SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 3 de janeiro de 2015

PALAVRAS SILENCIOSAS – 842


Rangel Alves da Costa*


“Sou aquele...”.
“Que acende lampiões ao anoitecer...”.
“Que acende velas na escuridão...”.
“Que dobra os joelhos em oração...”.
“Que de tudo faz a lição...”.
“Sou aquele...”.
“Que solta pipa pelo ar...”.
“Que brinca com bolha de sabão...”.
“Que arremessa bola de gude...”.
“Que risca nomes na areia...”.
“Que acredita em sereia...”.
“Sou aquele...”.
“Que é poeta sem amar...”.
“Que se inspira no doloroso...”.
“Que lacrimeja sem lenço...”.
“Que faz da lágrima um mar...”.
“Que depois vai naufragar...”.
“Sou aquele...”.
“Que semeia sobre a terra...”.
“Que acredita na semente...”.
“Que pensa em ser raiz...”.
“Que há de frutificar...”.
“Que procura um pomar...”.
“Sou aquele...”.
“Que espera a noite...”.
“Que se encanta com o luar...”.
“Que desconhece mistérios...”.
“Que não desvendou os segredos...”.
“Que continua com seus medos...”.
“Sou aquele...”.
“Que é de paz...”.
“Que é de guerra...”.
“Que vai à batalha...”.
“Que retorna ferido...”.
“Que se vê perdido...”.
“Sou aquele...”.
“Que acredita na palavra...”.
“Que ainda ouve a palavra...”.
“Que ainda diz a palavra...”.
“Que quer falar...”.
“Que quer escutar...”.
“Sou aquele...”.
“Que é do passado distante...”.
“Que é da idade do tempo...”.
“Que não cabe num calendário...”.
“Que tem no eterno o fadário...”.
“Sou aquele...”.
“Que é aquele que é...”.
“Que talvez não seja...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Palavras e letras são pássaros: liberte-os!


Rangel Alves da Costa*


Não é raro encontrar pessoas que temem a escrita a ferro e fogo. E os argumentos são os mais variados possíveis. O primeiro é sempre de que não sabem escrever. Pensam corretamente, têm tudo esboçado na mente, mas não sai nada na hora de colocar no papel. Imaginam uma situação, uma cena ou paisagem, porém perdem o poder descritivo quando necessitam transpor para a narrativa escrita.
Justificam ainda a falta de domínio da gramática, vez que falar é uma coisa e escrever é muito diferente, principalmente porque devem obedecer a uma série de regras que vão desde a concordância verbal e nominal à acentuação, e apenas para ficar no mínimo. E passam a temer que o seu texto, por conter erros de pontuação, grafia de palavras e outros deslizes gramaticais, acabe provocando zombaria e preconceito nos futuros textos.
Realmente, a língua portuguesa é muito complexa, as normas gramaticais são muito extensas, as exigências são muitas. Mas assim também deveria ser com a língua falada, pois expressão da mesma linguagem. Contudo, todo mundo fala, se expressa como pode e sabe, e nem por isso se pode afirmar que infringe ou fere de morte a língua camoniana. Certamente que sempre há quem pregue a linguagem culta tanto na fala como na escrita, mas apenas uma exigência linguística sem grande utilidade na vida prática.
Sempre defendi a língua liberta de quaisquer amarras, livre dos grilhões do academicismo nas palavras e nas letras. Ora, se a língua é criação humana, nascida das necessidades de comunicação, logicamente que nenhuma regra impedia que os primitivos compreendessem o linguajar do outro. Negar a força espontânea da fala é o mesmo que pretender que o sujeito perca um tempo precioso escolhendo palavras. O mesmo se diga com relação à escrita. A estrita obediência às regras gramaticais acaba inibindo toda liberdade criativa.
Também não vejo como exigência que a pessoa tenha de se expressar segundo a norma culta. A maioria das pessoas possui a linguagem coloquial, corriqueira, e assim deve ser praticada. Jamais deve ser tida como errada uma fala onde a comunicação se aperfeiçoa, pois um entendendo o outro. Desse modo, a normalidade da língua, que é o falar cotidiano, possui tamanha expressividade que o mundo se comunica pela sua voz. Diferentemente ocorre quando alguns usam o rebuscamento da linguagem como forma discriminatória e de negação do saber geral.
Ademais, soa igualmente inteligível o tão conhecido falar errado. Mas o que seria falar errado quando a comunicação é feita, entendida, alcançando seus objetivos? Se o erro está em confrontar a língua culta, a gramática normativa, então o desacerto está nas regras e normas, que impõem situações diferentes daquelas construídas pela própria população. Neste sentido, se poderia dizer que a fala ou a escrita está errada só porque a gramática exige que seja de outro modo?
Não há nada mais puro e autêntico que a linguagem simples, sem floreios e rebuscamentos, surgida na boca como fruta do mato. Na palavra cotidiana, regionalista, matuta ou própria dos povos, há uma singeleza e expressividade impossível de ser alcançada pela imposição de normas. A voz soa liberta, esvoaçante, nas asas passarinheiras, e dançando vai ser ouvida e sentida pelo outro igualmente acostumado à festa nua da palavra.
Nos escritos elaborados sentimentalmente há também essa ruptura com os morfemas, prosopopeias, sintaxes, numerais, advérbios, substantivos e todo um encadeamento de regras gramaticais que sufocam a palavra, aprisionam os escritos, negam a plena liberdade da língua e acabam petrificando frases e expressões nascidas para encantar. Numa cartinha escrita com o coração há um humanismo e uma singeleza que jamais seria possível num texto forjado na norma culta.
As descabidas exigências de alguns com relação à fala e à escrita acabam criando situações verdadeiramente constrangedoras. Tem gente que conversa o dia inteiro com amigos e iguais, sem qualquer preocupação com o entendimento que se dê ao que expressa, mas que possui o maior medo de abrir a boca noutra situação social, principalmente se diante de algum “doutor”. Emudece de vez, ainda que na sua mente estivesse palavra por palavra. Logicamente que perde a oportunidade de ser apenas o que é e dar vida à pureza de sua fala.
Certamente que nessas gavetas do tempo, nos escondidos dos diários e cadernos de solidão, há escritos encantadores esperando apenas a liberdade do voo. Poemas, frases, pequenas histórias, relatos intimistas, e até romances e contos, permanecem nas sombras por medo da reprimenda social pela escrita “cheia de erros de português”. Lamentável que assim aconteça, pois a importância do escrito ou a pujança criativa nele contido não pode ser desprezada pela ditadura da língua e da gramática.
Todos, indistintamente, devem reconhecer que as palavras e as letras são como pássaros engaiolados pela gramática que precisam ser libertados. E abrir a porteira da fala e da escrita implica em ter coragem de se expressar sem imposições, de escrever sem obediências, de ser aquilo que se acha com capacidade de ser. E que belo voo esse da língua que vai onde quer, sem armadilhas ou preconceitos.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Um para o outro (Poesia)


