SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 22 de julho de 2018

O GATO



*Rangel Alves da Costa


O gato, ah esse gato! Nunca vi um bichano igual a esse. E certamente o meu maior inimigo. Indescritível a raiva que sinto por ele.
Muitos gatos aparecem por aqui. Quando a noite desce de vez então. É gato no telhado, pulando a janela, por todo lugar. Mas esse é diferente.
Diferente por que os outros correm, somem, espantam-se quando são gritados ou ameaçados. Mas esse não. Parece esconder-se para no instante seguinte reaparecer.
Estou sentado escrevendo e de repente já avisto sua chegada. No instante seguinte já está olhando em minha direção, sempre de distância segura.
Levanto, vou até ele, o bichano corre, porém sei que não vai durar muito. No instante seguinte e já está de volta como quem nada lhe aconteceu.
Se fosse só isso ainda ia. O problema é que esse bichano parece tomado por outra coisa, por alguma forma humana para agir de modo tão insuportável.
Creio que esse gato até se acha o verdadeiro dono da casa. Quem manda é ele, quem tudo pode fazer é ele. E eu sou apenas um serviçal de seus instintos maldosos.
Panela tem que ser na tranca, assim mesmo com a chave bem escondida. Não adianta dizer que ele não alcança isso ou aquilo por que não tem jeito. Ele consegue tudo.
Mesmo com todas as portas e janelas fechadas ele aparece. Talvez desça por uma minúscula fresta do telhado ou mesmo se transforme em folha para passar entre a madeira da porta e o chão.
E não tem jeito. Quando penso que estou livra – ao menos por alguns instantes – então ele reaparece do nada. Acho até que não tem medo que eu arremesse sobre ele uma montanha.
Aqui na mesa escrevendo, quando olho em direção ao quarto, sabem o que eu avisto? O bichano todo no bem bom, todo estirado em cima da cama e dormindo tranquilamente.
Quando ouço barulho de panela, de copo, de porta abrindo, de coisa sendo arrastada, nem adianta ir atrás de outra coisa. Sempre será ele e sempre ele. Não adianta.
A situação é tão difícil que até já pensei em dar um basta nisso de vez e da maneira mais desumana possível. Ora, se ele está me aniquilando, então por que não dizimá-lo de vez, não fazer com que suma de vez da minha vida.
Preciso de paz, mas o gato não deixa. Preciso de sossego, mas o gato não deixa, preciso descansar, mas o gato não deixa, preciso de silêncio, mas ele não deixa. O bichano não me deixa viver.
Todo o lixo é embalado, embrulhado, cuidadosamente vedado. Mas ele não adianta. Ele vai calmamente e desfaz tudo. Pega o que quer, come o que quer, depois deixa o chão todo sujo e vai dormir em minha cama.
Foi por causa do gato que agora só durmo de rede. E com cuidado de não deixar estendida depois que levanto. Mas sabe o que aconteceu outro dia?
O gato arrastou uma banquinha até perto da rede, de um pulo alcançou os cadilhos, puxou o lado que dá para o outro armador e, não sei como fez isso, estendeu a rede inteirinha. Depois arrastou o banco novamente e num pulo só se deitou tranquilamente.
Outro dia pensei estar na presença de alma penada. Ouvi a geladeira se abrindo e não dei muita atenção ao acontecido. Deve ser imaginação, pensei. Mas quando me levanto e vou até a cozinha, sabe o que avistei?
A geladeira aberta e a minha goiabada aberta em cima da mesa. E bem sentado de faca à mão o gato, comendo não só goiabada como também um pedaço enorme de queijo. Peguei o restante da goiabada e tentei acertá-lo de cheio.
Depois disso sumiu durante uns dois dias. Mas outro dia eu retornei da rua e encontrei a porta aberta. Estranhei demais esse fato. Mas quando botei o pé na sala a primeira coisa que avistei foi ele sentado no sofá, comendo salsicha com pão e com o controle remoto à mão.
E minha mala bem arrumada e colocada bem próxima à porta. O que isso significa?


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Lá no meu sertão...


Sertanejo de Poço Redondo/SE



Floradas na serra (Poesia)



Floradas na serra


As manhãs nascem cantantes
o sol ameno brilha pelos horizontes
a brisa sopra uma canção perfumada
as flores brotam nos beirais da estrada
pois chegado o tempo terno e sublime
das floradas se espalhando nas serras

singela natureza de tão belo florir
uma pétala se abrindo como a sorrir
vermelhos e amarelos em alegre bailado
alimento d’alma como se do céu lançado
pois chegado o tempo meigo e cativante
das floradas pinceladas acima das serras

de pés descalço e vestido de sol
vou seguindo o caminho feito girassol
como um jardineiro em direção ao jardim
vou subindo a serra reencontrar o jasmim
jasmim de Salmo e de profunda meditação
pois o espírito se nutre das floradas da serra.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – por onde andam aquelas mulheres do Bar do Zé?



*Rangel Alves da Costa


Não será difícil obter resposta, mas indago assim mesmo: por onde andam aquelas mulheres do Bar do Zé? O Bar do Zé era um famoso ponto de encontro de “mulheres da vida” no centro de Aracaju, capital sergipana. Possuía a fachada de bar normal, mas suas mesas, calçadas (e certamente quartos) viviam tomados por mulheres à cata de clientes para “namorar”. Passando homem por ali, não havia demora para a cantada: “Ei bonitão, vamos namorar”? Velhas, gordas, carcomidas de tempo, estrientas, drogadas, novinhas envelhecidas, todo os tipos ali eram avistadas no seu metiê cotidiano, desde cedo ao romper do dia seguinte. Aliás, o trecho inteiro da rua tomado por mulheres à espera de homem que pagasse tostão e com elas seguissem aos quartos imundos nas fachadas fantasiadas de pousadas. Muitas vezes, ficavam mesmo aos pés das escadarias. Contudo, o Bar do Zé era o centro maior da reunião das namoradeiras. Mesas, a breguice em forma de música, uma cerveja ou outra, uma dose, e elas por ali como desalentadas de tudo. Mas agora que o Bardo Zé fechou, resta somente perguntar: por onde andam aquelas mulheres do Bar do Zé?


