sozinha enquanto lançava o olhar para o mundo tão singelo e bonito que havia à sua frente.
Apenas um sertão desolado e triste, mas de uma beleza sem igual para a velha Bastiana.


Poeta e cronista
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Beijo (Poesia)


Beijo


O beijo
é o lábio caminhante
que encontra uma porta
e chama

o beijo
é o lábio em outono
buscando uma estação
com flores

o beijo
é o lábio despertado
de sonho amoroso
para o encontro

o beijo
é o lábio em silêncio
e gritando sempre
que ama.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 958


Rangel Alves da Costa*


“Neguei o relógio...”.
“Rasguei o calendário...”.
“Só basta o sol...”.
“Só basta a lua...”.
“Uma noite e um dia...”.
“Acordar e viver...”.
“O resto é construção...”.
“É fazer e refazer...”.
“É erguer alicerce...”.
“É cimentar a ação...”.
“Mas tudo pela vontade...”.
“Pelo querer realizar...”.
“A qualquer instante...”.
“Na luz ou escuridão...”.
“Sem precisar de hora...”.
“Nem de calendário...”.
“Para conhecer a necessidade...”.
“De semear o grão...”.
“De limpar o jardim...”.
“De colher a espiga...”.
“De juntar o conseguido...”.
“E novamente fazer...”.
“Assim a vida...”.
“Sem tempo e sem obediência...”.
“Sem exigência ou hora...”.
“Sem escrava imposição...”.
“Ou submissão ao momento...”.
“Porque o ser livre...”.
“E como uma liberdade...”.
“Que nega sua escravidão...”.
“Ao tempo e à hora...”.
“Ao relógio e à data...”.
“E por ter liberdade...”.
“E por conhecer suas necessidades...”.
“Nada mais correto...”.
“Que saiba o instante ideal...”.
“Da ação e da inação...”.
“O tempo de trabalhar...”.
“E o tempo de viver para si mesmo...”.
“Eis que ninguém na vida...”.
“Nasceu apenas para fazer...”.
“Sem um tempo para pensar...”.
“E pensando perceber...”.
“Que vale muito mais...”.
“O contentamento com o pouco...”.
“Que a escravização da riqueza...”.


Poeta e cronista
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terça-feira, 28 de abril de 2015

O TAMANHO DO MUNDO DE CADA UM


Rangel Alves da Costa*


Já disse o poeta que o tamanho do mundo está na proporção da visão da pessoa que o avista. Mas não apenas uma visão de limites, de distâncias, e sim de conhecimento. Assim, o tamanho do mundo de cada um condiz com a compreensão de sua realidade.
Mas não é fácil avistar o mundo nem alcançar a dimensão desejada. Quando se diz que a pessoa vive fechada em seu mundinho, certamente afirma acerca de sua reduzida compreensão da realidade, eis que os limites de um mundo pessoal estão nas paredes daquilo que quer avistar e ter como parâmetro de tudo.
Conhecer o mundo, ir adiante de suas fronteiras, não significa viajar, passear, conhecer lugares distantes. Isso também proporciona uma visão daquele mundo alcançado, mas não de modo a estender aquele conhecimento sobre outras realidades. E o conhecimento pode ser alcançado mesmo sem qualquer viagem, até mesmo sem que a pessoa tenha saído uma única vez de seu berço de nascimento.
E assim porque conhecer o mundo e se aproximar de sua dimensão nada mais é do que buscar conhecimento sobre a realidade da vida, sobre a existência humana, sobre os fundamentos históricos da sociedade, sobre as relações sociais, sobre as bases políticas, sobre os grandes problemas que afligem a humanidade. E principalmente conhecer a si mesmo como peça essencial da vida.
O fim maior do conhecimento do mundo é situar-se perante a sua realidade e, a partir do entendimento geral, melhor conhecer realidades particulares. Muitas vezes uma coisa simples deixa de ser percebida e compreendida porque a pessoa é incapaz de buscar no espelho da vida o reflexo para aquela realidade. Outras vezes, basta que algo esteja na iminência de acontecer e o sujeito já pode fazer previsões sobre suas consequências.
Quando uma pessoa sobe numa montanha e lá do ponto mais alto lança o olhar sobre o mundo ao redor, somente aquele mundo ao redor irá avistar. Diferentemente ocorrerá se no cume da mesma montanha procurar refletir sobre a realidade do mundo a partir daquela visão. Mas tal tarefa será impossível de ser feita se o indivíduo já tiver subido ao cume levando consigo uma diversidade de conhecimentos.
E o conhecimento pode ser adquirido de diversas maneiras. A realidade vivenciada por cada sujeito se torna fundamento essencial de aprendizado. É a partir do conhecimento de sua realidade que ele poderá se posicionar perante outras realidades. Mesmo o indivíduo que jamais tenha saído de seu berço de nascimento, passa a supor a existência de outros lugares a partir da visão que possui de seu mundo. Quando confrontado com outras realidades, não só a sua visão de mundo se alarga como o seu próprio lugar passa a ser visto de outro modo.
O aprendizado através da educação formal possibilita o aprofundamento do conhecimento. O sujeito passa a se situar perante realidades que jamais imaginou existirem, passa a conhecer conceitos e fenômenos que desafiam seu pensamento. E então o seu microcosmo emerge para um instigante macrocosmo cada vez mais desafiador. E aí está o ponto ideal de redimensionamento do mundo, de lançar o olhar sobre conhecimentos cada vez maiores.
O estudo e a leitura, além de trazerem contínuos novos conhecimentos, possuem o dom de transportar o sujeito para outras dimensões. É através do conhecimento que todas as fronteiras são abertas, os limites são apagados, tudo fica ao alcance. É o conhecimento que proporciona novo olhar sobre a vida, a existência e o mundo, que permite ao sujeito confrontar criticamente as realidades e ter um posicionamento coerente desde o seu chão ao que acontece nas regiões mais distantes da terra.
Desse modo, o tamanho de mundo de cada um é o tamanho de sua compreensão sobre a realidade. Não precisa estar na fronteira da guerra para conhecer a dor de milhões, não precisa presenciar a miséria africana para avistar a lágrima ossuda e faminta, não precisa estar na rampa do planalto para sentir a podridão e a fedentina. E um conhecimento que vai além da imaginação para se transformar em conscientização crítica.


