SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Palavra Solta - operação prende tudo


*Rangel Alves da Costa


O Brasil necessita urgentemente de uma varredura ampla, geral e irrestrita, como se costuma dizer. A nação precisa reencontrar seu caminho do progresso, do respeito, da autoestima, do crescimento social e econômico. É de urgência que se faça renascer os valores éticos, morais, ordeiros. Não há ordem e progresso com desordem e corrupção. Será preciso que o Estado Democrático de Direito seja também o preceito máximo da liberdade e do respeito, mas também a chave para combater seus corruptores. Será preciso cumprir a lei, observar os princípios da moralidade pública, administrativa, política e de gestão. Será mais que necessário apurar as ilicitudes cometidas desde o grão à montanha e penalizar os infratores, do anão ao gigante. Situações existem que estão tão vergonhosamente entranhadas, que não mais será possível sequer separar o joio do trigo. Tem que se agir por assimilação, por similitude, pois tudo farinha podre num mesmo saco. Então prende tudo. O Brasil necessita urgentemente de uma Operação Prende Tudo. Mas tudo que já se mostrou apodrecido desde a raiz. Então que se expeça mandando de prisão contra assembleias, câmaras, órgãos estatais, grandes construtoras, ministérios, secretarias, palácios, planaltos, partidos políticos. E prende tudo: empreiteiros, secretários, ministros, governantes, parlamentares, chefes, assessores. Ora, pra todo lado que se mexer aparece lama putrefata, então será preciso saber onde não está infectado. Contudo, por precaução, interdita tudo.


Escritor
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

MARIA DAS LÁGRIMAS


*Rangel Alves da Costa


Uns diziam que era por safadeza, outros diziam que a mulher era chuvarada mesmo, mas de qualquer modo nunca se viu nada igual: a mulher chorava tanto, mais tanto mesmo, que enchia até tanque e açude.
Num momento estava seca de secura da terra e estiagem, já no outro ao desabrido chuveiro de mil soluços. Num instante e seu olhar apenas olhar, sem nada além que o molhado dos olhos, mas já no outro com todas as comportas abertas e aquele mundão de água querendo tudo devorar.
Mulher choradeira da gota serena, dizia um. Já outro acrescentava: Deus me livre de estar perto dela quando começar a chorar. E era realmente de admirar e espantar aquela propensão ao choro e a forma de chorar. Ora, não chorava, apenas derrama dos olhos um carro-pipa a cada segundo.
Para se ter uma ideia, a casa dela ficava numa encosta, com o chão pendido de lado e com abertura por quase todo o pé de parede. E assim para que as águas de suas lágrimas escorressem adiante assim que começasse a chuvarada nos olhos. Providência mais que necessária diante do tsunami de repente surgido.
A chuvarada escorria dos olhos e se derramava encosta abaixo, levando em enxurrada tudo o que encontrasse pela frente. Acaso as águas não encontrassem pronta saída, não demorariam muito para encher a casa inteira, subindo pelas paredes até o telhado, deixando submersa a choradeira. E o pior é que a dona do mar aberto não sabia nadar.
Chorava por tudo, a mulher. E chorava em demasia. Viúva, Maria das Lágrimas, como assim era chamada, estava permanentemente proibida de chorar sua viuvez dentro de casa. Não só a viuvez como qualquer choro. Os moradores debaixo da encosta providenciaram abaixo-assinado para impedi-la de despejar quaisquer tipos de lágrimas lá de riba.
Por isso mesmo que só podia recordar do falecido esposo após descer a ladeira e se postar rente a um riachinho que havia por ali. Levando na mão um retrato ou qualquer peça de roupa do defuntado esposo, logo começava a chorar e a derramar água no leito adiante. Não demorava muito e o riachinho já estava em correnteza.
Certa feita, enquanto estava lamuriando sua saudade da vez e pensando nos dotes camísticos de seu falecido, avistou uma cueca samba-canção num varal adiante e logo lhe veio à mente aquele que ele mais gostava de usar para fazer safadeza. Então ela se derramou de vez. E desta feita a cheia do riachinho derrubou mais de dez casas pelos arredores.
Mas não demorou muito e pessoas da comunidade encontraram um meio de proporcionar utilidade àquelas enxurradas de lágrimas. Como a região estava seca demais, com a terra esturricada e os tanques já rachados no barro, então resolveram que Maria das Lágrimas poderia ser a salvação de muita gente e de muito bicho.
Tramaram, maquinaram, resolveram colocar em prática a ação. Cremêncio foi incumbido de despertar paixão naquele viúvo coração. Bateu à porta de Maria das Lágrimas com uma rapadura à mão e olhar adocicado que só. A mulher se encantou na hora. No mesmo instante se apaixonou pelo solteirão. Na mesma hora, ele tacou-lhe um beijo que a viúva quase desmaia.
Um encontro amoroso foi marcado na manhã do dia seguinte, bem ao lado da barragem seca que abastecia a povoação. O safado do Cremêncio já sabia o que fazer para que em pouco tempo a barragem novamente ficasse cheia. Chegou no horário combinado e ela já estava lá por detrás de uma moita, toda afoita e tremelusca, doida pra dar.
O safado logo acenou para que ela se aproximasse da beirada da barragem. Assim que ela quase pula em seus braços, ele recuou e disse que, pensando bem, era melhor que aquilo não acontecesse, pois ela era mulher viúva e respeitada, e por isso mesmo não poderia trair sua honra. E foi se afastando. Ali em pé, sem acreditar no que ouvia, a fogosa se derramou em tamanho pranto que mais parecia mil trovoadas caindo de uma só vez.
Em dois minutos a barragem estava cheia. Daí em diante foi uma fila imensa de homens a encher barragens, tanques e lagoas, com as lágrimas da mulher sempre enganada. Mas um dia ela não chorou. Não chorou por longo tempo a partir desse dia. De tão enganada, acabou ressecando tudo por dentro. Numa tarde, abriu a porta da casa lá no alto onde morava e olhou adiante para aquele mundo de mentiras, falsidades e enganações.
Então chorou toda a mágoa do mundo. E toda a cidade foi destruída e levada pelas enchentes.


