SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 5 de dezembro de 2015

Palavra Solta: no velho mosteiro


Rangel Alves da Costa*


De vez em quando me vêm à mente aqueles ambientes sombrios dos mosteiros do filme Em Nome da Rosa. Não do enredo sádico e pecaminoso, mas das edificações religiosas em si. Aqueles mosteiros antigos, imensos, com corredores e labirintos, claustros e escondidos, bibliotecas silenciosas, com tudo à sombra, na semiescuridão, numa ambientação assustadora. Mas também apaixonante. E assim pelas divagações que fazem despertar. Então fico imaginando um dia adentrar naqueles portões, caminhar por aqueles labirintos, acender uma lamparina para avistar adiante. E permanecer mil anos em silêncio profundo, alimentado da prece, da fé, do absoluto devotamento. E permanecer cem mil anos lentamente caminhando por aqueles jardins de flores entristecidas e borboletas sem cor, mirando as coisas antigas, as estátuas velhas, as fontes sedentas, os canteiros cantos. E permanecer nem sei quantos anos em meio aos manuscritos da biblioteca, lendo e relendo os livros proibidos, as confissões proibidas, tudo proibido. E permanecer uma eternidade em reflexão, em meditação, em encontro com a verdade através do pensamento e do silêncio. Caminhar descalço, deitar-me ao chão, beber da fonte, alimentar-me do pão dos tempos. E depois abrir os porões para retornar ao mundo. Mas já não serei eu aquele que caminha com o meu corpo. Apenas a sabedoria ou qualquer outra coisa.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

POEIRA DA ESTRADA (OU OS MEUS PASSOS PELO CAMINHO)


Rangel Alves da Costa*


Venho de um sertão distante. Sou filho da terra queimada de sol e da seca maior. Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo, no sertão sergipano do São Francisco, convive com contrastes impressionantes: imensa riqueza histórica e cultural e alarmante pobreza na maioria de sua população. Mas um povo que mesmo sofrido faz da esperança e da incontida fé o alento de luta e de caminhada.
É deste sertão que sou filho, e desde os idos de 1963. Mas considerando que a linhagem consanguínea se alonga no tempo, então posso afirmar que sou de raízes bem mais distantes e mais profundas. Hoje de família imensa, num parentesco que se espalha além sertões, tenho o lar sertanejo como primeiro berço e a capital sergipana como temporário abrigo. Ora, o calango não se acostuma com o asfalto, o preá não vive bem atrás de portões. Assim sou eu, um filho do mato, da terra e do chão, que anseia por reencontrar as noites de lua maior e veredas tão sertanejas.
Saí do sertão aos onze anos. Já se faz tempo demais de exílio forçado. Forçado, porém necessário, pois precisava plantar sonhos maiores através do estudo. Então fui daqueles poucos meninos sertanejos que teve a oportunidade de arribar em busca de uma educação mais aprimorada na cidade grande. Hoje, já aos cinquenta e dois anos, ainda continuo na capital sergipana, porém sempre arrumando o aió e o embornal pelo desejo de voltar de vez. Apenas um filho que a casa retorna. Apenas um filho que necessita sempre conviver com sua terra, com o seu povo, com o seu sertão.
Em Aracaju, através do estudo, juro que consegui muito mais do que imaginaria possível. Não apenas aprendi o básico da aprendizagem como me formei, e fiz muito mais. Não apenas um banco universitário, mas diversos. Não apenas um campo de estudo superior, mas vários. E de repente me vi poeta, cronista, escritor, articulista de jornal impresso, colaborador de sites, atuando em diversas frentes.


