SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

LIMPEZA GERAL



*Rangel Alves da Costa


Fruta podre apodrece toda a fruteira, diz a sabedoria popular. O mal deve ser extirpado de onde ele surja para salvar o restante. É uma questão de extirpar o imprestável para salvar o que ainda tenha valia.
O que não nos anima, também não nos alegra e não nos contenta, deve ser afastado em nome do prazer pela vida. O viver não suporta ser dividido com metade de dor e outra metade de sofrimento.
Por que continuar aceitando o convívio com a erva daninha, com o imprestável, com o que ao invés de florescer e frutificar se presta apenas a definhar a existência? Será preciso separar o joio do trigo.
Por que continuar alimentando o mal no compartilhamento daquilo que não se presta a nada de bom? O mal compartilhado é mal que vai se enraizando ainda mais.
Pessoas que fazem sofrer, que são negativas, que exalam odores de impurezas de espírito, que atrasam a caminhada ao que seja bom e vão levando aos beirais do abismo, estas não possuem serventia alguma.
E conhecemos muita gente assim, convivemos e suportamos muita gente assim. Mas vale a pena continuar negativando a si mesmo pelo lado sempre negro do outro?
Vale a pena deixar de caminhar, de ser feliz, de cantar e voar, apenas por que não quer deixar para trás aquilo que tudo faz para a sua infelicidade?
Vale a pena continuar segurando a mão de quem deseja lhe afundar para depois alcançar saída subindo nas suas costas?
Ou, como diz ainda a lição popular, vale a pena querer transformar em flor aquilo que nasceu para ser eternamente pedra?
Vale a pena abrir portas e janelas a quem se compraz em viver na escuridão e ao breu também levar todo aquele que lhe queira ajudar?
Pau que nasce torto, no encurvamento total morrerá. Defeito de fábrica não se conserta com a cola da paciência nem com o desejo de ajudar.
Infelizmente há gente que nasceu para o lado negativo da vida e vive sentindo prazer em trilhar para o mal, para a imprestabilidade, para fazer somente o que não presta.
Sente orgulho em ferir, sente prazer em menosprezar, sente conforto em arruinar. Há muita gente assim, uma gente de plena falsidade, de plena maldade, de plenitude da imprestabilidade.
Pessoas que olham querendo envenenar, que tocam querendo apunhalar, que falam querendo destruir. Pessoas que são inimigas enquanto revestidas de sorrisos, abraços e palavras. Tudo falsidade.
Vale a pena compartilhar a já tão difícil existência com pessoas assim? Creio que não. E não vale pelo fato de a pessoa ter de escolher os caminhos que sigam adiante, e não aqueles que recuem ou possam levar ao abismo.
Por mais que doa, por mais que surja algum sofrimento, o afastamento de tais pessoas torna-se tão necessário como urgente.
Ou a pessoa se afasta ou continuará comendo do mesmo farelo, do mesmo esterco, do mesmo esgoto. Quem com porcos se mistura, um dia vai exalar a mesma putrefação do chiqueiro.
Ou a pessoa se afasta ou logo já será tarde demais para salvar o que lhe resta de honradez e prazer pela vida. E fugir do submerso para a superfície, do abismo para a luz.
Urge, pois, uma limpeza geral. E tanto moral como espiritual. Que o mal continue se alimentando de sua própria maldade e que no abandono e na dor se destrua.
Mas distante - e bem distante - de quem já abriu a porta para os bons e ensolarados caminhos da vida.


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Lá no meu sertão...



FELIPE E RANGEL - Há contentamento maior do que receber a visita de uma criança linda e maravilhosa igual a Felipe Lameu? O pequeno Felipe Lameu, Rei do Xaxado de Poço Redondo - e já trazendo consigo a responsabilidade de manter vivas nossas tradições culturais - causa-me um encanto tão profundo que de repente me vejo como um fã perante sua estrela. E ele é uma estrela sim, um astro de sorriso belo e cativante, um ser iluminado e de futuro igualmente brilhante. Que estejamos sempre juntos, amigo Felipe!




Traição no motel (Poesia)



Traição no motel


Que coisa mais estranha
mas desse mundo só de manha
que dois casados
pulassem o muro apaixonados
e arriscando entre o doce e o fel
satisfizessem seus pecados em motel

ela dizendo ser muito bem casada
com o marido se mostrando apaixonada
mas na surdina só tramando traição
e a outro se entregando com vontade
de mostrar que não há mais fidelidade

ele jurando à sua esposa eterno amor
tão recatado que se imaginava de pudor
mas fora de casa sua máscara ia ao chão
à sua amante jurando amor e até paixão
e os dois vivendo em dupla traição
só o motel testemunhando tal desvão

mas uma noite tudo deu reviravolta
defronte o motel a traição deu sua volta
quando saíram encontraram uma surpresa
os dois traídos ali juntinhos em beleza
para espanto dos amantes traiçoeiros
no motel os dois entraram bem ligeiros.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - minha tia que mijava em pé



*Rangel Alves da Costa


Somente homem mija em pé. É assim que costumeiramente se diz. Acaso o homem urine de cócoras logo vem a galhofa: é mulherzinha, é mulherzinha! Mas minha tia mijava em pé e não estava nem aí. Aliás, nem se escondia pra deixar o mijo descer. Logicamente que eu achava aquilo tudo muito estranho. Mais de vez fiquei me perguntando o por quê de ela fazer assim, principalmente porque eu pensava que toda mulher só urinava acocorada, fosse no urinol, no vaso sanitário ou mesmo no matinho. Contudo, minha tia insistia em quebrar toda lógica e toda regra. Não era sapatona, como se diz. Também não possuía qualquer problema nas juntas que dificultasse o acocoramento. Certamente nunca havia recebido bote de cobra enquanto fazia o serviço no meio do mato. E mais: já envelhecida e continuando a mijar em pé. Bastava se afastar um pouco, chegar num canto de quintal e começar a mijar. Certamente não usava nada por baixo. Uma coisa é certa, nunca balançou nada depois de urinar. Apenas mijava em pé e pronto. Ainda hoje, já depois de mais de dez anos de seu falecimento, eu ainda a recordo no canto da cerca. E o mijo desabando até molhar o chão.


