SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

PALAVRAS SILENCIOSAS – 156


Rangel Alves da Costa*


“Os lobos continuam uivando...”.
“Os montes conhecem os motivos...”.
“Gritos se espalham no ar...”.
“Em silêncios e berros...”.
“Talvez uma dor, uma aflição...”.
“Talvez uma angústia, uma solidão...”.
“São os sinais da noite, da escuridão...”.
“Momento de lobos, de loucos...”.
“De doentes, de solitários...”.
“Debaixo da lua...”.
“Por entre as estrelas...”.
“Nos esconderijos e escondidos...”.
“Nas portas e janelas fechadas...”.
“Repousando no breu...”.
“A noite não dá endereço...”.
“Mas os gritos são ouvidos...”.
“Assombros maiores que a voz...”.
“No louco e sua lua imensa...”.
“No poeta e sua janela...”.
“Na fresta no olhar da donzela...”.
“No quarto escuro...”.
“Na luz apagada...”.
“Momento de dor e de morte...”.
“Instante de adeuses e despedidas...”.
“Uma voz que cala, gritos que ecoam...”.
“Sempre na noite, nas noites assim...”.
“Mas também o sussurro...”.
“O murmúrio de amor...”.
“Porque os corpos também gritam...”.
“Delirantemente bradam...”.
“Até que o prazer prefira o silêncio...”.
“Mas nunca há silêncio na noite...”.
“Alguém chora baixinho...”.
“Alguém ora baixinho...”.
“Alguém pede um pouco de vida...”.
“E o vento soprando...”.
“A ventania faminta...”.
“As folhas mortas em coro de sentinela...”.
“Um toque na janela...”.
“Um amante chegando...”.
“O beijo ressoa...”.
“No escuro da noite...”.
“Noite negra, triste, chuvosa...”.
“Os pingos cravejados nos telhados...”.
“A vidraça molhada em toques...”.
“O passo da menina correndo...”.
“E que grito de solidão, de saudade, de distância...”.
“E pelas ruas molhadas...”.
“Sob a luz das calçadas...”.
“O noctívago navega sua serenata de desamor...”.
“Parece ouvir uma música distante...”.
“Não. É reza de velório, é sentinela...”.
“Alguém morreu nessa noite...”.
“E também esperanças e corações...”.
“Oh, quanto cruel é a noite...”.
“O menino nem sente...”.
“O menino só sonha...”.
“Debaixo de uma marquise...”.
“Dentro do coreto da praça...”.
“Por cima do banco...”.
“O menino nada ouve, apenas dorme...”.
“Parece dormir e nada ouve...”.
“Também não vive...”.
“Menino na noite. Eterna...”.
“E tanto falavam sobre ele...”.
“E ninguém jamais quis ouvir...”.


Poeta e cronista
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sábado, 2 de fevereiro de 2013

MINHA ESPREGUIÇADEIRA (Crônica)


