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A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Palavra Solta – depois de duas cachaças


*Rangel Alves da Costa


Depois de duas cachaças o homem é outro homem. Até duas já se faz mais alegre, mais animado, mais amigueiro, encorajado e desembaraçado. Mas depois de duas, o homem já transformado então começa a se transmudar ainda mais. Alardeia uma riqueza que ninguém sabe onde existente, ganha tamanha importância social e política que ninguém sequer imagina possível, fanfarreia tão desmedida valentia que ninguém sabe de onde veio tanto encorajamento, ostenta tanta vantagem que ninguém mais sequer chega a seus pés. E fala de modo tão contundente que quem não o conheça passa mesmo a acreditar estar diante do rei das proezas. Depois que duas cachaças e as outras mais vão escorrendo pelas beiradas, e dose após dose o tacho vai se enchendo, então o valentão e o melhor de dono passa a perder as estribeiras, e não é mais nem mais arrojado nem maioral, mas apenas o embriagado a dizer besteiras, coisas sem nexo, num palavreado insuportável. E quer abraçar todo mundo, cantar e aboiar, lamentar e chorar, ser agora aquele de cai e não cai ao pé do balcão. Até que, tropeçando, vai rumando porta afora sem saber nem onde pisa nem aonde vai. Mas sempre encontra algum lugar. Ou a porta de casa, sem saber como chegou, ou mesmo a calçada, sem saber como levantar.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com 

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