Poeta e cronista
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Sem resposta (Poesia)


Sem resposta


Onde estão os amigos
quando o silêncio entristecido
chega-me com um lenço antigo?

onde está minha amada
quando a solidão persistente
chega-me no véu do entardecer?

onde está minha vida
quando pensei que existir
não se bastasse no sofrimento?

onde está minha sombra
depois que a nuvem findou o sol
e meus olhos se fizeram tempestade?

talvez eu já ouça tua resposta
e dize-me que amanhã será outro dia
mas o amanhã já me encontrará o que sou.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 957


Rangel Alves da Costa*


“Toda luta há de ter um final...”.
“Não adianta ganhar e nada receber...”.
“Todo esforço do homem...”.
“Justifica o prêmio...”.
“Ganhar sem a glória...”.
“É ser relegado na história...”.
“Pirro venceu os romanos em batalhas...”.
“Mas nenhuma vitória obteve...”.
“Só a dor e o sofrimento profundo...”.
“De não ter Roma aos pés...”.
“Para aclamar sua glória...”.
“E depois retornou como um derrotado...”.
“Como todo aquele que vence em parte...”.
“Mas a outra parte não vem como prêmio...”.
“E ao invés da vitória completa...”.
“Vai se sentir derrotado pelo que não conseguiu...”.
“Por isso lutar até o fim...”.
“Que sangre o corpo e se esvaiam as forças...”.
“E mesmo a derrota será uma vitória...”.
“Por ter sonhado e buscado vencer...”.
“Eis o exemplo da luta incessante...”.
“Eis o exemplo da persistência do sonho...”.
“Cuja vitória sempre é conseguida...”.
“Ainda que nenhum troféu seja comprovação...”.
“Tal vitória se dá no espírito...”.
“A alma se glorifica pela justeza da luta...”.
“Todo o ser se reconhece como vitorioso...”.
“Porque não foi vã sua luta...”.
“E que lutará novamente...”.
“Ou quantas lutas precise lutar...”.
“Fazendo valer seu direito...”.
“E garantindo seu próprio na vida...”.
“Diferente na vitória sem conquista...”.
“Quando o prêmio pode ser conquistado...”.
“Mas o alcance não foi merecido...”.
“Eis que nem toda luta possui vitorioso...”.
“Nem todo fracasso é uma derrota...”.
“Difícil é fazer a guerra sem ter inimigo...”.
“Difícil é lutar na guerra sem conhecer o inimigo...”.
“Difícil é retornar da guerra...”.
“Carregando a vitória na luta...”.
“Mas de alma padecente...”.
“Sangrada e sofrida...”.
“Porque venceu uma guerra...”.
“Que não era sua...”.
“E nem deveria ser de ninguém...”.


Poeta e cronista
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segunda-feira, 27 de abril de 2015

