SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 22 de fevereiro de 2020

HOJE FOI DIA DE MATO



*Rangel Alves da Costa


Hoje, em pleno sábado de carnaval, eu preferi tornar o meu dia num dia de mato. Quer dizer, ao invés de estar na cidade acompanhando as folias carnavalescas, peguei a estrada e fui conhecer outros sertões do meu sertão.
Ao amanhecer e o itinerário já estava certo. E o destino era uma comunidade chamada Garrote do Emeliano – ainda que não seja formada por habitações conjuntas, mas em propriedades ladeando umas às outras.
O Garrote do Emeliano, assim denominado em homenagem a Emeliano Vito da Silva, um senhor de profunda religiosidade que possuía moradia, está localizado nas proximidades do povoado Santa Rosa do Ermírio, no município de Poço Redondo, sertão sergipano do São Francisco.
Nesta região, minha intenção primeira – como de fato aconteceu – era visitar o amigo Marcos Moreira, um exímio artesão que me despertou curiosidade pelas miniaturas de carros antigos que faz em madeira. Uma perfeição.
A família de Marcos é maravilhosa, animada, muito acolhedora. Seu pai, um misto de criador e agricultor, parece viver e respirar sua terra, seu rebanho, suas criações. Sua mãe, que depois revelou sua maestria artística em tecidos, outra pessoa maravilhosa. Assim também com sua cunhada e outro senhor que ali faz moradia.
Interessantes também os três sobrinhos de Marcos, o pequenino Fael, e seus irmãos Emanuel e Larissa. Que meninos ativos, brincalhões, conversadores, nos seus moldes de todo menino que se expões em plenitude perante sua idade. E falavam, e explicavam, mostravam coisas interessantes pelos arredores. Três amores de crianças.
A arte produzida por Marcos é de uma beleza sem igual, coisa mesmo de quem tem muito cuidado e paciência para trabalhar a madeira e a tudo transformar em miniaturas de ônibus, tratores, carros-pipas, caminhões, caminhonetes, uma gama imensa de veículos, principalmente antigos.
De sabor sem igual o almoço servido após o meio-dia. Galinha de capoeira, macarrão, arroz, feijão e, como sobremesa, mel de abelha legítimo e ali mesmo produzido e umbuzada. Uma panelada de umbuzada, feita no capricho, que quanto mais era bebida mais se tinha vontade de colocar mais. Meu gosto era tanto que a mãe de Marcos compreendeu meu apetite pela iguaria sertaneja e me presenteou com uma vasilha cheia.
Depois da despedida de tão proveitosa visita, já na estrada resolvemos fazer outras visitas pelos arredores. Seguimos, então, em direção a casa de Dona Guiomar Vito. Esta senhora quase sexagenária é uma das matriarcas de uma importante família dos sertões de Poço Redondo: a Família Vito.
A Família Vito, passando de geração a geração, perpetua diversas feições da cultura sertaneja, pois desde os tempos antigos que preservam a arte dos pífanos, do aboio e da toada, dos folguedos e de diversas tradições. Dona Guiomar Vito ainda hoje é reconhecida pelos seus dotes no samba-de-doce, tanto como emboladeira (cantora de coco) como dançante.
Encontramos Dona Guiomar ao descanso da tarde, mas assim que chamada em seu quarto, logo surgiu alegre e sorridente. O peso da idade mostra suas marcas em Dona Guiomar, pois tem dificuldades para ouvir e também enxergar, além de caminhar quase sempre com bengala ou amparada por parente.
Perante Dona Guiomar, apresentei-me como filho de Alcino e logo vi nascer um sorriso na face. Relembrou meu pai e minha mãe e daí em diante pareceu mais encorajada para falar. Perguntada sobre os seus dotes no samba-de-coco, disse que naquela idade já não fazia mais nada. Mas para nossa surpresa, a velha matriarca logo começou uma cantoria de indescritível beleza. E cantou embolada como se estivesse numa roda de samba. Que força persiste e resiste nesta mulher!
O último destino foi uma visita a velha casa daquele que dá nome ao local: Emeliano. A velha moradia, no barro batido, ainda está de pé. Seu filho Antônio abriu suas portas e adentramos num mundo de religiosidade tão antiga como a própria fé. Retratos antigos pelas paredes, imagens de Padre Cícero e Frei Damião, objetos do passado, raízes ainda preservadas pela família.
Assim, um dia de mato, mas também de história, de arte, de cultura, de religiosidade e tradições.


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Lá no meu sertão...


Um menininho sertanejo




Como sopro de vento (Poesia)



Como sopro de vento


O vento sopro
as folhas esvoaçam
as velhas cartas
retornam ao olhar

assim também
com o amor
que persiste
em voltar

a saudade sopra
o desejo esvoaça
as asas do amor
vão buscar seu ninho.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – reencontrar



*Rangel Alves da Costa


Ontem reencontrei uma pessoa que admiro muito, que gosto muito. Não quero entrar no mérito do que nos fez distanciados. As pessoas têm desavenças, se desgostam, se distanciam e, ainda que não fosse o nosso caso, ainda assim estávamos ausentes demais um do outro. Mas reencontrar essa pessoa foi muito bom. Conversamos pouco, tivemos pouco tempo de diálogo, mas pudemos conversar o básico para muitas recordações do passado. Não sei quando será o nosso próximo encontro, ainda que não seja difícil pela pouca distância, mas espero que seja breve, de modo que novamente nossas memórias e afinidades voltem novamente à gaveta cheia de traças do tempo.


