Canto da espera
Assim que o meu amor quiser
deixarei de ser triste e solitário
deixarei de colher a aflição
sairei desse lugar e dessa nuvem
sairei das tempestades e dos vendavais
assim que o meu amor disser
Assim que o meu amor quiser
voltarei a amar e sorrir
voltarei ao bom sentimento sentir
direi para o mundo que existo
direi que da paz não desisto
assim que o meu amor vier
Assim que o meu amor quiser
assim que o meu amor chegar
encontrará outro este lugar
com um sol e um jardim
com a vida renascida em mim
pois o amor vai chegar
e que entre meu bom Deus!
Rangel Alves da Costa
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
sábado, 26 de junho de 2010
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 27
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 27
Rangel Alves da Costa*
Logo ao amanhecer, quando a chuvarada já havia se dissipado, mesmo que ainda continuasse caindo um chuvisco bem fraquinho, o Padre Josefo chegou todo esbaforido à casa de Lucas. Segundo ele, não houve jeito para o carro dar partida, mas como passou a noite inteira preocupado com a sorte do barracão diante da tempestade, resolveu caminhar para chegar até ali. Não demorou muito e parte dos meninos chegava em comitiva, cada um com o seu guarda-chuva, agora mais aliviados já que de longe perceberam que o barracão ainda estava em pé.
Enquanto os meninos entravam no barracão para ver se alguma coisa havia desabado por dentro, Lucas chamou o sacerdote para um canto e começou a falar sobre os fatos ocorridos naquela noite ao entrar pela porta que estava entreaberta:
- As portas, como todos sabem, não apresentam grande segurança e talvez eu tenha esquecido de fechar com cuidado, mas o fato é que, vindo aqui ontem quase duas horas da manhã verificar como andava a situação, encontrei uma delas entreaberta e assim que entrei percebi que alguns animais tinham entrado para se proteger da chuva e estavam espalhados por aí, deitados no chão. E com certeza nenhum desses animais forçaria abrir a porta, disso sei muito bem. O vento também, por mais que soprasse forte, não tinha como abri-la. Ou derrubava a frente toda ou nada, mas abrir exclusivamente a porta não, também sei disso. O problema maior, pode acreditar Padre Josefo, foi quando entrei e olhei ao fundo do barracão e encontrei uma luz em forma de gente, com os mesmos contornos de uma pessoa, logo após aquela mesinha, como se estivesse em pé atrás dela. E a luz, que já não era forte, foi enfraquecendo assim que comecei a mirar. Isso é que não estou entendendo bem. Assombração não seria, pois dizem que estes fenômenos não existem onde animais estão pacificamente descansando. Se fosse coisa do outro mundo, certamente que eles estariam agitados, andando de um lado para o outro, fazendo barulho. O que terá sido meu Deus? – Acabou indagando Lucas, após o longo relato.
E foi quando o padre, colocando a mão no seu ombro, começou a falar:
- Você disse-o bem, meu rapaz. O que terá sido meu Deus? Nesta indagação talvez esteja a resposta para toda dúvida. O que terá sido meu Deus? Pois acredite rapaz, você presenciou a luz do espírito divino e aquela luz que estava ali diante da mesinha e diante os animais pacificamente descansando era a presença de Deus, a presença do espírito divino iluminado. Que bom, que glória, que graça! Você, meu bom Lucas, também é uma pessoa iluminada. E talvez você não tenha visto diante da surpresa maior daquele luzir especial, mas outras luzes também deveriam estar por aqui, que eram as luzes dos muitos anjos alegres que estavam em festa com a presença divina. Mas eles ainda estão por aqui em todos os lugares, ao nosso lado e acima de nós, pois os anjos sempre nos acompanham e fazem guarda nos locais onde a presença de Deus é aceita de coração, como ocorre neste humilde barracão.
- E quais os propósitos de sua luz estar aqui, Padre Josefo? – Indagou Lucas.
- Infelizmente não podemos e nem sabemos dizer com palavras os propósitos de Deus, mas há uma série de fatores que podemos relacionar para tentar compreender. Em primeiro lugar, a porta não se abriu, foi aberta para que os animais entrassem; em segundo lugar, os animais que dormiam profundamente num lugar até então estranho para eles é sinal de que houve alguma intercessão para tal; em terceiro lugar, a sua chegada aqui naquela hora da madrugada não foi em vão, mas sim uma condução para que sentisse de perto que este local, esta pequena construção, e principalmente você, todos estão abençoados. Por último, outros propósitos existem que nem podemos supor e só o tempo poderá nos esclarecer e mostrar. Mas em tudo, Lucas, pode acreditar, você viveu realmente uma experiência divina e dificilmente pode se citar, em todo o resto do mundo, pessoas que viveram esta experiência. Por isso mesmo, meu filho, digo-lhe que ore e ore muito, agradecendo por tudo que teve a oportunidade de presenciar e pedindo que os reais propósitos divinos sejam os melhores possíveis – Respondeu o Padre Josefo, realmente encantado com o relato de Lucas e o desfecho daquela história.
