SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 3 de abril de 2015

PALAVRAS SILENCIOSAS – 932


Rangel Alves da Costa*

 
“Limpei as paredes...”.
“Afastei as velhas traças...”.
“Fiz sumir a poeira e o pó...”.
“Tudo tão envelhecido...”.
“Tudo empoeirado...”.
“Tudo carcomido...”.
“Mas não só do tempo...”.
“Também da saudade...”.
“Também da tristeza ainda...”.
“Também da não aceitação...”.
“Mas tudo ali...”.
“Precisando ser cuidado...”.
“Preservado na parede...”.
“Em cima dos velhos móveis...”.
“Na velha memória...”.
“Mas como dói...”.
“Como dói o simples olhar...”.
“Como dói o toque...”.
“Como dói a presença...”.
“Como dói a recordação...”.
“Um velho retrato...”.
“Uma moldura carcomida...”.
“Um espelho amarelado...”.
“Um sorriso antigo...”.
“Uma feição querida...”.
“Que saudade!...”.
“Como dói rever a vida...”.
“Abrir baús antigos...”.
“Avistar cartas e relíquias...”.
“Bilhetes e lembranças...”.
“Anéis e pingentes...”.
“Frascos vazios de perfume...”.
“Relicários adormecidos...”.
“Vidas de outrora...”.
“E que são a minha de agora...”.
“Como dói a saudade...”.
“Como dói a presença...”.
“Do que já passou...”.
“Do que somente existe...”.
“Na eternidade do coração...”.
“Que continuará preservando...”.
“Cada retrato e sinal...”.
“Como se a existência...”.
“Não fosse possível...”.
“Sem esse passado...”.
“Que é minha raiz e história...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

quinta-feira, 2 de abril de 2015

QUANDO A SEMANA ERA SANTA


Rangel Alves da Costa*


A atual Semana Santa não passa de um feriado qualquer. Assim na grande maioria dos lugares onde o fim de semana mais extenso não tem outra serventia senão para festins, viagens e curtições. Na maioria porque em algumas povoações interioranas ainda se comunga do espírito da crucificação e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Contudo, nada parecido com o fervor religioso de outros tempos.
O descuido ou o desuso com as práticas rituais da fé são consequências das transformações advindas no seio da sociedade. A sociedade atual, envolvida pelos modismos e negação das tradições, acaba relegando ao esquecimento até mesmo o compromisso com o fortalecimento da fé. Ora, num mundo onde o jovem sequer sabe o que seja uma celebração eucarística, uma novena ou até mesmo uma procissão, torna-se muito difícil que a ritualística da Semana Santa lhe tenha algum significado.
Hoje em dia, se falar em Semana Santa logo surge à mente duas coisas: o feriadão e a comida à base de coco. Tornam-se cada vez mais raros aqueles que conhecem os seus mistérios, que participam das missas, que ainda procuram sentir na alma um pouco do sofrimento de Cristo pelo próprio homem. Muito longe estão dos passos levando a cruz, da coroa de espinhos, da morte e do renascimento. Muito longe estão até de si mesmos, vez que possuindo apenas a leveza inconsistente do presente.
Ainda recordo de um povo e de suas histórias de Semana Santa na região sertaneja onde nasci. Nada mais é como antigamente, porém a tradição continua em muitos, principalmente com relação ao peixe, ao jejum e as sentinelas. Mesmo com o preço absurdo do pescado, muitas pessoas preferem uma sardinha enlatada a ingerir carne de gado, porco ou mesmo frango. É quase um jejum forçado pela ausência de um peixinho ao coco sobre a mesa.
Mas noutros tempos era muito diferente, e já desde a quarta-feira de cinzas. E até bem antes disso. Roupas eram escolhidas especialmente para o luto. Vestimentas de cor eram tingidas de preto para o luto nos dias sagrados. Vestidos longos, geralmente com mangas compridas, cobriam mulheres desde a quarta-feira. Muitas também usavam panos ou lenços pretos na cabeça, num luto obstinadamente fechado. Nem mesmo com os seus falecidos havia aquele rigor de enlutamento.
Também era costume não varrer a casa durante os três dias. A justificativa era de que o sofrimento do Senhor naquele período não permitia limpeza que proporcionasse qualquer feição de contentamento. A poeira e o pó eram o acúmulo dos males mundanos, da incoerência do homem sobre a terra, e cuja limpeza se daria como um renascimento do próprio Senhor para salvar o mundo.
O pai ou mãe logo emitiam severas ordens de obediência e respeito máximos aos dias sagrados. Ordenavam que os seus não ingerissem bebida alcoólica, não fumassem, não ouvissem música, não se mostrassem cheios de alegria e contentamento, não falassem palavrões nem namorassem. Não falavam em sexo, pois nome muito forte para ser pronunciado na ocasião, mas afirmavam que sequer imaginassem em corromper a carne com as ilusões mundanas.
Muitos jejuavam de modo tão severo que somente uma vez ao dia colocavam algum alimento à boca, mas sempre contendo coco. Peixe com coco, arroz de coco, feijão de coco, tudo contendo coco. Quem não jejuasse só podia comer alguma coisa que fosse feita com coco. Os espelhos eram devidamente encobertos com panos de luto para que ninguém se olhasse ou penteasse os cabelos. E quanto mais triste o semblante de cada um mais presente sua fé naqueles dias de dor e sofrimento.
No dia maior então a ritualística se redobrava. Grande parte do dia as mulheres, principalmente velhas beatas, se mantinham fechadas em seus quartos ajoelhadas com terços e rosários à mão, orando incessantemente. Após o anoitecer seguiam até a igreja onde permaneciam em sentinela até o amanhecer. E os cantos, as ladainhas, as rezas fúnebres, entoavam numa lamúria tão dolorosa como bela. Tudo na força de um povo, sua fé e tradição.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

