SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

CAFÉ COM FILOSOFIA



*Rangel Alves da Costa


Sim, tudo pode mudar. Nada é estático, imutável, tanto rocha e tanto pedra, que não possa haver uma forma ou um meio de transformação. Basta reconhecer e agir para modificar.
As nuvens caminham, o sol andeja, a lua vai de canto a outro. Aliás, nada será transformado sem que haja ação no seu estado natural. A mudança é essencial em tudo.
Mas tudo só muda quando há a percepção de que existem outros caminhos. Estradas e curvas de repente surgem como a dizer que o passo poderá seguir por outro lugar.
Nenhuma estrada tem início e fim sem que curvas e veredas se apresentem como opções de seguir. Cabe ao indivíduo buscar a melhor saída, trilhar pelo que desejar.
Há múltiplas possibilidades em tudo. Tem gente que não caminha debaixo do sol nem da chuva. Mas aquele que precisa chegar vai vencendo todos os desafios que se apresentam.
Sim segue pelo sol, mas de repente o sol se põe, a nuvem vem, a chuva chega. O que fazer, então? Seguir em frente sem medo e sem arrependimentos, construindo logo a chegada.
Na dúvida, ainda a possibilidade de ouvir mais a si mesmo, de refletir um pouco, de decidir somente quando já esgotados os espantos, os empecilhos, os medos e os pessimismos.
Perante tal situação, a certeza de que o ser humano não teve temer fazer o mesmo com o pensamento. Pensar e repensar, rever o pensamento, reorientar-se. Mais difícil errar assim.
Tais questões envolvem muito mais. A fruição do pensamento de repente coloca o ser em cima da montanha da filosofia. E então sente que tudo é mais profundo do que imagina.
E vai indagando e procurando respostas para as coisas mais simples e mais complexas, para as realidades e as ilusões, para o que apenas supõe existir. E as respostas vão surgindo.
Quando passou um pedinte e depois mais outro, mais outro e mais outro, sempre cada vez mais famintos e magros, então eu temi pelo destino dos homens.
Quando minha avó deixou de me fazer cafuné e meu avô deixou de contar histórias do outro mundo, e tudo entristeceu pela casa, então eu aprendi que a velhice florescia demais.
Quando a criancice se despediu, a meninice foi embora e a adolescência sumiu, então eu resolvi parar de crescer e voltar a ser o que ainda estava presente dentro de mim.
Quando a nuvem não veio, a chuva não veio, o pingo d’água não veio, e tudo murchou e tudo secou, então cavei mais o barro do chão até surgir um veio de esperança.
Quando eu esperei a primavera e chegou o outono, e no lugar das flores apenas a secura da solidão e a tristeza do silêncio, então molhei mais meu jardim e fiquei esperando.
Quando pedi que ela segurasse minha mão para seguir pela estrada e ela negou minha proteção, então sozinho segui até ouvir o seu grito aflito desejando a mim.
Quando cansei pela estrada e não encontrei nenhum sombreado e nenhuma guarita para descansar, então caminhei mais ainda em busca do meu destino.
Quando procurei a igreja e a encontrei de portas fechadas e procurei um altar e nada encontrei que fosse santificado, então abri as portas do templo do meu coração e orei.
Quando minha vela de oração começou a se apagar antes do tempo e a minha oração era esquecida antes do fim, então me ajoelhei e abaixei a cabeça para reencontrar a minha fé.
Quando fui jogado às feras, fui lançado aos lobos, fui arremessado às peçonhentas serpentes, então esperei sobreviver e espantar as feras, os lobos e as serpentes, de toda estrada.
Quando eu amei e por esse amor me vi na ilusão de uma felicidade inexistente, pois amante e desamado, então preferi sofrer na solidão até que o sorriso chegasse ao meu coração.
Quando abri a panela e nada encontrei de comida, revirei a despensa e nada encontrei para matar a fome, então abri a porta para catar os grãos da sobrevivência.
Quando bati à porta e ela não se abriu e chamei à janela e ela continuou bem fechada, então sentei do lado de fora e esperei as coisas acontecerem.
Quando me tomaram as vestes e lanharam minha pele, depois me jogaram ao relento e ao frio, então simplesmente esperei o sol chegar.
Quando me forçaram a ir até a beira do abismo e lá me empurraram beiral abaixo, então eu abri minhas asas para voar.
Quando levantaram a arma e apontaram o cano sangrento em minha direção, então eu, mesmo de peito aberto, levantei meu escudo de proteção.
Quando soltaram palavras de aleivosia e sobre a minha pessoa lançaram as desonras do mundo, então eu silencie por saber de onde chegariam as respostas.
Quando me dizem que tudo é assim mesmo, que tudo deve assim acontecer, então simplesmente peço que leiam o Eclesiastes: nada é assim mesmo!
Quando aprendi que nada é assim mesmo, então me preparei para buscar o novo toda vez que o velho já não traga nenhuma transformação. E mudar sem medo. E nada temer.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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