SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Lá no meu sertão...


Fé e devoção do povo sertanejo. Procissão de São Sebastião em Bonsucesso, povoação ribeirinha no município de Poço Redondo, sertão sergipano. 1





Razões de viver (Poesia)


Razões de viver


Não quero muito
para viver o meu dia
e ser feliz e ter alegria

a chuva caindo
com xícara de café à mão
uma saudade boa
pulsando no meu coração
uma porta aberta
e uma estrada de chão
uma vela acesa
e a face de Deus na oração

e do amor que é tudo
o sorriso e o abraço dela
como sol entrando pela janela.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - fio da navalha


*Rangel Alves da Costa


A navalha é ríspida, é bruta, é voraz. A navalha é arrogante, é violenta, é insensível. A navalha é cortante, é flamejante, é sanguinária. A navalha é odiosa, é tediosa, é aflitiva. A navalha é espinhenta, é quentura, é fornalha. Nela, na navalha, há ânsia e desejo de ferir, de matar, de sangrar, de esvair a vida. Mas não temo a navalha. Temo muito mais um olhar, uma voz, um silêncio. Eu que já andei por cima de brasa viva, já caminhei por cima de pedras e espinhos, já escaldei em caldeirão de fogo, já bebei do veneno mais mortal, ainda assim prefiro tudo isso novamente a um olhar, uma voz, um silêncio. E não deixo de ter razão. O fio da navalha me sangra, mas a cura não é demorada. O fio da navalha me lanha a pele, mas logo estarei sarado. E o olhar, a voz, o silêncio? Nada mata mais que um olhar maldoso, frio, covarde. Nada estraçalha mais que uma voz que chega com cano e espoleta. Nada dizima mais que o silêncio premeditado, calado somente até o grito eclodir. Prefiro, assim, a navalha. Ou o fio da navalha que apenas marca e não acaba.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 22 de janeiro de 2017