E de repente me vi fazendo parte da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SE, publicando o primeiro livro e depois mais outros (uns vinte e tantos outros a publicar), advogando, exercendo múltiplas atividades. Contudo, as mudanças somente na idade e na formação, pois o menino sertanejo continuou o mesmo. E assim continuarei até o final da existência, pois trago comigo uma virtude de raiz humanista que jamais deixará de existir.
Meu sonho de menino era ser jornalista, e o de adulto também. Achava bonito ser historiador, mas não professor de História. Não concluí o curso de Jornalismo na UNIT e abandonei o curso de História na UFS, este já no último período. Um dia concluirei os dois. Mas apenas para ter diploma, pois me sinto jornalista e historiador.
Recordo-me bem, numa sexta-feira, durante aula no curso de História, levantei e me despedi dos colegas. O professor Jessé ficou sem entender nada, e a turma também. Antes de sair, voltei-me e disse que dali em diante iria estudar Direito, pois o resultado do vestibular sairia naquele dia e eu tinha certeza de ser aprovado. Ora, naquele tempo a redação equivalia a quase metade da pontuação e eu estava convicto de que ela seria minha porta de entrada para o curso. Não deu outra, quase obtive os quinze mil pontos da redação.
Decidi mudar de ramo de formação não porque História tivesse se mostrado um curso ruim, mas porque me abria a mente de tal forma que eu queria também enveredar, ao mesmo tempo, pela Sociologia, Filosofia e Literatura. Daí que eu não me sentiria bem em sair de lá para uma sala de aula, pois necessitava de um espaço maior para trabalhar, ou seja, para exercer livremente o ofício de historiador. Seria muito difícil iniciar a vida profissional desse modo. Então resolvi adentrar nas letras jurídicas.
O Curso de Direito diurno começou a me tomar muito tempo, pois acabava tendo aula também à noite. E tal fato redundaria em prejuízo ao Curso de Jornalismo. Então abdiquei deste para privilegiar o outro. Mas dessa vez com uma tristeza danada, pois havia construído grandes amigos nos bancos acadêmicos: Carlos Augusto, Zé Alves, Jozailto Lima, Ana Fontes, Elenilton Pereira, Eclair Nascimento, Teresa Cristina, Adelson Barreto, Aélio Argolo e Conceição, dentre tantos outros.
Infelizmente, dado às vaidades e egocentrismos da área jurídica, nunca me preocupei em tecer grandes amizades. Tenho apenas alguns bons amigos, e basta. Quando reencontro aqueles colegas dos cursos de História e Jornalismo, então sinto o bem que faz o distanciamento das ostentações e imodéstias. Creio que o ser humano deve estar sempre acima de sua profissão. Deve ser, portanto, humano.
Mas voltarei à poeira da estrada, aos meus passos pelo caminho.


Poeta e cronista
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Lá no meu sertão...


Alguém está avistando a moringa, o pote na trempe, o velho alguidar, as cinzas sob o fogão de barro? Então abra a porta e entre. É sertão, pode entrar...



As coisas (Poesia)


As coisas


Vejam
como são
as coisas

tudo tem
a riqueza
a vaidade
o egoísmo

tudo quer
ter mais
ser mais
ser tudo

mas vejam
como são
as coisas

o grão
permanece
e a rocha
ao pó!


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: depois do sorriso...


Rangel Alves da Costa*


Infelizmente, verdadeira é a assertiva segundo a qual depois da alegria vem a tristeza, depois do sorriso vem o sofrimento. Nada mais do que já escrito no Livro do Eclesiastes: Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora; Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz (3:1-8). Então, como sorrir se depois do sorriso chegará a tristeza, o sofrimento, a melancolia? Eis os dolorosos limites do homem. Sua felicidade não pode ser completa nem prolongada, seu instante de paz não poderá ir além da certeza do que virá. E depois tudo se refazendo no mesmo ciclo. Verdadeiramente não sei quais forças de compensação para as tantas tristezas que se acumulam. Será a plenitude do sorriso feliz? Mas não quero sorrir assim. Não quero tal felicidade. Para novamente abraçar o sofrimento, melhor sequer o sorriso de mais tarde, de amanhã, de um dia.


