SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 24 de julho de 2018

Palavra Solta - amores falsamente amados



*Rangel Alves da Costa


Não acredito que uma pessoa termine hoje um relacionamento e amanhã já faça alguma postagem dizendo que está amando loucamente, que está apaixonada, que encontrou a pessoa de sua vida. E é tão fácil assim, simplesmente sair de um e cair nos braços de outro já amando? Sei não, viu, mas isso aparenta mais safadeza do que qualquer outra coisa. É como se apagasse num instante toda a relação existente e já edificasse outra no cimento do querer e do coração. Ou a pessoa ama fácil demais, se apaixona facilmente demais, ou apenas vai espalhando falsidades. E certamente como a dizer que cuidado senão amanhã já estará amando outra pessoa. Apenas vulgaridade, permissividade, um jogo desonroso consigo mesmo. Mas tem muita gente assim. Tem muita gente que ama por brincadeira. Hoje ama um, amanhã ama outro e assim por diante. E nesse passo a vingança da honradez. Quando pensa que está sendo amada está apenas sendo usada. Bem feito!


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 23 de julho de 2018

CINCO REAIS



*Rangel Alves da Costa


Pretendo refletir sobre o cotidiano a partir de cinco reais. Certamente dirão que é proposição descabida, vez que todo mundo sabe o valor de tal nota e o que a mesma dá para adquirir. E que nos dias atuais, aliás, não dá pra quase nada. Contudo, demonstrarei que o valor que se dá à nota possui diversas vertentes. Para uns, apenas cinco reais, quase nada. Para outros, de repente de valor imenso, pois através dela a possibilidade de fazer muito - e demasiadamente tanto - com aquilo que para os outros possui valor de quase nada. É quase a questão de se valorizar o que se tem ou valorizar ainda mais o que tanto deseja e não possui. Mas vamos aos fatos.
Vamos dizer que uma cerveja custe cinco reais. Com cinco reais a pessoa compra quantos pães? Sim, a cerveja custa cinco reais e é tomada em minutos. E os pães comprados com os cinco reais faz efeito por quanto tempo? Com cinco reais a pessoa compra uma farinha de milho e quase uma dúzia de ovos. Com cinco reais a pessoa compra uma farinha de milho e uma mortadela pequena. Com cinco reais a pessoa evita que crianças chorem com fome. Com cinco reais a família serve um café ou uma janta. E fica feliz e fica contente, ainda que seja pouco. Mas a cerveja chama cerveja. E vai mais cinco e mais cinco. De repente, apenas numa mesa de bar já estará sendo gasta a janta de cinco, seis famílias ou mais. Não estou dizendo que a pessoa ao invés de beber vá dar os cincos reais para a farinha de milho e a mortadela ou os ovos, até por que sei que muito pai gasta os cinco reais num bar e deixa seu filho com fome. Meu cálculo foi apenas para mostrar o valor de quatro copos de cerveja e o imenso valor de quatro pratos com um pedacinho de cuscuz e um pedaço de ovo ou de mortadela. Apenas isso.
Certamente vocês entenderam bem o mote da questão. Enquanto a cerveja vai sendo derramada no banheiro mais próximo, o alimento comprado com o valor da cerveja permanece por um tempo bem maior na barriga daquele alimentado. A cerveja é tomada aos goles e logo o copo é novamente cheio, e assim por diante. Bebe-se a cerveja como um tanto faz de bate-papo, como demonstração de poder ou apenas por distração cotidiana. O preço pago nem sempre faz muita falta, considerando que a mesma quantia daria para ser espalhada em duas ou três doses de aguardente. Ademais, muita gente bebe exatamente para abrir o apetite, para dali a pouco se fartar na comida. Quer dizer, além do dinheiro da conta já há outro valor que foi gasto na comida que vai se servir. Bebe uma, bebe duas, pede mais, deixa boa parte no banho e depois vai completar a barriga em prato cheio. Cinco reais ou mais quase não fez diferença para o que mais certamente tem. E o outro lado, aquela face desse mesmo valor ter outra aplicação?
Numa casa pobre, de fogão sem panela ou panela vazia, qualquer moeda é contada e recontada para ver se dá para comprar qualquer coisa. Contas e mais contas são feitas para tão pouco dinheiro. Não dá para um pedaço de carne, não dá para meio quilo de arroz ou de farinha, não dá para um macarrão, não dá para uma sardinha, não dá para meio quilo de salsicha. Vai de canto a outro, revira tostões, mas nada de encontrar outra moeda que some àquela tão preciosa. A família com fome, os meninos chorosos, a tristeza sem fim. E o que fazer, então, se todo o dinheiro juntado não dá para nada. Aquele valor não dá mesmo, não compra sequer um pedaço de toucinho, mas cinco reais sim. Ora, cinco reais é riqueza de momento, mas a maior das riquezas. Cinco reais é pouco, mas é tudo o que se deseja ter para alimentar aquela família. Como dito acima, com os cinco reais o cuscuz vai para o fogo e os ovos pra frigideira. Com os cinco reais o cuscuz saboroso vai ser partilhado com fatias de mortadela. Com cinco reais alimenta-se uma família. Pouco, quase nada de comida, mas o essencial para afastar da desonra humana a indignidade da fome.
E você, já tomou quantas cervejas hoje? Saiba, pois, que a essa hora tem muita gente que agradeceria de joelhos se tivesse o valor que você paga por apenas uma. E então, vai pedir outra ou vai permitir que algum prato tenha um pouco de cuscuz com ovo?