ENTRE UM CAFEZINHO E OUTRO


*Rangel Alves da Costa


E agora me vem à memória aquele entardecer sertanejo e o aroma de café torrado subindo pelo ar. Era a delícia de Dona Lídia, na Praça da Matriz, que a todos encantava quando sua chaleira começava a ferver.
Tantas e tantas vezes que fui lá implorar um tiquinho para saciar minha sede do negro sabor. Implorar por que logo a casa estava cheia com gente esperando o seu tiquinho. Mas dava para todo mundo, mesmo que nova remessa tivesse que ser providenciada.
E agora, de xícara à mão e um café qualquer, relembro Dona Lídia e tantos outros conterrâneos que já partiram em adeuses de lenços molhados. E entre um cafezinho e outro vou a tudo revivendo com uma saudade de filho ausente.
Sem dúvida que é entre um cafezinho e outro que as recordações se avivam no pensamento. O café desperta e a memória vai chamando o passado distante, o ontem e até o instante atrás. Reflexões surgidas entre goles e recordações.
A verdade é que muito se faz entre um cafezinho e outro. Alguns fumam cigarro, charuto ou cachimbo. Alguns esfarelam na boca a bolacha que foi mastigada como companhia. Outros bebem um pouco de água. Tanto faz.
Tanto faz por que o cafezinho passa a ter existência própria depois de sorvido. Anima, revigora, fortalece, e chama outro cafezinho quando já sente esvaindo sua permanência. E entre um cafezinho e outro o dia se alimenta do oloroso sabor.
Também vivo entre um cafezinho e outro. Ou cafezão e mais outro e outro, pois sempre forte e sem açúcar. Sou ávido por café, eis a verdade. Tanto assim que minha madrugada somente passa a ser vivida depois da primeira xícara.
Mas prefiro chamar de cafezinho. Bebo sempre em xícara pequena, então soa melhor chamá-lo de cafezinho. E de repente me vejo esquentando a água para depois derramar sobre a xícara já com as duas pequenas colheradas de café solúvel.
Não gosto de café assim, mas não há outro jeito. Creio ser muito pior o café em pacote, que sempre desce muito fraco e sem qualquer gosto. Nas ruas ainda encontro café forte nas máquinas de lanchonetes e padarias mais antigas. Mas são raridades.
No centro de Aracaju, por exemplo, onde no passado da José do Prado Franco a escolha era difícil ante tanta marca boa de café pelos balcões, agora somente duas ou três opções. Ainda vale a pena um cafezinho numa lanchonete do calçadão, mas principalmente na antiga e pitoresca Luzitânia.
O bom café é sentido ao longe. Tão reconhecível é o cheiro do bom café que nem precisa observá-lo descendo na xícara para certificar sua qualidade. Verdade que quanto mais negro, mais encorpado e oloroso melhor, mas o aroma já garante sua qualidade e sabor.
De vez em quando, quando estou de xícara à mão, relembro os antigos e verdadeiros cafés de bule, de chaleira, de aromas e gostosuras. Café batido em pilão, peneirado no meio do café e preparado em fogão de lenha. Coisa das antigas vovós. E quanta saudade.
Muita gente sertaneja do passado se negava a colocar na boca café de mercearia, já vendido em pacote. Dali apenas o café em grão, ensacado, para depois ser batido em pilão e preparado ao modo do quintal. Por isso tanta gostosura naquelas manhãs e noites sertanejas.
Como não posso voltar no tempo e é muito difícil encontrar o café ainda batido em pilão, então procuro me contentar com aquele que possa dispor. Somente a memória aromatiza a xícara com as lembranças passadas.
Mas seja de que jeito for, é entre um cafezinho e outro que muito acontece na vida. Principalmente na pessoa que segura a xícara e junto dela vai procurar um local ideal para beber aos pouquinhos. É como um ritual de experimentação e encontro. De afeto e abraço.
No meu caso, entre um cafezinho e outro me torno poeta, escritor, filósofo, sábio, profeta, viajante no tempo. É que ao chegar aos lábios e ao escorrer pela boca, o café acaba me transportando para situações jamais imaginadas em outras circunstâncias.
Caminhando para perto da janela, ao longe avisto ainda o meu sertão. Ruazinhas de areia e pedra, casinhas miúdas e cadeiras pelas calçadas, vizinhas conversando de vassoura à mão, um velho sertanejo que pinica seu cigarro de palha num tronco mais adiante.
A festança dos meninos debaixo da chuva, todos nus e felizes demais no viver. As correrias por cimas dos lamaçais e as fugas em direção ao riachinho. Fugir dos olhos dos pais para tomar banho nas águas do riachinho era desafio e experiência única na infância sertaneja.
Seguir ainda em direção à casa de Dona Lídia. Como quem não queria nada, arranjando uma desculpa de encontrar Zé Veinho. Mas nada disso. A intenção mesmo era pedir um golinho daquele café que ainda hoje não me sai da memória. E que até me faz lacrimejar.


Escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Pôr do Sol no Reinado de São José, em Poço Redondo, sertão sergipano - 3






O bom da vida (Poesia)


O bom da vida


Tenho asas
e voo

pássaro
que sou

e vou
em voo

ao meu
amor

de lá
voar

amar
no ar

tão bom
sonhar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - as outras canções dos gatos


*Rangel Alves da Costa


Outro dia aqui escrevi que os gatos também cantam. Mas suas canções não alegram nem contentam corações. Por isso mesmo que não sei se o que ouço são canções ou lamentos entoados. Nas altas horas da noite, quando minha solidão se faz mais profunda e triste, quando todos os álbuns e retratos já entraram e saíram de minha mente, e o meu travesseiro já não sabe se é pano ou lenço, então me chega a canção do telhado. Canto alto, gritante, pesaroso, dolorido demais. Um gato, dois gatos ou mais, uma sentinela de adeus ou uma incelença de abandono e desvalia. Gatas tristes, carpideiras, funestas, ecoam seus lamentos bem acima da minha noite e do que me resta viver. Gatos tristes, soluçantes, ressoam seus prantos em vorazes brados.  Então abro a janela, subo pela parede e vou ao telhado. E começo a cantar a mesma canção dos gatos: solidão, solidão, solidão... Mas acabei descobrindo que os gatos também cantam outras canções. Ninguém as ouve porque são tão silenciosas como bocas de palavras presas. Sofrem sem grito ou gemido as ausências e recordações. Apenas lançam seus olhos incandescentes em direções que a noite esconde. E lá avistam os amantes em suas refregas e as desmedidas entregas. Mas são seres humanos. E os gatos talvez não mereçam amar assim. Mas apenas sofrer nas noturnas solidões.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com