Ao lado do Mestre Tonho
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
terça-feira, 19 de maio de 2020
Ao fogo e ao vento (Poesia)
Ao fogo e ao vento
Ao fogo e ao
vento
longe do
pensamento
as folhas mortas
as folhas tortas
depois de
rasgadas
e bem amassadas
de um caderno
que imaginou
amar
poemas e corações
iludidas
declarações
ao falso amor
escritas
em letras bonitas
sem imaginar
que tanto amar
tornasse em
lamento
e hoje merecesse
ir ao fogo e ao
vento.
Rangel Alves da
Costa
Palavra Solta – os dois meninos e o gol
*Rangel Alves da Costa
Ontem eu ia passando ao lado da quadra de
esportes da Praça Eudócia, em Poço Redondo, sem sequer prestar atenção em dois
garotinhos que brincavam de bola, quando de repente ouvi de lá de dentro um
deles gritando: “Vou marcar um gol pra Rangel!”. Olhei surpreendido, não
reconheci o garoto, mas vi quando ele chutou e depois vibrou com o gol, já
olhando, alegre e satisfeito, em minha direção. Mas o outro meninote que servia
de goleiro, prontamente retrucou: “Seu bestinha. Eu só deixei a bola passar
porque o gol era pra Rangel!”. Tão emocionado fiquei que até me esqueci de
tirar uma fotografia dos dois e eternizar comigo aquele momento mágico e
encantador. Tão encantado fiquei que até me esqueci de perguntar os seus nomes.
E, agora tomado de tristeza pelo esquecimento da aproximação, confesso que
continuo sem conhecer nenhum dos dois. Como sou ingrato com a vida tão bela que
me é ofertada!
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
sábado, 16 de maio de 2020
A MESA E A FOME
*Rangel Alves da Costa
Em meio à natureza, no seu habitat natural, o
bicho até pode emagrecer demais por carência de alimentos, porém nunca será
visto em situação de sobrepeso ou de obesidade. Grandes, largos, corpulentos,
mas jamais pelo excesso de gordura, e sim pela própria compleição física de
cada espécie.
Contudo, quando o bicho é caçado pelo homem e
passa a viver em ambiente doméstico, logo perderá seu aspecto físico natural. E
assim ocorre pelo fato de ser alimentado da forma que o homem faz na sua alimentação:
exagerada, gordurosa, desequilibrada. O resultado será uma obesidade
contrastante com a normalidade do bicho.
O porco, por exemplo, jamais alcançaria um
exagero de quilos, de modo até a não poder mais caminhar, acaso seu ambiente de
vida fosse distante do homem e seu chiqueiro tomado de restos de alimentos da
mesa, lavagens, rações gordurosas e produtos químicos próprios à engorda. É
criado assim por que quanto mais banha alcançar mais presumidamente gordo será,
e com isto vendido pelo peso.
Noutra situação, um porco do mato é todo
esguio, esbelto, na grandeza e na largura apropriados ao seu tamanho. Não
existem lobos gordos demais nem elefantes obesos. Não existem guaxinins fora de
forma pelo peso ou onças com sobrepeso. Mas basta que a onça seja domesticada
num circo, por exemplo, e toda sua estrutura biológica e química será
transformada.
O animal, seja leopardo, raposa, tigre ou
hiena, come apenas na sua medida. É a sua fome que vai medir o tamanho de seu
prato. Mas não com o exagero humano de ingerir cada vez mais alimentos sem
qualquer necessidade, sempre forçando dilatação de seu estômago e
consequentemente a obesidade. Já o animal se contenta em apenas se alimentar,
não forçando nada além daquilo que seu estômago pede.
Uma ilustração. De repente um tigre, sempre à
espreita de sua presa, sai de seu esconderijo e corre em disparada em direção a
um lobo. Veloz, atroz, levado pela necessidade de alimento e pela fome que está
sentindo, num bote avança sobre a presa e prega seus dentes afiados no pescoço
do indefeso animal. Daí em diante, e rapidamente, grande parte do lobo é
devorado. Quando está saciado, ou deixa os restos para outros animais ou
arrasta para algum esconderijo nos arredores. Será a garantia de uma comida
posterior.