Escritor
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Lá no meu sertão...


A mulher mais linda do mundo...




Quando ela partiu (Poesia)


Quando ela partiu


Acordei com o seu olhar
sobre o meu olhar
a se despedir

não tinha palavras
mas na voz do olhar
dizendo partir

sequer se despediu
com beijo e abraço de adeus
e se pôs a seguir

do portão eu olhei
minha metade ir embora
e morri.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - boleros noturnos de um coração solitário


*Rangel Alves da Costa


Os corações solitários se fecham em suas noites para a nostalgia e o amor em memória. Tudo na relembrança dos tempos idos e seus perfumes noturnos, das taças e cálices esperando mais uma bebida, de luzes brandas avermelhadas escondendo as faces sofridas. Amores e paixões do anoitecer ao amanhecer, esperas e desesperanças ao cintilar da lua, caminhos de volta no cansaço da solidão. Os tempos são outros. Os bares, botequins, cabarés e casas noturnas fecharam as portas. As vitrolas já não cantarolam os boleros apaixonados. O cheiro de perfume e limão, de hálito carregado e suores etílicos, já não existem na noite. Apenas noites de solidão e saudades de um tempo que se foi sem deixar seus rastros. E por isso, nos escondidos da noite, entre paredes e portas fechadas, apenas a solidão de copo à mão e o passo ébrio querendo dançar enquanto a boca molhada pela lágrima que desce, se abre para cantarolar: Siempre que te pregunto que, cuándo, como y donde. Tu siempre me respondes quizás, quizás, quizás. Y así pasan los días y yo, desesperado. Y tú, tú contestando quizás, quizás, quizás. Estás perdiendo el tempo pensando, pensando. Por lo que más tú quieras hasta cuándo? Hasta cuándo? Y así pasan los días y yo, desesperado. Y tú, tú contestando quizás, quizás, quizás.


