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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

As doces ilusões (Papai Noel e outras verdades)


Rangel Alves da Costa*


Fantasias, ilusões e mentiras persistem de modo tão alentador que jamais deverão perder suas razões de existência. Precisam, cada vez mais, serem confirmadas como verdades. E simplesmente porque servem de sustentáculo à vivência num mundo onde a realidade é tão cruel, desumana e desesperançada. Diante da face tão cruel do instante, alça-se voo mental em busca de qualquer ilusão que torne o viver menos angustiante.
As quimeras e utopias servem como possibilidades diante do impossível. Muitas vezes é preciso sonhar, fantasiar, inventar, criar realidades e situações, viver no imaginário, como única forma de fugir à mesmice cotidiana e suas realidades nada alentadoras. Desse modo, o ser humano, seja criança ou adulto, necessita manter uma porta aberta no seu espírito e na sua alma para que as fantasias aconteçam e os imaginários permitam esperanças e alegrias.
A imaginação humana não deve se voltar apenas para o espelho real. Deverá ultrapassá-lo para permitir viagens, sonhos, divagações afetuosas. Deverá ultrapassá-lo para buscar outros sentidos na existência, de modo que esta não signifique apenas viver para o dado, o certo, o concreto, sem chances de moldar o que se mostra tão feio e frio. Somente com a fantasia o espelho poderá ser ultrapassado para o encontro e a preservação daquilo que verdadeiramente provoca mais humanização ao viver.
Ora, certo é que Papai Noel não existe, bicho-papão não existe, o boi da cara preta não vem pegar a criança que não quer fazer isso ou aquilo, sapatinho colocado à janela na noite de natal não será avistado senão por pessoas. Verdade que as crendices populares só possuem eficácia na mente daqueles que nelas acreditam e também que a bruxa malvada não vem dar vassourada em menino que não quer tomar banho. Mesmo não existindo, tais fantasias precisam existir e ser preservadas no coletivo social e na mente de cada um.
Como afirmado, tais fantasias alimentam os seres de possibilidades que a realidade jamais poderá oferecer. O ser humano também precisa da ilusão e da crença no irreal, precisa ir além do visível e palpável em busca do que sua imaginação requeira como útil e agradável. E até necessário, pois, como já asseverado por alguém, o ser que se despe de qualquer sonho ou simplesmente deixa de sonhar, logo se verá órfão daquilo que não é sonhado e refém da realidade mais indesejada.
Por isso que as fadas, os duendes, os elfos, os seres encantados das florestas e todos os mistérios da imaginação devem continuar existindo nas crenças, nos corações e mentes. As histórias da carochinha precisam continuar sendo ouvidas e acreditadas como se verdadeiras fossem. As lendas, fábulas, histórias de bruxas malvadas, princesas apaixonadas e príncipes valentes devem continuar atraindo cada vez mais a atenção das pessoas. E que mundo triste e tedioso de ser vivido aquele onde os portais da imaginação não podem ser abertos para os voos muito além do real.
As provas certamente são poucas, mas a maioria das pessoas acredita na existência de seres fantasiosos que aguçam a imaginação. E não querem deixar de acreditar simplesmente porque não só convivem bem com o desconhecido como precisam acreditar em existências imaginárias. E assim acontece porque a realidade desde muito deixou de atrair, de alegrar, de cativar, de tornar possível qualquer sonho bom. E também acontece porque o instinto infantil de cada um permanece inalterado e precisando ser alimentado pelas ilusões e fantasias.
Para um dimensionamento da importância da presença do invisível, basta que se indague acerca da crença nos anjos e nas santidades. A maioria das pessoas não só acredita na existência dos seres celestiais como dizem que possuem anjos de guarda. Nas preces e orações conversam com os santos como se estes estivessem ao lado, como presença constante. Do mesmo modo ocorre na crença da existência de seres fantásticos, encantados, elementos sobrenaturais. Não há quem não se encante com os proseados sobre sacis, caiporas, mulas-sem-cabeça, fogo-corredor. E a crença passa a ser tamanha que de vez em quando alguém afirma ter avistado o cavalo sem cabeça soltando fogo em disparada.
Eu sou exemplo de crença no ilusório. Ainda hoje tenho como real aquele Pequeno Príncipe encontrado na obra de Antoine de Saint-Exupéry. É como se agora o avistasse pulando de cometa em cometa, conversando com sua rosa, a serpente e o Baobá, espalhando sabedoria e dizendo, enfim, que o essencial é invisível aos olhos. E é mesmo, pois somente o coração para traduzir todo o encanto daquilo que acredita e fazer dessa crença uma força que alimenta a existência.
Ao entregar ao netinho o presente de natal, o avô foi logo dizendo que ele estava sendo apenas mensageiro daquilo que Papai Noel havia deixado com seu nome na lareira. Mas o menino, entremeado de alegria e surpresa, deixou o avô ainda mais surpreendido ao falar: Vô, não precisa inventar essa história. Já sei que Papai Noel não existe. Ouvi um amigo dizer que menino que continua acreditando em Papai Noel nunca cresce, nunca se torna gente grande.
Então o avô abraçou-o e disse quase em segredo: Meu netinho, já sou um velho e mesmo assim sempre acreditei em Papai Noel. E só cresci, me tornei adulto e cheguei onde estou porque sempre acreditei naquilo que muitos diziam inexistir. Primeiro acreditei em Deus e depois em tudo aquilo que fortalecia minha alma. Ademais, a criança se faz homem levando os sonhos e crenças que jamais deseja desacreditar.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

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