SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 13 de maio de 2020

CAMINHANTES DA DEVOÇÃO



*Rangel Alves da Costa


Peregrinos da fé, andantes da fé, caminhantes da fé, a mesma significação para um ato de ardorosa devoção: para cumprir promessa ou pelo simples ato de devoção religiosa, seguir pela estrada até chegar aos pés da santidade devotada.
Em tempos de normalidade, onde pandemia não surja como ameaça à vida e ao viver, as peregrinações se assemelham a imensas procissões que tomam as estradas, as ruas e cidades.
 Seja da região sertaneja ou doutro lugar, pessoas quase não dormem para sair ainda na madrugada e seguir distantes caminhos, passando por distâncias ermas, lugarejos, povoações, cidades, até chegarem perante o altar de devoção.
E logo estarem envoltos às multidões, perante as igrejas, participando de missas, procissões e outros ofícios religiosos. Geralmente são milhares de fiéis no único intuito de demonstrar sua fé e pedir proteção à santidade devocionada.
Desde a saída e pelas estradas, com seus estandartes de fé, seus cantos religiosos, em incansável caminhada, como se as distâncias sequer se revelassem ante a devoção maior. Parecem sempre conduzidos pelo incansável sopro da abnegação religiosa.
Enquanto andejam, debaixo do tempo nublado ou de sol, vão ecoando a sagrada oração:


Ó incomparável Senhora da Conceição Aparecida.
Mãe de meu Deus, Rainha dos Anjos, Advogada dos pecadores,
Refúgio e Consolação dos aflitos e atribulados.
Ó Virgem Santíssima, cheia de poder e bondade,
lançai sobre nós um olhar favorável, para que sejamos socorridos
em todas as necessidades.
Lembrai-vos, clementíssima Mãe Aparecida,
que não se consta que de todos os que têm a vós recorrido,
invocado vosso santíssimo nome e implorado vossa singular proteção,
fosse por vós algum abandonado.
Animado com esta confiança a vós recorro:
tomo-vos de hoje para sempre por minha Mãe, minha protetora,
minha consolação e guia, minha esperança e minha luz na hora da morte.
Assim, pois, Senhora, livrai-me de tudo o que possa ofender-vos
 e a vosso Filho meu Redentor e Senhor Jesus Cristo.
Virgem bendita, preservai este vosso indigno servo,
esta casa e seus habitantes, da peste, fome, guerra, raios,
tempestades e outros perigos e males que nos possam flagelar.
Soberana Senhora, dignai-vos dirigir-nos em todos os negócios espirituais
e temporais; livrai-nos da tentação do demônio, para que,
trilhando o caminho da virtude, pelos merecimentos
da vossa puríssima Virgindade e do preciosíssimo
Sangue de vosso Filho, vos possamos ver, amar e gozar na eterna glória,
por todos os séculos dos séculos. Amém!

Quando mais vão se aproximando da sede municipal de Aparecida, mais sentem que a estrada vai se tomando de uma verdadeira multidão. A partir de então já não são apenas aqueles peregrinos saídos de Poço Redondo, mas de todos os lugares. Milhares de pessoas pela estrada, incansáveis, cantando, orando, levando a imagem da santa, muitas vezes descalços, mas guiados sempre pela fé nos poderes da santa e da própria religiosidade.
Pessoas simples, humildes, uma gente leva no passo e no coração a promessa e de fidelidade e um desejo maior: através da crença e da fé, da devoção e da abnegação, a esperança por dias melhores.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


O Sertão tem Memória!




Beijo de máscara (Poesia)



Beijo de máscara


O lábio dela
na cor do batom
deixou minha máscara
beijada

apenas a máscara
e a marca do batom
sem a boca nua
sem o lábio dela

também a palavra
saiu pelo pano
da máscara
na face

quando tudo passar
e o beijo for beijo
nunca mais
afastarei de sua boca.

Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – amigos



*Rangel Alves da Costa


Amigos. Mas não qualquer amizade que se arvore da grandeza de ser amigo. Amigos. E não amizade apenas de conhecer, de avistar, de um saber da existência do outro. Amigos. Mas não amizade de apenas bom dia ou boa tarde, de palavra ligeira e passageira. Amigos. E não amizade que tanto faz como tanto fez reencontrar, que valia nenhuma possui se de repente um chega perto do outro. Amigos. Mas não aquele que se diz amigo apenas por dizer, que apregoa a amizade apenas pela circunstância, que aflora a amizade apenas por interesse. Amigos, mas amigos de verdade. Quem está só quando se tem verdadeiros amigos? Qual o valor de um encontro, de um abraço, de um aperto de mãos, de um proseado, com grandes amigos? Como é bom ter amigos. E verdadeiros amigos!


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 11 de maio de 2020

O RIO É DELAS



*Rangel Alves da Costa


O RIO É DELAS... Nas manhãs de cores singelas. O rio é delas... Perante as paisagens com suas aquarelas. O São Francisco é delas... Relembrando as canoas, os barcos e as velas. O Velho Chico é delas... No remanso das águas de antigas procelas. O Opará é delas... Lavando, quarando, limpando roupas e panelas. O rio é delas... Mais adiante os olhares apreciam das portas e janelas. O rio que é delas... Nada tenho. As águas, o rio, a beiradeira vida. É tudo delas...
O Velho Chico é delas... Aquelas mulheres ribeirinhas, mulheres nascidas nas águas, beiradeiras, guerreiras. O Velho Chico é delas... Descem os beirais tão faceiras, levando panos e rebolando as cadeiras. O Velho Chico é delas... Levando bacias nas mãos tão arteiras, lanhadas e mesmo assim altaneiras. O Velho Chico é delas. Pedir ao rio a permissão e a benção, em ritual de preces tão certeiras. No Velho Chico que é delas... E então adentrar nas águas, molhando as roupas compradas nas feiras, e começar o ofício pelas mãos aguadeiras. No Velho Chico delas...
O São Francisco é delas... Um rio antigo como a própria história, de bela pujança em toda sua glória. O São Francisco é delas... E elas que trazem consigo a mais velha memória, que nasceram e vivem em singela vitória. O São Francisco é delas... Vencendo a pobreza na luta tão inglória, tecendo o destino em singela trajetória. O São Francisco é delas... E é delas porque são as donas do rio, seus nomes estão nas águas e em toda sua história.
O Opará é delas... O rio-mar é delas. São as donas das águas, dos cantos, das ondas, remansos, das alegrias e mágoas. O Opará é delas... Donas de um rio com nome de santo, São Francisco de ondulados e fráguas. O Opará é delas... As roupas lançadas ao azul, camisas e anáguas. O Opará é delas... Águas e mágoas, cantos em fráguas, no Opará que é delas...
As donas do rio são pessoas simples, são mulheres humildes, são ribeirinhas que fazem do instante da lavagem de roupas um motivo para o reencontro consigo mesmas, com suas memórias e seu passado. Ali dentro das águas, cantando, proseando, dizendo palavras molhadas, são como estivessem numa magia sem fim.
Enquanto esfregam, passam sabão, betem e estendem roupas nas beiradas, elas passam a representar a mesma moldura numa paisagem antiga, de distante passado. Suas mães, suas bisavós, suas tataravós, todas um dia estiveram ali e também fizeram assim. Por isso que seus cantos são ainda os mesmos cantos que novamente ecoam para retornar no futuro, perante os filhos e netos, perante as gerações vindouras.
O rio é delas e elas sabem disso. Por isso amam o seu rio. Por isso têm suas águas como o próprio sangue que corre e escorre em suas veias.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Vivendo o Sertão!



Noite (Poesia)



Noite


Vaga-lume
grilo
bicho de noite
luz
e açoite

no negrume
os mistérios
e o medo
uma cor
de segredo

então acendo
o candeeiro
até que o vento
traga a lua
no pensamento.

Rangel Alves da Costa