SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 28 de julho de 2011

OLHANDO A VIDA DOS OUTROS (Crônica)

OLHANDO A VIDA DOS OUTROS

                             Rangel Alves da Costa*


Olhar o outro naquilo que ele tem de melhor, mirar-se nos seus exemplos, ter o próximo como espelho para a prática de determinados atos e tomar certas atitudes, tudo isso é dignificante para o ser humano. Imperfeito que é, será sempre útil apreciar as realizações profícuas para também construir.
Contudo, não é bem assim que acontece com muitas pessoas. E muito mais do qualquer um possa imaginar. Tem gente que leva a vida, desde o amanhecer ao abrir a porta (se já não o fez por cima do muro) até o anoitecer, se preocupando única e exclusivamente com a vida dos outros.
Para estas, o dia não será bom se ao sair na calçada os seus olhos não encontrarem nada nem ninguém passando para a festa da inveja, do preconceito, do escárnio, da desonra silenciosa, do sorriso maldoso. Descortinar a vida do outro desde cedinho é o maior prazer que se tem, ainda que abjeto e abominável.
E sai no afã de enxergar adiante uma saia mais curta, uma roupa rasgada, um cabelo tingido, namorados que passam de mãos dadas, a moça que beija o rapaz, o vizinho que comprou um móvel novo e a loja veio fazer a entrega, o óculos novo de alguém, a motocicleta que foi adquirida, as mulheres que conversam nas proximidades, tudo enfim.
E a cada visão, com o corpo tomado de inveja, a mente sempre pensando o pior e o corpo todo enegrecido pelo mau-caratismo, é como se a vida só tivesse sentido pelo que os outros são, fazem, compram, gostam. A pessoa em si nem olha para o seu íntimo, nem se preocupa em saber se ainda possui alguma virtude, se é sempre melhor ter a sua vida inteira em função da vida dos outros.
E para tomar ciência do que os outros fazem e, consequentemente, mais tarde procurar uma de igual índole para ouvir suas mentiras, fofocas e aleivosias, esquece da própria casa e de tudo que tinha a fazer. Muitas vezes para de varrer a calçada para lançar o olhar maldoso sobre alguém, esquece a panela no fogo, o ferro de passar sobre a roupa, deixa de atender o esposo, sai correndo descalça só pra olhar o que está acontecendo mais adiante.
Triste sina a dessas pessoas, mas tão costumeira que esse indigno hábito pode ser constatado em cada esquina, em cada trecho, em cada porta ou janela que de repente se abra. E quando os olhos não têm o prazer de observar de per si, logo saem de suas casas em busca de construir o alimento para seus espíritos nojentos e vulgares.
Conheço pessoas que vivem mais nas portas do que mesmo dentro de casa. Quando o sol está feroz, recostam-se na janela e parece quem não têm mais nada a fazer na vida. Ao entardecer colocam cadeiras nas calçadas e sentam com a avidez dos famintos. E os olhos chegam a brilhar, girando de um lado a outro, procurando alguma coisa que motive curiosidade, que seja digna de preocupação. Ora, isto porque a preocupação com a vida dos outros é o que alimenta essa corja.
Para pessoas com tal caráter, entremeado de maledicência e falsidade, não há coisa pior do que a vida passar normal diante dos seus olhos. Chegam a ficar doentes, nervosas, aperreadas, se um vizinho não faz nada que cause inveja, que seja motivo de fofoca, que passe e esqueça de falar. Qualquer coisa que aconteça e o espírito se enche de motivação para, silenciosamente, desejar o pior para o próximo, esperar que ele se dê mal naquilo que conquistou.
Mas como o silêncio é sempre inimigo de gente desse vil caráter, a boca chega a queimar e a língua a coçar para aumentar em muito aquilo que viu, inventar o que não pode ver, construir qualquer mentira. E sai correndo em busca de outra fofoqueira para fazerem a festa.
E no encontro a primeira coisa que se observa é a cara de sonsice, o jeito de quem não sabe de nada e o início da conversa sempre por outro assunto diferente. Em seguida, uma diz que nem gosta de falar nada da vida dos outros, mas o que viu não pode deixar de opinar. E a outra diz a mesma coisa, que odeia fofoca e conversinha, mas tem coisas que não podem passar em branco. Então começa a maior safadeza do mundo, o desfazimento, o enlameamento, o mais completo rebaixamento de pessoas que nem sonham que estão delirando com o seu nome.
Daí ser verdadeira a máxima dizendo que quando a orelha começa a queimar é porque estão falando mal da pessoa. Se a orelha queima tanto nas pessoas de bem, não seria injusto que em certas pessoas a língua caísse e os olhos cegassem para determinadas situações.