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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA



*Rangel Alves da Costa


Quem possui sentimento de humildade, dificilmente estará apegado a bens ou coisas materiais. O ter significa apenas uma necessidade, não um luxo ou meio de ostentação.
Há pessoas, contudo, que forjam o ter como forma de demonstração de felicidade, de poder, de diferenciamento social. Mas aí as aparências servindo apenas para esconder os reais sentimentos.
E assim por que não há sorriso bonito sendo forjado, não há feição tomada de contentamento se o corpo e a alma estão apreensivos e descontentes, não há verdadeiro viver se a vida foi construída ou está sendo mantida sobre castelos de areia.
Somente é verdadeira a felicidade espontânea, nascida da conquista ou do reconhecimento de cada um de suas limitações. E para ser ato de normalidade, sem repentinos altos e baixos, o sentido da felicidade deve estar alicerçado na real valorização que cada um faz de si mesmo.
Ora, quando mascarada ou mantida em fingimento, a felicidade acaba se tornando um fardo a ser carregado. É possível mascará-la sempre? Nunca. Sorrisos dourados não significam nada. Se o coração não está sorridente e confortado, de nada adianta um rosto aberto e mãos brilhando de diamantes.
Carro de luxo não traz felicidade, anéis dourados não trazem felicidade, casarão de moradia não felicidade, ostentar que possui muito dinheiro e outras riquezas não traz felicidade.
Será que pode ser feliz aquele pobre casal que vive embrenhado nos cafundós do sertão? Será que traz consigo a felicidade aquela mocinha de chinelo barato no pé e vestido de chita? Será que encontra motivos de felicidades aquele rapazinho que sabe que tem pouco e por isso não vai além do que tem?
Sim. Ninguém vai ao supermercado comprar dois pacotes de felicidade, ninguém entra num banco para sacar um milhão de felicidades, ninguém entra numa loja chique para se vestir e revestir de felicidade. A felicidade não se compra.
Repita-se: a felicidade não se compra. A felicidade é como uma comunhão de aceitação de si mesmo com a negação daquilo que constantemente lhe é exposto para ser diferente. A felicidade é uma junção de humildade, de sabedoria, de nobreza da alma e de comedimento.
A felicidade é uma conquista que não precisa ser plantada para ser colhida, pois já florescendo dia após dia. A felicidade é ato de coração, de olhar, de palavra. Todo mundo conhece quem finge, quem mente, quem forja ser o que não é.
Muitas vezes, parece até um peso ruim e negativo estar ao lado de quem não é verdadeiro por viver revestido de ilusões de ser o que não é ou ter o que não possui. Outras vezes, uma pessoa carente se aproxima e é como um véu de alegria e de leveza boa se espalhe por todo lugar.
Ora, traz o bem no coração, chega com feição verdadeira, não traz consigo nada além do que o ser em si mesmo. Daí parecer ornada de luz, iluminada por dentro e por fora. E tornando o instante um prazeroso momento na vida.


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Lá no meu sertão...


Na magia do Velho Chico Sertanejo!




Voos e luas (Poesia)



Voos e luas


O dia passa
e a noite vem
meu coração
tão passarinho
voa também

asas para amar
para voar
ir mais além
subir ao alto
ser um luar

e o brilho
da lua minha
no meu olhar
fazem da noite
versos de amar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - a mídia também é nojenta



*Rangel Alves da Costa


Num período que tanto se fala em defesa do jornalismo, nada demais lembrar que quando ele quer faz e3scolhas mais que erradas. Ou certas, segundo as conveniências, como acontece com relação a política, políticos e ao poder. Um jornalismo que se declara de esquerda ou de direita não é jornalismo, mas mero caderno de catequização partidária. Mas não somente nisso o jornalismo possui função escatológica, nojenta mesmo, vez que de vez em quando envereda na defesa de coisas imprestáveis mesmo. Ora, que mídia é essa, que jornalismo é esse que ao invés de optar por um noticiário sério e proveitoso, prefere valorizar a todo custo o que faz Anitta, o que faz Pablo Vittar, e o escambau? Hoje mesmo eu avistei num site tido como de jornalismo sério, pois do grupo Globo, uma manchete dizendo que Anitta rebolou e mostrou o bumbum na prévia do carnaval não sei onde. O bumbum de Anitta deve ter alguma importância, mas creio que muitas outras coisas são menos vulgares e possuem muito mais valor.


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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

NAS NOITES DO SERTÃO, MEU CORAÇÃO SÓ QUER LUAR...



