SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 14 de outubro de 2018

NOS CAMINHOS DA PROMESSA E DA FÉ



*Rangel Alves da Costa


Pouco mais das duas horas da madrugada e os ribombos de fogos começaram a ecoar. Após o amainar dos estrondos, logo as vozes eram ouvidas bem adiante. Diversas pessoas, muitas, que foram chegando, reunindo-se no local marcado para o início de um ofício caracterizado pela devoção, fé, crença e religiosidade do povo nordestino: caminhada em louvor a Nossa Senhora Aparecida.
Mas não uma caminhada comum, de um local a outro dentro da própria comunidade ou pelas estradas nos arredores da região, mas seguido um percurso intermunicipal de mais de cem quilômetros. Saindo dos limites das terras de Poço Redondo, no sertão sergipano, e atravessando divisas, cortando estradas, até chegar à sede do município cujo nome homenageia a Santa e Padroeira do Brasil: Nossa Senhora Aparecida.
Tal caminhada surgiu como pagamento de promessa. Após uma graça alcançada, supostamente pela intercessão da santa devotada, iniciou-se a sagrada obrigação de a todo ano, à véspera do dia dedicada à santa, seguir caminhando até o santuário naquela cidade sergipana. No ano inicial, apenas umas poucas pessoas decidiram acompanhar, mas já neste ano um grupo muito maior decidiu acompanhar o pagamento de promessa pelas estradas sertanejas da religiosidade e da fé.
Tenha-se, porém, que o cumprimento da promessa não se dá apenas com a caminhada de pessoas que vão parando para descansar assim que os cansaços e os suores da distância cheguem. Tudo é estratégica e logisticamente programada. As pessoas caminham, mas veículos de apoio proporcionam toda assistência que necessitem. Após a chegada ao santuário e os ofícios religiosos, o retorno se dá nestes veículos. Não há mais uma exaustiva e cansativa caminhada, mas apenas a boa e espiritual sensação de dever cumprido.
Mas como dito, logo após das duas da madrugada, no trecho defronte aonde me acomodo na cidade sertaneja de Poço Redondo, eis que sou acordado do sono tranquilo na rede pelos fogos e pelas vozes. Gente e mais gente chegando, tudo em preparativos para a caminhada de fé, até que todos seguiram em direção a igreja matriz. Ali foram para serem abençoados por Nossa Senhora da Conceição, padroeira local, na caminhada. Entoando cantos, levando rosários de fé, com os corações tomados pela devoção, em seguida tomaram os caminhos distantes.
Tudo isso aconteceu no último dia 11, às vésperas do Dia da Padroeira do Brasil, a Nossa Senhora Aparecida, que com sua força de transformação e de reparo nas linhas tortas da vida, torna possível que cada vez mais gente ao seu manto se entregue em busca de cura, salvação ou simplesmente para agradecer a certeza de sua intercessão. No dia seguinte já estavam no santuário. Neste dia, as promessas foram pagas, os agradecimentos chegaram acompanhados das palavras da alma.
E tanto na ida com no retorno, apenas a caminhada. Nenhum cansaço, nenhuma dor, nenhum sofrimento. Eis os caminhos da fé e da devoção.


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Lá no meu sertão...


Lembrança boa...



Coração padecente (Poesia)



Coração padecente


Meu coração
assim tão sofrido
é um tanto sertão
assim tão padecido

já não tenho lágrima
já não tenho grão
no meu coração
já não tenho alegria
desde o raiar do dia

e a mais bela flor
do mandacaru nascida
morre como o amor
que tem na ilusão sua vida.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – voto e vida sertões adentro



*Rangel Alves da Costa


A legislação eleitoral vai de encontro aos costumes arraigados desde os tempos mais antigos. Ora, todo mundo sabe que é crime a compra de votos. Falam em abuso do poder econômico ou captação ilícita de sufrágio. Mas vá dizer ao pobre sertanejo, ao desvalido sertanejo, ao vivente na miséria dos confins nordestinos - aquele mesmo esquecido pelos poderes públicos e quando muito tem é a esmola do bolsa família – que a comercialização de seu voto é um ato ilícito, criminoso. A necessidade é tamanha que nem pensa duas vezes ao chegar um candidato e despejar na sua mão algum vintém ou mesmo uma feira. Também vale bujão de gás, pagamento de faturas ou qualquer coisa que lhe dispense um pouco do sofrimento. É uma questão de sobrevivência, e não de crime. O candidato, que certamente sabe da proibição, até que pode pagar pela ruptura da lei, mas o desvalido sertanejo nunca. Para este, o bom mesmo é que todo mês houvesse uma eleição.


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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O CÉU DA ANDORINHA