Poeta e cronista
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Hoje, um dia... (Poesia)

Hoje, um dia...



Vou ser breve
é a última folha que tenho
o candeeiro está apagando
a chuva já vai embora
e lembrei que hoje
é dia de chorar na janela
ao menos um pranto
mas preciso chorar na janela
você me ensinou assim
pois um dia me disse
que mesmo se chegar o fim
ainda existirá no jardim
ainda estará no jardim
feito uma flor de saudade
que sobreviverá da lágrima
e da esperança que o amor
renasça em qualquer manhã
pelo que tanto semeamos
no sofrimento e na dor
e sem jamais dizer adeus.

Rangel Alves da Costa

TEMPESTADE - 80 (Conto)

TEMPESTADE – 80

                          Rangel Alves da Costa*


Assustado, Teté olhou para todos os lados para ver se avistava a presença de alguém. Contudo, apenas o negrume entrecortado pelo luzir frenético dos relâmpagos e a voz se fazendo ouvir como se não saísse apenas da pedra, mas de tudo que havia ao redor, das plantas, dos galhos, da chuva, da noite:
“Meu bom rapaz de coração puro, inocente como a manhã e amigo feito o passarinho, admiro em ti o reconhecimento pelo erro cometido e o pedido de perdão feito. Adianto, menino homem, que contra teu pensamento, teus atos e ações, bem como tuas ilusões de ser dono do impossível, não merecerá propriamente uma sentença, como se já fosse o momento do juízo final. Não, contra ti não caberá nenhuma pena, nenhum castigo, nenhuma reprimenda, nenhum constrangimento. O reconhecimento do erro cometido já bastou para o teu perdão. Ademais, onde buscar a culpa numa mente que não distingue perfeitamente, para agir intencionalmente, um erro grave de uma mera intenção? Como culpabilizá-lo de um ato que jamais seria capaz de cometer, de praticar, de levar adiante intencionalmente? Não existe em ti a índole dos ruins, dos perversos, dos maledicentes. Como diz a justiça dos homens, não pode ser culpado aquele comete um crime impossível. Essa história de que mandaste que essa tempestade se fizesse, que ela caísse assim tão voraz para punir determinadas pessoas, nada disso há de ser considerado. Ora, meu bom rapaz, assim como não pode dispor da tempestade, por ser um ato de vontade divina, do mesmo modo não poderia ser culpado pelas suas consequencias. Na verdade, digo meu bom menino, houve apenas uma coincidência entre o seu pedido ingênuo e inocente para cair a tempestade e o que deveria realmente acontecer por vontade divina. Assim, não deve ficar entristecido nem se sentindo culpado por nada, pois tudo que ocorreu e ainda está acontecendo faz parte da natureza, faz parte dos desígnios do céu sobre a terra...”.
“Mas então eu não sou dono de nada, dessa chuva, dessa ventania, desses raios, desses trovões?”, indagou Teté desconsolado. E a voz continuou:
“Meu rapaz, ainda que certas pessoas sejam dotadas de um espírito tão puro, humano e fraterno, ainda assim não poderiam dispor dos atributos divinos para ter poder sobre as coisas da criação. E Deus criou todas as coisas pelo seu poder e por amor: “No princípio criou os céus e a terra, e a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz; e a luz se fez. E viu Deus que era boa a luz; e fez a separação entre a luz e as trevas. E Deus chamou à luz dia, e às trevas chamou noite”. Tudo isso que vê ao redor faz parte da natureza. As chuvas, as