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Frei Enoque e Rangel



Maria vai com as outras (Poesia)



Maria vai com as outras


Maria vai com as outras
mas Maria não é as outras
o que falam mal das outras
não podem falar de Maria
mesmo indo com as outras
as outras não domam Maria

Maria é amiga das outras
e as outras amigas de Maria
porque falam de todo mundo
mas nem todo mundo é Maria
ninguém presta para os outros
nem as outras nem Maria

mesmo falando das outras
melhor respeitar a Maria
Maria vai sim com as outras
e vai também com você
aos outros você é das outras
mas Maria é amiga de você.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - Melhor dizer não de uma vez do que dizer sim entrecortado de tantos “nãos”



*Rangel Alves da Costa


O amor ama até onde haja amor. Pode ser tudo, menos amor, o sentimento que perde sua finalidade para se transformar em briguinhas, em conversinhas, em acaba não acaba, em vai e volta, em frescuras. Ou é ou não. Ora, se ama, então ame. Se não ama, então não ame de uma vez por todas. Mas prefere a gangorra, o pêndulo, o jogo, a brincadeira. Num instante de um jeito e no outro já diferente. O doce e depois o sal, a alegria e depois a raiva, o abraço e depois o empurrão. Lógico que todo relacionamento possui altos e baixos, idas e vindas, desacertos, problemas. Contudo, sem razão alguma e ficar no lengalenga, no quero num quero, num besteirol de não acabar mais. Pra que continuar assim se amanhã quer voltar? Pra que tanta frescura se depois mostra que já está tudo bem? Tudo cansa. E chega o dia em que a pedra virá pó e pronto. Tudo acabado. Não deu, não deu. Melhor dizer não de uma vez do que dizer sim entrecortado de tantos “nãos”.


Escritor
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domingo, 22 de julho de 2018

O GATO



*Rangel Alves da Costa


O gato, ah esse gato! Nunca vi um bichano igual a esse. E certamente o meu maior inimigo. Indescritível a raiva que sinto por ele.
Muitos gatos aparecem por aqui. Quando a noite desce de vez então. É gato no telhado, pulando a janela, por todo lugar. Mas esse é diferente.
Diferente por que os outros correm, somem, espantam-se quando são gritados ou ameaçados. Mas esse não. Parece esconder-se para no instante seguinte reaparecer.
Estou sentado escrevendo e de repente já avisto sua chegada. No instante seguinte já está olhando em minha direção, sempre de distância segura.
Levanto, vou até ele, o bichano corre, porém sei que não vai durar muito. No instante seguinte e já está de volta como quem nada lhe aconteceu.
Se fosse só isso ainda ia. O problema é que esse bichano parece tomado por outra coisa, por alguma forma humana para agir de modo tão insuportável.
Creio que esse gato até se acha o verdadeiro dono da casa. Quem manda é ele, quem tudo pode fazer é ele. E eu sou apenas um serviçal de seus instintos maldosos.
Panela tem que ser na tranca, assim mesmo com a chave bem escondida. Não adianta dizer que ele não alcança isso ou aquilo por que não tem jeito. Ele consegue tudo.
Mesmo com todas as portas e janelas fechadas ele aparece. Talvez desça por uma minúscula fresta do telhado ou mesmo se transforme em folha para passar entre a madeira da porta e o chão.
E não tem jeito. Quando penso que estou livra – ao menos por alguns instantes – então ele reaparece do nada. Acho até que não tem medo que eu arremesse sobre ele uma montanha.
Aqui na mesa escrevendo, quando olho em direção ao quarto, sabem o que eu avisto? O bichano todo no bem bom, todo estirado em cima da cama e dormindo tranquilamente.
Quando ouço barulho de panela, de copo, de porta abrindo, de coisa sendo arrastada, nem adianta ir atrás de outra coisa. Sempre será ele e sempre ele. Não adianta.
A situação é tão difícil que até já pensei em dar um basta nisso de vez e da maneira mais desumana possível. Ora, se ele está me aniquilando, então por que não dizimá-lo de vez, não fazer com que suma de vez da minha vida.
Preciso de paz, mas o gato não deixa. Preciso de sossego, mas o gato não deixa, preciso descansar, mas o gato não deixa, preciso de silêncio, mas ele não deixa. O bichano não me deixa viver.
Todo o lixo é embalado, embrulhado, cuidadosamente vedado. Mas ele não adianta. Ele vai calmamente e desfaz tudo. Pega o que quer, come o que quer, depois deixa o chão todo sujo e vai dormir em minha cama.
Foi por causa do gato que agora só durmo de rede. E com cuidado de não deixar estendida depois que levanto. Mas sabe o que aconteceu outro dia?
O gato arrastou uma banquinha até perto da rede, de um pulo alcançou os cadilhos, puxou o lado que dá para o outro armador e, não sei como fez isso, estendeu a rede inteirinha. Depois arrastou o banco novamente e num pulo só se deitou tranquilamente.
Outro dia pensei estar na presença de alma penada. Ouvi a geladeira se abrindo e não dei muita atenção ao acontecido. Deve ser imaginação, pensei. Mas quando me levanto e vou até a cozinha, sabe o que avistei?
A geladeira aberta e a minha goiabada aberta em cima da mesa. E bem sentado de faca à mão o gato, comendo não só goiabada como também um pedaço enorme de queijo. Peguei o restante da goiabada e tentei acertá-lo de cheio.
Depois disso sumiu durante uns dois dias. Mas outro dia eu retornei da rua e encontrei a porta aberta. Estranhei demais esse fato. Mas quando botei o pé na sala a primeira coisa que avistei foi ele sentado no sofá, comendo salsicha com pão e com o controle remoto à mão.
E minha mala bem arrumada e colocada bem próxima à porta. O que isso significa?


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Sertanejo de Poço Redondo/SE