SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 5 de abril de 2015

Solitário cais (Poesia)


 
Solitário cais
 
Nem o passo nem o voo
é na saudade que vou
vou recordar e chorar
e triste assim navegar
 
rios e mares no olhar
lágrimas desse meu velejar
um solitário sem cais
um amor que não volta mais
 
e as gaivotas revoam
as ondas tristes que ecoam
uma flor jogada ao chão
paisagem de tanta solidão.
 
Rangel Alves da Costa
 

PALAVRAS SILENCIOSAS – 934


Rangel Alves da Costa*

 
“Tudo estiagem em mim...”.
“Num sol medonho e voraz...”.
“E de repente...”.
“Os trovões na alma...”.
“A tempestade no olhar...”.
“E tudo se derramando...”.
“Em cruel correnteza...”.
“Temporais que surgem nas noites...”.
“Instantes perfeitos para o sofrimento...”.
“Uma paisagem de solidão...”.
“Uma tristeza como horizonte...”.
“E na saudade o relâmpago...”.
“Que lampeja vivaz...”.
“Querendo cegar...”.
“Querendo cortar...”.
“Querendo açoitar...”.
“Todos os restos...”.
“Dos restos de mim...”.
“E então me vejo um náufrago...”.
“Nesse mar imenso...”.
“De passado e presente...”.
“Barco que está distante...”.
“Sem ter ilha adiante...”.
“Ou cais que deseje...”.
“Meu corpo abraçar...”.
“Noites, noites...”.
“Silêncios profundos...”.
“Abafando os gritos...”.
“Do náufrago sem porto...”.
“Do amor embebido...”.
“Em copo vazio...”.
“A nudez de um rio...”.
“Encharcado de mar...”.
“E eu que não queria...”.
“Novamente sofrer...”.
“Apenas recordar...”.
“Que um dia vivi...”.
“Fui feliz e amei...”.
“Mas as cartas abertas...”.
“Os retratos encontrados...”.
“Formaram a tempestade...”.
“Que se derramou...”.
“Sem qualquer piedade...”.
“Na folha já seca...”.
“De outros outonos...”.
“Das mortes renascidas em mim...”.

 
Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

sábado, 4 de abril de 2015

NO GALINHEIRO DA PÁSCOA


Rangel Alves da Costa*


O que a religiosidade vem perdendo de adeptos aos ritos próprios da Semana Santa se contrapõe ao que o comércio vem ganhando no mesmo período e nome daquela tradição. Quer dizer, enquanto as missas, as vigílias, as procissões e os rituais de penitência ficam cada vez mais esvaziados, mais o comércio especializado em ovos de páscoa se entope de gente querendo levar seus chocolates a todo custo.
Quanto ao esvaziamento dos cultos católicos não há necessidade de explanação maior, pois basta visitar igrejas para observar o quanto os fiéis estão se distanciando das eucaristias e dos ensinamentos cristãos. Geralmente as mesmas beatas são encontradas e poucas são as feições novas que deixam seus afazeres cotidianos em nome do fortalecimento espiritual.  Talvez o mesmo venha ocorrendo nos corações e nos lares. São poucos os templos erguidos para Deus dentro do próprio ser. As orações perante os oratórios ou nos recantos apropriados para a hora da Ave Maria também não ecoam mais como noutros tempos.
Mas é outra feição da religiosidade, ou a tradição advinda de seu calendário, que inversamente se expande a cada ano. A tradição de presentear filhos e amigos com ovos de páscoa parece expandida a cada ano. E também parece não haver qualquer crise que afaste ou diminua a procura e a compra dessa guloseima que possui mais enfeite e preço que qualquer outra coisa. Se paga um preço absurdo – os olhos da cara, como diz o outro – para encontrar lá dentro um nadica de nada de chocolate.
Desde o início do ano que as lojas e supermercados preparavam espaços próprios para os ovos da páscoa. Nas prateleiras ou pendurados, os embrulhos enfeitados pareciam dizer que venha e me compre, pois sou o mais bonito e o mais gostoso. A cabeça batia num objeto e ao olhar para o alto lá estava o ovo querendo dizer que sou seu. Os olhos se voltavam numa direção e logo encontravam um coelhinho de oitenta reais quase pulando por cima. Um verdadeiro galinheiro pascal de um mundo consumista desenfreado.
Na quinta-feira, dia 02, caminhando pelo centro da capital sergipana, tive que presenciar cenas verdadeiramente espantosas por causa dos ditos ovos de páscoa. Do calçadão avistei uma imensa fila dobrando a esquina e estranhei demais aquelas pessoas debaixo de sol escaldante, suadas, esbaforidas, quase desmaiando pelo tempo de espera. Pensei que era fila de casa lotérica ou de ponto de banco, mas não. A fila caminhava em direção a uma loja da Cacau Show. E que por sinal estava de portas baixadas para controlar o acesso, sob pena de uma furiosa invasão.
Fiquei sem querer acreditar no que via, mas acabei esquecendo aquela visão diante de outra cena numa loja mais adiante. Do lado de fora, olhei para o interior e percebi que estava com muito mais gente que na normalidade dos dias. Entrei para ver se aquela multidão era motivada por alguma oferta irresistível, mas logo tomei pé da situação: todo mundo procurando, catando, avançando sobre os ovos de páscoa ainda existentes. E era disputa tão grande que até brigas, bate-bocas e trocas de tapas existiam ali.
Percebi quando duas se atracaram por causa de um ovo médio e acabaram deixando o embrulho todo esmagado ao chão. Nem eu nem você, sua sirigaita, disse uma ao se levantar descabelada. Ao que a outra respondeu: Pois é, sua cachorra, nem o ovo nem a casca. Coisa lamentável demais. Contudo, ainda pior foi quando uma avançou sobre dois ovos que estavam nas mãos de outra e esta revidou com um sopapo na cara. Bateu e disse que se ela fosse mulher que tentasse surrupiar os seus ovos novamente. Então a outra nem pensou duas vezes e partiu pra cima pronta para a desforra. Mas não sei qual o resultado final, pois eu já estava quase correndo na calçada.
Ainda meio atordoado pelas ocorrências inusitadas, mais adiante olhei para trás e me senti como se estivesse noutro mundo. Não era o mundo de gente, de pessoas comuns, normais, racionais, mas de indivíduos sem face. E no lugar da cabeça um ovo de páscoa.

