SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 5 de agosto de 2018

Toda linda (Poesia)



Toda linda


Minha namorada é linda
tudo é lindo na minha namorada
desde a face de cor amorenada
à boca de doçura caramelada
tudo é lindo em minha namorada

não exagero em pensar assim
conheço a certeza que há em mim
sei o que é violeta e o que jasmim
e sei quando a beleza é bela sem fim

por isso sei que minha amada é linda
há na boca um rio e nos olhos um mar
há pétala na pele e uma flor a brotar
há um jardim secreto que sei encontrar
e um favo de mel que me quer adoçar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – ontem, sem pressa...



*Rangel Alves da Costa


Ontem eu amanheci sem pressa alguma. Aliás, muito diferente do que geralmente ocorre, onde as correrias do dia a dia acabam transformando a vida num trem se trilhos abertos. Mas ontem foi diferente, pois a única pressa que tive foi de abrir a porta para sair por aí, para caminhar, para trilhar veredas e caminhos pelos arredores e mais adiante. Calmo e lentamente, então segui além da cidade. Fui andando, andando, andando. Simplesmente assim, na leveza de brisa. E pela estrada mirando o mato, olhando os bichos, avistando cada pequena coisa em seu devido lugar. A pedra, o calango, a macambira, o xiquexique, o mandacaru, a vereda aberta, o ninho do passarinho, a casinha de beiral de estrada, os sons e as cores. De vez em quando, em cima de uma pedra maior, uma parada para uma reflexão mais apurada, para uma meditação mais aprofundada. E de repente dialogando com o silêncio, conversando com a pedra, os bichos, com os seres e as coisas da natureza. Depois, não sei que era hora depois, enfim retornei. E voando, voando, voando. Sim, numa paz tão profunda que eu parecia voar.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

sábado, 4 de agosto de 2018

AQUELA CURVA DO RIO



*Rangel Alves da Costa


Logo ao amanhecer deste sábado eu segui rumo ao Velho Chico. Belo São Francisco, que mesmo sem a pujança caudalosa de antigamente, ainda encanta e maravilha a quem sua feição avistar. E foi para esse encantamento que segui viagem.
Ali pertinho. Da cidade de Poço Redondo, no sertão sergipano, até suas beiradas, são apenas 14 km. Primitiva aldeia, antigo porto, lugar que no passado foi de grande fluxo comercial, atualmente Curralinho sobrevive basicamente do que o Velho Chico ainda possa oferecer.
Como dito, já não oferece como antigamente, pois as águas magras, a falta de peixes e as carências de seu povo, provocam um sentimento de verdadeira aflição. Basta olhar para as calçadas altas agora distantes cerca de quinhentos metros para as águas, para sentir quanto definhamento ocorreu.
Mas nem tudo perdido. O rio ainda corre belo e ainda escorre toda uma vida no seu percurso. Um rio de passado fabuloso, de tantas histórias, de embarcações grandiosas, de lugares progressistas às suas margens, de caminhos grandes entre as águas. Agora quase apenas o rio ou o que ainda lhe resta.
O que ainda lhe resta é grandiosamente suficiente para deleitar olhares, corações e mentes. O espelho d’água manso, a correnteza sem pressa, o remanso leve, um leito que descortina na curva do rio e vai seguindo em frente com seu destino de vida.
Mesmo poucas, as águas alargam-se como que em imensidão. Suas margens molhadas, cúmplices daquele destino, bebem de sua vida e verdejam mesmo em meio à sequidão sertaneja.
As canoas e outras pequenas embarcações ora são avistadas miudinhas em meio ao rio, ora adormecem silenciosas nas suas beiradas. A rede de pescar é levada apenas pelo costume. A tarrafa é lançada apenas pelo desejo de arriscar. Nunca aparece além de uma piaba ou outro peixe pequeno.
Estar às suas margens é ter diante do olhar um livro aberto. Assim por que aquele rio não é apenas aquele rio. Aquele rio leva em cada água nova o que as águas passadas já levaram, apenas com outra feição. Daí ser possível avistar quase todas as vidas do Velho Chico.
Eu por ali, caminhando devagar ou mesmo adentrando seu leito, de repente me via olhando para trás em direção às calçadas altas. E tão altas assim para que as grandes cheias não permitissem que as residências ribeirinhas ficassem tomadas de águas.
Neste confronto entre as águas de agora e a existência ainda de tais calçadas altas, logo me via imaginando como seria aquela imensidão de águas correndo entre beirais altos, serras e calçadas. Água muita e por todo lugar. E no se u leito, as antigas embarcações passando, chegando, partindo.
Em situação assim, de indescritível pujança, é possível ainda avistar aquelas senhoras arrumadas, bem penteadas e perfumadas, sentadas em suas cadeiras de balanço e de olhos fixos na vida e no percurso do rio. Miravam a curva do rio como se sempre desejosas de que as carrancas despontassem, os apitos ecoassem, as lanchas e os vapores desfraldassem suas bandeiras de chegada.
Quanta saudade eu então senti daquelas mulheres e seus olhares, e suas calçadas, e suas cadeiras de balanço, e seus maravilhamentos com os vultos despontando ao longe, na curva do rio, e logo se transforma em forma viva de adoração. Cada passagem era uma festa.
A curva do rio ainda está lá. O rio ainda desponta de lá. Mas de lá pouco aparece que possa encantar além do próprio rio.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Chuvarada no sertão