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sábado, 21 de julho de 2018

TRÊS FACES DE UM MESMO SERTÃO



*Rangel Alves da Costa


Juntei, num só texto, três faces possíveis de um mesmo sertão. São pequenas histórias onde procuro mostrar realidades sertanejas em suas diversas ambientações. Em cada uma será possível avistar realidades tão presentes no mundo sertanejo, mas quase sempre desconhecidas pelos viventes de regiões mais distantes. As histórias em si não se entrelaçam como numa trama, porém servem para revelar retratos de um povo e dos seus modos de ser e viver.
Sempre entristeço ante o silêncio melancólico das casas tristes nos beirais das estradas. Portas e janelas fechadas, sem cheiro de café torrado ou de tripa de porco torrando no fogão de lenha. Procuro pelo menino Zezim, procuro pela menina Joaninha. Mas nada. Nem um cachorro magro nem a voz de um papagaio falador. Murchou a bela flor que outrora era avistada no umbral da janela. Esturricou a planta que antes descia pelo caqueiro pendendo no pé de pau. Tenho vontade de ir até lá e bater à porta. Oi de casa, oi de casa! Chamar assim. Desisto, enfim. E sigo pelos meus sertões em busca de portas abertas e daquilo que me dê alegria. Zezim, onde tá você? Joaninha, onde tá você? É o que pergunto em meu pensamento. E entristeço e choro. E silencioso pranteio a dor de todas as ausências do mundo!
Dona Tibúrcia gostava de ouvir o sino da igrejinha tocar quando a boca da noite já estava aberta. A escuridão chegando com aquele badalar solene lhe fazia mais esperançosa e cheia de fé. Gostava daquele ecoar do sino, mas nem tanto assim. E tudo por causa da comoção que logo lhe tomava o peito com cada som que ouvia. Mais ainda quando, ajoelhada perante o velho oratório, rezava pelos seus vivos e seus mortos e a luz da vela lhe parecia sorrir ou chorar. “Pai Nosso que estais no céu...”, e então sua mente reencontrava o rosto de sua mãe como numa névoa de luz. “Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, criador do céu e da terra...”, e então sentia como se alguém partido tão jovem lhe chegasse passando a mão sobre seus cabelos. Após as orações, de cabeça baixa, contrita, mãos entrelaçadas na força da fé, simplesmente deixava que todos chegassem perto de si. Quanta saudade, quanta saudade, quanta saudade! Levantava o rosto envelhecido e encharcado de lágrimas e perante o luzir da chama, outra face parecia avistar: um sorriso lindo e perfeito de seu Deus de Fé. Suspirava, estava refeita, ou parecia. “Que nunca me falte meu Deus, que proteja os meus aqui na terra e nos céus. Amém!”, e então fazia o sinal da cruz para retornar aos seus ofícios no lar. O cuscuz estava pronto, os ovos na frigideira, o café no bule, bastava colocar sobre a mesa. Seguia até a porta para avistar o mundo e dizer: “Que a noite seja um manto iluminado pela paz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém Senhor da Lua. Amém!”.
O restante da noite chorou por causa de um sonho terrível e agonizante. Seu sertão não era mais sertão, aquele seu mundo era outro mundo. Ouvia apitos, gritos, buzinas, ribombos, os sons mais assustadores. Não ouviu, em nenhum momento sequer, o cachorro magro latindo, o gado berrante, o cavalo relinchando, muito menos o cantar do galo nem o chiado da fervura de banha de porco na estaladeira em riba do fogão de lenha. Correu à porta da frente e a escancarou para ter certeza de que não estava noutro lugar. Ainda era madrugada escurecida, silenciosa, com uma lua vaga entre os escondidos das nuvens. A brisa daquela hora lhe chegava como remédio bom. Respirava e suspirava seu sertão. Ainda bem, disse a si mesmo. De repente o galo cantou. E quando o galo canta é sinal de começo de tudo, ainda que o sertanejo comece a cantar sua luta bem antes do canto de qualquer galo. Lavou o resto na cuia, afastou de si todo o temor existente. Benzeu-se num ramo de catingueira, afagou o cachorro que logo chegou a seus pés. Estava feliz, contente. Seu mundo era aquele ali, era outro não. Caminhou em direção ao quintal, juntou lenha no fogão e logo as chamas faziam o café borbulhar. Procurou na despensa um naco de preá da noite passada, levou a carne magra e seca ao braseiro e depois jogou por cima de um punhado de farinha. Bebeu do café, mordeu a perna do preá, agradeceu a Deus. Lançou mão do cantil, trouxe para si o embornal, apanhou seu chapéu de couro, vestiu sua roupa surrada, calçou seu roló todo troncho e saiu para o lado de fora. A vaquinha pastava por ali, o jumento se escondia num canto, a malhada era um galinheiro só. Levantou as mãos para o alto e disse, quase num grito sem medo de ser ouvido: Meu Senhor Jesus Cristo, meu Padim Ciço e Frei Damião, que nada em mim seja vão na luta nesse sertão!


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Lá no meu sertão...


Da Família Vito - Maestria nos Pífanos



O tamanho do amor (Poesia)



O tamanho do amor


Um dia
eu quis dimensionar
saber o tamanho
do amor sentido

daqui até longe
de canto a outro
milhas e milhas
quilômetros
anos-luz
infinito

então descobri
que a medida
ou o tamanho
estava apenas
nela.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – arbítrio e liberdade



*Rangel Alves da Costa


O arbítrio e a liberdade, ou o livre arbítrio e o ser liberto para ser o que é e fazer o que quer, são questões filosóficas que demandam excessivas explanações, mas sem qualquer consenso. Por isso mesmo quero ter o livre arbítrio – ou liberdade – de resumir tudo em pouquíssimas palavras, logicamente que segundo as minhas noções. Assim, creio que tudo se contextualiza na consciência do sujeito, do indivíduo. O que age com livre arbítrio precisa ter consciência de seus atos. Não é por que seja árbitro de suas próprias ações que deve agir ilimitadamente. Toda liberdade deve ser vigiada pelo próprio dono da ação. A pessoa até que possa ter livre arbítrio para agir somente segundo suas intenções ou ideias, mas possuirá liberdade para tal? Assim, o arbítrio do ser humano sempre esbarra nos limites de sua liberdade de ação. Intimamente, tudo pode fazer. Socialmente não. Extrapolar a norma social implica na desvalorização da conduta. O que seria o arbítrio recriminado pela ação contrária à liberdade de agir. Liberdade não é ser livre. É viver segundo os limites da liberdade. Portanto, nenhum arbítrio será livre além do próprio indivíduo.