 
Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Amor, amar... (Poesia)


 
Amor, amar...
 
 
Não acredito em amores
nem em formas de amar
só existe um único amor
e uma forma de expressar
  
amar com sinceridade
amor com compreensão
amar sem meio ou metade
amor como maior devoção
  
não acredite em amores
que são como a ventania
surgem logo abrasadores
e deixa no peito a sangria
  
amar vai além do sentir
amor vai além do querer
só sabe amar quem se permitir
ter a alegria e também o sofrer.
 
 
Rangel Alves da Costa
 

PALAVRAS SILENCIOSAS – 933


Rangel Alves da Costa*


“Tempo, tempo...”.
“Quando eu era velho...”.
“Bem mais velho do que sou agora...”.
“Eu era mais novo...”.
“Bem mais novo do que sou agora...”.
“Quando eu era mais velho...”.
“Eu era menino...”.
“Eu brincava...”.
“Eu sonhava...”.
“Dizia maluquices...”.
“Fazia peraltices...”.
“E não sei por que...”.
“O tempo achou de se intrometer...”.
“Assim na minha vida...”.
“Pois quando eu era mais velho...”.
“Corria em cavalo de pau...”.
“Jogava bola de gude...”.
“Desenhava pelo ar...”.
“Brincava de se apaixonar...”.
“Corria nu pela chuva...”.
“Conversava com passarinho...”.
“Mas aí veio o tempo...”.
“Para estragar tudo...”.
“Tempo, tempo...”.
“Faz isso não...”.
“Porque tudo desandou...”.
“Quando deixei de ser velho...”.
“E fiquei menino de novo...”.
“E um menino muito estranho...”.
“Um menino muito afoito...”.
“Querendo ser gente grande...”.
“E querer ser grande...”.
“Pensar como adulto...”.
“Foi o maior problema...”.
“Eis que entristeci...”.
“A cada momento sonhado...”.
“Em tudo a desilusão...”.
“Em tudo a aflição...”.
“Em tudo a impossibilidade...”.
“De viver feliz...”.
“De buscar o contentamento...”.
“Para chegar à velhice...”.
“E na velhice querer...”.
“Ser menino de novo...”.
“Para fazer tudo aquilo...”.
“Que seria normal se fazer...”.
 