Rangel Alves da Costa*


Neste sábado, logo cedinho, um fato deveras lamentável acabou acontecendo. Dayse achou de retirar os tapetes do escritório para lavar, e na varrição empreendida acabou sobrando para a minha inocente e amiga espreguiçadeira.
Minha espreguiçadeira fica em pé e quietinha, de segunda a sexta, num canto de parede da saleta da frente do escritório. Lugar estratégico porque quando a noite cai basta puxá-la e estendê-la bem ao lado do portão. Então é uma dádiva sentar aí.
Contudo, já na sexta à noite, após recolher as plantas, deixo-a ali armada, silenciosamente me esperando, até a manhã da segunda-feira, quando retorna ao seu cantinho. Antes disso, por todo o fim de semana já testemunhou muitos instantes de reflexão, minha solidão necessária, meus momentos de conversar sozinho.
Pois bem, no passo da limpeza, eis que a espreguiçadeira foi retirada do seu cantinho e colocada à frente do portão, já na calçada. Seria coisa passageira, apenas enquanto varria e passava panos no lugar, mas foi o erro. Creio que não demorou nem cinco minutos e alguém passou pela frente e levou consigo - não sei como – minha boa amiga de descanso e meditação.
E olhe que era pesada, toda em madeira de lei, parafusada, muito maior que uma cadeira comum. Em pleno sábado, com intenso movimento na rua, e passa alguém para subtrair um objeto de grande significação em minha vida. Importante demais porque sentado nela me tornava menino, recordava a infância, percursos de vida, vivia o presente.
Já desde uns dez anos que eu com essa espreguiçadeira. Objeto de assento muito utilizado nas cidades interioranas de antigamente, hoje já não é mais colocada nas calçadas ao entardecer, debaixo dos pés de pau, nas varandas e alpendres. Dificilmente se encontra uma residência que ainda tenha essa diferenciada cadeira de descanso.
Cadeira diferenciada porque artesanalmente trabalhada para fechar e abrir, ser de fácil locomoção, permitir o tipo de inclinação que a pessoa queira ter, ainda que feita na madeira e tendo um tecido de lona como lugar de assento. Espreguiçadeira armada, dependendo da inclinação, a pessoa pode dormir sossegadamente ou apenas ficar normalmente sentado observando a vida passar.
Certa feita, morando na capital sergipana, eis que um senhor passou pela rua oferecendo espreguiçadeiras. Logo me lembrei das tardes sertanejas e suas calçadas, meus conterrâneos sentados num proseado amigueiro, velhos cochilando sentados em cadeiras assim. Nem pensei duas vezes, fui logo adquirindo uma para imitar a vida de lá, da minha terra, do meu lugar.
Durante algum tempo, abria a espreguiçadeira somente quando a noite caía. No quintal da casa, entre muros e por cima do cimento, estendia em direção ao negrume do horizonte. E logo vinha surgindo uma lua bonita, imensa, apaixonante, sempre acompanhada dos vaga-lumes das estrelas. Nem te conto nem te digo quanta coisa bonita, outras vezes pontinhas de saudades, ali vivenciada no quase silêncio noturno.
Mas depois resolvi dar outra destinação a ela. Trouxe-a de lá e a coloquei num cantinho da saleta da frente do meu escritório, que fica ao lado da mesma moradia. Fiz isto com a mesma intenção lá do fundo. Só que no novo ambiente ao invés de ter somente a lua e estrelas ao redor podia fazer muito mais, principalmente ouvir as músicas clássicas que tanto admiro após o anoitecer.
Como ficava bem ao lado do portão, tendo a rua logo adiante, sentava ali para sentir a chuva caindo, os respingos pelo meu corpo, ouvir a suave e serena melodia. Sentado, olhava o asfalto molhado, a água escorrendo, e bastava esse momento para fazer veredas no pensamento. E quanta saudade surgia, quanta lembrança renascendo, quantas feições e momentos de repente ao meu redor. Chorar também. Não nego, não posso negar, sou um chorão.
Mas alguém passou pela calçada e levou minha espreguiçadeira. Estava ali momentaneamente, apenas enquanto escritório passava por faxina, mas alguém levou minha amiguinha. Só não fiquei com mais raiva porque sou prevenido. Possuía uma cadeira igualzinha lá no fundo, no meio das tralhas, só que sem a lona.
Essa não comprei não. Estava sem uso noutro quintal e nem pedi ao dono. Disse que cuidaria melhor da bichinha e trouxe-a comigo. Bastou que a minha fosse usurpada que logo lembrei sua existência. No mesmo instante mandei fazer um reparo geral, comprar a lona do assento e providenciar o que fosse preciso.
Hoje, noite, que desça a lua, que venha a chuva. É sábado e a espreguiçadeira me espera. E é pra lá que vou meditar sobre a vida em flor. Também sobre espinhos, também sobre outonos e suas folhas ao vento.


Poeta e cronista
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Amar (Poesia)



Amar


Amor
um caminho
amar
um chegar

amar
um sentido
amor
um sabor

coração
esse lar
do amor
do amar

vai amor
vai amar
chave à mão
coração
pode entrar.