À tarde os meninos voltaram para dar uma limpeza geral no barracão. Retornaram para suas casas já perto da noite escurecer. Assim que ficou sozinho novamente, Lucas se descobriu completamente cansado e com muito sono da noite passada mal-dormida, mesmo assim fez suas orações e sentou um pouco para ler, aleatoriamente, passagens da bíblia. Dormiu pesadamente ali mesmo na poltrona.
Com um sono tão pesado não pôde perceber os estranhos que chegaram tarde da noite para derrubar parte lateral do barracão, revirar bancos e a mesinha e deixar avisos por toda parte.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Logo ao amanhecer, quando a chuvarada já havia se dissipado, mesmo que ainda continuasse caindo um chuvisco bem fraquinho, o Padre Josefo chegou todo esbaforido à casa de Lucas. Segundo ele, não houve jeito para o carro dar partida, mas como passou a noite inteira preocupado com a sorte do barracão diante da tempestade, resolveu caminhar para chegar até ali. Não demorou muito e parte dos meninos chegava em comitiva, cada um com o seu guarda-chuva, agora mais aliviados já que de longe perceberam que o barracão ainda estava em pé.
Enquanto os meninos entravam no barracão para ver se alguma coisa havia desabado por dentro, Lucas chamou o sacerdote para um canto e começou a falar sobre os fatos ocorridos naquela noite ao entrar pela porta que estava entreaberta:
- As portas, como todos sabem, não apresentam grande segurança e talvez eu tenha esquecido de fechar com cuidado, mas o fato é que, vindo aqui ontem quase duas horas da manhã verificar como andava a situação, encontrei uma delas entreaberta e assim que entrei percebi que alguns animais tinham entrado para se proteger da chuva e estavam espalhados por aí, deitados no chão. E com certeza nenhum desses animais forçaria abrir a porta, disso sei muito bem. O vento também, por mais que soprasse forte, não tinha como abri-la. Ou derrubava a frente toda ou nada, mas abrir exclusivamente a porta não, também sei disso. O problema maior, pode acreditar Padre Josefo, foi quando entrei e olhei ao fundo do barracão e encontrei uma luz em forma de gente, com os mesmos contornos de uma pessoa, logo após aquela mesinha, como se estivesse em pé atrás dela. E a luz, que já não era forte, foi enfraquecendo assim que comecei a mirar. Isso é que não estou entendendo bem. Assombração não seria, pois dizem que estes fenômenos não existem onde animais estão pacificamente descansando. Se fosse coisa do outro mundo, certamente que eles estariam agitados, andando de um lado para o outro, fazendo barulho. O que terá sido meu Deus? – Acabou indagando Lucas, após o longo relato.
E foi quando o padre, colocando a mão no seu ombro, começou a falar:
- Você disse-o bem, meu rapaz. O que terá sido meu Deus? Nesta indagação talvez esteja a resposta para toda dúvida. O que terá sido meu Deus? Pois acredite rapaz, você presenciou a luz do espírito divino e aquela luz que estava ali diante da mesinha e diante os animais pacificamente descansando era a presença de Deus, a presença do espírito divino iluminado. Que bom, que glória, que graça! Você, meu bom Lucas, também é uma pessoa iluminada. E talvez você não tenha visto diante da surpresa maior daquele luzir especial, mas outras luzes também deveriam estar por aqui, que eram as luzes dos muitos anjos alegres que estavam em festa com a presença divina. Mas eles ainda estão por aqui em todos os lugares, ao nosso lado e acima de nós, pois os anjos sempre nos acompanham e fazem guarda nos locais onde a presença de Deus é aceita de coração, como ocorre neste humilde barracão.
- E quais os propósitos de sua luz estar aqui, Padre Josefo? – Indagou Lucas.
