SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 20 de junho de 2018

A ANDORINHA SOZINHA E SEU VERÃO



*Rangel Alves da Costa


Dizem que uma andorinha sozinha não faz verão. Mas ledo engano pensar assim. A mais sozinha das andorinhas faz não só seu verão como sua primavera, seu outono, seu inverno.
Dizem também que ela só alça voa em dias de tempo bom, quando é avistada festiva pelos ares. Contudo, outro erro pensar assim. Ela se desloca em qualquer tempo e por todo lugar.
A andorinha gosta tanto de voar que passa quase o dia inteiro indo de canto a outro, pousando em fios, em estacas, em varais, no telhado, faz frestas das cumeeiras. Logo se tem que ela não é de apenas uma estação.
Andorinha também gosta de voar dentro e ao redor das igrejas, gosta de fazer ninho à vista de todos, gosta de estar presente em meio à população. Contudo, gosta muito mais de ficar sozinha numa lonjura qualquer.
E por que se diz que uma andorinha sozinha não faz verão? Simplesmente para dizer que é na época quente do verão que andorinhas são mais avistadas voejantes e festivas pelos espaços. Apenas uma andorinha não traduz a existência do tempo ensolarado.
Ou ainda para dizer que a junção de andorinhas demonstra a existência de um tempo aberto, ensolarado, propício ao voo e modificando e embelezando a paisagem. Igualmente com relação ao homem. A sua junção já demonstra uma feição diferenciada no tempo.
Comumente se diz que uma andorinha sozinha não faz verão numa alusão à impossibilidade de se fazer muita coisa agindo sem a comunhão de outras pessoas. Somente provoca o verão, ou a mudança ou a transformação, quando pessoas se unem num mesmo objetivo.
Creio, contudo, que não seja assim. Conforme referido inicialmente, a mais solitária das andorinhas faz não só seu verão como sua primavera, seu outono, seu inverno. Ademais, como os humanos, nem sempre se pode esperar muita coisa de outras pessoas ou andorinhas. E a ação solitária produz efeitos.
Ademais, o termo verão utilizado, tão calorento e abrasador no nosso hemisfério, pode muito bem se referir aos horizontes ensolarados que desejamos para nossas vidas. Sonhos que são sóis em flor, esperanças que se afeiçoam a girassóis, planos que brilham ardentemente nos nossos pensamentos.
Assim, se uma andorinha sozinha pode alçar o seu voo e fazer sua luta, se uma solitária andorinha pode muito bem correr atrás daquilo que tanto deseja para o seu dia, então logo se tem que o homem possui as mesmas asas para fazer o seu verão, ainda que solitariamente agindo.
Tudo nascendo de uma questão de querer, de desejo, de luta, de não se curvar perante as dificuldades impostas pela estação. Se é primavera, mas se deseja um verão, então que se busque a transformação através do voo. E o voo é o sonho, é o desejo, é a esperança. Somente voando é possível alcançar os verões e os novos horizontes.
Num mundo das realizações, nunca espere encontrar um bando de andorinha pelos céus. Aquela que estiver sozinha certamente poderá realizar o que a milhões será impossível. Em cima do arvoredo, quieta, silenciosa, parecendo entristecida, mas apenas alimentando seus planos de conquista.
Jamais se pode duvidar da força do ato solitário. Está no compromisso o passo para a ação. A solidão não é frágil nem é carente. A solidão não está desprovida de força nem de coragem para agir. A solidão é apenas um ato de construção daquilo que a força do íntimo será capaz de fazer.
Assim nascem os verões. Não por meio de bandos ou revoadas de andorinhas. Mas através de uma andorinha sozinha. Ora, ela possui seu voo, ela pode voar.


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Lá no meu sertão...


Quanta beleza e dignidade em Felipe, personalidade maior do xaxado em Poço Redondo!



Folhas tristes (Poesia)



Folhas tristes


Das amendoeiras
as folhas secas caídas
derramadas pelo chão
como lágrimas descidas
do mais triste coração
lenços abertos em feridas
das vidas em desilusão

outono surgido do ser
quando a ventania voraz
nada mais deixa colher
senão a solidão tão mordaz
tornando a vida em morrer
tornando o ser incapaz
de noutra estação renascer.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - só uso priquitinha de ano em ano



*Rangel Alves da Costa


Realmente, só uso priquitinha de ano em ano. Mas não é o que você talvez esteja pensando não, pois a priquitinha que uso se trata de chinelo de couro e tão em moda nos rincões nordestinos durante os festejos juninos. É essa priquitinha que tanto uso, gostosa e prazerosamente, assim que o mês de junho abre suas portas para os festejos, para as quadrilhas, para os forrós, para as comidas típicas, para os folguedos, para as bandeirolas balançando nas ruas e avenidas. Assim, os festejos juninos me fazem abdicar de outros chinelos e adotar somente o chinelinho de couro, sempre parecendo frágil mas resistente. E é com a priquitinha que ando de canto a outro. É com a priquitinha que visto roupa bonita sem dela desapartar. É com a priquitinha que me esbaldo na canjica, no milho assado, na cocada, no arroz doce, no bolo de milho. Com ela pulo fogueira, solto balão, torno-me compadre ao redor da fogueira.


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terça-feira, 19 de junho de 2018

