SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 23 de março de 2016

MINHA PRIMEIRA BORBOLETA


Rangel Alves da Costa*


Minha primeira borboleta estava escondidinha dentro de um livro. Toda entristecida, amarrotada, quase sem fôlego e força para viver. Sorte dela que cheguei a tempo. E sorte a minha que dali em diante passei a ter borboleta.
O Livro dos Pássaros e dos Insetos jazia esquecido por cima de uma caixa. Não só esquecido como empoeirado. Certamente que as traças logo avançariam em cada sabiá, cada beija-flor, cada louva-a-deus. Destruiriam matas, ninhos e toda a natureza presente.
Livro colorido de capa bonita, por cima desenhado um uirapuru. Soprei a poeira e bati com a mão, de repente ouvi como um cantar de pássaros e mil asas despertando para seguir em voo. E também um zumbido de bicho se arrastando pelas folhas.
Que coisa mais estranha, disse a mim mesmo. Mas as sombras do quarto atrapalhavam a visão que eu precisava ter diante da novidade. Então afastei a cortina e fiz a luz do sol entrar. E quase o livro foge de minhas mãos querendo pular, voar, ir além da janela.
Diante da luz e do vento soprando pela janela, então os sons dentro do livro aumentaram, agora alegres, contagiantes, querendo saltar para fora e ecoar pelo mundo. Mas o que será isso mesmo, indaguei já pronto para folhear.
Não abri a contracapa nem a página seguinte, fui direto numa página qualquer, quase no meio do livro. E ao abrir encontrei uma borboleta, num retrato tão belo que mais parecia ali pousando em vida. Cores e mais cores espalhadas pelas asas e pelo corpo inteiro.
Esta foi a primeira impressão de surpresa diante de tamanha beleza. Mas noutra realidade quando aproximei mais os olhos para melhor observar e sentir. As cores estavam desbotadas, as asas quebradiças, o corpo magro e os olhos entristecidos.
Pelos cantos da página pequenas traças insistiam em passear. O tempo e a poeira ainda permaneciam com suas marcas indesejadas. Mas bastou que eu espantasse as traças e soprasse cuidadosamente a poeira, passando um paninho leve por cima, que a borboleta quase voa.
Verdade. Assim que dei uma nova feição à página, no mesmo instante a borboleta pareceu renascer. Suas cores pulsantes voltaram, suas asas se firmaram prontas para o voo, os olhos pareciam com brilho novo e festivo. A mais bela borboleta do mundo.
Então resolvi libertar todos os pássaros e todos os insetos aprisionados, famintos e sedentos, mantidos no cativeiro daquele livro. Fui abrindo página a página, soltando pela janela o curió, o pintassilgo, a formiga, o gafanhoto e todos os que ali estavam.
E foi quando cometi o maior pecado do mundo. E pequei o pecado maior porque não libertei a borboleta. Eu senti que ela se esforçou para alçar voo ante a partida daquela multidão de pássaros e insetos, mas simplesmente não deixei que partisse.
Além disso, acabei cometendo uma atrocidade imperdoável: rasguei a página. Assim que rasguei, a borboleta aproveitou o vento soprando e quase vai embora com folha e tudo. Alcancei-a já subindo ao espaço. Trouxe para pertinho de mim porque meu desejo era outro.
E meu desejo era ter aquela borboleta somente para mim. Ora, se as pessoas criam gatos, cachorros, papagaios e até passarinhos, eu poderia ter aquela borboleta como minha cria de estimação. Daí que resolvi separá-la daquela página desconfortável e solitária.
Com uma tesoura afiada, separei milimetricamente a borboleta. Depois de colocá-la sobre a palma da mão, soprei para ter diante de mim uma cena encantadora e inesquecível: a linda borboleta voando, passeando pelo ar, dando voltas cada vez maiores a cada sopro.
Sorri e chorei diante da cena. Alegria pela primeira borboleta e tristeza porque sabia que o mundo daquele quarto não era o seu. Então tomei uma difícil decisão. Deixei-a sobre o umbral da janela para que seguisse na ventania.
Passaram-se dois, três dias, e ela no mesmo lugar. Mas um dia retornei e não mais avistei minha primeira borboleta. Certamente que o vento a havia levado. E levou sim, para o alto, para bem perto da nuvem.
Quando desceu, ela já havia renascido para a vida, como borboleta normal e majestosamente bela. Assim sei por que todos os dias, ao amanhecer, ela entra pela janela, sobrevoa o quarto, pousa na minha mão e me beija a face.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

2 comentários:

António Jesus Batalha disse...

Estou a tentar visitar todos os seguidores do Peregrino E Servo, pois por uma acção do google meu perfil sumiu e estava a seguir o seu blog sem foto e agora tive de voltar a seguir, com outra foto. Aproveito para deixar um fraterno abraço.
António Jesus Batalha.

Ana Bailune disse...

Ainda bem que a sua borboleta teve um final feliz.
Eu acho que, por mais que nos doa libertar as borboletas, elas precisam voar. Foi para isso que nasceram!
Boa Páscoa!