*Rangel Alves da Costa


As noites do sertão são lindas, grandes, imensas, poéticas, nostálgicas, orantes, pedintes. São portas que se abrem ao alto para, em direção ao luar, buscar os encantamentos da noite e da vida.
Quando as noites chegam e seu manto vai encobrindo a terra com suas cores sombreadas e escurecidas, logo as chamas do candeeiro da lua se acendem para tudo recobrir com seu dourado de paz e encanto.
A muitos, que apenas tratam a noite como parte escurecida do dia e a lua como o oposto do sol, tanto faz que após o entardecer os horizontes se encham de fogo e magia, e que os encantamentos surjam em cada raio de luar e em cada estrela que vagueia brilhosa pelos espaços.
Nada entendem de noite, de lua, e muito menos de luar sertanejo. Certamente não sabem que a lua carrega em si o dom da transformação e em cada dourado que espalha há um descortinar de sentimentos sem fim.
Igualmente não sabem de quanta simbologia há num clarão de luar sertanejo. No sertão, o luar não é de lua qualquer, não é apenas um astro noturno que brilha, não se contenta em ser somente uma luz clareando na noite.
O luar do sertão é sentimento aceso em fogo e brasa, é chama que reacende saudades, reencontros e recordações. O luar sertanejo crepita por dentro como tição e fagulha, como labareda e faísca. E tanto queima que é preciso cuidado ante sua luz.
Somente a luz do luar sertanejo para afastar as medonhices da noite e os medos dos esquecimentos. Impossível não abrir janelas, não reabrir velhos álbuns, não buscar fotografias, não reencontrar imagens de faces e feições, perante a luz que brilha lá em cima.
Nas noites do meu sertão, nada mais preciso que a luz do luar. Nas noites do meu sertão, meu coração só quer luar. E no luar o retrato vivo daquilo que sinto saudade, que amo, que merece ser recordado.
Nas noites do meu sertão, quando a lua se abre em flor, então os jardins da memória começam a brotar suas pétalas. Olhar para o alto e se encantar com o amarelado da lua, avistar a luz imensa perante a escuridão, tudo isso conforta a alma e o espírito.
Nas noites do meu sertão, quando os silêncios chamam à reflexão, nada melhor que compartilhar da voz interior com a auréola iluminada que desce do alto e a tudo envolve. Uma lua tão bela e sertaneja, tão cheia de palavras e vozes, que o silêncio se transforma em poesia e encantamento.
Bem disse o poeta: “Não há, oh gente, oh não, luar como esse do sertão...”. E digo mais: Uma luz que pacifica a alma, uma cor que enobrece o ser, um brilho que envolve todo o coração.
Na noite, nos altos e nas alturas da noite, é como se as recordações chegassem com a luz do luar. Um cheiro de café torrado, um cheiro de fogão de lenha. Vagantes vaga-lumes, réstias de candeeiros, fagulhas ainda vivas das fogueiras do tempo.
E uma canção no vento. Um vento que vem das montanhas, lá detrás dos montes enluarados, trazendo a cor da lua e o brilho das estrelas e para, perante o meu silêncio noturno, ecoar uma linda canção de amor.
De amor ao sertão. De amor à sua lua, ao seu luar.


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Lá no meu sertão...


Poço Redondo Antigo




Amor, verdades e mentiras (Poesia)



Amor, verdades e mentiras


No amor
entre as verdades
e as mentiras
eu prefiro ficar
com o que acredito
pois tudo verdade
e tudo mentira

pois no amor
a verdade existe
quando se deseja
e a mentira surge
por conveniência
de tornar a verdade
apenas mentira.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - lei do retorno


*Rangel Alves da Costa


A lei do retorno é certa: mais cedo ou mais tarde, a retribuição chegará pelo bem ou pelo mal que foi feito. O tempo não tem pressa. Tudo feito permanece escrito. Ninguém imagine que sua ação será simplesmente apagada no tempo. Ledo engano. O tempo passa e quando menos se espera, então as retribuições começam a silenciosamente chegar. A felicidade, a paz, a alegria, a vitória, o contentamento, o sonho realizado, para quem fez o bem. A tristeza, a doença, o definhamento, a angústia, a aflição, para quem fez o mal. Muitas vezes, ante qualquer coisa ruim acontecida, a pessoa apenas reclama que não merecia passar por aquilo. Contudo, bastaria olhar atrás, tentar avistado o passado, para saber o mal cometido. E agora o retorno. Por outro lado, não significa que a pessoa injustamente afetada tenha que fazer qualquer coisa. De forma alguma. A lei do retorno não depende da ação humana, mas do julgamento sagrado que a tudo vê, tudo observa e comanda os destinos segundo o instante de tudo acontecer. A pessoa aviltada até esquece, mas as forças do alto não. Daí a reação sobre a ação praticada. E daí também o merecimento futuro recebido por cada um. Por isso mesmo que todo o mal cometido contra alguém, certamente será um mal que será reparado. Pela paz no coração do injustiçado, e pelo que de ruim vai acontecendo nos passos de quem feriu por ferir, traiu por trair, enganou por enganar, mentiu por mentir, praticou o mal pela mera intenção da maldade.


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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