DE SOLIDÕES E PORTAS FECHADAS



*Rangel Alves da Costa


Gosto de caminhar pelos sertões, gosto de percorrer as veredas e estradas dos sertões. À frente à estrada, de chão, piçarrenta ou asfaltada, mas pelos lados, curvas e escondidos, os mistérios e encantamentos que tanto desafios nos trazem à imaginação. Tudo como se o mundo sertão, mesmo tão conhecido, esteja sempre provocando indagações sobre o seu modo de ser e de existir.
Pelos seus caminhos não é difícil avistar casinholas, casebres de barro e cipó e mesmo residências mais portentosas, mas sempre com aquele aspecto sertanejo tão peculiar às suas vastidões ressequidas: casas que sempre parecem tristes, solitárias, fechadas pelas ausências, esquecidas num mundo de esquecimentos e desolações. Nem sempre assim, mas geralmente encontros que mais parecem em meio ao deserto e ao abandonado.
Verdade que os sertanejos costumam manter suas portas fechadas em todos os instantes do dia. Somente ao entardecer, quando uma cadeira é colocada diante da porta ou quando o dono da casa se assenta num tamborete para ouvir seu radinho de pilha é que surgem sinais de vida, de presença daqueles moradores. Ao invés da porta da frente, é a porta dos fundos, que dá para o quintal ou cercados, que é utilizada como entrada e saída. Quanto muito, apenas um bicho de cria arreliando de canta a outro.
Pelos sertões o que se encontra, assim, são casas tristes, de feições abandonadas, de portas fechadas, de malhadas solitárias, num quase sem vida. Mesmo que lá dentro estejam muitas pessoas, mesmo que lá dentro a vida esteja correndo apressada, é como se nada assim existisse perante aquele que passa adiante e lança o seu olhar naquela direção. E não há quem não se aflija com aquela moldura tão aflitiva e melancólica. Imagina-se sempre estar apenas diante de um abandono, de vidas partidas, de vidas dali já distanciadas pelas intempéries da existência em mundo tão difícil de ser suportado perante as estiagens.
Sempre entristeço ante o silêncio melancólico das casas tristes nos beirais das estradas. Portas e janelas fechadas, sem cheiro de café torrado ou de tripa de porco torrando no fogão de lenha. Procuro pelo menino Zezim, procuro pela menina Joaninha. Mas nada. Nem um cachorro magro nem a voz de um papagaio falador. Murchou a bela flor que outrora era avistada no umbral da janela. Esturricou a planta que antes descia pelo caqueiro pendendo no pé de pau.
Tenho vontade de ir até lá e bater à porta. Oi de casa, oi de casa! Tenho vontade de ir até lá e bater na madeira como alguém que chaga para trazer uma notícia boa sobre um mundo novo. Ou apenas dizer: Oi de casa, oi de casa! Chamar assim. Mas desisto, enfim. E sigo pelos meus sertões em busca de portas abertas e daquilo que me dê alegria. Zezim, onde tá você? Joaninha, onde tá você? É o que pergunto em meu pensamento. E entristeço e choro. E silencioso pranteio a dor de todas as ausências do mundo!
Sigo adiante e aquele mundo solitário e triste para se eternizar logo atrás. Mas não posso esquecer aquela moldura ainda fixa no meu olhar. Zezim deveria estar ali na malhada, debaixo do umbuzeiro, reinando com ponta de vaca, correndo atrás de calango, atirando com peteca baleadeira. Zezim, Zezim, seu mundo está ali e por que você não estava? Joaninha também deveria estar pelos arredores da casa, levando consigo a boneca de pano descabelada e desenho círculos no chão aberto para brincar de pular. Joaninha, Joaninha, seu mundo está ali e por que você não estava?
Faltou-me sentir aquele aroma forte, encorpado, cheiroso, oloroso, do café fervendo em riba do fogão de lenha. Que festa ao olfato este perfume tão sertanejo, nascido desde o pilão para bater o café, à arupemba para separar o pó do restante dos grãos, e depois todo o negrume misturado à água fervente para a festa maior do sabor e da vida. Não senti tal cheiro ali e senti muita falta. Também não ouvi os barulhos do ofício na cozinha, com panela batendo, talher caindo, criança chorosa querendo comida. A mulher não abriu a porta para aguar a planta. Não havia planta, não havia nada. O homem não abriu a janela para avistar possíveis nuvens de chuva ao horizonte. Não há chuva num sertão assim.
Entristeci e chorei pela moldura de angústia e desilusão. Não pelo sertão em si, com seu sorriso triste e seu corpo esquelético, mas pelo seu povo que sequer parece existir naqueles casebres tristes de beirais de estrada. Talvez algum dia eu retorne e encontre tudo diferente. Talvez eu encontre a porta e a janela abertas, Zezim e Joaninha nos seus afazeres de criança e a sertaneja jogando água por riba da planta sedenta. O sertanejo certamente estará por ali, mexendo numa coisa e noutra, afiando uma enxada, dando lustre ao facão, remendando seu aió de caçador.
Talvez eu retorne e encontre a vida na sua vida, o homem sertanejo no seu lugar. Mas por enquanto, ainda choroso, ainda triste. Sou sertanejo também.


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Lá no meu sertão...


Curralinho, Poço Redondo/SE





Dentro de ti (Poesia)



Dentro de ti


Tua nudez não basta
se de dentro de ti
a beleza é mais vasta

teu sexo não basta
se dentro de ti
a doçura é tão casta

ter você não basta
se de dentro de ti
nada jamais me afasta.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - sertanejo



*Rangel Alves da Costa


Deus meu, Deus meu, cuma é bom ser sertanejo assim cuma eu sou. Me avexo não, visse. Num me aperreio nem um tiquinho se vem o outo e diz que sou matuto, mateiro, um catingueiro quarqué. Sou mermo, apois sou sertanejo. E tanto sou que tomem sou preá, sou macambira, sou bonome, sou calango, sou siriema do costado. Sou candiero e placa de luz, sou vela de oração e rosaro de tanta fé. Sou casinha e sou casebe, sou quintá e tufo de mato. Sou a lua e sou o sol, sou a secura da terra e a pranta verdosa que vinga do chão. Sou José e sou Maria, sou Zefinha e Bastião. Sou caçador e sou vaqueiro, sou lavrador e toadero. Sou prato de estanho e pote de barro. Sou caneca de alumino e arguidar de cozinha. Sou Alcino e sou Zé de Julião. Sou Zefa da Guia e Metre Tonho, sou Dona Guiomar e sou taboca de pife. Pru mode que tá rindo deu? Ria não seu moço. Aió, embornal e canti é tudo de uso, desna um tempo de caçada grande. Pru mode de que tá rindo deu, seu moço? Mai num avexo não. Fi da gota serena se eu me importar um tantim assim. Num me importo não pruquê sei o valor que tenho e não o valor que me dá. De ouro é meu chapéu de couro, pranteado é meu peitoral. Meu cavalo tem nome de santo: Jó. O mermo sofredor que nem eu, mai o mermo lutador que nem todo sertanejo. Pode vim e vortá, se quiser. Fico aqui. O cabra que nega sua terra num merece nem nascer, munto meno dizer que é dessa pátria chamada sertão, dum reinado benzido por Padim Ciço do Sermão e Virgulino Lampião.