A MENINA E A BONECA DE MILHO


Rangel Alves da Costa*


Era uma vez... Sim, era uma vez porque toda história bonita deve começar assim, indicando que algo alegre ou triste aconteceu e que precisa ser contado. Então conto o que me contaram...
Era uma vez uma menina muito pobre, vivendo num mundo distante da cidade grande, filha única de uma família que mal tinha o alimento do dia a dia. Não estudava porque a escola mais próxima ficava a meio dia de caminhada, não tinha amigos na mesma idade porque não havia outra casa na vizinhança.
Aos três anos, com muito esforço seu pai lhe presenteou com uma bonequinha de plástico. Dessas toda nua e com cabelo que não suporta um puxão. Mas daí em diante a bonequinha se tornou sua companheira inseparável. E com ela continuou até que o cachorro segurou o brinquedo na boca e deu sumiço.
A menina chorou dois dias e duas noites. Já estava com mais de cinco anos e os pais ficaram num aperreio danado ao ver o sofrimento da filha. E o pior, não poder fazer nada que a agradasse. O pai, desesperado com a tristeza da menina, logo procurou alguma coisa que trouxesse de volta aquele singelo sorriso.
Caçou uma borboleta de duas cores, mas a menina soltou-a num sopro entristecido. Trouxe um passarinho do mato, mas a filha fez a mesma coisa. Cortou pedaço de pau para uma casinha de bonequinha, mas foi pior. Não queria casinha de boneca se não existia mais a boneca, disse a menina chorando.
O pai chamou a esposa num canto e disse que tudo já tinha feito e agora não havia mais o que fazer, a não ser deixar o tempo passar até que ele fosse até a cidade e ver se sobrava algum tostão para comprar outra boneca na feira. Então tá certo, mas ela precisa comer, disse a esposa.
Então o pai se dirigiu até o roçado para catar algumas espigas de milho verde para colocar na panela. A menina gostava de milho e talvez ela esquecesse um pouco o motivo do sofrimento e comesse uma ou duas espigas. E depois certamente adormeceria para acordar mais confortada.
Ao retornar do roçado com uma braçada de milho verde, o pai cuidou de colocar as espigas num tronco diante da casa e gritou para que a esposa fosse até ali para retirar as palhas. Ao ouvir a voz do pai, a menina levantou a cabeça na janela e pareceu não acreditar no que via.
Das espigas colocadas no tronco, uma mais novinha se sobressaia pela verdura da palha e pelos fiozinhos dourados que desciam feitos cabelos alongados. Uma boneca, uma boneca, eu quero essa boneca pra mim, gritou a menina, já correndo na direção das espigas.
Mas é só uma boneca de milho novo, minha filha, muito diferente daquela que você tinha e que era de plástico, disse a mãe. Mas eu quero essa pra mim, eu quero brincar com ela, insistia a menina, enquanto recebia sua boneca de milho.
Como se sabe, toda boneca de milho possui espiga molinha, cabelos que descem além da palha, formando um brinquedo perfeito para quem gosta de se divertir com os encantos inusitados da natureza. E aquela boneca era linda mesmo, só que com efêmera duração de vida.
A menina não sabia, mas se ela quisesse brincar com boneca de milho não havia lugar melhor que no próprio roçado, junto às plantas ainda verdejantes. Aquela bonequinha que tinha em mãos, por mais carinho e cuidado que recebesse, não duraria mais que dois dias. Logo a palha começaria a secar, a espiga endurecer e os cabelos caírem totalmente.
Os pais sabiam que não duraria muito aquela alegria da filha. O temor maior era que o sofrimento voltasse e ela novamente definhasse de vez. Mas era tão bonito e festivo ao coração vê-la assim tão feliz e contente, sorrindo e conversando com sua bonequinha, que o pai segredou à mãe o que poderia fazer para prolongar aquele estado de felicidade.
E assim, quando a noite caía e a menina dormia ao lado da bonequinha, o pai corria até o roçado e trazia uma boneca de milho nova. Ao acordar e não percebendo nada, a menina voltava ao encantamento. Mas numa manhã a menina achou sua boneca diferente, maior e mais envelhecida.
É que como a gente, a boneca de milho também cresce, vai envelhecendo, tentou justificar a mãe. E disse isso já com o coração dolorido, pois sabia que não demoraria muito para não restar uma espiga de milho sequer. O roçado já estava seco, as plantas murchando, tudo esturricando.
Chegou o dia que não havia mais nenhuma espiga de milho para ser reposta ao lado da filha. A menina acordou com sua boneca com as palhas secas e tristes, com os cabelos rareando e prestes a cair. Então, por instinto, ela foi tirando as palhas de cima e deixando as mais novas. Até que não restava mais nenhuma palha e a boneca, com grãos secos e sem cabelos, ficou completamente nua.
Diante da boneca nua, a menina chamou os pais e disse que seu brinquedo estava muito doente e que ia morrer. Mas pediu para ficar com ela assim mesmo, até que sumisse de vez de suas mãos. E continuou, até que ela renasceu quando as chuvas novamente caíram e os pés de milho brotaram da terra.


Poeta e cronista
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Dois mundos (Poesia)


Dois mundos


De sapato nos pés
ainda assim sinto espinhos
e grãos de areia da minha terra

tento avistar a catingueira
depois da curva da estrada
e só encontro a construção
de cimento e ferro sem vida

não há cancela nem bicho
não há luar nem cantiga
não há passarinho nem riacho
não há a natureza chamando
nem manhã de café torrado

o que tenho encontrado
que nunca conheço a razão
é o que chamam aos gritos
aos berros e bramidos roucos
doidos chamando os loucos.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 956


Rangel Alves da Costa*


“Numa noite qualquer...”.
“Debaixo do clarão da lua...”.
“Vou fazer serenata...”.
“Vou dedilhar violão...”.
“Vou cantar a canção...”.
“Para o meu amor...”.
“Sou amante antigo...”.
“De verso e de flor...”.
“De presente singelo...”.
“Para agradar meu amor...”.
“Sou amante de um tempo...”.
“De luas e estrelas...”.
“De perfumes de brisa...”.
“De mãos dadas em passeio...”.
“De sentimentos reais...”.
“Como é bom amar assim...”.
“Meu amor...”.
“Como e bom sentir assim...”.
“Meu amor...”.
“Amor de janelas e bilhetes...”.
“De olhares e sorrisos...”.
“De beijos jogados no ar...”.
“De quimeras e fantasias...”.
“Num mundo todo encantado...”.
“Para a festa do amar...”.
“Assim é o meu amor...”.
“Sublime e singelo...”.
“Com versos a declamar...”.
“Retratos em preto e branco...”.
“Maçã do amor de presente...”.
“Flor recolhida em jardim...”.
“E na paixão fascinante...”.
“Tudo lua e tudo estrela...”.
“Abrir os braços na noite...”.
“E fazer da saudade um abraço...”.
“Fazer da escuridão...”.
“Um caminho de luz e encontro...”.
“E espera que venha...”.
“E ao chegar ouça minha canção...”.
“Ou pela fresta da janela...”.
“Ouça a minha canção...”.
“Ou no silêncio do quarto...”.
“Ouça minha canção...”.
“Que será sempre a nossa canção...”.
“Na mais linda serenata...”.
“Que do amor possa ecoar...”.