Um para o outro


Sei que teus olhos me procuram
como os meus desde muito avistam
sei que teu coração me deseja
como o meu ajoelhado te implora
sei que caminha na mesma estrada
por onde sabes que também caminho
talvez falte apenas uma palavra
e aquela dita somente pelo olhar
para depois ecoar com todas as vozes
que o amor imenso possa expressar

então vista-se de sorriso e siga
o destino já me enviou pela estrada
nunca curva qualquer haverá o encontro
e tudo que foi escrito enfim acontecerá.


Rangel Alves da Costa


PALAVRAS SILENCIOSAS – 841


Rangel Alves da Costa*


“Não espere toda mão...”.
“Mas uma mão te alcançará...”.
“De alguns apenas o olhar...”.
“Ou o olhar raivoso...”.
“Ou o olhar arrogante e frio...”.
“Mas de outros...”.
“O olhar e o chamado...”.
“O olhar e a acolhida...”.
“O olhar sorridente...”.
“Não espere toda porta...”.
“Mas alguma estará aberta...”.
“E ainda que humilde e pobre...”.
“Nela o copo d’água e pão...”.
“Nela o repouso e o conforto...”.
“A riqueza do instante...”.
“Como não há em outra porta...”.
“Não espere que toda palavra...”.
“Carregue na voz a calma...”.
“Dos que sabem falar e ouvir...”.
“Não espere sempre...”.
“Palavras de afeto e carinho...”.
“Palavras que tragam perfume e flor...”.
“Pois palavras ecoarão...”.
“Com ponta de faca e lâmina...”.
“Com o fel e o veneno...”.
“Com o gosto repugnante da maldade...”.
“Mas sempre haverá uma palavra...”.
“Que silenciará todas as outras...”.
“Eis que palavra na boca de um anjo...”.
“Com se da face de Deus...”.
“Não espere sempre a boa semente...”.
“O bom grão e a boa terra...”.
“A erva daninha se fará visível...”.
“Querendo aceitação e acolhimento...”.
“Prometendo bons frutos...”.
“E as melhores colheitas...”.
“Mas cruel é o grão da facilidade...”.
“Semeando para vingar injustiça...”.
“Maldade e sofrimento...”.
“Então se ponha como bom lavrador...”.
“Que reconhece o seu grão...”.
“E aceite apenas aquele...”.
“Que já não vem aberto em flor fingida...”.
“Mas que de tão minúsculo que é...”.
“Há de sumir nas entranhas da terra...”.
“E nela brotar a vida...”.
“A verdadeira razão do viver...”.


Poeta e cronista
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

UM NOVO TEMPO?