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domingo, 16 de dezembro de 2018

MAIS DO FEIJÃO DE CORDA COM CARNE DE BODE



*Rangel Alves da Costa


No intuito de publicação em jornal impresso, o texto foi acrescido e agora republicado, mas continuando com a mesma gostosura, aroma e sabor. E uma vontade danada de querer fazer bolo de feijão, molhar na pimenta e mastigar sem pressa nem medo de engordar. Segue, então.
Não sei por qual motivo ou mistério, mas a verdade é que logo cedinho me veio um cheiro perfumado e temperado de feijão verde de corda com carne de bode. E no cheiro da panela fervendo, da comida pronta, daquele tempero autenticamente sertanejo, também uma vontade danada de comer.
Que coisa mais estranha, aprazível e apetitosa. Mulher grávida é que de repente inventa de estar sentindo esses cheiros e logo vem com inesperados desejos. Belânio de Queremilda se viu feito doido quando em meio a madrugado a mulher grávida desejou comer sopa de cabelo de boneca de milho. Ele então disse que ia à roça e nunca mais voltou.
Tais coisas acontecem, é verdade. Mas comigo foi coisa de estranhar mesmo. Dependendo da fome, até que seria normal sentir cheiro de cuscuz, de tripa, de café, mas por que logo de feijão de corda com carne de bode, como alimentos únicos e inseparáveis naquele momento? E tão cedo era que ninguém da vizinhança poderia estar preparando aquele tipo de comida. Feijão de corda cozinha rápido, carne de bode não demora muito para ficar no ponto de comer e se lambuzar.
O problema era o cheiro, o aroma temperado tanto do feijão como da carne. Era como se eu estivesse numa cozinha e já destampando a panela para sentir pelo ar aquela quentura balsâmica subindo e subindo, sendo completamente tomado pelo prazeroso perfume sertanejo. Um cheiro verdoso, temperado, apetitoso. O outro cheiro oloroso, acentuado pelos temperos, enchendo a boca de água e o estômago desejoso de saborear.
Já imaginaram: feijão de corda verdinho, novinho, preparado no tomate e cebola e recebendo um pouco de coentro já em ponto de ser servido. Já imaginaram: uma carne de bode carnudo, recém-chegada da banca da feira, lavada e bem lavada, cortada e colocada na panela com todos os temperos existentes na cozinha sertaneja. Colorau, tempero, alho, cebola, pimentão, tomate, e mais e mais. E depois deixar que o fogão de lenha ou a gás cuide do resto.

Tanto o feijão de corda como a carne de bode é de cheiro inconfundível quando está cozinhando, e também depois de pronto para ser servido. Fácil demais comprovar. Basta levantar a tampa da panela uns dois minutos depois de o fogo já estar desligado. A pessoa come ali mesmo, só com o cheiro, sem precisar de prato, garfo, colher, nada. Muita gente até despeja numa xícara o caldo ralo do feijão e bebe de se fartar. Com tiquinho de farinha também desce bem.
 Mas naquela hora da manhã - bem antes das oito - era como se eu estivesse à mesa e tendo um prato já devidamente preparado com tais iguarias. E mais: com um tiquinho de pimenta ao lado para molhar e dar um sabor mais picante ao feijão. A pimenta, aliás, faz parte desse trio de gulodice: não há feijão de corda com bode sem que o molho de pimenta esteja intrometido. Para muitos, o verdadeiro sabor vem do caldo da pimenta logo ao lado.
O sertão conhece muito bem essa história. Os de mais idade (e talvez alguns jovens) algum dia já experimentaram o feijão de corda comido em bolo. O prato é preparado normalmente, com feijão, farinha e carne, mas ao invés do garfo ou colher, a pessoa mete a mão no prato e começa a amassar a comida até formar um bolo. Depois é só levar o bolo de feijão à tigelinha de pimenta amassada no caldo do próprio bode e comer. A coisa melhor do mundo.
Realmente, comida da terra, quando sertaneja mesmo de nascença, jamais deveria ser saboreada através de garfo, faca ou colher. Na mão mesmo, fazendo bolo, passando no caldo da pimenta e comendo. Por isso que o Velho Titó antes da assentada mandava preparar a rede na varanda. Fartava-se no feijão de corda com bode e pimenta, depois mordia um pedaço de rapadura e ia sonhar comendo mais na rede logo adiante.
Sim, mas voltando ao cheiro sentido esta manhã e o meu desejo crescente de comer feijão de corda com carne de bode, peço apenas que me convidem para um simples regabofe no próximo final de semana, a partir de sexta. Não precisa nem garfo, faca ou colher. Já sabem por que.
Já sinto cheiro de sertão, de comida de feira, de regabofe sem igual. Para os apreciadores de uma cachacinha com raiz de pau, nada melhor que molhar o bico antes de encher o prato. E comer de se fartar. Uma coisa tão simples, pois apenas feijão verde, carne de bode e pimenta, mas o mais apreciado dos pratos.
Talvez Belânio de Queremilda não fugisse da casa caso a esposa grávida lhe pedisse uma comida autenticamente sertaneja. Mesmo no meio da noite ou madrugada, certeza de ele ir certeiro e prazeroso atrás de uma buchada, de um sarapatel, de um mocotó, mas principalmente de feijão de corda com carne de bode.
E duvido que ele não comesse muito mais que ela..


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Lá no meu sertão...


Feição sertaneja!