- Infelizmente não podemos e nem sabemos dizer com palavras os propósitos de Deus, mas há uma série de fatores que podemos relacionar para tentar compreender. Em primeiro lugar, a porta não se abriu, foi aberta para que os animais entrassem; em segundo lugar, os animais que dormiam profundamente num lugar até então estranho para eles é sinal de que houve alguma intercessão para tal; em terceiro lugar, a sua chegada aqui naquela hora da madrugada não foi em vão, mas sim uma condução para que sentisse de perto que este local, esta pequena construção, e principalmente você, todos estão abençoados. Por último, outros propósitos existem que nem podemos supor e só o tempo poderá nos esclarecer e mostrar. Mas em tudo, Lucas, pode acreditar, você viveu realmente uma experiência divina e dificilmente pode se citar, em todo o resto do mundo, pessoas que viveram esta experiência. Por isso mesmo, meu filho, digo-lhe que ore e ore muito, agradecendo por tudo que teve a oportunidade de presenciar e pedindo que os reais propósitos divinos sejam os melhores possíveis – Respondeu o Padre Josefo, realmente encantado com o relato de Lucas e o desfecho daquela história.
À tarde os meninos voltaram para dar uma limpeza geral no barracão. Retornaram para suas casas já perto da noite escurecer. Assim que ficou sozinho novamente, Lucas se descobriu completamente cansado e com muito sono da noite passada mal-dormida, mesmo assim fez suas orações e sentou um pouco para ler, aleatoriamente, passagens da bíblia. Dormiu pesadamente ali mesmo na poltrona.
Com um sono tão pesado não pôde perceber os estranhos que chegaram tarde da noite para derrubar parte lateral do barracão, revirar bancos e a mesinha e deixar avisos por toda parte.
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sexta-feira, 25 de junho de 2010
Cartinha de amor caboclo (Poesia)
Cartinha de amor caboclo
Prosa e verso no tempo
refletindo o momento
no coração do menino
que faltava anel no dedo
mas sobrava sentimento
Foi num dia assim
olhando o céu estrelado
na ponta tremida do lápis
que disse tudo ao seu modo
ao seu amor amado
trabalhando as palavras
como se molda o barro
como se usa o cinzel
como se laça o destino
e ficou bonito que só
que ela leu e se encantou
quis sorrir e chorou
com letras dizendo assim
Se tira da flor o perfume
se tira da rosa o encanto
se tira da noite o lume
se tira de tudo um tanto
e soma na tua beleza
me tira da solidão
me espanta dessa tristeza.
Rangel Alves da Costa
Prosa e verso no tempo
refletindo o momento
no coração do menino
que faltava anel no dedo
mas sobrava sentimento
Foi num dia assim
olhando o céu estrelado
na ponta tremida do lápis
que disse tudo ao seu modo
ao seu amor amado
trabalhando as palavras
como se molda o barro
como se usa o cinzel
como se laça o destino
e ficou bonito que só
que ela leu e se encantou
quis sorrir e chorou
com letras dizendo assim
Se tira da flor o perfume
se tira da rosa o encanto
se tira da noite o lume
se tira de tudo um tanto
e soma na tua beleza
me tira da solidão
me espanta dessa tristeza.
Rangel Alves da Costa
TARDEZINHA, QUASE NOITE... (Crônica)
TARDEZINHA, QUASE NOITE...
Rangel Alves da Costa*
Com a maioria das pessoas é assim: dormiu bem, teve bons sonhos, amanheceu feliz, cumpriu seu destino no dia como deve ser, enfim, nada que reclamar da vida, até que chega à tardinha, quase anoitecer, quando tudo começa a desandar em tudo que não responda por conta própria: alma, espírito, coração e mente.
Inegavelmente que todos os momentos do dia têm os seus encantos próprios, contudo quando o sol vai perdendo força, brilho e queimor, quando ele desaba para o lado oeste para se despedir e por trás das nuvens surge um amarelo-avermelhado de fogo crepitando, é que começam a surgir os mistérios crepusculares e as cabeças parecem abandonar os corpos e seguirem nos momentos mágicos e doloridos que virão.
Nessas horas do dia, os passos parecem já ter destino certo, e não adianta querer inventar outros caminhos. Está na mente, está na alma, está em tudo que deseja seguir para o descampado ver o entardecer, para a janela mirando aquele horizonte entristecido, para a praça, para a rua, para o terraço, para o quintal, para qualquer fresta onde se possa enxergar a tristeza. É isso mesmo, enxergar a tristeza, pois automaticamente os sentidos avisam que já é tardezinha, quase anoitecer, e que já é tempo de sofrer.
Nessas tardezinhas, quase noite, quem tem sorte sofre mais bonito, mais romântico e poético. Dizem que o entardecer numa praia é encantador, a tristeza que ele traz também; quando o último vermelho do sol parece que vai mergulhando nas águas ou se avista uma embarcação que vem bem longe porque é também de retornar, os olhos não sabem mais divisar aquelas cenas e mergulham também no mesmo leito agitado. E o vento que sopra nos coqueirais avisa que a noite já vem, e por certo virão também os vendavais trazendo outras e tantas recordações.