  
Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 155


Rangel Alves da Costa*


“Acredito em você...”.
“Sei do que é capaz...”.
“Mesmo sendo humano...”.
“Coração de ave...”.
“Coração de flor...”.
“Coração de amor...”.
“Acredito em você...”.
“Acredito no homem...”.
“Hei de enxergar filho da Criação...”.
“Hei de acreditar na sua virtude...”.
“Hei de confiar no seu coração...”.
“Acredito em você...”.
“Ainda que outros pensem o contrário...”.
“Ainda que tenha errado um dia...”.
“Ainda que nem tudo seja alegria...”.
“Olho para os exemplos da vida...”.
“Para os contrastes do tempo...”.
“Para o ser e não ser...”.
“Por isso acredito em você...”.
“Acredito em manhã após a noite...”.
“Acredito em sol após temporal...”.
“Acredito no bem vencendo o mal...”.
“Um açúcar depois do sal...”.
“Um oásis depois do deserto...”.
“Nada é tão assim nem tão certo...”.
“Por isso acredito em você...”.
“Mas não espero...”.
“Que o que quero...”.
“Venha num toque de sino...”.
“Num grito que faz ecoar...”.
“Como semente que brota...”.
“Apenas numa certeza...”.
“Pois tudo acontecerá...”.
“No tempo de seu vingar...”.
“Mil anos depois do agora...”.
“Mais tarde ou amanhã...”.
“A fé faz surgir, faz chegar...”.
“A fé traz o anjo ao altar...”.
“Basta saber esperar...”.
“É preciso sempre crer...”.
“Por isso acredito em você...”.
“Há uma voz no seu silêncio...”.
“Uma chave na sua mão...”.
“Um sorriso sob o véu...”.
“Uma poesia esquecida...”.
“Uma flor tão escondida...”.
“Que sempre acreditavam em tristeza...”.
“Não acreditavam na beleza...”.
“Do que é capaz de fazer...”.
“Do que seja capaz de viver...”.
“Por isso acredito em você...”.
“E tanto acredito...”.
“Que ainda não acredite...”.
“Subirei à montanha...”.
“Proclamarei aos seres e pessoas...”.
“À brisa e ao vento que ecoa...”.
“Minha crença em louvor...”.
“E não só pelo meu amor...”.
“Mas porque acredito em você!”.


Poeta e cronista
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SOBRE SONHOS E COPOS (Crônica)


Rangel Alves da Costa*


Já se vão mais de três anos que tive de deixar de lado – só que não sei até quando – os prazeres da bebida. Juro que gostava demais de bebericar vinho, uma cervejinha gelada, uma dose de casca de pau, qualquer bebida do meu sertão. Quem tivesse seu uísque que não escondesse de mim. Nunca fui chegado ao malte apurado.
Acostumado a beber, até hoje amanheço de ressaca. Fato muito estranho depois de muito tempo forçadamente divorciado do copo, ao qual – não posso negar – nutria verdadeira paixão. Foi-se e me deixou ainda apaixonado, recordando sempre o véu gelado da borda, a golada gostosa e descomunal que dava. Traga mais uma. Que saudade danada!
Mas sim, eu dizia que até hoje amanheço completamente ressacado. Mas não de ressaca sedenta, enjoada, querendo botar o mundo pra fora, e sim com uma vontade danada de tomar outra. Quem não sabe vou informar: só amanhece com vontade de tomar outra quem não bebeu o seu limite de entornar na noite anterior.
Sobre a ressaca, sim. Como afirmei, amanheço de ressaca sem ter bebido e com vontade de tomar logo uma geladinha. E eis aí o desvendamento de todo o mistério. Sonho bebendo a noite inteirinha, e somente perto do amanhecer consigo desfazer do copo e tirar um cochilo. Pouco tempo depois amanheço completamente ressacado.
Talvez seja por isso - pela certeza que a mesa será posta com a dose de entrada e a geladinha no ponto, talvez acompanhada de um queijinho do reino sertanejo ou uma perna de preá assada – que mal amanheço e já fico desejoso que a noite chegue logo. E porque todo dia é assim, após as dez da noite deito na rede/botequim e fecho os olhos esperando ser servido. E que garçom prestativo é o do sonho.
Já fiz várias experiências e tentativas para ser servido mais cedo, durante os momentos que adormeço após o almoço. Mas nada. Quero forçar o sonho, deito pensando no copo, na cervejinha, na umburana apurada, no amigo chegando para sentar e jogar conversa fora, mas nada, não tem jeito. Quando muito sonho tomando suco, refrigerante, tudo adocicado demais. Talvez seja por isso que eu esteja ganhando uns quilinhos a mais.
Já que sempre acontece assim, gostaria de ter o poder de modificar um pouco tão generosos e etílicos sonhos. Pediria a Morfeu – o deus grego dos sonhos – que no ambiente onde minha mesa estiver não se aproxime ninguém para abrir a mala do carro e colocar insuportáveis baianadas; pediria a Hipnos – o deus do sono - que me permitisse sentar tranquilamente, recebendo a brisa, ladeado por amigos que não discutam sobre religião, política ou futebol.
Maravilhoso seria que Morfeu e Hipnos ouvissem meus rogos e permitissem aumentar ainda outros prazeres ao inquestionável prazer de beber. Como música, bem baixinha, de leve, apenas MPB4, Flávio Venturini, Lô Borges, Cláudio Nucci, enfim, a turma de Minas e o seu Clube da Esquina. “Na ribeira deste rio, ou na ribeira daquele...”, cantarola Dori.
E que me chegue, assim como poesia ao vento, a voz de Gonzaguinha cantando “Espere por mim morena, espere que eu chego já, o amor por você morena, faz a saudade me apressar...”. E que viesse no passo do pássaro a cantiga inesquecível de Simonal: “Descendo a rua da ladeira, só quem viu que pode contar, cheirando a flor de laranjeira, Sá Marina vem pra dançar...”.
Beber de bem com a vida, ouvindo poesia cantada, não há coisa melhor. Só mesmo na mesa de bar. Mas enquanto não volto a escrever poemas cheirando a limão ou recados amorosos na folha molhada de respingo de cerveja, tenho de me contentar com as minhas farras noturnas, em meio ao sono, em meio ao sonho. E Deus me livre que qualquer insônia venha tirar meu prazer.
Meus amigos jornalistas, advogados, escritores e poetas acham que estou endoidando. Não conseguem acreditar nessa minha história, principalmente porque não conseguem me reconhecer sem o convite para um trago. E dizem, preocupados, que talvez eu esteja bebendo demais, e às escondidas, sem convidar ninguém.
Infelizmente não posso convidar qualquer deles para sonhar comigo, para compartilhar da mesa após o adormecer, na farra de cada noite. E por falar nisso já estou com um sono danado.
  