*Rangel Alves da Costa


O céu da andorinha é um céu poético, mas talvez também triste. Seu voo, sempre muito e sempre intenso, mais parece uma fuga de alguma realidade. Ou mesmo que o seu voo festivo esconda uma ânsia de liberdade.
Dizem que uma andorinha sozinha não faz verão. Mas ledo engano pensar assim. A mais sozinha das andorinhas faz não só seu verão como sua primavera, seu outono, seu inverno.
Dizem também que ela só alça voa em dias de tempo bom, quando é avistada festiva pelos ares. Contudo, outro erro pensar assim. Ela se desloca em qualquer tempo e por todo lugar.
A andorinha gosta tanto de voar que passa quase o dia inteiro indo de canto a outro, pousando em fios, em estacas, em varais, no telhado, faz frestas das cumeeiras. Logo se tem que ela não é de apenas uma estação.
Andorinha também gosta de voar dentro e ao redor das igrejas, gosta de fazer ninho à vista de todos, gosta de estar presente em meio à população. Contudo, gosta muito mais de ficar sozinha numa lonjura qualquer.
E por que se diz que uma andorinha sozinha não faz verão? Simplesmente para dizer que é na época quente do verão que andorinhas são mais avistadas voejantes e festivas pelos espaços. Apenas uma andorinha não traduz a existência do tempo ensolarado.
Ou ainda para dizer que a junção de andorinhas demonstra a existência de um tempo aberto, ensolarado, propício ao voo e modificando e embelezando a paisagem. Igualmente com relação ao homem. A sua junção já demonstra uma feição diferenciada no tempo.
Comumente se diz que uma andorinha sozinha não faz verão numa alusão à impossibilidade de se fazer muita coisa agindo sem a comunhão de outras pessoas. Somente provoca o verão, ou a mudança ou a transformação, quando pessoas se unem num mesmo objetivo.
Creio, contudo, que não seja assim. Conforme referido inicialmente, a mais solitária das andorinhas faz não só seu verão como sua primavera, seu outono, seu inverno. Ademais, como os humanos, nem sempre se pode esperar muita coisa de outras pessoas ou andorinhas. E a ação solitária produz efeitos.
Ademais, o termo verão utilizado, tão calorento e abrasador no nosso hemisfério, pode muito bem se referir aos horizontes ensolarados que desejamos para nossas vidas. Sonhos que são sóis em flor, esperanças que se afeiçoam a girassóis, planos que brilham ardentemente nos nossos pensamentos.
Assim, se uma andorinha sozinha pode alçar o seu voo e fazer sua luta, se uma solitária andorinha pode muito bem correr atrás daquilo que tanto deseja para o seu dia, então logo se tem que o homem possui as mesmas asas para fazer o seu verão, ainda que solitariamente agindo.
Tudo nascendo de uma questão de querer, de desejo, de luta, de não se curvar perante as dificuldades impostas pela estação. Se é primavera, mas se deseja um verão, então que se busque a transformação através do voo. E o voo é o sonho, é o desejo, é a esperança. Somente voando é possível alcançar os verões e os novos horizontes.
Num mundo das realizações, nunca espere encontrar um bando de andorinha pelos céus. Aquela que estiver sozinha certamente poderá realizar o que a milhões será impossível. Em cima do arvoredo, quieta, silenciosa, parecendo entristecida, mas apenas alimentando seus planos de conquista.
Jamais se pode duvidar da força do ato solitário. Está no compromisso o passo para a ação. A solidão não é frágil nem é carente. A solidão não está desprovida de força nem de coragem para agir. A solidão é apenas um ato de construção daquilo que a força do íntimo será capaz de fazer.
Assim nascem os verões. Não por meio de bandos ou revoadas de andorinhas. Mas através de uma andorinha sozinha. Ora, ela possui seu voo, ela pode voar.


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Lá no meu sertão...


No sertão, alma humana ao por do sol!



Todo pão é pão (Poesia)



Todo pão é pão


Como pão de hoje
o pão do passado
o pão amassado
ou todo esfarelado

todo pão é pão
toda fome é fome
não há sobrenome
no pão que se tem

pois todo pão é pão
e a barriga vazia
seja noite ou dia
só espera seu grão.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – os meninos daquele rio



*Rangel Alves da Costa


Vi um menino no rio, um menino de Curralinho. Vi outro menino do rio, um menino ribeirinho. Meninos filhos das águas, meninos que vivem sem mágoas, viventes distantes das fráguas. Os dois meninos em companhia, ao lado de animais na mais doce harmonia. Um descansa no seu pelo, o outro ajeita com zelo. Dois meninos de Curralinho, dois filhos do Velho Chico. Um talvez seja São Francisco. E o outro também. Pois então de tanto avistar a ribeira do rio, eu vi outro menino, meninote tão pequenino que mais parecia um grão de destino. Este menino, miúdo e fraqueza, de um escurecido azulino, não era menino comum, não era ribeirinho da terra margeando o Velho Chico. Era um ser das águas, era uma cria da água, era um nego d’água.


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terça-feira, 9 de outubro de 2018

A TRISTE NUDEZ DO SERTÃO



*Rangel Alves da Costa


Desde muito que o sertão nordestino foi transformado. Os primeiros colonizadores tiveram que vencer a mata fechada e hostil, densamente habitada por bicho de toda espécie. Somente pela lâmina afiada se podia abrir caminho para chegar mais adiante. Mesmo com as picadas e veredas abertas, ainda assim a fauna e a flora nativas continuaram em abundância.
Também não foi o fim do mundo quando aquela gente chegada pelas beiradas do rio ou cortando a mataria, começou a desmatar para erguer moradia, construir currais e abrir pastagens para os rebanhos, ou mesmo para o cultivo de subsistência e, mais tarde, para produções excedentes. E assim porque o homem respeitava a terra, somente avançando sobre ela naquilo que fosse essencial para a sobrevivência.
Contudo, a partir do instante que as primeiras povoações se transformaram em cidades e grandes levas de forasteiros acorreram aos sertões em busca de dias melhores, então se iniciou a descaracterização não só da vegetação nativa como do bicho e seu habitat. E assim ocorreu porque a demanda pelo consumo interiorano passou a exigir maior uso da terra e da caça como meio de alimentação.
As pequenas propriedades foram derrubando o mato e expulsando os bichos que nelas faziam moradia. E tudo não devastado de vez pelos grandes latifúndios ainda existentes. Somente as propriedades portentosas, ainda que tidas como improdutivas, resguardavam nos seus confins tanto a vegetação nativa, rica, imponente, como as espécies que corriam livres de canto a outro. Havia o arvoredo, o pé de pau, a galhagem, o emaranhado de cipó e tronco e, consequentemente, o lar propício à permanência da onça, do veado, do caititu, de todo uma fauna própria da região sertaneja.
Mas quando, já na última quadra do século passado, a reforma agrária avançou sertões adentro e transformou latifúndios em terras de muitos, então a mata e o bicho se viram numa encruzilhada. Já não contavam com a terra inteira, grande, livre, para viver os seus ciclos de existência. O fim do latifúndio significou, assim, a derrocada da natureza ainda rica em espécies. E tal quadro se acentuou com a divisão e loteamento das grandes propriedades, passando a cada novo assentado o direito de transformá-la como bem entendesse.
Se o fim do latifúndio significou a morte da natureza, a posse da terra pelos trabalhadores sem-terra (advindos dos movimentos sociais de luta pela reforma agrária) significou o seu sepultamento. Como um dos objetivos da reforma agrária era a concessão de terras para que os excluídos pudessem produzir seus próprios meios de subsistência, então a primeira coisa que os assentados fizeram foi desmatar, derrubar a vegetação grandiosa existente para, em cima da terra nua, plantar e colher.
E foi o começo do fim da planta e do bicho no sertão. Em pouco tempo e não havia mais árvores portentosas, bichos se escondendo nas locas, pulando de galho em galho, correndo de canto a outra. Ora, sabido é que sem mata não há como sequer o passarinho sobreviver. Sem galhagem para fazer o ninho, sem copa para repousar, sem o fruto e a flor para se alimentar, então não há como permanecer no lugar. E assim aconteceu com todas as espécies de animais.
E o desmatamento foi se acentuando de tal modo que hoje em dia é raridade encontrar uma sombra debaixo de qualquer árvore. Somente as cactáceas permaneceram na sua desolação. Com a terra nua, aberta, desprotegida da natureza, o calor aumenta cada vez mais. Ora, o raio solar que não encontra um manto verde, protetor, logo abaixo, incide sobre a terra nua e vai se espalhando pelos quadrantes sertanejos em forma de abrasamento.
O boi, a vaca, o cavalo, os bicho ainda existentes, todos pastam sedentos num deserto sem fim. Dia e noite debaixo do tempo nu e da terra seca. Uma vida num deserto forjado pelo homem e que tende a se transformar em fornalha com o passar dos anos. Assim a existência na terra nua, na mais triste desolação.