POÇO REDONDO, SEU POVO E SEUS ANTIGOS COSTUMES



*Rangel Alves da Costa


Atualmente, ante a reconstrução da Praça da Matriz de Poço Redondo, no sertão sergipano, e o impedimento de encontros dentro de seus limites, senhores poço-redondenses se reúnem na calçada do outro lado, na esquina da Travessa Maria Marques. Depois do anoitecer, vão chegando um e outro, e de repente mais de dez estão por ali falando sobre política, sobre seca e sol, sobre esperanças de chuvas e quaisquer outros acontecimentos que seja de relevância, ou não.
Nos tempos idos, outros sertanejos se reuniam com a mesma finalidade, só que na calçada de Mané Azedinho, na atual Rua Prefeito João Rodrigues, onde hoje funciona um comércio. Encontro certeiro em todas as noites, os que chegavam logo iam procurando seu cantinho na calçada de cimento. Mané Azedinho (o dono da casa), seu irmão Joãozinho de Neuza, Né Cirilo, Zé de Iaiá, Meron, Lourenço, Manezinho França e tantos outros. Todas as novidades políticas apareciam primeiro por lá. Todos os destinos de Poço Redondo ali eram discutidos.
E assim ficavam até tarde da noite, com alguns de repente já cochilando, e outros aproveitando o frescor antes de retornarem a suas casas. No outro dia, ainda com pouca claridade, muitos seguiam para os seus terrenos logo ao lado da cidade, principalmente para tirar leite das vaquinhas que possuíam. Até os anos oitenta, grande parte daqueles senhores poço-redondenses possuía uma propriedade, ainda que coisa de poucas tarefas, muitas vezes. Alguns com pequenos rebanhos e outros com duas ou três vaquinhas, apenas. Mas suficiente para garantir o leite de toda manhã. A melancia, o feijão, o milho, o maxixe, quase sempre era trazido do próprio terreno.
Ao longo do dia, os afazeres eram divididos segundo as posses e o modo de sobrevivência de cada um. Delino, além de comerciante de bananas e outros produtos adquiridos na Boca da Mata (Nossa Senhora da Glória), também possuía bar. Joãozinho de Neuza era do dono de caminhonete para transportar feirantes e também vendedor de farinha, bem como seu irmão Mané Azedinho. Comerciantes de farinha também eram Zé de Iaiá e Ireno Cirilo. Quem vendia farinha geralmente vendia também feijão. E alguns também o açúcar. Aos fundos de onde ainda hoje reside sua esposa Loló, no local onde funciona a venda de doces de seu filho Almiro, Seu Wilson (que também era Oficial de Justiça) possuía uma pequena mercearia.
Bem próximo dali, na esquina, Dom possuía venda de aguardente e produtos básicos na cozinha sertaneja. Outro que possuía vendinha de cachaça e miudezas era Zé de Lola, primeiro nos arredores da atual Praça Lourival Batista (Praça do Banese) e depois na vizinhança do antigo posto telefônico, ao lado da Câmara de Vereadores. Também na Praça Lourival Batista ficava o famoso Bar de Noélia. Noélia, aliás, de inesquecível memória em Poço Redondo, pois mulher guerreira, alegre e amiga de todo o sertão. A mãe de Teinha, Gizélia e Chiquinho, dentre outros, e esposa do famoso vaqueiro Chico de Celina, possuía bar sempre cheiroso a comida boa, pois cozinheira de mão cheia, doceira de cocada e doce de leite com bola, e sempre alegre em seu comércio.
Daí que seu bar era tomado de vaqueiros em dias de feira. Também bar preferido de afamados fazendeiros como Zé Ferreira, Ademor e Expedito Pereira. No Bar de Noélia, a dupla Vavá Machado e Marcolino, trazida pelos fazendeiros alagoanos e pernambucanos fincados nas terras de cá, já entoou cantorias famosas como “A chuva chove, molhando a face da terra, a neve cobrindo a serra, vai ter outra trovoada”. Ou “Eu vi Bela chorando, fui lhe dar consolação, findei chorando mais Bela na noite de São João. A minha namorada ainda hoje chora, ainda hoje chora, ainda hoje chora...”. Eu também choro de saudade daquele Poço Redondo antigo, onde as pessoas eram mais humanas, mais preocupadas com os destinos da povoação.
Pessoas como Mariano, Manezinho França e Amarílio, que carregavam baldes de água para regar os canteiros das praças, que cuidavam de cada flor como se estivessem cuidando de seus jardins. Um Poço Redondo doce pelos pirulitos de Dona Luisinha, da cocada de frade de Cecília de Duié, da cocada branca de Dona Quininha, do arroz-doce de Baíta, das balas de mel de Tonho Bioto. Um sertão de cheiros e sabores inesquecíveis. Ainda hoje, ao entardecer, eu sinto o cheiro bom, forte e oloroso, do café de Dona Lídia subindo pela Praça da Matriz e tomando todos os espaços. O cheiro bom e cheio de gulodices do bife acebolado e das paneladas de Dona Jarde de Mané Lameu, em sua venda de comidas em dias de feira, ali no canto do Mercado da Carne (onde hoje Luiz Carlos possui um barzinho).
De vez em quando, Maria do Piau aparecia com balde do peixinho na cabeça, e já salgado, no ponto. Piaba com cuscuz é coisa do outro mundo de gostosura. Mas muita gente preferia experimentar a carne de bode vendida na praça por Pedro Bola. Tudo assim até que a Festa de Agosto fosse aproximando e logo a chegada de Seu João Retratista, do engraxate Manezinho Tem-Tem, dos vendedores de colchas e roupas de porta em porta, mas principalmente do parque. Saudade daqueles tempos de parque.
Pontualmente, às cinco da tarde, e a música “O Milionário” (Os Incríveis), anunciava o começo das brincadeiras. Não demorava muito e o baile no mercado. Música para dançar agarradinho. E de repente uma voz ecoava My Mistake (Pholhas). Era Boca Rica, um cantor de Monte Alegre. Hoje mais conhecido como Pastor Heleno.


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Lá no meu sertão...


MARIA, minha filha linda, parabéns pelo seu aniversário!





Alma minha (Poesia)



Alma minha


Alma minha
a paz irradia

nem o vento
nem a ventania

nem a tristeza
nem a agonia

nem a solidão
nem melancolia

apenas a paz
em mim irradia

n’alma minha
amor como guia.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - qual a serventia do carnaval?



*Rangel Alves da Costa


Outro dia, numa rede social, eu li que o carnaval não serve para absolutamente nada. A pessoa certamente querida dizer que o período carnavalesco não possui utilidade alguma enquanto festejo. E possui razão tal pensamento. A não ser para uma viagem de repouso, para um merecido descanso, o período carnavalesco não possui mesmo serventia alguma. Qual, realmente, a utilidade do carnaval perante aqueles que durante o período esquecem que existe uma realidade, que se voltam apenas a bebedeiras, ao esquecimento dos afazeres tão necessários e que mais tarde terá de enfrentar? Vale a pena apenas beber, pular, brincar, se por trás da cortina o mundo político trama contra si, se além do salão as canetas estão assinando decretos para diminuir seus poderes aquisitivos e suas dignidades? Mas tudo bem, pois bebe quem quiser, se esbalda quem quiser, esquece o mundo quem quiser. E não há que se negar que o carnaval se afeiçoa perfeitamente ao jeito omisso de grande parte do brasileiro, ao seu jeito de achar que tudo tanto faz, ao seu negligenciamento perante as realidades. Para uma gente que leva tudo na brincadeira, então não há nada melhor que o carnaval. Tudo como se a ilusão fosse mais importante que a realidade. Mas quando se dá conta, após a quarta-feira de cinzas, a ressaca não é da bebida, mas de preocupação com os compromissos não cumpridos e as contas a pagar que foram se acumulando. E a sensação de espanto perante o novo que foi tramando enquanto se achava o rei da folia.