Muito mais (Poesia)



Muito mais


Às vezes
somos muito mais
do que apenas somos

outras vezes
infinitamente mais
do que podemos ser

e todas as vezes
que o além da conta
toma conta de nós

saímos do amor
e viajamos na paixão
para o que não sei dizer.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – cabaré



*Rangel Alves da Costa


Tudo se modernizou demais, até mesmo os cabarés. Coisa muito mais interiorana, mas é sempre bom recordar dos bregas nos escondidos, das casas das luzes vermelhas, dos bordéis de beira de estrada, dos cabarés matutos. Sem suntuosidade arquitetônica, apenas uma casa acanhada de portas abertas. Lá dentro a vitrola apaixonada, a radiola em breguice desenfreada, o som de cortar coração para o deleite dos bêbados e das prostitutas. Ambiente escurecido, um tanto misterioso, cheirando a limão, a cachaça e a perfume barato. Sem falar nas podridões encardidas dos sexos descuidados e dos quartos e lençóis tingidos de impurezas. Mesinhas espalhadas pelos cantos. Numa, a velha prostituta vira o resto de rum entre lágrimas e saudades. Noutra, a balofa vai acertando os últimos detalhes para o namoro. Dois contos, cinco contos. E ainda noutra a mocinha envelhecida implora uma aguardente. Lábios vermelhos, olhos vermelhos, rostos vermelhos, tudo vermelho. Noite após noite e assim. Sexos encardidos, perfumes nauseantes, bebida barata, prazeres venais de pouco valor. Vidas de pouco valor. Noites de tormento e dor.


Escritor
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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