O fogo (Poesia)


O fogo

Meu coração abrasa
como crepitante fornalha
meu corpo se queima
como ferro incandescente
minha alma se aquece
como labareda ao vento
e sei que queimo por amor
pela chama acesa e voraz
e sei que inflamo por amar
ardentemente querendo
infinitamente mais querer
até que as cinzas do tempo
se espalhem sobre mim
e levem pelo ar o teu nome.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 931


Rangel Alves da Costa*


“Agora chove...”.
“Chuva na madrugada...”.
“Ainda a escuridão...”.
“Triste e sem pressa...”.
“Ouço a chuva caindo...”.
“Avisto a chuva caindo...”.
“Sinto a chuva caindo...”.
“Nuvens lá fora...”.
“Nuvens aqui...”.
“Um temporal em mim...”.
“Enquanto chove...”.
“Enquanto sou chuva...”.
“Chegam-me os pensamentos...”.
“Molhados, encharcados...”.
“De saudade...”.
“De relembranças...”.
“De recordações...”.
“E sofro mais...”.
“E me sinto temporal...”.
“Ou tempestade viva...”.
“Muito além da chuva...”.
“Da chuva que cai...”.
“E escorre lá fora...”.
“É sempre assim...”.
“Quando a chuva cai...”.
“E a madrugada é de solidão...”.
“E o instante é de sofrimento...”.
“E tudo na vida...”.
“Não parece ser além...”.
“De nuvens molhadas...”.
“Tristezas sentidas...”.
“Aflições encharcadas...”.
“Escorrendo, escorrendo...”.
“E inundando o ser...”.
“Que impotente de agir...”.
“Apenas se entrega...”.
“Às dores do instante...”.
“Sem que nada tenha...”.
“Para enxugar os olhos...”.
“Para afastar o frio...”.
“No corpo encharcado...”.
“De águas ao desvão...”.
“Da solidão...”.
“Solidão...”.
“Solidão...”.
“Solidão...”.


Poeta e cronista
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quarta-feira, 1 de abril de 2015