Poeta e cronista
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sexta-feira, 3 de abril de 2015

OS LOBISOMENS DA SEMANA SANTA


Rangel Alves da Costa*


A Sexta-Feira é santa e de penitências, rezas e vigílias. Desde a quarta-feira que fiéis se envolvem com os mistérios sagrados da data. Mas também lugar para outros mistérios menos religiosos e sempre assustadores. É o período do surgimento em maior monta de fogos-corredores, com a mula-sem-cabeça, e de lobisomens assustadores e torturados pelo destino do retorno a cada quaresma.
Mas antes mesmo da quarta-feira de cinzas outras monstruosidades começaram a amedrontar por todas as regiões. O monstro do preço, da carestia absurda dos alimentos próprios da data. Verdadeiramente absurdo o que se cobra por um quilo de bacalhau de baixa qualidade e procedência duvidosa. No mínimo setenta reais. Os outros pescados não ficam atrás. Não se paga menos de quarenta reais por um quilo de surubim, vermelha ou qualquer peixe grande de água doce. O coco ralado, pequeno, que estava por quatro reais, logo passou a sete. Batatinha, coentro, azeite, tomate, tudo vendido a preço que chega a ser uma afronta ao bolso assalariado.
Quem é apreciador de camarão e resolveu adquiri-lo, certamente chegou perto de enfartar, de ter um chilique na hora. Um quilo de camarão pequeno não custa menos que cinquenta reais, setenta dos médios e chegando a cem dos grandes. Não é menos do que isso um quilo de pitu de água doce. Com razão, um amigo sempre repete que não se conforma de jeito nenhum com o preço cobrado pelo pescado. E justifica: porco, gado e bode, que demandam alto custo na criação, suas carnes são vendidas a preços baratos demais com relação ao pescado. E pelo que sabe nenhum peixe ou camarão é criado em pasto durante anos e provocando constantes despesas ao criador.
Voltando aos outros temores da Semana Santa, verdade se diga que as preces não se voltam apenas aos reverenciamentos sagrados. Muitas mãos se juntam, muitos joelhos se dobram, muitas bocas murmuram, rogando a Deus para não serem avistados nem alcançados pelos olhos vermelhos, dentes afiados e cabeças flamejantes, dos seres assustadores que vagam nas escuridões dos quintais, nas estradas, próximos aos cemitérios. Aqueles que já tiveram a desdita de se deparar com os bichos da quaresma afirmam que não é nada religioso estar diante de um pecador voltado do outro mundo num corpo de bicho afogueado.
Os relatos de avistamento de lobisomens e mulas-sem-cabeça sempre se acentuam quando tem início a quaresma, e por quarenta dias permanece o medo desenfreado. Contudo, são nos três dias da Semana Santa que as estripulias acontecem mais. E da quinta para a sexta então. Correrá sério risco aquele que se arriscar a caminhar sozinho pela noite ou madrugada, ainda que se diga que tais bichos só fazem assustar sem cometer qualquer mal contra a pessoa. Mas um susto “assustador” possui consequências terríveis, e muita gente já se perdeu pela mata depois de uma carreira no meio da escuridão.
Conheço um sertanejo que enlouqueceu depois de avistar no quintal um lobisomem que até falava. E falando disse o seu nome, e outro não era senão o safado do sacerdote que ao bater as botas deixou mais de dez filhos espalhados pela paróquia. Depois de morrer passou a retornar como lobisomem para pagar seus pecados. Já outro, com praga rogada pela própria mãe cansada de apanhar do filho ruim, voltava como fogo-corredor. Era avistado correndo pelos quintais e caminhos com corpo de jumento e labaredas de fogo no lugar da cabeça.
Assim, depois do anoitecer desta quinta-feira e se prolongando até o alvorecer da aleluia, muitas povoações interioranas se tomaram de verdadeiro apavoramento. Fruto de um medo que vem de longe, das primeiras raízes das gerações, desde crianças a idosos, todos acreditam na ronda noturna – e até durante as sombras do dia – das almas penadas que voltam na forma de bichos assustadores. Conheço muita gente que certamente terá a mesma sina desse pavoroso retorno. E até na cidade grande, no negrume velado dos dias. É um mundo de lobisomens.
 

Poeta e cronista
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Vida renascida (Poesia)


 
Vida renascida
 
Ao sair das sombras e das noites sem lua
ao abrir a porta e janela e avistar a rua
eis que o meu silêncio e minha solidão
foram transformados numa bela canção
 
e depois de cantar o reencontro com a vida
renascer a esperança que estava perdida
tirei toda roupa e me fiz nudez e descalço
e segui pela estrada com meu novo passo
 
como é belo esse voo em terna revoada
um caminhante sem ter pressa na estrada
cultivar a terra e espalhar o grão esperança
alguém sem idade porque eterna criança.
 
Rangel Alves da Costa