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sexta-feira, 20 de julho de 2018

O AMIGO JAJÁ



*Rangel Alves da Costa


Os anos 90 foram marcados por imensa efervescência cultural na capital sergipana. Mesmo com diversos espaços voltados para atrair a juventude, a classe estudantil e acadêmica, bem como a intelectualidade, boa parcela das “cabeças pensantes” procuravam se reunir em espaços que se identificassem com o seu espírito ora de rebeldia ora do simples prazer da boa acolhida, do bom diálogo, dos atrativos e da boa música.
Um destes “pubs” efervescentes chamava-se Mahalo. Mas o Mahalo não era um simples ambiente com cadeiras e mesas para a bebida e o petisco, e aonde a pessoa chegava e saía depois de alguns instantes. Sua concepção inovadora permitiu que ainda hoje estivesse vivo na memória de profissionais e da intelectualidade aracajuana.
Sim, pois jornalistas e outros profissionais da comunicação social, escritores, professores e advogados, dentre outros, um dia adentraram as portas do Mahalo e lá se encantaram com a ambientação diferente, as exposições de poesia, a música ao vivo, etc. E tudo nascido da inventividade futurista de um moço batizado como Jailton Freire, mas por todos conhecido apenas como Jajá.
Ao lado de Cristina, sua esposa à época, passou a oferecer aos noctívagos aracajuanos, principalmente àqueles que saíam das salas de aula na Unit da Rua Lagarto e desejavam dialogar em torno de uma mesa e uma boa música, a oportunidade de uma noite muito mais convidativa e prazerosa.
Foi no Mahalo que fiz minha primeira exposição de poemas. Logo em seguida Jozailto Lima - hoje famoso jornalista e escritor - igualmente expôs seus poemas. E uma infinidade de outras atrações. Foi desde esse bom quadrante da vida que passei a conhecer Jailton, o nosso Jajá.
De rara inteligência, sempre inovador, sempre calmo e aberto ao diálogo, extremamente zeloso com aquilo que chama a si ou que põe as mãos, assemelha-se mais a um cordame humano que vai se alongando em novas amizades aonde chega ou passa. Chega para a pessoa e logo diz: “E aí cara, tudo bem?”.
Eis o mote para o diálogo profundo, inteligente, generoso e franco. Sempre defensor das liberdades, das opiniões e expressões pessoais, Jajá se constitui na   quele que prega o livre arbítrio com responsabilidade. Ainda hoje, mesmo depois de tanto tempo daquele primeiro Mahalo, ele continua como um menino sonhador.
Mas os voos são outros. Depois que o Mahalo mudou de endereço e por fim fechou suas portas, então Jajá começou a colocar em prática um voo maior de liberdade. Saiu da terra e foi para as águas, abdicou dos horizontes cinzentos e feios e foi viver os azuis das gaivotas dos altos mares e oceanos. Tornou-se marinheiro (Primeiro Oficial de Maquinas/Oficial Superior de Máquinas na Transpetro) e a cada dia ele faz postagens de fotografias de seus destinos azuis, belíssimos, apaixonantes.
Ora está nas costas chilenas, ora está nos confins do mundo singrando o seu navegar liberto, bem ao seu estilo e ao que clama sua vida e seu jeito de ser. Pai de rapazes que um dia eu conheci meninos, atualmente é casado com uma mulher maravilhosa e que é a espiritualidade mística em pessoa: Gwendolyn Thompson. Nunca vi um casal tão nascido um para o outro.
Ele, Jajá, pássaro em voo, e ela, Gwendolyn, o céu de nuvens perfeitas ao voo. Abraço-te, pois, amigo Jajá. Como diz Gwendolyn: Namastê! Curvo-me diante de ti, perante o teu sagrado brilho!


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Lá no meu sertão...


Ao lado do Mestre Tonho



Feliz, talvez (Poesia)



Feliz, talvez


Falta pouco
quase nada
um passo
para ser
feliz

mas talvez
eu já seja
bem feliz
muito
feliz

nunca mais
chorei
nunca mais
sofri
e vivo, vivi!


Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – Curralinho, Velho Chico em poema



*Rangel Alves da Costa


Do alto, no rente ao céu no rente ao chão, após as portas que se abrem na igreja bela, avista-se todo o sagrado azul e todo o leito manso, encontra-se todo o verde e o marrom da terra, em caminhos, ribeiras e curvas, que vão pedir a benção a um Velho Chico. Descendo as serras, correndo nas águas mansas, nos caminhos das calçadas altas, o homem-peixe, o homem-rio, o homem-lenda, o homem-carranca, o homem-canoa, o homem curraleiro e seu mundo santo. Santo, Santo Francisco, um Velho Chico, um manto que ali se estende e faz o olhar ficar maravilhado com a flor da vida. Sertanejo, ribeiro, ribeiro, ribeirinho, curraleiro, curralinho! Olha a curva do rio e ainda ouve o vapor que vem trazendo o mundo e vai levando vidas. A carranca amedrontando os augúrios das águas e abrindo passagem às ribeiras e portos. João de Virgílio levanta nas costas um saco de açúcar. Valter toca sua sanfona ao pé do tamarineiro. Dona Salvelina abençoa a todos. Ciano ajeita o chapéu e sacode o sinuca. Seu Neguinho ajeita na prateleira o Vinho de Jurubeba. Chico Bilato tem biscoito e goiaba para vender baratinho. E as cadeiras se estendem nas calçadas ao entardecer, e os ribeirinhos descem para sentir as águas, enquanto o sol poente se esconde entre as serras. Os bilros cantam, as rendas dançam, os bordados se tornam em flores do campo. De repente um bradar de sino vindo lá do alto, daquela igrejinha que emoldura a vida. Na sua calçada, em pé, bem alto, magro, de roupão azulado tomado de poeira e pó, um homem barbudo e esguio, um homem parecendo ser do outro mundo, de olhar profundo e meditativo. É o Conselheiro, que levanta seu cajado e diz: Não serás mais Curral de homens desgarrados da fé. Serás Curralinho de homens abraçados a Deus! E desta igreja, que de Nossa Senhora da Conceição será, todo olhar que adiante mirar logo o São Francisco avistará!