Os motivos que fazem do entardecer quase noite instantes que permitem aflorar tantos mistérios na alma talvez que continuem inexplicáveis. Os próprios indivíduos não sabem explicar as mudanças que ocorrem. Talvez seja a cor indecisa, entre a luz e a sombra, que chama as saudades adormecidas; talvez seja o vento soprando de um modo diferente, mais ligeiro, trazendo consigo tantas recordações; talvez sejam os pássaros que voam para se recolher aos seus ninhos e transmitem a impressão de que a vida é também recolhimento; talvez sejam as nuvens cinzentas que anunciam as tempestades; talvez seja o voo solitário da gaivota, e talvez seja essa solidão.
Assim, sejam na janela, em cima da montanha, na praia ou em qualquer descampado, esses instantes mágicos da tardezinha quase anoitecer sempre produzem as sensações de angústia, de tristeza, de desilusão, de abandono, de solidão, de vontade de correr e sumir, de voar e partir, de reencontrar algo que parece muito distante ou perdido. E como consequencia chegarão as lágrimas, as tantas incertezas, os medos, os desesperos, os gestos desesperados, os gritos. Noutros chegam apenas o silêncio, o cálice e o gole.
Pessoas existem que simplesmente procuram fugir desses instantes do dia. Assim que a tarde começa a avançar se trancam nos seus quartos e tomam remédios para adormecer. Imaginam que ao acordar não haverá mais perigo de ter de enfrentar os mistérios das horas da aflição. Assim, medrosos com a própria realidade, se enfiam nos lençóis e começam a ter pesadelos em pleno dia. E tudo vem redobrado nas dores, nas angústias e aflições.
Quando levantam já é noite. E quando olham pra cima há uma lua imensa pedindo que lembre de alguém.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Com a maioria das pessoas é assim: dormiu bem, teve bons sonhos, amanheceu feliz, cumpriu seu destino no dia como deve ser, enfim, nada que reclamar da vida, até que chega à tardinha, quase anoitecer, quando tudo começa a desandar em tudo que não responda por conta própria: alma, espírito, coração e mente.
Inegavelmente que todos os momentos do dia têm os seus encantos próprios, contudo quando o sol vai perdendo força, brilho e queimor, quando ele desaba para o lado oeste para se despedir e por trás das nuvens surge um amarelo-avermelhado de fogo crepitando, é que começam a surgir os mistérios crepusculares e as cabeças parecem abandonar os corpos e seguirem nos momentos mágicos e doloridos que virão.
Nessas horas do dia, os passos parecem já ter destino certo, e não adianta querer inventar outros caminhos. Está na mente, está na alma, está em tudo que deseja seguir para o descampado ver o entardecer, para a janela mirando aquele horizonte entristecido, para a praça, para a rua, para o terraço, para o quintal, para qualquer fresta onde se possa enxergar a tristeza. É isso mesmo, enxergar a tristeza, pois automaticamente os sentidos avisam que já é tardezinha, quase anoitecer, e que já é tempo de sofrer.
Nessas tardezinhas, quase noite, quem tem sorte sofre mais bonito, mais romântico e poético. Dizem que o entardecer numa praia é encantador, a tristeza que ele traz também; quando o último vermelho do sol parece que vai mergulhando nas águas ou se avista uma embarcação que vem bem longe porque é também de retornar, os olhos não sabem mais divisar aquelas cenas e mergulham também no mesmo leito agitado. E o vento que sopra nos coqueirais avisa que a noite já vem, e por certo virão também os vendavais trazendo outras e tantas recordações.
Os motivos que fazem do entardecer quase noite instantes que permitem aflorar tantos mistérios na alma talvez que continuem inexplicáveis. Os próprios indivíduos não sabem explicar as mudanças que ocorrem. Talvez seja a cor indecisa, entre a luz e a sombra, que chama as saudades adormecidas; talvez seja o vento soprando de um modo diferente, mais ligeiro, trazendo consigo tantas recordações; talvez sejam os pássaros que voam para se recolher aos seus ninhos e transmitem a impressão de que a vida é também recolhimento; talvez sejam as nuvens cinzentas que anunciam as tempestades; talvez seja o voo solitário da gaivota, e talvez seja essa solidão.
Assim, sejam na janela, em cima da montanha, na praia ou em qualquer descampado, esses instantes mágicos da tardezinha quase anoitecer sempre produzem as sensações de angústia, de tristeza, de desilusão, de abandono, de solidão, de vontade de correr e sumir, de voar e partir, de reencontrar algo que parece muito distante ou perdido. E como consequencia chegarão as lágrimas, as tantas incertezas, os medos, os desesperos, os gestos desesperados, os gritos. Noutros chegam apenas o silêncio, o cálice e o gole.