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segunda-feira, 18 de junho de 2018

O MUNDO DE LEVY (PARABÉNS PELO ANIVERSÁRIO)



*Rangel Alves da Costa


Já se faz quase dois anos que tenho Levy ao meu lado como se fosse um filho meu. E assim é, pois verdadeiramente Levy é um filho meu, pois o mesmo amor de um filho para com um pai e o mesmo amor de um pai para com o filho.
E tenho Levy como filho por diversas outras razões. Ele “adotou-me” como pai e eu o adotei como filho. Que bom que seja assim. Sempre que deseja um brinquedo, logo pede à mãe para me telefonar. E comigo fala na certeza que será atendido. Lindo isso, não?!
Levy gosta de estar comigo, de continuar na minha presença, de andar e passear ao meu lado. Levy gosta de me dar à mão e ir comprar “chimbra”, como ele chama bola de gude. Levy gosta que eu sente ao lado dele e coloque vídeos para ficar assistindo e comentando. Pergunta e pergunta.
Levy sente saudade de mim e eu sinto saudade dele. Sempre pede à mãe para telefonar e falar comigo. Conversa e conversa e de vez em quando cisma que eu devo comprar um cavalo (que ante ele chamava “caralo”) pra ele ou um “tratorzão bem grandão”. Ou simplesmente diz que “o pneu de minha biciqueta tá furado”. Isso é lindo, não?!
Sinto saudade dele e do jeitinho todo especial de ser dele. Pequenino ainda, todo miudinho ainda, mas já crescido o suficiente para compreender e dialogar com muitas realidades da vida. Atento, observador, instigante, nada lhe foge da atenção. Por isso que de vez em quando surge com cada uma de espantar.
Algumas vezes já escrevi sobre ele, principalmente para dizer de sua fala engraçada e do seu jeitinho tão próprio de nomear as coisas e animais: “caralo” para cavalo, “bererrerinho” para bezerro, e outro que ainda não descobri o que realmente seja: “coló”. Já não fala mais assim, já sabe dizer corretamente o nome de tudo e do mundo inteiro.
Também já escrevi sobre o seu jeito de ser: “Desconfiado, cismado, não gosta de fazer amizades à primeira vista. Sempre chega um tanto taciturno, silencioso, fechado, sem qualquer palavra ou sorriso. Mas daí em diante, acaso encontre alguma oportunidade, começa a se soltar de vez, principalmente se não estiver sob os olhares nem a atenção da mãe. Então o Pequeno Levy desanda de vez, começa com traquinagens sem fim, se solta de não mais parar. Curioso, querendo saber de tudo e conhecer de tudo, pergunta e mais pergunta, repete, nunca se contenta. Um amor de criança, lindo, com voz toda especial, pois pronuncia palavras ao seu modo e com um jeitinho bem sertanejo. É também o meu Pequeno Levy, pois já nos acostumamos a nos gostar, a sermos amigos, a nos amar. De vez em quando ele chega pra mim e diz: gosto de você não. Mas é prova do quanto gosta. Não sai do meu lado, sente segurança ao meu lado, brinca e reina comigo, me tem como um verdadeiro pai e o tenho como um verdadeiro e querido filho. Amo meu Pequeno Levy”.
Hoje Levy completa cinco anos de idade. O próprio Levy estava tão ansioso para que esse dia chegasse que até parecia se tratar de uma idade em que alcançaria a maioridade. Vivia dizendo que ia completar cinco anos e depois disso ia mudar de escola. Desde muito que já convidava amigos para comer do bolo de seu aniversário. Aliás, seu jeitinho humano e compartilhador de ser é um dos aspectos mais bonitos que pode existir.
Nada do que tem Levy se nega a dividir. Se é um doce, um bolo ou uma brincadeira, logo ele oferece ou convida os seus amiguinhos. E perante os seus avôs então. Chega à casa da avó com qualquer dinheiro e logo oferece para comprar pão ou outra comida. Não para ele, mas para a família. Com seu avô Badinho a mesma coisa. Pergunta se aquele dinheiro dá pra comprar ração para o gado, coisa que ele tanto ama.
Diz ainda que quando crescer vai trabalhar muito e ter dinheiro para que não falte nada para os bichos, para que não falte ração nem água. Tudo isso nascido de um menininho que no dia de hoje completou cinco anos. E já de um coração tão imenso quanto o seu jeito tão bonito e tão especial de ser.
Parabéns, meu Pequeno Levy. Agora mesmo telefonei e ele me perguntou se quer que guarde um pedaço de bolo. E ai de Mylla, sua mãe, se não guardar. Sei que ele terá o maior prazer do mundo em chegar pertinho de mim e oferecer o pedaço de bolo. Que lindo, meu rapazinho. Saiba que você é todo imensamente lindo ao meu coração!


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Lá no meu sertão...


Esperando chuvarada...



De ti amante (Poesia)



De ti amante


De ti amante
de ti constante
somente a ti
apaixonante

se há em ti
nasceu em mim
vindo da raiz
de um amor
que bela flor
soubeste bem
além do cultivar
o cativar

de mim amante
em ti somente
somente em ti
apaixonante.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - tenho que perguntar



*Rangel Alves da Costa


TENHO QUE PERGUNTAR - Por que, até hoje, nenhum prefeito de Poço Redondo teve a sensibilidade de reconhecer a importância do Memorial Alcino Alves Costa para a história e a cultura do município? E então dizer assim: “Vou dar ao menos uma esmola para o seu funcionamento e manutenção”. Quanto mais é solicitado, rogado ou implorado qualquer tipo de apoio/convênio/parceria mais eles negam, ou no silêncio vão colocando suas solas em cima da história e da cultura do município e do sertão. O prefeito atual até me pediu para enviar ofício com as devidas solicitações. Tudo foi protocolado, carimbado, recebido, lido pelo gestor. Mas depois disso nenhuma resposta foi enviada. E o Memorial não só serve à história e à cultura do município como serve à educação municipal. Não são poucas escolas que chegam ao espaço para conhecer o acervo, para pesquisas e outros trabalhos escolares. Somente os prefeitos parecem cegar ante tamanha grandiosidade e importância. Mas não cegam não. Nada fazem por que não querem mesmo, nada ajudam por que acham que a cultura não dá votos. Que assim seja, mas os objetivos do Memorial continuarão sem ter de esmolar a quem quer que seja. Muito menos a político que só tem olhos para o próprio bolso.


