SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 6 de junho de 2018

Palavra Solta - por que proibir casamento antes dos 16 anos?



*Rangel Alves da Costa


Leio agora acerca de um verdadeiro retrocesso na legislação brasileira: “Câmara aprova projeto que proíbe casamento antes dos 16 anos de idade”. Após aproximação pelos deputados, o projeto tramitará no Senado. Se aprovado e sancionado, certamente redundará numa das maiores idiotices já praticadas pelo parlamento brasileiro. Ora, será que os nobres parlamentares não enxergam ou não sabem que, atualmente, aos dezesseis anos a mocinha já está mulher feita e apta ao matrimônio? Então novamente indago: por que proibir casamento antes dos 16 anos? Infelizmente é uma realidade brasileira que muita menina de treze anos já engravida, já tem filho, já faz aborto forçado, já pratica sexo ocasional ou rotineiro. Certamente que se tem tudo isso como absurdo, mas não deixa de ser tão real como o abandono da infância e da adolescência. Permitir o casamento antes dessa idade seria até uma forma de evitar a proliferação de meninas engravidando sem pais, de meninas que procriam e são abandonadas, de meninas que seguem descaminhos pelos abandonos depois das experiências sexuais. O casamento destas evitará um mal muito maior que a gestação de um grande número de meninas mães e sem grandes perspectivas, exatamente por falta de amparo social e governamental.


Escritor
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terça-feira, 5 de junho de 2018

COMO FOI A VIDA SEM GASOLINA



*Rangel Alves da Costa


A situação da falta de combustíveis já está sendo normalizada. Mesmo que ainda continuem resquícios da greve dos caminheiros, o que estava impedindo o abastecimento dos postos e bombas, ainda são muitas as filas de carros e motos em busca de qualquer litro para espantar a preguiça de andar a pé.
Eita povinho que tudo faz para se afastar de qualquer tipo de esforço físico, como se o carro na garagem fosse o fim do mundo e uma boa caminhada fosse o fim do mundo em purgatório. Nascido com pés no chão, de repente se imaginou guiado por rodas e pneus e agora não há quem faça que torne a vida mais prazerosa e saudável botando o pé na estrada.
Muita gente bateu pé, enraiveceu, embruteceu e até chorou, mas não pelo angustiante momento brasileiro de desgoverno e de preços exorbitantes, e sim pelo simples fato de não querer – de jeito nenhum – abrir a porta e colocar os pés ao chão para ir ao trabalho ou a qualquer outro lugar. Diziam até que não sabiam mais caminhar.
Como um mundo em seu retrato final onde só restam os escombros, assim também o fim do mundo para quem não vive sem carro e faz do posto de gasolina seu destino favorito, ainda que a cada novo dia reclamando do verdadeiro assalto “à bomba armada”. Foi uma gente assim que partiu cheio de felicidade em direção à fila formada no posto e para pagar muito além do já exorbitante valor.
Na verdade, ainda não há combustível suficiente para abastecimento nos postos. Quando chega um carregamento, então logo filas imensas se formam para abastecer em pequena quantidade. E nas filas, além dos veículos, gente com vasilhame, com litro, com balde e até mochila plástica. E, como dito, para pagar um preço sempre além daquele que já está cotidianamente caro.
Os noticiários televisivos e as fotografias dos jornais não mostram outra coisa. Houve outra face, contudo, não noticiada como deveria. O problema surgido, aliado às espertezas dos brasileiros e os maus instintos de muitos, acabaram provocando situações mais que inusitadas. De repente, bastou que as bombas zerassem para que muita gente colocasse em prática seus atilamentos e até suas propensões ao ilícito.
Como num filme onde a falta de água faz com que a população trate o precioso líquido como bem mais valioso, travando guerras e promovendo ataques, por aqui a falta de combustível nos postos não só colocou o mundo de cabeça pra baixo como fez surgir estranhíssimas ilicitudes. Até que costumeiras, mas não tão corriqueiras como foram observadas durante o “apagão gasolíneo”.
Houve um despertar sem fim de espertezas, jogos de cintura, jeitinhos e atitudes desbragadamente criminosas. Fala-se em tráfico de gasolina e óleo diesel. Fala-se em sequestro de galões de gasolina e óleo diesel, de pessoas e até de caminhões transportando combustíveis.
E muito mais. Fala-se em pagamento de até mil reais por um galão de vinte litros. Fala-se em roubo e furto de gasolina, em mistura de gasolina com cachaça e álcool etílico, em utilização até de urina na tentativa de fazer funcionar o possante. Fala-se em laboratórios clandestinos trabalhando a todo vapor para produzir combustíveis. E a certeza de enriquecimento no dia seguinte ao anúncio do invento.
Coisas mais que surpreendentes, pois se cogitou na invasão de países vizinhos e tomar seus postos de combustíveis à força. Dizem até que muito rico providenciou grandes e longas tubulações vindas diretamente das refinarias dos países vizinhos. E fato mais que estranho: poços abertos pelos quintais na tresloucada tentativa de encontrar petróleo.
Fala-se em gente saindo às ruas com relógio de ouro e gritando que trocava por cinco litros de gasolina. Pelas calçadas, não raro o avistamento de móveis e geladeiras, eletrônicos e importados, e tudo com inscrição bem visível: tudo por vinte litros de gasolina. Uma boiada em troca de uma lata de gasolina deu o tom do desespero.
Fala-se até em assalto à mão armada aos donos de veículos que ainda ousavam trafegar. O cara ia, colocava a arma perante o condutor e dizia que “ou a gasolina ou a vida”. Ou ainda: “É um assalto mano, passe aí todo o gás que tiver nesse carango”. “Desce, desce, mas não quero o carro não, só o tanque!”.
Sem invencionice, muitas queixas foram prestadas dando conta do cometimento de crimes relacionados ao roubo e furto de combustíveis. Relata um desses boletins que um senhor esqueceu no carro a carteira com notas graúdas de dinheiro, notebook e celular, mas deixaram tudo e levaram somente a gasolina. E com um bilhete: “Foi minha salvação!”.
Já outra relatou que foi sequestrada e o resgate nada mais era que dez litros de gasolina. Passou dois dias em poder dos sequestradores por que sua família não conseguia juntar o combustível. Na zona sul tomaram de assalto um carro novinho importado. Mais adiante foi encontrado com o tanque vazio. Não queriam o carro, apenas a gasolina. De outro carro levaram até o tanque inteiro.
Luzita Boca de Veludo, dona de um cabaré, teve uma ideia genial. Como a clientela estava sumida, então ela colocou abaixo da luz vermelha uma faixa: Venha trocar o óleo que a gasolina é garantida!