SERTÃO, FORÇA E FÉ




*Rangel Alves da Costa


O sertanejo sempre cultivou fervorosa religiosidade. Seja na cidade ou no campo, na casa arrumada ou na tapera, dificilmente não se encontram as mais singelas demonstrações de fé. O anúncio na entrada dizendo que Deus protege a casa, retratos e imagens de santos, vela acesa, o antigo oratório como miniatura do céu. Além, logicamente, da devoção presente em cada coração.
Lugar de beatices, fanatismos, promessas e devotamentos, o sertão é a síntese de uma religiosidade que não existe mais noutros lugares. A devoção é tamanha que nenhum tipo de sofrimento - seca, fome, sede, miséria - é imaginado como falta de piedade divina. E sim como culpa do próprio homem enquanto pecador e suas desastrosas ações sobre a terra.
Nos momentos mais difíceis, naqueles períodos em que a desolação toma conta dos quadrantes esturricados pelo sol escaldante, ainda assim é na religiosidade que se apegam na esperança de dias melhores. Então se avolumam as rezas e as promessas, os terços e rosários ficam mais desgastados, os joelhos se dobram com muito mais devoção e fervor.
Quanto mais humildes, pobres e calejados são os sertanejos, mais se entregam aos poderes de Deus, à força dos santos e dos anjos bons e a tudo que, sob o manto da religiosidade, elevem sua fé, sua proteção diante das dificuldades da vida e a sempre alentada esperança de salvação eterna. Muitos ainda possuem o jejum como obrigação, combatem fervorosamente os pecados mundanos, vivem segundo ordena cada conta de seu terço de todo dia.
Assim se expressa a religiosidade de um povo que, ao lado dos cultos oficiais, também se lança entusiasticamente na adoração de outros dois principais protetores, ou santos nordestinos, como preferem dizer: Padim Ciço, o Padre Cícero Romão Batista, e Frei Damião, o missionário e milagroso capuchinho. Em muitas casas e casebres, ainda que sobre a velha mesa não exista qualquer jarro barato de enfeite, será possível afastar as duas imagens dos dois santos sertanejos.
E um sertanejo entristecido pelo sol de mais de ano, vendo tudo esturricar ao redor, ouvindo o mugir do gado faminto e sedento, subiu numa montanha, fez uma oração em constrição aflitiva, depois levou à boca o berrante, deu uns três sopros dolentemente ritmados, e em seguida começou a aboiar. Expressava seu aboio triste como se estivesse declamando para o horizonte ressequido ouvir:
E entoando seu canto triste soltava suas angústias e esperanças, dizendo:
Bem-aventurados os pobres sertanejos, porque deles é esse sertão injustiçado, mas glorificado pelo Senhor.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados, terão chuva em abundância, colheita com toda fartura, comida sobre a mesa e alegria no coração.
Bem-aventurados os mansos, os pacientes, os que não se desesperam diante do sofrimento, porque herdarão a terra, e uma terra molhada, com grão semeado e a força de cada um para remover a terra até dela sair o broto, o fruto e o significado da vida do sertão e do sertanejo.
Bem-aventurados os que têm fome e sede não só de Justiça, mas também de clemência das autoridades, do olhar piedoso dos governantes, de compreensão de quem desconhece essa vida e de quem vê tudo isso e se faz de fingido. Porque precisamos também ser fartos dessas coisas que o mundo pode oferecer.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão a Misericórdia, pois mesmo na terra seca semeamos a bondade, no chão ressecado da lagoa semeamos a esperança, no irmão desconhecido semeamos a amizade, e nos nosso corpo enfraquecido semeamos a prece e a oração, com a certeza de que Deus não nos faltará.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a face e Deus, e assim é o coração sertanejo, na sua vida para o trabalho, na sua lide sem mágoa, na sua vontade de sempre doar, ajudar o irmão. E se não faz aquilo que não pode é porque também está semeando para um dia fazer muito mais.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. E é por isso que o manto da paz se estende sertão adentro, lavando com as águas do tempo o sangue inocente que escorre e fazendo desse sal da vida um chamando para que vivamos em paz e comunhão.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição dos poderosos, das autoridades, dos governantes, daqueles que deveriam ser a mão estendida e se comportam como algozes, pois o pequeno Davi matuto derruba com o sopro da força divina todo aquele que nos olha com o olhar de Golias.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem, perseguirem e mentirem, dizendo todo mal contra vós por causa do Senhor. Não, não nos farão trocar nossa fé pelas promessas mundanas nem nosso Deus por ídolos sem altares, pois em cada barraco de taipa há uma imensa igreja e dentro dela um céu também de barro e com anjos nus, e ainda assim sorridentes e felizes.
Então exultai e alegrai-vos irmãos sertanejos, porque é grande a glória que descerá dos céus, porque de sede e de fome também sofreram os profetas que vieram antes de nós.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com