Sertanejas
em proseado ao entardecer.
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
Eu e Zefinha (Poesia)
Eu e Zefinha
Depois do galope mundo
gole d’água e viola enfim
cantiga de meu amor
sei que ela gosta de mim
Zefinha de roupa florida
alfazema cheirando jasmim
na boca um avermelhado
na pele uma flor de jardim
gosto tanto de Zefinha
meu anjinho de céu querubim
mas Zefinha cisma comigo
só falta me fazer trampolim
me xinga e me chama de tudo
inda diz que sou tão ruim
faça assim não Zefinha
deixe de ser tanto assim
comprei loção bem cheiroso
quero em Zefinha alecrim
e depois que ela acalmar
sua doçura de gostoso quindim
e eu beijando Zefinha
e ela me chamando de anjim.
Rangel Alves da Costa
Palavra Solta - para o carnaval, não quero carnaval...
*Rangel Alves da Costa
Para o
carnaval, não quero carnaval. Para o carnaval quero o meu amor, quero o seu
abraço, quero o seu beijo. Para o carnaval, não quero carnaval. Para o carnaval
quero a vela acesa, quero o rosário, quero a iluminada face sagrada diante de
mim. Para o carnaval, não quero carnaval. Para o carnaval quero uma montanha,
quero um silêncio, quero uma solidão. Para o carnaval, não quero carnaval. Para
o carnaval quero um bom livro, quero uma boa história, quero uma realidade de
letras e sonhos. Para o carnaval, não quero carnaval. Para o carnaval quero uma
distância, quero uma casinha, quero uma rede, quero uma lua e um punhado de
sol. Para o carnaval, não quero carnaval. Para o carnaval quero a visita ao
singelo mundo, ao humilde homem, ao pacato lugar, ao umbral da janela e sua
moringa d’água e cocada de frade. Para o carnaval, não quero carnaval. Para o
carnaval quero um quarto, quero uma janela, quero uma porta, quero uma estrada,
quero um caminho. Para o carnaval, não quero carnaval. Para o carnaval que um
incenso, uma vela acesa, um salmo sem pressa, um evangelho de paz. Para o
carnaval, não quero carnaval. Para o carnaval quero a memória, quero o
pensamento, a reflexão, o reencontro do ser. Para o carnaval, não quero
carnaval. Para o carnaval quero adormecer, quero amanhecer, quero apenas viver.
Assim será meu carnaval. Não que tudo assim aconteça, mas que assim seja a
minha folia de espírito e alma.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
ASSIM COMO AS ANDORINHAS, ASSIM COMO OS GAVIÕES
*Rangel Alves da
Costa
O viver é
assim como um viver de andorinhas e gaviões. Na concepção popular, andorinha
simboliza luta, esperança, perseverança, a metamorfose, a vontade de realizar.
Já o gavião, como toda ave de rapina, predadora e carnicenta, simboliza a
perseguição, a destruição, através de voos rasantes para destruir os sonhos de
outros voos.
Também
conhecida como ave da partida e do regresso, a andorinha representa o eterno
retorno e a ressurreição, em despedida e retorno para o recomeço. Busca refúgio
no inverno para reaparecer no verão. Mas nunca voa muito distante, pois sempre
preocupada em retornar para reiniciar os seus planos futuros e os seus próximos
voos.
Já o
gavião é um poderoso predador que não se inibe em atacar qualquer presa.
Astuta, evita a copa alta das árvores para se manter furtivo entre os arbustos,
de onde dá voos certeiros para atacar o que estiver ao redor. Parente e muito
aproximado na aparência do carcará, faz da carniça um de seus pratos
prediletos. Contudo, gosta mesma de ferroar suas vítimas para sentir a vida se
esvaindo no sangue que incessantemente jorra.
Como
visto, cada ave com seu jeito de ser, com seu estilo próprio de viver e de se
alimentar. A andorinha, sem atacar ou ferir os demais animais, sobrevive dos
grãos e restos encontrados nos seus pousos. O gavião, sempre violento e faminto,
não mede consequências para fazer de vítima o mais inocente dos animais. Sua
sanha é tamanha que leva no bico a marca sangrenta daquilo que vitimou.
Então vai
a andorinha em seu voo pacífico, em seu voo leve, com seu destino de horizonte.
Deseja apenas seguir, voar e voar muito mais, para depois retornar na mesma
placidez da partida. Então, de baixo, avistando a liberdade da andorinha ao
alto, o gavião logo imagina um jeito de tornar aquela paz em grito de dor e de
aflição. Não deseja mais que a andorinha cumpra seu destino de vida, e sim que
se prostre ante o punhal no seu bico.
Então a
andorinha percorre sua estrada nas alturas sem ao menos imaginar que já foi
avistada como vítima. Segue seu voo sem pensar que a maldade lhe aguarda no
retorno, sem imaginar que sua paz já se ressente da ameaça. Enquanto isso, na
sua persistência maldosa, o gavião afia suas garras, toma seu veneno, se
alimenta de um ódio incompreensivelmente concebido. E se prepara para dar fim
ao destino de paz da andorinha.
