SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Palavra Solta: cantiga de flores


Rangel Alves da Costa*


Flores, sempre flores, na beleza da vida, na tristeza da morte. Flores, sempre flores, no adeus e no reencontro, na saudade e na esperança. Flores, sempre flores, no jardim, pelo canto de chão, pelos jarros nos móveis, nas beiradas de estrada, no meio do mato. Flores, sempre flores, a simbologia poética: o amor, a união, a paixão, o enlace, a floração dos sentimentos. Flores que brotam viçosas, perfumadas e belas, nos jardins primaveris. Flores que desbotam avermelhadas nos jarros, nos caqueiros, nos escondidos da casa. Flor de rosa, violeta, jasmim, girassol, begônia, antúrio, copo-de-leite, lírio, ou flor de catingueira, de cabreira, de maracajá, de araçá. Flor de quintal, flor de telhado, flor que desce na parede e se derrama pelos cantos da casa, flor no olhar e no coração. E receber e doar um buquê, deixar à janela uma carta de amor numa flor, se ferir no espinho e assim demonstrar a desilusão amorosa. Flores brancas envolvendo a noiva, enfeitando a igreja, enfeitando a esperançosa união. Mas depois, infelizmente, as flores murchas, sofridas, desalentadas, envoltas e lágrimas e entristecimentos. Por que a flor é também fim de tudo. A morte rodeada de flores, aquele terrível aroma de flores de despedida, flores de cemitério, de jarros esquecidos no tempo. Ou a vida como flor de plástico: tão bela e de repente já carcomida, cheia de pó, renegada, apenas um resto de flor. E sem primavera que possa trazer outra cor, outro perfume, outra flor. Apenas a flor do adeus e da saudade.


Poeta e cronista
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

DE MAR A MAR


Rangel Alves da Costa*


Sem jamais sair da terra firme, porém vivendo de mar a mar. Sem jamais partir de um cais e nas águas adentrar para o azul singrar, porém vivendo de mar a mar. Sem jamais ter avistado ilhas, sentido o voo de gaivotas, colocando os pés em qualquer porto ou cais do mundo, porém vivendo de mar a mar.
E de mar a mar vai singrando ao sabor das ondas, das tempestades e vendavais, dos arremedos nas traiçoeiras encostas, dos mistérios aterradores que se escondem na ilusão das calmarias e rentes e abaixo das ondas. E de mar a mar vai seguindo na tormenta da vida, um náufrago sem proa e sem esperança de salvação. Que mar será este, que é tão terrível viver de mar a mar?
A solidão é um porto e a tristeza outro porto que se alongam de mar a mar. O sofrimento é um cais e a aflição outro cais que mesmo distantes se perfazem de mar a mar. A perda é um porto e a melancolia outro porto que se unem num só mar de mar a mar. O desalento é um cais e a lágrima outro cais aonde aportam as dolorosas ondas de mar a mar. O mar da desesperança se misturando às águas do mar das desilusões e de outros mares que vão além de mar a mar.
Às vezes a tristeza é tão grande que apenas um mar se faz pequeno para as lonjuras que se quer fugir. Às vezes, as lágrimas correm tão intensamente que encheriam mais que um mar. Às vezes, a necessidade de fuga é tamanha que se quer alcançar além do mar. Às vezes, as flores das desesperanças são tantas, as prendas das desilusões são tantas, as oferendas dos entristecimentos são tantos, que muitos barcos seriam precisos para espalhá-los sobre as ondas de muitos mares.
Quantos mares cabem num olhar choroso de saudade, numa face lavada de dores e tempestades? Quantos mares cabem por cima dos travesseiros, encharcando a cama, inundando lençóis, embebendo a fonte do amoroso e despedaçado coração? Quantos mares cabem nos olhos molhados de ressequidão, nos olhos tomados de vazio infinito, nos olhos encharcados de nada avistar além da paisagem em sombras? Quantos mares caberão nas lágrimas que ainda serão choradas antes do amanhecer?
De mar a mar o sofrimento, de mar a mar, a dor, a desilusão, a desesperança. Há um cais solitário esperando a solidão de alguém. Há uma concha na areia esperando o segredo que alguém contará sobre sua dor. Há um farol entristecido esperando iluminar alguém que chegue escrevendo poesia na areia e, de flor à mão, se aproxime das águas para renovar esperanças. Há uma onda que vem e que volta, mas que deseja se demorar sobre os passos de alguém sobre a areia. Mas tudo num só mar. E um mar é pouco para desaguar os infortúnios da existência.
Talvez partindo, de mar a mar, enfim seja possível encontrar um porto que vá além do desalento. Talvez viajando, de mar a mar, consiga outras experiências de vida que não somente abrir e fechar a janela, avistar o mesmo horizonte, sofrer o mesmo sofrimento, para depois padecer, sentir saudade, chorar, querer voar, querer morrer, querer o mar. Talvez seguindo, de mar a mar, um dia se afaste das procelas e temporais e encontre um tempo de calmaria. E ante a mansidão do mar e o voo suave das gaivotas, imagine ser possível encontrar a felicidade.
Assim, de mar a mar, os dias, as horas, os instantes de vida. Uma imensidão de mar e ainda tão pouco mar para tanto padecimento. E um dia ouviu que as águas dos mares, rios e oceanos, não são enxugadas com lenços ou com as mãos sobre a face. É preciso buscar o sol da felicidade para esvaziar toda água. É preciso abrir a janela e sorrir para que as águas transbordem e desapareçam do olhar. E sem mais motivos ou lágrimas para chorar, talvez o mar se transforme apenas em poesia. Não mais sofrimento de mar a mar.