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quinta-feira, 19 de julho de 2018

A JANELA E OUTRAS SAUDADES



*Rangel Alves da Costa


Em Poço Redondo nunca houve uma janela mais famosa do que a de Dom. Não só a janela como o papagaio. Eita fi da peste fofoqueiro e falador! Com vendinha onde hoje se situa uma padaria defronte à Câmara, num comércio pequeno, porém sortido do açúcar ao café, mas principalmente da aguardente, Dona Mercedes Feitosa (irmã de Clotilde, Zé de Iaiá, Maria de Miguel, etc.), a famosa Dom, fez história em Poço Redondo.
Não só ela como sua janela e seu papagaio. Como a casa era comprida, da sala da frente onde funcionava a bodega, passando por um corredor, depois mais uma sala e enfim a cozinha, nem precisava Dom estar no seu balcão quando alguém entrava. O papagaio logo dizia “Tem gente, tem gente”. De repente também se ouvia: “Bebeu, bebeu”. E assim pra dizer que alguém havia tomado uma relepada. Não somente isso, pois fofoqueiro que só. Nada acontecia por ali, mesmo após a janela, que o louro não entregasse de pronto.
Muita mocinha até odiava o papagaio. E tudo por causa da famosa janela de Dom. A tal janela ficava bem do lado da sala que antecedia a cozinha. Baixa, com umbral largo, com pouca claridade após o anoitecer, havia se tornado o local ideal para namoros e outros chamegamentos. Não se tinha uma só noite que a janela não estivesse ocupada. Muito casal ficava desapontado quando olhava ao longe e ela já estava devidamente tomada.
Ora, ali, naquela janelinha, o homem podia sentar e a mulher sentar em cima, a mulher podia sentar e o homem nela se recostar como quisesse. Muita gente passava e não conseguia enxergar senão “o bolo”, “o atropelo”. Uma festa. E por isso mesmo tanta disputa por aquele verdadeiro batente. Mas o papagaio safado não deixava barato não. As mocinhas passavam e ele de repente gritava: “Eu vi!”. Envergonhadas, as namoradeiras corriam jurando de morte aquele safado que parecia não ter o que fazer e até pelas brechas espiava a vida dos outros.
Mas Dom também não gostava daquela sem-vergonhice toda na sua janela. Vivia reclamando que não suportava mais estar dentro de casa e ouvindo tanta safadeza. Repetia e repetia que não ia aceitar mais aquilo de jeito nenhum. Mas não tinha jeito. Era uma bondosa, uma generosa, uma amiga de todos, ainda que tivesse fama de valente e de punhal afiado na língua. Grande amiga de Alcino, na sua bodega havia um caderno só para anotar os cafés, os açúcares e as farinhas, dentre outras miudezas, que o então político mandava providenciar.
O papagaio de Dom conhecia tanto Alcino que nem se importava mais quando ele entrava corredor adentro e se metia pelos cantos a fazer política. Ali em Dom era praticamente uma sala de acertos, de conchavos, de segredos. Ali muita política foi acertada e muito dinheiro repassado. A própria Dom nunca reclamava. Pelo contrário, vivia esvaziando seu cofre e debaixo do colchão para emprestar a Alcino. De repente uma briga danada entre os dois. Alcino se espantava com os valores anotados e Dom prometia fechar-lhe as portas. No instante seguinte já tudo voltado às pazes.
“Você gosta, não é sua véia!”, dizia o papagaio. E Dom respondia: “Vá se lascar seu fi do cabrunco!”. E corria para fechar a janela, pois a noite já chegava e só via a hora de os casais pularem a janela. Não demorava muito e os atropelos começavam, os resmungados também. Fingindo-se de adormecido, o papagaio abriu um olho e atiçava os ouvidos. “Oi, já começou”, dizia.
Mas um dia, Dom não sentou mais na calçada do outro lado para fazer renda de bilro nem foi jogar carteado com as amigas da vizinhança. Também não houve balcão nem pinga servida. Entristecida, a janela se fechou para sempre. Depois a casa foi transformada em prédio grande e somente a memória não se esqueceu daquele endereço. Nem da voz do papagaio: “Desse jeito, coma logo!”.


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Lá no meu sertão...


Relembrando o Cariri Cangaço Poço Redondo 2018



Vai chover (Poesia)



Vai chover


Filozinha abre a porta
varre a folha da malhada
pinga com água o caqueiro
estende a roupa no varal
e canta uma velha canção

meu menino abre a porta
corre atrás de passarinho
chama na voz o calango
brinca de ponta de vaca
e me pede um boi de barro

e eu quando abro a porta
olho a catingueira ao redor
subo os zóio pra mais ver
e me digo todo contente
logo e logo vai chover

vai chover vai pingar água
molhança no meu sertão
e ouço a canção da terra
não há mais bela canção
a chuva molhando o chão.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - além da porta



*Rangel Alves da Costa


A gente sabe muito menos do que deveria saber. E não somente através da educação, mas pelo caderno da vida mesmo. A ciência, o conhecimento, a formação, certamente que possui essencial serventia. Mas vale a pena o doutor com mil pós-graduações não saber, por desconhecimento, enfrentar uma simples situação cotidiana? Tudo sabe do laboratório, do escritório, da sala de trabalho, do ofício profissional, mas nunca foi ao mercado das frutas e carnes, não sabe o que é uma feira, sequer sabe caminhar pelas ruas como as demais pessoas. Daí a certeza que a sabedoria, através do conhecimento das realidades da vida e do mundo, vai sempre além das portas fechadas. É preciso ultrapassar as fronteiras de si mesmo para conhecer as coisas mais importantes. Tudo é importante, mas a sua significação possui essencialidade. Nada supera os passos pelo jardim, pela estrada rumo à montanha, pelas lições do cotidiano. Ouvir da boca dos mais velhos causos de outros idos, sentar num banco do entardecer e mirar o instante como uma fogueira que reacende espírito e alma.