Na
natureza, apenas uma presa e um predador. Aliás, é lei natural que assim
aconteça, mas pelo instinto da sobrevivência e não pela simples maldade.
Significa que alguns animais submetem a outros para se alimentar, para afastar
perigos, para delimitar territórios. Porém, se aproxima demais do humano quando
inverte a realidade do destruir para sobreviver para a mera dizimação pela
infame crueldade.
Urubus e
carcarás também são assim. São carnicentos, agourentos, terríveis predadores.
São domados por instintos sanguinários e cruéis. São frios na ação e impiedosos
na violência. São insensíveis e desumanos, acaso nas aves de rapina existisse
um laivo de humanismo. Ferem, furam, bicam, cortam, sangram, fazem jorrar as
seivas vitais das mais inocentes vidas. O pior é que nem sempre para se
alimentarem, mas tão somente pela motivação da maldade.
Não seria
errôneo se tudo isso fosse dito com relação ao ser humano. Pessoas existem que
são verdadeiros predadores, que são terríveis e temíveis rapinas, que agem não
pela necessidade de defesa, mas pelo simples desejo de ferir, magoar, violar a
paz e a vida. Pessoas ocultadas em gaviões que outra coisa não fazem senão
atacar a vida alheia. Então aquela pessoa que apenas procura viver como
andorinha, seguindo o seu destino de passo e luta, de repente passa a ser
atacada pela crueldade do próximo.
Gaviões
humanos que alardeiam falsidades, que alastram mentiras, que semeiam
discórdias, que se regozijam com o sofrimento do outro. Predadores humanos que
vivem à caça da paz para torná-la em aflição, que vivem à espreita da
felicidade para transformá-la em sofrimento, que se preocupam somente em
subtrair as esperanças e os contentamentos. Numa selva tão vasta e tão
enegrecida, eles estão por todo lugar. Os olhos são avistados, os passos
ouvidos, as presenças sentidas.
Ante as
tocaias dos gaviões, triste do destino das andorinhas humanas. Há uma vida
inteira a ser vivida pelos que desejam viver, há uma felicidade que alguns
desejam abraçar, mas em meio à selva de asfalto e chão sempre aqueles que
cruzam os caminhos para, a todo custo, impedir a caminhada. Talvez não
contentes com si mesmos, partem com venenosos punhais em direção aos que
desejam apenas voar seus sonhos, suas vidas, suas esperanças. E por isso tanta
violência e tanta maldade no mundo.
Mas que
sigam as andorinhas. Que busquem seus céus e horizontes. Os gaviões não
alcançam tudo. E contra todo predador haverá um predador ainda maior: o homem
na sua autodestruição.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
Tudo é possível ao coração (Poesia)
Tudo
é possível ao coração
Na primeira flor da manhã
eu vi o ainda possível mundo
no primeiro brilho do sol
eu vi o ainda possível homem
no voo da borboleta e do colibri
eu vi o ainda possível sonho
no pôr do sol de fogo e brasa
eu vi o ainda possível amor
no céu noturno de estrela e lua
eu vi a ainda possível poesia
não quero avistar nada além
dessa esperança de paz e bem
tudo é possível ao coração
que abre janela e porta ao amanhecer.
Rangel Alves da Costa
Palavra Solta - quando chega o momento de divorciar
*Rangel Alves da Costa
Sou
advogado também da área de família, lidando muito com questões sobre divórcio,
alimentos, visitas, etc., e sei muito bem quanto é traumático, até para o profissional,
mexer em vespeiros assim. A primeira observação que se faz é a antítese
amorosa. Tanto amor de um dia parece ter acabado de repente. E mais: tornam-se
verdadeiros inimigos, ferozes, vorazes, com um querendo destruir o outro a
qualquer custo. Tudo é esquecido. As juras de amor, as promessas perante o
altar, os compromissos de comunhão de vida. Até que a morte os separe que nada.
Até que venham os ciúmes, as traições, os arrependimentos, as discórdias.
Aquilo que era meu bem, logo se transforma em meus bens. Quero isso, tenho
direito àquilo. E até que quero deixar sem nada, no olho da rua, mendigando a
sorte. Os filhos, estes logo se tornam objeto de barganha. Só isso de pensão?
Mas de jeito nenhum. Quero também pensão pra mim. Se ele vai gastar com
rapariga também tenho direito. E diz: ele nunca prestou, sempre foi um
calhorda, um beberrão raparigueiro. E ele diz: se arrependimento matasse. E
assim vão se digladiando até a sentença. Nas audiências, cada um cuida de levar
espingarda e mosquetão no olhar. Só falta fulminar o outro ali mesmo. E aquele
mesmo que ontem era meu amor, meu benzinho, minha vida.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
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