Poeta e cronista
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Revelação (Poesia)


Revelação


Segredos secretos
guardados em mim
desejos indiscretos
de amor sem fim

mistérios guardados
neste meu coração
que serão revelados
em forma de paixão

olhe nos meus olhos
compreenda-me assim
e todo o meu mistério
no teu amor terá fim.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: caminhos


Rangel Alves da Costa*


Os caminhos são tão imprevisíveis como o destino humano. Por mais que se deseje seguir numa só direção, por mais que haja um endereço certo para chegar, por mais que tudo faça para não perder o rumo da estrada, ainda assim tudo pode mudar a partir do primeiro passo. Ora, os caminhos são do tempo, da vida, do mundo. Ora, os caminhos não pertencem aos caminhantes, não estão ao dispor do passo, não se abrem segundo o desejo de cada um. Ora, o s caminhos possuem curvas, labirintos, margens desconhecidas, viajantes indesejados que surgem, perigos e ameaças. Ora, os caminhos são abertos e, como tal, passíveis dos mais alegres e dos mais tristes acontecimentos. Há flores e árvores sombreadas, há fruto maduro e água fresca de fonte, há uma brisa que sopra festiva, alegre, serena. Mas também os espinhos, as pedras, as armadilhas, o sol, a poeira, o cansaço, os olhos nos escondidos das margens, tudo que amedronta a caminhada. Mas os caminhos foram feitos para ser seguidos. Algum dia na vida a pessoa bota o pé diante da porta, dá o primeiro passo e ao longe vai. Para onde vai? Nunca há a certeza para onde se vai. As distâncias nascem dos caminhos curtos e o além pode ser alcançado num passo. Os olhos avistam ao longe, os passos querem seguir adiante. Talvez o horizonte adiante seja bem melhor. Ou ter de fazer mais tarde o caminho de volta, até novamente partir. E seguir para nunca mais retornar. Apenas na saudade, apenas na saudade...


Poeta e cronista
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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A POESIA INSUSTENTÁVEL