Poeta e cronista
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

OLHARES E INTENÇÕES


Rangel Alves da Costa*


O significado do termo olhar, enquanto verbo transitivo direto e indireto,  não vai além de avistar, dirigir os olhos a algo ou alguém, mirar numa direção, contemplar, observar. Com efeito, olha-se para discernir, enxergar, avistar. Mas será somente assim que os olhos funcionam perante a realidade da vida?
Os olhos escondem mistérios. Suas retinas espelham intimamente e, por isso mesmo, abstraem da visão a forma daquilo que desejam avistar. Não é o simples olhar, mas a forma de olhar, o sentido provocado pela visão. E assim porque num olhar aparentemente inocente pode estar escondida uma intencionalidade que vai além da malícia.
Certamente que é o pensamento, por via da construção mental, que proporciona à visão a forma que desejar. A intencionalidade do homem – ou sua mente sádica e doentia – chega ao cúmulo de avistar um seio nu onde há apenas uma roupa, de enxergar a nudez por cima de uma calça, e assim por diante. Daí ser impossível saber da normalidade ou da má intencionalidade do olhar.
Ontem, passando pelo centro da capital, avistei uma jovem mãe amamentando sua filhinha diante de todos. Estava sentada num banco e com um dos seios fora da blusa e ao alcance daquela boquinha miúda, que prazerosamente sugava. Assim observei pela curiosidade ante a atitude de desatenção dos caminhantes.
Logo fiquei imaginando acerca da intencionalidade dos olhares das pessoas. Quem olhasse aquela cena talvez não avistasse além de um fato simples, corriqueiro, de uma mãe com seio de fora para amamentar sua filha. Até aí tudo bem, mas certamente aquele mesmo seio seria avistado de outra forma perante outra situação.
Um exemplo. Se aquela mãe estivesse desacompanhada da filhinha e sob o decote de sua blusa surgisse uma pequena mostra dos seios, não há que duvidar das intencionalidades maldosas dos olhares. E mais ainda se aquele mesmo seio que amamentou estivesse totalmente à mostra.
Significa dizer que a intencionalidade do olhar depende da intencionalidade da própria pessoa que olha. Voltando ao exemplo do seio, para muitas pessoas, um seio amamentando é apenas um seio que amamenta. Mas aquele mesmo seio será avistado de forma diferente acaso seja olhado apenas como um seio à mostra.
E isto implica em consequências. O seio que amamenta não desperta nenhuma curiosidade, nenhum olhar diferenciado, nenhum desejo interior. Mas o seio à mostra logo faz surgir desejos, volúpias, taras, impulsos sexuais, aflorações instintivas. Pelo simples fato de que aquele seio é visto como uma simples parte do corpo, mas este é percebido como verdadeiro órgão sexual da mulher.
Neste sentido, os exemplos são muitos. Por que uma calcinha feminina exposta numa loja não provoca o mesmo furor masculino que uma calcinha pendurada numa varal? Por que a calcinha no varal pode provocar mais a intencionalidade erótica que a mesma calcinha vestida pela mulher numa praia? Ou por que a mulher seminua na praia provoca menos desejo que a mulher que passa pela rua se rebolando ou com a saia quase mostrando a calcinha?
É a conotação sexual que diferencia e provoca a intencionalidade do olhar. Tudo aquilo que o homem – ou a mulher – deseje avistar com malícia ou intenção sexual, então assim será visto pelo olhar e sentido pelo resto do corpo. Tanto é assim que uma “cruzada de pernas” pode ser motivo suficiente para aflorar os sentidos mais depravados. Igualmente com uma roupa justa, com um decote mais acentuado, com umbigos de fora e bundas querendo saltar das roupas curtas demais.
Há olhares que se acostumam e outros que redescobrem o sentido das coisas. Talvez o segredo esteja no ato provocativo e não na nudez em si. Daí que para muitos não há a mínima excitação em meio a uma praia de corpos quase nus. Diferente ocorre quando alguém passa diante do olhar expondo a nudez abaixo das roupas ou insinuando o que tem a oferecer. Então não se avista mais a pessoa, mas apenas a nudez, o sexo, a intencionalidade.
Não é uma situação fácil de ser compreendida, principalmente pelo fato de que um corpo nu pode provocar menos desejo que um corpo que passa vestindo um longo. É que a nudez parece consistir numa posteriori comum, sem maiores segredos a ser revelados. Um corpo nu é apenas um corpo nu. E em situação tal, a intencionalidade do olhar já perdeu seu sentido, pois concretizado.
O que importa ao olhar é o ainda não descoberto, o não totalmente desvendado. É a vontade de conhecer mais que deflagra um mundo de fantasias e aberrações, ao menos na conotação sexual que se dá aos corpos que passam, às partes que se mostram, aos rebolados que chamam. E desnecessário usar óculos escuros, pois o olhar está na mente. E no pensamento mais ou menos obsceno de cada um.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Do amor criança (Poesia)


Do amor criança


Não sei onde andará
o lábio hesitante
que beijei um dia

não sei onde andará
a mão indecisa
que segurei um dia

não sei onde andará
o corpo pequenino
que abracei um dia

não sei onde andará
aquela menina
que namorei um dia

não sei onde andará
mas preciso encontrar
e ser menino ainda.


Rangel Alves da Costa