Poeta e cronista
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domingo, 26 de abril de 2015

O MUNDO E A EVOLUÇÃO AO ABISMO


Rangel Alves da Costa*


O nosso tempo possui mais questões e problemas do que imagina qualquer filosofia. Mesmo sendo um tempo de avanços inimagináveis nas ciências e no conhecimento, ainda assim um tempo de métodos e ações tão antiquadas quanto o primitivismo humano.
No passo da estrada, o que infelizmente se constata é uma evolução ao abismo. As conquistas primordiais não conseguem afastar o homem desse caminho ao penhasco de sua própria ignorância, cegueira e vilania. Em meio a todas as estradas, sempre prefere aquela que contradiga o bom senso e a racionalidade.
Os impulsos científicos e tecnológicos não produziram qualquer consequência útil à mente humana. O homem se rodeia do moderno mas continua com a mentalidade muito aquém do seu tempo. Adiante dos olhos o vislumbre, a tecnologia desafiadora, porém interiormente a cegueira continua latente.
Em muitas situações avistam-se regressões absurdas. Quando se imaginava que o instinto selvagem era coisa do passado, do homem das cavernas vivendo entre feras, eis que o sujeito moderno se bestializa de forma ainda aterradora. O ser bruto e violento continua agindo desenfreadamente.
Do mesmo modo, o novo parece não ter feito muito bem ao homem moderno. Saiu da cartilha, da palmatória, do castigo no canto da sala, mas jamais aprendeu ler o livro da vida. Deixou de ter aulas de religião e de folhear as lições do catecismo e hoje sequer entra numa igreja. Diz que não tem tempo para Deus, apenas para si mesmo.
Antigamente o homem vivia em ambientes com mais presença da natureza e sabia respeita os recursos naturais. Depois teve que aprender na escola as consequências da degradação ambiental, da destruição da natureza e do que está reservado à humanidade com a continuidade da devastação. Mas não aprendeu, apenas decorou e sequer se incomoda que um rio morra ou não.
A violência moderna supera todas as brutalidades passadas. O homem sempre foi violento, matou para sobreviver, destruiu vidas para demarcar e defender territórios, guerreou fazendo escorrer rios de sangue. Inadmissível sob todos os aspectos, mas havia uma motivação. Mas o homem moderno simplesmente viola a vida alheia por violar, pelo prazer da ação bestial.
Não é do ser da caverna não, mas do homem do mundo novo que a valorização da vida se reduziu a nada. Ora, tanto faz matar um como cem de uma só vez. O que o terrorismo e o fundamentalismo fazem senão tratar a vida como algo sem qualquer significância? Passam a espada em inocentes como se estivessem brincando, fuzilam indefesos como se estivessem treinando para uma guerra maior.
É um tempo sem limitações humanas, mas quase sempre de forma negativa, temerosa, apavorante. A segurança pública profissionalizou-se, mas muito mais o bandido, o ladrão, o meliante de esquina. E a bandidagem nunca duvida sobre o que tem mais valor, se um objeto ou vida. Leva o objeto e deixa a pessoa sem vida.
O homem moderno não só está infinitamente mais violento como também mais covarde, passivo, submisso por desejo próprio. Ao menos no caso brasileiro, o que se tem é um povo que se compraz com o sofrimento, com a escravização aos ditames políticos e governamentais, com a avalização de tudo de ruim que lhe aconteça. Ora, reclama agora e amanhã já estará defendendo apaixonadamente os mesmos partidos e políticos.
Um tempo novo e de desaparecimento dos laços familiares, do respeito dos filhos para com os pais, do descaso destes para com os seus. Filho, dono do mundo e da vida, sequer diz aos pais por onde e com quem anda, o que faz ou o que evita fazer. Pais que não reconhecem os filhos, filhos que negam a existência dos pais. E assim tudo sucumbe no seio familiar.
E que tempo novo e de novidades. A cada dia o surgimento de uma nova droga e o aumento do número de viciados. Quarteirões inteiros tomados de drogados, traficantes e míseros usuários. E a vida acontecendo ao redor sem que nada daquela degradação de vida mereça uma ação enérgica das autoridades e poderes públicos. A preocupação sempre chega tardia, e apenas quando o problema já está dentro de casa.
Contudo, a constatação maior do caminho ao abismo é a passividade como o ser humano trata questões que o aflige e a toda população, bem como o seu sentimento de aceitação dos absurdos surgidos a cada dia. Ao aceitar o desandar de tudo, logicamente que jamais abrirá a boca ou dará um passo para lutar por algum direito ou contestar a tirania do mundo.
Eis o mundo novo. Novo e assustador. E que certamente será destruído pelo acúmulo incessante de novidades negativamente assimiladas por todos.


Poeta e cronista
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O pomar (Poesia)


O pomar

Saudade
no gosto da manga
uma tristeza
cheirando a goiaba
e a solidão
no sabor do sapoti
não sei a fruta
da dor e da angústia
não sei do gosto
da aflição e da melancolia
mas se for melancia
não quero seu doce

eis o meu pomar
gosto de fruta
mas dói tanto provar.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 955