Rangel Alves da Costa*


A fronteira foi ultrapassada, o limite da virada não existe mais. Restam somente os restos da noite passada, os copos revirados, as garrafas vazias, as flores murchas jogadas na areia, os abraços esquecidos que não foram dados.
Não se sabe ao certo se tanta festa foi pela partida de 2014 ou na expectativa da chegada de 2015. Acaso tenha sido sentinela de despedida, então mais um ano se vai sem deixar saudades. E acaso tenha sido como esperança do novo ano, então se comprova a incongruência humana: espera sempre que tudo mude, menos o próprio sujeito.
E por que o ser humano nunca muda, nunca reconhece seus erros e procura a todo custo ser reincidente em verdadeiros absurdos, deveria cobrar menos do calendário. Ora, os dias apenas passam, mas cabe ao homem transformá-los em utilidades; o ano apenas passa, e sempre caberá ao homem não permitir que o ano seguinte seja tão renegado ao seu final.
Mas parece não adiantar. Não há ano que seja bom ou ruim se a pessoa não desejar que ela tenha a feição daquilo que deseja. E não pode reclamar do tempo passado quem teve às mãos oportunidades de mudanças e preferiu calar e consentir a continuidade, não pode reclamar quem não lutou sua boa causa nem teve voz própria nas mais diversas ocasiões.
Todo ano é sempre a mesma coisa. O ano muda e o homem continua na sua passividade, o calendário esvoaça e o indivíduo permanece na sua inércia sepulcral. Prometeu que faria tudo diferente, porém trilhou pela mesmice. Aceitou a política, aceitou a corrupção, aceitou a roubalheira, aceitou tudo aquilo que havia se comprometido a negar. E certamente continuará assim, um mentiroso de si mesmo.
As promessas não cumpridas de 1900, 2010 e 2013, por exemplo, se juntarão às que foram feitas à meia-noite entre 2014 e 2015. E após 1º de janeiro tudo voltará a ser como dantes, ou seja, aos poucos esquecendo, aos poucos fazendo de conta que nada se prometeu, apenas deixando que tudo simplesmente aconteça. Age assim para depois reclamar que nada conseguiu nem realizou.
Mas deixai ao homem a sua culpa. Não é um escrito que vá mudar qualquer situação, principalmente quando a maioria acha que o passo dado no ano seguinte faz com que o próprio destino cuide das mudanças. O que passou agora se assemelha a olhar a vida da porta dos fundos. Os sobrevivos à caminhada já acordaram diante de um novo sol. Ao menos assim se imagina.
Por mais que se diga sobre o nascer para um novo tempo, a verdade é que dificilmente os outonos passados com suas folhas mortas deixarão de existir. Basta olhar para os dias passados, para a vida passada, e em quase tudo enxergar paisagens tomadas por folhas secas ainda não levadas pelos ventos novos que vão surgindo.
Apenas o ano passa, o calendário possui outra datação, mas nunca como um rompimento do que ficou para trás. Ademais, tudo fica mais envelhecido, desde o próprio ano à idade do homem. Portanto, novas talvez sejam apenas as esperanças de que os dias vindouros tragam mais luz, paz e prosperidade. Mas apenas nas perspectivas, sem que o sujeito se ajude a si mesmo para que aconteça.
O novo ano já teve início, a partir de agora se fala em um novo tempo. Um novo tempo de que? Só é construído um novo tempo quando o ser humano deixa suas promessas e parte para a ação. Não se constrói nada de novo quando há continuidade no jeito de ser, fazer e pensar, quando continua o medo de agir para transformar.
Ora, poucos exemplos bastam. Desde quanto tempo o povo brasileiro é politicamente omisso, negligente e indiferente? Desde quanto tempo a maioria do povo brasileiro é eleitoralmente cego, covarde e submisso? Haverá um novo tempo para gente assim?
A verdade é que nada parece mudar debaixo desse pátrio sol. O ano começou hoje e amanhã já estará tão velho quanto as velhas práticas de um povo sempre envelhecido.


Poeta e cronista
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Frio (Poesia)


Frio


Calor
e sinto frio
sem neve
sem vento
sem chuva
sem nada
apenas frio
um friozinho
na alma

recordo
do abraço
e do calor
do beijo
e do sabor
e por isso
sinto frio
um friozinho
na alma.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 840


Rangel Alves da Costa*


“Não fique triste...”.
“Não chore...”.
“Há uma manhã...”.
“Há um sol...”.
“Há uma luta...”.
“Há uma conquista...”.
“E sempre a vida...”.
“Não fique triste...”.
“Não chore...”.
“Há uma prece...”.
“Há uma oração...”.
“Há uma crença...”.
“Há uma fé...”.
“E sempre Deus...”.
“Não fique triste...”.
“Não chore...”.
“Há um campo fértil...”.
“Há uma semente...”.
“Há um grão...”.
“Há como cultivar...”.
“Há como colher...”.
“E sempre ter frutos...”.
“Não fique triste...”.
“Não chore...”.
“Há um amor...”.
“Depois de uma ilusão...”.
“Há uma verdade...”.
“Depois da mentira...”.
“Há uma esperança...”.
“Depois da solidão...”.
“E sempre a força...”.
“Não fique triste...”.
“Não chore...”.
“Há você...”.
“E você em você...”.
“Você que se ama...”.
“Você que se admira...”.
“Você que se quer...”.
“E sempre você...”.
“Não fique triste...”.
“Não chore...”.
“Há uma noite...”.
“Há um luar...”.
“Há uma poesia...”.
“Um verso de vida...”.
“Um conforto da alma...”.
“E sempre um amanhã...”.


Poeta e cronista
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