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quarta-feira, 18 de julho de 2018

A BUCHUDINHA, A FOFOCA E UMA CIDADE QUALQUER



*Rangel Alves da Costa


A mocinha apareceu buchuda e a cidade inteira parou para tomar conta da vida dela. Como se fosse o fato mais estranho e inusitado do mundo, com nenhuma outra coisa a cidade passou a se preocupar.
Os pratos ficavam sujos na mesa, as roupas imundas estocadas num canto, as calçadas cheias de poeira, as panelas queimando no fogão, os remédios esquecidos, os filhos chorando com fome, até os banhos e os asseios eram deixados de lado.
Nada mais na vida importava. A única coisa que importava era a mocinha que de repente apareceu buchudinha. Parecia coisa de fim de mundo. Talvez nem o aparecimento de um disco voador ou de uma porca falante fosse mais interessante.
Portas e janelas abertas, esquinas tomadas de pessoas, calçadas cheias de vizinhos e outros, por todos os lugares os olhares furtivos, as bocas em segredos, as línguas ferinas. Os ares tomavam-se de olhos, bocas, ouvidos, de tudo o mais que servisse para alimentar a boataria.
Tudo de mais desonroso passou a tomar conta de tudo: fofocas, fuxicos, boatos estapafúrdios, disse-me-disse, calúnias, aleivosias, um festim de maledicências. Uma dizia uma coisa e na outra esquina já havia se transformado numa condenação ainda maior. Tudo semeado para ser bem pior.
E também tudo tão próprio de quem não tem o que fazer e deixa de tomar conta da própria vida para se arvorar da vida dos outros. Certamente que as conversinhas e as fofocas acontecem em todo lugar, mas ali parecia nutrir suas forças e sua vitalidade como imprestável, que é o tomar conta da vida dos outros a todo custo.
Enquanto isso, a mocinha andava de canto a outro como se nada daquilo estivesse ocorrendo. Bonita, perfumada, arrumadinha - e buchudinha. Caminhava toda faceira, toda cheia de vida e de formosura, parecendo que nada daquilo estava acontecendo. E para ela tanto fazia, pois bem sabia que vivia num antro de cobras ruins, de serpentes inescrupulosas e linguaradas.
Mas para o lugar era o fim do mundo que a mocinha tivesse aparecido buchudinha. “Como pode uma moça que nem namora aparecer assim?”. Indagava um. “Quem vê a santidade não vê o pecado”. Dizia outra. “Safadeza pura, quenquice deslavada”. Mais uma dizia. “Aí não sabe nem quem é o pai”. Alguém falou. “O pai deve ser qualquer um”. A outra concluiu.
E bota fofoca nisso: “Comadre, bem garanto que nem é o primeiro bucho que pega. Toda desconfiadinha e não vale nada. Já deve ser muito passada e bem passada”. Uma chegava dizendo. E a outra completava: “É o que dá criar fia pro mundo. Pai e mãe são pior do que a própria fia. Depois vai virar rapariga, não vai dar outra...”.
Num canto de calçada, debaixo de pleno sol do meio dia, outras comadres - esquecidas de que existia casa pra cuidar, comida a fazer e tudo o mais - iam cuspindo aleivosias e falsidades. Segundo uma, só podia ser coisa do fim do mundo mesmo, pois quem já havia visto uma virgem engravidar. Contudo, pura ironia em tais palavras. Num repente e todas caíram numa gargalhada só.
E assim a cidade foi se esquecendo de que existia para entrelaçar e remendar maldades acerca da buchudinha. Mas a mocinha nem aí. Continuava passando feliz, alegre, cantando, toda cheia de contentamento. Levava a mão à barriga, sorria, no olhar com que fazendo planos para o amanhã.
A falta de reação da buchudinha aos ataques causava indescritível ferocidade aos fofoqueiros e fofoqueiras. Decidiram então arranjar um responsável pela gravidez da mocinha. De solteiro a casado, de velho a novo, tudo foi inventado. Mas não surtiu nenhum efeito. “O que vamos fazer agora?”. Esta foi a preocupação da fofoqueira maior.
Queriam de qualquer jeito que a mocinha reagisse e, com tal reação, acabasse dizendo ao mundo o que somente a ela e a quem desejasse deveria saber. Também uma forma de alimentar ainda mais a indignidade daqueles que unicamente se comprazem com o que os outros fazem ou deixaram de fazer.
Então outra disse: “Deixar pra lá, é o jeito”. “Não, de jeito nenhum. Sabe que a gente não vive sem falar mal da vida dos outros. A gente tem de continuar falando mal sim”. A maledicência falando. Então a outra ajuntou: “Se é pra falar mal, então vou logo dizer que sua filha logo vai aparecer igualzinha àquela. Não vê macho que não dê em cima”. “O que? Repita isso sua sirigaita, sua rampeira...”.
E foi vestido rasgado, cabelo puxado, saia levantada, um rolo pelo chão. E a cidade inteira ao redor observando feliz. Logicamente que para depois ter o que falar. E a buchudinha vivendo apenas o seu mundo e de vez em quanto se perguntando: será um menininho ou uma menininha?


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Lá no meu sertão...


Casarão de Bonsucesso, povoação de Poço Redondo/SE - Templo da História!




Sem mágoas (Poesia)



Sem mágoas


As cores do outono vão chegando
as flores e as folhas do amor padecem
como fossem suspirar pela última vez

o amor não é de perfume eterno
nem de jardim sempre belo e florido
além dos espinhos surgem os outonos

de repente o desencanto aflora
e os vendavais espalham as esperanças
em redemoinhos difíceis de suportar

e o que fazer então perante o temor
de o amor amado se tornar em desamor
e o desejo do outro seja um vento levou

saber que tudo vem e tudo passa
assim num Eclesiastes de idas e vindas
e abrir a janela para o sol que brilhará

e pela estrada o que partiu avistar
retornando terno e na leveza da paz
e então abrir a porta e deixar entrar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - organizando a vida a partir das pequenas coisas