Rangel Alves da Costa*


“Miséria humana...”.
“Ter sempre que conviver...”.
“Com o além do nosso desejo...”.
“Sendo sempre submetido...”.
“Achincalhado e subjugado...”.
“Por insanas imposições...”.
“De um contrato natural...”.
“Que foi quebrado pelo Estado...”.
“E que agora se arvora...”.
“Do direito de fazer o que bem entender...”.
“E como e quando quiser...”.
“Sem que eu tenha o direito de reclamar...”.
“Triste sina a do homem...”.
“Que perde sua essência natural...”.
“Por causa da uniformização da vida...”.
“Tornando-se objeto apenas...”,
“De impostos, taxas, tributos...”.
“Deveres e obrigações...”.
“Ordens e obediências...”.
“Escravizações e submissões...”.
“Quero de volta minha essência...”.
“O meu direito natural...”.
“O meu sentido selvagem...”.
“A minha liberdade sem limitações...”.
“A nudez completa...”.
“A liberdade completa...”.
“A natureza completa...”.
“O instinto de compartilhamento...”.
“A fruição dos bens da vida...”.
“A certeza da existência...”.
“Nada que se impõe é desejado...”.
“Nada forçado tem validade...”.
“Assim como o relógio e o tempo...”.
“O seu passo é o da existência...”.
“Assim como o vento soprando...”.
“O destino é sem amarras...”.
“Não precisamos de leões...”.
“Nem de feras famintas...”.
“No nosso circo de vida...”.
“Somos gladiadores de nós mesmos...”.
“E tal fato basta ao sofrimento...”.
“Por isso sempre inadmissível...”.
“Que surjam outros senhores...”.
“Querendo escravizar os sonhos e a vida...”.
“Querendo subjugar nossas manhãs...”.
“E ameaçar nossas tardes...”.
“E ter em mãos nosso destino...”.


Poeta e cronista
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sábado, 25 de abril de 2015

OS ANÉIS E OS DEDOS


Rangel Alves da Costa*


Vão-se os anéis e ficam os dedos. É verdadeiramente difícil encontrar alguém que ainda não tenha ouvido tal ditado popular. E também que enquanto os cães ladram a caravana passa. Os dois ditados possuem quase o mesmo sentido. O primeiro significando que não importa perder o supérfluo quando a essencialidade permanece. E o segundo denotando que nenhuma ameaça pode impedir o prosseguimento da caminhada.
No contexto, os dois provérbios afirmam da força existente no ser humano para superar os desafios, se refazer e seguir em frente. Por mais que valorosos sejam os anéis, pois ornados de ouro ou enfeitados de diamantes ou pedrarias, ainda assim jamais podem ser vistos como mais importantes que os dedos. Sem onde colocá-los, perderiam sua destinação e sua importância material. Assim, mesmo que sejam subtraídos ou desapareçam pelos acasos da vida, novamente poderão ser adquiridos e recolocados no mesmo lugar. Mas sem os dedos nada poderia alcançar o mesmo efeito.
Sua simbologia é também de grande alcance. Os anéis são metáforas de aparências, de riquezas materiais, de posses, de luxo, de egoísmos e vaidades. Fazem também lembrar os supérfluos da vida aos quais as pessoas tanto se apegam, aos brilhos que encantam sem produzir qualquer engrandecimento espiritual. Já os dedos simbolizam a própria vida, a alma, o espírito, o ser humano na sua existência. Dedos são as permanências, as bases, os troncos, sustentáculos e enlaçamentos às realidades da vida. Os anéis apenas os enfeitam, mas tanto faz que estejam por cima reluzindo.
Sem os anéis os dedos permanecem para conquistar outros e mais valiosos enfeites dourados. Sem os anéis os dedos se mostram mais livres, mais soltos e desimpedidos para alcançar o que desejar. Sem os enfeites são mais reconhecidos como tais, vez que as molduras acabam escondendo essencialidades nas coisas. E sem os dedos apenas os anéis jogados, perdidos, esquecidos, guardados em baús ou caixas de joias. Mesmo que os sentimentalismos amarguem tanto suas perdas, difícil mesmo seria o refazimento se, ao invés das joias, os dedos é que fossem levados.
Mas perder os anéis e continuar com os dedos remete a muitas outras considerações. Em primeiro lugar, coloca-se a vida como fator primordial no ser humano. O fato de existir, de ser possuidor de uma vida, deve ser considerado como elemento fundamental, de importância maior, vez que todo o restante poderá ser conseguido através dela, da existência. É o fato de continuar existindo que possibilita as conquistas, que torna possível ao homem ser merecedor, através de sua luta e obstinação, daquilo que sonhou realizar.
Ora, tendo a vida e nela a saúde, o encorajamento para lutar, a força para alcançar os objetivos, o restante será apenas uma consequência. Mantendo-se a vida, todo o resto pode oscilar ou surgir como momentâneo desacerto, pois ela permanece como base fundamental para tudo conquistar, insistir e recomeçar. Em tal contexto, de nada adiantaria o poder e a glória se a seiva da existência não passa de aparência outonal e a próprio ser está fragilizado de tal modo que não suportaria um sopro mais forte de ventania.
A outra expressão, afirmando que a caravana passa enquanto os cães ladram, apenas reforça a dualidade do efêmero e do essencial no ser humano. O latido ou ladrar dos cães são de fortes simbologias. E simbolizam ameaças, surgimento de empecilhos, tentativas de frustração da caminhada, problemas que surgem no meio do caminho e que precisam ser vencidos. E os latidos sempre existirão, o homem sempre os ouvirá ao despontar nas curvas da estrada. A intencionalidade maior é para que recue, não prossiga, desista dos planos.
Mas o ladrar dos cães significa também a inveja, a cobiça, a tentativa de provocar insucessos ou minimizar as vitórias conseguidas. Sempre haverá uma boca maldosa ou um coração mal-intencionado querendo destruir ou diminuir a força do próximo. Tenta-se, obstinadamente, obscurecer o sucesso alcançado e relegar ao plano da insignificância a vitória conseguida. E tudo por inveja, maldade, insensatez. Mas haverá de continuar ladrando enquanto a perseverança segue adiante, sem dar importância à pequeneza humana.
Os anéis e os cães são, assim, forças aparentes que tentam subestimar a força do ser. Nenhum anel é maior valioso ou importante que um dedo humano, nenhum cão pode forçar o recuo com seu latido ameaçador. Será preciso seguir em frente sem se submeter ao brilho do anel nem a ferocidade do cão. Ou assim age ou será devorado pelas aparências exteriores.


