

Não. Não guardo mágoas nem remorsos. Não existe eternidade no amor se o querer entre os dois deixou de existir. Como pássaros que precisam de gaiolas abertas para voar, igualmente precisamos alçar outros voos quando já não nos sentimos felizes um perto do outro. Ou, noutras palavras, o que passou. Como dizia Chaplin, para que chorar o que passou, lamentar perdidas ilusões... Agora, tomando de uma recente música, só tenho a dizer que quero que você seja feliz, com ou sem mim. Sim, depois de nós dois, depois de tudo vivido e acontecido, só quero que você seja feliz... Ademais, a real valorização do amor sentido está no depois. Somente depois do adeus é que se tem a certeza se vale a pena olhar pra trás ou simplesmente seguir em frente. Mas não queira olhar pra atrás nem deseje voltar. Seguindo adiante é que encontrará o destino. O mesmo destino que um dia nos uniu.
*Rangel Alves da Costa
O ano
inteiro de muita chuva. E esse ano foi de muita chuva mesmo. Dificilmente não
amanhecia chovendo ou os pingos d’água se derramando do entardecer em diante.
Muita gente dizia que desde muito que não se via um sertão com tanta fartura de
água.
Tanques
cheios, terra encharcada, água muita escorrendo nas ribanceiras. Os respingos
entrando pelas janelas e as goteiras lavando velhos sofrimentos. Os olhares
molhados das águas das alegrias, as mãos desejosas de trabalhar a terra para
semear. Não havia medo ou temor, pois o tempo respingando vida fortalecia cada
vez mais a esperança sertaneja.
Lá fora,
pelo mundaréu sertanejo, além dos cercados e mais além, tudo exalando alegria.
A catingueira florida, os arvoredos pujantes, a mataria tomada de viço e
frescor. Pastagens verdejantes, um tapete de natureza em flor perante o olhar.
Coisa mais linda o jardim sertanejo molhado de chuvarada.
As mãos de
esmolas d’água negavam as submissões para se elevarem ao alto em preces de
agradecimento. Os carros-pipas já não chegavam como milagres eleitoreiros. Do
alto, caindo do alto, o sertanejo era reconhecido por uma força maior, por um
poder bem maior.

O sopro
divino era de nuvens cheias, prenhes, gordas, de muita água. O ano inteiro
quase assim, quase uma eternidade sem os velhos e conhecidos sofrimentos. Mas
as chuvas começaram a escassear. As manhãs não nasciam molhadas nem as noites
chegavam espargindo vida em cada gota caída.
Estava bom
demais para continuar assim. As colheitas fartas, as barragens fartas, as
pastagens fartas, as alegrias fartas. Nem tudo tem a continuidade tão desejada.
Por mais que chova e continuamente chova, o sertão sempre será sertão. E por
ser assim, um sertão tão sertão, é que de repente o verde vai dando lugar ao
cinza, a florida paisagem vai dando lugar ao definhamento.
Quando nenhuma flor restar mais na paisagem, somente a catingueira a preservar nos seus galhos e na nossa memória o mundo em que vivemos. Uma flor em meio à sequidão. Quando a terra esturricar de vez e o passarinho bater suas asas com destino incerto, então o sertão terá reencontrado sua face mais triste: a seca.
A vida da gente
*Rangel Alves da Costa
Por mais que a cidade tente negar sua origem, ainda existe sertão no sertão. Basta se afastar um pouco do asfalto ou do paralelepípedo, virar uma curva aberta de estrada de chão, então logo reencontrará o sertão no sertão. Mandacarus e xiquexiques, o sol aberto em clarão. Sertanejo de enxada e foice, o seu ofício na mão. Vai um vaqueiro apressado, sopra o vento em lentidão. Casebres nos escondidos, a lenha queima no fogão. Cabeça de vaca na estaca, a catingueira em floração. Tudo parece distante num mundo de solidão, e quanto mais se andeja mais tem curva no estradão. A cor da paisagem muda na mudança da estação, o que era verde desanda e vem o cinzento da sequidão. O menino vai na estrada em galope de mansidão, então aceno ao menino e me vem sorriso de saudação. Que coisa mais linda na estrada, o sertanejo em seu sertão. Por mais que a cidade não queira, ainda pulsa esse coração. Por mais que os modismos reneguem, ainda existe sertão no sertão.