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Lá no meu sertão...


Candeeiro de pouco gás - entardecer no sertão!



As borboletas (Poesia)



As borboletas


As borboletas são pássaros
que entram pela minha janela
que cantam e fazem ninhos
que alegram minhas manhãs
e depois partem em revoada

mas não são pássaros as borboletas?

pouco importa que sejam insetos
para mim são pássaros multicores
que entram pela minha janela
que cantam e fazem ninhos
e que alegram minhas manhãs

as minhas borboletas são pássaros sim!

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - eu em mim



*Rangel Alves da Costa


Eu em mim. Nunca mais eu havia me reencontrando neste espelho. Um reflexo tão triste e doloroso quanto a própria vida. Eu aqui de cigarro aceso, sem palavra, sem companhia, sem boa cabeça para pensar em nada. Triste, de tristeza infinita. Não estou bem. Ando sofrendo demais. Minha borboleta nunca mais apareceu. Também cortaram o meu pé de laranja lima. Minha nuvem passa sem desenho ou fotografia. Nada na manhã, breu ao escurecer. Eu não era assim. Apenas entristecia, apenas sofria um pouquinho, apenas sangrava um pouquinho. Mas eis que de repente surgiram os açoites, as ventanias, os vendavais, as tempestades. Não tenho estrada nem lírios do campo. Não tenho valsa para valsar. Não tenho um Noturno de Chopin nem uma taça de vinho. Minha janela está aberta e nenhuma lua quer entrar. Talvez amanhã eu melhore. Talvez amanhã eu esteja bem melhor. E fugindo dos desvãos da vida, nunca mais querer experimentar as páginas dolorosas e angustiantes como nas confissões literárias - e de vida - de Clarice Lispector.


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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

BOLSONARO E HADDAD: UM JOGO DE PAIXÕES E NÃO DE CANDIDATOS



*Rangel Alves da Costa


O primeiro turno da eleição para presidente passou e agora resta somente a disputa entre duas paixões: o bolsonarismo e o petismo. E não propriamente entre Jair Bolsonaro, do PSL, e Fernando Haddad, do PT.
Explica-se o porque de em tal contexto as paixões serem mais importantes do que os próprios candidatos. Simplesmente pelo fato de que o bolsonarismo se tornou mais valoroso do Bolsonaro e o petismo é muito mais importante do que Haddad.
Ora, Jair Bolsonaro é candidato sem deixar realmente claro o que ele desejar ser acaso seja eleito presidente. Fernando Haddad é candidato que nada diz sobre sua capacidade de administrador, vez que já reprovado na gestão da prefeitura paulistana.
E então, por que estes dois candidatos, com conteúdos políticos tão incipientes, foram escolhidos pelos eleitores para se digladiarem até o pleito definidor do segundo turno? A resposta não estará nos candidatos, mas nas forças populares que se aglutinaram ao seu redor.
Sim, assim mesmo, pois de um lado há o bolsonarismo e do outro o petismo (ou lulismo). Pouco importa a força em si dos candidatos. O que está em jogo é tão somente a oposição entre os ideais do bolsonarismo e do petismo (lulismo). Bolsonaro e Haddad estão muito aquém de tais forças que se opõem.
Para uma melhor ideia do jogo de oposições, a grande maioria dos votantes em Bolsonaro o tornou escolhido como candidato não pelo fato de o mesmo representar a força da verdadeira mudança que o Brasil tanto precisa, mas apenas pelo fato do declarado antipetismo.
Nessa linha de raciocínio, o bolsonarismo quer vencer o petismo, quer derrotar o lulismo, quer sobrepujar aqueles tidos como responsáveis por mil e uma mazelas que assolaram o País. Assim, o bolsonarismo não vota contra o candidato Haddad, e sim - e com unhas e dentes - contra o partido e a liderança maior que o representa.
O bolsonarismo é o anti-lulismo explícito. Haddad pode passar na estrada, mas Lula não. Haddad é um tanto faz ante a demonização que se tem de Lula. É o ex-presidente que parece ter contas a acertar com muita gente, com grande parte dos eleitores de Bolsonaro. E por isso mesmo desejam cortar o mal pela raiz.
O bolsonarismo tenta, a todo custo, vencer o endeusamento que quer sobrepujar a inteligência brasileira. E logo chama para si a responsabilidade pela derrota daqueles que insistem em ter em mãos o poder, mas quando o tiveram deram os exemplos mais degradantes.
O bolsonarismo pensa assim, luta para vencer aquilo que os seus partidários chamam de putrefata corrupção, mas será que o petismo (ou lulismo) possui um pretexto de igual teor? Não. O pretexto de vencer o medo da violência é apenas um discurso de uso por falta de outro.
E falta outro por que ao petismo não interessa vencer isso ou aquilo, interessando apenas vencer e retomar o poder. Mas também mostrar que mesmo dentro de uma cadeia o ex-presidente ainda é quem manda no País. Os objetivos reais de tanto querer retomar o poder possuem feições tão nebulosas que até são difíceis citar.
Por que o petismo é quem disputa a presidência e não o candidato escolhido, tanto faz que o seu nome fosse outro qualquer. Tanto assim que Haddad foi escolhido não por ser bom exemplar de alguma coisa, mas simplesmente para representar o petismo ou lulismo.
O próprio PT sabia da existência de nomes muito melhores que Haddad. Não foi feita outra escolha pelo simples fato do medo de colisão entre a cartilha do candidato e a cartilha de Lula. Assim, o candidato escolhido não tem nem vida própria, pois a desenfreada tentativa de encarnação de Lula.
Daí que, de fato, o candidato do PT é Lula, e não Haddad. Todo esforço que se faz é para mostrar a força e o poder de Lula, e não da capacidade do candidato escolhido. E é exatamente isso que o bolsonarismo tanto confronta. O bolsonarismo quer derrotar o lulismo, e não Haddad.
Por isso mesmo que os bolsonaristas são mais antilulistas do que mesmo a favor de Bolsonaro. Este é apenas um porta-voz de uma militância que não mais aceita viver no País do esquecimento dos descalabros deixados pelos rastros do petismo.
Em tal contexto, a guerra aberta vai muito além do nome de candidatos. Os lulistas e petistas querem vencer por e em nome de Lula. Os bolsonaristas querem deixar Lula aonde ela está mesmo.
Guerra de ideologias? De jeito nenhum. Guerra de ódios e paixões. A ideologia do petismo é o lulismo. E do bolsonarismo é apenas o anti-lulismo. Paixões e ódios numa batalha que logo será conhecido qual vencedor.