Na janela (Poesia)



Na janela


Da janela o mundo se descortina
a vida se mostra sem frestas
e os horizontes são alcançados

eu vi um passarinho voando
eu vi uma folha seca passando
eu vi a ventania soprando
eu ouvi uma velha canção ecoando
eu senti minha avó chamando
eu ouvi meu avô aboiando
e também o tempo esvoaçando

no distante menino que sou agora
só tenho comigo a janela aberta
e o que ainda posso ter na recordação.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - contrastes da vida



*Rangel Alves da Costa


Cheguei não tem muito tempo do meu sertão sergipano. Sempre estou por lá nos finais de semana, tanto por amor a terra como por outros afazeres. O sertão está bonito, chuvoso, esperançoso. Com a terra molhada e o tanque cheio, tudo se torna maravilhoso ao homem da terra. Contudo, já é um sertão citadino demais, urbano demais, já insensível e desfimiliarizado demais. Desde muito que sumiu aquela feição interiorana, de comadres, compadres, companheiros e respeito de parte a parte. Ontem mesmo, uma senhora muito importante do lugar faleceu. Era de família de nomeada, de reconhecido valor entre os seus. Também era uma das vozes da igreja católica, uma das andorinhas do Padre Mário, como se costumava dizer. A comoção foi grande prela notícia, mas ao mesmo tempo a parafernália musical quase à sua porta. Enquanto uns pranteavam, choravam a dor da perda, outros passavam bem à porta com as malas abertas nos seus veículos e sons insuportáveis na maior altura. Talvez até - ontem mesmo - tivesse havido alguma festa nas vizinhanças. Quer dizer, ninguém respeita mais ninguém, é uma negação humana que só cabe nisto chamado de progresso. Mas outra coisa não é senão a própria negação do outro pelo outro. Lamentável. Mas assim acontece.


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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

ENTRE DOIS



*Rangel Alves da Costa


Acaso o fazer poético se volte ao amor, à descrição amorosa, à louvação do desejo ou como demonstração de afeto pelo outro, somente a dois é possível demonstrar toda a força do sentimento. Não significa, contudo, que a escrita seja lado a lado, mas na perspectiva do outro.
Enquanto construção literária, como arte moldada pelos sentimentos, a poesia sempre nasce da perspectiva íntima e pessoal do poeta. Neste sentido, a poesia não pode ser impessoal nem dividida.
Contudo, enquanto construção amorosa, quando passa a simbolizar o amor, a paixão, o querer, o desejo, o namoro, a união, a poesia passa a denotar outras formas de construção: o amor sentido enquanto poesia e a própria poesia contextualizando a união.
É neste último sentido que se afirma ser o amor a mais bela poesia da existência, ser o amor a mais vívida forma poética, ser o amor a perfeição da escrita nascida de sentimentos. Tão belo e tão perfeito é o amor que não haveria outra definição senão como poesia.
É também neste sentido a afirmativa de que há poesia que só se escreve a dois. Não que os enamorados sejam poetas ou que um se inspire no outro para sua construção poética, mas a união ou o relacionamento entre os dois se afeiçoando ao mais belo poema de amor.
Há poesia que só se escreve a dois por ser o amor verdadeiro, forte, pujante, cativante e tão enobrecedor que somente um jamais seria capaz de dar vida a uma só linha, verso ou estrofe de qualquer poema. Cada linha – como num destino – depende do outro para ser escrita.
Há poesia que só se escreve a dois porque o contexto unindo os dois é de real e verdadeira poesia. Como numa moldura, basta que se aviste o retrato para logo se imaginar que ali existam pessoas que se amam e que são comprometidas com o além do meramente fotografado.
Há poesia que só se escreve a dois. Por que o amor só se ama a dois. Por que a felicidade só é compartilhada a dois. Por que a vida em dois não se compraz em ser apenas em um. Por que em dois há a soma e na divisão ainda resta o somado para ser mais amado.
Há poesia que só se escreve a dois. Um lábio só não beija outro lábio. Um corpo só não abraça outro corpo. Um olhar de mar não navega sem outro olhar chamando a navegar. Um desejo num só não é capaz de se transformar naquilo que só pode ser feito a dois. Um amor sozinho é um amor sozinho, mas o amor em dois é um amor amado.
Há poesia que só se escreve a dois. Quando se ama, não há como não ter poema perante a poesia do outro. Quando se gosta, quando se deseja, quando há o encontro de desejos e quereres, não há como não ser poesia desde o encontro ao abraço.
Há poesia que só se escreve a dois. Na distância, a saudade quer reencontrar a face do outro. Na presença, o corpo inteiro quer tocar e sentir o outro corpo. Não há um só instante de um amor onde o desejo não queiro ser acrescido pelo que o outro prazerosamente possa ofertar.
Há poesia que só se escreve a dois. Quando se está sozinho, qualquer poema surge na folha descompromissada e solitária. Não há pensamento vivo nem certeza de estar amando nem de ser amado. Outra poesia surge quando a escrita apenas reproduz aquilo inspirado pelo coração.
Há poesia que só se escreve a dois. Assim como um feijão com arroz, o amor precisa ser misturado para ter sabor. Coração de um e coração de outro, desejo de um e desejo de outro, e assim vai se somando e enraizando a semente da mais bela flor.
Há poesia que só se escreve a dois. Sozinho não sou nada senão um poeta triste e maldizendo o mundo. Sozinho não sou nada a não ser aquele que sempre rima tormento e sofrimento. Mas se surgido o amor, eis que a canção da dor vai se transformando em doces e suaves madrigais.
Há poesia que só se escreve a dois. Aprendi com ela, com o meu amor, que poesia há que só se escreve a dois. E que lindos versos nascidos em nós.


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Lá no meu sertão...



Um sertão que é belo!



Um beijo (Poesia)



Um beijo


Quem dera uma boca
uma boca sem palavra
apenas de beijo

quem dera um lábio
um lábio sem batom
apenas de beijo

quem dera beijar
e beijar com fome e sede
e pedir mais um beijo

quem dera o beijo
contínuo e incessante
como o meu amor por você.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – canção do noturno exílio



*Rangel Alves da Costa


Lua lá fora. Noite lá fora. Vida lá fora. Amores, beijos, abraços, encontros, prazeres. Tudo assim na noite lá fora. Calçadas, esquinas, cadeiras, pessoas que passam. Um mundo que vive seu mundo lá fora. Mesas, cervejas, aperitivos, drinques, cigarros, proseados, confissões. Noite com o seu jeito de ser. Pelas ruas os asfaltos amarelados pelas luzes brilhando. Uma canção ali e outra acolá. O povo se diverte, procura seus escondidos, vive os mistérios e os chamados da noite. E eu? Eu aqui no exílio da noite, da porta fechada, da reclusão e do não ter saída. Parece até que não existe noite, não existe mundo, não existe nada. Uma angústia danada, uma agonia aterrorizante, uma aflição latejante na alma. Saudade, solidão, tristeza, um sofrimento sem fim. Na memória apenas um nome e uma imagem. E quanto mais recordo mais sofro. E como dói sofrer tanto assim.