Pessoas existem que simplesmente procuram fugir desses instantes do dia. Assim que a tarde começa a avançar se trancam nos seus quartos e tomam remédios para adormecer. Imaginam que ao acordar não haverá mais perigo de ter de enfrentar os mistérios das horas da aflição. Assim, medrosos com a própria realidade, se enfiam nos lençóis e começam a ter pesadelos em pleno dia. E tudo vem redobrado nas dores, nas angústias e aflições.
Quando levantam já é noite. E quando olham pra cima há uma lua imensa pedindo que lembre de alguém.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 26
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 26
Rangel Alves da Costa*
Nas suas palavras, Lucas disse ainda da imensa alegria em ter recebido todas aquelas pessoas naquele humilde lugar e acentuou bem que um dos principais objetivos na construção daquele barracão era também possibilitar a todos que ainda não sabiam ler nem escrever uma oportunidade de receberem aprendizagem, pois ele mesmo teria a incumbência de ensinar a cada um, seja de que idade fosse, a magia e o encantamento que estão por trás das palavras.
Terminada aquela pequena programação e quando se esperava que todos os visitantes retornariam para suas casas, o que se viu foi que grande parte dos que estavam ali resolveram ficar por mais tempo, ora se oferecendo para ajudar no que fosse preciso, ora apreciando a natureza ao redor ou sentados em grupos pelo chão ou dentro do barracão jogando conversa ou apreciando uma bebida com algum alimento. Somente quando começou a escurecer é que as últimas pessoas deixaram de vez os arredores da rústica construção.
Na casa de Lucas, após a cerimônia religiosa e os testemunhos proferidos, aos poucos foram se reunindo o próprio Lucas, o Padre Josefo e os meninos. Estavam ali porque era impossível conversar sobre os acontecimentos daquela manhã no barracão, vez que completamente tomado pelos visitantes e curiosos. Mas tanto ver o que ali, se nada mais existia do que quatro paredes arranjadas e alguns tamboretes de três pernas? Perguntava Paulinho aos amigos. Estão vendo no quase nada o tudo que nunca imaginaram existir, sintetizou o sacerdote. E ao final concluíram que aquela manhã havia sido um grande sucesso em todos os aspectos, mesmo com as exigências absurdas da prefeitura e da delegacia.
Quando Lucas trancou as portas do barracão já havia escurecido. Todos já haviam ido embora e estava sozinho nos últimos afazeres do dia. O tempo havia se modificado de repente. O dia inteiro que foi de sol e nuvens azuis pelo céu, a partir do entardecer começou a ter feições de que iria chover. Quanto o vento começou a soprar mais forte, zunindo pelos descampados e espalhando folhas secas pelo ar, não durou muito e a escuridão do céu veio carregada de nuvens pesadas de chuvas. E de repente ouvia-se o barulho da chuva caindo bem forte, intensa e acompanhada de vento assustador.
Na varanda de sua casa, mesmo estando prestes a ficar todo molhado, Lucas permanecia em pé com uma xícara de café quente na mão. Enquanto sorvia, com o rosto molhado pelos pingos que chegavam até ali, ficava olhando para o barracão e se perguntando se suportaria aquela verdadeira tempestade. A chuva forte não causava tanta preocupação; o problema era saber se a frágil construção de ripas e palhas iria suportar a força da ventania. Bastava que a ventania começasse a mover um pouco da cobertura também de palhas e num instante tudo iria pelos ares. Aquele, sem dúvidas, era um teste de arrepiar, pensava.
Uma hora da manhã e a chuvarada ainda continuava incessante. Agora fazia frio e o vento não parava de soprar, só que agora com menos força. Lá fora a escuridão era de não enxergar palmo adiante, de não dar um passo sem tropeçar nas pedras e sem afundar nas poças d'água. Outros bichos não, que estavam recolhidos em suas tocas, mas cobras certamente que boiavam pelas águas rasas à espreita de qualquer presa. Nessas horas adoravam um calcanhar desprevenido.
Duas horas da manhã e Lucas ainda ali, sem sono e preocupado com a situação do barracão diante daquela molhação toda. Ainda bem que não estava acompanhada de raios e trovões, bastava a ventania, ficava imaginando. Foi quando decidiu ir deitar assim mesmo, sob pena de na manhã seguinte estar todo indisposto para as muitas lides que tinha de enfrentar. Mas não iria dormir, talvez até porque não conseguisse, se não fosse primeiro dar uma olhada mais de perto no barracão.
Calçou uma galocha, que é uma espécie de botina de borracha que vai até próximo ao joelho, pegou um guarda-chuva e uma lanterna e foi seguindo cuidadosamente até a construção, onde começou a iluminar de cima abaixo nas partes laterais para ver se tudo ainda estava em pé. Tudo normal, sem maiores estragos, pensou. Nada que não possa ser reparado depois sem maiores problemas. Contudo, ao iluminar a parte frontal, na entrada, percebeu que uma das portas estava entreaberta.