Não se observa, contudo, o tigre forçando a
ingestão de mais e mais alimento. Acaso fosse assim, ali ele permaneceria para
roer até os ossos. Assim ocorre com os demais animais, cuja fome faz devorar
suas presas, mas sem fazer disso um desperdício na sua mesa natural. Ademais,
não é uma questão de apenas matar o outro animal pelo prazer de sangrar sua
jugular, mas de necessidade de sobrevivência, de uma imperiosa necessidade de
se alimentar para recompor suas forças e se proteger dos avanços de outros
predadores.
Mas o que ocorre com homem na sua dieta?
Totalmente o inverso do coelho, do tamanduá, da girafa, da lebre, da zebra, do
elefante, do lince, do leopardo. Perante a mesa, ante sua gula infinita, o ser
humano é um descontente por natureza. Parece mesmo que a sua gula é tão doentia
quanto o alimento que ingere. Geralmente, não há limitação do homem perante o
que lhe é disposto enquanto alimento. Quer mais e sempre mais, come mais e
sempre mais.
Somente quando o alimento é escasso ou pouco
mesmo, situação em que não pode desejar sequer um tiquinho a mais e muito menos
repetir o prato, é que o homem se dá, forçosamente, por satisfeito. Mas não
quando a comida é farta, quando a mesa é grande e as carnes e os mexidos são
muitos e variados. Enche o prato, come de se lambuzar, sempre coloca mais e
parece até querer chorar quando já não lhe cabe mais nem uma perna de frango.
Despede-se da mesa tristonho, cheio demais, largo demais, esbaforido por dentro
e por fora, mas prometendo logo voltar. E volta mesmo. Não espera nem a
digestão se completar e novamente já estará enchendo um prato.
Como observado, na forma de se alimentar
também uma grande diferença entre o bicho e o homem. O animal é comedido, é
educado perante sua mesa e seu alimento. Quando o cachorro é gordo demais,
assim o é pela mão humana, que lhe empanturra do que não presta. Assim como faz
a si mesmo, devorando tudo pelo prazer da gula, acha que o seu bicho doméstico
também deve ter sua doentia obesidade.
Bastaria que se mirasse na dieta dos bichos. Alimentar-se
por que é preciso, mas somente na medida da fome. Jamais esvaziar tudo que
estiver adiante e encher tudo que estiver por dentro e por fora. E como
resultado esse balofamento todo que se vê por aí, onde roupa não cabe mais e
até a pessoa não cabe mais em si mesma.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
Estranho amor
Estranho amor
Esse estranho
amor
que aceita
espinho e flor
que no frio sente
tanto calor
que sente no fel
gostoso sabor
uma paixão que
inverte
até que a teia
desfaça o laço
a distância no
lugar do abraço
e a singeleza se
torne puro aço.
Rangel Alves da
Costa
Palavra Solta – eu e os bichos
*Rangel Alves da Costa
Então eu me afastei da cidade e fui prosear
com os bichos. Cheguei rente à porteira, um tanto desconfiado do que eles
poderiam pensar de mim, mas fui bem recebido. Adiante, um monte deles, e foram
se achegando ainda mais. De repente, estávamos todos ali, somente a porteira
nos separando, assim como velhos amigos em passageiras visitas. Eu sabia que
eles desejavam que eu puxasse a conversa, pois todos calados e olhando em minha
direção. Então comecei a prosear. E logo fiquei sabendo de uma pessoa muito rica,
dona daquilo tudo, e de nome “Seu Bé”, talvez seja isso mesmo. Perguntei: “Quem
é o dono desse pasto?”. Responderam: “Bé”. Perguntei: “De que é essa
propriedade?”. Responderam: “Béé...”. Fiz mais perguntas: “De quem é aquele
montão de terra a perder de vista?”. Bééé...”, foi o que responderam. Por fim,
indaguei onde esse Bé estava. Então todos chamaram numa só voz: “Bééééé...”.
Esperei mais de meia hora e o tal de Bé não apareceu. Fui embora, mas já longe
eu ainda ouvia: “Béééééé...”.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
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