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Lá no meu sertão...


Há o tempo de tudo. Eu confio no Eclesiastes!



Noite solidão (Poesia)



Noite solidão


Que noite triste
que noite terrível
negrume e escuridão
solidão

quanta angústia
quanta melancolia
tanta dor e aflição
solidão

mas não sou assim
não queria em mim
sangrado no coração
solidão.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - palavras e folhas mortas



*Rangel Alves da Costa


Tentando escrever, mas quase sem forças. Na verdade, gostaria mesmo de estar trancado num quarto escuro, debaixo de panos, distante de tudo. Quanto nome a me atormentar: angústia, solidão, tristeza, vazio, abandono, desilusão, dor, sofrimento. Desamor, desamor, desamor. Não pensei que seria tão doloroso assim. Mas vem o punhal de ponta afiada e dilacera o peito. Mas vem a garra ensandecida e lanha todo o ser. Mas vem o mortal veneno e quer se despejar sobre minha boca. Não, não. Eu não merecia isso. Tudo em mim é outono, é folha morta, é resto. Nada me alegra, nada me conforta, nada me traz um tantinho assim de alegria. Vivente à beira do precipício e vem um nome a me soprar com a força de ventania. E o que já não é, talvez já seja mais.


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domingo, 7 de outubro de 2018

OS ELEITOS



*Rangel Alves da Costa


É neste domingo, dia 07 de outubro, dia de disputa eleitoral, e o pleito vai se estender até o entardecer. Depois disso, a divulgação das pesquisas de boca-de-urna, o disse-me-disse, as expectativas e, enfim, as apurações e o aparecimento dos primeiro resultados. Ante as novas tecnologias, não demora muito e toda a apuração já estará concluída. Muitas vezes, não há nem tempo de o candidato ir à farmácia comprar um turbilhão de calmantes ou adquirir lenços para as lágrimas doces ou amargas demais.
Com a primeira parcial apresentada em painel no centro de apurações, logo se terá o sorriso largo ou a tristeza apresada. As urnas são santas, dirão uns. As urnas são traiçoeiras, dirão outros. As mãos trêmulas tentam anotar números, resultados, fazer cálculos. Não conseguem. O nervosismo é demais. A vida do candidato está ali. Depois de meses e meses de porta em porta - mentindo descaradamente -, indo de canto a outro, prometendo muito e gastando pouco, agora a hora do tudo ou do nada.
Tem gente que não acredita no que avista e logo põe as mãos à cabeça em total desespero. Os saltos e os murros pelo ar são sempre sinais de números bons que acabaram de surgir. Num canto, um pleiteante está totalmente estático, paralisado. Não, aquilo não pode ter acontecido. Nenhum voto na seção que votam sua esposa e sua amante. Alguma coisa deu errada, lamenta-se enquanto refugia-se para o quase desmaiar. Um copo d’água não serve. Quer mesmo é morrer. Vai saindo de fininho e nem se lembra das dívidas que deixou para trás. Estava certo de pagar tudo antes mesmo de tomar posse. E agora?
As expectativas aumentam. As primeiras urnas sinalizam o destino dos candidatos, mas não define. Muita água ainda pode rolar debaixo da ponte, como chega um para esperançar um pleiteante já cabisbaixo e desiludido. Outro se aproxima para dizer que o berço eleitoral do candidato ainda não foi totalizado e que, por isso mesmo, ele pode dar a volta por cima. Já outro vai logo correndo atrás de fogos, já vai chamando o candidato de deputado, senador ou governador. E relembrando na hora aquele emprego prometido. O quase-eleito - e como sempre acontece - já mudou o discurso, já não força sorrisos, agora tanto faz aquela gentalha que nele votou.
Noutros idos, após o término da votação, logos os preparativos das festanças tomavam rumo. Numa disputa política local, num tempo de voto de cabresto e curral fechado, as lideranças locais se digladiavam não pela vitória de dois da mesma localidade para tomar assento na assembleia legislativa, mas pela vitória de um e a derrota do outro. A maior vitória do ferrenho opositor era a derrota do outro. O sucesso deste seria um fracasso total ao seu grupo político, que certamente se fragilizaria a partir da debandada de falsos amigos e eleitores.
Assim, terminada a eleição, o coronel Miguelino Cabreúva mandava matar cinco bois para a festança de comemoração do fracasso de seu opositor. Cinco bois, meio mundo de cajuína e aguardente, fogos de não acabar mais. Naquela eleição, ao invés de apoiar qualquer outro candidato de fora, esmerou-se mesmo em fazer política para tirar votos do inimigo. Onde soubesse que havia uma família propensa a apoiá-lo, logo era encaminhada uma comitiva de jagunços com dois contos à mão e um recado bem dado: Se votar no coronel Torquato não sobra nem pó!
Por sua vez, ciente de já estar vitorioso, o coronel Torquato Quixabeira preparava uma comemoração ainda maior. Ele queria porque queria mostrar a seu desafeto quem mandava ali. Ademais, o poder local não podia continuar dividido entre dois coronéis. E agora, sendo eleito deputado da região, forçaria a todo custo a queda do opositor. Por isso mesmo havia vendido de porteira fechada uma de suas tantas fazendas, redobrado o número de seus pistoleiros, e tudo para ganhar a eleição no dinheiro ou na bala. Vixe Maria, dizia o vigário Miguelino em meio à trincheira sangrenta.
Quem se deu melhor nessa disputa de mando? Tanto faz. Em política, quem é eleito nem sempre sai vitorioso, quem perde nem sempre sai totalmente derrotado. Na vitória há um fardo pesado demais a ser carregado. Ao menos para aqueles com algum compromisso ou seriedade. Não é nada fácil mostrar que valeu a pena ser votado, pagar promessas, não se desnortear muito daquilo que se mostrou enquanto candidato, mas principalmente continuar sendo respeitado pela população e eleitores.
Já os não eleitos, muitos destes se posicionam com pedras à mão e mirando determinadas janelas. E permanecerão derrotados acaso não façam do insucesso uma lição. Não adianta apenas fazer oposição. Tem que mostrar que poderia fazer melhor. Contrariamente ao que se imagina, oposição política exige demonstração de ação e capacidade para as futuras escolhas, e não apenas enlamear nomes, administrações e governanças.
Ao final deste domingo, os eleitos ou escolhidos para o segundo turno já estarão conhecidos. E certamente com fogos e lágrimas. Mas é o povo quem acende o pavio ou entrega o lenço. E assim deveria ser mais reconhecido, bem como suas motivações para eleger ou derrotar.