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domingo, 17 de junho de 2018

DIZ A LENDA...



*Rangel Aves da Costa


Nos tempos idos sertanejos, de feições arrogantes e bestiais que ainda hoje espelham nas relações sociais, da política e do poder, diz a lenda que muito chão foi encharcado de sangue, muito arame foi cortado no dente, muita família enxotada no cano do mosquetão, muita gente tombou em tocaia e emboscada, muito grito silenciou pelo medo e muito espanto arregalou os olhos sem acreditar.
Cangaceiro era cabra valente e também duma brutalidade e malvadeza sem tamanho. Diz a lenda, e esta escondida por trás de verdades agora testemunhadas em escritos, que a violência chegava a tal ponto de sangrar até mesmo inocente. Ainda hoje é difícil acreditar no que o cangaceiro Zé Baiano fez marcando com ferro de gado em brasa aquelas mocinhas nos sertões sergipanos do Canindé. Violência, contudo, ainda menor que a perpetrada pelo cangaceiro Gato, ao sair matando e cortando cabeças de sertanejos inocentes desde a Fazenda Couro, na Bahia, às bandas da Fazenda São Clemente, já em Sergipe. Nada menos que oito inocentes perderam a vida na caçada infernal comandada pelo carrasco bandoleiro. Por último, já no São Clemente, mandou que um maluquinho deitasse a cabeça num batente e depois baixou o punhal. A cabeça rolou num rastro de sangue.
Soldado da volante também era bicho de arrogância e violência desmedidas. Muitos afirmam que ainda mais aterrorizantes que os bandoleiros de Lampião e outros líderes cangaceiros. Pois bem, diz a lenda, igualmente nascida da verdade, que os caçadores de cangaceiros, sempre raivosos por não poderem capturar ou matar o líder maior do cangaço, passavam a descontar suas raivas, repressões e ódios, no humilde sertanejo, no pobre homem da terra. Aonde a volante chegava o medo logo se espalhava. Todos sabiam de suas extorsões, de suas brutalidades, de suas sedes de tortura e de sangria. Reviravam casebres, desonravam famílias, tornavam prisioneiros desde velhos a meninos. Queriam porque queria saber onde o bando cangaceiro estava acoitado. Arrastavam os sertanejos de suas casas, amarravam junto a cansanções e urtigas, deitavam de cabeça pra baixo nos arvoredos, açoitavam com vara fina, pinicavam no punhal. Muita gente morreu assim, tendo que saber o que não sabia, silenciando o grito por saber do fim que se aproximava.
Diz a lenda que havia um mundo assim e que ainda há. O imaginário moderno sobre o mundo dos cangaceiros e das volantes apenas reflete o que for mais instigante e até apaixonante neste enredo de luta sem fim. Mesmo na violência, a concepção atual é de que a crueldade daqueles idos possuía uma feição muito diferente da bestialidade presente. Asseveram ser – naqueles tempos – uma valentia de homens valentes, de homens que, mesmo espargindo sangria e maldade por onde passassem, levavam consigo objetivos claros nas suas guerras, e neste aspecto muito diferente da violência covarde de hoje. Atualmente, como se afirma, a violência é apenas da covardia, da brutalidade sem qualquer motivo e da atrocidade como rotina na prática da banalidade criminosa. Por isso que muitos pregam o retorno de Lampião, numa alusão ao regresso da valentia como forma única de enfrentar a covardia dilacerante.
Diz a lenda de um mundo de coronéis, de um coronelato forjado no mando e no poder, e cujo curral era o mundo inteiro ao seu redor. Na mesma feição dos arrogantes e impetuosos senhores de engenho, que na chibata e na ponta do ferro de seus capatazes brincavam de lanhar e sangrar o lombo de inocentes, eis que está refletida a ação do coronelismo e sua sanha de ordem, poder, mando e dominação. E também o escravismo da chibata, do grilhão da subserviência do pobre trabalhador, do medo como forma da manutenção da ordem. E também a covardia no trato com o homem da terra, vez que, sendo tido como seu escravo, teria que ser submetido às consequências de seus rancores e ódios. E também um mundo jorrado de sangue nas tocaias e emboscadas, nas mortes ordenadas antes de o cuspe secar, no bestial prazer de receber uma orelha cortada como prova da maldade feita. Ai daquele pequeno lavrador que não quisesse sair de seu pedacinho de chão para que o arrogante senhor aumentasse o seu já desmedido latifúndio.
Diz a lenda que havia um mundo de jagunços que era o desmundo mundo. Algo tão aterrorizante e cruel que mais parecia a morte certeira rondando a todos, com olhos sedentos escondidos nos tufos de matos e mãos defuntescas e gélidas mirando a vítima mais adiante. Assassinos frios, matadores de qualquer um, ceifadores de vidas que tinham no ato de emboscar ou tocaiar, ou na simples espreita da passagem do outro, o seu ofício maior de bestialidade. Podia ser um dia esperando em silêncio, quieto em meio às folhagens, aos tufos, por trás dos pés de paus. Podia ser um instante apenas ou até semana, importando apenas que a vítima aparecesse a qualquer instante para que o gatilho fosse apertado e o tiro certeiro acertasse seu alvo. Depois, apenas os urubus rondando as estradas, as curvas dos caminhos, as veredas ensanguentadas dos sertões adentro.
Diz a lenda que foi assim. Contudo, na lenda apenas a leitura de verdades que se confirmam hoje com outros requintes. O banditismo chamou para si a covardia, o coronelismo chamou para si o poder político e a corrupção, o jaguncismo chamou para si o tocaiamento pelas ruas da cidade. A mesma história, mas de leitura até mais perversa e mais cruel.