Escritor
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Lá no meu sertão...


O Cariri Cangaço Poço Redondo 2018 já tá me riba. AVANTE!




Quero mais (Poesia)



Quero mais


Beijei a fruta
mordi a pele
lambi a polpa
bebi o suco
comi o sumo
lambuzei
adocei
quis mais
e mais

minha bela
meu amor
um pomar
pra mim
tão doce
gostosa
apetitosa
e quero
mais.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - o Cariri Cangaço Poço Redondo se aproxima!


*Rangel Alves da Costa


Apenas nove dias nos separam do grande evento Cariri Cangaço Poço Redondo 2018. Foi o tempo todo do mundo aguardando, esperando, desesperando, com todo mundo doidinho e ansioso que chegasse logo, mas agora que se aproxima, que tudo já tá em riba, é só esperar a batida na porta e daquele que chega dizendo “oi de casa”. Tal expectativa se justifica. O Cariri Cangaço é evento nacional que chegará a Poço redondo para abrir suas portas a um tempo novo. Tempo de reconhecimento histórico-cultural e de valorização de suas riquezas e potencialidades. A verdade é que o sertão de Poço Redondo se tornará num livro aberto e cada caminho e cada passo serão transformados num mundo de história, magia e encantamento. A cultura sertaneja será bebida como água de sede. O que temos a contar e a amostrar será brilho fulgurante em todos os olhares. As nossas sementes e raízes mais antigas florescerão como bela flor de mandacaru. E a fome do saber se transformará em avidez de conhecer mais e mais. Assim o Cariri Cangaço. Assim a grande Celebração do Chão Sagrado de Alcino. Que todos venham. Todos já estão convidados. Nossos braços já estão estendidos e nossas janelas e portas abertas aos visitantes. AVANTE!


Escritor
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segunda-feira, 4 de junho de 2018

RUMBORA PESSOÁ. ENTONCE ARRUME O AIÓ E O EMBORNÁ. O CARIRI CANGAÇO POÇO REDONDO TÁ EM RIBA!



