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A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 25 de abril de 2013

COITADO DO FRIO (E DO CASACO DE FRIO) (Crônica)


Rangel Alves da Costa*


O calor insuportável, coisa terrível mesmo, que vem castigando a região nordestina nos últimos meses - principalmente a litorânea Aracaju -, talvez tenha castigado o juízo de muita gente. Isso mesmo. Creio que o fogaréu climático acabou afetando muitos miolos. Não há como pensar diferente.
Mês após mês, dia após dia, e todo mundo reclamando que não suportava mais as altas temperaturas desde o alvorecer, e adentrando a madrugada também. Gente esbaforida pelas ruas, faces e testas pingando de suor, desmaios, um desespero total. E tudo por causa do calor sufocante de mais de 35 graus.
Contudo, desde uns três dias que começou a chover por aqui e para máximo espanto, fato de não se acreditar mesmo, já no dia seguinte eu avistava pessoas com casacos de frios. Não é invencionice não. Bastou chover, o calor diminuir um pouco - e apenas diminuir enquanto chove -, que se danam a imaginar um frio completamente inexistente.
Verdade é que desde muito tempo não faz mais frio em Aracaju. Há uns 20 ou 30 anos atrás, quando o clima global não se apresentava tão elevado, ainda se podia falar em uma friagem mais intensa a partir do mês de junho, e geralmente indo até o mês de setembro. Mas apenas uma friagem, e não o frio como ocorre em demais regiões do país.
Ademais, o dito frio que as pessoas sentiam era muito mais uma sensação de esfriamento corporal do que mesmo pela baixa temperatura atmosférica, e esta provocando a sensação diferente de gelidez. Por sua vez, a sensação de esfriamento corporal não tinha outra explicação senão pelo estranhamento do próprio corpo pela diminuição do intenso calor.
Quer dizer, o frio aracajuano nunca foi algo de espantar ninguém, de fazer o queixo bater e a pessoa passar a ter a sensação que vai congelar. Muito pelo contrário. Afirme-se, sem medo de errar, que a sensação de frio, por aqui, é exatamente proporcional ao estranhamento corporal do alto grau de calor. Assim, quando o calor terrível dá uma trégua e uma aragem fresca vem do litoral, então o corpo logo se confunde. Ou a pessoa confunde o seu corpo.
Acostumados com as altas temperaturas, com dias insuportavelmente quentes, assim que chove e o calor diminui, então logo imaginam a chegada do frio. A sensação confortável, amena, refrescante, é logo traduzida como gelidez. E o tal alegado frio ainda debaixo de uma temperatura de 24 ou 25 graus. Se ontem a temperatura estava em torno dos 37 graus e cai para 24, logo imaginam estar no pólo norte. Talvez seja assim que muitos pensam.
E porque pensam assim, imediatamente correm ao guarda roupa para fazer espalhar o velho e conhecido cheiro de naftalina. Dali os casacos - muitos deles muito antigos, quase sem uso - são retirados para funcionar muito mais como modismo, charme, enfeite ou vaidade do que propriamente para aplacar o frio. Lógico, este é inexistente.
E tão inexistente que um bom ar condicionado esfria muito mais do que a friagem no meio do tempo. Contudo, supõe-se que a diminuição do calor e a transformação desse fato como frio, outro objetivo não há em cada um senão vestir o casaco e sair por aí desfilando a novidade, pois a vestimenta sempre tem um enfeite, cai bem no corpo ou é produzido com material vistoso.
Tal invenção de frio causa situações realmente engraçadas. Afirmar que faz frio ou senti-lo em Aracaju é a primeira delas. Mas outras são patéticas. Tem gente que parece estar na manhã paulista e naqueles dias mais gelados, e sai desfilando com um casacão pesado, de mangas que encobrem até as mãos e gola que chega até o queixo. Se no sul estivesse, certamente andaria com aquecedor.
Ainda não vi ninguém batendo o queixo por aqui, nem verei, ao menos que a maluquice chegue ao ponto de antartizar as ruas calorentas de Aracaju. Ainda não sei se as lojas renovaram seus estoques de casacos. Mas certamente que sim. A cada dia que chove, no outro meio mundo de gente se vê com o corpo todo tremulante de frio. O problema é que pode ser doença. Apenas o fato de não estar sentindo insuportável calor já tem o dom de provocar alucinações.
E uma doença chamada Síndrome do Frio. Porque sentir frio em Aracaju, e a ponto de usar casaco de frio, só pode ser doença. Síndrome das brabas.

  
Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

3 comentários:

MARILENE disse...

Você passou por lá e vim conhecer seu espaço, o que foi prazeroso.
Aqui em BH também não faz muito frio. Já morei, por muitos anos, em SP, e possuo casacos. Nunca os usei na capital mineira e me surpreendo quando a temperatura cai um pouco e vejo pessoas muito agasalhadas. Posso imaginar o que vive aí. Certamente, cobrir o corpo com roupas mais pesadas é, tão somente, uma vontade de usá-las, não uma necessidade.

Unknown disse...

es muy buenos como escribes y especialmente tus hermosas poesías. Obrigado por tus visitas amigo..

Valdir disse...

Fala, Rangel!! Passando para agradecer pela visita no Infinito. Passei o olhar por tuas obras e perdi a conta de quantas. Parabéns pelos livros. Estou na luta pela conclusão de um primeiro (romance) que tento escrever nas horas vagas (tinha outros dois projetos, parei pela metade - aquela coisa inexperiente de começar a escrever com uma ideia inicial, porém sem meio e final definidos). E estamos na luta. Prazer grande em conhecê-lo e fique sempre à vontade de passar por lá. Farei o mesmo por aqui!! Abraço!!