*Rangel Alves da Costa


O guarda-roupa está bagunçado. Os livros estão desordenados na estante. Os sapatos espalham-se por todo lugar. Os escritos, folhas e anotações, estão dispersos. A cama desforrada, lençóis embrulhados em si mesmos, poeira se espalhando, o pó dando a feição das coisas. Não, não há como dizer que isto é da normalidade da vida. Alguma coisa está errada e precisa ser consertada. Quem gosta de sair pelas ruas com os cabelos desgrenhados, com um chinelo de um tipo num pé e diferente no outro pé, com os botões fechados fora do lugar, com uma veste de frente pra trás? Certamente ninguém gosta, pois não da normalidade. Do mesmo modo os objetos de uso pessoal, as roupas de quarto, os livros, as bijuterias, os enfeites e adornos, tudo gosta de estar arrumadinho e no seu devido lugar. Contudo, fato mais importante é reconhecer que quando as coisas vivem desordenadas, desarrumadas, ao deus dará, também a vida estará assim. O cuidado com os pequenos objetos, com as pequenas coisas, reflete muito bem o estado pessoal, o ânimo, a espiritualidade. Quem está bem de corpo e alma não aceita descuido. Quem está feliz consigo mesmo tende a zelar e a preservar-se ainda mais. E não há que dizer que as aparências enganam. Estas até que podem iludir os olhares, mas não ao que se tem como mais importante: a própria pessoa. Daí que é preciso organizar a vida a partir das pequenas coisas. Quem zela pela vida e pelo que tem tanto quer o melhor para si como procura preservar com carinho aquilo que possui, ainda que seja uma diminuta lembrança. Nada melhor do que a pessoa poder avistar aquilo que sabe onde deixou. Nada melhor do que a pessoa poder avistar-se e dizer que sabe onde está e o que quer na vida.


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terça-feira, 17 de julho de 2018

PADRE AGOSTINHO, CAPELÃO DO CARIRI CANGAÇO



*Rangel Alves da Costa


Agora em junho Poço Redondo e os sertões sergipanos e baianos tiveram o imenso prazer de conhecer Padre Agostinho. Mas quem é este homem calmo, pacífico, de voz mansa, que anda sempre carregando lembrancinhas religiosas para distribuir onde passa, que lentamente caminha para suportar uma pequena deficiência numa das pernas, que celebra missa aonde chega e anda de chapéu cangaceiro de canto a outro?
Saibam, pois, que o Padre Agostinho Justino dos Santos é gigante, é grandioso, é imenso. Entronizado Capelão do Cariri Cangaço, Capelão aposentado da Marinha do Brasil, é Padre Católico e do mundo. Apaixonado pelo Nordeste, principalmente pela região do Cariri, abdica de estar no seu Rio de Janeira para cruzar caminhos nordestinos e sertanejos.
Desde muito que atua fortemente no contexto histórico nordestino. Apaixonado pela história do Padre Cícero e pelas dioceses do Crato e de Juazeiro, transita entre as duas - e por toda a região - como um sacerdote respeitado e venerado. É, pois, a partir da Diocese de Juazeiro que o Padre Agostinho sai pelos carrascais nordestinos acompanhando o Cariri Cangaço. Não perde um evento sequer. A cada nova edição, mesmo na distância que for lá estará o Padre Agostinho acompanhado de um ajudante, também da diocese.
A presença deste servo de Deus também a serviço da história, da cultura e das tradições, tornou-se fator marcante a cada evento do Cariri Cangaço. Alguns conselheiros deixam de comparecer, mas Padre Agostinho não. Uns e outros apaixonados pelas andanças do Cariri Cangaço até deixam de estar presente, mas Padre Agostinho não. Chega sem alarde, instala-se quase ocultamente, mas depois vai surgindo para o encantamento de todos.
Em meios aos abraços pelos reencontros, em meio aos preparativos e correrias, de repente ele vai surgindo lentamente, calmo, paciente demais. “Oh Padre Agostinho, por aqui? Que bom revê-lo!”. E ele, sempre de sorriso leve, vai logo repassando um terço de boa sorte, uma fitinha do Padre Cícero, um calendário religioso, algo sempre valioso como dádiva sagrada de reencontro e recordação.
Na manhã do último dia do Cariri Cangaço Poço Redondo 2018, quando todos os participantes ou já tinham seguido ou estavam se preparando para seguir viagem, eis que o Capelão celebrava - ao lado do Padre Mário - a missa pelo aniversário de 78 anos de Alcino Alves Costa. Segundo ele, depois seguiria para Paulo Afonso, daí cortando outros caminhos até Juazeiro. Confessou-me que pagaria do próprio bolso o fretamento de um veículo até Paulo Afonso.
Todas as igrejas abrem suas portas perante sua chegada. Todos os túmulos e cruzes da história se reconfortam perante sua presença. Ao ser perguntado sobre os motivos de usar chapéu cangaceiro e de abençoar os retalhos do passado, bem como celebrar a memória daqueles que a muitos causa ojeriza (como acontece com túmulos de cangaceiros), ele simplesmente afirma que todos foram seres humanos e, como tal, merecem a compaixão divina. Assim suas palavras, conforme citadas pelo conselheiro Raul Meneleu no artigo “O Padre e o Cangaço”: “Também os cangaceiros são filhos de Deus e merecem preces por suas aflitas almas, mesmo sendo injustos." (http://meneleu.blogspot.com/2015/08/o-padre-e-o-cangaco.html).
Foi neste sentido que abençoou as Cruzes dos Nazarenos na Maranduba e proferiu palavras acerca daquelas almas aflitas, comandando depois uma oração conjunta. No dia anterior, na baiana Serra Negra, após o almoço coletivo ele foi avistado recompensando com algum dinheiro as mulheres a serviço na cozinha. Apenas um reconhecimento pelo maravilhoso almoço, dizia ele.
Pois bem. É assim o Padre Agostinho aonde chega e por onde passa. Convidado pelo Padre Mário para celebrar missa em Poço Redondo durante a próxima Festa de Agosto, do altar improvisado defronte ao Memorial Alcino Alves Costa, sorridente disse: “Estarei entre vocês, com fé em Deus!”. Seja bem-vindo, Padre Agostinho. Sempre. Em Poço Redondo e por todo o Nordeste, como assim será no Cariri Cangaço de São José de Belmonte.
E, desde já, rogo ao curador Manoel Severo e a todos os conselheiros Cariri Cangaço que além de Capelão o Padre Agostinho seja oficialmente reconhecido como Sacro Conselheiro do Cariri Cangaço.


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Cariri Cangaço Poço Redondo 2018 - Eita saudade!