mudanças no tempo, tudo isso é uma extensão da natureza e esta, ainda que muitos não compreendam e se revoltem, está sob o controle divino. A Bíblia diz em Salmos 19:1 que “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos”. Isto significa que tudo que está no firmamento, como o tempo e suas mudanças, está sob a ordem divina. Cabe a Deus dispor sobre as chuvas e as secas, a brisa e a ventania, o frio e o calor, mas agindo sempre em consonância com as ações humanas sobre a natureza. Tenha certeza, meu bom rapaz, que tudo que ocorre na natureza tem as mãos e o poder de Deus. A Bíblia diz em Marcos 4:39-41 “E ele, levantando-se, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E cessou o vento, e fez-se grande bonança. Então lhes perguntou: Por que sois assim tímidos? Ainda não tendes fé? Encheram-se de grande temor, e diziam uns aos outros: Quem, porventura, é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?”. Como viste, rapaz, tudo é de Deus e a ele cabe decidir sobre tudo. Sobre essa tempestade e sobre o sol que virá após ela, se assim for decidido que o sol volte a brilhar sobre a terra...”.
“Mas então eu não mando em nada, não posso nem pedir para essa tempestade ir embora, já que ela só trouxe destruição, mortes, angústias e sofrimentos?”, perguntou Teté, já ajoelhado. E a voz continuou:
“Antes que te responda vou dizer uma coisa, que também servirá como alerta e poderá transmitir aos outros homens. Deus criou tudo e esperou que o homem, sua principal criatura, agisse sobre sua criação. O que homem fez senão destruir? A Carta a Tiago 3:7 fala sobre o domínio do homem sobre a natureza: “Porque toda a natureza, tanto de bestas feras como de aves, tanto de répteis como de animais do mar, se amansa e foi domada pela natureza humana”. O que isto significa? Simplesmente que a natureza foi domada pelo homem, que a degradou e destruiu, e cujas consequencias podem ser vistas quando cai uma tempestade dessas e arrasta tudo que encontra pela frente. Ora, meu filho, as chuvas são obras divinas, mas tudo com seu comedimento, mas quando o homem desmata e torna tudo demasiadamente aquecido, o que deveria vir como chuva se torna rapidamente numa tempestade destruidora, que infelizmente faz vítimas inocentes...”.
E Teté insistiu: “Mas eu quero fazer alguma coisa pra parar essa tempestade!”. E a voz continuou:
“Só cabe a Deus decidir sobre essas coisas, mas terá, como bom filho e bom homem, essa oportunidade. Se queres aplacar a fúria da tempestade e os seus acompanhamentos, então terá a chance de realizar seu desejo. Basta que vá até a igreja, encontre um caderninho que contém uns escritos, peça para alguém ler, em voz alta o que consta nele para as outras pessoas que se encontram ali, e em seguida rasgue-o completamente e jogue os seus restos na maior enxurrada que puder encontrar. E depois terá o seu desejo realizado, terá uma manhã, terá o sol, terá o retorno da vida, ainda que no seu doloroso estado normal...”.
Então Teté se levantou animado, agradecido, dizendo que desceria a montanha naquele mesmo instante para seguir até a igreja e encontrar o tal caderninho. Já ia saindo em disparada quando parou pra perguntar: “Quem é você dono dessa voz?”.
“Eu sou aquele que te dará o sol!”

                                                     continua...