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Arroz sem feijão (Poesia)



Arroz sem feijão


Feijão com arroz
um baião de dois
agora só arroz
em mim

baião sem dois
arroz solto
solteiro
sou eu

o que era baião
feijão com arroz
em nós dois
agora num só.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – bolsei, bolsonarei...



*Rangel Alves da Costa


Eu já bolsei, já bolsonarei. Meu voto já foi dado ao menos ruim ao momento brasileiro. Possa até ser flor que não cheire bem, mas muito mais perfumada que essa podridão chamada petismo. Não há apenas uma podridão, mas um antro de imprestabilidades, de lamaçais, de corrupções. Na verdade, qualquer senso minimante crítico já depõe contra o PT. Impossível alguém de sã consciência não perceber o que a quadrilha petista fez com o Brasil. E  votar na continuidade da roubalheira, da corrupção, da desenfreada improbidade, seria comungar com o crime. Por isso mesmo escolhi Bolsonaro, e o escolhi por representar a antítese de tudo o que está aí. Ninguém suporta mais viver num país tão injusto com os seus cidadãos. É preciso fazer qualquer alguma coisa para mudar. E fiz. Já votei.


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sábado, 6 de outubro de 2018

RETIRANTES



*Rangel Alves da Costa


Os tempos sertanejos já estão mais entristecidos, desalentados, desvalidos como a planta angustiada e o tanque já sedento. Os períodos chuvosos foram passando, as sementes esturricaram debaixo do chão, tudo foi definhando de vez. Não é só o cenário de paisagens desalentadoras de agora, mas as experiências matutas, as velhas sabedorias sertanejas, antevendo dias de tristezas ainda mais contundentes. Coisas de cortar coração, como no mundo-sertão se diz.
Verdades que muitos preferem viver a ilusão do verdor ainda existente num canto ou noutro. Mas como existir tempo bom sem a comida no pasto, sem a água na fonte, sem a despreocupação com o amanhã? Como dizer que tudo está bem, que tudo é confortante, se o velho cesto já foi retirado dos cantos para a palma pinicada, o resto de capim, qualquer coisa que vá sustentando o bicho? Noutros idos, então se dizia que estava chegando o tempo do pote rachando e da moringa molhada apenas pelas lágrimas do barro.
Muitos ainda se deixam enganar pela tal da seca verde. Aquela mesma do aparente verdor, da ilusão da terra molhada e da bonança do clima. Mas quem é enraizado na terra não se deixa enganar. Ainda que existam algumas flores e frutos por cima dos campos, nada se mostrará como bom se nos horizontes apenas a permanência de mil sóis a cada instante do dia. A seca verde é como um papel manteiga por cima do chão abrasado. Não demora muito e tudo vai virando cinzas de vez. E para fugir dessa ilusão, somente os sons dos relâmpagos e dos trovões, somente a chuvarada caindo, somente aquele cheiro forte da terra sendo entranhada pelo pingo grosso.
Enquanto as nuvens gordas, negras, prenhes, estiverem nos escondidos, nada se mostrará como esperançoso aos olhos sertanejos. Olhos que também avistam as esperanças nos gravetos de pau, nos ninhos dos passarinhos, nos sopros do vento. Na sabedoria sertaneja, fazendo a leitura do mundo, graveto que parece se retorcer sozinho é sinal de chuva breve. Quando os ninhos são feitos nas locas mais altas das pedras e não na copa das árvores, igualmente sinaliza chuvarada que se aproxima. Quando o vento começa a sopra assobiando, forte e fazendo curva, a certeza de muito pingo d’água cairá.
Mas por enquanto nada disso. Nenhuma leitura no tempo está sendo proveitosa. O que se espalham são os medos, os temores, as reclamações de falta de água, de comida pro bicho, de alimento à mesa. Os retratos vão surgindo e estes mostrando os campos secos, os barreiros vazios, os pequenos rebanhos pastando entristecidos debaixo do sol. Quem não teme ser humilhado ou tornar o seu voto e de sua família em moeda de troca, logo vai esmolar uma carrada d’água ao político da hora. E agora, em tempos eleitorais, são muitos. Mas depois?
A politicagem desenfreada sempre humilhou o sertanejo. O homem da terra, tão forte e tão lutador, mas fragilizado perante as estiagens, de repente se vê às portas da prostituição eleitoreira. Mais que uma humilhação, uma verdadeira desonra àquele que tem de submeter ao político em busca de um pouco de água para a sua cisterna. E basta que um carro-pipa chegue à sua cancela para nunca mais deixar de ser usado e abusado pela política. Daí para sempre será lembrado como aquele que deve o voto por causa de um pouco d’água.
Mas sempre assim. Mesmo na humilhação, na submissão eleitoreira, o temor maior é que as chuvas sumam de vez e a seca voraz abra cada vez mais sua boca. O medo maior é ouvir o bicho berrando e nada poder fazer. A angústia maior é avistar tudo ressequido e os sonhos serem engolidos pelo sol inclemente. E ter que desistir daquele mundo seu, e ter de fechar as portas da casinha, e ter que arribar mundo afora sem destino certo. Assim como aqueles retirantes tão bem retratados por Portinari. Famílias pelas estradas nuas. Restos humanos sendo levados ao deus dará.
Um espelho vivo da obra do grande mestre da pintura brasileira. Após os anos 40, Cândido Portinari deu início a uma série de pinturas que espelhavam a realidade social brasileira e, mais de perto, a nordestina. Exemplo disso, em 1944 surgiram as famosas e expressivas telas denominadas “Os Retirantes”. Nestas, tão conhecidas, uma família pelas estradas áridas, secas e espinhentas, fugindo das aflições de um mundo de dor e sofrimento.
Ante a fidelidade dos retratos pintados, sequer precisaria dizer mais alguma coisa. Ali a família fugindo da seca, tão esquelética e triste quanto o seu próprio mundo desfolhado e seco. Ali a família tendo que arribar de seu mundo e seguindo em desvalia pela incerteza das estradas. Ali o fiel retrato da desvalia nordestina ante a estiagem devoradora de tudo, lançando ao desalento vidas de todas as idades.
O que se teme, com os avanços sempre inevitáveis da seca, é que tais pinturas sejam novamente retratadas em cenários melancolicamente vivos pelas estradas sertanejas. Famílias que partem, mundo que fica. E sem um olhar para trás. Não há mais lágrima. A estrada, apenas.


