SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

BANDA MUNICIPAL DE POÇO REDONDO: ORGULHO SERTANEJO QUE NÃO PODE CALAR


*Rangel Alves da Costa


Mesmo os mais jovens, certamente muitos já ouviram estes refrãos: “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou pra ver a banda passar cantando coisas de amor. A minha gente sofrida despediu-se da dor pra ver a banda passar cantando coisas de amor...”. Pois é, estrofes da música “A Banda”, de Chico Buarque, exatamente retratando a magia da banda musical interiorana e que, toda vez que passa, consegue tudo alegremente transformar.
E agora, perante a população de Poço Redondo e todo o sertão sergipano (e mesmo além-fronteiras), indago: quem já não ouviu e se encantou com a magia ecoada pela Banda Municipal, que ao passar ou se apresentar sempre teve o dom de transformar a beleza em verdadeiro fascínio. Quanta magia nos instrumentos, quanta formosura nas mocinhas e nos rapazes, quanta graça e singeleza nas vestes, quanta perfeição nos gestos e nas coreografias.
Se no passado Poço Redondo tinha orgulho de suas praças, mais recentemente passou a se orgulhar de sua banda. Lembro-me muito bem que meu pai Alcino Alves Costa brilhava os olhos com mais força, deixando marejar seu contentamento, toda vez que a banda tocava em alvorada à sua porta. E era apenas uma parte, que se imagine o agrupamento completo com cerca de cinquenta jovens em perfeita sincronização de coreografias e acordes?
Como diz a música de Chico Buarque: todo mundo parava para ver a banda passar. “A moça triste que vivia calada sorriu. A rosa triste que vivia fechada se abriu. E a meninada toda se assanhou pra ver a banda passar cantando coisas de amor. O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou. A moça feia debruçou na janela pensando que a banda tocava pra ela...”. Contudo, a tristeza da realidade vem agora: “Mas para meu desencanto o que era doce acabou... E cada qual no seu canto. Em cada canto uma dor...”.
Sim. Infelizmente eis a realidade da banda musical de Poço Redondo: o que era doce está em vias de acabar. E cada qual no se canto. Em cada canto será uma profunda dor. Não só na população que tanto se acostumou a admirar seu orgulho musical como em cada um dos seus integrantes. A verdade é que todos agora estão aflitos ante as incertezas, estão entristecidos demais perante os comentários surgidos dando conta de um mundo de desajustes. Ninguém sabe dizer qual o destino da banda, se terá continuidade, quais os recursos que a ela serão destinados. Lamentável que assim aconteça.
Batizada com o nome de Banda Municipal Sertão Música, numa das gestões de Enoque Salvador de Melo, um projeto foi aprovado pela Câmara Municipal no sentido de oferecer uma bolsa de incentivo aos seus integrantes, sendo de dez por cento de um salário mínimo. Por muito tempo teve três professores, um maestro, um coreógrafo e um orientador de percussão. Contudo, mesmo ganhando cada vez mais importância, jamais teve sede própria. E a falta de um espaço próprio sempre foi sentido pelos integrantes que necessitavam se reunir, ensaiar, programar apresentações. Tal problema jamais foi resolvido.
Ainda assim, mesmo com todas as dificuldades, a Banda Municipal deu voos mais altos que os esperados ante suas condições. A Banda de Poço Redondo ainda é considerada uma das melhores de Sergipe, alcançando a quarta colocação no primeiro concurso de bandas que participou. Sendo também filarmônica, faz apresentações em homenagens, eventos religiosos e festas. E a administração municipal necessita reconhecer e valorizar ainda mais essa verdadeira flor de cato num mundo de aridez.
Como relata a integrante de mais de dez anos, Paula Daiany: “Somos estrelas em muitas cidades, como referência temos Ribeirópolis, onde somos aguardados e aplaudidos de pé. E sempre nossa presença é uma honra para nossa cidade e outras onde nos apresentamos. Aonde vamos é só elogios, e elogios também recebemos nas emissoras de rádio e nas redes sociais. Por onde passamos, as secretárias municipais nos enviam vídeos de agradecimentos. Tudo isso aumenta nosso deseja de permanência e com conquistas cada vez maiores. Enfim, essa Banda cresceu muito, e queremos continuar crescendo. Mas...”.
Mas o problema que surge agora diz respeito justamente às indefinições. Surgem comentários de todos os tipos. Dizem que a grande maioria dos integrantes terá que sair, dizem que vai ser toda renovada, dizem e dizem. Contudo, muitos problemas surgem com isso. Não se pode ter a mesma a qualidade numa banda que praticamente começa do zero. E se começar. Acaso mudanças sejam necessárias, que estas sejam aos poucos, de modo a não desarmonizar o que já vem sendo construído desde mais de dez anos. E o mais importante é que não ocorram ingerências políticas nas mudanças dos integrantes.
Paula Daiany está corretíssima em suas preocupações. Hoje, aqui mesmo no facebook, um texto maravilhoso escrito por Nadyne Cavalcante expôs com brilhantismo a situação. Quanto a mim, lamento profundo profundamente que tudo isso venha ocorrendo. Tenho os mesmos olhos de meu pai diante da banda: um brilho molhado de alegria. E temos certeza que Poço Redondo inteiro quer que sua fênix musical renasça das cinzas.