Poeta e cronista
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Transparente (Poesia)



Transparente


Não vejo nada
porque o amor me cega
mas sei que é transparente
esse retrato inocente
que a visão me nega

mas se for diferente
houver uma cor no olhar
uma feição mais ardente
faça-me com que enxergar
e a transparência transformar
naquilo que o amor sente
ou o coração avistar

faça-me então enxergar
senão com os olhos distantes
mas com a visão do amar
com seus suaves semblantes
desejo de tanto abraçar.

  
Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 154


Rangel Alves da Costa*


“O papel está em branco...”.
“Está triste...”.
“Angustiado...”.
“Ele só quer uma palavra...”.
“Uma palavra escrita...”.
“Ou uma frase...”.
“Uma frase bonita...”.
“Talvez um poema...”.
“Um verso de amor...”.
“Quem sabe um desenho...”.
“Um coração ou castelo de areia...”.
“Qualquer coisa...”.
“Mas algo que preencha a vida do papel...”.
“Transforme sua melancolia...”.
“Seu jeito solitário...”.
“Sua tristeza tão grande...”.
“Mas fazer o que?”.
“Escrever o que?”.
“Desenhar o que?”.
“Riscar palavras assim...”.
“Te amo, te quero...”.
“Te desejo, te busco...”.
“Sinto saudade...”.
“Sinto tanto tua falta...”.
“Como dói a distância...”.
“Maravilhoso é te querer...”.
“Tenho um beijo que é teu...”.
“Um abraço apertado...”.
“Uma palavra bonita ao ouvido...”.
“Amor. Sabe o que é isso?”.
“Paixão. Sabe o que é isso?”.
“Nem saiba que dói demais...”.
“Não o amor, a paixão...”.
“Mas a distância...”.
“E também começar um versinho...”.
“Poesia amorosa dizendo assim...”.
“Abraço o sol da manhã com os braços do teu abraço...”.
“Um jardim em mim, esperando a sua flor...”.
“Sonhos tantos, com seus passos tantos...”.
“Um coração com a voz do seu nome...”.
“Uma estrada adiante e um horizonte esperando nós dois...”.
“Fruta madura no corpo, bela estação é do amor...”.
“Minha mão que escreve um verso de regresso...”.
“Um segredo de brisa e um aroma você...”.
“Uma porta aberta, também o coração. Já ouço seu passo...”.
“Beijei beija-flor, e um beijo no voo à sua janela...”.
“Descobri o mistério. Tudo se revela você...”.
“Mas também para dizer adeus...”.
“Para gritar...”.
“Para molhar a folha...”.
“Deixar a lágrima cair...”.
“E se não vier palavra...”.
“Não vier poesia...”.
“Nenhum castelo for riscado...”.
“Da folha fazer um barco...”.
“Um barquinho de partida...”.
“E navegar depois da lágrima...”.


Poeta e cronista
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