Não podia ser, pois tinha certeza que havia fechado tudo antes de ir para casa. Ficou intrigado com a descoberta. Talvez tivesse sido a força do vento ou até mesmo que ele tivesse esquecido de fechar mais cuidadosamente aquela porta. De qualquer forma, já que estava ali, resolveu entrar para ver como as coisas estavam por dentro. E assim que entrou percebeu uma luz em forma de gente bem atrás da mesinha que serviu de altar, e animais deitados, se protegendo da chuva, por todo o chão do barracão.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Nas suas palavras, Lucas disse ainda da imensa alegria em ter recebido todas aquelas pessoas naquele humilde lugar e acentuou bem que um dos principais objetivos na construção daquele barracão era também possibilitar a todos que ainda não sabiam ler nem escrever uma oportunidade de receberem aprendizagem, pois ele mesmo teria a incumbência de ensinar a cada um, seja de que idade fosse, a magia e o encantamento que estão por trás das palavras.
Terminada aquela pequena programação e quando se esperava que todos os visitantes retornariam para suas casas, o que se viu foi que grande parte dos que estavam ali resolveram ficar por mais tempo, ora se oferecendo para ajudar no que fosse preciso, ora apreciando a natureza ao redor ou sentados em grupos pelo chão ou dentro do barracão jogando conversa ou apreciando uma bebida com algum alimento. Somente quando começou a escurecer é que as últimas pessoas deixaram de vez os arredores da rústica construção.
Na casa de Lucas, após a cerimônia religiosa e os testemunhos proferidos, aos poucos foram se reunindo o próprio Lucas, o Padre Josefo e os meninos. Estavam ali porque era impossível conversar sobre os acontecimentos daquela manhã no barracão, vez que completamente tomado pelos visitantes e curiosos. Mas tanto ver o que ali, se nada mais existia do que quatro paredes arranjadas e alguns tamboretes de três pernas? Perguntava Paulinho aos amigos. Estão vendo no quase nada o tudo que nunca imaginaram existir, sintetizou o sacerdote. E ao final concluíram que aquela manhã havia sido um grande sucesso em todos os aspectos, mesmo com as exigências absurdas da prefeitura e da delegacia.
Quando Lucas trancou as portas do barracão já havia escurecido. Todos já haviam ido embora e estava sozinho nos últimos afazeres do dia. O tempo havia se modificado de repente. O dia inteiro que foi de sol e nuvens azuis pelo céu, a partir do entardecer começou a ter feições de que iria chover. Quanto o vento começou a soprar mais forte, zunindo pelos descampados e espalhando folhas secas pelo ar, não durou muito e a escuridão do céu veio carregada de nuvens pesadas de chuvas. E de repente ouvia-se o barulho da chuva caindo bem forte, intensa e acompanhada de vento assustador.
Na varanda de sua casa, mesmo estando prestes a ficar todo molhado, Lucas permanecia em pé com uma xícara de café quente na mão. Enquanto sorvia, com o rosto molhado pelos pingos que chegavam até ali, ficava olhando para o barracão e se perguntando se suportaria aquela verdadeira tempestade. A chuva forte não causava tanta preocupação; o problema era saber se a frágil construção de ripas e palhas iria suportar a força da ventania. Bastava que a ventania começasse a mover um pouco da cobertura também de palhas e num instante tudo iria pelos ares. Aquele, sem dúvidas, era um teste de arrepiar, pensava.
Uma hora da manhã e a chuvarada ainda continuava incessante. Agora fazia frio e o vento não parava de soprar, só que agora com menos força. Lá fora a escuridão era de não enxergar palmo adiante, de não dar um passo sem tropeçar nas pedras e sem afundar nas poças d'água. Outros bichos não, que estavam recolhidos em suas tocas, mas cobras certamente que boiavam pelas águas rasas à espreita de qualquer presa. Nessas horas adoravam um calcanhar desprevenido.
Duas horas da manhã e Lucas ainda ali, sem sono e preocupado com a situação do barracão diante daquela molhação toda. Ainda bem que não estava acompanhada de raios e trovões, bastava a ventania, ficava imaginando. Foi quando decidiu ir deitar assim mesmo, sob pena de na manhã seguinte estar todo indisposto para as muitas lides que tinha de enfrentar. Mas não iria dormir, talvez até porque não conseguisse, se não fosse primeiro dar uma olhada mais de perto no barracão.