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quarta-feira, 27 de julho de 2011

EU E MEU ANJO (Crônica)

EU E MEU ANJO

                                 Rangel Alves da Costa*


O anjo recebeu um urgente chamado, entrou num raio de luz e sumiu. Na pressa, sem ter tempo nem para se despedir, acabou esquecendo suas asas aqui. E ainda estão ali, na cadeira da sala de estar, no mesmo local onde ele me guardava antes de sumir.
Meu anjo é o guardião mais bonito que existe, numa sublime fosforescência, de voz macia e firme, com asas de plumagem que chegam a soprar uma leve e dançante poeira de minúsculas estrelas, mensageiro obediente, tanto do que peço em preces e orações, como às ordens que chegam de lá de cima.
É meu amigo, meu confidente, é tudo, mas às vezes discordamos um pouco e entramos em pé de guerra. Insiste em querer me acompanhar por todos os lugares aonde vou, até mesmo naqueles que não cabe a estranhos saber. Mas diz que não é estranho e voeja ao meu lado, ora ao lado direito do meu ombro, ora à minha esquerda.
Outras vezes, em momentos que somente ele pressente ser necessário, vai à minha frente, abrindo caminhos, me protegendo, me alertando para as pedras no caminho e os olhos nos labirintos, me soprando ao ouvido que vá, que tenha cuidado, que faça isso ou aquilo. Não raro sinto como se estivesse no meu próprio corpo, dentro de mim, me tomando todo. E depois eu entendo por que.
Quando estou com raiva digo que volte pra onde não deveria ter saído, que vá cuidar de sua vida, vá ser anjo de outro e em outro lugar, e que me deixe em paz. Já sou maior, sei o que quero, sei o que faço. Mas ele parece que nem ouve, não está nem aí pra o que digo, e se aproxima lentamente de mim e me chama de criança, de aprendiz da vida, de sonhador que não sabe o que quer. Acaba me convencendo que sou isso mesmo.
E se faço que não ouço ele dá o troco na hora. Diz que tudo que já fiz na vida foi acertado, que nunca errei a estrada por onde deveria seguir, que posso viver eternamente despreocupado porque não existem pessoas ruins no meu caminho. E é por isso que sou feliz demais, tenho plena satisfação no amor, que até hoje nunca sofri com falsidades, mentiras, invejas. Depois me pergunta se é verdade ou não é.
Faz isso porque sabe que nada disso é verdade e por isso mesmo preciso tanto de sua proteção. Não deixa de ser uma chantagem, e mesmo vindo, partindo de um anjo, é nitidamente um meio de me colocar na parede, uma forma de me deixar sem argumento para contradizê-lo e valorizar a sua presença. E tem sempre razão o desafeto que mais admiro.
Procuro mostrar que não preciso dele, porém não tem jeito. Horas e horas ele fica invisível, não dá um só sinal de presença e até penso realmente que ele foi atender algum chamado lá em cima. Então começo a escrever poemas de amor, ouvir músicas apaixonadas, reler as cartas guardadas, colocar novamente a fotografia dela em cima da estante, tomar um copo de vinho e ficar na janela pensando na ingrata.
E quando estou bem triste, em tempo de chorar mesmo, ouço uma voz bem ao meu lado perguntando se quer ajuda para tê-la de volta. Digo não, e ele diz sim, repito não, e ele repete sim. Mas quando enfim digo sim, ele diz que ainda não é o tempo certo, ainda não é o momento de reencontrá-la, e simplesmente porque apenas sinto saudades e tenho recordações, mas não sei se ainda a amo de verdade. E ele completa dizendo que o amor é tão importante num ser humano que qualquer dúvida sobre sua existência já não é tanto amar.
Mas neste momento sei que ele não está aqui. Recebeu um chamado urgente e teve que ir conversar com Deus, e com tanta pressa partiu num raio de luz que até esqueceu suas asas. Eu bem poderia escondê-las para sentir a sua reação quando retornasse, mas prefiro deixá-las no mesmo lugar e sair por aí como há muito tempo eu queria, livre e sozinho, sem ter guardião algum ao meu lado.
Mas é impossível andar sozinho sem ter um mundo ao redor acompanhando cada passo, olhando tudo que faz, vigiando sua vida. Se ao menos o meu anjo estivesse ao meu lado, a me dizer pequenas coisas, a me orientar. Mas hoje ele não está, porque se estivesse aqui sopraria que não fosse por aquele lado. Mas é minha intuição própria não ir mesmo por ali. Será?