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Lá no meu sertão...


Sertão, entardecer!





Vai chover (Poesia)



Vai chover


Vai chover
vou catar lenha

graveto
pra riscar fogo

roupa avoa
no varal

ventania
traz folhagem

o sol
sumiu lá de riba

a nuvem
prenhe chegou

vai chover
vai chover

dia mais dia
assim

vai chover
vai chover

e o sofrer
o sofrer...

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – Bolsonaro, a onda...



*Rangel Alves da Costa


Ao invés do que muito petista esperava, ou seja, o arrefecimento da campanha de Bolsonaro e até a superação em números por Haddad, eis que ocorreu exatamente o contrário. Enquanto Haddad não conseguiu ser o Lula-candidato, não conseguiu absorver sequer a força petista na região nordestina, Bolsonaro fui num crescente vertiginoso. Por mais que os institutos de pesquisa negassem a realidade dos números, tudo chegou ao estágio de ou mostrar a realidade ou a cair no lamaçal do descrédito. A Globo quis derrubar Bolsonaro, a Folha de São Paulo também, e a mentira ainda mais. Uma vergonha indescritível o quanto tentaram enlamear a vida pessoal e política de Bolsonaro. Até um grave atentado o candidato sofreu. Contudo, mesmo afastado da campanha, dos debates políticos e do encontro com seu eleitor, sua força foi conduzida que acreditaram num país melhor. E basta sem PT para já ser bem melhor. E na reta final a esfuziante força chamada Bolsonaro. Enquanto os outros candidatos estacionaram ou pouco subiram, ele foi somando e somando mais. Um vendaval, um turbilhão, para varrer tudo e, talvez, fazer o Brasil recomeçar. Mesmo que não seja eleito já neste domingo, certamente ele será o próximo presidente desta pátria dos que ainda se encorajam pelas grandes mudanças. Avante, Bolsonaro. Avante!


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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

SEMPRE AO LADO (ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE)



*Rangel Alves da Costa


Parecendo o cenário da pintura “A Menina Doente”, de Edvard Munch, onde uma mãe está sentada ao lado de sua filha enferma, zelando pelos seus últimos instantes de vida. Na pintura, as faces esmaecidas da menina, num tormento de fim de vida, enquanto sua mãe pranteia internamente a sua dor. Uma representação triste, comovente e demasiadamente realista.
Desta feita, também um parente zelando pelos últimos momentos de um ser amado. Uma filha e uma mãe. Uma filha sofrendo a mesma dor da mãe, e uma mãe já sem forças para esboçar qualquer reação, senão através de palavras:
“Não chore assim, minha filha. Não chore que vou melhorar...”.
“Mas não estou chorando, mãe, não estou chorando. Só estou um pouco entristecida por tanto sofrimento que a senhora está passando e nada dessa doença ir embora...”.
“Oh filha, suas lágrimas chegam a cair sobre minha face...”.
“Aqui está muito quente e estou suada. Deve ser apenas isso. Deve ser apenas o suor respingando sobre a senhora...”.
“Já não tenho a idade das ilusões, minha filha. Lágrimas são lágrimas, respingos são respingos...”.
“Tá bem, minha mãe, tá bem. Não vou mais chorar. É que sofro tanto ao ver a senhora assim. Dia após dia e a senhora sem ter diminuição nessa febre, nessas dores...”.
“Oh filha, os tempos também chegam. As folhas perdem o viço e se vão com a ventania...”.
“Não fale assim, minha mãe. Por favor não fale assim. A senhora vai logo ficar bem. E não demora muito e faremos uma viagem maravilhosa...”.
“Viagem, viagem, é o que eu farei minha filha. O vento sopra, tudo em açoite. E logo virá a ventania...”.
“Tome aqui esse remédio. Já está na hora. E por favor não fale mais nessas coisas de vento, de ventania. Tudo isso me entristece e sei que a senhora vai ficar logo boa...”.
“Lembra-se de quantos dias, semanas e meses, que eu venho tomando esses remédios sem parar. Qual foi a melhora que eu tive?...”.
“Mas eu sinto melhoras sim. Talvez a senhora nem perceba, mas suas faces ficam mais cheias de vida e sua disposição aumenta quando toma os remédios...”.
“Sei que tudo faz para me encorajar, para fazer com que eu penso que estou melhorando. Mas também sei que os remédios não fazem mais qualquer efeito...”.
“Oh minha mãe, não diga assim. O médico mesmo veio aqui, examinou a senhora, prescreveu os mesmos remédios e disse que a senhora logo vai ficar curada...”.
“Está ouvindo, minha filha, está ouvindo?...”.
“O que minha mãe, ouvindo o que? Ouço apenas o cortinado se balançando pelo vento que bate de vez em quando. Apenas isso. Agora tente dormir um pouquinho...”.
“Não. É a ventania. Ouça!...”.
“Não se preocupe. Vou fechar a janela e ajeitar as cortinas. Não haverá mais nenhum barulho e a senhora não ouvirá mais qualquer som...”.
“Deixe-me apertar sua mão. Dê-me a mão, minha filha. Aperte bem a minha mão...”.
“Por que?”.
“Sou apenas uma folha. O outono chegou. Já não tenho forças para mais nada. Sinto a ventania, sinto a ventania. Estou sendo levada, minha filha...”.
“Mãe, mãe?...”.
Nenhuma palavra mais. Nenhum suspiro. O outono havia chegado. A ventania havia levado.