Calçou uma galocha, que é uma espécie de botina de borracha que vai até próximo ao joelho, pegou um guarda-chuva e uma lanterna e foi seguindo cuidadosamente até a construção, onde começou a iluminar de cima abaixo nas partes laterais para ver se tudo ainda estava em pé. Tudo normal, sem maiores estragos, pensou. Nada que não possa ser reparado depois sem maiores problemas. Contudo, ao iluminar a parte frontal, na entrada, percebeu que uma das portas estava entreaberta.
Não podia ser, pois tinha certeza que havia fechado tudo antes de ir para casa. Ficou intrigado com a descoberta. Talvez tivesse sido a força do vento ou até mesmo que ele tivesse esquecido de fechar mais cuidadosamente aquela porta. De qualquer forma, já que estava ali, resolveu entrar para ver como as coisas estavam por dentro. E assim que entrou percebeu uma luz em forma de gente bem atrás da mesinha que serviu de altar, e animais deitados, se protegendo da chuva, por todo o chão do barracão.
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quinta-feira, 24 de junho de 2010
FLOR DO CAMPO (Crônica)
FLOR DO CAMPO
Rangel Alves da Costa*
A minha namorada é linda e bela, é meiguice e formosura, cheira a perfume do mato, cheira a manhã perfumada, e quando abro a porteira me vejo num jardim sertanejo colhendo a flor do campo.
Minha namorada é flor no sertão queimado, seco e esturricado. Acostumada ao sol, sua pele cabocla parece suave verniz das estrelas, parece cor do barro levemente queimado na fogueira da paixão. E quando estou perto dela, quando seu corpo toca em mim, não sei mais a cor que vejo, se existe cor no desejo.
Quando a porteira solta um gemido para abrir e minha namorada me enxerga ao longe, sinto que sorri um sorriso de sol, sinto que olha um olhar de mar, e ajeita o seu corpo de horizonte para o meu olhar passear. E vem caminhando assim, num jeito de não chegar, só pra ver se desando a correr e no seu caminho me perder.
Levo na mão uma flor escondida, flor bonita igual a ela, e nem sei se açucena, rosa, violeta ou crisântemo, só sei que cheira ao seu corpo e tento esconder a flor pra não perder o encanto, e sem querer seguro a pétala e coloco no seu cabelo e não sei mais o que dizer, se é belo o meu jardim ou se ela é primavera.
Nunca vi minha namorada triste, um dia só vi meu amor entristecer. Se entristeceu por besteira só porque chuva caiu, só porque entardeceu, só porque anoiteceu, só porque lua saiu, só porque era poeta. Era sim. Minha namorada nunca escreveu um poema, mas um dia olhou o mundo, mirou bem o horizonte e falou pra natureza: e não agradecemos o amor que nos é amado!
Ela não sabia disso, mas construía poesia no olhar, no sentir, no falar, no andar, no vestir. No olhar porque é profundo igual sentimento; no sentir porque o encanto e a compreensão pediram licença e fizeram moradia; no falar porque a brisa vem silenciosamente e o vento sopra com cuidado; no andar porque é nuvem passeando, onda leve jorrando, raio de sol brilhando; no vestir porque o céu de chita é mais bonito, porque as cores da natureza estão ali. Tudo é assim, lindo e belo na sua poesia.
Um dia vi o meu amor se banhando no regato e me banhei de espanto vendo o meu amor tão nua. Não vi o corpo nu, não vi os seus seios rijos, não vi suas curvas molhadas, não vi o seu sexo macio. O que vi, meu amor, tudo que vi foi espanto: uma luz se banhando na sede do meu olhar. Sereias existem, eu ouvi o seu canto; ninfas existem, eu vi os seus gestos; sonhos perfeitos existem, eu vi você se banhando!
Um dia eu vi meu amor chorando e fiquei mais que triste que o meu amor chorando. Vi a tristeza, vi uma solidão que nunca tinha visto nela, vi uma lágrima que nunca vi tão molhada. Perguntei ao meu amor porque e ela me disse tudinho: que nunca havia chorado, que nunca sentiu uma tristeza tão triste e jamais havia experimentado do sabor travoso da solidão. E o pior meu amor disse depois: havia gostado de tudo aquilo, da tristeza, da solidão e da lágrima.
Tudo fiz para alegrar meu amor. Disse que estava apaixonado, disse que ia casar, disse que tinha um emprego, disse que tinha uma casa, disse que tinha um mundo, disse que tinha um sonho. Mas um dia fechei a porteira pra não voltar nunca mais, pra não viver nunca mais, pra não viver mais.
Meu amor havia gostado de tudo aquilo, da tristeza, da solidão e da lágrima... Alguém havia dito que ela era poeta.