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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

CARTINHA A DONA CLOTILDE



*Rangel Alves da Costa


Boa tarde, boa noite, como vai Dona Clotilde? Como vai a saúde, sei que tem andado meio adoentada, mas já está reconquistando as forças necessárias na estrada? Sei muito bem que jamais irá, por conta própria, abrir essa cartinha e catar as letras miúdas perante o olhar. Mas escrevo assim mesmo, apenas como desabafo dessa sofreguidão que me prende e me atormenta por dentro.
Essa cartinha, custosa a sair pela letra trêmula por causa de minhas ingratidões e arrependimentos, é como se fosse minha voz na beirada de sua calçada ou na saleta da frente de sua casinha ali na esquina da Praça de Eventos. A mesma saleta onde eu sempre encontrava minha saudosa amiga Neném para um proseado. E também onde eu fiz questão de levar à parede um retrato bonito de um encontro entre amigos. Na moldura, a senhora e sua filha Neném sentadas juntinhas no sofá da sala. Ou era apenas eu e Neném, agora não recordo bem. Mas continua aí como viva recordação.
Pois bem, Dona Clotilde, depois da partida de Neném e o tempo passado, forçosamente reconheço-me como um ingrato amigo. E quanto desprezo, Dona Clotilde, quanto desprezo. Passo por aí, ando por aí, vou e volto, e sempre sem chegar à sua porta para uma visitinha. Nunca fui assim. O que está acontecendo comigo? Contudo, compreenda-me.
Sei que nada justifica a distância constante dos grandes amigos, nada serve como desculpa para não visitar aqueles que tanto gostamos. Mas se, de um lado, é erro imperdoável de minha parte, de outro também é fuga das lembranças e das saudades. Não consigo avistá-la sem que esteja vendo Neném bem ao lado. Não consigo entrar na sala sem recordar sua filha bem sentadinha ali, na pouca palavra, no sorriso tímido, no seu jeito meigo de ser. Ela era assim.
Porém já retornei outras vezes. Poucas palavras, visita rápida, brevidades apenas. Mas não posso agir assim. Eu não posso me distanciar dos velhos amigos de Poço Redondo. Ando desprezando demais quem eu amo, quem admiro, quem eu guardo profundo apreço. Veja que coisa! Já faz um bom tempo que eu não renovo uma visita a Neném de Anita. Será que ando me esquecendo de Seu João Capoeira? Não posso esquecer. Brasilino, como vai você? Mariá, minha amiga Mariá, devo uma visitinha viu?! Já faz tempo que não visito Dona Prazerinha e Mané Anjo.
Já prometi a Dona Ceição de Laura que passaria com ela uma tarde inteira, ouvindo suas histórias, tecendo um proseando encantador. Somente de vez em quando - e casualmente - eu encontro Cenira, Irlade e outras amigas. Minha amiga Ciene anda doente e eu não tenho nem coragem de ir lá. Não por esquecimento, pois bem sei o que ela e sua família representam na minha vida, mas por uma angústia terrível em saber o que ela está passando. E dói demais saber do seu sofrimento.
Perdoa-me. Ou perdoem-me. Eu sei muito bem da importância de uma simples visita, de um abraço, de uma demonstração de afeto e respeito. Erro meu - e tão grave erro meu - ao avistar pessoas ao longe e apenas acenar. Eu tenho que ir até lá, eu tenho que ir abraçar, eu tenho que sentir junto a mim cada presença. E sabe o que sinto quando de repente uma dessas pessoas esquecida se aproxima para um abraço apertado?
Choro por dentro e por fora. E não posso simplesmente esquecê-las de jeito nenhum. Tenho de ir, tenho de estar presente, pois nada se sabe sobre o amanhã e nunca é bom recordar apenas com angustiada saudade. Tenho que visitar mais as calçadas ao entardecer. Tenho que visitar mais os amigos enfermos e solitários. Tenho que chegar pertinho de cada um e perguntar: “Como vai?”.
E daí deixar que as palavras encontrem por si mesmas as mais doces e melhores recordações. Bem assim mesmo, Dona Clotilde. Juro não fazer mais assim. Juro bater à porta, juro chamar à janela. E levar a cada um o presente maior que eu tenho a dar: o meu respeito e o meu mais sincero afeto!


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Lá no meu sertão...



Quando a cultura não vem, a gente vai atrás da cultura, a gente faz a cultura que tem. E no aboio e na toada se faz a cultura também. Não é Geno Vito?




O valor do amor (Poesia)



O valor do amor


Não, não creio que eu precise
prometer-te estrelas nem céus
dar-te paraísos ajardinados
nem colares de rubis e esmeraldas
para que enfim aceite-me como teu

qual o valor do amor meu amor?

prometo, sim, comida sobre a mesa
roupas decentes sobre o teu corpo
a dádiva de um lar digno e respeitoso
e tudo o mais que eu possa ofertar
e anel dourado acaso eu possa comprar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - sozinho será bem melhor



*Rangel Alves da Costa


Pensando bem, ficar sozinho será bem melhor. Não há solidão das pessoas, das ruas, dos convívios, mas a solidão de quem realmente não merece presença, não merece compartilhamento e muito menos amor. E sozinho deixarei de me preocupar com o outro além de mim. Ora, se ela não merece o amor que sempre lhe foi dedicado, então o esquecimento será o merecido. E na distância não mais ouvirei falsidades, mentirosas, conversas sem pé nem cabeça. E na distância não me sacrificarei para que nada lhe falte. Na distância terei mais tempo para mim mesmo do que para quem não merece sequer uma recordação. Que da distância surjam importantes lições, principalmente a de que quem desvaloriza quem ama jamais será amada por alguém que lhe dê valor.