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Lá no meu sertão...


Dona Zefa da Guia - Dona Zefa, a Guia






Choro de tristeza (Poesia)



Choro de tristeza


Chorei triste
de tristeza
flores murchas
sobre a mesa
além da janela
a incerteza
e dentro de casa
a estranheza
dessa saudade
em aspereza
que me consome
sem leveza

o que fim
o que fiz
para ser assim
a dor amarga

na sobremesa
e o choro triste
de tristeza.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - alguns dias distantes



*Rangel Alves da Costa


Os leitores que me acompanham por aqui, certamente perceberam que nada postei nos últimos dias. Com efeito, andei distante por alguns dias, mas não por doença ou problema outro que tenha me afastado do leitor e da escrita. Na verdade, todo santo dia, logo cedinho, noutra coisa eu não pensava senão em escrever os textos que rotineiramente aqui publico. Contudo, estava sem tempo algum para tal. Organizei e levei adiante o evento Cariri Cangaço Poço Redondo 2018, que me tomava todo o tempo desde as quatro horas da manhã. O evento terminou hoje pela maior, com sucesso absoluto, e somente agora pude retomar minha escrita. Ainda estou cansado, até mesmo sem a devida inspiração, mas aos poucos alinharei nestas linhas a escrita torta do meu dia a dia.


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terça-feira, 12 de junho de 2018

POLÍTICOS FAKE NEWS



*Rangel Alves da Costa


A fake news está na moda. A disseminação de notícias falsas para deterioração de alguns candidatos e proveito de outros pleiteantes, tem se tornado algo tão corriqueiro quanto o anúncio de mais um aumento dos combustíveis. Todo dia, toda hora. Mas por falar em fake news, haverá notícia mais falsa e desacreditada que o próprio postulante a cargo eletivo, seja a deputado, a senador ou a governador?
Não há candidato que não seja uma informação falsa, que não seja uma desinformação da verdade, que não seja uma inversão do real. Não há candidato a deputado, a senador ou a governador, que não procure se sustentar através de discursos mentirosos e impraticáveis, de velhas promessas mirabolantes, do tratamento do eleitor como se fosse massa de manobra. Então, e por que reclamar, esbravejar, ameaçar e “prometer levar às barras da justiça”, aquele que planta uma notícia falsa a seu respeito, se eles próprios - os políticos -, são os primeiros a desrespeitarem a sociedade?
Mas o que é mesmo, conceitualmente, essa tão propalada fake news que até foi objeto de legislação no processo eleitoral brasileiro? Nada mais que a propagação de uma notícia falsa. Fake seria, então, toda informação noticiosa que não represente a realidade, mas que é compartilhada como se fosse verídica, principalmente através das redes sociais. O objetivo maior de uma fake news é polemizar sobre algo ou pessoa, provocando a desonra ou deterioração de sua imagem Por sua natureza astuciosa, polêmica, logo provoca atração e começa a se propagar com alta intensidade e alcançando extensas camadas da população.
Os tempos pré-eleitorais são um campo fértil à propagação das fake news. Não somente os fanáticos e os partidários, mas certamente também os grupos políticos e os escritórios de campanha, logo se incumbem de trabalhar imagens adversas dos demais pleiteantes. Catam velhas notícias, buscam nos baús de velharias as acusações recaídas sobre os concorrentes, aprimoram-se em desencavar fatos e situações que possam atingir a imagem política e pessoal. Mas também agindo na invenção e na semeadura de fatos novos que, mesmo de deslavada mentira, possam provocar reações negativas.
A todo instante surgem notícias falsas, tanto novas como requentadas. Algumas são tão mal elaboradas que até provocam gracejos ao invés de irritação. É o jogo do vale tudo e tudo vale. Como os punhais da língua já não ferem mais a quem se escuda no tanto faz, a saída encontrada é chacoalhar o lamaçal pele rede virtual. Nos grupos de bate-papo, noticiosos e até privados, não demora muito e surge uma informação espantosa. Político que foi condenado, que foi flagrado em situação criminosa, que está sendo acusado de um monte de coisas. Na notícia maliciosa, pouco importa a data ou a validade da informação, mas apenas a tentativa de enlamear aquele que é mostrado em situação vexatória.
Contudo, logo surge um pequeno questionamento: as promessas irrealizáveis, os discursos impraticáveis, os ataques políticos e pessoais feitos pelos candidatos, as mentiras disseminadas pelos próprios postulantes perante os eleitores e o que é dito no jogo político e tudo mundo sabe que não passa de conversa pra boi dormir, não seriam situações de fake news? Noutras palavras, a fake news se perfaz apenas quando há ofensa ao político ou também quando este ofende, com inverdades, o seu opositor, o eleitor e a sociedade, através das redes sociais?
Ora, sendo o fake uma notícia falsa, logo se tem que não existe – no mundo inteiro – gente mais falsa e mentirosa que o político. E o que ele diz, sempre eivado de inverdades, não se pode ter como notícia falsa? Logicamente que sim. E mais: toda vez que um candidato investe na disseminação de notícias falsas sobre o seu opositor, certamente que também estará fazendo fake de si mesmo, vez que logo vem a ideia de que um sujo não pode falar do mal lavado, de que um corrupto ou desonesto igual não pode espalhar acerca da desonestidade e da corrupção do outro.
De qualquer forma, o que se tem a disseminação de notícias inverídicas, de imagens deturpadoras, de fotografias forjadas para incriminar ou para reavivar alianças políticas espúrias. Não precisaria, contudo, ter tanto trabalho para tal. Em cada biografia política – ao menos na sua maioria -, sempre uma página de podridão, de improbidade, de promessas descumpridas, de vergonhosos conchavos, além de outros labirintos lamacentos e putrefatos. Tem-se como exercício de suma desonestidade que um candidato, agora, queira passar a imagem de bom moço e enlamear seu opositor. Tudo farinha do mesmo saco.
Como diz o ditado, que atire a primeira pedra o político cujo saco revirado não faça surgir mais lixo que semente. Utilizar-se de fake news para falsear verdades e realidades é, como se diz, não olhar para o próprio rabo. E com vergonha daquilo que igualmente fez. Ou pior, muito pior.


