SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 25 de dezembro de 2016

TRISTE, NO ALTO DA MONTANHA


*Rangel Alves da Costa


Triste, no alto da Montanha, reconheço a inteireza da verdade nas palavras do Eclesiastes: Há um tempo de tudo. Tempo de plantar e tempo de colher, tempo de lua e tempo de sol, tempo de chegar e tempo de partir, tempo de sorrir e tempo de chorar. E o meu tempo em tudo...
Aqui, do alto da Montanha, anuncio minha plenitude em Eclesiastes. Acreditava ser diferente, mas percebi que realmente não há nada de novo debaixo do sol. Quem me fez alegre me fez triste, quem me adoçou a boca respingou veneno. Que amei e desamei...
Entristecido no alto da Montanha, eis que avisto a vida como se avistasse o tudo em seu oposto. Ali a alegria e a tristeza se digladiando em busca de seu momento, o silêncio e a algazarra em disputa pela prevalência no homem. E eu cansado de sofrer pelas batalhas alheias.
Triste, no alto da Montanha, confesso-me resoluto à aceitação. Não vou mudar o mundo pelas minhas mãos. Não vou mudar a face da vida pelo meu querer. Não vou nada mudar pelo meu querer. Ora, só quero a impossibilidade do possível. E é impossível que assim aconteça.
Aqui, do alto mais alto da Montanha, revelo que mantenho a porta de trás como mantenho a porta da frente: aberta. Que tudo que venha passe, que tudo que chegue siga o seu rumo, que tudo que se aproxima logo se vá em despedida. Não adianta nada fazer permanecer. Se tudo muda, não sei da mão que na chegada me foi estendida.
Entristecido no alto da Montanha, e mais abaixo avistando tudo, juro não desejar que aconteça o que está predestinado a acontecer. Vejo ouro, vejo prata, vejo diamante. E vejo o resto, vejo a sobra, vejo o nada, vejo a desilusão. Eis as vaidades que se dissipam em pó de ventania.
Triste, no alto da Montanha, tudo faço para não me desintegrar de vez do resto que me resta. Sei que bastaria cuspir para lançar o sangue, sei que bastaria chorar para tudo ressecar, sei que bastaria tirar um pedaço de mim para nada mais existir. E já não tenho além de escombros que me recobrem uma inexistente aparência.
Aqui, do alto da Montanha, talvez não consiga negar a mim mesmo. Tenho de chorar e vou chorar, tenho de sofrer e vou sofrer, tenho de me espantar com os motivos do sofrimento e me assustarei. Os escondidos haverão de brotar como o dia após a noite, como a morte após a vida.
Entristecido no alto da Montanha, eis que sinto o ecoar cada vez mais forte do Eclesiastes com suas verdades. Um ser que nada é, uma vida que já não será, apenas uma passagem apressada. E sem tempo de dizer que fui feliz ou que simplesmente tristeza.
Triste, no alto da Montanha, ainda assim não quero descer de seu cume. Que cheguem os temporais, os vendavais, as tempestades, os redemoinhos, todas as fúrias do mundo. De que adiantaria descer se em tudo a ilusão do sorriso, do contentamento, da felicidade? Adianta colher flores para depois perceber que só restam os espinhos?
Aqui, do alto da Montanha, toda a certeza alongada, sem pressa, exaustivamente vívida. A profunda e tão necessária percepção que sobre os pés humanos há caminhos essenciais e que jamais serão caminhados, experiências que jamais deveriam ser olvidadas. Mas o homem sempre prefere o conforto do passo ligeiro e seguro.
A Montanha parece se fazer mais alta, subir e subir. E daqui de cima tudo embaixo se torna grão. Mas talvez não seja assim. É que a ilusão humana faz imaginar estar na altura ou no pedestal. Quando, na verdade, é o próprio homem o seu grão em tudo.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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