Na calçada (Poesia)



Na calçada


Na poeira e na ventania
vai o tempo assanhando tudo
e desengonçada assim vai a vida
ajeitando restos pra seguir em frente

sentado na soleira do entardecer
seguro o meu chapéu com as mãos
e as minhas palavras assim tão soltas
que é para a ventania não fazer de folha

depois que adiante a caravana passa
ajeito meus restos que comigo ficaram
e vou tomar meu café com cuscuz ralado
e orar pela vida que a ventania não levou.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - saudade danada do cabaré



*Rangel Alves da Costa


De repente me deu uma saudade danada de um bom cabaré. Não de um cabarezinho desses que tem aí, desses chinfrins molambentos que dizem ser casa de tolerância. Ora, cabaré é coisa séria. Ao menos era. Noutros idos, cabaré era algo tão importante e salutar que os noturnos passados em seu antro tornaram-se verdadeiramente memoráveis. Lugar de encontro de amigos, ambiente de bebida e dança, as grandes orquestras, as grandes vozes, as francesinhas chegadas do litoral. Que coisas mais lindas e cheias de graça. Ali, tilintando riquezas, os bigodudos senhores vendendo e comprando safras inteiras. Os coronéis cacaueiros fazendo dali uma verdadeira varanda de seus casarões. O bom uísque escorrendo pelos copos limpos, brilhosos, importados. As raparigas parecendo em desfile de moda. Não se cheirava apenas a sexo sujo e suarento, a quarto imundo e lençóis maltrapilhos e nojentos, a bebida barata e a furdunço a todo instante. Lugar de prazeres sim, mas de nobres e apetitosos prazeres. Lulu de Boyon, a cafetina, ou a mais bela das carnes novas: Cecily D’Lamour. Um viver em festa. Que saudade, pois, destes honrosos e gloriosos cabarés. Mas depois deste áureo período, nenhum cabaré se prestou sequer a dignificar o nome de puteiro social. Hoje é a rampa das vagabundagens, algo assim como Brasília, Câmara, Senado Federal e muito mais, inclusive aquela togada corte. Mas deixe pra lá.


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segunda-feira, 16 de julho de 2018

COLHENDO OS FRUTOS DO CARIRI CANGAÇO EM POÇO REDONDO - UMA IDEIA EDUCACIONAL



*Rangel Alves da Costa


Juro que por alguns dias eu fiquei como que anestesiado pelo absoluto sucesso do Cariri Cangaço Poço Redondo 2018. Passado o impacto mais que positivo, eis que de repente passei a conviver com um verdadeiro dilema: O que fazer para que o Cariri Cangaço não tenha sido apenas um evento e pudesse continuar produzindo frutos perante toda a comunidade?
Na verdade, bons frutos já haviam sido colhidos com a plena aceitação, participação e envolvimento da comunidade. O povo de Poço Redondo e pelos sertões ao redor, não somente amou a realização do Cariri Cangaço como já demonstrou seu desejo de querer mais, de ter outros eventos de igual porte e natureza. Contudo, o meu desejo - e bem antes que o futuro nos reserve o que mereçamos - é que algo mais fosse colhido deste evento amado e admirado por todos.
Fazer o que, então? E sobre isto eu venho meditando já desde uns dois ou três dias. Da reflexão contínua e duradoura, eis que me surgiu uma ideia: Por que não dar continuidade ao Cariri Cangaço Poço Redondo perante a comunidade escolar? Ora, sabido é que a maioria do alunado de Poço Redondo ficou ausente das inaugurações dos marcos históricos.
O envolvimento da educação municipal com o evento se deu basicamente no desenvolvimento de projetos e nas apresentações culturais ocorridas na Praça de Eventos. E de forma igualmente grandiosa. Entretanto, a maioria dos alunos não pôde conhecer a sua história mais de perto, a partir da explanação acerca de cada marco histórico inaugurado.
Eis, então, a questão fundamental: Por que não possibilitar que o alunado da rede municipal vá conhecer de perto e igualmente ouvir as explanações acerca dos marcos históricos de Canário, das Cruzes dos Soldados, de Zé de Julião, de Antônio Canela, da Igreja Nossa Senhora da Conceição de Curralinho, de Brió, de Zé Joaquim, da Maranduba e das Cruzes dos Nazarenos?
Para uma ideia, de todos os marcos históricos programados para serem inaugurados durante o evento, nada menos que três deles sequer foram visitados por escassez de tempo: Brió, Zé Joaquim e Maranduba. Então, por que não permitir que os alunos de Poço Redondo tenham prazer e honra de inaugurá-los?
Como isso aconteceria? Ora, basta que a Prefeitura Municipal de Poço Redondo, através da Secretaria Municipal de Educação, promova atividades extraescolares objetivando fazer o mesmo percurso realizado durante o segundo dia do evento, ou seja, visitando a Estrada Histórica Antônio Conselheiro e a Estrada Histórica da Maranduba.
Semanalmente ou a cada quinze dias, um grupo de alunos seria escolhido para participar de tais percursos históricos. As explanações acerca dos marcos históricos seriam feitas por Rangel e Belarmino, contando com a participação dos próprios professores. E toda a comissão organizadora teria o maior prazer em acompanhar alunos e professores.
Apenas uma ideia, mas creio que bastante válida acaso se considere os frutos que advirão de tais atividades. Levando alunos aos locais históricos, possibilitando com que conheçam de perto as linhas escritas no passado, certamente permitirá não apenas a aquisição de conhecimento sobre sua própria história como colocará perante cada olhar o retrato vivo de nossa imensa riqueza histórica e cultural.
A ideia está dada. Então avante Prefeitura Municipal de Poço Redondo, avante Secretaria Municipal de Educação. O Cariri Cangaço ainda está bem vivo e presente em todos nós. Até que chegue 2019, com fé em Deus!


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O Memorial Alcino Alves Costa sendo presenteado!





Contentar-se (Poesia)



Contentar-se


Se no leito macio do peito
a paz de um rio
sorrio

se me afastando do pranto
eu me desencanto
canto

se já não quero o silêncio
torturante e aflito
grito

se o teu nome na saudade
eu tanto chamo
amo.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - com medo do Eclesiastes


*Rangel Alves da Costa


O livro bíblico do Eclesiastes causa mais temor que alegria ao ser humano. Sua sabedoria, colocando a existência num ciclo de acontecimentos que vão e voltam, verdadeiramente provoca mais medo que esperança. Partindo da premissa que nada acontece de uma só forma, ou seja, de que tudo acontece como num pêndulo onde de um lado é uma coisa e no outro o seu oposto, o Eclesiastes permite que a pessoa tema pelo oposto. Ora, se tudo nasce e tudo morre, se vem o dia e depois vem a noite, se há o sorriso e depois a tristeza, se sempre há o verso e reverso em tudo, a verdade é que muita gente vive apegada ao acontecimento futuro. Por consequência, tem medo da alegria, tem medo de sorrir, tem medo do contentamento. Por quê? Simplesmente por imaginar que logo estará triste, melancólica, aflita. Não somente isso, pois ao imaginar assim - pois o Livro diz que é assim - acaba não usufruindo nada daqueles instantes que seriam o lado bom da vida.