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domingo, 16 de fevereiro de 2020

A VELHA SENHORA E AS FLORES DE PLÁSTICO


*Rangel Alves da Costa


Pela janela da sala avistava-se um jardim descuidado, porém com flores vistosas pela estação. Bastava chegar rente à janela e também avistar colibris e borboletas, folhas passando em voo, bem como ouvir algum canto de passarinho.
Mesmo com a possibilidade de lançar seu olhar para o além da janela, para as paisagens mais adiante, a velha senhora sequer sentava junto ao umbral, com sua cadeira de balanço recebendo o frescor das horas.
Quem adentrasse à sala - quase sempre escurecida - sempre encontrava a velha senhora no mesmo local, sempre sentada em sua cadeira de balanço e com os olhos voltados para uma mesa logo adiante. Não olhava, contudo, para a mesa em si, mas para um jarro que ali ficava.
Ali adiante, um velho jarro com flores parecendo ainda mais velhas. Flores de diversas cores, mas todas parecendo esbranquiçadas pelo tempo. Por mais que de vez em quando fossem lavadas, uma poeira se impregnava tal qual um pólen do tempo.
No passado, para o jarro bonito, de porcelana florida, as flores ali colocadas pareciam colhidas em jardim. As rosas então, estas pareciam viçosas, molhadas e perfumadas, mas somente para a ilusão do olhar. E com o tempo, com o passar dos anos, tudo esbranquiçando num buquê sem vida.
Perante estas flores sem vida, esbranquiçadas, murchas no plástico do tempo, é que a velha senhora levava os seus dias. Sentava na cadeira de balanço e passava horas e horas mirando aquela natureza-morta sobre a mesa. Mas o que motivava a velha senhora a fazer isso, quando bem poderia olhar as flores do jardim logo após a janela?
O mistério estava no pensamento. O segredo estava no diálogo que a velha senhora mantinha com as flores de plásticos. As memórias, as recordações, as nostalgias, bem como as perguntas e respostas feitas, tudo serviria como resposta àqueles momentos de olhar sempre fixo nas flores de plástico.
Toda vez que lançava o olhar às flores de plástico, era como se a velha senhora estivesse avistando a vida em todas suas consequências. Avistava o tempo caminhando, as folhas do calendário passando, o passado, o presente e o futuro.
E por dentro, no seu íntimo saudoso, certamente dizia: Não somos sequer como as flores nascidas em jardim, pois estas nascem belas, fulguram nas paisagens, perfumam ambientes, mas logos perdem o viço, a força, e morrem. E nós humanos convivemos um pouco mais com o jardim da vida.
E acrescentava: Somos assim como flores de plástico. Nada mais que isto, pois flores de plástico, apenas. Belas, coloridas, parecendo vivas quando novas, mas que aos poucos vai perdendo toda sua beleza. Não murcham, mas se dobram. Não caem, mas perdem a cor. Não perdem o perfume inexistente, mas sobre elas passa a restar somente o pó, a poeira do tempo.
Assim, eis a razão de a velha senhora tanto olhar e refletir perante as flores de plástico. Não meditava sobre as flores sem vida, sem cor, empoeiradas. Mas sobre a vida que também é flor de plástico. Vai perdendo a cor, o ânimo de flor, para depois se recurvar, se encher de marcas do tempo, até que um dia simplesmente ser jogada fora.
Flores de plásticos somos, não há que duvidar. A velha senhora uma flor de plástico já desgastada de tempo, já prestes a perder o seu jarro, já prestes a ser descartada pelo destino de todos. E em nós, em cada um de nós, a sensação que também estamos dentro de um jarro sobre uma mesa. E o tempo apenas passando.


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Lá no meu sertão...


Porteira...



Dengo na rede (Poesia)



Dengo na rede


Eu já cansei
cansei de muito
de quase tudo

o que me resta
é armar a rede
e adormecer

e no sono sonhar
com dengo e cafuné
com xícara de café

e quando acordar
ela chegar pertinho
para me beijar

para fazer dengo
para trazer café
e fazer cafuné.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - o santo e o rio



*Rangel Alves da Costa


Rio Velho, Velho Chico... São Francisco, o santo, andejava pelos campos conversando com a natureza, tecendo sermões de amor e fraternidade, fazendo votos de pobreza material e de riqueza espiritual. São Francisco, o rio, percorre os caminhos nordestinos e sertanejos, vai alargando seu passo entre serras e montes, deitando em cada pedaço de margem sua benção a um povo que praticamente nasceu de suas entranhas. O santo e o se comungam assim: pelos diálogos e afetos com a natureza e povo. E a mesma Oração de São Francisco, transformada segundo os desejos do coração, serviria para os dois: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ribeirinho, que eu leve o esperança. Onde houver miséria, que eu leve o pão. Onde houver desalento, que eu leve a alegria. Onde houver ameaça, que eu leve a força da luta. Onde houver devastação humana, que eu leve o renascimento da natureza. Onde houver abandono, que eu leve a presença e o abraço. Onde houver uma triste canoa, que eu leve um sopro de vida boa. Onde houver um ribeirinho, que eu esteja presente. Ó mestre, fazei que eu procure mais amar o rio e o seu, do que apenas chegar onde está o rio e o seu povo. Compreender a natureza e respeitá-la como a mim mesmo. Ser um do rio mesmo sem ser ribeirinho. Doar-me, de corpo e alma, viver a vida ribeira nas minhas entranhas. Pois, é se doando que se recebe É venerando que se mostra o respeito. E nunca deixar o rio morrer, e que vida viva tenha para o sempre eterno”.