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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

CHOVEU NO SERTÃO



*Rangel Alves da Costa


Choveu. Trovejou, relampejou e choveu. E mesmo não sendo muita e contínua, aos moldes da verdadeira trovoada, a chuvarada dos últimos dias desceu dos céus como milagre sobre a terra sertaneja. Como alguém fielmente relatou, um mundo novo, alegre e esperançoso, pareceu de repente surgir com as visões dos pingos caídos, dos riachos em cheias e dos tanques tomados de águas.
Não há sertanejo que também não se inunde de encantamento ao se deparar com a chuvarada. O que parecia até impossível de acontecer, de repente desaba lá de riba como milagre e glória. Sinhá Zefinha desenterrou o São José fincado na terra de cabeça pra baixo. Gonçalinho deixou o velho chapéu de couro debaixo da goteira e depois bebeu daquela água no maior contentamento da vida. A meninada desandou nua a se banhar no molhado, enquanto mãos calejadas foram levantadas aos céus em gestos de profundo agradecimento.
Visões realmente de encantar. O sertanejo que toda manhã se desencanta ao abrir a porta e nada encontrar nos horizontes que lhe dê alento, que lhe traga esperança em forma de chuva, de repente sentir o cheiro do barrufo forte subindo pelo ar e presenciar os gotejamentos das nuvens por todo lugar. Como diz o outro, não sabe nem o que fazer, pois não sabe se reza em agradecimento, se pula, se corre pelos descampados, se rola feito bicho feliz pelo chão empoçado.
Sempre o outro lado do sofrimento. O Eclesiastes que surge mostrando um tempo de alegria. Chuvarada mais que esperada, desejada e providencial. No mundo-sertão, a certeza da ação divina que nunca desampara os seus. Um remédio na hora certa para curar, ou ao menos amenizar, os males que já colocavam em risco a vida de muitos: homem, terra, bicho. Tudo já se prostrando de vez, já sem forças e sem poder de reação ante as agruras causadas pelas fornalhas ensolaradas.
O sertão estava sofrido demais, padecente demais, entristecido demais. O sertão estava nu, ossudo, esfarrapado, magricela, feio, mendigo, indigente, faminto, de cuia à mão. O sertão estava ajoelhado, submisso, ao deus-dará. O sertão estava cabisbaixo, esmorecido, numa fragilidade de causar clemência e comoção. Um povo tão forte e tão lutador, uma gente tão desejosa de trabalho e pão, mas desde muito forçado às submissões das carências.
Ora, mas que se negue que uma estiagem apenas prolongada leve o homem à desvalia, que se negue tamanha pobreza naqueles que não se ajoelharam em prantos nem afastaram de si os planos e sonhos. Que se diga que o sertanejo não esmola pelas esquinas nem vai batendo de porta em porta pedindo um tiquinho de “de comer”. Que se diga que ele jamais se prostrou faminto e desesperançado. Mas há indigência maior que a falta de chuvas, que a seca grande e pavorosa?
Contradições, talvez. Ironia do tempo, talvez. Mas é a chuva e não a seca que deve ser tida como normalidade no sertão. A gente e o bicho não se alimentam nem bebem da terra seca, não sobrevivem na fogueira da vida, não se sustentam apenas na secura e na sequidão. A seca sempre vem, todo sertanejo sabe disso e até se prepara para esperá-la, mas ele se sustenta e ama a terra pelo que ela possa oferecer, jamais pelo que lhe retira. E se ama o sertão, se vive em pacto de vida e morte com o sertão, é por que confia na sua retribuição.
O homem da terra sempre soube dos limites do seu lar sertanejo. A grandeza que quer é o da existência. A riqueza que quer é a da subsistência. Sempre foi assim. Tendo chuva, tendo chão molhado, tendo água no barreiro, tendo palma e planta rasteira para o bicho se alimentar, no restante tudo se dá um jeito. Comida pouca não é problema, feira de bocadinho não é problema, calça rasgada ou chinelo sem sola, nada disso aflige tanto o homem da terra como a feiura da estiagem.
A chuva que caiu nos últimos dias foi como uma alegria maior. Certamente que os problemas não acabaram com as águas juntadas, com o chão empoçado, com a paisagem verdejante surgida. As carências nunca deixam de existir, mas ao menos não haverá a lastimosa continuidade da indigência existencial de homem e bicho. Homem empobrecido pela desvalia do tempo e bicho depauperado pelo tempo desvalido.
A fuga dessa indigência existencial é tudo o que o sertanejo tanto espera e precisa. Nada mais doloroso que saber que nada mais resta como alimento ao bicho de cria, do que saber que vai ter de se humilhar ao político para ter um pouco d’água, de ouvir o berro, o mugido e o mugido e nada poder fazer. E agora, com a fuga temporária à submissão e ao temor, deseja apenas que as nuvens prenhes continuem rondando o seu mundo e que as chuvaradas novamente caiam sem pressa.
Um mundo molhado, embebido de água e de fé. É esta a feição de mundo tanto almejado pelo sertão e o sertanejo.


Escritor
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Lá no meu sertão...


Sertão, antes das chuvas...