Escritor
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Lá no meu sertão...


Myllinha minha...




A escolha do pássaro (Poesia)


A escolha do pássaro

Pássaro
passarinho
voei
cantei
amei
estou aqui

do alto
a terra
mais alto
o céu
e o pássaro
livre

mas querer
somente
o ninho
estar
somente
sozinho.

Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - lágrimas também têm sede


*Rangel Alves da Costa


As lágrimas não somente se despejam, se derramam, se deitam molhadas sobre a face. As lágrimas não somente escorrem angústias, tristezas e aflições. As lágrimas não somente transbordam dos olhos como enxurradas de sofrimentos. As lágrimas também têm sede. As lágrimas não querem somente se esvair da fonte do olhar, elas não querem apenas deixar em deserto o oásis brilhoso dos olhos. Elas também têm sede. As lágrimas também querem beber alegria, contentamento, felicidade. As lágrimas também querem se alimentar do prazer, do gosto, da vontade boa. As lágrimas também querem se encharcar de motivos bons, de fluídos positivos, das melhores esperanças. E assim porque precisam recuperar suas forças, encher-se de ânimo e vivacidade, mas não para depois se derramar em pranto de luto e sofrimento. Mas para ser sereno leito escorrendo pela face quando o coração quiser demonstrar em pranto o grito maior de uma felicidade.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