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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

O SERTÃO É BOM DEMAIS, ENTÃO EXPERIMENTE O SERTÃO



*Rangel Alves da Costa


O sertão é bom demais, então experimente o sertão. Em cor e sabor, em sentimento e viver, em caminhar e conhecer, em adentrar num mundo que é de magia, encantamento e beleza sem igual. Do sol grande e da lua maior ainda.
O sertão deve, pois, ser experimentado em tudo que nele há. E uma maneira de afastar os preconceitos, as discriminações, as ideias infundadas sobre o povo e aterra, sobre o sertanejo e o seu chão.
Quem não o conhece, certamente supõe inverdades. O sertão é seco sim, é sofrido sim, tem muita pobreza sim, mas também possui feições e qualidades que a tudo isso supera. Um sertão de histórias e sagas, de tradições e velhas raízes. A cada passo um encontro maravilhosamente inesperado.
Experimente o sertão vivo, o sertão de chão, de chão, da catingueira, do mandacaru. Experimente o sertão vaqueiro, aboiador, mateiro, caçador, do mato e da cidade. Um sertão que se abre em mil sertões em tudo que nele há.
Sertão da enxada, mas também do gado leiteiro. Sertão da sequidão, mas também da colheita boa e farta. Sertão dos caminhos de pedras, mas também dos beirais ribeirinhos e suas feições tão singelas. Sertão do bicho mugindo de fome e sede, mas também das fontes transbordantes e seus cultivos.
Experimente viver o sertão que há em você. Experimente caminhar pelas estradas de terra batida e chão nu, e se admirar com as flores do campo, com o alaranjado da flor da jurubeba e o encanto da florada do mandacaru.
Experimente o sertão que é sua casa e lar.  Experimente avistar o por do sol de uma porteira nas distâncias matutas. Experimente sentir pulsando no coração o seu berço de nascimento.
Experimente tomar água de moringa, matar a sede em caneca limpinha pendurada na parede de barro, sentir o cheiro oloroso do café fervendo em fogo de chão. Experimente viver e ter o que é seu.
Experimente uma varanda com rede armada e um radinho de pilha cantarolando “de que me adianta viver na cidade se a felicidade não me acompanhar...”. Ou ainda: “eu vim embora e na hora cantou um passarinho, porque eu vim sozinho, eu a viola e Deus...”.
Experimente sair da cidade e ir mais adiante, pelas curvas de matos rasteiros e catingueiras ladeadas de mandacarus e xiquexiques. Experimente ser tomado, envolvido e abraçado, pelo entardecer sertanejo, e olhando os horizontes em cores abençoadas benzer-se de comoção.
Experimente fechar a porta de casa e tomar as portas do mundo-sertão. Experimente bater à porta da casinha de beiral de estrada e prosear com Seu João e Dona Maria, oferecer uma bala a Tiquinho e um pirulito a Lurdinha.
Experimente o orgulho bom de ser sertanejo. Experimente estender a mão à mão calejada, abraçar o amigo reencontrado e falar sua língua sem invenção no falar. Experimente ser o sertanejo que há em você e não o outro que insiste em lhe tirar a feição sertaneja.
Experimente sentar no tamborete e ouvir e contar histórias, causos e proseados. Experimente ser você mesmo no sertão que é todo seu. Experimente andejar por aí, como um São Francisco sertanejo e conversar com o bicho do mato, com a pedra, com o passarinho.
Experimente amar seu sertão. Experimente avistar sua terra com os olhos da sabedoria, vendo sentido em tudo e em tudo sentindo uma razão de ser e de existir. Experimente o amor de um filho que ama a semente da qual foi brotado.
Experimente conhecer, conviver, viver, sentir e dizer: Eu amo e tenho orgulho de ser sertanejo!


Escritor
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Lá no meu sertão...


Sertão, sertanejos...




Ali (Poesia)



Ali


Vou ali
volto já

mas acaso
eu não voltar

é que não fui ali
fui mais lá

não encontrei
você

então fugi
da tristeza

fui bem longe
a vagar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – a canção do porto



*Rangel Alves da Costa


A canção do porto é canção de mar, é canto de areia, é melodia de brisa e de ventania. A canção do porto é molhada, é leve, é suave, mas também tempestuosa, afeita, temerosa. No porto a simbologia da chegada e da partida, do abraço e da despedida, das flores lançadas na areia das cartas velhas chegadas em garrafa. Por isso mesmo que a canção do porto é misteriosa, é como ilusão e verdade desconhecida. Uma canção que navega, que vai além, que alcança distâncias, mas também naufraga nos beirais das tristezas. Canção tomada de gaivotas, de maresias, de âncoras e de cascos das velhas e perdidas embarcações. Uma canção de farol e de grito de dor, de coqueirais ondulando e de conchas que ecoam segredos. Uma pedra lavada, um passo que caminha na areia, um rastro de alguém que passou, uma onda que chega para tudo apagar. E no castelo ali construído, ali nos grãos de areia molhados, o tudo que é para não ser mais.


Escritor
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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

