SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 19 de dezembro de 2017

ABOIO E TOADA


*Rangel Alves da Costa


Além do couro e do gibão, do chapéu e da perneira, do peitoril e da chibata, o mundo sertão possui no canto do homem da terra uma de suas maiores expressões na sua lida de gado, na vaqueirama, na pega-de-boi, na cavalgada, no meio dos carrascais em busca de rês valente. Quando a voz sertaneja ecoa seu canto festivo ou dolente, sua canção rimada cheia de improviso ou historiada, então aquele mundo se enche de um encantamento sentido até pelo bicho.
O bicho ouve e traduz a voz do vaqueiro. Este possui um canto certo para determinadas ocasiões. Cantigas quase faladas, canções alongadas e expressando feitos da vida de gado, gritos e singelas palavras que traduzem o diálogo da terra. E não há quem não se encante quando, mesmo ao longe, a voz vaqueira ecoa o seu o aboio ou a sua toada. No meio do mato então. No meio da caatinga, entre cipós e pontas de espinho, o canto sertanejo se torna em saga de todo cotidiano e de toda luta.
Não há como imaginar o sertão, suas distâncias e suas caatingas, seus currais e suas estradas, sem considerar os cantos da vaqueirama como vozes ecoando por todo lugar. Verdade que noutros idos eram em maior profusão e mais cheios de autenticidade, pois os vaqueiros de então eram muito mais enraizados na terra e apaixonados por suas lides. As duplas profissionais de aboiadores e toadeiros também eram mais fidedignas e reveladoras da legítima vida de gado em cada canto.  Mas nada que tenha modificado muito o compasso dos aboios e das toadas de agora.
Atualmente há um interesse crescente pela vida de gado, principalmente vaquejadas. Todo final de semana há uma vaquejada em algum lugar do sertão. E mesmo mais de uma dentro do mesmo município. Entretanto, poucos são os verdadeiros vaqueiros - aqueles nobres e destemidos sertanejos que encourados se lançam nos labirintos catingueiros atrás do rabo do boi brabo, afoito e corredor - e muito mais uma plateia que acompanha os festejos como se numa festa qualquer estivesse. Exemplo maior são as roupas chiques e os perfumes em meio ao cheiro bruto do gado e do cavalo.
Noutra ponta, também não se costuma ouvir aboios e toadas em pé de balcão como acontecia antigamente. Ora, assim que fazia o trabalho do dia, a primeira coisa desejada pelo vaqueiro era tomar uma talagada de pinga da boa, uma casca de pau de raiz, daqueles que o santo bebe um pouquinho e estremece todo. Chegado ao pé do balcão, depois de duas relepadas na fita do copo, logo a inspiração chegava em forma de canto, em forma de aboio e toada. Hoje já não se avista tanto o cavalo numa porta de botequim e o seu dono lá dentro virando pinga e cantando a vida.
O que se observa atualmente é a profissionalização tanto do aboiador como do toadeiro. Nas festas de vaquejada e nas cavalgadas, por exemplo, as duplas se apresentam em palcos ou em cima de carros de som. São nomes conhecidos no mundo sertanejo e por isso mesmo contratados para os eventos. Já os da terra vão ficando ao largo do esquecimento e os seus cantos resguardados para as vaqueiramas solitárias ou entre poucos amigos. Mas nada substitui a canção boiadeira ao largo do estradão, no meio do mato, nos escondidos das caatingas.
Há, porém, que distinguir entre o aboio e a toada, ainda que as duas sejam canções dolentes do homem da terra sertão. Vaqueiro, aboiador, toadeiro, cantador de vaqueirama, tudo num só canto sertão. Mas o aboio não é toada e nem toada é aboio. O aboio é cantiga de mato, saída da voz vaqueira enquanto vaqueja o gado. É lenta, compassada, como se pela canção dolente o vaqueiro estivesse dialogando com o bicho. Ê boi, ê boi valente!
Já a toada é a canção do vaqueiro ou do homem da terra em meio à festança, antes ou após a pega-de-boi, no beiral do balcão enquanto entorna pinga ou nos palcos das vaquejadas. É geralmente um canto triste, uma canção nostálgica, rimando na letra e versos histórias sertões adentro, podendo ser entoada em dupla ou não. Na toada, de improviso ou não, a homenagem à morte do vaqueiro, a homenagem ao boi ligeiro, às desditas do sertanejo em meio às angústias e sofrimentos.
Geno Vito, por exemplo, é erroneamente chamado de aboiador. Mas não. Ele é cantador de toada, é toadeiro, e não aboiador. Sua arte da cantoria é expressa em versos rimados, em letras, nas festanças ou nas vaquejadas, e não propriamente perante as lides de gado. Já o canto surgido no meio do mato, por cima dos cavalos e nas lides da vaqueirama, ou pelos estradões enquanto a boiada é tangida, sai da voz do aboiador. Ê gado ê, ô...


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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