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quinta-feira, 10 de março de 2016

COMO MATAR JARARACAS


Rangel Alves da Costa*


Dias atrás o ex-presidente Lula se autodenominou de cobra jararaca, que depois de ser injustamente atacada prepara seu revide com todas as forças e meios que uma serpente aviltada pode ter. E no contra-ataque o bote e o veneno mais letal que possa existir.
Após ser levado pela Polícia Federal para prestar depoimento, em discurso à militância petista Lula afirmou que “se tentaram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo. A jararaca tá viva, como sempre esteve”. Certamente, dali em diante, passaria a mostrar o que uma cobra de rabo pisado é capaz de fazer.
Afirmou, pois, o ex-presidente que pisaram no rabo da cobra, mas não na sua cabeça. Significa dizer que uma cobra de rabo pisado logo ergue sua cabeça e contra-ataca com presas agulhadas cheias de veneno. Quando o bote é certeiro, logo danosas consequências serão suportadas pelo agressor.
Quem já pisou no rabo de uma cobra sabe muito bem o que Lula quis dizer. Talvez a honra maior de uma serpente esteja mesmo no rabo, pois no instante seguinte a pisada as presas peçonhentas já estarão deixando suas picadas mortais. Apenas duas, mas pode ser o fim de qualquer um.
Daí que é preciso cuidado, que é preciso ter o máximo de precaução para não pisar em rabo de cobra. Já que o revide pode ser tão perigoso e até mortal, ao invés de pisar no rabo deve-se logo sufocar sua cabeça. Ou esmagar, acachapar, achatar de tal modo que perca toda sua força de reação.
Sobre as palavras de Lula, disse dom Darci José Nicioli, bispo-auxiliar da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, no sermão dedicado a graça de pisar a cabeça da serpente, que será uma graça divina pisar a cabeça daqueles que se autodenominam jararacas. É preciso anular o mal com todas as forças do bem.
“Peça, meu irmão e minha irmã, a graça de pisar a cabeça da serpente. De todas as víboras que existem e persistem em nossas vidas”. Pisar a cabeça “daqueles que se autodenominam jararacas. Pisar a cabeça da serpente. Vencer o mal pelo bem, por Cristo nosso Senhor”. Eis, em síntese, o sermão de dom Darci.
Ainda nas palavras do bispo-auxiliar, Maria pisou a cabeça da serpente e ela não a tocou, pois todo o mal foi anulado. É hora de pisar a cabeça da serpente, de qualquer serpente que ameace a vida e a paz. É preciso anular a força do mal e vencer o mal pelo bem. Assim, uma resposta bíblica às ameaças dos novos tempos.
Por trás da simbologia da serpente do mal há um perigo real envolvendo a peçonhenta. A jararaca é uma das cobras mais perigosas que existem. Seu bote é certeiro e mortal, sua presa fina, pontuda, agulhada, injeta a morte em poucos segundos. Talvez por isso Lula tenha se espelhado no seu poder de ação.
Do reino animalia, da classe dos répteis, da ordem dos escamados, da família dos viperídeos e dos crotalídeos, da espécie bothrops, a jararaca é a serpente que mais faz vítims no Brasil. A peçonha da jararaca é potente, letal, fatal. Sobre seu corpo há um tecido escamoso, com desenhos marrons, que serve de camuflagem ideal para emboscar suas presas.
Diferente da cascavel, que possui uma espécie de chocalho na cauda anunciando sua prontidão para o ataque, a jararaca se mantém quieta, silenciosa, preparando o bote. O seu veneno provoca dor imediata, inchaço, hemorragia, bolhas, gangrena, abcessos, necrose e insuficiência renal aguda.
Serpente de hábitos noturnos, rastejantes, procura camuflagens mesmo na escuridão. Mas age também durante o dia, quando se mistura a folhagens e ao mato rasteiro para atacar sem ser percebida. Quando avistada, então prontamente ergue parte do corpo para se lançar ao bote. Não é tarefa fácil fugir de um ataque da jararaca, vez que sua impulsão é tamanha que a pessoa quando se dá conta já está mordida, ferida, envenenada.
O próprio Lula ensinou que deixar uma jararaca viva é a pior escolha que alguém pode fazer, pois haverá troco, retribuição do mal pelo mal, revide com redobradas consequências. Seja discurso de ódio ou promessa acalorada, a verdade é que se deve evitar, a todo custo, que tal veneno consiga alcançar o calcanhar da nação.
Será preciso, então, matar a jararaca. Mas matá-la não pisoteando sua cabeça, dando de porrete nas suas vértebras, ferindo-a até o exaurimento. Mas com a arma ensinada pela própria cobra no seu afã de ataque, no seu ódio reprimido, na sua sedenta vontade de envenenar.
Como matar jararaca? Muito fácil. De vez em quando a cobra se desfaz de seu escudo de escamas para tomar banho nas fontes, nos tanques e riachos. Ao retornar e não encontrar seu tecido escamoso, ela acaba se revirando toda, tomada de fúria raivosa, picando o seu próprio corpo e depois morrendo de enlouquecida exaustão.
Com a serpente de Lula pode acontecer a mesma coisa. Sua carapuça já foi retirada, todo o seu ser e fazer já estão descobertos, e ele agora se encontra no mesmo estágio da cobra furiosa. O passo seguinte será avistá-lo bebendo de seu próprio veneno. E então já não ameaçará mais ninguém, pois serpente alquebrada dos pés à cabeça.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Um comentário:

Antonio Oliveira disse...

Meu caro escritor Rangel Alves Costa: acredite você que tenho praticamente todos seus artigos e crônicas no arquivo do computador. Contudo, o texto de hoje - pela sua excelente análise -, é de grande importância para minha interpretação. Parabéns meu caro escritor.
Antonio Oliveira