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domingo, 15 de julho de 2018

A EVOLUÇÃO DA POBREZA EM POÇO REDONDO



*Rangel Alves da Costa


“Poço Redondo nunca foi pobre, de pobreza extrema e panela sempre vazia, de carência de tudo, também nunca teve gente mendigando pelas ruas nem pelas calçadas de cuia na mão”, assim se dizia acerca da realidade social e dos meios de sobrevivência de Poço Redondo. E com razão. Assim se dizia por que verdade: Poço Redondo nunca teve gente pedindo esmolas.
Tal contexto acima, contudo, refere-se apenas aos naturais de Poço Redondo, aos nascidos na localidade. Mesmo jamais tendo sido um município rico, de bonanças e com todas as facilidades da vida, também jamais foi um chão sertanejo dividido entre empobrecidos e miseráveis.
Quem já viu alguém nascido em Poço Redondo pedindo esmola de porta em porta, na porta da igreja ou pelas calçadas mendigando tostão? Nunca houve uma situação assim. Aqueles pedidos que até hoje são feitos em determinados períodos do ano, a exemplo da Semana Santa e do Natal, são exemplos de uma cultura ainda viva onde se imagina que os mais favorecidos possam fazer valer seus sensos humanitários e ofertar um peixe, um coco, um quilo disso ou daquilo ou presentear com uma lembrancinha de final de ano. Mas não no sentindo da esmola.
Noutros idos se dizia, por exemplo, que Boboca era pobre, que Remígio exemplificava a pobreza, que tantos outros não tinham sequer como se sustentar. Isso também é verdade, mas não no sentido da mendicância. Pessoas pobres sempre existiram e continuarão existindo. Cozinhas, despensas e armários estiveram e ainda estão vazios por todo lugar. Nenhum destes, contudo, já passou pela humilhação de bater à porta do conterrâneo ou erguer a cuia pedindo vintém, ainda que muito agradecessem toda e qualquer ajuda que fosse chegando.
Como do conhecimento da maioria, Poço Redondo, enquanto município sertanejo, sempre foi econômica e socialmente desfavorecido. O desemprego sempre foi um grave problema, a distribuição e geração de renda são mínimas, os meios de sobrevivência sempre foram precários. Nunca houve qualquer filho de Poço Redondo com extrema riqueza. Os ditos ricos de hoje não são naturais do lugar. Os “ricos” de ontem possuíam apenas terras - na maioria das vezes improdutivas - e rebanhos, mas nada de somas pessoais que os caracterizassem como ricos de verdade.
Até hoje a riqueza de Poço Redondo se traduz no passado. Mas como dito, apenas riquezas de terras e de rebanhos. Somente isso. Atualmente, mesmo os mais favorecidos ainda continuam no patamar das facilidades da sobrevivência. Não há um grande empresário, não há um grande investidor, não há um fazendeiro cujas terras alcancem além dos limites municipais. Aliás, foram as terras que no passado permitiram que Poço Redondo jamais chegasse a uma situação de pobreza ou de miséria.
Com relação a terra e ao seu uso, o quadro produtivo de Poço Redondo era bem diferente de agora. Ora, grande parte das famílias possuía seu terreninho, seu cercadinho, sua pequena propriedade. Afora os latifúndios que se entremeavam desde Canindé às divisas estaduais, quase todo o chão poço-redondense estava nas mãos de gente da terra. Nele se plantava o feijão, o milho, a melancia, a abóbora, havia criação do pequeno rebanho, havia trabalho e renda. Tanto os pais como os filhos cuidavam do que possuíam. Mas hoje, quantos ainda continuam ao menos com seu pedacinho de chão?
Atualmente não há pequenas propriedades como outrora, por consequência também não há renda nem emprego. Aqueles rapazinhos de ontem pegavam no cabo da enxada, mas hoje já não fazem mais. Até mesmo os serviços de servente de pedreiro são evitados por aqueles que vêm indignidade neste tipo de trabalho, ainda que tanto necessitem para a sobrevivência. Ainda assim, não há que se dizer que a pobreza se alastra por Poço Redondo. A pobreza existente é a da falta de melhores meios de sobrevivência, mas não do posicionamento num quadro de miséria.
Desde os tempos mais antigos o natural de Poço Redondo sempre soube “se virar” para ter o seu ganha-pão. Lavadeiras, fateiras, varredeiras, domésticas, sempre foram avistadas fazendo seus trabalhos com dignidade. Com o advento dos programas sociais de geração de renda, como o Bolsa Família, a situação melhorou muito para muitas famílias. Portanto, não há que se dizer que haja pobreza extrema em Poço Redondo. Com um porém, contudo.
Os pedintes, mendicantes e outros que rotineiramente são avistados erguendo as mãos, geralmente não são naturais de Poço Redondo. Verdade é que a chegada de muitas famílias de outros municípios e regiões transformou profundamente o quadro social. A pobreza, aí sim, tornou-se num grave problema e se alastra cada vez mais. Atualmente há panelas vazias, pratos sem nada e crianças chorando. Mas essa rotina de miséria e dor nunca foi própria daqueles nascidos em Poço Redondo.


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Lá no meu sertão...


Sertanejice




Vida vaqueira (Poesia)



Vida vaqueira


Bom dia sertão adiante
o galo nem bem cantou
e já levantei num rompante
a obrigação me chamou
e da luta sou seu amante

cavalo relincha a vida
roupa do homem é gibão
na oração a despedida
nos caminhos do sertão
pegar rês mais atrevida
o facheiro é meu irmão

cantando aboio e toada
os sonhos vão no bornal
catingueira já quebrada
pelo romper do animal
a rês na encruzilhada
o passarinho deu sinal

em correria o alazão
espinho lanhando a face
não há dor nem aflição
o sangue como disfarce
e a novilha pelo chão
na vaqueirama o desenlace

de vida vaqueira eu sou
de rosto todo lanhado
na vaqueirama um dotô
na fé meu anel dourado
assim sou feliz sim sinhô
vivendo a vida de gado.

Rangel Alves da Costa