SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Lá no meu sertão...


Filmografia de Poço Redondo, no sertão sergipano



Assim como a flor (Poesia)



Assim como a flor


Flor tão bela
esturricou
tão bonita
e enfeiou
tão viva
e suspirou
caiu pétala
caiu flor

um jardim
entristecido
sem pássaro
ou borboleta
espinho
que lacrimeja
quer a flor
a flor

solidão
pelo jardim
a vida
a morte
enfim
ser flor
e flor morrer
ao fim.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - as pessoas que passam



*Rangel Alves da Costa


Basta abrir a porta, sair para a calçada ou caminhar mais adiante, e logo a pessoa estará diante de pessoas e mais pessoas. Altas, baixas, medianas, morenas, negras, claras, ruivas, magras, gordas, apressadas, desapressadas, correndo ou em lentidão. Com feições entristecidas, com rostos alegres, com olhos que parecem chorar, com sorrisos estampados na cara. Algumas mais bonitas, outras menos. Também que vê cara não vê coração, não é mesmo? Pois bem, nada disso importa. O que importa imaginar o que move e o que conduz as pessoas e mais pessoas. Importa mesmo saber - ou logicamente imaginar - o que verdadeiramente se oculta dentro de cada uma. Será possível? Certamente que é impossível, pois o interior de cada ser é de difícil compreensão até mesmo pelo próprio ser. Contudo, o mais interessante mesmo é precisamente imaginar o mundo presente em cada um. Ora, as pessoas simplesmente passam, mas não são pessoas que simplesmente passam. São pessoas marcadas pela caminhada, são pessoas felizes ou angustiadas, são pessoas com grandes objetivos ou desesperançadas, são pessoas que choram por dentro e continuam mantendo outra forjada aparência. O que leva e o que sustenta esse mundo humano? Interessante imaginar.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

AINDA HÁ SERTÃO NO SERTÃO



*Rangel Alves da Costa


Desde muito que venho alardeando - e de forma mais apaixonada que verdadeira - o fim daquilo que sempre foi conceituado como sertão. Nas minhas palavras, sempre temerosas, eu apontava que persistia somente o sertão histórico e parte de sua geografia. Nada mais que isso. Ora, a história não pode ser apagada e os seus passos também não, mas a geografia desde muito vem sendo totalmente descaracterizada. Somente os limites, também em parte, ainda são preservados.
E por que esta minha afirmação tão medonha e espantosa? Basta lançar um olhar no que era o sertão e o que ainda se tem hoje como sertão. Resta muito? O velho conceito diz que sertão é uma região semiárida no Nordeste brasileiro, nas distâncias interioranas, caracterizada por poucas chuvas e longos períodos de estiagem, com vegetação predominantemente cactácea. Sim, as estiagens e secas grandes continuam, a vegetação típica também, o passado histórico ainda encravado porque impossível de ser apagado, a geografia sendo modificada a cada passo. Somente isso.
Para uma ideia da tamanha transformação imposta ao sertão, tem-se que atualmente o sertão não é mais do sertanejo. As migrações, principalmente a partir do surgimento de inúmeros assentamentos e da rotineira chegada de forasteiros, foram permitindo que, atualmente, a maioria dos habitantes do sertão seja formada por pessoas deslocadas de outros estados e até de outras regiões do país. Perdeu-se, assim, o sentido da contextualização comunitária, do senso familiar entre os moradores de uma mesma povoação e a falta de interação e compartilhamento entre as pessoas.
Logicamente que as cidades e as povoações crescem e vão perdendo sua feição de familiaridade. Noutros idos, dificilmente uma pessoa passava pela rua para não ser conhecida. Era terra de compadres, de comadres, de amigos, de conhecidos, de gente proseando pelas calçadas e contando causos debaixo dos pés de pau. Quando o sino da igrejinha badalava tristonho, anunciando uma despedida, logo a comoção se estendia entre todos, pois todos conhecidos e com laços familiares estendidos em muitos sobrenomes. Hoje os sinos tocam e ficam apenas as indagações. Quem partiu?
Atualmente, com o rápido crescimento (que nem sempre vem acompanhado de desenvolvimento) as cidades e as povoações se transformaram em verdadeiros labirintos, em locais de desconhecidos e, infelizmente, de espantos. Pessoas da mesma localidade sem um bom dia ou boa tarde. Pessoas que até moram nas proximidades e não se conhecem. Pessoas que outras pessoas sequer imaginavam que por ali morassem. Tudo consequência da perda de contextualização interiorana e a sua vida mais intimista dividida entre muitos. E, muitas, entre ninguém. No somatório de tudo, sempre o aumento da violência, do medo, das práticas aterrorizantes que não eram tão comuns noutros tempos.
Alguns exemplos dizem muito bem das drásticas transformações havidas, e não apenas pelo aumento da violência e da criminalidade, principalmente pela disseminação e uso de drogas entorpecentes, mas nas mudanças de hábitos mesmo. Tornou-se raridade ouvir, ainda ao longe, a chegada de um carro-de-bois. Aquele rangido arrastado, puxado, quase não existe mais. Pelas estradas e cidades, nada mais de burros, jumentos e jegues, fazendo o transporte da subsistência. Cavalo agora só para enfeite, cavalgada ou vaquejada, pois as motos chamaram para si os relinchos e se espalham espantosamente com seus roncos enfumaçados.
Mas nem tudo está perdido. Ainda bem que nem tudo está perdido. Felizmente ainda há sertão no sertão e, não raro, mais próximo dos núcleos urbanos do que se imagina. Basta que a pessoa se disponha a caminhar um pouquinho, a sair um pouco dos centros, dos bairros e conjuntos, e logo encontrará o que resta do sertão dentro daquilo que foi sertão. Bem ali ao lado, pouca estrada adiante - mas principalmente nos escondidos das catingueiras e xiquexiques - ainda há muito sertão, ainda há o reconhecimento de que o tempo sequer parece ter passado por ali. De repente, o visitante se vê diante daquilo que somente seu idealismo bucólico sertanejo possibilitava avistar.
Não só na casinha de cipó e barro, na moradia de barro batido segurada em estaca e trançado de croá, bem como nos seus arredores de mataria e cactáceas ressequidas pelos escaldamentos do sol, mas no próprio jeito de ser e viver. Observo isso nas minhas andanças pelos sertões e pelas visitas que eu tenho feito a famílias sertanejas. Outro dia, por exemplo, cheguei perante a cancela de um velho e famoso mateiro, exímio caçador nos tempos idos, bati palmas perante a moradia à minha frente e nada de obter resposta.
Logo veio a motivação de ninguém haver respondido, ainda que gente estivesse ali. Olhei pelo lado e logo ao fundo avistei uma casinha de barro, daquelas já muito açoitada de tempo, de uma porta apenas. Ante minha chegada, logo surgiram seus moradores: um casal já envelhecido de sertanejos. Recebido com a cordialidade matuta de sempre, enquanto proseava eu olhava de lado. Galinhas ciscando ali e acolá, um purrão num canto de parede, um velho fogão de lenha, e o mais que podia dizer que ali possuía a feição daquele sertão antigo.
O motivo de não morarem na casa da frente e sim na velha casinha de trás? Não se acostumavam com casa de tijolo e cimento.