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Lá no meu sertão...


Cores do Sertão!


Claro e escuro (Poesia)



Claro e escuro


Não tenho medo
do escuro

nem de sombras
sobre o muro

mas tenho medo
do claro

no escuro
eu não vejo

no claro
eu vejo

não desejo
e vejo

e sinto
e choro.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – voto e vida sertões adentro



*Rangel Alves da Costa


A legislação eleitoral vai de encontro aos costumes arraigados desde os tempos mais antigos. Ora, todo mundo sabe que é crime a compra de votos. Falam em abuso do poder econômico ou captação ilícita de sufrágio. Mas vá dizer ao pobre sertanejo, ao desvalido sertanejo, ao vivente na miséria dos confins nordestinos - aquele mesmo esquecido pelos poderes públicos e quando muito tem é a esmola do bolsa família – que a comercialização de seu voto é um ato ilícito, criminoso. A necessidade é tamanha que nem pensa duas vezes ao chegar um candidato e despejar na sua mão algum vintém ou mesmo uma feira. Também vale bujão de gás, pagamento de faturas ou qualquer coisa que lhe dispense um pouco do sofrimento. É uma questão de sobrevivência, e não de crime. O candidato, que certamente sabe da proibição, até que pode pagar pela ruptura da lei, mas o desvalido sertanejo nunca. Para este, o bom mesmo é que todo mês houvesse uma eleição.


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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

PENSAMENTOS QUE DOEM



*Rangel Alves da Costa


Demais conhecida é a sentença de Descartes: Penso, logo existo. Com efeito, o filósofo francês Renê Descartes procurou sintetizar o alcance do verdadeiro conhecimento. Tudo existe e na forma que o pensamento assim desejar.
Segundo o filósofo, é o pensamento que forma a consciência, que idealiza a existência das coisas. Não perante aquilo visível e palpável, mas diante daquele que surge à mente para tomar forma segundo a noção concebida pela pessoa.
Contudo, inverto tal síntese filosófica para colocá-la perante situações reais, que não podem somente ser imaginadas por que realistas demais ao pensamento. Nada que seja presumido ou idealizado, mas simplesmente sentido nos seus efeitos, como verdade que não se pode negar.
Então, diria: Penso, logo entristeço. Não só entristeço como sofro, lamento, agonizo. Não só me consterno como me aflijo, padeço, pranteio. E não poderia ser diferente: no mundo atual, parece não haver lugar para alegrias e felicidades. Há um manto de tristeza revestindo cada acontecimento.
Por isso, penso e logo entristeço. Não há com deixar de entristecer diante de tanta violência, tamanha atrocidade, tanto sangue inocente jorrando, tanta vítima da desumanidade e da brutalidade. Aqui e ali, por todo lugar, e a mesma notícia ruim que chega em ventania, que se amontoa nos canteiros putrefatos do mundo.
Penso, logo entristeço. Por mais que haja esforço, encorajamento, busca de encontrar bons motivos e esperanças, ainda assim persistem as dores e os sofrimentos. E nada de imaginação, mas de pura realidade: mais um ataque terrorista, mais uma cabeça decepada, mais ódio jurando de morte a todos.
Penso, logo entristeço. Penso que a vida poderia ser bem melhor, mais humana, mais agradável e convidativa a se viver. Mas o chefe não deixa, o patrão não deixa, o vizinho não deixa, o estranho não deixa, o político não deixa, o governante não deixa. Parece mesmo uma aptidão única para tornar a existência mais dificultosa e padecente.
Penso, logo entristeço. Tantas vezes até me belisco para saber se enfrento a realidade ou permaneço em sonho ruim. Dou-me conta da realidade e entristeço mais ainda. E não há como não entristecer diante do preço do feijão, do remédio, da vestimenta, de tudo que a pessoa precise para sobreviver com a mínima dignidade.
Penso, logo entristeço. Entristecido, baixo a cabeça para esconder a face estarrecida, porém não há quem consiga fugir do mundo real. Tão realista quanto feroz, voraz, faminto. Um mundo que desnorteia infâncias e juventudes, que sucumbe as morais humanas, que faz surge tantas aberrações e atrocidades. Ou não será o mundo, mas apenas o homem?
Penso, logo entristeço. Somente os insensíveis ou responsáveis pelas tristezas dos outros para não entristecerem perante os fatos novos, ou já envelhecidos debaixo de tapetes ou atrás de cortinas. E não há lugar para pensar, senão apenas confirmar, os nomes envolvidos em corrupção, em desvios de verbas públicas, em enriquecimentos ilícitos, em todos os tipos de falcatruas contra as verbas públicas.
Penso, logo entristeço. Gostaria de estar sorrindo pelas calçadas, nos bancos das praças, pelos caminhos e mais além. Mas como sorrir se roubaram os sorrisos, se furtaram as felicidades, se levaram a paz à mão armada? Como mostrar uma cara alegre se o olhar defronta a aberração, se o coração amarga a dor das crueldades em cada canto e cada esquina?
Penso, logo entristeço. E creio não haver mais lugar onde pessoas não estejam entristecidas. Em toda palavra o descontentamento com os salários atrasando cada vez mais. Em toda voz a angústia com o preço alto demais da sobrevivência. Em todo sussurro a aflição pela desesperança por dias melhores, vez que os abismos se aproximam cada vez mais e absolutamente nada permite pensar num amanhã que seja enfim prazeroso.
Penso, logo entristeço. Ligar o rádio, a televisão, o computador, o smartphone, ouvir o outro, ler o jornal? Qual o prazer na música de sucesso atual, qual o contentamento ante o noticiário na televisão, no computador, no jornal? Melhor o entristecimento pelo já conhecido a se entristecer mais ainda com a novidade que chega. Dor sobre dor, melhor o entorpecimento de vez.
Penso, logo entristeço. As pessoas não sabem mais o que querem, não conseguem mais ser coerentes consigo mesmas. Passam a rejeitar o que conseguem pelo simples desejo de a tudo negar. Luta-se pela saída de uma governante e passa a bradar pela saída do outro. E assim será com todo aquele que chegue ao poder. Quer dizer, nada possui serventia.
Penso, e se mais uma vez entristeço, então penso logo em desistir. Não. Não desisto. O ser humano deve carregar consigo o compromisso das transformações. Ainda que agindo sozinho, carregando pedras sobre espinhos, jamais poderá desistir de seus sonhos.
E penso que perante a situação, sobreviver para sonhar com um amanhã melhor já será de grande valia. Pois também penso que um dia voltarei a sorrir.


