SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

VIDAS SECAS E MOLHADAS


Rangel Alves da Costa*


Haveria de se imaginar que a Súplica Cearense, de autoria de Nelinho e Gordurinha, eternizada na voz de Luiz Gonzaga, se ajusta ao momento vivido pelo sertanejo ante a chuvarada que vem caindo e causando transtornos nas cidades e estradas. “Oh Deus perdoe este pobre coitado, que de joelhos rezou um bocado, pedindo pra chuva cair sem parar. Oh Deus será que o senhor se zangou só por isso o sol arretirou fazendo cair toda a chuva que há...”, eis trechos da letra. As rezas continuam, mas implorando mais chuva, não há que duvidar.
Invocando mais chuva porque o sertanejo conhece bem a dor sentida na seca inclemente, no sofrimento sem igual para o homem e o bicho. E também porque sabe que o seu destino apenas está sendo reescrito. Certamente que há um destino de Eclesiastes existente no sertão nordestino. Quando o livro bíblico diz sobre nascer e morrer, entristecer e depois se alegrar, sofrer e depois se contentar, como um percurso inevitável de acontecimentos, com um ocorrendo e depois se fazendo o inverso, certamente que tudo se amolda à realidade sertaneja.
Ora, o que é a vida do sertão senão ou a seca ou a chuva, a chuva e depois a seca, e assim em diante? E por consequência a tristeza pelo sol escaldante devorando tudo e o renascimento festivo quando as chuvaradas começam a cair. Mas não duram muito o contentamento, a terra semeada e o grão brotando em flor, para novamente faltar a paz e o sossego do humilde trabalhador. E com a falta de água e de chuva, logo a sede, a fome, a desesperança. Então surgem os rogos, as orações e as promessas para que as forças do alto façam cair pingo d’água.
Talvez daí também a força da expressão de ser o sertanejo antes de tudo um forte. Não apenas pela valentia, pelo destemor e pelo caminho de luta, mas principalmente por suportar - e sem se alquebrar de vez - os desconcertantes caprichos do tempo e as dolorosas imposições climatológicas. Não é tarefa fácil ao ser humano aturar o que o sertanejo silenciosamente tolera na força da fé e do amor nutrido pelo seu raquítico rebanho, pela sua vaquinha no couro e no osso. E também saber que depois da chuvarada voltará ao mesmo sofrimento, pois assim acontece desde que o seu mundo é mundo.
A exemplificação disso tudo está ocorrendo agora. Já fazia muito tempo que o sertanejo outra coisa não fazia senão sonhar com as chuvaradas, as chuvas de invernada, as trovoadas tão milagrosas. A cada dia que passava o sofrimento aumentava pelo chão ressequido, o cacto definhando, a falta do de beber e do de comer para cada ser sertanejo. E tendo de se submeter aos políticos aproveitadores na esperança de uma carrada de água. E tendo de se fragilizar - e na fragilização as sombras do escravismo - perante as ambições impiedosas daqueles mesmos desumanos aproveitadores.
Mas as barras do horizonte avermelharam, as nuvens prenhes chegaram e de repente aquele bafo quente e de cheiro inconfundível levantando da terra ao receber molhação. As chuvas chegaram. Como cumprimento do destino do Eclesiastes, as chuvas chegaram. Não faz muito tempo que retornei de meu sertão sergipano de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo e por lá deixei a seca maior do mundo. Tudo cinza, tudo esturricado, um calor de mil sóis, uma desolação de entristecer e fazer chorar. Mas as últimas notícias recebidas são de chuvaradas fortes e trovoadas. E por todo o sertão.
Numa questão de poucos dias, a coivara da terra se transformou em poça e lamaçal, a planta morta ou quebradiça foi renascendo verdosa, o barro do fundo de tanque se diluindo para se transmudar em água jorrando pelas beiradas. Coisa de não acreditar, mas é assim que acontece por lá. Para um exemplo desse destino eclesiástico, o Riacho Jacaré, que passa entrecortando a cidade de Poço Redondo, desde muito seco, devastado e putrefato, de repente irrompeu com uma cheia desde muito não avistada. Chegou veloz, em correntezas e seguindo imponente para desaguar no Velho Chico. Mas como dito, apenas uma feição passageira.
Em alguns municípios sertanejos as chuvaradas foram menores, mas enchendo fontes e tanques e alagando ruas e estradas, mas noutros a situação se tornou de calamidade. Uma barragem rompeu em Monte Alegre de Sergipe e suas águas invadiram ruas e casas, deixando famílias quase ao desabrigo. A pista asfáltica entre o mesmo município e Nossa Senhora da Glória não suportou a força das correntezas de um riachinho e foi destruída por uma cratera que se abriu de lado a outro, impedindo o trânsito de veículos.
No sertão é assim, ou tudo ou nada. Ou seca demais ou chuvarada voraz causando inundações e estragos. Como afirma um bom pastor que por lá cuida de rebanhos, um sertão de vidas secas e molhadas. As dádivas de hoje até o sol novamente vingar e tudo voltar ao percurso de sempre, com as secas e as promessas para chover. Assim é e assim será. Sempre. Só na política que há uma continuidade perniciosa, aviltante e lesiva à população sertaneja.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

2 comentários:

Eliete disse...

boa tarde, Rangel! Que bom encontrar um escritor. Estou começando a trilhar esse caminho ,tão difícil, e ao mesmo tempo, tão gostoso. voltarei sempre e lhe convido para uma visitinha no meu blog.

sandra mayworm disse...

Gostei do texto!
Abraço, Rangel.