Poeta e cronista
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Pelo mar (Poesia)


Pelo mar

Navegador
que sou
teu corpo mar
e viajar
tua boca mar
e navegar
querer o mar
e amar
amar

amo o mar
desde teu cais
ao teu olhar
uma vela aberta
além singrar
no teu corpo
imenso mar
de amar
amar.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 954


Rangel Alves da Costa*


“Noite e o espelho...”.
“Da noite em mim...”.
“Não sei se sou eu...”.
“Ou se a noite desceu...”.
“Triste assim...”.
“Espelho sem lua...”.
“Apenas escuridão...”.
“Um errante de rua...”.
“Ventania de estação...”.
“Solidão...”.
“Solidão...”.
“Solidão...”.
“No trem da noite...”.
“O trem que não vem...”.
“Prece de dor...”.
“Sem amém...”.
“Com dói ser assim...”.
“Um espelho de noite...”.
“Uma noite sem fim...”.
“Sem rosa nem flor...”.
“De jasmim...”.
“Apenas a noite...”.
“Sem anjo querubim...”.
“Uma dor de chorar...”.
“Um tempo ruim...”.
“Em tudo a escuridão...”.
“A tristeza e o desvão...”.
“Tudo assim...”.
“Esperando o sono...”.
“Que não vem...”.
“No apito do trem...”.
“Que não vem...”.
“Pois nada chega...”.
“Nada desponta na estrada...”.
“Tudo silêncio e dor...”.
“Solitária estação...”.
“Tanto desamor...”.
“E tanto quero partir...”.
“Tanto quero fugir...”.
“Mas sem ter aonde ir...”.
“Tudo é escuro...”.
“No espelho e em mim...”.
“E quando o trem chegar...”.
“Talvez seja fim...”.
“Um adeus sem face...”.
“A morte enfim...”.


Poeta e cronista
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sexta-feira, 24 de abril de 2015

CULTURA DE FEIRA


Rangel Alves da Costa*


Toda vez que alguém chega a um mercado municipal ou feira livre, da mais modesta a mais organizada, logo se torna envolvido por tamanha grandeza cultural que sequer imagina. Por todo lugar a expressão máxima de um legado e do ofício de um povo, e tanto no que está sendo exposto à venda como no que cada um daqueles típicos feirantes carrega sobre si. É uma cultura que se manifesta de forma viva e ainda despojada das influências negativas dos modismos e das imposições midiáticas.
Praticamente tudo é cultura nos mercados e feiras livres. Cultura enquanto arte de fazer, de criar, de não relegar ao esquecimento as raízes do próprio povo. No retratista ainda presente, no cordame pendurando cordel, nas plantas medicinais, nos objetos moldados no couro e no barro, nos entalhamentos de madeira, no balaio com temperos e folhas secas, nos tabuleiros de doces e iguarias, nos vidros com remédios caseiros milagrosos, nas garrafadas com achados para a cura e a imortalidade.
É uma cultura de raiz, de chão, de crença, de sobrevivência e de preservação ancestral. Ano após ano, desde o passado distante, os mercados e feiras oferecem aos visitantes utilidades e suprimentos que são parte da história cultural de cada geração. É da cultura nordestina a utilização de raízes e folhas de plantas medicinais para o tratamento de doenças. E sempre elas serão encontradas naqueles espaços. É da cultura popular o acompanhamento das sagas e dos grandes feitos através da literatura de cordel. E os cordéis fazem parte do mundo múltiplo das feiras livres.
Muitos, geralmente acostumados a caminhar pelos locais objetivando apenas adquirir produtos e alimentos, sequer atentam para o contexto cultural que os envolve e a profunda significação ali presente. Imaginam que uma panela de barro é apenas um utensílio moldado na argila e colocado à venda, que a rapadura é apenas um tijolo açucarado de refugo de engenho, que a corda é apenas um trançado de cipó com serventia de amarração, que a garrafada de mel com alho e outros ingredientes é apenas um remédio caseiro para o combate da tosse. Não observam, contudo, a cultura presente em cada um desses simples produtos ou objetos.
A moringa e o pote de barro, por exemplo, remontam aos primórdios e ainda hoje estão presentes nas feiras livres. São objetos de uso doméstico, mas também utilizados como ornamentação. E não raro são adquiridos muito mais pela beleza rústica do molde e do barro, e depois trabalhados ou envernizados para servirem de enfeite às salas luxuosas. Não se devendo esquecer que desde os tempos mais antigos que mãos rústicas apalpam a argila pegajosa num fazer cultural silencioso e de continuidade no mesmo ritual. Quando estão prontos e colocados à venda não se avista apenas o objeto de barro em si, mas a expressão da cultura de um povo.
E assim porque a cultura também é definida por essa tradição encontrada na feira, no espelho tradicional que é o mercado e proporcionando significado a cada objeto e a cada manifestação ali presentes. Tudo ali permeado de conhecimentos próprios ou adquiridos de geração a geração, lastreado nas crenças, preservado através dos hábitos e costumes. Tudo ali se caracterizando como acervo que foi enraizado no fazer cotidiano de pessoas humildes e ganhando sobrevida e preservação através da assimilação de outras pessoas.
Conceitualmente, cultura significa tudo aquilo que é produzido pelo ser humano e se manifesta através de seu conhecimento ou tradição. Envolve ideias, artefatos, costumes, leis, crenças, hábitos e os mais diversos conhecimentos. Também a forma de pensar, de agir e de se manifestar de cada grupo social. Daí se falar em cultura indígena, em cultura nordestina, em cultura africana. E é no contexto nordestino que se tem uma cultura própria se manifestando nas feiras e mercados, em tudo ali existente e que pode ser observado ou adquirido.
Diferentemente da denominada cultura erudita ou teórica, a dos mercados e feiras livres se insere no contexto da tradicional ou popular. Existem elementos culturais próprios que fazem parte da ambientação e a diferencia de outros conceitos. A cultura da feira está visível e presente no convívio dos feirantes e visitantes, nos produtos oferecidos, nas manifestações encadeadas pelos relacionamentos, nos hábitos considerados, mas principalmente na riqueza das comidas nordestinas, nos produtos artesanais, nos inusitados oferecidos pelos ambulantes e pelas barracas tão antigas quanto às próprias feiras.
Não se faz necessário alguém aponte onde está a cultura de feira. Ela está em tudo e por todo lugar. E uma cultura viva na buchada de bode, no sarapatel apimentado, no arroz doce e no mingau de puba, no bolo de milho e de leite, na cachaça com raiz de pau, no boi de barro e no chapéu de couro, no santo de madeira e na lembrança singela. E tanta cultura na expressão do anunciante de óleo de peixe boi para todo tipo de dor, no velho vendedor de fumo de rolo. Quem vai querer, grita um e grita outro. E assim a cultura vai passando da oralidade ao conhecimento e fruição dessa riqueza maior de um povo.