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Lá no meu sertão...


Uma solidão tão majestosamente linda!



Carência (Poesia)



Carência


Sem mulher
nua

sem a beleza
sua

sem a metade
lua

noite assim
de fel

sem lua
de mel.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - uma estrada de fé



*Rangel Alves da Costa


Lembro-me muito bem desse dia. Eu caminhando sem pressa pela estrada nua, sobre a terra e as pedras do chão, de repente, um pouco mais adiante, comecei a ouvir cantos de fé e devoção. Olhei atrás e avistei a cidade em seus labirintos de edificações. Uma Poço Redondo que lá permanecia tecendo o seu dia. Mas aquele povo não. Aquele meu conterrâneo seguia em procissão, tomado de fé, cheio de abnegação. Encantado com o encontro, perante um ofício religioso tão próprio de outros tempos, meus olhos brilharam perante aquele sagrado percurso em direção ao templo raiz: Capela de Santo Antônio do Poço de Cima. João Vitor e Enoque, o que estes dois jovens fazem levando os estandartes da fé? Eu já tinha as respostas. A mesma devoção religiosa e o mesmo amor pelos antepassados daquelas jovens e senhoras que os acompanhavam, a maioria com raízes familiares naquela localidade primeira. Uma imagem sacra levada no andor das mãos, breves paradas para leituras santas, e depois seguindo e seguindo. E eu a tudo observando, simplesmente apaixonado pelo meu sertão. “A nós descei divina luz. A nós descei divina luz. Em nossas almas acendei o amor, o amor de Jesus. Em nossas almas acendei o amor, o amor de Jesus!...”.


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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O VELHO



*Rangel Alves da Costa


A cama desforrada de dias. Não havia pressa nem qualquer prazer em dobrar os panos, ajeitar o travesseiro, deixar tudo arrumado para a noite seguinte. Mesmo forrada, assim que deitava tudo parecia em redemoinho. Virava-se de lado a outro, estendia o braço ao outro lado, mas desde muito que ali já não deitava ninguém. Por fim, levantava o olhar em direção ao telhado e começava a viajar por um mar sem fim. Somente nas ilusões de ilhas e cais conseguia adormecer. Uma saudade fingida.
Levantava-se quase na madrugada. Caminhava para a cozinha, colocava água na chaleira para fazer café, acendia o fogão e depois abria a porta de trás, tendo o quintal adiante. De xícara à mão, dava passos lentos pelos arredores, olhava para os espaços ainda de pouca luz e então iniciava um ofício que trazia como compromisso desde que se viu em viuvez. Ajeitava as plantas do canto do quintal, aguava, conversava com cada ramo, cada folha e cada flor. Sempre pressentia estar sendo carinhosamente vigiado por sua falecida esposa. E por isso mesmo repetia sempre o seu nome. Não raro que suas lágrimas também caíam sobre as plantinhas.
Não forrava a cama todo dia, mas jamais se esquecia de varrer a casa. Todo santo dia passava a vassoura de canto a outro. E depois, de espanador à mão, afastava o pó acumulado pela ventania do dia passado. Em dois instantes se demorava mais na sua limpeza. Ao chegar defronte ao retrato da falecida na parede, ali parava em profunda reflexão. Olhava e olhava, mirava e mirava, falava baixinho, para depois sacudir qualquer impureza que na moldura estivesse, mas não sem antes levar a mão e, em gesto amoroso e suave, tocar a face através do vidro. Era com se a sentisse afagando pela face a sua mão.
Noutro momento, já perante a velha mesa da sala, postava-se em frente ao antigo jarro com flores de plástico. Trazia o jarro para perto de si e chegava a acariciar cada flor já sem cor. Carícia de saudade, de dolorosa recordação, um devotamento tão singelo ao que um dia havia sido ali colocado por sua amada. Lembrava-se que ela cuidava daquele jarro como se fosse de um caqueiro florido, de flores vivas, colhidas em jardim. Tanto cuidado ela tinha que de vez em quanto ele ouvia as flores de plástico sendo chamadas por carinhosos nomes. Por fim, dizia: ela já não está, mas façam de conta que suas mãos ainda zelam por este jardim tão perfumado na memória.
A porta da frente só era aberta depois de a casa varrida. Mas tudo cedo demais ainda. O dia ainda amanhecia e o velho já havia completado seus pequenos afazeres de toda manhã. Então abria a porta e caminhava pelos arredores. E arredores tão solitários quanto a sua solidão. Nada além que um descampado, um canteiro sem flores entregue ao outono, um banco carcomido de madeira, amendoeiras que desciam folhas aos turbilhões, um tempo de silêncio, apenas. Caminhava pelo canteiro, tocava os roseirais magros pela estação, juntava gravetos e restos, reclamava da vida sem cor. Seguia depois para o banco e ali ficava aguardando a chegada de qualquer passarinho ou borboleta.
Aquele velho banco do amanhecer mais parecia sua pedra de meditação. Ali sentava, ali pensava, ali voltava ao passado, ali refletia sobre tudo. E por isso mesmo tanto entristecia. De repente seus olhos amiudavam de tal modo que mais pareciam querer fechar. Ficavam apertados demais, comovidos demais, entristecidos demais. Mas ao abri-los pressentia-se perante uma estrada ainda a ser caminhada, uma vida ainda a ser vivida, mesmo que o seu corpo e sua idade já estivessem na plenitude esmaecida dos outonos da vida. Então dizia uma palavra qualquer, talvez que esperasse um pouco mais. Sabia que sua amada estava sentada ao lado. Sua falecida esposa nunca saía de sua presença.
Então levantava para retornar. Nada mais que cinquenta metros entre o velho banco de jardim sem flores e a porta de casa, mas ia caminhando tão lentamente que parecia nunca querer chegar. Por que a pressa se dentro de casa apenas o silêncio e a solidão? Por que a pressa em ficar sozinho e na presença daquela que não podia abraçar, acarinhar, e dizer da saudade? Desejava mesmo dizer: Leva-me contigo, meu amor!
  

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