NA TERRA DO VIRA-MUNDO


Rangel Alves da Costa*


Engana-se aquele que pensar que tudo acontece na normalidade rotineira dos dias, mesmo surgindo umas ou outras surpresas para contrastar com as mesmices. Não só as pessoas mudam rapidamente como as realidades ao redor. Contudo, situações existem que fogem à racionalidade, vez que ninguém consegue coerentemente explicá-las.
Assim aconteceu, por exemplo, na Terra do Vira-Mundo, um lugar de acontecimentos tão estranhos, tão sem pé nem cabeça, que mais se assemelham às histórias entremeadas de realismos fantásticos ou de maluquices mesmo. Digo que aconteceu só por uma questão de dizer, pois certamente aquele lugar e seu povo continuam vivendo nos seus mesmos modos inusitados em tudo que façam.
Abrindo as portas daquela realidade, que se diga, de antemão, que nenhum habitante pode ser qualificado como insano, doido, maluco ou qualquer coisa desse tipo, pois o que é anormal ou irreal para o forasteiro ali é tido como a coisa mais costumeira do mundo. Assim, apenas uma questão de compreender sem negar o jeito próprio de ser e conviver de um povo. Tal questão é muito recorrente em antropologia cultural.
Mas normal não é, a realidade é essa. Não pode ser visto como algo lógico e racional que as pessoas quase nunca conversem umas com as outras, mas a todo instante sejam encontradas falando sozinhas, sorrindo, gritando, enraivecidas, contentes ou passivas com as próprias palavras. Conversam com quem, tanto falam com quem? Por todo lugar existem indivíduos que conversam sozinhos, mas não daquela forma, onde o diálogo pessoa a pessoa é convertido numa interlocução de mão única. Ou não, pois certamente se dirigem às sombras, ao vento, à própria solidão, aos fantasmas dos antepassados.
Não é normal que a maioria das pessoas durma durante o dia e passe a noite inteira fazendo o que deveria ser feito nas horas ensolaradas. O dia claro, o vento soprando, com pelas paisagens ao redor, e as pessoas deitadas a sono solto. Por isso mesmo que as casas são geralmente avistadas com portas e janelas fechadas, as ruas se tornam desertas e poucos são aqueles, com ares de sonolência, que perambulam de canto a outro. Estes seriam os errantes do dia, lembrando os noctívagos debaixo da lua cheia.
Mas quando o entardecer vai embora e as sombras da noite começam a descer, então tudo parece um amanhecer. Já escuridão e as portas são abertas, as casas são tomadas de gente, as pessoas saem para as calçadas, seguem pelas ruas, tomam as praças. Tudo aquilo que deveria ser feito durante o dia toma sua normalidade. Em plena escuridão e pessoas trabalhando nos campos, nas construções, nas lavagens de roupas. Como não há serviço público, prefeito, delegado, juiz ou qualquer autoridade, tudo é responsabilidade de cada um.
É também após o anoitecer que os bichos de criação saem dos seus quintais, matos e poleiros, e se misturam às pessoas nas ruas. E dizem que também falam, ou falam mais que as pessoas do lugar. Galinha não cacareja, mas diz o que quer. Galo não canta, mas ao cair da noite grita alto para dizer que já está na hora de acordar. Jegue não relincha, levando a maior parte do tempo a dizer palavrões. Não raro que bodes ou vacas sejam avistados murmurando segredos às pessoas mais jovens e mais afoitas.
Em nenhuma panela será encontrado qualquer tipo de carne. O povo da Terra do Vira-Mundo é vegetariano de nascença. Ao invés de quilo disso ou daquilo, o que se tem são folhagens, raiz e casca de pau, brotos, frutas e até capim. Já os animais exigem feijão, farinha, arroz e café e carne, mas somente de bichos de outro lugar. As pessoas não bebem, mas os animais são chegados a uma aguardente. Por isso mesmo que não sossegam enquanto não tiverem à disposição uma boa vasilha cheia de cachaça com raiz de pau.
Não sei se é bom ou ruim viver assim, apenas sei que é um jeito diferente demais de viver. Ao estranho que chega e ao forasteiro desavisado tudo causa uma estranheza demais. Na primeira vez que andei por lá até fiquei sem acreditar, principalmente em ter à minha frente pessoas completamente peladas, sem uma única peça de roupa por cima. Sim, ali ninguém se veste, todo mundo vive permanentemente nu.
Já retornei algumas vezes e até penso em fixar moradia. O problema são os hábitos, os costumes, as estranhezas demais. Na verdade, bicho parece mais com gente do que o próprio ser humano. No meu caso, acaso decida morar ali, certamente será como um bicho. Só assim irei beber e comer.


Poeta e cronista
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De ferro e folha (Poesia)


De ferro e folha


Além do rígido metal
sou do ferro inquebrantável
mas que teme a ferrugem
com as lágrimas caídas

além do rochedo firme
sou da pedra indestrutível
mas que teme a ventania
e ser tornado em poeira

mas a ilusão de ser tudo
inquebrantável e indestrutível
ajoelha-se ao reconhecimento
da folha seca ao sopro da vida.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 930


Rangel Alves da Costa*


“A existência humana...”.
“Ainda é mistério indecifrado...”.
“Uma pedra em segredo...”.
“Uma escuridão sem luz...”.
“Onde somente se imagina...”.
“E nenhuma resposta surge...”.
“Que seja convincente...”.
“O próprio homem é desconhecido...”.
“Nem ele mesmo se conhece...”.
“Não sabe se é gente ou bicho...”.
“Racional ou irracional...”.
“Se é pensante ou apenas instintivo...”.
“Um verdadeiro mistério...”.
“Sem ideia ou resposta...”.
“É o próprio homem...”.
“Que se deixa enigmático...”.
“Numa teia de possibilidades...”.
“Onde tudo e nada se juntam...”.
“Para ser tudo...”.
“Ou simplesmente nada...”.
“Pois ora quer ser tanto...”.
“Ora se contenta com o nada ser...”.
“Ora vai construindo...”.
“Ora desfaz toda a ação...”.
“Ora cimenta sua estrada...”.
“Ora abre fossos na caminhada...”.
“Ora planta um jardim...”.
“Ora destrói toda a natureza...”.
“Por isso ninguém mais acredita...”.
“No seu ser ou não ser...”.
“No que diz que é...”.
“Ou naquilo impossível que seja...”.
“Porque sempre avesso...”.
“Porque sempre inverso...”.
“Uma feição que se esconde...”.
“Um espelho sem imagem...”.
“E acrescentando a tudo...”.
“Sua afirmação sempre negada...”.
“Sua incoerência histórica...”.
“Seu desacreditado existir...”.
“E no medo que provoca...”.
“Ao não poder reconhecê-lo...”.
“No seu instante de fera faminta...”.
“Ou nos seu momento humano...”.
“Pois tudo numa indagação...”.
“O que é o homem?”.


Poeta e cronista
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