Poeta e cronista
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Cais do corpo (Poesia)


Cais do corpo


Há um porto
e no porto um cais
há um corpo
e no corpo um cais
um porto no corpo
um corpo que é mais
uma onda molhada
que leva e que trás
que beija a areia
e não se satisfaz

meu barco retorna
querendo um cais
um porto de abraço
um corpo e mais
esquecer a saudade
e tantos temporais
ser apenas teu
e partir jamais.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 953


Rangel Alves da Costa*


“De vez em quando...”.
“Abro a porta ao entardecer...”.
“Coloco uma cadeira na calçada...”.
“Ou no sombreado do arvoredo...”.
“E fico sentado por horas a fio...”.
“Eu e minha sombra de solidão...”.
“Pois gosto desse momento...”.
“Gosto de estar assim...”.
“Sentindo a fresca da tarde...”,
“Avistando a revoada...”.
“Envolto em saudades...”.
“Lembranças e recordações...”.
“E conversando sozinho...”.
“Ai como gosto dessa prosa...”.
“Desse conversar comigo mesmo...”.
“Nem me incomoda que falem...”.
“Que digam que estou enlouquecendo...”.
“Amalucado por tanto falar sem ouvinte...”.
“Mas como dizia o outro...”.
“É sempre melhor confiar em si mesmo...”.
“Mas nem por isso eu falo tanto...”.
“Converso porque sinto necessidade dessa voz...”.
“Desse estímulo interior que tem muito a dizer...”.
“Verdade que não ouço o que digo...”.
“Pois apenas falo...”.
“Mas certamente nada que não merecesse ser ouvido...”.
“Eis que a mente não inventa demais...”,
“Quando a pessoa sabe o que pensa na vida...”.
“Contudo, se pudesse falar e ouvir...”.
“Gostaria de escutar minha boca...”.
“Dizendo coisas assim...”.
“Não há terra que não mereça um grão...”.
“Não há solidão que não seja visitada...”.
“A estrada é de labirintos e também de flores...”.
“A poesia do vento chegando esvoaçando palavras...”.
“Viver a vida inteira acorrentado à esperança...”.
“Ao desatar o nó, eis que um laço se forma...”.
“A dificuldade é para ser vencida...”.
“Não se puxa boiada olhando pra trás...”.
“Os dias que passam são semente lançadas...”.
“A terra boa se espalha no coração...”.
“Não há amor sem sofrimento...”.
“E não há sofrimento sem uma recompensa...”.
“Assim ter a certeza de um amanhã bem melhor...”.
“Mas por enquanto esperar aqui...”.
“Sentado na cadeira de balanço...”.
“Fazendo da memória a escrita...”.