AQUELA FESTA DE AGOSTO


*Rangel Alves da Costa


Nem chegava o mês de agosto e Poço Redondo já parecia outra cidade, remoçada, bonita, florida, aconchegante. Era nesse período que grande parte das casas recebia pintura nova, vistosa, com barra vermelha e tudo e o mais.
Quando o mês da festança maior da cidade abria as portas, então a povoação se transformava totalmente. O que se avistava eram as moças solteiras passando com panelas para serem areadas nas beiradas do tanque velho. Necessitavam dar brilho em tudo para receber os visitantes.
Pelas calçadas, cadeiras espalhadas para receber colchas de veludos, panos mais chiques, cobertores floridos. Também uma época onde os paletós de linho e roupas festeiras eram retirados dos escondidos dos guarda-roupas para providenciais banhos de sol. Por isso um cheiro de naftalina danado por todo lugar.
Bastião Joaquim já coçava a cabeça pensando em receber da melhor maneira possível seus amigos da Serra Negra. Seu prazer era imenso, pois aquele povo do outro lado da serra era com se tivesse raiz no lugar. E tinha mesmo, pois os Carvalho desde muito encravados nas terras poço-redondenses com suas fazendas de meio mundo.
João Maria de Carvalho, o coronel de patente e mando, seu irmão Piduca Alexandre, seu filho Heraldo e seu sobrinho Evaldo, eram assíduos visitantes de Poço Redondo. Do mesmo modo Oza, Maria de Ioiô, João de Ioiô e tantos outros alexandrinos que arribavam para o lado de cá principalmente em dias da festa grande.
Entre as casas de Tonho Rosendo, Zé de Lola e Bastião Joaquim, os alexandrinos encontravam certeira e aprazível guarida. O Coronel João Maria se aboletava numa rede na sala da frente da casa de Zé de Lola e dali mesmo ordenava além-fronteiras. Já Heraldo e Evaldo deixavam a casa de Bastião Joaquim no passo certeiro dos bares, dos forrós, das cavalgadas, dos locais onde houvesse moça fogosa e namoradeira. Até de homem casado.
A chegada de Heraldo de Carvalho era uma preocupação a parte para Delino, pois sempre temendo que o doutor da Serra Negra repetisse um gesto de outra ocasião: com bar e salão lotados, com forró comendo solto, eis que o homem entra com cavalo e tudo. Entrou e foi em direção ao balcão. E quem era besta de dizer um tantinho assim?
Daquele chapéu largo e gestos vaidosos, apenas um homem bom. Melhor ainda seu primo Evaldo, que só pensava em namorar. E sem a presença deles a festa de agosto não tinha graça. Como não tinha graça sem a chegada do parque, sem a presença de Manezim Tem-Tem, sem Seu João Retratista, sem a visita certeira de Expedito, o sarará-avermelhado e desajuizado.
Manezim Tem-Tem tinha freguesia mais que garantida. Os sapatos de festa, devidamente guardados de outras ocasiões, eram colocados em suas mãos ali mesmo nas calçadas. Retornavam brilhando mais que sapato novo. Não podia faltar retrato de jeito nenhum, nem antes nem durante a festa, por isso mesmo que Seu João Retratista tinha um trabalho danado de armar e desarmar seu tripé para as fotos em meio aos jardins floridos daquele Poço Redondo de antigamente.
Era o período do alavancamento comercial da cidade. Pano de corte, lustroso, enfestado, era com as irmãs Marques: Mãezinha, Conceição e Izabel. Ter uma camisa de volta-ao-mundo era uma grã-finagem pra poucos. Mas Izabel Marques possuía à venda. Calça Lee da legítima, calça boca de sino, saia rodada, vestido ajardinado, tudo isso também colocado à venda no comércio local e também nas caminhonetes que chegavam de outras localidades.
Forró por todo lugar, desde o início do mês. Não havia salão onde o fole não roncasse desde cedinho até madrugada adentro. Agenor da Barra, Dudu Ribeiro, Zé Aleixo, Zé Goiti, Dida e tantos outros, tudo arrastando seus foles para a alegria e o chinelado sertanejo. Na memória de Zelito, o cantador maior de forró, certamente a doce recordação desse tempo.
Cinco da tarde em ponto. A música O Milionário, anunciava o início das atividades no parque. Daí em diante uma festa só e mais tarde o cheiro das brilhantinas, do Toque de Amor, do Charisma, e os gemidos pelos sapatos apertados. E aquelas donzelas em suspiros sem fim.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Minha caboclinha sertaneja. Minha bela, bela, bela namorada...




De olhos fechados (Poesia)


De olhos fechados


Fecho os olhos
quando vem a saudade
e nada vejo mais
a não ser a saudade

tão bela é o meu amor
assim em retrato suave
e sobre o umbral da janela
seu olhar pássaro em voo
e o seu aceno à estrada
onde chego para um abraço

de olhos fechados
uma saudade molhada
em lágrimas entristecidas
na minha solidão enternecidas.


Rangel Alves da Costa