Rangel Alves da Costa*


Com as desculpas ao grande mestre, mas a poesia de Drummond passou a servir de espelho às mazelas da vida, aos lamaçais que irrompem de Brasília abaixo, às tiranias silenciosas que afligem mais que a senzala. Nada de bom acontece. Tudo uma sequência de vilanias, espertezas, aviltamentos, penúrias.
A poesia de Drummond não merecia isso, mas sua palavra saiu da contundência sentimental para alcançar os recônditos mais sombrios e seus cotidianos de envergonhar. Seria possível uma poesia desfazendo o equívoco entre o amor e a iniquidade humana? Impossível reescrever os versos, mas também impossível de não conjuga-la perante o vergonhoso verbo do presente.
Diz Drummond: “João amava Teresa que amava Raimundo/ que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili/ que não amava ninguém. João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história”. Assim, alguém que sucessivamente ama, que sucessivamente perde, que mais tarde se depara com os inusitados amorosos da vida.
“Quadrilha”, o poema acima transcrito, foi publicada em 1930, no livro Alguma Poesia. Mesmo já passados mais de 80 anos, a tristeza da poesia continua aflorada como naqueles idos. As desilusões amorosas são as mesmas, os desvãos do coração são os mesmos, a volubilidade do amor ainda possui a mesma feição. E também a sucessão de encontros e perdas, de descompassos e reencontros, de alegrias e sofrimentos.
Contudo, além da amargura poética, da percepção volátil do amor e das relações, a arte Drummondiana remete a uma recordação ainda mais dolorosa: o poema Quadrilha está cada vez mais presente no dia a dia, e tão pujante na atualidade que faz esmagar a ideia de poesia. E assim porque os fatos em sucessão podem ser avistados em paródia, em espelho de uma realidade muito diferente daquela imaginada pelo poeta itabirano no seu primeiro livro. Hoje, extraindo a métrica dos versos, a poesia que se tem é tão insustentável como a própria vida.
E por motivos que apunhalam sem piedade, surgiria o seguinte arremedo: João amou a esperança que amou a promessa/ que amava a ilusão que amava a mentira/ que falsamente amava a todos indistintamente. João se desesperançou de vez, a esperança perdeu para o medo, a ilusão se sobrepôs a tudo, e tudo fez sofrer e fez chorar, e tudo fez desacreditar na vida e nas pessoas, principalmente nos políticos e governantes.
Ou ainda: O PT que amava o PMDB, que amava o poder que amava qualquer um que amasse a traição, que não amava ninguém. O PT traiu o poder e o povo, que foi traído pelo PMDB, que se vendeu a qualquer preço ou em troca de cargos e benesses. Depois se descobriu que os amantes do poder, PT, PMDB, PSDB, DEM e toda uma miséria de siglas, dividiam o mesmo leito na esperança que o poder lhes chamasse aos abraços como uma prostituta de muitos.
Ou ainda: A Petrobras que era amada por Paulo Roberto, que amava a propina, que era amada por Cerveró, Pizzolato, Youssef, Barusco, Fernando Baiano e tantos outros, que outra coisa não amavam senão a corrupção. E esta que era amada pela Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão, Mendes Júnior e tantas outras acostumadas a lidar com entulhos. Depois de usada, traída e aviltada, a Petrobras buscou socorro nos braços de Sérgio Moro, que não amava ninguém, mas resolveu tirar satisfação com os traidores.
E assim a insustentável poesia. Todo mundo que amava todo mundo que não amava ninguém. E a prova maior desse desamor está nas deleções premiadas. Agora todos são inimigos depois de tanto amor a uma causa comum: o dinheiro da Petrobras, do país, da saúde, da educação, do povo miserável. Por falar nisso, a quem será que Dilma ama?


Poeta e cronista
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Dezembro (Poesia)


Dezembro


Dezembro
e já te chamo
para mais perto
do meu coração

dezembro
e já te imploro
ouvir ainda
a velha canção

dezembro
e já te prometo
a vela acesa
como devoção

pois dezembro
e entre harpas
e silêncios
a reconciliação.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: Sermão do Mandacaru


Rangel Alves da Costa*


E um dia foi chamado de louco aquele sertanejo que do alto da montanha fez ecoar pelas distâncias esturricadas as palavras que ainda são ouvidas e repetidas. Andarilho, missionário, profeta, louco ou sonhador, muitas foram as denominações a ele atribuídas. Mas a verdade é que abandonou o lar da família para seguir pelas estradas pregando contra as injustiças perpetradas contra o homem da terra, aquele que quanto mais trabalhava mais se escravizava perante a força dos coronéis sertanejos. E foi nas suas andanças que ao entardecer já sombreado subiu numa montanha para um e outro que por ali passava. Sempre começando com “Bem-aventurados”, prosseguia sentenciando verdades que foram recolhidas nos cadernos do tempo. Eis, então, parte do então chamado Sermão do Mandacaru: “Bem-aventurados os que do mandacaru possuem a flor como esperança e os espinhos como força de luta...”. E prosseguia com sentenças assim: “Por que quem padece debaixo do sol, se sacrifica para sobreviver, possui um motivo maior para viver que não somente esperar que a esmola lhe chegue como submissão...”.


Poeta e cronista
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