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Ainda que meus olhos... (Poesia)

Ainda que meus olhos...



Ainda que meus olhos
não chorassem mais
tantas lágrimas de saudade
e o meu coração aflito
tivesse de tanta dor piedade
não haveria como ficar aqui
ao sopro feroz desta cidade
se tenho um berço e um chão
e uma família de verdade

ainda que meus olhos
não chorassem mais
porque o lenço foi guardado
e a mala esteja arrumada
e só querem enxergar a distância
o destino certo na estrada
quero que olhe aquela fumaça
aquele andaime e aquela escada
para nem sentir saudades
quando a casinha for avistada

ainda que meus olhos
estejam esturricados
águas perdidas na dor
quero sentir tempestade
água caindo no chão
depois da cancela
dentro do meu sertão
encharcando a família
alegria demais no coração.

Rangel Alves da Costa

TEMPESTADE - 79 (Conto)

TEMPESTADE – 79

                          Rangel Alves da Costa*


A montanha era a melhor amiga que Teté possuía, disso ele não duvidava. Ao menos nunca iria ficar com raiva nem falar mal, disso também ele tinha certeza. Nos instantes de solidão, quando queria apreciar a natureza, conversar consigo mesmo e com a pedra que ficava lá em cima, corria e num instante chegava ao local. Ali se sentia noutro mundo, em paz, pertinho de Deus.
Se a montanha era sua melhor amiga, não havia quem conhecesse sua vida mais que a pedra onde ele sempre ficava quando chegava ali. Embaixo de um pé de pau, num ponto estratégico, a pedra era como se fosse um trono onde cada um que sentasse nela e apreciasse a vista ao redor se sentia verdadeiro rei. Mas soberano humildemente ajoelhado diante das grandezas da criação.
Desse modo, quando sentiu que sua cabeça estava a ponto de explodir cheia de culpa pela tempestade que tinha certeza ter mandado cair sobre a cidade e região, bem como se viu impulsionado a buscar uma rápida solução para o problema causado, o maluquinho sentiu que precisava prestar contas a si mesmo. Somente na montanha ele poderia se encontrar, se indagar, perguntar a pedra o que deveria fazer, encontrar enfim uma solução.
Mas com a tempestade que não dava trégua era quase impossível chegar à montanha. Ela ficava próxima à cidade, porém depois do riachinho, entrando em vereda, fazendo curva. Contudo, nem pensou duas vezes, pois na carreira que estava foi vencendo tudo como se tivesse o dom de correr sobre as águas e foi diretamente para uma parte mais alta de onde o riachinho descia com mais força.
Chegando ao local, derrubou um tronco e o arrastou até a correnteza das águas e depois se deitou sobre ele e foi dando braçadas até o ponto que queria. Mais adiante fez a madeira encostar-se à margem, no local exato que daria acesso à vereda que o levaria à base da montanha. Então começou outra correria, a maior pressa do mundo, pois a cabeça ainda estava completamente tomada por sentimentos de culpa e ansioso para dar logo um basta nessa situação.
Nenhuma outra pessoa conseguiria subir na montanha do jeito que ela estava com a tempestade, a não ser logicamente o maluquinho. Perecia enxergar tudo em meio ao negrume, saber por onde deveria seguir, ter um norte exato em tudo que fazia. É até difícil acreditar, mais ele preferiu subir pelo meio do mato, segurando em árvores e paus, fazendo de caminho qualquer lugar onde pudesse colocar o pé. E não demorou muito chegou ao cume, ao ponto mais alto da montanha, onde havia uma imensa árvore e a pedra amiga debaixo dela.