Poeta e cronista
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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Jozailto, que abre a porta e sai


Rangel Alves da Costa*


A manchete na boca do povo e por todo lugar: Jozailto Lima saiu do Cinform. A notícia grafada na surpresa e no espanto foi tão retumbante quanto aquelas estampadas no semanário e que costumeiramente faziam políticos estremecer ou suar frio debaixo da maquiagem. Dessa vez a manchete é outra, silenciosa, de bastidor, apenas com uma porta se abrindo e o grande jornalista saindo em busca de argila para moldar no barro o seu destino daqui em diante.
E Jozailto Lima sabe moldar o barro com a maestria dos grandes artesãos da vida, da escrita, da poética, do jornalismo inteligente. Não fosse sua poética e sensibilidade teria sucumbido às ofensas e transformado seu ofício numa arte mesquinha e de confrontos baratos. Mas não, sempre procurou avistar os acontecimentos através do espelho da realidade, de modo coerente e ético, e por isso mesmo conseguindo imprimir uma característica atualmente rara de se fazer jornalismo: somente a verdade.
Baiano de Várzea de Poço, desde muito radicado em Sergipe aonde chegou para fincar raiz, é ser humano que vai muito além da fama surgida. Ele é assim mesmo, mas também diferente. O homem, quando encontrado no seu estado de barro e de palavra, logo revela sua outra feição: um jovem sonhador, inconformado com as mesmices da vida e do mundo, alguém que se despoja do seu ofício de redação para ser o mais simples dos seres humanos. E sempre falando sobre sua poesia e suas raízes avistadas em cada verso. Aí o homem argila influenciado pela construção poética de Manoel de Barros.
Conheci Jozailto nos bancos acadêmicos e muito mais nos proseados do dia a dia. E ele continuou exatamente como nos tempos idos, amigueiro e brincalhão. Um dia chegou com um punhado de versos debaixo do braço e logo montamos uma exposição. Num tempo sem as facilidades do computador, eu caprichava no pincel atômico para que as letras ficassem legíveis. Foi um sucesso. E merecidíssimo sucesso alcançaria depois, tanto como poeta laureado, escritor de renome e jornalista consagrado. E assim continua em pleno reconhecimento.
Mesmo já carregando na bagagem uma vasta experiência no jornalismo, Jozailto teve que revirar mundo para vencer as dificuldades impostas por alguns que se diziam defensores do legalismo jornalístico em Sergipe. Estudava jornalismo apenas para oficializar o que já dominava com arte. E por isso mesmo era seguido de longe para que não pudesse entrar em qualquer redação. Quando entrou no Jornal de Sergipe, logo teve de sair por força das perseguições. Sua escrita já despertava a ira de alguns.
Em setembro de 93, numa época em que o Sindicato dos Jornalistas de Sergipe promovia ferrenha perseguição aos que dizia se arvorar da profissão de jornalista sem a conclusão do curso de Comunicação Social, Elenilton Pereira, atualmente diretor do Jornal do Dia, em artigo intitulado A Ladainha da Perseguição, fazia uma defesa contundente do colega de faculdade. E assim escreveu no Locus (publicação mensal do CESEP):
“No ano passado, Jozailto Lima - que encabeça a nota como um dos "charlatães mais agressivos do momento" (sic) - foi demitido do Jornal de Sergipe, depois que a entidade de classe acionou a DRT. (...) Está provado que não importa onde, como e em que Jozailto Lima trabalhe, seja carroceiro, faxineiro, vidraceiro, vendedor ambulante, assessor parlamentar, adjunto de gabinete, não tem escapatória, o Sindicato dos Jornalistas vai estar lá dizendo que ele não pode exercer a profissão. Que profissão? Na realidade o único pecado de Jozailto Lima é saber escrever. (...) Jornalista registrado na DRT da Bahia, trabalhou no Jornal Feira Hoje, ocupando a editoria de política por 8 anos, correspondente da Tribuna da Bahia, tanto em Feira de Santana como depois em Aracaju, produtor e editor de texto da TV Subaé. Aqui em Sergipe, Jozailto começou como repórter do Jornal de Sergipe, chegando a Secretário de Redação por um período dois anos. (..) Com 12 anos de profissão, Jozailto Lima merecia, no mínimo, um tratamento melhor por parte daqueles que insistem em persegui-lo”.
Mas Jozailto não soprou a mesma fogueira para os seus inquisidores assim que obteve seu diploma nas terras sergipanas. As perseguições talvez tivessem servido como preciosas lições e a partir daí passou a mostrar que era jornalista por vocação e não por mera formação. E foi alcançando uma importância tal que hoje em dia a imprensa sergipana deve-lhe gratidão pela grandiosidade alcançada através de seu ofício.
Atualmente, o nome de Jozailto Lima ecoa com justo reconhecimento por todo o estado de Sergipe, principalmente pelo trabalho realizado à frente da editoria do Jornal Cinform, que agora deixa depois de 22 anos. Recolhi num texto escrito por ele e publicado nas redes sociais com o título “Hora do adeus e da gratidão”, as seguintes palavras:
“No Cinform e pelo Cinform, maturei um nome profissional. Fiz-me visível. Tenho uma razoável inserção e um considerável respeito na vida de Sergipe – Estado que aprendi a amar e a respeitar desde a primeira hora. Se tivesse que fazer tudo de novo, não mediria esforços: faria. Acolho e cevo meus erros, que vêm muito da visceralidade de tudo o que faço. Da minha passionalidade. Identicamente, acolho e cevo meus acertos”. E prossegue: “Quanto a mim, seguirei o caminho do comunicador que tenho sido há exatos 32 anos. E, feito a mulher de Ló, sem remorso de olhar para trás, uma vez que 22 anos não se apagam com uma simples topada na pedra do adeus. Mas estejam certos de que não me converterei numa estátua de sal”.


Poeta e cronista
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Carcará carniça (Poesia)


Carcará carniça

Bicho morto é vida
resto apodrecido no tempo
animal que fraquejou de morte
mas para o carcará faminto
é prato na seca e na sorte

carcará avoeja agourando
lá embaixo o tempo é ruim
um cabrito magro é sua cobiça
e afia o bico em voo rasante
e logo o prazer da carniça.


Rangel Alves da Costa