DEPOIS DE TUDO



*Rangel Alves da Costa


A vida é cheia de encantamentos, de tristezas, de alegrias. Na infância um viver de desandar e revirar, de se esconder e não querer ser achado. Para depois ter de acertar o passo na vida e aprender a caminhar na estrada.
Depois disso, depois que a juventude vai despertando o ser com outro pensamento e ideias, os caminhos passam a ser escolhidos com mais vagar e os passos dados sem muita pressa de chagar. Compreende-se a vida como um estranho livro.
Quando a idade avança, e vai avançando cada vez mais, aqueles caminhos passados, aqueles passos dados, tudo é retomado pelo pensamento, pela memória, pela nostalgia. E sabe que daí em diante pouco irá caminhar, e sequer em busca de sonhos tão desejados e jamais alcançados.
Tudo se torna difícil demais. As estradas são apenas os passos, as realizações são aquelas rotineiras e de pouco fazer. Olhar que se lança saudoso aos horizontes, coração que ainda sente pulsar desejos antigos. Mas tudo apenas alento para afastar as angústias da solidão.
Solidão que chega como companhia inafastável. Na velhice há uma solidão que, mesmo não estando sozinha, a pessoas se sente como distanciada de tudo, como se não puder mais ter ao lado as coisas tão cativantes.
E depois vem a soleira da porta como horizonte de vida. Foi assim que aconteceu com um conhecido e acontece com muita gente.
Na soleira da porta, ele via tudo passando. Os ódios, os rancores, as falsidades. Tudo passava e ele continuava feliz...
Na soleira da porta, bem em cima do batente e ladeando a portada, ele via as folhas secas esvoaçando em fúria. Entristecia, mas pensava na próxima estação e continuava feliz.
Na soleira da parta, logo ao amanhecer, ele viu o menino do pirulito passar e comprou uma porção só pra lhe causar contentamento. O menino estava triste, mas o seu novo sorriso também lhe trouxe felicidade.
Mas houve um tempo em que ele ia muito além da soleira da porta. Cortava estrada, seguia distante, chegava perto do céu no seu cavalo alazão. Retornava no suor na luta, mas sempre feliz pelo seu ofício.
Dono do mundo. Avô, pai, tudo. Cheio de força e disposição, não sentia cansaço nem quando o ofício do dia parecia querer testar suas forças. Vencia espinhos, pontas de pedras, tocos de pau, e sem jamais perder o encorajamento em busca da felicidade.
Olhos acostumados a avistar o conhecido e o espantoso. Mãos que se alongavam como se quisesse alcançar o sol e a lua. Uma sabedoria de mundo, tudo aprendido no livro da luta, que nenhum mestre de academia jamais saberia igual.
E hoje, ou já desde algum tempo, apenas ali na soleira da porta. E da soleira da porta avistando o mundo que era seu e que não é mais. Não entristece, não lacrimeja, não se atormenta por dentro. Tudo conseguiu, e por isso é feliz.
Tudo conseguiu, mas o que conseguiu? Sobreviver em meio a tanta dificuldade, ter o pão de cada dia em meio a tanta panela vazia e prato sem pão, ter a honradez de olhar para o passado e dizer que foi honesto em cada passo que deu.
Mas hoje está na soleira da porta. Noutros idos, costumava sentar num tamborete pela calçada ou mais adiante na malhada, em cima de um tronco de pau deitado. Conversava com os bichos, com o passarinho, com a pedra grande, com o vento açoitando.
Não reclamava de não poder cortar estrada e tomar poeira no meio do mundo. Não entristecia poder não poder mais se achar o dono do mato, das catingueiras floridas e das pedras molhadas do riachinho. Tudo tem seu tempo, dizia.
Contentava-se com o seu mundo na soleira da porta. Até podia andejar pelos arredores, colocar cadeira debaixo do sombreado da jaqueira, conversar lá fora com o calango e passarinho.
Era ali que gostava de ficar matutando as coisas da vida. De vez em quando conversando sozinho (porque achava bom fazer assim), sentenciava: Pensando bem... A gente vale tão pouco aos outros, que num instante a gente não vale mais nada!
Pensando bem... A idade da gente devia ser repartida. Quem não soubesse viver a fatia dada, mais adiante essa fatia seria perdida até retornar ao tempo perdido, com a obrigação de aprender a viver.
Contudo, um mistério há nessa história toda. Ele sempre está ali na soleira da porta, entre o vão de fora e o vão de dentro, por um motivo angustiante e pesaroso demais. Dali daquele local deu adeus à velha companheira quando ela partiu para a eternidade.
E depois disso, feito menino teimoso, ali, ali na soleira da porta, fica a esperar que um dia ela volte. E crê que a morte é ressuscitada em nome do amor. E acredita que quando o amor é profundo demais nenhum adeus será de última despedida.
Assim, na soleira da porta também está o amor.


Escritor
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Lá no meu sertão...


Vaqueiros de Poço Redondo!




A estrada (Poesia)


A estrada


Adiante
uma estrada

não quero sair
não quero seguir

mas adiante
uma estrada

a porta fechada
a janela fechada

e adiante
uma estrada

já percorri mundos
e mil caminhos

e retornei
para não mais partir

mas o tempo passa
a idade avança

e adiante a estrada
inevitável.

Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - sorte



*Rangel Alves da Costa


A sorte é um destino favorável ou desfavorável ao indivíduo. Não se pode controlar a sorte, mas esta pode ser impulsionada a partir de determinados eventos humanos, objetivando um acontecimento proveitoso ou determinando sua própria ruína. A sorte é uma das grandes esperanças do ser humano. Não significa apenas enriquecer de dia para a noite a partir de um prêmio de loteria. Outras sortes existem que são tão proveitosas quanto prêmios de repente conquistados. Neste sentido, sorte tem aquele que possui boa vizinhança, que não tem lixo jogado por cima do muro no seu quintal nem tem sua árvore frutífera furtada depois do anoitecer. Sorte tem quem tem ao seu lado uma mulher que seja verdadeiramente companheira, fiel e abnegada pelo crescimento familiar. Sorte tem quem não precisa da política ou de políticos para sobreviver. Sorte tem quem possui um coração amante da natureza, das belas paisagens da vida, dos horizontes, da poesia das praças e jardins. Sorte tem quem não deita somente para preocupações com dívidas e mais dívidas. Sorte tem aquele que pode deitar a cabeça numa pedra e nesta adormecer e sonhar coisas boas. Sorte tem quem tem a vida, e sabe que é a única que tem e, por isso mesmo, tudo faz para que a mesma seja vivida da melhor e mais proveitosa maneira possível. Sorte tem alguém que nem eu, que é solteiro e não pensa em casar ou juntar panos de jeito nenhum.