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Lá no meu sertão...


No sertão





Imenso amor (Poesia)



Imenso amor


Mais forte que o amor
apenas a certeza de amar

mais forte que a certeza de amar
apenas a retribuição de todo amor

mais forte que a retribuição do amor
apenas desejar a eternidade no amar

mais forte que a eternidade no amar
apenas viver o amor a cada instante

e fazer do amor de cada e todo instante
desejo que a vida não passe do segundo.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – Mylla, Myllinha



*Rangel Alves da Costa


MYLLA, MYLLINHA - Mylla, um dia eu conheci você para jamais te esquecer. Um dia eu falei com você para jamais emudecer. Um dia eu segurei em sua mão sem pedir a você e me acostumei com esse laço que veio a nos prender. Um dia eu olhei nos teus olhos e nada mais me deixou transparecer senão o que dali em diante iria nos envolver. Um dia me deste um abraço e o meu peito renasceu do esmorecer e então suspirei ao teu lado e deixamos tudo acontecer. E quase todos os dias surgem os espinhos e as pedras no caminho. E todos os dias vencemos os espinhos e as pedras do caminho. E caminhamos. E seguimos em frente até que o destino nos deixe caminhar. Que seja no amor, que seja na paixão, que seja apenas na razão ou em qualquer outro motivo de viver. Mas sempre muito bom estar sempre à sua presença, ao teu lado, com você e dentro de você. Parabéns, menina Mylla, parabéns Myllinha, eis que merecedora de toda felicidade do mundo. E de todo amor também!


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segunda-feira, 11 de junho de 2018

A CHAVE E O CADEADO



*Rangel Alves da Costa


Dependendo do momento, colocar a chave no cadeado significa uma das maiores conquistas da vida. Diversas situações confirmam que não há momento mais comemorado, alívio mais esperado e sensação de vitória do que aquele após sentir que a chave se ajustou ao buraco do cadeado. E indescritível quando a tranca está liberada.
Chegar à casa alta hora da noite, olhar de lado a outro amedrontado, apressadamente buscar a chave para abrir o portão; esbarrar esbaforido diante da porta, vasculhar os bolsos em busca das chaves, e em seguida levar a mão trêmula ao cadeado; saudosamente avistar a moradia e seguir diretamente ao portão de chave à mão. São momentos cruciais na vida de uma pessoa.
Contudo, muitas vezes as chaves foram esquecidas em algum lugar, ou mesmo não são aquelas as que servirão para abrir aqueles portões. Fatos assim, e mais corriqueiros do que se imagina, fazem o mundo desabar para qualquer um. E mais angustiante ainda quando as chaves são aquelas, a pessoa tudo faz para encontrar a ideal, mas não tem jeito de alguma delas encaixar.
Mas não pode ser, pois tenho certeza que a chave é esta mesma, diz a pessoa aflita. Talvez seja porque preciso colocar um pouco de graxa no fenda do cadeado, mas a chave é esta aqui, afirma a pessoa com aspecto de desilusão. Eis, então, o cerne da questão: a expectativa do encaixe da chave ao buraco do cadeado.
E num determinado momento, na hora precisa, sob pena de muita coisa acontecer se a tranca não for liberada. Até pode soar como questão irrelevante, como algo que não merecesse qualquer explanação, mas, como será demonstrado, é fato de suma importância na vida de um ser humano. Ademais, a chave diante do cadeado pode servir de metáfora para muitas outras situações.
O tempo passa, o medo se expande, a pulsação aumenta, a necessidade de encontrar a chave ideal acaba complicando ainda mais; uma quase entra, mas nada de encaixar. Procura outra e mais outra, olha de lado, já está entrando em desespero, e nada de acertar a chave. Dá vontade de derrubar tudo, de puxar o cadeado para o lado de fora, de fazer qualquer coisa para resolver a situação. Mas nada acontece.
Suspira, transpira, pede calma a si mesmo, faz mais uma tentativa, agora mais calmamente. A chave vai entrando certinha, deslizando, porém emperra em qualquer coisa. Não é essa. Mas não pode ser, pois sempre usou essa para abrir. E as mãos suadas e trêmulas fazem nova tentativa. Essa nem coube no espaço. Talvez seja essa. Tem de ser essa. Não há outra. Vai colocando, cuidadosamente, no buraco e...
Mas situações desesperadoras também podem ocorrer quando a chave é única e somente aquela serve para abrir o cadeado. E já está até envelhecida de tanto fazer tal procedimento. Contudo, ainda assim não é garantia de abrir a porta na primeira tentativa. Ademais, pelo envelhecimento pode causar uma consequência pior: quebrar lá dentro. E agora, quando a rua está totalmente deserta, não haverá como encontrar um chaveiro, e o sujeito começa a sentir uma necessidade imperiosa de visitar o banheiro?
Problema ainda maior surge quando o contorno da chave já está se encaixando, mas eis que um barulho faz a pessoa olhar de lado e a chave cai de sua mão. E pelo lado de dentro, num lugar difícil de ser alcançado. Contudo, deixar a chave ideal cair e mais distante do que o imaginado, talvez vá além dessa mera divagação a respeito da importância do encaixe da chave no momento exato que o sujeito tanto precisa.
Eis que o fato da impossibilidade de alcançá-la, ainda que visível, já provocou situações verdadeiramente angustiantes. Muitas pessoas já se entalaram nas grades dos portões enquanto tentavam alcançar o objeto, sem falar naquele que entrou no carro e derrubou o muro com portão e tudo. E depois disso percebeu que não estava com a chave da porta. Então começou a chorar feito criança desmamada. 
São questões realmente difíceis de resolver. Mas situação ainda mais complicada pode acontecer. Já ouvi falar de um sujeito que bebeu um pouco mais, errou de casa e tentou a todo custo abrir um portão alheio. E até hoje chora toda vez que se lembra do policial abrindo tranquilamente o cadeado do cubículo na delegacia e ordenando que entrasse.