Ao chegar ao local nem parecia ter feito tanto esforço. Não demonstrava qualquer tipo de cansaço, de arranhões ou machucões pelo corpo, apenas o aspecto tristonho que não queria lhe abandonar. Continuava realmente triste, angustiado, se culpando demais, em tempo de enlouquecer mais ainda. Por isso mesmo olhou para a amiga pedra e ficou em silêncio. Era a primeira vez que deixava de cumprimentar a pedra quando chegava ali.
Contudo, sentou por cima dela e entristeceu mais ainda pela visão que passou a ter de tudo ao redor. As luzes surgiam repentinamente e a dor aumentava ainda mais. Na escuridão, com a chuva cortante, a ventania ainda mais forte naquele local e os relâmpagos parecendo que riscavam ao lado, não havia como não lamentar que um lugar tão belo agora parecesse um mirante de observação para o mundo que se acabava lá embaixo. Baixou a cabeça e começou a chorar.
Ainda em meio ao choro começou a falar com a pedra:
“Desculpe se não falei com você. Você me viu chegar e também não falou comigo, como sempre faz com a sua eterna mudez. Se não fosse pedra eu ia forçar você a falar direitinho. Mas deixe isso pra lá, pois sei que depois que ouvir o que tenho a dizer ou me diz alguma coisa, me ajuda, ou nunca mais venho aqui, subo nessa montanha e venho sentar pertinho de você...”.
Levantou, pegou umas pedrinhas pequenas e jogou bem longe, caminhava de um lado a outro e continuou:
“Você lembra que eu vim aqui outro dia rezar pra Deus me ajudar ser dono, ao menos por um dia, da maior tempestade que houvesse? E pedi a tempestade e pra ser dono dela por que queria fazer medo àqueles que gostam de zombar de mim, de me chamar de doido e fazer comigo um monte de crueldades que não mereço, como você bem sabe? Rezei tanto, fiz tanta prece que acabei sendo atendido. A chuva veio e ainda tai em enxurrada, com toda força e ferocidade. É água caindo de não acabar, mas também trovão, relâmpago, ventania e muito mais. É um monte de coisa junto e destruindo tudo. O pior é que está destruindo tudo, A tempestade que pedi, a que veio pra eu ser o dono, veio e perdi o controle e agora ela tá destruindo tudo. Por isso mesmo é que voltei aqui pra falar novamente com Deus. Preciso que ele me escute, me perdoe se fiz um pedido ruim e faça com que essa tempestade vá logo embora, acaba de uma vez por todas, pois não suporto mais ver tanto padecimento, tanta gente sofrer por minha culpa. Tem havido morte, desabamento, triste e aflição, e eu não quero mais ser o responsável por isso não. O que você me diz minha pedra, se eu pedir ele me atende novamente, só que dessa vez pra desfazer o malfeito?”.
E começou a chorar novamente, tendo até dificuldades para continuar expondo sua dor para a pedra. Mas continuou com a voz entrecortada:
“O que você me diz, será que ele vai me ouvir novamente? E pensando bem, minha pedra amiga, eu não sou dono de nada, principalmente das coisas de Deus. Quem sou eu pra querer ter o poder divino de fazer chover ou começar a estiagem? Quem sou eu pra...”. E se assustou porque começou a ouvir uma voz, e tinha certeza que vinha da pedra. Eis que Deus encontrou na impossível boca daquela solidez um meio de se expressar.

                                                   continua...





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terça-feira, 26 de julho de 2011

"PARA QUE CHORAR O QUE PASSOU, LAMENTAR PERDIDAS ILUSÕES..." (Crônica)

“PARA QUE CHORAR O QUE PASSOU, LAMENTAR PERDIDAS ILUSÕES...”