Mentiras e verdades (Poesia)



Mentiras e verdades


Se um do outro já desistimos
se já nem nos olhamos mais
se até o ódio chega em ferocidade
se parecemos inimigos mortais
resta então que respondamos
se valeu a pena o que juramos
se existiu verdade no que amamos

mas ninguém precisa responder
mesmo que o amor esteja oculto
é o cruel instante da incompreensão
que sempre negará qualquer verdade
como se a ilusão de não mais amar
fizesse nossos corações acreditar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - Putin é um canalha pior que Maduro



*Rangel Alves da Costa


Vladimir Putin, presidente da Rússia, é um canalha de marca maior. E ainda mais calhorda que Nicolas Maduro, ditador da Venezuela. Os dois não valem absolutamente nada, são verdadeiros dejetos do poder. Fazem do poder uma arma aterrorizante e ameaçadora. Governam para o medo e a belicosidade e não em defesa dos direitos de suas nações e seus povos. Aliás, nem Putin nem Maduro gosta de gente, satisfazendo-se apenas com a mão de ferro e da servil obediência. Putin, por muitos fatores e exemplos, mostra-se ainda mais imprestável que qualquer outro sanguinário ditador, principalmente por suas corriqueiras ações em apoio e defesa de ditadores, tiranos e genocidas. Em nome de um falso fortalecimento de alianças e da demonstração de um poderio que não mais possui, o canalha russo sempre manda seus misseis, tanques e foguetes, onde um sanguinolento tirano lhe peça socorro. Assim aconteceu na Síria e noutros países. Na Síria, por exemplo, Putin teve a cara de pau de enviar forças militares e aéreas para defender o cruel e impiedoso genocida Bashar al-Assad. Milhares de crianças morrendo todos os dias por gases venenosos e esse traste russo defendendo a ação morticida. Acaso algum canibal africano, daqueles encastelados no poder a custa do sangue e do sofrimento do seu povo, grite por ajuda, então lá estarão as forças russas como “fortalecimentos das relações”. Tudo embuste, tudo uma forma de acobertar e proteger a tirania genocida. Não é diferente o que agora ocorre com a Venezuela. A barbárie de Maduro agora acobertado por Putin. Nicolas Maduro, o mais covarde, nojento e abjeto dos ditadores latinos, responsável pela disseminação da descomunal violência desenfreada, da morte por falta de alimento, do desemprego alarmante e da desesperança entre o seu povo, amedrontado pelo que lhe possa - e justamente - ocorrer, pede socorro ao calhorda do Putin. E este, como escudo dos imprestáveis, afronta o mundo civilizado com o envio de forças para o território venezuelano. Quem dera alguém com coragem para mandar que cada um se coloque em seu devido lugar.


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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

ESPINHOS DE PONTA AFIADA



*Rangel Alves da Costa


“Decerto Brió, decerto. O que espinha a gente num é espinho de mato não, Brió. E tenha certeza disso. Espetada de mandacaru é dor que passa. Pinicada de facheiro é dor que passa. Prefiro a espetada do mato, na dor que dói e que passa, do que a espetada do povo. Espinho de gente tem cura não. A pele pode nem ferir, mas o coração agoniza pela maldade, pela falsidade e pela injustiça...”.
Já me lanhei de tufo de mato afiado. Mas veja, amigo Brió, o sangue escorrido foi sangue logo sumido. Um arranhãozinho e acabou. Também sei o quanto coça urtiga e cansanção. Na pele, é mesmo coisa de endoidar. Mas digo, continuo dizendo que nada igual à urtiga e cansanção que vem da língua do povo, da boca maldosa do povo. Uma gente que só não é arma de vez porque a natureza num quis assim, mas que tem o mesmo poder de matar.
Coisa de ponta afiada tem por todo lugar da mataria. garrancho de catingueira parece faca amolada. Espinha de quipá fez estrago até no olho de Lampião. O que não se avista de repente, no instante seguinte já tá pinicando a pele. Ponta afiada, miúda, a pessoa nem imagina o estrago que faz. Depois do sangue jorrado e da marca na pele, então é tudo em acabação. Mas duvido Brió, duvido compadre, que eu num prefira mil vezes ser arranhado e azunhado assim.
Como disse compadre, a dor das coisas do mato é dor que passa. Pode ser a ponta de pau mais afiada do mundo, pode ser o espinho mais perigoso do mundo, pode ser a navalha em forma de folha, mas nada igual à selva do homem. No mato, o espinho está por todo lugar, mas na cidade o espinho está em tudo. O espinho envenenado está no olho, na boca, na mão, no pé, no corpo inteiro. É um povo que já olha matando. É uma gente que já enterra antes de matar. E todo mundo contra todo mundo, até parente contra parente. Já vi bicho de mato maldoso, mas igual ao bicho homem não há igualia no mundo.
Sei não, compadre, sei não. Já nem sei de quantas espinhadas eu já tomei em minha vida de mato. Em cima do cavalo ligeiro, todo encourado, mas de repente a ponta do espinho acertando bem onde estava desguarnecido. Na lide de caçador, cortando mataria e todo tipo de tufo de mato, vez por outra eu me via sangrando sem ao menos saber o que era. Ora, mas era espinho, ponta de tudo enfiando na pele. Doía, ardia, sangrava, mas não demorava muito e tudo já tava cicatrizado. Agora pergunto compadre, ponta de língua afiada cicatriza na honra, na alma, no mais profundo do ser humano?
Vou dizer mais compadre, vou dizer mais. Dizem que espinho de palma faz até o sujeito perder o dedo se não cuidar logo depois de ter enfiado na pele. É assim mesmo, pois o bicho parece que tem veneno. Mas dito bem. O risco está no descuido e no deixar pra lá. Ainda assim, o espinho de palma num chega nem perto da língua de muita gente. Uma vez ferido pela língua, uma vez sangrado pela afiação da maldade, tudo desanda de vez, pois é morte certa. Não a morte de acabação, mas a morte daquilo que de melhor a pessoa pode ter, que é o seu nome, a sua honra, a sua reputação. E tudo pode acabar por causa desse espinho maldoso do fi da peste.
Bom mesmo, compadre, era que cada gente assim tropeçasse em si mesmo e caísse com tudo em cima da ponta afiada. E ao levantar já num tivesse serventia de nada. Envenenado tava e envenenado continua. Acabar o mal pelo mal”.


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Lá no meu sertão...


Depois das chuvas...






Mas não sei... (Poesia)



Mas não sei...


