SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 13 de outubro de 2020

Lá no meu sertão...


Curralinho, povoação ribeirinha de Poço Redondo, sertão sergipano








No balanço da rede (Poesia)


No balanço da rede
 

Não quero da noite
a rua
quero o noturno
da lua
 
quero o luar
sertanejo
e tanto amar
tanto beijo
 
rede a balançar
e o calor de um abraço
morena flor a beijar
dois corpos em só laço
 
a lua alumiando
o dengo e o cafuné
tão doce e tão quentinho
como gole de café.

 
Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - depois de nós dois


*Rangel Alves da Costa

Não. Não guardo mágoas nem remorsos. Não existe eternidade no amor se o querer entre os dois deixou de existir. Como pássaros que precisam de gaiolas abertas para voar, igualmente precisamos alçar outros voos quando já não nos sentimos felizes um perto do outro. Ou, noutras palavras, o que passou. Como dizia Chaplin, para que chorar o que passou, lamentar perdidas ilusões... Agora, tomando de uma recente música, só tenho a dizer que quero que você seja feliz, com ou sem mim. Sim, depois de nós dois, depois de tudo vivido e acontecido, só quero que você seja feliz... Ademais, a real valorização do amor sentido está no depois. Somente depois do adeus é que se tem a certeza se vale a pena olhar pra trás ou simplesmente seguir em frente. Mas não queira olhar pra atrás nem deseje voltar. Seguindo adiante é que encontrará o destino. O mesmo destino que um dia nos uniu.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 6 de outubro de 2020

FLOR DA VIDA


*Rangel Alves da Costa

 

O ano inteiro de muita chuva. E esse ano foi de muita chuva mesmo. Dificilmente não amanhecia chovendo ou os pingos d’água se derramando do entardecer em diante. Muita gente dizia que desde muito que não se via um sertão com tanta fartura de água.

Tanques cheios, terra encharcada, água muita escorrendo nas ribanceiras. Os respingos entrando pelas janelas e as goteiras lavando velhos sofrimentos. Os olhares molhados das águas das alegrias, as mãos desejosas de trabalhar a terra para semear. Não havia medo ou temor, pois o tempo respingando vida fortalecia cada vez mais a esperança sertaneja.

Lá fora, pelo mundaréu sertanejo, além dos cercados e mais além, tudo exalando alegria. A catingueira florida, os arvoredos pujantes, a mataria tomada de viço e frescor. Pastagens verdejantes, um tapete de natureza em flor perante o olhar. Coisa mais linda o jardim sertanejo molhado de chuvarada.

As mãos de esmolas d’água negavam as submissões para se elevarem ao alto em preces de agradecimento. Os carros-pipas já não chegavam como milagres eleitoreiros. Do alto, caindo do alto, o sertanejo era reconhecido por uma força maior, por um poder bem maior.

O sopro divino era de nuvens cheias, prenhes, gordas, de muita água. O ano inteiro quase assim, quase uma eternidade sem os velhos e conhecidos sofrimentos. Mas as chuvas começaram a escassear. As manhãs não nasciam molhadas nem as noites chegavam espargindo vida em cada gota caída.

Estava bom demais para continuar assim. As colheitas fartas, as barragens fartas, as pastagens fartas, as alegrias fartas. Nem tudo tem a continuidade tão desejada. Por mais que chova e continuamente chova, o sertão sempre será sertão. E por ser assim, um sertão tão sertão, é que de repente o verde vai dando lugar ao cinza, a florida paisagem vai dando lugar ao definhamento.

Quando nenhuma flor restar mais na paisagem, somente a catingueira a preservar nos seus galhos e na nossa memória o mundo em que vivemos. Uma flor em meio à sequidão. Quando a terra esturricar de vez e o passarinho bater suas asas com destino incerto, então o sertão terá reencontrado sua face mais triste: a seca.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


Lá no meu sertão...


Caçando palavras...



A vida da gente (Poesia)


A vida da gente


Não renegue
nem despreze
a sua própria vida
nem a vida da gente
de toda gente
 
uma vida que se tem
a única de se viver
clamando oração e amém
barro moldado ao nascer
areia movediça além
mas firme de não mover
 
outra vida não há
não adianta querer
uma estrada a caminhar
na cruz e no seu padecer
mas também o festejar
de brilho e resplandecer
 
assim a vida
o viver ofertado
em taça de vidro
e asa de borboleta
leve e frágil
mas que pode voar
 
 
Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - o sertão no sertão


*Rangel Alves da Costa

 

Por mais que a cidade tente negar sua origem, ainda existe sertão no sertão. Basta se afastar um pouco do asfalto ou do paralelepípedo, virar uma curva aberta de estrada de chão, então logo reencontrará o sertão no sertão. Mandacarus e xiquexiques, o sol aberto em clarão. Sertanejo de enxada e foice, o seu ofício na mão. Vai um vaqueiro apressado, sopra o vento em lentidão. Casebres nos escondidos, a lenha queima no fogão. Cabeça de vaca na estaca, a catingueira em floração. Tudo parece distante num mundo de solidão, e quanto mais se andeja mais tem curva no estradão. A cor da paisagem muda na mudança da estação, o que era verde desanda e vem o cinzento da sequidão. O menino vai na estrada em galope de mansidão, então aceno ao menino e me vem sorriso de saudação. Que coisa mais linda na estrada, o sertanejo em seu sertão. Por mais que a cidade não queira, ainda pulsa esse coração. Por mais que os modismos reneguem, ainda existe sertão no sertão.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com