                                            Rangel Alves da Costa


Muitas vezes, é preciso que as luzes da ribalta se acendam para clarificar a certeza que a vida é um eterno caminho, um eterno continuar, não cabendo o ser humano tentar construir lamentando perdidas ilusões.
Ora, verdadeiramente as coisas não acontecem segundo desejamos sempre. Ao lado das alegrias pontuam as tristezas, as conquistas estão ladeadas com as derrotas, os amores são também temperados pelos dissabores.
Por tudo ser inevitavelmente assim, tudo que não foi conquistado será motivo para dar forças para novas lutas, novos empenhos, novas realizações. De nada adianta não tentar dar o passo seguinte porque o passo atrás foi em falso. As pedras, sempre as pedras no meio do caminho...
Essa necessidade que o homem possui de jamais esmorecer, jamais entregar os pontos e partir para o melhor a partir do fio tênue do medo, pensando sempre num amanhã muito melhor, está magistralmente expressa na genial letra de Charles Chaplin, o Carlitos, “Limelight”, que na versão brasileira feita por Antonio Almeida e João de Barro, o Braguinha, ganhou o título de “Luzes da Ribalta”.
“Vidas que se acabam a sorrir/ Luzes que se apagam, nada mais/ É sonhar em vão tentar aos outros iludir/ Se o que se foi pra nós/ Não voltará jamais/ Para que chorar o que passou/ Lamentar perdidas ilusões/ Se o ideal que sempre nos acalentou/ Renascerá em outros corações”. Eis a versão.
Então, o que nos quer dizer a genialidade de Chaplin? Imagine o próprio Carlitos como palhaço e, para cumprir seu ofício de proporcionar alegria à platéia, assim que as luzes se acendem tem que entrar na ribalta deixando todos os problemas pessoais para trás.
A vida pessoal do velho artista pouco importa nesse momento, pois quem tem a incumbência de tornar os outros felizes é o palhaço. Da cortina pra trás há todo um sofrimento, angústias infindas, tristezas, desamores, dificuldades de toda ordem, um verdadeiro caos. Mas isto não cabe ser vivenciado agora, pois as luzes da ribalta não se acendem para a tristeza nem para o sofrimento.
Todo mundo conhece uma história assim: o palhaço entra no picadeiro chorando e ainda assim tem que passar para as pessoas uma imensa felicidade, alegria contagiante, entusiasmo e prazer em tudo que faz. As pessoas não sabem do seu sofrimento íntimo, dos motivos daquele chorar interno que continua existindo, pois o próprio palhaço não deixa que nada disso transpareça. E por que ele faz isso? Porque sabe que um motivo ruim não pode ter a capacidade de destruir a vida totalmente.
E essa capacidade de fingimento que caracteriza o palhaço em ação, se levada a efeito na vida cotidiana certamente será de grande utilidade para o ser humano compreender que os problemas só podem ser vencidos se procurar superá-los com a certeza que nada está perdido. Ora, viver de lamentações, entregando os pontos, afirmando a si mesmo que tudo já está perdido, além de não modificar nada tenderá a fragilizar ainda mais o indivíduo.
Ademais, o velho palhaço sabe que as situações existentes precisam ser enfrentadas na sua feição presente e não revividas como se o ontem fosse mudar alguma coisa. A partir do já, do agora, do instante, o homem deve mirar seu olhar, dar o seu passo, ter a certeza que é pra frente que se anda e só conseguirá construir, apagando e destruindo velhos alicerces, se tiver a confiança que é capaz de tudo e tudo alcançará nessa força.
Esse denodo que deve ter o ser humano, segundo Carlitos, deve ser tão absoluto e extremo que mesmo a vida já estando chegando ao seu limite, ainda assim o ser humano, pela força que tem, continua sorrindo. E o que é mais importante, sem lamentar o que não foi conseguido, sem chorar o passado, sem tentar alcançar mais nenhuma ilusão perdida, pois o seu ideal foi conseguido: vencer!



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