*Rangel Alves da Costa


Tanto avexame que num sei não, viu! Um trabaio da molesta, um vem pra cá e vai pra lá que deixa o cristão doidim, mai tudo agora na paz de Deus. Adespois da ferroada o mé, cuma já dizia cumpade Virgulino.
Aina farta arguma coisa, é verdade, mai nada que faça cumê o juízo. Tudo foi cosido, costurado, arremendado e alivanhado dum jeito, que agora mai parece um nó que num desatravanca mais. Tudim em riba, graça a Deus, Ou, cuma dizia Zabelê, só farta botá na mesa.
E espaiá. Botá na mesa e espaiá pra riba e pra baixo desse Poço Redondo a festança maior do mundo. Coisa boa, cumpade. Nunca se viu nada iguá nas quadrança. Gente de num acabar mais. Do Ceará a Paraíba, do Rio Grande do Norte a Pernambuco, das Alagoas a Bahia, do Maranhão ao Piauí, tudim de gente que vem praqui.
Quem se alembrar dos preá por todo lugar, saino dos mato e invadino a cidade, saino das loca e pegano caminho, bem assim vai ser o meio mundo de gente tomano Poço Redondo intero. Tem um tar de Mané Severo que dixe chegar trazeno mai que o bando de Lampião, só junto dele, afora os outo que pra cá vai se bandear.
Verdade ou não, meu cumpade Belarmino, mai vi dizer que vai ser mai gente em quatro dia que no resto todim do ano. Gente das leitura, das escrita, das sabedoria e dos ané. Mai tomem gente simple cuma a gente mermo, que vem só pelo gosto de conhecer o que esse sertão tem pra mostrar. E cuma tem cumpade, e cuma tem!
Lá nos asfarto num tem Maranduba não, munto meno tanta histora cuma tem a Estrada do Curralim. Quem do lá longe tem um pessoa que nem Arcino? Eita cabra sabido era Arcino. Um homi quase sem estudo mai que ensinou o sertão ao mundo todim. Histora do cangaço, das botija, das coisa veia, tudim ele tanto contava cuma escrevia. E sem falar no chorado da viola caipira que ele tanto gostava. Arcino, Arcino, quanta farta vosmicê faz a esse sertão Arcino!
Faiz bem o povo todo chegar aqui e pisar no chão que sua havaiana pisou e sentir de perto o que vosmicê tanto amou como um fio. Faiz munto bem esse povão todim beber da cacimba da gente e adespois querer vortá pra matar mais a sede. Faiz munto bem esse povo todim cunhecê cuma nóis é e o que nóis tem pá adespois saber contar direito a nossa histora.
Cuma diz o cumpade Volta Grande, cabra aina hoje metido a cangacero e que diz trazer no sangue um bando intero, nada mió do que avistar, merma sem vê, aina a cangacerama, Lampião de valentia sem iguar e aquele povo cherando a suor e prefume. Muntos deles daqui mermo, daqui do Poço Redondo. Quem num se lembra de Adília, de Sila, de Cajazeira, de Enedina, de Zabelê e tantos outo?
Povo que tomem vem sentir o sol do sertão. Pru todo lugar o clarão dum mundo de tanta luta e tanto e sofrimento, mai tomem de valentia sem iguar pra vencer os tempo ruim. E adespois aina sorrí orguioso de ser sertanejo. Eu tomem sô, e munto. Nada iguar a essa terra que chameja no coração o fogo bom do renascimento.
Entonce é só espera. E é já já. A festança já tá em riba e aqui só quero arrecordá um escrito que um fio de Arcino escreveu, que ouvi dos outo e munto gostei. Mai mudei um tiquim e nos meu veuso ficou ansim:
“Meu sertão está em festa, só diz que é ruim quem num presta, apois vai ter Cariri Cangaço que na histora tem seu laço, que traiz home de valor, estudioso e dotô, pra conhecer o sertão que Arcino tinha no coração. Vai ter palestra da boa, vai ter cantoria e loa, vai ter pife e xaxado, vai ter munto lugar visitado. Abra logo a cancela, a porta e a janela, chame o povo pá entrar cuma se fosse do lugar. E pode gritar e dizer que o que vai acontecer ninguém vai mai esquecer”.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Cangaceiros, volantes e atrevidos, AVANTE!