Escritor
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

HISTÓRIAS VELHAS DE POÇO REDONDO



*Rangel Alves da Costa


Naquele Poço Redondo dos tempos passados, onde nenhum supermercado existia e sequer se falava em cartão de crédito, a compra era em bodega ou mercearia e o pagamento era em dinheiro vivo ou na confiança da anotação no velho caderninho. O vendeirim ia lá, com seu garrancho ou letra miúda, anotava o quilo de açúcar, o pacote de café, os três contos de biscoito Maria. O luxo da goiabada, ou mais luxo ainda da Alfazema Suíssa. As vendas pequenas, mas sortidas de tudo. Ou ao menos o necessário para um viver sertanejo sem luxo ou prato requintado.
Aliás, grande parte daqueles pais de família possuía seu roçado pelos arredores - em pequenas propriedades para o prazer de dizer que era dono de um terreninho - e deles trazia boa parte do alimento da estação. O milho na espiga, o feijão na casca, a melancia, a abóbora, o maxixe, o melão coalhada. O feijão de corda era sempre uma colheita especial e para depois ser debulhado nas calçadas em noites de lua grande ou nos entardeceres de brisa boa.  No terreno, coisa miúda de limite na cerca ou no arame, apenas uma casinha de barro e cipó para guardar a enxada, o machado, a foice, a estrovenga, o cesto para cortar palma, garrafas com grãos para ser plantados, pouco ou quase nada mais que isso. Um velho arado, talvez.
Ao lado da casinha o pequeno curral. Se alguma cria havia, também era muito pouca. Três ou quatro vaquinhas para chiqueirar e pela manhã fazer esguichar o peito da vaca com o leite bom. Leite que muitas vezes já esguichava por cima de um algum prato de estanho com farinha seca. Ou mesmo uma caneca maior com a farinha ao fundo. Tudo colocado rente ao peito da vaca e a descida do líquido espumante e quente. Uma sustança garantida naquelas primeiras horas do dia. O leite que restava era levado para ser cozido em casa e depois utilizado no mingau, na papa, ou para molhar o cuscuz ou ser misturado com a abóbora amassada. Doce de leite, queijo, coalhada ou para a venda pela vizinhança, só mesmo quando a estação era boa e a cria leiteira produzia em maior quantidade.
Quintais de galinhas, de ovos de capoeira, ou até um chiqueiro de porco mais adiante, com bicho sustentado pela lavagem recolhida nas vizinhanças depois dos almoços. Na cidade mesmo, acaso o sertanejo necessitasse de algum alimento ou de alguma outra utilidade para o lar, as opções eram os mistos de mercearia e bodega de Dom, a de Messiinha, a de Ermerindo, a de Zé Preto, de Seu João Aleijado, de Chico Bilato, de Lourenço e algumas outras espalhadas pela cidade. Algumas vendiam somente coisas de despensas, como o açúcar, o café, a farinha, o arroz, o óleo de comida, e coisas assim. Outras sortiam mais os produtos ofertados.
Messiinha, por exemplo, vendia também bebida e até querosene. Já Dom se esmerava na aguardente nos quilos disso e daquilo. Raras eram as vendas que não possuíam um rolo de fumo logo num canto de balcão. Mas poucas eram as que possuíam fardos de carne seca e jabá. Numa época onde o charque era de preço baixo e acessível a todos, bastava o sertanejo chegar ao pé do balcão, experimentar uma lasquinha e pedir um corte bom. O almoço ou janta já estava garantido. Em época de Semana Santa, até mesmo bacalhau era encontrado a preço bom. Tais produtos, contudo, eram exclusividades de algumas mercearias, pois as demais se contentavam em oferecer o básico da alimentação.
Muitos vendeirins deixavam o arroz, a farinha e o feijão em sacos, e só pesavam na presença do comprador. A velha balança já estava por perto para a medida certa. Pelas prateleiras, as latas de biscoitos, as cajuínas, os vinhos de jurubeba, os talcos de pó, as alfazemas, novidades que sempre chamavam a atenção. Dom nunca estava no seu balcão, mas seu papagaio, traquina e falador, logo gritava se alguém aparecesse. Na maioria das vezes, toda a compra era anotada no caderninho. Pela seriedade do povo daquela época, quase nenhum prejuízo era causado ao pequeno comerciante. Outras vezes, bastava um recado chegado por um meninote, e a mercadoria era entregue sem medo. A confiança era grande e o compromisso acertado ao final do mês. Somente assim outra folha era aberta no velho caderno.
Quem quisesse comprar pano ou roupa feita, o endereço era num dos comércios das irmãs Marques: Conceição, Izabel ou Mãezinha. Calça Lee, camisa volta-ao-mundo, vestido estampado, pano enfestado, calçola, tudo. Cerveja era coisa rara, mas existente. Na venda de Ermerindo, por exemplo, existia uma geladeira a gás (com a porta amarrada de corda) e também a oferta de cerveja mais ou menos gelada. Somente Brahma ou Antarctica. Ali também a sinuca e o bilhar. Mas nada igual ao salão de Angelino, que além de ser uma casa de jogos com bilhar e mesas de carteado, era o local onde grande parte dos homens se reunia para saber de tudo o que se passava na cidade e região. Causos, proseados, fofocas e converseiros políticos.
Após a metade dos anos 70, com a chegada da eletricidade e o surgimento das primeiras geladeiras elétricas, logo também surgiram os geladinhos peito de véia. Era uma febre. E quase todo mundo pelas calçadas com um peito de véia na boca. Tempos, tempos. Histórias, histórias...


Escritor
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Lá no meu sertão...


Sertão - Raiz Vaqueira!



Frio (Poesia)



Frio

Frio
no corpo inteiro
e tanto frio
tudo queimando
muito calor
e tanto frio

o corpo quente
assim distante
de outro corpo
de um amor
de arrepio
só sente frio.

Rangel Alves da Costa