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Lá no meu sertão...


Algum dia, nalgum lugar...




Toda nua (Poesia)



Toda nua


Toda nua
na pele
a cor
da lua

nua
o mel
caído
da lua

da lua
a poesia
nua
tão sua.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – chove não chove



*Rangel Alves da Costa


O sertão tá um chove não chove danado. Época de o milho já estar bonecando, de o feijão já estar ramando, de a melancia já estar em tempo de colher, mas nada de chuva. Ou quase nada, pois apenas no chove não chove. No ano passado, o mês de julho já contava com muito milho verde, muito fruto da terra e certeza de uma boa colheita. Mas esse ano não. As chuvas foram poucas ou escassas demais, mais chuvisco do que pingo d’água, e tudo ficou na dúvida se ainda haveria tempo de lançar a semente sobre a terra. Nunca mais caiu chuva forte e farta, em dias seguidos, ou de maneira a molhar suficientemente a terra. E no sertão se chove um dia e passa três sem chover, o verde surgido logo começa a esturricar. E o que foi plantado se perde, murcha, não vinga de jeito nenhum. Eis a situação sertaneja, apenas no chove não chove. Como se diz, a chuva que cai é muito mais pra gripar do que pra qualquer outra coisa. Nem pra banho de chuva serve o chuvisco caído. Talvez somente para desesperançar ainda mais a ilusão sertaneja de dias melhores.


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domingo, 10 de junho de 2018

AS BELEZAS FORJADAS NAS REDES SOCIAIS



*Rangel Alves da Costa


Vou fazer assim: vou pegar uma foto minha, daquelas que eu mais goste, então vou jogar ela em algum programa de computador que dê um trato melhor que qualquer pintura. O photoshop faz essas maluquices, não é? Pois bem. Rugas? Nem pensar. Pelo contrário, pele de anjo, de seda, de pétala, de papel vegetal ou asas de borboleta. Marcas do tempo ou estrias na pele? Nem pensar. Pelo contrário, tudo tão lisinho e perfeito que nem pele de bebê se aproxima. Sinais, cicatrizes ou qualquer outro declive na pele? Nem pensar. Pelo contrário, pois tudo tão perfeitamente belo que mais vai parecer uma cuidadosa pintura. Sorriso feio ou triste? Nem pensar. Pelo contrário, um sorriso tão belo, suave e angelical, que cada olhar vai logo se enamorar. Lábios muito finos ou muito grossos? Nem pensar. Pelo contrário, pois beiços tão perfeitamente espalhados, eróticos e sensuais, que muita gente vai querer beijar a foto. Olheiras? Nem pensar. Vixe Maria, de jeito nenhum. Pelo contrário, um olhar tão sublime e encantador que tudo mundo vai achar que está diante de um deus da beleza. Depois disso tudo, certamente eu vou me apaixonar por mim mesmo. E igual a Narciso que não pode ver espelho, me lançar nos reflexos da hipocrisia, da idiotice, do não ter o que fazer. Ora, se eu sei que não sou eu aquilo que quero forjar que sou, então por que não reconheço o que sou e como sou e deixo de mentir a mim mesmo e aos outros?
Vou fazer assim: já que certamente alguma desprevenida ou desatenciosa vai apenas me achar um gato, um lindo, uma gracinha, sem observar atentamente a arrumação que foi feita na minha fotografia, então vou me esmerar o máximo possível para parecer um galão de novela, um artista do cinema, um famoso e simpático roqueiro. Logicamente que surtirá um efeito devastador. Ora, verdade é que muitas pessoas não estão nem aí para outra coisa senão a beleza exterior, a aparência, aquilo que apenas se mostra. Não vão querer saber se sou casado, viúvo, divorciado, solteirão, ou qualquer outra coisa. Também não vão querer saber se sou andarilho, sou jardineiro, locutor de porta de loja, profissional liberal ou fazendeiro. Não vão querer saber de nada disso, apenas que sou bonitinho, um gatinho, um “simproso”. O mais incrível é que não querem saber de nada além do que está falsamente retratado. E retrado de forma até acintosa, pois muitas uma boca tão trabalhada que mais parece feita por famoso escultor, um olhar tão belo e encantador que mais parece saído do pincel de um renomado pintor, um corpo tão torneado que mais parece a estátua de um deus grego. Isso provoca um encantamento tamanho que muitas chegam a delirar. Querem o contato via celular, querem o número do whatsapp, querem saber se tem Messenger, instagram, etc. E vão delirando sem temer consequências. Quem está realmente do outro lado? Nunca se perguntam. E eis o erro maior, vez que muitas vezes as mais perversas armadilhas são criadas assim. E acabam os namoros, as promessas e juras, os casamentos. E tudo por causa de um retrato forjado nas redes sociais e postado como se verdadeiro fosse.
O facebook é um verdadeiro álbum de mentiras assim. Mas com uma clientela feliz por ser deslavadamente enganada. Que assim seja, até que marque o primeiro encontro com aquela beldade de sorriso lindo, olhos perfeitos e pele angelical. Um monstro!


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Lá no meu sertão...


Inusitado amor!



Além do desejo (Poesia)



Além do desejo


De início eu juro
que queria a beleza
que queria o corpo
que queria o beijo
que queria o abraço
que queria o sexo
somente isso

sendo mulher
pensei apenas isso
sendo feminina
pensei apenas isso
e somente isso

mera ilusão a minha
até o amor ensinar
que a palavra e o olhar
que o carinho e o afeto
acabam revelando
um querer bem maior
que o ter pelo ter.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – vidas secas



*Rangel Alves da Costa


Vidas secas. Moringa molhada da noite. Pote na trempe rachando. Prato de estanho sem pão. Fogão de lenha sem fogo. Gota de chuva sem pingo. E a nuvem chega, a nuvem passa e o sol em clarão no sertão. E o menino chora. E o bicho muge. E a vida é da morte. O viver é da sorte. E o homem sofre. E o mato geme. E a vida é da morte. O viver é da sorte. Uma prece sem voz. Uma vela apagada. Uma nuvem seca. Um sertão de fogo. Um fogo em brasa. A vida geme. A vida grita. A vida espanta. A vida é feia. Tudo tão feio. No osso. No uivo. No gemido. No berro. Na fornalha. No vento que sopra a solidão. Na ventania que leva a solidão. Na tempestade que a tudo transforma em nada. Nada. Apenas uma estrada. Vidas na estrada. Vidas tão mortas. Vidas tão secas. Vidas num sertão que não é quimera, ficção ou ilusão. Está bem aqui. Além da porta, beirando estradas, mais adiante. E seca e aflige não um desconhecido, mas um conterrâneo. Alguém que, como eu, é sertanejo.