Se eu soubesse que o beijo
tinha gosto de chocolate
eu me arriscaria a engordar

se eu soubesse que o abraço
tinha gosto de fruta do mato
eu enfrentaria cobras e espinhos

se eu soubesse que o carinho
tinha feição de folha de relva
eu leria mil vezes Walt Whitman

se eu soubesse que o sexo
possuía a beleza de um voo
eu já tinha caído mil vezes do alto.

Rangel Alves da Costa



Palavra Solta - dói...



*Rangel Alves da Costa


Silencioso demais, um tanto cabisbaixo ao mundo, de repente me vejo como aquele velho sertanejo que pinica fumo no tronco da malhada. Calado, pensativo, mais intrigado por dentro do que por fora. Ou mesmo como aquela velha senhora lavando roupa no quintal e depois estendendo panos no varal. Melancólica, meditativa, mais apreensiva por dentro do que por fora. Instantes assim que se assemelham aos meus instantes de agora. Uma vontade danada de juntar o que tenho num embornal e partir. Uma vontade danada de subir na copa da árvore e por lá fazer ninho. Cansei de estar estendido em varal esperando a ventania. Cansei de ser cadeira de calçada que se embala sozinha. Ouço palavras, mas não tenho voz. Vejo as pessoas, mas não encontro ninguém. Sinto a mesma dor do menino Zezé quando cortaram seu pé de laranja lima. Só que cortaram o meu mundo, o meu viver.


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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

FEIJÃO DE CORDA COM CARNE DE BODE



*Rangel Alves da Costa


Não sei por qual motivo ou mistério, mas a verdade é que logo cedinho me veio um cheiro perfumado e temperado de feijão verde de corda com carne de bode. E no cheiro da panela fervendo, da comida pronta, daquele tempero autenticamente sertanejo, também uma vontade danada de comer.
Que coisa mais estranha, aprazível e apetitosa. Mulher grávida é que de repente inventa de estar sentindo esses cheiros e logo vem com inesperados desejos. Belânio de Queremilda se viu feito doido quando em meio a madrugado a mulher grávida desejou comer sopa de cabelo de boneca de milho. Ele então disse que ia à roça e nunca mais voltou.
Tais coisas acontecem, é verdade. Mas comigo foi coisa de estranhar mesmo. Dependendo da fome, até que seria normal sentir cheiro de cuscuz, de tripa, de café, mas por que logo de feijão de corda com carne de bode, como alimentos únicos e inseparáveis naquele momento? E tão cedo era que ninguém da vizinhança poderia estar preparando aquele tipo de comida. Feijão de corda cozinha rápido, carne de bode não demora muito para ficar no ponto de comer e se lambuzar.
O problema era o cheiro, o aroma temperado tanto do feijão como da carne. Era como se eu estivesse numa cozinha e já destampando a panela para sentir pelo ar aquela quentura balsâmica subindo e subindo, sendo completamente tomado pelo prazeroso perfume sertanejo. Um cheiro verdoso, temperado, apetitoso. O outro cheiro oloroso, acentuado pelos temperos, enchendo a boca de água e o estômago desejoso de saborear.
Já imaginaram: feijão de corda verdinho, novinho, preparado no tomate e cebola e recebendo um pouco de coentro já em ponto de ser servido. Já imaginaram: uma carne de bode carnudo, recém-chegada da banca da feira, lavada e bem lavada, cortada e colocada na panela com todos os temperos existentes na cozinha sertaneja. Colorau, tempero, alho, cebola, pimentão, tomate, e mais e mais. E depois deixar que o fogão de lenha ou a gás cuide do resto.
Tanto o feijão de corda como a carne de bode é de cheiro inconfundível quando está cozinhando, e também depois de pronto para ser servido. Fácil demais comprovar. Basta levantar a tampa da panela uns dois minutos depois de o fogo já estar desligado. A pessoa come ali mesmo, só com o cheiro, sem precisar de prato, garfo, colher, nada. Muita gente até despeja numa xícara o caldo ralo do feijão e bebe de se fartar. Com tiquinho de farinha também desce bem.
 Mas naquela hora da manhã - bem antes das oito - era como se eu estivesse à mesa e tendo um prato já devidamente preparado com tais iguarias. E mais: com um tiquinho de pimenta ao lado para molhar e dar um sabor mais picante ao feijão. A pimenta, aliás, faz parte desse trio de gulodice: não há feijão de corda com bode sem que o molho de pimenta esteja intrometido. Para muitos, o verdadeiro sabor vem do caldo da pimenta logo ao lado.
O sertão conhece muito bem essa história. Os de mais idade (e talvez alguns jovens) algum dia já experimentaram o feijão de corda comido em bolo. O prato é preparado normalmente, com feijão, farinha e carne, mas ao invés do garfo ou colher, a pessoa mete a mão no prato e começa a amassar a comida até formar um bolo. Depois é só levar o bolo de feijão à tigelinha de pimenta amassada no caldo do próprio bode e comer. A coisa melhor do mundo.
Realmente, comida da terra, quando sertaneja mesmo de nascença, jamais deveria ser saboreada através de garfo, faca ou colher. Na mão mesmo, fazendo bolo, passando no caldo da pimenta e comendo. Por isso que o Velho Titó antes da assentada mandava preparar a rede na varanda. Fartava-se no feijão de corda com bode e pimenta, depois mordia um pedaço de rapadura e ia sonhar comendo mais na rede logo adiante.
Sim, mas voltando ao cheiro sentido esta manhã e o meu desejo crescente de comer feijão de corda com carne de bode, peço apenas que me convidem para um simples regabofe no próximo final de semana, a partir de sexta. Não precisa nem garfo, faca ou colher. Já sabem por que.


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Lá no meu sertão...