Mas não faz mal, meu amor. Ainda te amo e tenho uma flor do campo para colocar nos teus cabelos. E quem dera beijar só mais uma vez a flor dos teus lábios...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
A minha namorada é linda e bela, é meiguice e formosura, cheira a perfume do mato, cheira a manhã perfumada, e quando abro a porteira me vejo num jardim sertanejo colhendo a flor do campo.
Minha namorada é flor no sertão queimado, seco e esturricado. Acostumada ao sol, sua pele cabocla parece suave verniz das estrelas, parece cor do barro levemente queimado na fogueira da paixão. E quando estou perto dela, quando seu corpo toca em mim, não sei mais a cor que vejo, se existe cor no desejo.
Quando a porteira solta um gemido para abrir e minha namorada me enxerga ao longe, sinto que sorri um sorriso de sol, sinto que olha um olhar de mar, e ajeita o seu corpo de horizonte para o meu olhar passear. E vem caminhando assim, num jeito de não chegar, só pra ver se desando a correr e no seu caminho me perder.
Levo na mão uma flor escondida, flor bonita igual a ela, e nem sei se açucena, rosa, violeta ou crisântemo, só sei que cheira ao seu corpo e tento esconder a flor pra não perder o encanto, e sem querer seguro a pétala e coloco no seu cabelo e não sei mais o que dizer, se é belo o meu jardim ou se ela é primavera.
Nunca vi minha namorada triste, um dia só vi meu amor entristecer. Se entristeceu por besteira só porque chuva caiu, só porque entardeceu, só porque anoiteceu, só porque lua saiu, só porque era poeta. Era sim. Minha namorada nunca escreveu um poema, mas um dia olhou o mundo, mirou bem o horizonte e falou pra natureza: e não agradecemos o amor que nos é amado!
Ela não sabia disso, mas construía poesia no olhar, no sentir, no falar, no andar, no vestir. No olhar porque é profundo igual sentimento; no sentir porque o encanto e a compreensão pediram licença e fizeram moradia; no falar porque a brisa vem silenciosamente e o vento sopra com cuidado; no andar porque é nuvem passeando, onda leve jorrando, raio de sol brilhando; no vestir porque o céu de chita é mais bonito, porque as cores da natureza estão ali. Tudo é assim, lindo e belo na sua poesia.
Um dia vi o meu amor se banhando no regato e me banhei de espanto vendo o meu amor tão nua. Não vi o corpo nu, não vi os seus seios rijos, não vi suas curvas molhadas, não vi o seu sexo macio. O que vi, meu amor, tudo que vi foi espanto: uma luz se banhando na sede do meu olhar. Sereias existem, eu ouvi o seu canto; ninfas existem, eu vi os seus gestos; sonhos perfeitos existem, eu vi você se banhando!
Um dia eu vi meu amor chorando e fiquei mais que triste que o meu amor chorando. Vi a tristeza, vi uma solidão que nunca tinha visto nela, vi uma lágrima que nunca vi tão molhada. Perguntei ao meu amor porque e ela me disse tudinho: que nunca havia chorado, que nunca sentiu uma tristeza tão triste e jamais havia experimentado do sabor travoso da solidão. E o pior meu amor disse depois: havia gostado de tudo aquilo, da tristeza, da solidão e da lágrima.
Tudo fiz para alegrar meu amor. Disse que estava apaixonado, disse que ia casar, disse que tinha um emprego, disse que tinha uma casa, disse que tinha um mundo, disse que tinha um sonho. Mas um dia fechei a porteira pra não voltar nunca mais, pra não viver nunca mais, pra não viver mais.
Meu amor havia gostado de tudo aquilo, da tristeza, da solidão e da lágrima... Alguém havia dito que ela era poeta.
Mas não faz mal, meu amor. Ainda te amo e tenho uma flor do campo para colocar nos teus cabelos. E quem dera beijar só mais uma vez a flor dos teus lábios...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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O que somos (Poesia)
O que somos
Nos contentamos demais
e foi tão pouco o contentar assim
porque agora
de tudo o que fomos
somente somos
resto do que amamos
grãos do que plantamos
eco do que chamamos
passado no que olhamos
somente o que somos
depois de construído o amor
depois de suportado o amor
depois de destruído o amor
e construção e destruição
tudo numa só palavra
brincamos.
Rangel Alves da Costa
Nos contentamos demais
e foi tão pouco o contentar assim
porque agora
de tudo o que fomos
somente somos
resto do que amamos
grãos do que plantamos
eco do que chamamos
passado no que olhamos
somente o que somos
depois de construído o amor
depois de suportado o amor
depois de destruído o amor
e construção e destruição
tudo numa só palavra
brincamos.
Rangel Alves da Costa
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