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sexta-feira, 8 de junho de 2018

EU SEI QUE VOCÊ SABE QUE EU SEI



*Rangel Alves da Costa


Eu nem precisava dizer isso, mas eu sei que você sabe que eu sei. Você nunca me escondeu nada, é verdade. Contudo, coisas existem que nem você diz a si mesma. E sobre tudo isso eu sei.
De sua boca nada ouvi. Muito você já me falou sobre sonhos, desejos, aspirações, porém nem tudo. Ninguém diz tudo o que sabe ou o que sente. Como dito, nem você mesma sabe tudo sobre tudo o que desejou. Mas eu sei.
E sei por que leio no seu silêncio, leio no seu semblante, leio no seu olhar, leio no seu passo, em tudo que há em você. Observo o seu jeito de sentar, de andar, de mirar o horizonte, de olhar para o vazio, de olhar pra mim.
Sei de sua mudez na palavra e no grito de seu silêncio. Sei das linhas e entrelinhas de tudo o que diz e até daquilo que tem vontade de dizer e não dizer. Por que sei? Não significa que você seja previsível, mas é que aprendi a ler seu livro: a sua vida.
Não precisava ter me dito nada, como de fato não disse. Mas basta chover e você se torna em verdadeira tempestade, em terrível tormenta. Sei bem que se revira por dentro, que faz tudo para não chorar. E acaba provocando um efeito contrário, pois mostra tudo o que sente.
Nada lhe entristece mais que dia chuvoso. Seus olhos, mesmo sem uma lágrima sequer, choram muito mais que a água escorrendo pela vidraça. E nem precisa se aproximar da janela para eu saber que você queria mesmo era estar nua e de braços abertos do lado de fora, encharcada, entregue ao tempo.
Menina, menina, eu sei o quanto representa cada pedacinho que ainda guarda da infância e da meninice. Sei onde sua boneca de pano fica guardada e que também ainda brinca e conversa com ela. Sendo sua amiga e confidente, também sei que chega a chorar com ela deitada no colo.
Mas também seu sorriso grande tendo ela enlaçada aos seus braços. Talvez recordando as traquinagens da meninice, as vezes que deixou a coitada da boneca completamente encharcada de banho da biqueira. Colocava no canto da casinha uma vassoura e depois pedia para que ela varresse a sala inteira.
Contudo, o mais importante é o que leio sempre nos seus olhos. Por isso mesmo que desde muito já não pergunta se ama, se me quer, se me deseja. Tudo está escrito no seu olhar. E por isso mesmo tanto amo você. Tudo na certeza infinita de um imenso amor revelado e guardado dentro do seu coração.
Leio sua tristeza na sua letra trêmula. Leio sua alegria na forma como limpa a casa e ajeita os livros da estante. Sei que não está bem se não cuida de cada cantinho e de cada coisa que tanto gosta. Não precisa me dizer nada quando eu a encontro debruçada no umbral da janela e mais adiante um por do sol.
Também leio o doce poema que de repente avisto nas páginas do seu silêncio. Estrofe a estrofe, na verdade tudo eu sinto do seu sentimento. Uma vontade imensa de ser cais, de ser onda de mar, de ser escrito na areia, de ser brisa que sopra ao entardecer.
Por tudo isso eu digo e sinto o que em você não consegue se esconder. Mas o que eu mais gosto é que você sabe que eu sei tudo de você, mas ainda assim nunca reclamou. E talvez também saiba de mim tudo daquilo que jamais revelei. Somos iguais, então. Um no outro na compreensão.
Mas somente sei por que você me deixou ler o seu livro. E por isso mesmo cuido dele como obra rara em minha vida.


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Lá no meu sertão...


Vem aí...




A prometida (Poesia)


A prometida


Então saí mundo afora
procurando a prometida
que um dia um profeta
viu na vida do meu destino

perguntei ao viajante
por uma linda mulher
perguntei ao caçador
pela mulher mais bela
perguntei ao artesão
por uma doce donzela
e todos apenas disseram
que eu seguisse adiante

e adiante fui seguindo
e então cansei de procurar
até que a voz do vento disse
que o destino não se busca

que o amor é mistério
revelado ao acaso.

Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – gatos e mais gatos, não suporto mais



*Rangel Alves da Costa


Conheço muita gente que nutre verdadeira paixão por gatos, gatinhos e gatões. Nada contra quem goste dos bichanos. Mas tudo contra os bichanos. E falo não de três ou quatro gatos, mas de dez, vinte, trinta, milhões, que depois ao anoitecer surgem para atazanar. Pulam muros, entram por frestas, abrem janelas, abrem espaço entre telhas, ficam ao pé da porta esperando uma chance para entrar. E o que fazem dentro de casa? Reviram tudo, mexem em panelas, sobem na mesa, catam debaixo de tudo, fuçam, azunham, reviram, derrubam e quebram tudo. Isso dentro de casa, pois fazem muito mais. Talvez pensem que o telhado é um campo de dor. São lamentos, gemidos, penitências, rogos, gritos aflitos, uma lastimação. E isso a noite inteira. Parecem quebrar propositalmente o telhado. De repente e um terrível barulho. Uma telha despencando lá de cima por causa de um gato. Um não, vários, dezenas, milhares, milhões. Temo que eles ganhem essa guerra. Ou eu ou eles. Não sei se vai dar certo, mas o jeito que tem será eu colocar cachorros famintos no telhado, também dentro de casa. O pior é se fizerem amizade e eu ficar entrincheirado entre as duas feras. Duas não, dezenas, centenas, milhares.


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