Eu Rangel





Descompasso (Poesia)



Descompasso


Sim
eu te amo
e por isso
clamo
chamo
peço e insisto
vamos

você diz
que me ama
e logo desama
se eu chamo
se eu clamo
que vamos

neste descompasso
é desfeito o laço
e tudo pelo ar
até sumir
e reencontrar
querendo amar
e tanto amar
e depois desamar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - sertão transformado



*Rangel Alves da Costa


No sertão tudo mudou. Onde havia forró, agora só há música de péssima qualidade. Não há mais lombo de bicho como meio de transporte nem carro-de-bois rangendo pelas estradas. Agora só carro e moto. O progresso e a chegada da energia elétrica, eis que findaram por acabar também com os candeeiros, as lamparinas, os bicos de gás. Não há mais mercearia de tufo de bacalhau no balcão nem mortadela da boa descendo da cumeeira. Não há mais a vendedora de piaba passando em gritaria. Não há mais vendinha de quilo disso e quilo daquilo. Tudo no mercadinho, na frutaria, no grande comércio. Não há viola de pinho nem cavaco afiado. Não há moça sonhadora à janela nem rapazote donzelo. Tudo já dá o que tem que dar logo cedo. Não há mais beatas nem moças velhas fazendo orações. Não há mais sinos tocando nem procissões rotineiras. É outro sertão. O sertão do modismo, do consumismo, da violência e das drogas. Até mesmo a lua some de vez em quando. Tudo tão triste e tudo, menos sertão.


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sábado, 8 de dezembro de 2018

EU CONHEÇO VOCÊ?



*Rangel Alves da Costa


A humildade e a valorização do outro, sempre demonstram a grandeza de cada ser. Ninguém é mais que ninguém. Na escrita da vida, os exemplos mostram que aquele que foi negado será o capaz de servir num instante de precisão.
Não há mão ornada de dourado ou de anel de doutor que seja mais importante que a mão tosca pelo trabalho duro na enxada. Aquele de roupa velha e carcomida de tempo possui o mesmo - ou maior - valor que aquele escondido atrás de terno ou gravata.
A honradez não possui classe social ou se qualifica em pobreza ou riqueza. A honradez não se expressa de outra forma senão no caráter. Então por que negar o outro por ser diferente, por ser empobrecido, por ser “acanhado e matuto”, por ser de pouca palavra ou de verbos desconsertados pelo pouco saber?
Então por que discriminar o outro por não vestir roupa igual a que você usa, por não viver “enturmado com sua turma”, por não gostar do que você gosta, por não “curtir o que você curte”, por não beber a mesma bebida que você bebe ou comer a mesma comida que você come?
Então por que desviar o olhar e esconder as mãos ante aquele que chega com roupa de trabalho debaixo do sol, que vem com o rosto lanhado de tempo e com os pés calçados em velho roló, que tem vontade de se aproximar para uma palavra ou um cumprimento, porém teme que seja negado?
Nada mais temos que um corpo vão que será transformado em pó. Nada mais somos que uma aparência daquilo que realmente queríamos ser. O que queremos ser e não somos está exatamente do desejar além do temos e somos em nós mesmos.
As máscaras um dia caem. As fantasias um dia dão mostras à realidade. As ilusões sucumbem para dar vazão à verdade. Pobre do ferro que se imagina ferro pela eternidade. O tempo enferruja o ferro, a maresia estraçalha os seus restos. O que somos, então?
Somos apenas o que nos resta ser. Nada além disso. Somos uma biologia que aos poucos vai se negando. Somos uma química cuja experimentação vai desfazendo conceitos. Talvez sejamos apenas o barro. Sim, carne e osso que nada são mais que barro. E tão quebradiço que depois em pó se transforma.
 Em todos, indistintamente. Orgulho, soberba e egoísmo, só fazem bem aos corações doentios. Presunção, vaidade e arrogância, só fazem bem àqueles que não gostam nem de si mesmos nem de ninguém. A vida e o mundo clamam por humildade, por respeito, por fraternidade. De todos com todos, indistintamente.
Olhe bem dentro dos olhos daquele carente sertanejo após receber um cumprimento ou abraço seu. Chegam a brilhar de satisfação. E quanto custa entrar numa casinha de cipó e barro, conversar com a família, demonstrar sincera amizade? Quanto custa abraçar aquele velho amigo de infância, relembrar causos antigos e partilhar momentos de amizade?
Quanto custa descer do pedestal da arrogância e se humanizar perante aqueles irmãos de mesmo sertão e mesmo mundo? Quanto custa reconhecer que é igual ao outro, que um dia poderá precisar do outro, que se seu passo faltar uma mão fraterna poderá ajudar a seguir em frente.
Verdade: ninguém é mais que ninguém! E pelos caminhos da vida, nas misteriosas curvas da estrada, de repente aquele que você nunca esperou estará por perto para ajudar. Mas será que você merece ser ajudado? O que você faz que o torne capacitado a ser reconhecido? Como vê, tudo depende de você.
Muito mais pobre do que você, muito mais carente do que você, mas de uma riqueza humana sem igual. E depois de agradecer, você ter o desprazer de recordar que nunca havia dado a mínima importância àquela pessoa. Assim. Bem assim.
Bem assim mesmo acontece. Pessoas passam pelas pessoas e é como se não passassem perante ninguém. Pessoas avistam pessoas e talvez um muro fosse de muito mais importância. Pessoas que são assim. Menosprezam, ignoram, fazem de conta que o outro sequer existe.
E chegam a perguntar: Eu conheço você? Não importa que conheça ou não. Não importa que seja do próprio meio ou não. Neste mundo tão pequeno e de idas e volteios inesperados, tudo mundo acaba conhecendo todo mundo. E aquele que se nega reconhecer, mais tarde haverá de implorar para ser avistado.
Uma questão de valorização. Ou a simples medida daquilo que realmente somos: apenas um nome numa pessoa. Nada mais que isso. Todo o restante é de frágil ferro que pelo tempo vai ser carcomido. Ou o barro que ao pó retornará.


Escritor
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Lá no meu sertão...


Moldura do tempo



Amor e flor (Poesia)



Amor e flor


Era uma vez
um amor
e uma flor

amor
num jardim
perfumado

flor
na estação
do coração

mas o tempo
o tempo mudou
tudo esvoaçou

e o vento
o vento levou
o amor e a flor.

Rangel Alves da Costa