Escritor
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domingo, 19 de fevereiro de 2017

TRISTES COSTUMES (OU O NOVO ENVERGONHANDO A VIDA)


*Rangel Alves da Costa


Creio ainda não ter envelhecido completamente para que alguém ouse dizer que minhas palavras são ultrapassadas pela idade ou que já não são mais ouvidas nos tempos modernos.
Também não importa o que digam se o que prego é apenas o respeito com os costumes, as tradições, os sentimentos e as raízes de um povo. Mesmo que o novo seja tão necessário, mesmo que em tudo exista refazimento, preceitos existem sem os quais os povos perderão sua identidade de permanência.
Em nome dos valores humanos, daqueles preceitos repassados como ensinamentos de vida, sempre continuarei enaltecendo os bons costumes da vida. Mesmo tantas vezes não aceitando, respeito o novo em nome das liberdades, porém não posso pactuar com os modismos que não somente negam como afundam os valores mais preciosos ao ser humano.
Tais palavras preliminares sintetizam bem o que no dia de ontem pude presenciar, ou o desprazer de ter de vivenciar. Um simples fato numa cidade interiorana de hoje: um velório numa esquina e a poucos metros dali uma festança preparada, com o som nas alturas já desde muito cedo.
Como dito, um simples fato numa cidade interiorana de hoje, mas impensável de acontecer a poucos anos atrás. Ademais, uma questão de respeito e solidariedade humana que deixa de ser considerada em nome da festa, da alegria, da cantoria, da dança e da bebedeira. Tudo como se tanto fizesse a morte de um ser humano tão profundamente enraizado na comunidade.
Pela proximidade dos dois eventos tão contrastantes, certamente que a família enlutada e todos aqueles que velavam a vida partida estavam forçados a ouvir o som estridente vindo dos preparativos da festa. E no meio da noite, acaso alguma reza de encomendação de alma fosse entoada, seus lamentos estariam entrecortados pelos altos acordes da festança.
Não sei se houve sentinela nos moldes antigos, onde, durante a noite inteira, as rezas e os lamentos antecedem o sepultamento. Mesmo que assim não mais aconteça, certamente que o velório continua no mesmo ritual de antigamente, com familiares e amigos em entristecida e chorosa vigília durante a noite inteira até a descida da última pá de terra. Mas a festança próxima durou a noite inteira, varou a madrugada e ecoou até o amanhecer.
A festa acabou já na manhã ensolarada deste domingo. Enquanto os festeiros, bêbados e cansados, extasiados e exauridos, procuram seus leitos para repousar dos tragos, das danças, das curtições, pessoas continuam velando a falecida senhora. Estes de olhares cansados e tristes, mas por motivos somente conhecidos por aqueles que conhecem a dor e a profundidade de uma perda.
A festa acabou. Talvez tenham achado tudo perfeito, principalmente se alcançou seus objetivos de lucratividade. E para tal tanto faz que incomode os vizinhos ou não, que desrespeite o repouso dos mais velhos ou das crianças, que tira o necessário descanso dos enfermos das proximidades. E principalmente tanto faz que alguém tenha morrido ou não e que logo mais adiante estejam a aflição e o pranto.
Tristes tempos estes onde o ser humano é desrespeitado, aviltado na vida e achincalhado até na hora da morte. Não há o mínimo respeito nem pelo senso de irmandade sertaneja nem pela memória em grandioso livro. Não há a mínima consideração pelo ser humano, pela dor dos familiares e amigos. Não há absolutamente nada que se diga humano em quem age assim perante o próximo.
Tristes tempos onde a dor de um é menosprezada pelo outro, onde o sofrimento de um é negado pelo outro. Mas tudo pó e ao pó há de retornar. Miséria humana se imaginar que a vida é somente viver com o brilho das ilusões. Nestes, além do pó também a miséria do esquecimento.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Ser tão sertão...