Escritor
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Lá no meu sertão...



NA MEMÓRIA DO CANGAÇO - Eu Rangel, sobrinho-neto do ex-cangaceiro Zabelê, ladeado por Nicinha (de roupa mais escura), filha da ex-cangaceira Adília, e de Juliene (de óculos), filha de Mané Félix, o mais fiel dos coiteiros e grande amigo de Lampião. O encontro ocorreu no último domingo no Memorial Alcino Alves Costa, local do passado histórico e da história viva. Minhas amigas, minhas conterrâneas.




Flor da vida (Poesia)



Flor da vida


Entardeceu
abriu-se a flor
do mandacaru

anoiteceu
a beleza da flor
do mandacaru

amanheceu
murchou a flor
do mandacaru

será a vida
será a vida
será a vida?


Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - a greve de fome petista



*Rangel Alves da Costa


Mais uma armação petista. Mais uma lorota petista. Mais um desvario do petismo. Essa tal de greve de fome de petistas perante o STF, iniciada hoje, não passa de conversa pra boi dormir. Aliás, preciso que apontem uma só greve de fome que fosse levada adiante até os seus últimos efeitos. Ademais, só mesmo em cabeça de insano imaginar que as instâncias judiciais superiores voltarão atrás em suas decisões ou tomem futuras decisões somente pelo fato de que alguns cismaram em fazer greve de fome. Em frente ao STF eles ficarão mil anos sem um pedaço de pão, morrerão igual folha seca, sem que suas tresloucadas atitudes sensibilizem que quer que seja. Ora, o ex-presidente Lula foi condenado e está preso com embasamento legal. Sua prisão ocorreu por crimes cometidos e devidamente tipificados. Só mesmo o PT para achar que seis pessoas em greve de fome vão mudar a legislação processual penal, penal e outras legislações pertinentes. Só mesmo o PT para achar que os ministros se comoverão por que alguns resolveram abdicar de alimentação. Vão morrer. Mas não morrem não. Tudo manha, tudo ação midiática. Quando a fome apertar mesmo e o estômago começar a remoer, então o partido deveria baixar uma nota: os companheiros gostam mesmo é de se lambuzar no prato dos outros, por isso terminaram a greve.


Escritor
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