SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 7 de julho de 2013

VENTO NO VARAL (Crônica)


Rangel Alves da Costa*


Tarde, entardecer, e vai soprando o vento no varal. Seria um sopro qualquer embalando roupas e panos, mas não. Há um sopro diferente, poético e instigante.
Vento no varal é poesia. Poesia e solidão. Solidão e melancolia. Uma tristeza que embalança ao sopro da voragem do instante.
Manhã, logo cedinho, e as roupas são lavadas e estendidas no quintal ou pelos arredores da casa. Um imenso varal, erguido na nudez do tempo, pronto a enxugar.
Depois de lavada, a roupa vai sendo estendida no varal. Após isso, o premeditado esquecimento, com as peças ali permanecendo até o tom avermelhado do entardecer.
Dependendo do tempo, de céu limpo e sem ameaça de chuva, com o descampado aberto e o vento sempre avançando, nada demora a secar. A magia do clima, do tempo.
E de repente os esvoaçamentos já começam a ser sentidos. As peças mais finas dançam, balançam, querem se enroscar, para depois desfraldar novamente em véu.  
Nos quintais mais fechados, o varal recebe todo tipo de roupa e pano. Calça, camisa, vestido, saia, calcinha, cueca, toalha, fronha, cobertor, pano de prato. Tudo.
Mas no varal erguido noutro lugar, à vista de quem passa ao redor, somente peças escolhidas são estendidas. Também se evita de colocar panos furados ou remendados.
E é no varal externo que também se estende a poesia, a solidão, a melancolia, a tristeza, um aspecto solitário e de desalento. No olhar de cada um vai surgindo muito mais.
Mas não só sentimentalmente aflitivas, pois a dança das roupas, os seus esvoaçamentos, permite uma imagem de liberdade, de serenidade, de paz ao ar livre.
Assim, quando estão secas e o vento da tarde sopra mais forte, as roupas do varal se embalançam sem parar. Ali a dança, o passo, o voo, a vontade de partir pelo ar.
O sopro do vento e a valsa da roupa seca. O sopro do vento e o bailado ao entardecer. O sopro do vento e os lenços de despedida num aceno constante e entristecido demais.
Ao vento, dançando ao seu sabor, as roupas são bandeiras brancas e de toda cor; são panos de mastros de barcos distantes; são flâmulas esquecidas em solitárias janelas.
Mas muita coisa pode acontecer antes disso. A velha senhora coloca uma cadeira e começa a se balançar bem ao lado do varal. Adormece, sonha e também se embalança.
Os pardais, talvez conhecendo aquelas roupas e gostando de seus donos, chegam em revoada e cuidadosamente vão pousando entre as peças estendidas. Parece um retrato.
Quando alçam voo, e todos de uma só vez, se embalançam no ar enquanto as roupas parecem querer voar. Seguem adiante e as roupas ficam acenando em despedida.
Bem ao lado há um campinho de futebol. Nele a meninada se concentra ao cair da tarde para brincar de bola. Um dia fizeram do varal uma trave de campo. E deu no que deu.
Depois que umas roupas foram pelos ares e outras ficaram imundas, a velha senhora foi escolhida para sentar ali pertinho ao entardecer. Mas dorme que nem ouve a meninada.
Se forem brancas as roupas estendidas, a mocinha do outro lado da rua se esconde por trás da cortina da janela e logo começa a chorar. Ninguém sabe o motivo de ser assim.
Mas ela sabe e por isso chora. E chora muito, de soluçar. Seus olhos só enxergam flores brancas, lírios, orquídeas, rosas, tulipas, e pensa que estão num altar nupcial.
Ao imaginar as flores brancas, pensar num casamento e sentir seu desalento de solidão, sem esperança nem de namorar, então se derrama num pranto sem fim.
Mas a mulher da outra rua, uma vizinha fofoqueira e maldosa, enxerga tudo diferente. Avista tudo envelhecido, feio, com rasgões. Nem se comparam com as que ela possui.
Alguém já disse ter avistado uma roupa abraçando outra. Mais que isso, viu as roupas em verdadeiro valsado, lentamente bailando ao sabor da orquestra suave da ventania.
A mulher sempre estendia ali a roupa do falecido esposo. E sentava na calçada sentindo um antigo perfume e imaginando sendo abraçada. E sonhava com o seu amado.
Os varais possuem asas. Um dia disse um menino tristonho. E queria que sua mãe lhe estendesse ali. Queria voar. E voou na sua camisa remendada. E era a única que possuía.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com       

3 comentários:

Thais Reder disse...

QUE MARAVILHA! EU TENHO UMA PÁGINA CHAMADA FALA A LAVADEIRA, QUASE NINGUÉM CONHECE, NEM EU MESMA SEI MANEJAR ESSA INTERNET, E TAMBÉM NÃO DESEJO QUE SAIBAM ,ALGUMAS PESSOAS ENCONTRARAM E ESTÃO ALI É QUE EU SOU DOIDA POR VARAIS DE ROUPA ,EU VIA TUDO ISSO QUE VOCÊ POETIZOU OS VARAIS DE ROUPAS SÃO A COISA MAIS POÉTICA DO MUNDO VOU POSTAR SUA POESIA NO MEU FACE É CLARO DAREI OS CRÉDITOS QUE SÃO SÓ SEUS.oORIGADA OS ARTISTAS SÃO A VOZ DOS QUE NÃO CONSEGUEM VERBALIZAR SENTIMOS NO PEITO MAS AS PALAVRAS NÃO APARECEM ASSIM TÃO FÁCEIS, SÓ OS POETAS GRATA POR ESCREVER ESSA POESIA.

Edite Vasconcelos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edite Vasconcelos disse...

Olá, gosto muito de fotografar roupas nos varais porque assim como vc fala em sua crônica, acho-os poéticos e me lembra minha infância. Gostei de sua crônica e utilizei fragmentos para minhas fotografias!
Com os devidos créditos! Parabéns pela bela crônica! Veja o meu Instagram.
@vasconcelosela
#fazerfotografiafelicidade
Abraço, ELA Vasconceos